24/10/2003

Os diamantes do C.



A conversa era sobre África.
Dos que, como eu, nunca lá puseram os pés.
Dos que lá nasceram e tinham lá voltado ao fim de vinte e muitos anos.
Era isto.
O R.C. lembrou-se então do C. e dos seus diamantes. Fez uma breve resenha do encontro de ambos e avançou com o desafio, para os que não conhecendo o C., ficaram cheios de curiosidade: “E se a gente o chamasse aqui?”
Como a coisa com ele nunca pode ser linear, o plano era o seguinte:
O F., que nasceu em África e imita bem o sotaque da cidade do Roque Santeiro fazia um telefonema enigmático, dando-lhe algumas pistas para nos encontrar. Depois, era esperar. Segundo o R.C., não seriam precisos mais do que vinte minutos.
O dono do café ouviu toda a conversa sobre os preparativos e decidiu adiar um pouco a hora de fechar, afinal a gente também estava a fazer despesa.
Saímos para a rua (já se verá porquê) e o F.:
“É o sinhô C.? Boa noite. Estou a ligar-lhe por causa daquele assunto.”
O outro deve ter perguntado qual assunto.
“O assunto. Cheguei hoje de lá e disseram-me para falá consigo.”
O C. já em pulgas, decerto.
“Não posso dizê munto, tem muita pulitica.”
O outro a perguntar onde é que você está.
“Tou aqui no parque de estacionamento, atrás de uma carrinha Toyota, matrícula Ai-eice.”
Deve ter pedido mais pormenores. O F. deu-lhos, no registo confuso que se adequava.
E depois disse:
“O meu nome é Pálo. Mas tu pergunta pelo Caldo. Eu vou agora em casa buscar o material”
Ora o Caldo é a alcunha do nosso amigo que estava a ler «A Bola» e não ligou muito à conversa. Foi por isso que saímos do café.
Não foram precisos vinte minutos. Ao fim de um quarto de hora, já o C. parava o carro à porta, deixando a número um (lembram-se da fotografia?) lá dentro, enquanto investia para o café.
Eu e o R.C. escondidos à esquina da rua, mas vendo tudo pela montra lateral.
Entrou logo direito ao balcão, devia estar a perguntar pelo Paulo ou pelo Caldo.
O homem respendeu-lhe e ele de sopetão sobre o outro, que estava a milhas, a ler o jornal.
Quando vimos o Caldo a olhar para ele de lado (o que é que este quer?), entrámos a correr, a tempo de evitar um quid pro quo.
Posso vos dizer que ninguém se decepcionou com o C..
Foi buscar a número um ao carro, sentou-se connosco à mesa e travou um debate, em que saiu claramente derrotado, com a M., que nasceu em África, esteve lá mais ou menos ao mesmo tempo do que ele e é um bocadinho mais bem informada. Para além de ter um génio dos diabos.
Como eu bem viria a saber, se não sabia já.
O C. no fim perguntou: “E o Paulo?”

imagem retirada de
Gasolim com a pedra

Registo que

Ninguém se interessou pela continuação de:
Crónicas de um quarto balnear
ZX Spectrum - 1X2

Lá se vai a auto-estima (do Sr. Estima, ali em Deixa-o-Resto)

23/10/2003

Gasolim a caminho



Diamonds

Há expressões de rosto que são indescritíveis.
O nosso amigo C. tem uma maneira muito particular de fazer olho malandro que escapa às mais ilustres penas.
Não se consegue dar uma pálida ideia daquele misto de esperteza saloia, de trangressão, de tentativa de observar o impacto que produz nos outros com a sua lábia.
Não vi a cena. Foi-me contada pelo R.C.. Mas conhecendo os dois, já a reconstituí vezes sem conta no meu imaginário.
Encontraram-se num café, após uma estadia do primeiro em terras africanas, de onde enviou aos pais, devidamente etiquetada, uma fotografia sua em traje de luces (era parecido) sendo servido por uma dama, de um cálice de vinho sul-africano.
Encontrava-se rodeado de mais quatro, todas elas com uma seta e um número a vermelho apostos.
A do vinho era a número um.
E nessa tarde, à mesa do café, C. estava particularmente entusiasmado.
Depois de saudar efusivamente o amigo, puxou de um papel e de uma caneta e escreveu "DIAMANTES".
Como se o outro não soubesse ler às avessas, virou o papel e sem o largar, colocou-o em frente do R.C..
Depois de uma pausa sigilosa e com o tal olho malandro activo, mandou às ortigas o segredo e disse bem alto: "DIAMANTES!"
O R.C. ficou à espera, já entusiasmado com a encenação, e nada disse.
Ele puxou o papel para o pé da caneta e acrescentou por baixo: "10.000 dólares"
A cena repetiu-se, voltou a colocar o papel ao alcance dos olhos do outro e após a pausa, quase um berro: "10.000 dólares!"
O R.C. conseguiu conter o riso.
Mas já arquitectava uma partida das dele.



(contarei mais tarde)
Outono



da janela de um quarto qualquer
Ainda os carros

Já contei a estapafúrdia história do carro estacionado no mesmo local.
Já contei a agitante epopeia de um sogro receoso.
O que relaciona as duas, é tão só isto:
Esse Ford Escort da segunda história, acompanhou-me em muitas paragens, incluindo certa praia do sul.
Um belo dia, fazendo a minha tradicional inspecção aos escaparates daquelas lojas de praia que se caracterizam pelo amálgama de chinelos de praia, jornais estrangeiros, bóias, livros de bolso e postais ilustrados, o que vejo eu?
O meu Ford estacionado ali a poucos metros. Só que em postal ilustrado.
Tirei o postal do expositor e chamei a minha comadre, que andava a rondar o artesanato, na porta ao lado.
“Vê lá se não é o nosso carro?”
“É muito difícil distinguir a matrícula toda.”
“Pois é, mas está lá tudo, as letras são as mesmas, os primeiros dois algarismos também. O terceiro é quase certo, as dúvidas só surgem no quarto.”
“Como é que consegues ver assim tão bem?”
“Já te esqueceste de que a minha vista vê ao perto aquilo que não vê ao longe?”
“Pois é! Havemos de ver isso à lupa.”
“De qualquer forma, matrículas consecutivas a carros iguais, é a regra. Não há nada de estranho que a matrícula quase coincida. Agora a forma do último algarismo também não tem muitas alternativas, parece que é mesmo o nosso carro!”
“Olha lá, que chapéu é este aqui no vidro de trás?”
“Não é teu? Não, não é. Nunca tiveste nenhum chapéu assim.”
“Não, tive agora cá chapéus com flores.”
“Repara numa coisa, esta casa aqui está pintada de novo... e agora olha lá para a casa, já viste? A pintura já está queimada e descascada. Isto não tem nenhuma data, mas deve ser já de há uns anos. Olha, este poste já cá não está.”
“Pois é, então quando é teria sido tirada?”
“Não sei, mas com um chapéu destes lá dentro, foi no tempo do primitivo dono.”
“Acho bem que tenha sido.”
“Alguma dúvida?”
“Não, nada.”
Depois das férias, lembrei-me do postal.
Fui buscar uma lupa e disse-lhe para ela vir ver.
Confirmou o que eu tinha dito. As dúvidas só incidiam no último algarismo. Mas também não havia grandes hipóteses de ser outro. E ela, com aquela intuição feminina:
“Mas é o nosso carro. Nem preciso de confirmar a matrícula.”
Tenho pena de nunca mais ter visto o tal militar da força aérea para lhe perguntar:
“A sua mulher ainda usa aquele chapéu com flores, quando vai à praia?”

A propósito de carros, de sogras e do Muro de Berlim

Ia eu a caminho de Paris mais o R.C. quando as notícias começaram a cair vertiginosamente.
Era agora. O muro ia abaixo.
Ainda pensámos entrar para a história, virando à direita no próximo cruzamento, mas concluímos que não nos deixariam atravessar até Berlim sem os competentes vistos.
Uma oportunidade perdida.
Serve esta introdução para relembrar um comentário então atribuído ao falecido presidente francês François Mitterand: “Gosto tanto da Alemanha que se existirem duas, tanto melhor!”
Qualquer coisa assim.
O que nos leva à minha afirmação congénere:
“Gosto tanto de sogras que quantas mais tiver, tanto melhor!”
De facto, não me posso queixar do meu quinhão.
Com uma honrosa excepção, revelaram-se do mais fino trato, gentileza e simpatia.
Creio ter-lhes retribuído, longe vá a modéstia.
Adiante.
Para felicidade minha, delas, das respectivas filhas e principalmente do próprio, todas elas trouxeram um sogro atachado (linguagem neo-náutica).
Todos eles igualmente cordiais.
Um deles era um indivíduo excepcionalmente íntegro.
Homem de uma rectidão a toda a prova. Não menosprezando os outros, igualmente honrados.
Sucede que certa vez, por ocasião de um falecimento na família, cessou um arrendamento de uma casa de férias que mantinham na praia.
Havia por lá muita coisa para retirar. Os objectos mais frágeis e valiosos foram retirados de carro e não no tradicional transporte.
Requisitaram-me e ao meu velho Ford Escort.
Quando me apercebi que uma das coisas que era para trazer, só cabia na mala de qualquer dos carros desde que viesse com uma nesga aberta, ofereci-me para a transportar.
Sabia que para ele era um melindre vir a desrespeitar o código da estrada, ainda que isso não fosse uma evidência. Bastava uma nesga de uns dez centimetros de abertura para a coisa vir acondicionada. Nada que perturbasse a visibilidade traseira ou causasse perigo para os demais.
Assim se fez.
Andados uns quilómetros, a corda que contrariava a mola da tampa da mala partiu-se.
A mala abriu.
Nada de preocupante. Parámos e voltámos a atar.
Estávamos nisto quando pára um carro em travagem brusca à frente do meu.
Sai de lá um indivíduo novo com ar de polícia, cabelo curto, cara rapada, etc.
Dirige-se ao meu sogro e pergunta-lhe, olhando para o meu Ford:
“Este carro é seu?”
Não vos vou contar a cara que ele fez, nem a modificação que se operou quando o homem continuou, com a mão a acariciar os faróis traseiros:
“Este carro era meu. Foi o meu primeiro carro, um grande carro. Nunca mais o tinha visto. É uma alegria voltar a vê-lo. Os senhores são de aqui perto? Eu sou militar ali na base aérea.”
Isto a propósito de carros. E de comprar carros em segunda mão. E de sogros íntegros. E já agora, de sogras.

22/10/2003

O carro

Não compro carros novos.
Nos tempos do meu pai, só se compravam carros em primeira mão. Porém, o mercado alterou-se e agora é possível comprar um carro em estado muito razoável por um preço muito inferior ao de um novo.
O meu amigo B. sabe disso. Vendeu-me o último carro há nove anos e agora acha que está na altura de eu trocar.
Conheço o B. há muito, ainda ele não sonhava em comerciar automóveis. O grau de confiança não é por isso o mesmo do que com um qualquer vendedor de automóveis.
Bem sei que amigos, amigos, negócios à parte. É certo que sim. Mas por alguma razão que provavelmente ele próprio desconhece, o carro que me vendeu (bato na madeira) tem sido o que menos problemas me deu em toda a história de vinte e seis anos de estrada e dos anteriores cinco de fora-de-estrada.
Ora isso faz recair sobre ele a particular responsabilidade de só me vender um carro à altura deste que agora tenho.
Como ele está estabelecido aqui perto de casa, muitas vezes chama-me para dois dedos de conversa ou para me mostrar alguma viatura que ele julga ser o que me interessa.
Estamos numa de quatro lugares e motor diesel.
Um certo dia, chamou-me com particular insistência, sem cuidar do meu esforço em transportar a cárrega habitual do supermercado.
Lá fui.
Que era uma óptima compra. Um Peugeot 206, quatro portas, motor diesel, etc.
Lá me fez pousar os sacos e ir com ele ao depósito onde guarda os carros que ainda não estão encerados para exposição.
Assim que entrei, correu logo a mostrar-me as menos-valias do carro. Estás a ver, tem este risco aqui e esta mossa ali, mas isso também se repara. De resto, está impecável. Vá, senta-te lá dentro.
Foi então que eu lhe fiz a pergunta demolidora:
“Aquele ali também é para vender?”
“É! Mas não é meu, é de um tipo conhecido que também guarda aqui os carros.”
“Sabes quanto é que ele quer por ele?”
“Acho que é xis (1).”
“Xis? Mas isso é um preço porreiro!” – e abeirei-me do automóvel, abri a porta e sentei-me – “Ò pá, isto é que é um grande negócio. Quanto é que tu dizes que queres pelo Peugeot?”
“Xis sobre dois (2).”
“Tás a ver” – eu a vê-lo patinar – “Este carro é que é uma bela oportunidade!”
“Pois, mas para ti o que é bom é aquele ali”
Nisto, chega um dos ajudantes dele. Vendedor.
Viu-me sentado no carro que não era e começou logo a gabar o outro:
“Cinza metalizado, jantes especiais, uma côr bonita...”
Não gosto muito de cinzento brilhante e jantes especiais, são especiais porquê? Mas não disse nada.
Só disse:
“Eu pouco me importa a côr, amigo. Quero é um carro que não me dê chatices.”
“Ah, mas se fôr uma côr bonita...”
“Isso o bonito ou não, é para outras coisas. Estamos a falar de carros. O seu patrão tem que me vender é um carro tão bom como o último que me vendeu. Isso é que me interessa.”
Aí, o meu amigo B. retomou as cores da esperança.
“Olha que ficas bem servido.”
Com esta conversa quase que me tinham obrigado a sentar-me no Peugeot. Anuí. Já agora via por dentro.
“Não duvido, mas tens que reconhecer que em matéria de preço, aquele ali é um bom investimento.”
“Tá bem. Mas tens a certeza de que precisas de um Silver Cloud III para as tuas idas ao monte?”
Calei-me.
E não lhe comprei o carro.



Notas 1 e 2: Ninguém tem nada que saber quanto é que eu estava disposto a pagar pelo Rolls e não estava pelo Peugeot. Mas podem ver a proporção.

foto em http://guesthome.rollsrw2k1.userarea.co.uk/R-R%20Cars.htm
Heranças na paisagem

Saber fazer

Linha do Sul

Era entre lençóis de inverno cru
Que escutava a angústia a apitar-me
De comboios rumo a Sul,
Que eu sabia entre sobreiros,
Alargando a distância.
Era entre portas
Que ao sair de casa
Me deixava cortalhar
Por facas de frio barbeiro,
Para devagar ir
Amaciando a tristeza
Em cigarros com paisagem em fundo




SG, "Inéditos", 1995

21/10/2003

Morrinha

A chuva que chora no teu rosto
Tem cheiro a Agosto.
E a madrugadas de relento
Sem nenhum vento.
A sonhos insomnes
Em noites desertas,
A horas cansadas
Em noites directas.
E esta morrinha
Que da praia vem
Acha-te sozinha
No sonho de alguém.

SG, "inéditos", 1994
Gasolim entre castelos


O perseguidor ataca de novo

Sabe tudo sobre mim.
Até deve ter fotografias minhas ao volante da Datsun Sado azul.



De facto, não posso explicar.

Veja as outras entradas aqui e aqui.
Gasolim em antigo

Actualidades

Prometi a mim mesmo não falar de actualidades.
Por isso, não direi senão o seguinte:
Faz-me muita confusão que, entre gente com uma certa formação, se repita a ideia absurda de que é possível alguém fazer prova cabal de que desconhece um facto ou uma pessoa (contemporânea).
Se esta impossibilidade não é um dos axiomas do direito, então como o meu chapéu de Chaves.

O concurso radiofónico

Lembro-me de que íamos a chegar aquela curva que considero ter a mais vasta panorâmica em Portugal.
O rádio ia sintonizado no que se apanhava.
Primeiro, uma entrevista com um oftalmologista.
"Quando chego a qualquer sítio, tenho sempre o instinto profissional de olhar as pessoas nos olhos. Vejo logo qual é a côr dos olhos de cada um."
Depois o concurso.
A ideia básica é pôr duas pessoas à conversa sobre as suas casas durante um curto período.
Depois cada um responde a perguntas sobre a casa do outro. São perguntas a que se facilita a resposta em escolha múltipla.
A dado passo, alguém pergunta a outrem quantas peças de artesanato tem em casa.
"Eu? Eu odeio artesanato!"
Foi quanto bastou para o R. ficar fã do programa.
Devem ter-se passado muitas manhãs de trabalho em que ouvimos o dito concurso no carro.
Um dia, um dos opositores quase não fez perguntas ao outro.
O apresentador admirado comentou.
Ele disse que já tinha uma ideia.
Quando chegou a vez de responder ( julgo que eram cinco as perguntas ), não falhou uma.
O apresentador à rasca:
"Então como é que foi isto?"
"Fácil. Já ouço isto há uns dias e as respostas certas são sempre a-e-d-b-b."
"Ah! Um ouvinte assíduo!"
E ouço na rádio

Um anúncio.
Uma voz feminina diz:
"Acredito na ordem natural das coisas"

E eu lembrei-me logo do J.
"É muito difícil educar um povo"

20/10/2003

Gasolim e as opções



o cinzento e o branco a chamarem-me lá de baixo
Filme Disney de inundação



Pensava eu que o meu perseguidor já tinha chegado à conclusão de que jamais conseguiria intimidar-me.
Mas não.
Hoje avisa-me de novo: "Filme Disney de inundação."
Usa agora métodos catastróficos portanto.
E está muito bem informado ou leu o post lá atrás.

Eu já não posso explicar.

De São Rústico
meu padroeiro



só se sabe que, antes de (des)falecer aos pés de uma mulher, teve tempo para beijar a própria cabeça que recolhera do chão.

imagem neste sítio
O Carlos



O Carlos era eu.
Fui sempre Carlos para aquela mulher, esposa do Zé Povinho sem barba.
Não desde a altura em que me apresentei, depois de ter descrito a curva da casa e avistado o Zé Povinho barbeado sentado num banco à minha espera.

Na taberna ondia bebia uma cerveja perguntei ao empregado por casas para alugar ao mês.
Um mês de praia para gozar em solitude.
Disse-me que não sabia.
Duas cervejas depois, mostrou-me o Zé Povinho, de cara rapada, e disse-me:
"Aqui o Ti Lebre tem uma casa para alugar."
O homem cumprimentou-me e apreciou-me. Devo ter um ar confiável, pois de imediato, me indicou o caminho e lá foi, dizendo que ficava à minha espera.
Bebi ainda mais uma, agradeci ao rapaz e meti-me no carro.

Entrei com o Zé Povinho na casa. Apresentou-me a mulher. Tomou nota do meu nome até ao momento de receber o dinheiro, a casa agradara-me. Eram dois quartos, sala com cozinha e casa de banho.
No dia seguinte, ouvi chamar pelo Carlos.
Só liguei o nome à pessoa quando a vi a espreitar pela janela da cozinha e perguntar-me: "Carlos, não quer comprar peixe fresco?"

imagem do Zé Povinho barbudo em http://manuelcarvalho.8m.com/

Apenas um quadro romântico



é uma pena que a vedação que se distingue em baixo à direita seja de uma auto-estrada.
The perfect oven

Há alguns anos li um artigo sobre um investigador americano que se dedicara a estudar a forma do forno perfeito para cozinhar um dado peru.
Ocorreu-me que ninguém, que eu saiba, se dedicou a estudar os mecanismos que conduzem ao fim de uma festa.
Quando é que a festa termina e como.
Se termina com os donos da casa a fecharem as portas depois de se despedirem da última sogra, se termina quando o amigo bêbedo vomita no corredor da casa de banho e porque é que quatro convidados saiem aos pares no auge do bródio.
Todos estes mecanismos estão mal estudados, sabe-se ainda muito pouco sobre o assunto, mas estou convencido de que quem se abalançar a tal empresa, será bem sucedido.
Terá um best-seller na mão.
O nascimento de uma lenda

Não sei se é uma dávida das probabilidades assistir ao nascimento de uma lenda.
O que quer que seja que a incorrecção e a falta de sentido da frase acima queira dizer.
Mas aconteceu-me.
Encostado ao varandim do meu castelo (a designação não é minha, é dos militares da cartografia), vi entrar pelas muralhas um conhecido.
Digo isto apenas porque talvez as lendas nasçam em castelos.
Não como o meu, que é de muralhas baixas, mas nos outros mais a sério.
Depois de alguns cumprimentos e de conversa circunstancial, vi-a nascer da boca dele, do conhecido que chegara.
Sob a forma de anedota, o que não é muito lisonjeiro para a própria.
Mas lá estavam todos os ingredientes: a façanha, o façanhudo, o desfecho e a moral da história. Tudo um tanto ou quanto anedótico.
Não fora o caso de o protagonista nomeado ser um velho amigo meu, era apenas mais uma anedota.
Mas a certeza de que a história tal como a ouvi, se vai repetir por aquelas serras, contada por aqueles que nunca ouviram falar do meu amigo, muitos anos depois de já estarmos eu e ele etiquetados em pedra, foi logo inabalável.
Já agora, a história não era verdadeira.
Não sei se os circunstantes sabiam que ele é meu amigo, talvez não. Talvez o conheçam só de fama.
Fama que se encarregam de propagar.

19/10/2003

Mudanças

Os meus avós estavam cá ainda existia o Reino de Portugal.
Os automóveis eram pouco mais do que uma experiência.
O avião também.
A energia eléctrica dava os primeiros passos.
O telefone.
A água canalizada.
A rádio.
E viveram até o homem chegar à Lua, os aviões transformarem o mundo longínquo em terra próxima, a televisão mostrar o que se está a passar nos antípodas.
Viram as refeições prontas-a-comer, as grandes migrações de verão, o computador doméstico e o telefone móvel.

Eu ainda pressenti os carros de mulas, as terras sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem telefone.
As estradas a rasgarem-se em tapetes de alcatrão e os aviões a hélice.
O leite de porta em porta, os amoladores de facas e tesouras, os jornais atirados às janelas, o plástico a mostrar as suas virtualidades em carrinhas de modernos camelots.
O que é que verei mais, se alcançar a mesma longevidade?
Será um mundo tão diferente do primeiro que vi, como foi o deles?
Os gráficos da evolução dizem que sim.
A ver vamos.

Tempo gasto

Já gastei os últimos cartuchos
Que um sentimento perdurador me permitira guardar
E vi voar alto as aves que gritavam o teu nome inacessível
Sobre pinheiros de beira-praia.
Já não sei do tempo fácil em que a música era feita de estalidos de fogo
E do marulhar das searas e do mar.
Já a estrada que tinha significados de ti
Foi adulterada por tapetes sucessivos que esconderam memórias em traços contínuos contidas.
Já o teu sorriso envelheceu longe de mim.
Qual de nós pedirá perdão desta distância que mensagens trai?
Qual de nós ouvirá o silêncio que o outro lhe propõe?

1986

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Garranos do Gerês



Já me disseram que é quase uma impossibilidade ver tais cavalos.
Mas atravessaram-se-me à frente...
Só digo

que não é em Brasília, mas algures no Império do Cruzeiro do Sul.
Uma conversa ultramarina dura horas de prazer.
Não digo mais nada.

18/10/2003

Carregando a cruz


Café expresso

Enquanto tirava mais um café, a televisão do outro lado da parede.
Uma voz feminina pergunta:
"Há uma tabela para a tristeza?"

E o rock de Panóias?

Ninguém se lembra já do famoso Festival Rock de Panóias, dedicado aos grupos portugueses emergentes na época.
Precursor dos festivais de verão da actualidade, na linha do Vilar de Mouros primordial.
Amplamente divulgado na rádio e nos jornais, falhou em cima da hora, já com espectadores no local.
Ao que constou, porque os homens das bebidas se recusaram a deixar o material sem pronto pagamento.
O meu tempo era de portões

Nas viagens de infância, as estradas atravessavam os povoados.
No sul, as povoações começavam com portões assim:



O viaduto

O viaduto é um dos chamados N.
Um dos viadutos do acesso norte à ponte sobre o Tejo.
Vence a avenida de Ceuta e o vale de Alcântara.
Foi o palco trágico de um suicídio há anos.
De quem se lançou dali para baixo.
Apesar das imagens que passaram na televisão, toda a imprensa errou o alvo.
Que tinha sido do viaduto Engenheiro Duarte Pacheco, umas centenas de metros a montante.
E, como geralmente e infelizmente acontece nestas ocasiões, mais pessoas acorreram com o mesmo propósito. Desta vez ao Duarte Pacheco, conduzidas pelo erro.
A tal ponto, que se altearam as guardas para evitar mais mortes ali.

Isto é exemplar. De quê?

Gasolim e o tráfego



17/10/2003

Gasolim e as memórias

Preliminares

O homem estava quase a acabar o trabalho.
Antecipava a noitada que não iria acontecer, em terra desconhecida, enumerando os preliminares:

Um banhinho
Fazer a barba
Um after-cheiro
Algumas histórias sobre cores (1)

João vestia uma camisa azul.
Isabel só lhe disse:
“Não gosto nada de camisas verdes. Que mania que tu tens com as camisas verdes.”


Um saco no espólio

Retirar cem anos de uma casa é o que é.
No meio do espólio pode estar esquecido um saco de serapilheira com coisas menores:

Uma máquina de rolhar
Um forte do faroeste e seus soldadinhos de plástico
Um candeeiro de desenho
A primitiva fechadura da porta principal
Uma tábua de passar gravatas a ferro
Um berbequim manual
Uma imagem de nossa senhora com a cabeça separada do resto
Um molho de chaves de diversos tamanhos
Um par de maçanetas originais em porcelana branca
Um jogo da Majora
Uma toalha de praia
e algumas outras coisas, todas elas menores, todas elas abandonadas

A rogo

... e tendo por madrinha Nossa Senhora da Assunção, que por não saber escrever, não assina...

(extracto de uma certidão de nascimento do séc. XIX)


O buraco do mundo

Raramente observado, raramente fotografado


Horas de


O Alquimista

é o complemento para os sons de Rafael Correia. Uma visão estrangeira sobre os nossos lugares.
Por aí, não. Por aí.

Há mais de vinte anos que ouço esta frase.
Todos os sábados de manhã. Antes, entre as 7 e as 10, por vezes suscitando resmungos compreensíveis de uma mulher mal dormida.
Agora, entre as 9 e as 11.
Um dos mais notáveis programas de rádio sobre o sul de Portugal. Houve um tempo em que exorbitou, chegou a Trás-os-Montes e a Marrocos. Sempre à procura de sons perdidos.
Se quiserem, entre as 9 e as 11 (TMG) de um qualquer sábado, cliquem aqui. Depois é escolher a opção audio. Mas para quem pode ouvi-lo na rádio é na Antena 1, o "Lugar ao Sul", de Rafael Correia.

Não foi

"Chatices da vida" o que eu escrevi na caixa de texto do Google.
Mas o resultado foi este:



Adivinhem.

16/10/2003

Destinos



Grande parte das minhas rotas se decide de forma semelhante aquela como compro os meus livros.
Um dia acordo e decido ir a Albergaria dos Doze.
Noutro, espreitar o rali do Algarve e as coisas à volta.
Ou ir a Safara, dando um salto à antiga Aldeia Nova de São Bento, hoje vila.
Abalar para os Pitões e passar sobre a ponte da barragem das Salas até à testa de ponte, além de Tourém.
Terreiro das Bruxas e Meimão.
Almoster e Maçussa.
Fazer o quê?
Tudo o que deseja saber
sobre isto (não, isco para motores de busca):

Logaritmos neperianos
Sopa de rabo de boi
Praias da ilha do Gozo
Claras em castelo
Cúmulo-nimbos
Cunhagem de moedas gregas na Finlândia
Utilização de cortiça como calço num dínamo de um Citroën 2 cv
Um livro chamado “A Terra não é redonda”
O pavilhão do CDUL
A estrada que vai de São Vicente à Ribeira da Janela
Emissões experimentais de televisão
Barreiras sonoras multicor
O tempo e o modo
Uma janela com vista para o periférico
As rectas de Montálban
Dióspiros maduros
Omeletes de caranguejo
Tiro aos pratos
Mantas de retalhos
Casas para alugar
A Crítica da razão pura
Dioptrias
Salmos
Gigantes
Deambulatórios
Tout-venant

Não me pergunte, é escusado.
Nem procure aqui.
Eu posso explicar

Esta página (H Gasolim Ultramarino) terá sido uma grande desilusão para todos aqueles que aqui caíram por acaso, lançando-se ao mar em terror pânico, ao verem os motores de busca falharem por falta de comburente, que não de combustível.
Não encontraram nada do que pretendiam.
Mas eu posso explicar. E entretanto, explico a mim mesmo a razão de ser de tais visitas.

No dia 6 de Setembro, alguém quis "corrigir sotaque português". Uma suspeita terrível me assolou.
Porque é que alguém haveria de querer semelhante coisa? E onde? Algum espião português, na melhor tradição da época seiscentista, quereria disfarçar o seu sotaque em terra inimiga? Mas aí, a escolha natural seria "disfarçar sotaque português".
Então estou enganado, trata-se de alguém que quer aperfeiçoar o seu sotaque. É um ataque à Pátria, um pérfido emissário de qualquer potência inimiga que se quer infiltrar insidiosamente entre os nossos, tentando que o olhemos como igual.
Um amigo meu, que às vezes dá palpites, disse-me que era outra coisa completamente diferente. Que eu só via conspirações em todo o lado.

Mas eu posso explicar ao espião do sotaque, que tudo não passa de um grande engano, que aqui não vai aprender nada a respeito.
Quando escrevi aquelas palavras referia-me a um amigo meu, nascido na Alemanha que é Polónia, educado em Portugal, vivendo nos Estados Unidos e casado com uma senhora brasileira.
Como é que ele conseguia manter o seu irrepreensível sotaque português?
Quero dizer, como é isso possível estando casado há tantos anos com uma senhora brasileira?




Mas eis que logo três dias depois, uma estranhíssima procura, lançada do Brasil, revistou este local.
"H de homem" era a chave.
Tudo bem, pensei. Esta é uma página de um homem com H.
Mas isso não terá água no bico? Estará relacionado com o espião do sotaque? Então ele anda pelo Brasil? Quererá afinal disfarçar o seu sotaque português?
Quererá ele saber se o homem aqui, é adversário para ele?
O meu amigo continua a dizer-me que eu vejo muitos filmes.
Não sei porquê.

Eu posso explicar: H é de Gasolim. Homem sou eu. Nada mais a esclarecer. Não insista.



E passam dois dias, e a coisa começa a revestir-se de contornos preocupantes.
Agora é da Galiza. Uma búsqueda en Google com palavras portuguesas, só pode ser da Galiza.
E já se buscam fotografias. "fotografias de gente de viana do bolo", mais precisamente.
Começa a fazer sentido.
Os galegos falam português, mas como a nossa língua foi reprimida por muitas décadas, o castelhano é uma espécie de pano de fundo, em algumas palavras e no sotaque.
Está cada vez mais claro. O nosso amigo é galego, quer corrigir o sotaque e por alguma razão pretende identificar alguém em Viana do Bolo.
Ou será já a contra-espionagem que tenta detectá-lo? Sabendo que ele anda pelos lados de São Cibrão.

Eu posso explicar: a gente é outra, é a gente que conhece certo homem dos telefones. E para ir a Viana do Bolo não precisei de fotografias que me chamassem.



E, de repente, uma manobra de diversão.
Ou uma ameaça.
Alguém, no dia 29 de Setembro, depois de uma ausência de 18 dias, finge procurar "montijo na blogger".
Montijo, huuuuuum. O cerco aperta-se.
É uma pesquisa feita em Portugal, decerto o Montijo que se pretende é a Aldeia Galega.
Lá está. Tudo se relaciona.
O nosso amigo galego desceu em busca de contactos.
A esta hora ri-se de mim na área de serviço da ponte Vasco da Gama.
Começo a temer pela minha integridade física.

Eu posso explicar: Montijo é o destino da mulher que fala com o homem dos telefones. E Blogger não é da minha responsabilidade. É da responsabilidade de alguém que me quer pôr fora da circulação, não me deixa editar, nem postar...



E a 2 de Outubro, já do Brasil, usando o Cadê?, testa-me:
"Porque existe diferença de alqueires? "
Acho que a coisa não podia ser mais directa.
Sabe bem que eu estou familiarizado com a pouca precisão desta medida.
Sabe até que em miúdo me acusavam de não ter "os sete alqueires bem medidos".

Eu posso explicar: Não sei na realidade porque existe tal diferença. É como nas léguas e nos tiros de espingarda ou de besta. É pensar nos tempos em que essas medidas surgiram e se difundiram, e não é difícil perceber que haja discrepâncias. Basta ver que aqui em Portugal, tal como em Cabo Verde, o alqueire é acima de tudo uma medida de volume ou capacidade, embora também se aplicasse a áreas (radicando na relação volume semeado ou produzido / área), enquanto no Brasil parece ser só de área.



No dia seguinte, vejam bem, sai-se com esta: "SALSAPARRILHA FOTOS".
Ainda no Brasil e usando o Cadê?
Na certa, pretende disfarçar-se com ramos de salsaparrilha. Sabe que eu aqui de Portugal não tenho acesso à planta. Nem lhe conheço bem a fisionomia.



Por isso, usa o truque vil de se camuflar com ela. E enfatiza o facto, usando maiúsculas.
O meu amigo confidenciou-me, baixinho, que nada do que eu dizia fazia sentido.
Isso é lá com ele.

Eu posso explicar, ou melhor, me justificar: Que culpa tenho eu que o LP em «Palavras de Dom Goda» se entretenha com palavras difíceis?



E logo um dia depois, "ilhadomel fotos". Já em Portugal.
Ilhadomel tudo pegado.
Ilhadomel tudo pegado é uma directoria do Terravista. Logo do Terravista, onde a minha password não funciona.
Não funciona a password, não consigo apagar o registo, não me posso registar com o mesmo e-mail.
Explica-se agora porquê. O nosso amigo infiltra-se e já vai longe o tempo em que precisava de corrigir o sotaque.

Eu posso explicar: o carro que o meu avô me deu, foi comprado a alguém que o fotografou e que, anos mais tarde, cedeu a foto a um site que está alojado no Terravista. Chega?



Deixou passar oito dias e ei-lo na Alemanha. Google Suche. "hillman imp fotos".
Repararam na insistência nas fotos?
Um Hillman Imp? Da Germânia, a busca de um carro originariamente escocês?



Traz água no bico.
É que eu tive um fraquinho por duas proprietárias de tal viatura. Como tudo se sabe.

Eu posso explicar: o SG gosta de carros com classe, contaminou-me o site com essas referências nos seus poemas, não há (não havia) aqui nenhumas fotos de Hillmans.



No mesmo dia, 12 de Outubro, já de volta a Portugal: "fontaínhas, setúbal".
A mensagem é clara.
Para quem não sabe, o comboio do sul passa pelo túnel das Fontaínhas, em Setúbal, de luzes apagadas nas carruagens. São as trevas por segundos inquietantes. É aí que ele vai perpetrar a sua ameaça. E não vacila ao avisar assim, em público.
Como era de esperar, não voltou a entrar aqui.

Eu posso explicar: é o medo do escuro.



Aqui chegados, devo dizer que o meu amigo já não sabe que mais dizer-me para me tirar estas ideias da cabeça.
Eu só lhe respondo:
Se ele não andasse a perseguir-me, tinha usado aspas em algumas das buscas, como "fotografias de gente de viana do bolo" ou "corrigir sotaque português" ou ainda "Porque existe diferença de alqueires?" o que o afastaria de mim, que nunca escrevi tais frases. Mas não. E repara bem, que sentido faz uma busca como Montijo na Blogger?
E já agora, porque é que esta página já não aparece nas buscas do Cadê?
Não me respondeu.

fotos em:
salsaparrilha: http://www.plantaservas.hpg.ig.com.br/arquivos/ervas1.htm
Hillman Imp: http://www.imps4ever.info/algemeen/birth.html



15/10/2003

Começo pela capa



o resto se verá
Gasolim e las carreteras


Gasolim e as estradas

Grrr... isto não é o cabo de Sagres

Mesmo que se trate de música sacra de Haendel
Este som não me preenche a lacuna
A que sal basta para ficar desinfecta.
Melodia de paisagens em língua desconhecida,
Concebida para audições solenes a desoras
De modo a que o ventre a que se refere
Se recorte vago numa qualquer parede de fundo.
Mensagem hidráulica e fetal
De vitais fluidos repleta
Ecoando sinais que remontam às origens
Num caldo de cultura viciado
Com os dados que o Operador manipulou.
A verdade esconde-se assim num retrato genético
Perpetuado em difusas multiplicações
Carentes de uma explicação arrumada e demonstrativa
De uma Lógica anciã e incorrupta
Que alinhe os pontos discerníveis
Numa emocionabilidade pura
Pelas convulsas contorções dos geniais cérebros.
A paz e a procura porque não compatíveis,
Subsistem em contempladas pausas de percurso,
Eivadas desta melodia simples e esmagadora
A que o céu não é estranho.
A noite é ainda madrinha desta encruzilhada
Em que a interrogação se levanta a cada passada
Como o pó dos caminhos velhos que já percorremos.
Embora a imagem que subsiste
Não se afaste muito do espectro embrionário que já fomos,
Começamos a vaguear cansados
Por sobre a História ou do que resta dela.

1985

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Motores de busca

Os motores de busca são um dos mistérios mais fascinantes da rede.
Porque embora buscando uma coisa, se acaba por cair noutra completamente diferente.
Já me caíram (no H Gasolim Ultramarino) aqui pessoas em busca das mais fantasiosas coisas.
Hoje caí eu, sem saber como, num e-book.
E surpresa das surpresas...

14/10/2003

Das traseiras da casa que me invejo

Vejo a minha casa ao longe. E não habito aqui.

Na Lua

Em 1969, já a televisão se espalhava pelo país.
Ainda não chegava a todas as casas, mas havia já uma diferença grande em relação aos primeiros anos da década.
Naquela noite, meio mundo ficou acordado à espera de ver a Lua de perto e os homens a passearem-se na sua superfície.
No dia seguinte, a velhota entrou lá em casa como de costume.
E em tom reprovador, disse:
"Estive eu acordada até tão tarde para ver a Lua e afinal não há lá nada. Nem um jardim bonito como há em Alhandra."
Livros

Um dia ainda hei-de perceber qual é o critério que sigo na compra de livros.
Uma coisa estranha é não ter o ímpeto de comprar uma obra que não conheço de um autor que aprecio.
Outra coisa estranha é sair de casa, manhã cedo, com o fito de ir comprar determinada obra publicada há anos.
Já entrar num shopping porque é o único sítio das redondezas onde se pode almoçar e sair carregado de livros, entende-se porque havia uma feira de livros velhos.
Comprar numa bomba de gasolina, desnoitado, porque estava lá um livro perseguido é normal.
Comprar porque sim, é assim mesmo.
Mas não descortino o critério.
Actualidades

Um dos pontos dos estatutos deste blogue é não falar de actualidades.
Actualidades entendidas aqui como os assuntos do dia na imprensa e nas conversas de café.
Que quase sempre são repetições de histórias velhas. Nada de novo na frente.
Muitas vezes nem sequer são actuais.
São histórias congeladas nas redacções à espera de um dia sem manchete.
Coisas novas precisam-se.
Memória II

Não me perguntem quem foi, não me lembro.
Mas alguém um dia disse que uma das características do nosso tempo que colidia com a essência atávica humana, era a eliminação das memórias.
Dizia isto tendo como pano de fundo as cidades.
Onde os homens nelas nascidos rapidamente vêem destruir as suas referências espaciais.
Uma avenida onde havia uma azinhaga. Uma grande praça onde havia umas casas velhas e uma quinta. Um edifício altíssimo onde existia um palacete.
A somar a tudo isto, o bombardeamento constante da informação. Muita informação fragmentária e pouca assimilação.
Sei que, por enquanto, tenho uma memória privilegiada, como já referi. Ainda que não me lembre do autor da sentença, mas só da sentença.
Por vezes, sinto-me no meio do nevoeiro sem ninguém à vista. Falo de coisas que vi e que outros decerto viram mas não recordam.
Uma porta de taberna, uma curva de estrada, uma janela ornamentada, uma árvore de grande porte que já não estão lá.
Morreram também na memória pública.
Nem uma fotografia, nem uma citação.
É por isso que gosto de ouvir quem se lembra.
Gasolim informa

A feira de Castro é já no próximo domingo.
Memória

A minha não é má.
Lembro-me bem de palavras que ouvi e não me agradaram. Mas que devem ter ficado gravadas para futuro escrutínio.
Muitas delas julgo-as hoje com a devida vénia. Chapeau.
Nem sempre as pessoas que as disseram ainda se lembram de as terem proferido. Por vezes, já nem as subscrevem.
Mas também já aconteceu alguém me ter lembrado de algo que eu disse.
Poucas vezes é certo.
Mas em uma delas, uma sensação estranhíssima. Não por eu me não lembrar das circunstâncias em que dissera tais palavras, antes por, por muitos anos que se tivessem interposto, as circunstâncias se terem fechado num círculo.
Não contava que as palavras fossem lembradas.
Não contava encontrar-me de novo em condições tão semelhantes.
Não contava ser lembrado disso.
Muito menos contava que as palavras tivessem transmitido a exacta força de que eu as animara.
Mas o facto é que de repente fui confrontado com elas, quando já não esperava.
E foi nesse exacto momento que o círculo fechou, e sem saber como, me encontrei do lado de fora.

13/10/2003

O paradoxo final

A ideia de unificação em ciência é um tanto ou quanto vaga.
Mas suponhamos que significa um estado do conhecimento em que, por serem conhecidos os mecanismos básicos, se torna possível a ligação entre escalas diferentes: a física, a química e a medicina; a química, a física e a engenharia e por aí fora. Não esquecendo que estas divisões são imprecisas e volúveis.
O conhecimento dos mecanismos básicos pressupõe um domínio universal sobre os factores intervenientes. O conhecimento exacto e total das condições iniciais bem como das formas como se alterarão com o tempo.
Suponhamos que assim é, e que tal é possível atingir.
Haja formas expeditas de proceder aos cálculos necessários e teremos todas as previsões com a suprema exactidão.
O que nos coloca frente ao paradoxo final:
O homem dissecado em impulsos eléctricos, átomos, ácidos, células e o mais que fôr.
Uma máquina previsível.
Cada gesto, cada palavra, cada pensamento, apenas fruto das condições iniciais. Nada mais do que isso.
Os posts que se seguem



Algures

Algures estão os conhecimentos essenciais para este dia.
Não se trata de arte, nem de técnica.
Trata-se do sumo de tudo aquilo que já somámos às observações das coisas.
E do ponto em que as teorias ficaram penduradas na parede.
E resistiram ao tempo.
Algumas estão erradas, não importa.
Gostava de saber em que ponto estamos.
Uma inutilidade essencial.

postado algures a 22 de Setembro, mas ainda válido
Gasolim sempre entre baias

Um destino em tons de cinzento-estrada

Estatutos (de 20 de Agosto)

O estatuto aqui é mais ou menos este (a ordem dos artigos é completamente arbitrária):
Não recomendar restaurantes, praias ou blogues.
Não comentar a actualidade.
Não criticar nem sublimar (nos diversos sentidos) os outros.

Em suma, um rol de negações.

Lembrar-me-ei de outros no futuro e tentarei cumprir estes.


Quase dois meses depois e muita palavra aposta, já transgredi todos os artigos.

Estruturas

Intemporalidade ou não

Pensava eu que eram intemporais as entradas que ia fazendo no blogue que abandonei.
Agora que era minha intenção para aqui trazer algumas delas, vejo que não é o tempo através das coisas, mas o tempo das coisas que as macera.
Muitas delas valem tanto hoje como então. Mas não as quero repetir.
Gasolim e as encruzilhadas

marco de entrada antigo que aqui se coloca

A um ritmo muito menos intenso do que publicava em H Gasolim Ultramarino alojado em outro local, irei recuperando selectivamente o que lá está, esperando poder manter as imagens.