13/12/2003

Gasolim e as escolhas em inverno seco


Vou escrever um livro

Escrever não é bem.
É a rogo.
Encomendei a um discípulo de La Fontaine uma biografia minha.
Não é para ser O Fabuloso Mundo de H Gasolim. Não.
É outra coisa.
É uma exo-auto-biografia feita por animais e plantas.
Ele vai chamar os meus cães e ouvir as suas queixas.
Vai entrevistar os pássaros na gaiola. É possível que não consiga nada do rabugento.
Terá o depoimento de muitos chaparros e azinheiras.
Vai notificar os porcos dos caseiros e entrevistá-los um a um.
Contará também com o contributo inestimável de ovelhas e vacas.
Já não poderá infelizmente auscultar a opinião das galinhas há muito desinstaladas nos ramos da velha oliveira.
Mas ainda assim, já encomendei as faixas amarelas. Também elas falam.
Que tal?



Na foto, é mesmo o meu querido cão. A capa está uma trampa, tirando o cão. Vejam bem o título às escadinhas. Encomendei-a a um tipo que tem uma filha com jeito pó desenho
Gasolim e os apeadeiros



longe do vulcão

12/12/2003

Pó branco e pastéis de bacalhau



Já dei voltas à cabeça, já li cinquenta manuais, treze compêndios e nada.
Não consigo encontrar explicação para o bacilo escolher o pó branco como veículo.
Qual bacilo?
O do carbúnculo – o Bacillus anthracis.
Sabemos todos que os bacilos são formas de vida. E que devem ter lá as suas idiossincrasias. Mas escolher o pó branco? Caramba, não é nada politicamente correcto.
Nada com pós azuis, verdes ou vermelhos, só brancos.
Agora parece andar retirado. Não se fala nele. Já o açucar pilé relaxou, as farinhas de sílica e de trigo estão mais descansadas, o próprio pó-de-talco parece mais novo, menos preocupado.
Eu, como sou desconfiado, tenho andado a pensar se ele não terá escolhido os pastéis de bacalhau como transporte.
Já nessa época de Setembro / Outubro de 2001, tinha advertido os meus mais chegados para essa hipótese.
Agora que a coisa anda esquecida, volto a alertar.
É que o pó branco tem um universo potencial mais limitado. Os pastelinhos são uma forma muito mais eficaz de distribuição.
Dizem-me que ninguém aspira pastéis de bacalhau. Não aspira um, certo. Mas aspira por um. Muita gente aspira por eles sem os confundir com notas enroladas. Lá estou eu com trocadilhos.
Não se iludam, o bicho é manhoso. Se não fôr pelos pastéis, como eu prevejo, há-de ser pelos tremoços, que é uma boa forma de dizimar as tropas. Assim como assim, mata os homens e deixa as mulheres.

imagem em
O diabo aquático



Não sou contra os neologismos nem tenho um conhecimento profundo sobre as formas que apresenta o rabudo, o coisa ruim, o ...
Mas, deixando de lado a caneca que existia no trem de praia dos meus bisavós em que ele figurava, na certa como recordação de algum mascate menos timorato, e em que aí sim, convivia com a água que eu lá lhe colocava, não me recordo de nenhuma outra ocasião em que o ... se tenha familiarizado com a água.
Sempre o figurei como um gato escaldado.
Mas há uns tempos, um noticiário de rádio revelou-me esta estranha metamorfose. O ... tinha aprendido a nadar. Depois de narrar alguns factos estranhos em certa cidade, o locutor concluiu: "... e o Diabo aquático!"
Pronto, pensei, tornou-se rei dos mares. Adeus, Neptuno. Ou será que não? Afinal, esse deus tão traiçoeiro para marinheiros e viajantes não ostentava ele um tenebroso tridente? Seria já o próprio ou um enviado seu?
O certo é que o ... já não andava a quatro.
O mais estranho é que, numa altura em que todos querem andar a quatro (tracção às quatro, motos-quatro), o ... se tenha decidido pela barbatana dorsal. Não me conformo.
Será que ele comprou uma moto de água?

imagem adaptada de
Nostalgia do burro



Sem grande explicação, o burro veio à baila.
Falou-se demoradamente dos asininos.
Que eram dóceis e teimosos como burros(?)
De vez em quando um coice mas nada de cuidado.
Pica-lhes a mosca.
Lá recordámos as imagens dos bichos, que os havia lá no monte.
A minha mãe condoeu-se de os animais estarem em vias de extinção.
Às vezes ponho-me a pensar que pertenço à primeira geração apeada. Uma espécie de anspeçada.
Sempre houve cavalos, mus e burros, arramadas e cavalariças. Os meus avós a cavalo, o meu pai a cavalo. Eu a pé.
Ora, ultrapassadas que estão as necessárias três gerações para fazer um cavalheiro, onde é que ficamos? Num cavaleiro sem cavalo? Num Artur centaureando ao som de hemi-cocos?
Nem um burro fiel, para me fazer companhia? Só maples com quatro rodas?
Não sou de opinião.

imagem de
saiba mais nesta página de António Gil

11/12/2003

O espião dos serviços ou
Uma noite em Lisboa


O convite de um velho e bom amigo, levou-me a um dos centros nervosos da economia nacional.
Anarcka sabe qual é. É um cujo nome não divulgo mas sobre o qual ele há tempos discorreu.
No gabinete do homem, armários, ficheiros, estantes, gavetas.
Conversa vaga sobre o desempenho da casa.
Como já estava há um bom bocado sem fumar uma cigarrada, levantei-me e deambulei entre as estantes.
Foi então que descobri o pequeno volume: "Cheques descontados na Ilha das Flores".
Fiquei preso à lombada, imaginando todo o romance que encerra tal título.
Todos os apertos porque passaram os que os assinaram, todas as alegrias dos que os descontaram. Os atrasos, as faltas de fundos, a revolução nas vidas dos bons açoreanos das Flores.
Já estava a imaginar gente a comprar carros novos, sacos de cimento para um reboco, a pagar o casamento da filha, o IRC, a viagem para a América, quando ele se levantou e nos disse que eram horas de jantar.
Às vezes sonha-se entre dossiers e armários.
Melhor do que saber novas do out-sourcing e das tomadas firmes.
Ninguém se apercebeu do meu interesse por aquele dossier em particular.
Ainda trago no bolso uma base para copo do Fontória.
Gasolim e as pontes ou
Comendo peixe-muge não sabendo onde




Fui mostrar ao deserto a Syllan e à sua progenitora.
O deserto de que falo fica um pouco a sul de São João do dito.
É aquela faixa entre as E.E.N.N. 123 e 124, 2 e 122. Mais ou menos isso.
Um lugar de encantos desoladores.
A horas de almoço, estávamos em Mértola, prontos para o peixe frito do rio.
Na esplanada, além dos matraquilhos, havia apenas mais um casal.
O dono do restaurante e o dito casal falavam alto, ouvia-se bem o que diziam.
Depois de ele apontar os pedidos, perguntaram-lhe:
"O que é isto aqui atrás?" - isto era o vale cavado mesmo junto à esplanada.
"É o Guadiana, minha senhora." - disse o homem, incrédulo.
Syllan, que é bom navegador, também não acreditou no que ouviu.

foto da JAE

10/12/2003

Gasolim e as pontes


A máquina inútil

Passei a minha infância entre obras.
Grandes e pequenas.
Das maiores que se fizeram às mais elementares.
Convivi com tractores, pás-escavadoras, dumpers, cilindros, camiões-basculantes, auto-niveladoras, gruas, etc.
Havia porém uma dessas máquinas que me intrigava. Nunca a via em acção. Pelo seu formato, não a imaginava capaz de grandes façanhas. Contudo, lá estava sempre. Muitas das vezes, mais do que uma.
Nunca me dei por achado, era o que faltava perguntar ao meu pai ou a quem quer que fosse, para que é que aquilo servia. Só observava, à espera de um deslize, de um movimento, de uma acção. Nada. Só barulho, e muito.
Um dia, apanhei-a. Numa manhã algarvia de laranjas.
Estava parada como sempre e a fazer um cagaçal medonho.
Mas desta vez, consegui ver que nas pontas das mangueiras que dela saíam, havia acção.
Uns operários lançavam jactos de areia sobre uma estrurura metálica.
Foi então que, todo orgulhoso, expliquei ao meu pai como é que aquilo funcionava.
Mas a minha teoria caiu por terra no segundo seguinte. Ainda hoje me lembro da explicação devolvida quando vejo um compressor.



imagem tirada daqui
Gasolim e os obstáculos



em vidro muito sujo
Na parede da cela



imagem de uma das magníficas câmaras de tráfego da Finlândia

09/12/2003

O fabuloso mundo das máquinas de costura



Lembro-me do cuidado que era preciso entre Olhão e Tavira, a certas horas, com aquela chusma de bicicletas a motor que apareciam na estrada.
Macais, Casais, Faméis-Zundapp, Sis-Sachs.
Ali para a zona de Águeda, era também forte a coisa. Havia assim uns pontos em que a motorização velocipédica obrigava a cuidados redobrados na condução.
Nunca houve, que eu me lembre, tanta discriminação social à volta de um objecto como destas máquinas.
Quando apareceram as japonesas, qualquer das marcas acima citadas era coisa ainda mais acintosamente popular.
Quem queria ter pose, tinha que ter uma Honda ou uma Yamaha. Suzuki e Kawasaki não apareceram logo em versão 50 c.c., ou eram bicho muito raro.
É claro que detrás já vinha o culto da moto. Mas isso eram as altas cilindradas, as Norton, as Triumph, as BMW, as MZ, as Husqvarna, as Harley e muitas outras.
Eu próprio me imaginava na sela de uma Honda 50 (eu era mais pela asa e menos pelos diapasões), mas isso foi sol de pouca dura.
As japonesas eram motos, mesmo que tivessem a mesma cilindrada das outras, e jogavam com capacete Bell ou similar, mais tarde com integral e nunca com penico e fitinha xadrez.
As outras eram bicicletas a motor, chocolateiras, máquinas de costura.
Ora aí é que bate o ponto. Vinte e muitos anos depois, calhou-me competir, a pé, não com uma bicicleta a motor, mas com várias máquinas de costura e de bordar.
Uma delas era Toyota, outra Husqvarna. Alguém, mais uma vez, me explica isto?



Honda CB 50 em
bordado em

08/12/2003

Hygiaphone



Fale aqui diante do Hygiaphone.
Era o que nos diziam bastas vezes, sem dizer.
A setinha lá estava, a apontar para os buraquinhos.
Ainda os deve haver, tal era a profusão.
Da secretaria da faculdade às bilheteiras dos comboios,
das repartições de finanças às bilheteiras de cinema, era o mundo Hygiaphone.
Por estes dias, tive um choque.
Já nem nas Finanças existem. Agora é um balcão aberto, um banco, uma recebedoria.
Independentemente da estranheza que se relaciona com o facto de certas doenças, pois julgo que era disso que se tratava, ainda existirem e se propagarem aereamente, há outra coisa que ainda me intriga mais:
Se o balcão é corrido, como é que fazem agora aqueles funcionários que invariavelmente nos mandavam para o guichet ao lado?

P.S.: O Hygiaphone até foi cantado em poema.

imagem adaptada de
Es-tú-pido



Se o tempo é de balanço, é tempo de fechar as contas.
Deixei algumas pontas aqui e ali, com promessa de réplica.
Começo por esta. Vem do dia 9 de Novembro.
Suponho que a coisa ficou mais ou menos clara para os homens.
Para as mulheres, já não sei.
É o eterno retorno à incompreensão dos géneros. Eu confesso que há muito deixei de querer ver razão no raciocínio feminino. Não encerra esta afirmação nenhum sentido pejorativo, apenas significa que:
O racionalismo é útil, muito útil, mas não é decisivo, tanto mais que não joga com o baralho todo.
É possível que exista um racionalismo feminino, estribado em cartas fora do baralho. E para o caso, tanto faz. Se aos homens faltam cartas, as decisões são por isso insuficientemente racionais. Se as mulheres usam jokers, a diferença está na incapacidade masculina de compreender a omnipotência dessas cartas.
Dito isto, julgo que não há palavra que mais aproxime um homem de uma mulher, do que a supra escrita.
É óbvio que tem que ser dita sincopadamente. E com um sorrriso. Mas quando sai assim dos lábios de uma mulher, já não há nada a fazer, é tiro-e-queda.
Dir-me-ão alguns: mas se elas ainda não sabiam disso, para quê dar-lhes trunfos?
Respondo eu: não me oponho a que os meus congéneres sejam apanhados na malha grossa, não me parece que seja algo a evitar, muito antes pelo contrário.
O que já é de evitar, isso sim, é o pérfido "Ah, sim?" prenunciador de todas as divergências.
Meus caros, aqui, pode um homem dizer a mais sábia das sentenças, discorrer sobre as mais ignotas sabedorias, pronunciar o mais brejeiro comentário ou concluir da mais desastrada maneira. Não há também nada a fazer.
É a linha para além da red line. É o ponto para além do borregar. Peguem na trouxa e ala.
Acho pouco

Conto do vigário II

Sinceramente!
Ou eu tenho e-mail de labrego (já que não pode ser a cara!) ou então existe uma conspiração internacional para me derrubar.
Há uns dias, estavam à minha espera para me dar 5,45 milhões de dólares. Hoje, agraciam-me com meio milhão. Acho pouco.
Pensei escrever este post em inglês. Mas não, eles já cá vieram espreitar quando coloquei aqui a cópia do outro e virão com toda a certeza outra vez. Brindo-os assim com uma daquelas maravilhosas traduções automáticas, que sempre é mais condicente (o que eu me lembro às vezes do C.O.) com a prática dos moços.

"FROM RISE LOTTERY INTERNATIONAL
TELEPHONE;+31-64 111 58 62
Ref. Number: 132/756/4509
Batch Number: 538901527-Bc68
ATTN.

LOTTERY WINNING NOTIFICATION (CONGRATULATION)
We are pleased to inform you of the result of the Lottery Winners International programs held on the 23th of Nov, 2003. Your e-mail address Attached to ticket number 27522465896-6453 with Serial number 3772-554 Drew lucky numbers 7-14-18-23-31-45 which consequently won in the 2ND category, you have therefore been approved for a lump sum pay out of US$ 500,000.00. (Five Hundred Thausand United States Dollars Only).
CONGRATULATIONS!!!
Due to mix up of some numbers and names, we ask that you keep your winning information confidential until your claims has been processed and your money Remitted to you. This is part of our security protocol to avoid double claiming and unwarranted abuse of this program by some participants.All participants were selected through a computer ballot system drawn from over 20,000 company and 30,000,000 individual email addresses and names from all over the world.
This promotional program takes place every three year.
This lottery was promoted and sponsored by eminent personalities like
Mr Bill Gates and the Sultan of Brunei, we hope with part of your winning you will take part in our next year international lottery. To file for your claim, please contact our Lottery Coordinator .
MR ROBERT MBOMA AND ASSOCIATES NETHERLAND.
TEL. 0031-64 111 58 62
Reply Email: roboma30@fsmail.net
Remember, all winning must be claimed not later than 30th of Dec. 2003.After this date all unclaimed funds will be included in the next stake.Please note in order to avoid unnecessary delays and complications,remember to quote your reference number and batch numbers in all correspondence.
Furthermore,should there be any change of address do inform our agent as soon as possible.
Congratulations once more from our members of staff and thank you for beingpart of our promotional program.
Note: Anybody under the age of 18 is automatically disqualified.
You can contact me on this my private Tele phone Number 0031 -64 111 58 62 for more briefing.
Sincerely yours,
MR. ROBERT MBOMA
Lottery Coordinator"


E mais uma vez, estou como o outro:
Se se anuncia remédio para os piolhos, é porque há quem os tenha.

07/12/2003

Ainda em balanço



Tudo começou em 16 de Agosto.
O calor tinha amainado e eu tinha descoberto que não era preciso pagar para escrever aqui umas coisas.
O nacional-borlismo.
Bem, quase quatro meses depois, o universo de visitantes não é amplo. É até muito restrito. Meia-dúzia de fidelidades que passo a citar, pela respectiva página e por ordem alfabética:

Anarcka
Brasil e reminiscências españolas (Brasil & Espanha)
Mente Brilhante
Pensatorium
Tem alguém aí?

Sei que há mais, mas infelizmente nunca deixaram qualquer comentário.
Então como explicar quase 2000 visitantes na versão brasileira e mais de 1300 na portuguesa?
Em primeiro lugar, a contagem divergiu quando decidi que afinal mantinha os dois blogues mais ou menos iguais. Nessa altura, aí por volta dos 1140 visitantes, passei a ter dois contadores, um para cada blogue.
Explicam-se facilmente as 160 visitas adicionais em Blogspot com os fiéis leitores e os numerosos pára-quedistas a que já aludi.
Quanto aos números do Blogger da Globo, eles reflectem ainda um sem-número de curiosos que espreitam quando o blogue está na lista dos últimos actualizados. Tantos são, que explicam este desfasamento de quase 700 visitas.
Ora, o resultado é mau. Se há num contador perto de 2000 visitas e ao mesmo tempo se contam pelos dedos de uma mão os fiéis leitores, é porque a coisa não agrada à imensa maioria.
Mesmo assim, não desisto. Enquanto houver gente que aqui vem, ficarei no meu posto. Não faço isto para agradar a todos. Faço-o porque gosto e para quem gosta de me ler.
Só lhes peço em troca, a esses que leio, que continuem também.
Assim haja serviço à borla.

Há aqui uma parte que promete para um Manifesto Político a que aludirei para o ano. Não se assustem, não vou formar nenhum partido.
Retrato de um blogue

Em época de balanços, aqui fica um retrato feito pelos motores de busca a estas linhas aqui deixadas desde Agosto.
Na impossibilidade de convidar comentadores no campo da sociologia ou da psicologia, fica a crueza dos números, que reflectem decerto o que vai na cabeça do relator:


Uma certa pose


06/12/2003

No tempo dos calendários



A memória prega-nos partidas. A uns apaga os ficheiros, a outros baralha-os, a mim, sem que não tenha deixado de fazer coisa e outra, traz-me às vezes para o acesso rápido ficheiros de há décadas.
Hoje foi uma foto que eu extraí de um vídeo da BBC.
Devo aqui dizer o seguinte: a maior parte das imagens que aqui insiro são de má qualidade. Isso deve-se ao facto de serem quase todas extractos de vídeo.
Algumas, poucas, são tiradas de trechos de emissões de televisão e devidamente identificadas.
A maior parte é extraída de gravações próprias.
Raramente são fotografias digitalizadas e que me recorde, nem uma é fotografia digital.
Fica assim explicada a falta de qualidade. Talvez também não me interesse colocar aqui fotos de alta definição.
Adiante.
Essa imagem que por aqui anda há anos, suscitou-me hoje a necessidade de falar sobre os calendários que costumavam aparecer lá em casa, por esta época.
Os calendários eram de origem nórdica. Não posso dizer de que país eram. Talvez suecos.
Tinham como é hábito, uma fotografia para cada mês.
A mim, encantavam principalmente as fotografias de inverno.
Recordo-me vagamente de algumas. Da luz espectral que nelas surgia. De uma igreja em campo de neve, sob um céu azul cru, em cujas janelas se adivinhava um interior inundado de luz amarela.
De um preto-e-branco ferroviário (de onde vem hoje a inspiração) igual a tantos outros, mas diferente. Diferente pela mulher que caminhava ao longo dos carris, diferente pela qualidade da composição.
É um disparate estar a tentar descrever o que é indescritível. Todos sabem do que falo, do encanto de uma imagem, que tanto pode ser fabricada como não.
Hoje estou assim. A lembrar-me de coisas inacessíveis, mais uma vez.
Esta imagem da BBC foi retirada de uma reportagem em que, a propósito dos repetidos acidentes ferroviários que aconteceram na Reino Unido nos últimos anos, se chamava a atenção para a dificuldade que os maquinistas sentem em identificar em certos troços o semáforo correspondente à via onde circulam.
Caros pára-quedistas:

Lamento informar que não disponho de casas para alugar.
Não tenho aqui imagens de mulheres nuas.
Não forneço desdobramentos de totobola ou totoloto. E o software não está à venda.
Estou mal informado sobre os programas de passagem de ano no reino do Algarve.
E, finalmente, estudantes brasileiros, sobre a salsaparrilha há muito melhor informação do que a que pôde dar SG nos seus desequilibrados textos.
Mesmo assim, espero que voltem.
Há sempre os disparates habituais por aqui.
O correspondente de “O Século”

As vantagens dos correspondentes na imprensa nacional eram várias:
Sabiam sempre o nome da terra onde se encontravam, a que concelho e distrito pertenciam.
Normalmente identificavam bem, pelo número, a estrada nacional que servia o local.
Sabiam distinguir a flora e a fauna locais, incluindo a humana, não se enganando também no nome dos entrevistados.
Não se espantavam por os dias mais frios serem solarengos, nem acreditavam que o verão daquele ano fosse o mais quente de sempre.
Tinham limitações, é verdade. Só se soube que o meu amigo V.F. tinha trincado uma moeda de 2$50 que estava dentro de um papo-seco, três dias depois do ocorrido.

05/12/2003

Fenómenos seculares



A bitola da engenharia era construir prevendo riscos com uma determinada probabilidade de ocorrência.
Os chamados fenómenos seculares (com períodos de retorno da ordem dos 100 anos ou mais) eram excluídos, por três razões determinantes:
A baixa probabilidade de ocorrência durante a vida útil da construção.
O elevado custo de uma solução "hiper-resistente" para casos de solicitações extremas e conhecidas.
A incapacidade de prever a forma como alguns fenómenos extraordinários actuariam sobre a construção.
A juntar às tradicionais solicitações calculadas (ventos, sismos, forças hidráulicas, etc.) soma-se agora outra, igualmente secular.
A ser verdade que os prédios que ruem quando se lhes escavam as fundações são todos seculares, existe uma justificação forte que iliba os projectistas: trata-se de um risco desprezado por improvável.
Diálogo$

Não é erro do editor, não.
Não é nenhuma variável de texto. É numérica. É o diálogo$.
Houve uma época em que proliferou.
Não havia caderno reivindicativo que não contivesse uma alusão ao diálogo$.
Queremos mais diálogo$.
Sem diálogo$ não se compram melões.
Se não há diálogo$, vamos para a greve.
Agora volta de novo a carência de diálogo$.
Já se começam a ouvir as vozes ansiosas por conversação.
Não se aceitam prepostas. Queremos propostas. Queremos diálogo$.
Eu limito-me a monologar.
Gasolim ao frio

04/12/2003

O Teatro Circo



Nem uma coisa nem outra.
Vá-se lá saber porquê.
Se em pequeno as poucas experiências circenses foram um desastre de tédio e tirem-me daqui para fora, as experiências posteriores com a boca de cena não foram mais animadoras.
Ah, Londres, em Londres é que é.
Devias ir a Londres ver uma peça.
Bem, devo-vos dizer que me passeei intrigado (comigo próprio) entre as filas de espectadores à porta dos teatros da corte de Saint James. Mas o impulso derradeiro não surgiu. Provavelmente também não iria encontrar um bilhetinho à venda para um dos dias em que lá permaneci.
Fica assim por fazer o último teste.
A verdade é que se me instalou esta ideia de que o teatro teve a sua época. Que o cinema é um teatro em evolução. Sei, bem sei, que o cinema é outra coisa, cheio de truques e que é no teatro que se percebe um actor. Mas fazer o quê? As experiências que fiz, e foram várias, não me agradaram nada. Talvez esta rusticidade congénita (valha-me São Rústico) não me deixe urbanizar mais do que a conta.
Há porém um dado nesta história que é fortemente contraditório.
Eu que não sou propriamente um melómano, gosto afinal de ópera. É escusado dizer que não há coisa que mais tédio me dê do que um bom filme musical. Isso é o supremo fastio.
Insanável esta contradição? O homem não gosta de teatro e gosta de cinema. Gosta de ópera e não consegue ver um filme musical...
A verdade é, como diria o outro, não tem nada a ver. Porque é não se há-de gostar de uma coisa e abominar outra?
Para concluir, só vos digo que melhor do que a última récita a que assisti, e já passaram alguns anos, foi o ensaio a que me deixaram assistir, em camarote alto.
Não havia mais ninguém em São Carlos além do elenco e dos técnicos.
Apenas este parvo empoleirado num camarote a desenhar.
O som é completamente diferente com a sala vazia. Há a depuração do ruído de fundo. E os próprios gritos de interrupção soam como parte do espectáculo. Magnífico.

imagem do Teatro Circo de Braga em http://www.min-cultura.pt/Noticias/MecenatoCnt.html
O moínho sem velas ou um momento brejeiro

Um casarão vazio é uma tentação.
Para crianças de seis, sete, oito, dez anos é um mundo.
Para mim, eram também memórias. De anos ainda mais tenros.
A casa fechada, o quintal acessível, onde ainda existia a pista de obstáculos entre a cavalariça e a escada das traseiras. A casa dos meus avós.
No terraço da casa de banho jogávamos à calha.
Um dia, um objecto de louça ali caído chamou-me a atenção.
Parecia um moínho de presépio a que faltava o eixo e as velas. Dom Quixote decerto teria passado por ali.
Faltava-lhe um bocado da base, mas dava para perceber que era um moínho sem porta, com duas pedras grandes quase cravadas na parede.
Ao fim de uns minutos de curiosidade, voltei a colocá-lo no canto onde o encontrara.

Tempos depois, no alambique da serra onde íamos por medronho, a um dos meus tios foi dado a provar o destilado.
Quando acabou de beber, deu um berro e quase atirou a canequinha para o chão.
Os demais riram-se. Uns mais, outros menos.
Passado um bocado, consegui pegar na canequinha sem que ninguém desse por isso.
Tinha lá dentro um moínho igual. Só que este não pretendia ser moínho, via-se bem o que era.

03/12/2003

Bate certo ou talvez não



A segunda foto não foi manipulada. It's reality show. A primeira obviamente também não.
Licenças em dia

Cai um prédio.
Tal como um dente na gengiva, tinha perdido o vizinho do lado.
A primeira coisa que ouço é que o prédio em construção, no buraco do lado, estava licenciado. É uma coisa importantíssima para apurar seja o que fôr.
Uns tempos atrás, caiu uma laje de um edifício em construção.
A primeira coisa que ouvi é que o dito edifício violava o PDM quanto à localização.
Importantíssimo para apurar as causas da derrocada.
Ainda bem que não tenho ouvido as declarações em todas as ocasiões do género.
Onde é que anda a gente capaz?
Quem está a seguir para pagar?

Faz favor!
Era assim que estava a Tesouraria da Fazenda Pública cá do bairro, há uma hora atrás.
Fila única mas com excepções que cada um tem que adivinhar.
Na Repartição de Finanças, ali ao lado, a confusão de avisos, a ininteligível sequência de rolos de senhas de espera, senha verde em invólucro côr-de-rosa, senha rosa em maquineta azul, balcão de execuções não é preciso senha.
Como sempre, é preciso pensar pela cabeça de quem lá põe as folhas A4 com as indicações. Se escreveu isto, é porque quer dizer aquilo. Às vezes, dou razão aos americanos e aos seus manuais exaustivamente explicativos.
Mas descobri ainda mais.
A primeira experiência de execução fiscal.
É certo que a contribuição autárquica se tem pago nos últimos anos em Abril. Certo.
Todos devemos saber disso. Certo.
Mas é também certo que certas repartições de finanças não falham com o aviso. Chega sempre a horas. É portanto de aviso na mão que todos pagamos, no Multibanco ou de outra forma qualquer.
Mas descobri agora que há repartições que não enviam o aviso a que estávamos habituados.
E o contribuinte esquece-se de pagar. Aconteceu-me. Devia ter-me lembrado? Pois devia.
Obrigam-nos assim a ir levantar uma guia de pagamento ao balcão. E poupam a despesa dos impressos e do correio. OK.
E o contribuinte lá paga os juros de mora, etc.
É o deficit, é o deficit - diria um certo cantor brasileiro - um patinho eu sou!

02/12/2003

O chalet da condessa



Faz hoje anos.
Dezassete.
Na falta do Rei-consorte e da amante legítima que lhe aconchegou a viuvez, estávamos nós a pisotear as folhas secas pela manhã.
Não consegui mostrar-te a serra toda, os ralis, mas mostrei-te as minhas estradas de eleição.
O que será feito do teu vestido de lã?

imagem em http://www.malhatlantica.pt/sintra/gardens/j3.htm
Desde cedo



O Centro Comercial Colombo não veio suprir a falta do Desde Cedo.
É verdade, tal centro de atracção não tem hoje paralelo nas redondezas.
Não era nada de sedimentado, não pensem.
Era até muito provisório e episódico.
Tinha lugar a certas quartas-feiras que alguns denominavam europeias. Como se em Benfica pudesse haver quartas-feiras de outro continente.
Mas era um mundo de cheiros a petisco sem rival.
Vinham os homens do morangueiro na malga, os da entremeada e da febra, os das sandes de molho, das bifanas, eu sei lá!
Bancas à dúzia e bancos corridos de madeira, espias e cordame, grelhadores de bidom, todas as maravilhas do mundo.
Eu e o R.C., correndo o risco de algum fiscal mais atento nos apanhar sem bilhete pá bola em plena gare de iguarias, lá estávamos sempre torcendo pelas águias (ainda que nem um nem outro tenhamos tais simpatias) para que o estojo se renovasse na jornada seguinte.
Agora, é um deserto.
Deserto não será, sempre lá estarão umas quantas roulottes, creio eu. Mas nunca mais voltei ao sítio do morangueiro e dos exames de condução.
E já agora, porque é que nunca nos entrevistaram? Não havia quarta-feira europeia na Luz que não tivesse destaque nos telejornais, abrindo em panorâmica e sempre assim:
"Desde cedo...os espectadores foram afluindo..."

Nota: quem baptizou o local não fui eu, foi o R.C.

imagem do Estádio da Luz tirada daqui
À nora

Houve uma questão qualquer que me chegou aos ouvidos, era no tempo do Netpac, parece que queriam que eu lá o fosse instalar.
Mas a coisa morreu e nunca mais pensei no assunto.
Ao fim de umas semanas, ela disse-me: "Parece que afinal tens que lá ir por causa da Internet."
"Então? Ainda não instalaram?"
"Já! Já instalaram" - disse com o sorriso malandro que tão bem lhe fica.
"Então? Não sabem trabalhar com o Netscape?"
"Não, não é isso. Querem saber o que é que hão-de procurar."
"Procurar? Não estou a perceber."
"Sim. Querem saber o que é que hão-de procurar na Internet!"

01/12/2003

Gasolim ao negro



sem o Toyota
O cigano do amor



Já sei que sou um rústico.
Já sei que quem nasce para dez réis nunca chega a vintém.
Mas não consigo conter estas manifestações mentais de saudosismo que me levam a acordar cantando essa inolvidável melodia que enchia o ar abaixo e acima dos discos voadores vermelhos, verdes e azuis.
Nada, nem o cheiro dos frangos com pó, nem a perícia dos banqueiros do gaitinha, nem o microfone com lenço dos mascates, nem a confusão de plásticos de todas as cores, nem o aroma gorduroso das farturas me vem tantas vezes à memória.
Talvez porque todo o resto é ainda avistável ou sensível, ainda que em versões modernas, a dôr seja mais funda. Do Cigano do Amor nem mais um acorde. É pena.
Não me contentaram as "vinte e quatro rosas", "maravilhoso coração maravilhoso" ou os Gipsy Kings.
Continuo a gostar de feiras, mas nunca mais viverei em êxtase.
Mais disparates



É sempre difícil, já o disse, identificar o indivíduo para quem falam políticos, jornalistas, etc.
Porque a confusão quanto à capacidade de entendimento do dito receptor é grande, porque a confusão na mente emissora é considerável, saem coisas incompreensíveis.
Repete-se, desde há algum tempo, em relação à SIDA uma curiosa catadupa de afirmações categóricas:
"Há grupos de risco."
"Já não há grupos de risco. O que há são comportamentos de risco."
"Já não há comportamentos de risco."
Se o assunto não fosse sério, a gente ria-se um bocado.
Primeiro, é preciso recuar à primeira fase do conhecimento generalizado da doença.
Final da década de oitenta.
As previsões eram catastróficas, recordo-me de ter feito contas baseadas nas taxas de contaminação previstas e o que obtinha era uma probabilidade mínima de qualquer um de nós estar vivo hoje em dia, no ano de 2003.
Mas isso é o costume, também. Fala sempre mais quem não sabe o que diz. Agitam-se monstros inverosímeis que se voltam contra os titeriteiros, desacreditando-os.
Agora há coisas que são tão simples que eu não consigo perceber a confusão que geram.
Primeiro o conceito de comportamento de risco e de grupo de risco.
Estamos a falar da transmissão de uma doença. Sabendo-se o que se sabe sobre as vias de transmissão, que não é obviamente tudo, sabe-se quais são alguns comportamentos arriscados.
É assim para todas as doenças transmissíveis. Ou não será?
Desde as que se propagam com maior dificuldade até às que facilmente geram epidemias.
É certo que para estas últimas, muitas vezes é impossível evitar um comportamento de risco.
A questão aqui é uma e só uma. São os riscos de contrair esta doença tão diversos que se torna impossível preveni-los? Não é isso que nos dizem. Então se não são, é possível fazer qualquer coisa para evitar a contaminação. E quem despreza isso, está obviamente a ter um comportamento arriscado face à doença.
Incluindo a senhora que se mantém casada com um marido promíscuo. Ou o homem que tem uma mulher pública. Podem não saber? Pois podem, mas contra isso batatas.
E os grupos de risco, o que são, senão etiquetas de agrupamento, de acordo com determinado tipo de comportamentos, uma definição por compreensão?
Então há ou não há comportamentos arriscados? Se querem ou não agrupar as pessoas, isso é outra questão.
Mas o espalhafato é grande quando se diz, com grande convicção: "O número de casos aumenta entre os heterossexuais. São já o grupo mais afectado." Como se a maioria das pessoas não o fosse, com a consequente conversão probabilística.
Não seria isto previsível? Qual é o espanto? E mais, existiu algum tempo em que assim não fosse? E se existiu, é porque as probabilidades de transmissão numa relação homossexual são maiores, ou não? Se é, qual a razão?
Já não falo dos riscos óbvios das agulhas compartilhadas, dos riscos que correm médicos, enfermeiros, bombeiros, etc.
O problema é sempre o mesmo. Não é a ciência e a evidência que comandam os cuidados a ter e a propôr. É uma espécie de amálgama de gente com boas intenções que acha que certas coisas não se podem dizer para não melindrar estes e aqueles. Um critério sem critérios e depois queixam-se.
Bem sei que estas coisas não são fáceis de resolver. Os lazaretos também não impediram outros males de se propagar. É sempre muito difícil impedir quem está contaminado com uma doença contagiosa, que a transmita a outros.
Lutamos com isso desde sempre, e aparentemente melhorámos as defesas, mas se o fizémos, foi usando a cabeça, não foi dizendo disparates.
Quando as pessoas não atacam a doença mas se revoltam contra os catálogos, não é preciso dizer mais nada.

imagem do Lazareto em http://www.terravista.pt/baiagatas/1053/lazareto.htm
Espelhando


Duarte d'Armas em versão graffiti

30/11/2003

Exercício de Geometria Descritiva

A lição

Viu chegar os dois carros e aproximou-se quase a correr.
Vinha só em calções, com uma bola de futebol na mão.
O cão seguia-o, abanando o rabo.
"É a primeira vez?" - repetiu a pergunta.
Que era para uns, que não era para outros.
Reparou em tudo, quis identificar os casais e saber de quem era o cão.
Depois designou, uma por uma, as quintas que dali se avistam.
Quando a explicação topológica já não tinha muito mais a dar, virou-se para o cão:
"Lava-o com quê?"
...
"Deve usar o shampô Piloto. Pi-lo-to. É uma embalagem amarela com um cão pintado, assim..."
E virava a cabeça já cheia de cabelos brancos para a esquerda, empinando o queixo.
Não há estudos sobre o assunto

Mas uma hipótese de trabalho razoável é que quanto mais cedo se marca e se anuncia um casamento, mais cedo ele se desmorona.
O meu amigo P. convidou-me a onze meses de vista. Esteve casado uma semana.
Isto deve ter algum significado.
Subsumindo...
Fissura geodésica

29/11/2003

Shelltox e sangue azul



A praia tinha imenso espaço.
Na realidade, não era uma praia, eram diversas praias.
Quando digo que tinha espaço, digo-o no sentido inverso ao das unidades de densidade b/g.a. (nº de banhistas / nº de grãos de areia), logo:

g.a./b era um número de ordem de grandeza muito considerável (1014).

Isso provavelemente fazia com que cada núcleo familiar ou de amizades tivesse o seu lugar marcado e não houvesse nunca conflitos pela posse de território. A coisa era muito pacífica como cabe ser qualquer vilegiatura.

Mas os tempos mudaram e dos tempos sem electricidade, que ainda gozei, à massificação e a um número incrivelmente baixo de g.a./b (1010), foi o que se viu.
Primeiro veio a electricidade, depois os acessos melhoraram, a seguir o turismo de massas, abriu-se a caixa de Pandora.

Algures na fase de colonização os índios recuaram.
Eu, porém, mantive-me fiel ao local onde sempre tinha desfrutado do famoso banho do sol a pino, onde tinha comido as minhas maçãs-reineta e onde me tinha enlevado com o longínquo som da juke-box da barraca dos gelados.
É claro que me vi rodeado de sétimos de cavalaria (ainda não se tinham lembrado da 101ª aero-transportada), mas a coisa teve as suas compensações, para além da barbatana cheia de água que a tal desconhecida me lançou - ele há desejos que se expressam de forma violenta, mas mais à tarde já me veio pedir um naco do meu Delicô.
Vi-me assim obrigado a não perder um único episódio do "Simplesmente Maria" que os rádios dos vizinhos debitavam aí pela uma da tarde.
Ouvi o homem nortenho que, esperando ansiosamente o cunhado, dizia à mulher: "Bou ber se os beijo!".
Percebi o que queriam dizer os três rapazes que gritavam: "Cada um à sua!". Por sinal, havia uma que não era nada má.
Mas acabaram por me expulsar.
Entretanto, apercebi-me que havia ainda um núcleo de índios resistentes auto-denominado de "Sangue azul" que lutava contra a invasão dos colonos, designados por "Shelltox" (faço aqui um parentesis de indignação por ter constatado que a Shell apagou das suas memórias este utilissimo produto. Não há dúvida que reescrever a história é um passatempo politicamente correcto). Não sei se o sangue se terá tornado da celestial côr em virtude do dito Shelltox, é um caso a apurar.
Mas a verdade é que é debalde o esforço para reconquistar o histórico palmo de areia a que tínhamos direito e que de bom grado cedíamos, um dia por ano, por ocasião da degola de S. João Baptista, quando os montanheiros traziam o arroz de frango para a beira-mar.


Já nas bancas



imagens CNIG
A agenda 2004



Desde sempre que me servem para alguma coisa. Ao princípio, para rabiscar. Depois para escrever-palavras-separadas-por-travessões.
Como pequenos atlas de Portugal (o pico Ramelau, a ilha do Sal, distâncias quilométricas entre Quintanilha e Vila Real de Santo António).
Como tábuas de sinais de trânsito.
Depois ainda, como diários incompletos.
Listas de telefones.
Calendários de testes e exames.
Relatórios de viagem.
Ainda hoje as uso. Já não preciso da lista telefónica, ninguém precisa.
Já não me cinjo aos mapas em pequeno formato, embora ainda me fascinem os sinais de trânsito.
Ainda escrevo nelas, sobretudo rotas cumpridas.
E compromissos menos óbvios, não vão esquecer.
Está pois na altura de começar a insinuar-me junto das instituições habituais para uma borlinha. Uma agenda é coisa barata, mas eu sou português...

imagem em http://www.spaziovirtuale.com.br/brindes.asp (link perdido)

28/11/2003

A rede e o conhecimento instantâneo



Qualquer borra-botas como eu pode alçar-se a comentador do mundo nestes dias de informação na ponta do dedo.
Apetece-lhe discorrer sobre o fitoplâncton e lá estão dezenas de páginas a fornecer-lhe a lenha.
É das campanhas napoleónicas que se trata? Não há azar. Assim se saiba ler francês.
Desde o feijão carrapato à exposição de Paris, passando por todos os versos de Gedeão, não há dificuldade.
Eu que sou um assumido bisbilhoteiro dos motores de busca, já descobri, sem andar à procura, um livro mencionando o nome de um dos meus bisavós como banhista de certa praia. Está portanto tudo lá. Bem, nem tudo. Sobre o grande acidente ferroviário do Rápido do Algarve, nem uma linha.
Mas é sem dúvida a excepção que confirma a regra.
Ora, com tanta facilidade, não é pois de espantar que num ápice se construam teses interessantíssimas sobre tudo.
Dizem-me até que há os que se limitam a transcrever (copy & paste, como se diz agora) o que encontram abandonado.
Será. Eu próprio tenho utilizado como ilustrações, fotografias caçadas aqui e ali. Também é verdade que menciono a sua origem, mas nem sempre posso garantir que o seu autor seja o mesmo que lá a colocou.
Como não ganho dinheiro com isso, não me sinto mal por não ter pedido licença. A verdade é que pedi uma vez (a primeira) e não obtive resposta.
Já estou a afastar-me do tema e a justificar-me muito.
O que eu queria dizer é que basta ler oito ou dez páginas, de preferência em diagonal (esse compromisso entre a escrita esquerda e direita, pois tanto se exerce da esquerda alta para a direita baixa como na diagonal oposta) para termos um artigo de fundo, um ensaio, uma tese.
O conhecimento numa saqueta, três decilitros de água e logo se obtém um caldo de cultura, de onde germinam os mais variados bicharocos, logo lançados ao vento, ao correr da nortada.
A Babel do fim dos tempos.
Será por isso que se mandou, à cautela, a Guarda Nacional Republicana em missão para a "Antiga Babilónia"?

Não consigo perceber o que escrevi.

Os logotipos dos motores de busca foram retirados dos locais correspondentes
À procura de quê?



Um dos fados deste destino (valha-me a redundância) errante, é justamente não saber o que se procura. Mas acha-se.
E em tantos anos de cavalaria mecanizada, achei algumas coisas com as quais não contava.
E achei de tudo, gente, lugares, cheiros, frios e calores.
Estando agora mais ou menos agarrado à secretária, vêm-me à memória esta ou aquela paragem prazenteira.
Hoje, sabe-se lá como, irrompeu a memória de uma curva de estrada.
A noite era de sobreiros.
Uma daquelas noites de breu em que os faróis no montado denso evidenciam estranhas formas, vultos contorcidos, um espectáculo já visto centenas de vezes, mas sempre encantador e misterioso.
Numa curva, uma pequena casa à beira do caminho. Tudo às escuras cá fora.
Pela porta aberta, antevia o ondular da chama de um candeeiro a petróleo, nas trementes sombras recortadas na parede de fundo.
Quando desliguei o motor, ouvi nitidamente a melodia. Cantavam-se modas alentejanas, ainda que ali já fosse Algarve. Tal como em tempos adormecia embalado pelos sons da taberna do outro lado da rua, agora ficava preso ao assento, sem me atrever a entrar e pedir um maço de cigarros. Ali fiquei, sem querer perturbar aquele som, sem divisar as caras dos presentes, sem perceber mais do que sombras recortando-se na parede.

27/11/2003

Aproveitando

Para ver Braga não por um mas por dois canudos...

A tomada da Bastilha



A mim, venderam-me lá para trás a ideia de que uma das razões que levaram a populaça à Bastilha, foi a prosaica intenção de caçar lado a lado com os nobres.
Eu percebo que as pessoas queiram caçar.
Vejo também que a caça é um bem escasso, depois da avalancha de caçadores que a gente sabe.
Já tenho mais dificuldade em entender o critério que faz com que a caça seja livre nuns locais e restrita noutros.
Mas entendo aqueles que aproveitando esta dualidade, fecham as portas.
Não consigo entender é os que querem fazer coutadas em terra alheia.
Que me vêm propor que aceite que eles e só eles cacem nas minhas terras.
Que à trivial pergunta - e o que é que eu ganho com isso? - não tenham resposta.
Posso estar a não ver bem a coisa, mas é ou não é um abuso?
A Tradicional da volta



Afogar as mágoas – é o que se ouve a torto e a direito.
Sem mencionar outras formas mais raras e elaboradas, o método tradicional é afogá-las em álcool.
Faz-me espécie esta tradição.
Para mim, a bebida espirituosa é uma exaltação. Uma droga dos grandes momentos. A antecâmara de todos os prazeres. Nunca um sedativo, uma neblina em que os sentidos se atordoem.
Como não se deve dizer “desta água(ardente) não beberei”, estou assim como que no pago para ver. Para ver se algum dia me sucede, mas acho pouco provável. Eu é mais cafés e cigarros, quando a coisa não vai bem. Bebida é que não.

Ora, aqui há uns bons anos eu e um velho amigo, numa daquelas incursões a petisco, fomos parar para os lados da Estrada de Benfica.
Nada como dantes, como nos tempos do Eça e das tascas da Porcalhota.
Estávamos já de regresso quando o meu companheiro se referiu à tasca como a Tradicional da Volta.
Originalmente, teria sido a Tradicional da Volta do Enterro, pois estava mesmo a jeito. Ali numa das ruas que conduzem, ou que neste caso trazem do cemitério os que cá ainda ficam.
Servia assim para apaziguar os desgostos e animar os figurantes.
Ainda um dia alguém há-de escrever uma obra-prima a propósito do nosso culto dos mortos, desde as anedotas à porta das câmaras mortuárias até aos figurinos de funeral e aqueles parentes que só vemos nessas alturas.
Mas não sendo o caso dos habituais figurantes, que aproveitam sempre a ocasião para molhar a goela, que estranho desígnio está por detrás dessa utilização do álcool como oceano em que se fazem afogar as mágoas?
Parece que agora já só se chama "A Tradicional".

26/11/2003

O mistério de Albergaria

Aqui há atrasado, eu e o amigo Anarcka envolvemo-nos em acesa polémica em torno de Albergaria dos Doze. É público, esteve em todos os jornais.
Dados os acontecimentos recentes, que envolveram o desaparecimento de três tartarugas, recebi um preocupado e-mail do homem.



Assim, cabe-me iniciar a árdua tarefa da defesa da nossa honra.
Em primeiro lugar, somos completamente alheios ao sucedido.
E como estamos interessados no apuramento de toda a verdade, apesar de não me ter sido possível contar com a concordância em tempo útil do amigo Anarcka, decidi avançar com a seguinte contribuição para o apuramento dos factos e das responsabilidades:

Acho que podemos pôr de parte o Ésopo e o Zenão, por manifesta impossibilidade física. Parece que apresentaram ambos os bilhetes do ferry para Creta, na noite dos factos.
Isto foi-me dito por uma das tais fontes, que também acrescentou que havia umas dúvidas.
Parece que o tradutor oficial não tinha a certeza de que os nomes se referissem a passageiros ou ao próprio barco. Eu, por mim, estranho que o barco ostentasse o nome de ambos. Enfim.
Também soube que alegam não se conhecer. Qualquer coisa relacionada com datas de nascimento. Eu cá digo que há boas razões para Ésopo não conhecer Zenão, que nasceu mais de 100 anos depois da suposta morte do primeiro. Agora, a inversa... Poderá Zenão não ter conhecido Ésopo em carne e osso, mas a sua obra já não garanto.
Há aqui um outro elemento baralhador, que de alguma forma inculpa Zenão ou os seus detractores. Não disse ele a Sócrates que não havia movimento? Ora, tendo dito isto, não seria provável que alguém, até o próprio Sócrates, quisesse demonstrar o contrário, usando para tal um animal conotado com Zenão? E Zenão, não faria ele isso para inculpar Sócrates, com base no mesmo raciocínio?
É certo que tudo isto chegou aos ouvidos de Platão por portas e travessas. Mas nunca se sabe.
Quanto a Aquiles, o caso é outro. Nunca se sabe também, quando se trata de super-heróis.
Estou mais inclinado para a lebre. Não terá ela aberto finalmente os olhos? Eu cá não ponho as mãos no lume.
O próprio La Fontaine não disse que sim nem que não. Ele que desmentiu de pronto a autoria da história, dando todo o crédito a Ésopo.
Mas ainda admito outra hipótese, e se foi iniciativa das próprias? Não se terão elas encaminhado para os lados de Litém, trocando assim o acanhado tanque pelas águas do Arunca?
Não sei. Se esta última hipótese fôr a verdadeira, estou em crer que se trata, para além do prazer fluvial de que desfrutarão, de um teste à rapidez de actuação do nosso sistema de informações.
Aqui, ainda não vieram. Os agentes, claro.
Intrigante é o comentário que ouvi, num cruzamento de linhas telefónicas: "Sim. Estão aqui dando sopa." O resto foi inaudível. Mas não se ouve nenhum som que se pudesse confundir com aros.

os meus respeitos ao Correio da Manhã, que é completamente alheio a esta disputa
Eu não devia

Há coisas que não se fazem, eu sei.
Também não gosto de delatores.
Mas esta, desculpem lá, tem que ser.
Eu não tenho culpa que uma inteligência sagaz da companhia dos telefones tenha mandado instalar uma cabina telefónica tão rente, tão rente, à parede da minha velha casa de família que era impossível alguém lavar ou pintar aquele troço de parede.
O certo é que no quarto onde eu dormi as últimas noites em paz, se ouvia tudo o que se dizia ao telefone.
Como a inversa também é verdadeira, suponho, terá havido por certo alguns utilizadores que tiveram dificuldade em entender o seu interlocutor, nas noites em que ressonei mais alto.
Já está vista a anormalidade da coisa e o desrespeito pela privacidade que essa mente iluminada promoveu.
Certa manhã de dia de festa, entre o foguetório e a largada de touros, estando ainda recolhido, comecei a ouvir:

“Estou? Sim, pá, passa-me aí ao Marques.”
...
“Tá, Marques. Estás bom, pá? Olha, estou aqui à rasca!”
...
“Não, não é comigo. É a minha sogra. Estou aqui no hospital.”
...
“Não sei, pá. Mas faz-me lá o favor de dizer ao chefe que eu hoje não vou.”
...
“Ò pá, acho que sim, acho que amanhã já estou.”
...
“Obrigadinho, ò Marques, desculpa lá, pá. Um abraço, até amanhã.”


Não faço a menor ideia de quem era o homem. Só posso dizer que não era lá da zona, pois não tinha sotaque. E dizia muitos pás.
E a coisa passou-se no fim de Agosto de 1999. O mês do eclipse.
Está quase a prescrever.


Saudando o único que me conhece

Dizia eu aqui há uns tempos, que só havia duas pessoas que me conheciam e sabiam que eu escrevia aqui (para além da minha mãe, é claro!).
Uma era um professor de estatística lá da longínqua Atenas.
Outra era o rapaz já aqui citado.
Disse também que a probabilidade de eles aqui entrarem era mínima: um, porque mal percebe português; outro, porque não se interessava.
Sucede que o segundo entrou ontem neste meio. E com muita classe, pois escolheu um nome magnífico.
E por isso, aqui vai o link para o homem. Embora esteja ainda em testes, ele merece.



Um abraço, ò Syllan Zertharias!

25/11/2003

O ecologista precoce



Nos primeiros anos da década de sessenta, havia esse pormenor.
O rapaz não mijava no campo. Exigia uma lata para conter os resíduos orgânicos.
Sem lata, nada feito.
Há pelo menos uma prova documental da coisa. Uma fotografia. Testemunhos há vários. Latas enferrujadas é que já não.
O mistério persiste. De onde vinham as latas necessárias (havia sempre uma no porta-bagagens do carro) e o que lhes aconteceu depois de usadas?
Não é seguro que a razão de tal exigência fosse a excessiva preocupação ambiental.
Há quem defenda que era só o gozo de fazer pontaria.

imagem encontrada em e adaptada

24/11/2003

O utilizador-pagador

Como não está agora (nestes dias) na berra este chavão, e na sequência do post anterior, vou tecer algumas considerações a respeito.
Temos sido bombardeados a espaço com o chamado Princípio do utilizador-pagador.
Utilizador-pagador não é muito difícil perceber o que é. Todos conhecem os papelinhos ou azulejos tradicionais:

Já o Princípio é uma coisa obscura. Não há cão nem gato que não seja a favor ou contra o dito Princípio.
Mas qual Princípio?
Onde é que começa e onde é que acaba?
Aplica-se a quê, como e porquê?
São os doentes e os acidentados que pagam os hospitais?
São os banhistas que pagam a limpeza e a segurança das praias?
São os que circulam nos acessos a Vale Fundo à Pasmaceira que pagam todas as infraestruturas de que usufruem, pontes, estradas, etc.?
Nunca vi um jornalista fazer esta pergunta simples.
Provavelmente, porque a resposta seria, à maneira do Pateta, de mão na boca.



Mas quem fez 75 anos foi o Mickey!

imagem do Zé Povinho em
imagem do Pateta em (link perdido)
Estatuto

Por um lado, o estatuto de blogue incógnito, desconhecido, poderia proporcionar o comentário da actualidade como se faz numa agenda. São tão poucos a ler...
Por outro, o estatuto de anónimo não permite muitas vezes esse comentário. Não se podem comentar os factos, criticar aspectos e manter o anonimato.
Os estatutos escritos deste blogue não o permitem.
A mim, mais me apraz comentar genericamente as coisas, sem atentar à sua importância presente. Muitas vezes relembrando questões que já foram vivas, continuam importantes, mas já morreram nos circuitos da informação.
Um exemplo de um nome a propósito: Zviad Gamsakurdia. Um nome quase obrigatório nos noticiários do tempo em que ruiu a União Soviética. Morto uns anos depois de ter sido deposto. Agora que Chevardnadze também foi apeado, nem uma palavra sobre o histórico líder ibérico morto há dez anos. Não valia a pena ou já ninguém se lembra do nome?
Produtos químicos e naturais

Quando se trata de lugares tão comuns como o são estes, polemizar sobre a sua aplicação enquanto conceito, parece um disparate.
Eu ainda assim acho que merece um bocadinho de reflexão.
O que é uma coisa natural?
Eu entendo que natural é tudo. Tudo sem excepção. E produto químico é tudo o que é produto de uma reacção química. Tudo o que é matéria. Toda a matéria sem excepção.
Porque não consigo identificar a fronteira, estabelecer balizas.
Mas há uma opinião geral que não é essa. É certo que grande parte dos que falam constantemente nestas coisas, não sabem identificar os limites entre o natural e o não-natural, por aí fora.
Mas parece que o entendimento é mais ou menos este: é natural tudo o que existe à face da terra, incluindo o homem, excepto o que é manipulado pelo homem. Mas das coisas manipuladas pelo homem, há ainda excepções, ou seja há coisas que mesmo manipuladas são naturais.
Quanto aos produtos químicos, parecem ser só aqueles que, embora existam na natureza, são obtidos em condições particulares (normalmente em quantidades ou concentrações não existentes) através de reacções químicas, misturas ou processos de separação desencadeados pelo homem, preferencialmente em laboratório.
Esta é a ideia que eu tenho em relação ao que é o entendimento geral.
Mas não consigo encontrar a definição precisa, apurada. Porque há excepções, muitas excepções. E excepções às excepções, e excepções dentro destas.
Tal como na anedota. É certo que um elefante e um eléctrico são ambos amarelos, excepto o elefante.



imagens encontradas em: elefante eléctrico

Separando as vias

23/11/2003

O conto do vigário

Uma abordagem sentimental

O conto do vigário era para mim um conto falso. Nem eu sabia como tinha razão.
Era um conto falso porque quando ouvia falar nele, pedia que mo contassem e a história era sempre diferente. Ora, com o meu reduzido vocabulário mental desses tempos, rotulava logo a história como falsa. Era falsa aquela, a última, e eram falsas todas as outras. Tinha que haver um conto do vigário, único e verdadeiro. Mas ninguém o conhecia, essa é que era essa.
Vem isto a propósito do post ali em baixo, que ostenta a cópia do último que me contaram, ontem à noite.
Mas hoje queria contar um conto do vigário que é falso. É falso porque não se baseia na exploração da agiotagem, mas na dos sentimentos.
Toda a gente sabe que os há assim também, às vezes até com contornos semelhantes aos que exploram a ganância. Mas não me parece que seja o caso deste.
Tal como mo contaram:

"O velho era do sul serrenho. Vivia isolado num monte e não tinha voltado à cidade desde o tempo da tropa. Não tinha família chegada, excepto um sobrinho emigrado algures.
Um dia recebeu uma carta do sobrinho, anunciando-lhe a próxima chegada a Lisboa.
O velho não hesitou. No dia aprazado, meteu-se no comboio e lá foi, à procura do que lhe sobrava do sangue.
Como não é difícil de explicar em tais circunstâncias, desencontrou-se do sobrinho.
E resolveu afogar as mágoas numa taberna, junto à estação fluvial enquanto esperava o barco de regresso.
Nestas coisas, há sempre um vigarista por perto senão não havia conto. O homem encostado ao balcão já se lamentava da sua pouca sorte a quem o quisesse ouvir, e particularmente com o dono da tasca.
Tanto o fez e tanto bebeu, que lá deixou aparecer a ponta das notas que trazia na carteira ao pagar mais uma rodada.
O espertalhão deve ter-se chegado nessa altura.
E se calhar até pagou um copo ao homem.
Estava disposto a ouvi-lo. Deixou o velho falar, beber, falar. Quando o achou no ponto sugeriu-lhe que fossem companheiros de viagem, afinal ele também ia para o sul.
Pouco depois, para o confortar ainda mais, já lhe dizia que o tratasse por sobrinho. Afinal, tinha perdido o sobrinho mas tinha o encontrado a ele.
E assim fizeram. Eram já tio e sobrinho quando atravessaram o rio e se instalaram no comboio do sul.
Não tardou muito que o velho não adormecesse. Antes houvera tempo para se apresentarem como familiares aos circunstantes.
Quando o comboio se aproximou de uma estação, o patife anunciou aos companheiros de viagem que ia pregar uma partida ao tio, ia esconder-lhe a carteira. Afinal, tinham já galhofado um belo bocado.
"

Quem me contou a história, tomou contacto com ela no momento em que o velho desatou aos berros, respondendo aos que o animavam: "Qual sobrinho! Nunca o vi mais gordo!"