18/12/2003
Paris
A maior parte das vezes que qualquer de nós se encontra em meio desconhecido, o que é que sucede?
Ou temos connosco o micro-cosmos suficiente para fecharmos um universo próprio, independentemente de estarmos sòzinhos ou não, ou ficamos na defensiva a ver em que é que param as modas.
O que é invulgar e insólito é que, no mesmo lugar, se reúnam ao mesmo tempo, várias pessoas nas mesmas circunstâncias de alheamento ao local e às restantes, como que de um albergue nocturno se tratasse.
E que esse facto seja simultâneamente verificado por todos, dando lugar a uma aproximação estranha mas leal, como a que aparentemente temos sempre com o desconhecido não-invasor.
Foi de um ambiente desses, cada vez mais raro, que falámos há pouco. Não se trata de antecâmaras de aeroporto, de enfermarias de hospital de campanha, de carros parqueados em filas paralelas num grande engarrafamento, trata-se de Paris.
Da cidade das luzes ou da cidade-luz. Bizarrias.
imagem escandalosamente roubada aqui
A maior parte das vezes que qualquer de nós se encontra em meio desconhecido, o que é que sucede?
Ou temos connosco o micro-cosmos suficiente para fecharmos um universo próprio, independentemente de estarmos sòzinhos ou não, ou ficamos na defensiva a ver em que é que param as modas.
O que é invulgar e insólito é que, no mesmo lugar, se reúnam ao mesmo tempo, várias pessoas nas mesmas circunstâncias de alheamento ao local e às restantes, como que de um albergue nocturno se tratasse.
E que esse facto seja simultâneamente verificado por todos, dando lugar a uma aproximação estranha mas leal, como a que aparentemente temos sempre com o desconhecido não-invasor.
Foi de um ambiente desses, cada vez mais raro, que falámos há pouco. Não se trata de antecâmaras de aeroporto, de enfermarias de hospital de campanha, de carros parqueados em filas paralelas num grande engarrafamento, trata-se de Paris.
Da cidade das luzes ou da cidade-luz. Bizarrias.
imagem escandalosamente roubada aqui
A cadelinha plebeia
Estava prometida há anos, a cadelinha que os meus amigos nos deram há um ano e tal.
É filha de pais inscritos no Livro de Origens Português (LOP), logo poderia igualmente ter a sua inscrição no dito livro.
Sucede que, para tal e ao que me disseram, torna-se agora necessário submeter os animais a uma de duas intervenções: ou são tatuados ou se lhes insere um micro-chip.
Mais estranho: estando os pais já registados, para inscrever a ninhada era necessário fazer o mesmo aos pais, embora o regulamento não estivesse em vigor à data em que aqueles nasceram, tendo assim sido registados sem que nada disso fosse necessário.
Ninguém quis fazer isso aos cães, nem os donos dos progenitores nem os promitentes curadores dos elementos da ninhada. Logo, temos uma cambada de plebeus filhos de pais incógnitos, como era uso com os humanos nascidos em circunstâncias reprovadas, de pais fidalgos.
Só umas questões me atormentam o espírito:
Qual é o objectivo destas normas?
Se uma tatuagem é quase impossível de apagar, não é de todo impraticável viciá-la.
Um micro-chip é obviamente fácil de remover e recolocar.
E o que é que vale quando se registam cães, não é a palavra do dono?
Fazem-se alguns testes para confirmar a progenitura?
É certo que isto são banalidades, mas devem ter algum interesse para quem ganha dinheiro com estas coisas.
E sim, a cadela é um espectáculo. Mas o cão também é e desse não se sabe mesmo quem é o pai, nem sequer que tipo de cão era. Sabe-se que a mãe era boxer e que ele tem apenas vagas parecenças com a raça. E o que é que isso interessa?
Estava prometida há anos, a cadelinha que os meus amigos nos deram há um ano e tal.
É filha de pais inscritos no Livro de Origens Português (LOP), logo poderia igualmente ter a sua inscrição no dito livro.
Sucede que, para tal e ao que me disseram, torna-se agora necessário submeter os animais a uma de duas intervenções: ou são tatuados ou se lhes insere um micro-chip.
Mais estranho: estando os pais já registados, para inscrever a ninhada era necessário fazer o mesmo aos pais, embora o regulamento não estivesse em vigor à data em que aqueles nasceram, tendo assim sido registados sem que nada disso fosse necessário.
Ninguém quis fazer isso aos cães, nem os donos dos progenitores nem os promitentes curadores dos elementos da ninhada. Logo, temos uma cambada de plebeus filhos de pais incógnitos, como era uso com os humanos nascidos em circunstâncias reprovadas, de pais fidalgos.
Só umas questões me atormentam o espírito:
Qual é o objectivo destas normas?
Se uma tatuagem é quase impossível de apagar, não é de todo impraticável viciá-la.
Um micro-chip é obviamente fácil de remover e recolocar.
E o que é que vale quando se registam cães, não é a palavra do dono?
Fazem-se alguns testes para confirmar a progenitura?
É certo que isto são banalidades, mas devem ter algum interesse para quem ganha dinheiro com estas coisas.
E sim, a cadela é um espectáculo. Mas o cão também é e desse não se sabe mesmo quem é o pai, nem sequer que tipo de cão era. Sabe-se que a mãe era boxer e que ele tem apenas vagas parecenças com a raça. E o que é que isso interessa?
17/12/2003
Valsas putrefactas em cima de uma mesa de pedra, lá no quintal
Ora evoluíam pelo roseiral bravio,
Ora se reorganizavam sob o zimbório que rematava o fundo do jardim.
Tudo isto numa intenção clara de apaziguar a primavera acendida
Sob o deleite que a alcoolemia lhes proporcionava no verde.
Mesmo que à porta lateral do pavilhão onde repousava o esquife
Chegassem acordes de música
Aos ouvidos dos correligionários enlutados
Que teciam pálidos encómios ao defunto
E exercitavam apetecidos conceitos de infelicidade.
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Ora evoluíam pelo roseiral bravio,
Ora se reorganizavam sob o zimbório que rematava o fundo do jardim.
Tudo isto numa intenção clara de apaziguar a primavera acendida
Sob o deleite que a alcoolemia lhes proporcionava no verde.
Mesmo que à porta lateral do pavilhão onde repousava o esquife
Chegassem acordes de música
Aos ouvidos dos correligionários enlutados
Que teciam pálidos encómios ao defunto
E exercitavam apetecidos conceitos de infelicidade.
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
16/12/2003
Hat-trick
Houve um tempo em que seguíamos também a tabuada dos golos.
1-0, 0-1, 1-1, por aí fora.
Como na bola, estes eram os resultados habituais. Os empates a zero eram também numerosos, havia uma infinidade de penalties desperdiçados por falta de concentração.
Mas, volta e meia, uma goleada.
Na nossa estranha contabilidade, só se conseguia construir um resultado volumoso quando a equipa era grande.
Dessa vez, se a memória me não atraiçoa, éramos quatro.
E elas eram umas oito.
Foi má leitura de jogo por parte do treinador.
O certo é que já estávamos em campo e não havia tempo para recrutar novos reforços. Fomos à luta.
Depois de algumas jogadas individuais, já o automatismo da equipa adversária estava percebido, encontro o M.C. no bar.
"E atão? Como é que é?" - disparou ele.
"Como é que é? É assim: A mais interessante para mim é a que se atracou ao S. A que eu gostava de marcar é aquela magrinha, dos olhos grandes. Mas a que está a descair para o meu lado é a matulona do cabelo preto. Lá da RDMNA. Vou então ver o que é que dá a magrinha, se não der, a minha escolha é a matulona."
"Porra, queres tudo para ti. Logo três!"
"Não, M." - eu a ver que ele queria a matulona - "Podes ficar com as outras, eu fico com a que caiu cá para o meu lado. Não há crise, podes escolher a magrinha."
"Porra, queres logo as três."
"Não, homem, só quero a matulona, não quero nenhum hat-trick."
Ele lá se foi, a matulona caiu mesmo para o meu lado. O P.P. já tinha a dele certa. O S. a mais bonita. E o M.C. ficou com uma que agora me não lembro. O certo é que foram elas que escolheram. As outras quatro, entre as quais a magrinha, recolheram aos balneários. Não houve hat-trick para ninguém. Elas ganharam 0-4. Ah, esquecia-me! Hat-trick são três, toda a gente que lê jornais desportivos sabe disso.
coelhinho em
Houve um tempo em que seguíamos também a tabuada dos golos.
1-0, 0-1, 1-1, por aí fora.
Como na bola, estes eram os resultados habituais. Os empates a zero eram também numerosos, havia uma infinidade de penalties desperdiçados por falta de concentração.
Mas, volta e meia, uma goleada.
Na nossa estranha contabilidade, só se conseguia construir um resultado volumoso quando a equipa era grande.
Dessa vez, se a memória me não atraiçoa, éramos quatro.
E elas eram umas oito.
Foi má leitura de jogo por parte do treinador.
O certo é que já estávamos em campo e não havia tempo para recrutar novos reforços. Fomos à luta.
Depois de algumas jogadas individuais, já o automatismo da equipa adversária estava percebido, encontro o M.C. no bar.
"E atão? Como é que é?" - disparou ele.
"Como é que é? É assim: A mais interessante para mim é a que se atracou ao S. A que eu gostava de marcar é aquela magrinha, dos olhos grandes. Mas a que está a descair para o meu lado é a matulona do cabelo preto. Lá da RDMNA. Vou então ver o que é que dá a magrinha, se não der, a minha escolha é a matulona."
"Porra, queres tudo para ti. Logo três!"
"Não, M." - eu a ver que ele queria a matulona - "Podes ficar com as outras, eu fico com a que caiu cá para o meu lado. Não há crise, podes escolher a magrinha."
"Porra, queres logo as três."
"Não, homem, só quero a matulona, não quero nenhum hat-trick."
Ele lá se foi, a matulona caiu mesmo para o meu lado. O P.P. já tinha a dele certa. O S. a mais bonita. E o M.C. ficou com uma que agora me não lembro. O certo é que foram elas que escolheram. As outras quatro, entre as quais a magrinha, recolheram aos balneários. Não houve hat-trick para ninguém. Elas ganharam 0-4. Ah, esquecia-me! Hat-trick são três, toda a gente que lê jornais desportivos sabe disso.
coelhinho em
Gasolim e a estrada
Já aqui disse que não compreendia o argumento segundo o qual as pessoas se transfiguram ao volante, fazendo as maiores atrocidades.
Basta estar atento em todo o lado, por alguns momentos, para nos apercebermos de que os mesmos comportamentos bizarros se verificam também fora das caixas de lata.
A questão é que as caixas de lata derivam em caixões. E em mísseis mal guiados.
Fossem os telemóveis, os chapéus de chuva, os carrinhos de supermercado, as cadeiras de restaurante, as senhas de vez, armas letais e então ver-se-ia.
Não sou exemplo para ninguém. Não venho dar lições nenhumas.
Mas se há ou não um mal generalizado nas nossas estradas, é bom que se estude o assunto de forma racional.
Começando por perceber o que é que se passa.
Uma das coisas que conhecemos mal são as efectivas causas dos acidentes.
Primeiro, porque os próprios intervenientes quando sobrevivem, não sabem ou não querem perceber as causas.
Segundo, porque os elementos que as autoridades apuram são manifestamente insuficientes. Estas limitam-se a enquadrar numa tabela incompleta mais ou menos o que lhes parece.
Terceiro, porque há uma espécie de véu sobre as coisas, que permite que se construam mal as estradas, que as sinalizem mal e que se passem licenças de condução a qualquer um.
Não vou abordar aqui aquilo de que outros estão fartos de falar.
Apenas recordo e chamo a atenção para aspectos de que se têm esquecido.
Há anos, havia na rádio um programa interessante sobre a estrada. Nesse programa, ouvi com o mesmo pasmo do apresentador, um ministro dizer que agora é que se iam acabar com os acidentes! Era de calcular que fôssemos longe com tão ridículas sentenças.
Basta apreciar o relatório da sinistralidade da DGV para perceber várias coisas:
Existe um sem-número de dados estatísticos não relevantes.
Existe uma tabela de causas mal elaborada.
Algumas tabelas relevantes deviam ser ponderadas proporcionalmente (ex: nº de acidentes por idade de veículo, por idade de condutor, por anos de carta)
Percebe-se que não é o álcool que causa agora os acidentes (isto não tem nada a ver com a justeza da penalização!), mas ajuda saber que para combater a sinistralidade é preciso virar a atenção para outros lados e não bater sempre na mesma tecla.
E que a confusão entre excesso de velocidade e velocidade excessiva também não ajuda.
Uma coisa é exceder os limites impostos, outra completamente diferente é não ter noção nenhuma de qual a velocidade adequada em determinadas circunstâncias (as atmosféricas, o carro, a estrada, a capacidade do condutor).
Já vi pessoas despistarem-se e quase morrerem a 20 Km/h! É que não convém confundir os pedais de travão e de acelerador num gancho sobre um precipício.
Lá vem mais uma época de funerais.
Pai Natal em
Já aqui disse que não compreendia o argumento segundo o qual as pessoas se transfiguram ao volante, fazendo as maiores atrocidades.
Basta estar atento em todo o lado, por alguns momentos, para nos apercebermos de que os mesmos comportamentos bizarros se verificam também fora das caixas de lata.
A questão é que as caixas de lata derivam em caixões. E em mísseis mal guiados.
Fossem os telemóveis, os chapéus de chuva, os carrinhos de supermercado, as cadeiras de restaurante, as senhas de vez, armas letais e então ver-se-ia.
Não sou exemplo para ninguém. Não venho dar lições nenhumas.
Mas se há ou não um mal generalizado nas nossas estradas, é bom que se estude o assunto de forma racional.
Começando por perceber o que é que se passa.
Uma das coisas que conhecemos mal são as efectivas causas dos acidentes.
Primeiro, porque os próprios intervenientes quando sobrevivem, não sabem ou não querem perceber as causas.
Segundo, porque os elementos que as autoridades apuram são manifestamente insuficientes. Estas limitam-se a enquadrar numa tabela incompleta mais ou menos o que lhes parece.
Terceiro, porque há uma espécie de véu sobre as coisas, que permite que se construam mal as estradas, que as sinalizem mal e que se passem licenças de condução a qualquer um.
Não vou abordar aqui aquilo de que outros estão fartos de falar.
Apenas recordo e chamo a atenção para aspectos de que se têm esquecido.
Há anos, havia na rádio um programa interessante sobre a estrada. Nesse programa, ouvi com o mesmo pasmo do apresentador, um ministro dizer que agora é que se iam acabar com os acidentes! Era de calcular que fôssemos longe com tão ridículas sentenças.
Basta apreciar o relatório da sinistralidade da DGV para perceber várias coisas:
Existe um sem-número de dados estatísticos não relevantes.
Existe uma tabela de causas mal elaborada.
Algumas tabelas relevantes deviam ser ponderadas proporcionalmente (ex: nº de acidentes por idade de veículo, por idade de condutor, por anos de carta)
Percebe-se que não é o álcool que causa agora os acidentes (isto não tem nada a ver com a justeza da penalização!), mas ajuda saber que para combater a sinistralidade é preciso virar a atenção para outros lados e não bater sempre na mesma tecla.
E que a confusão entre excesso de velocidade e velocidade excessiva também não ajuda.
Uma coisa é exceder os limites impostos, outra completamente diferente é não ter noção nenhuma de qual a velocidade adequada em determinadas circunstâncias (as atmosféricas, o carro, a estrada, a capacidade do condutor).
Já vi pessoas despistarem-se e quase morrerem a 20 Km/h! É que não convém confundir os pedais de travão e de acelerador num gancho sobre um precipício.
Lá vem mais uma época de funerais.
Pai Natal em
15/12/2003
Gasolim a ver passar os outros
Não é só na Finlândia que as câmaras captam imagens interessantes.
Esta é nossa.
câmaras do IEP aqui
Não é só na Finlândia que as câmaras captam imagens interessantes.
Esta é nossa.
câmaras do IEP aqui
Escantilhões e impressoras
Não é nada que eu não tivesse previsto.
Quando um professor dizia que, com a chegada do CAD, se iria perder toda a marca pessoal no desenho técnico, as perspectivas aguareladas, os cortes chinesamente pormenorizados, até as borras de café e as queimadelas de morrão, já eu tinha outros temores.
E os simples processadores de texto, com as suas potencialidades?
O que fariam aos letreiros das tabernas com letras invertidas?
E aos dos vendesse melões?
E a todos os outros, em cartão rasgado, em papel pardo, em madeira de caixa de fruta, em lata, sobre um muro?
Aqui Há isco? Uvas a 500M? Vinho a granel? Sandes diverças? Há Queijo cabreiro?
Sejamos optimistas. Não se vão todos.
Em primeiro lugar, apesar de até eu ter acesso a um computador, ainda há muita gente que foge deles como o diabo da cruz. E nem toda a gente tem a sorte de ter ao pé da porta o tal tipo que tem a filha com jeito pó desenho.
Os que usam a impressora agora, são os mesmos que usavam o escantilhão verde e preenchiam todo o espaço aberto, são os que compravam letras auto-colantes ou decalcáveis.
Em segundo lugar, não se compram plotters de grandes dimensões para compôr cartazes numa parede cega “Servem-se grelhados”. A coisa reduz-se ao A4. E o A4 não aguenta com tudo.
Em terceiro lugar, há os porque não. Não é que não tenham acesso a um computador ou que não sejam capazes de fazer seja o que fôr com ele. É porque não.
Mas digo adeus às letras invertidas no pequeno formato. O trabalhão que dá arranjar e instalar um alfabeto cirílico para obter os NN e os RR? E os SS, então? Era preciso editar os caracteres.
Mas há em contrapartida essa inesperada mais-valia do processador de texto, a letra em acordeão, a letra perspectivada, a letra em curva, uma panóplia de estilos e de cores.
Mas nada, nada bate o pequeno aviso da ARESP, ou não dissesse ele que é vedado o acesso a quem penetrar nas zonas de acesso vedado.
Não acredita? Veja em qualquer café aí para os seus lados. É um aviso azul.
Não é nada que eu não tivesse previsto.
Quando um professor dizia que, com a chegada do CAD, se iria perder toda a marca pessoal no desenho técnico, as perspectivas aguareladas, os cortes chinesamente pormenorizados, até as borras de café e as queimadelas de morrão, já eu tinha outros temores.
E os simples processadores de texto, com as suas potencialidades?
O que fariam aos letreiros das tabernas com letras invertidas?
E aos dos vendesse melões?
E a todos os outros, em cartão rasgado, em papel pardo, em madeira de caixa de fruta, em lata, sobre um muro?
Aqui Há isco? Uvas a 500M? Vinho a granel? Sandes diverças? Há Queijo cabreiro?
Sejamos optimistas. Não se vão todos.
Em primeiro lugar, apesar de até eu ter acesso a um computador, ainda há muita gente que foge deles como o diabo da cruz. E nem toda a gente tem a sorte de ter ao pé da porta o tal tipo que tem a filha com jeito pó desenho.
Os que usam a impressora agora, são os mesmos que usavam o escantilhão verde e preenchiam todo o espaço aberto, são os que compravam letras auto-colantes ou decalcáveis.
Em segundo lugar, não se compram plotters de grandes dimensões para compôr cartazes numa parede cega “Servem-se grelhados”. A coisa reduz-se ao A4. E o A4 não aguenta com tudo.
Em terceiro lugar, há os porque não. Não é que não tenham acesso a um computador ou que não sejam capazes de fazer seja o que fôr com ele. É porque não.
Mas digo adeus às letras invertidas no pequeno formato. O trabalhão que dá arranjar e instalar um alfabeto cirílico para obter os NN e os RR? E os SS, então? Era preciso editar os caracteres.
Mas há em contrapartida essa inesperada mais-valia do processador de texto, a letra em acordeão, a letra perspectivada, a letra em curva, uma panóplia de estilos e de cores.
Mas nada, nada bate o pequeno aviso da ARESP, ou não dissesse ele que é vedado o acesso a quem penetrar nas zonas de acesso vedado.
Não acredita? Veja em qualquer café aí para os seus lados. É um aviso azul.
14/12/2003
As barbas de molho
Ora aqui estamos, no meio do frenesim habitual das últimas notícias.
E basta fazer um zapping à balda para nos regalarmos com uma quantidade substancial de anedotas. Em todas as línguas, nos mais diversos canais.
Há uma que hoje bate as outras:
Que eu saiba, começou nas televisões americanas e já se ouviu em português.
Trata-se do escanhoamento do homem.
A crer no que foi dito na imprensa, teria sido necessário fazer a barba ao preso para o identificar.
Se isto não é uma anedota, se é a sério, arre macho.
O pior é se Ibn Laden resolve rapar a cara. Vão ser necessários uns meses de barba a crescer para o identificar. Estou a brincar, a esta hora já os serviços secretos encomendaram a um perito uma barba postiça igual à das fotografias.
Ora aqui estamos, no meio do frenesim habitual das últimas notícias.
E basta fazer um zapping à balda para nos regalarmos com uma quantidade substancial de anedotas. Em todas as línguas, nos mais diversos canais.
Há uma que hoje bate as outras:
Que eu saiba, começou nas televisões americanas e já se ouviu em português.
Trata-se do escanhoamento do homem.
A crer no que foi dito na imprensa, teria sido necessário fazer a barba ao preso para o identificar.
Se isto não é uma anedota, se é a sério, arre macho.
O pior é se Ibn Laden resolve rapar a cara. Vão ser necessários uns meses de barba a crescer para o identificar. Estou a brincar, a esta hora já os serviços secretos encomendaram a um perito uma barba postiça igual à das fotografias.
Das duas, três
Ou a estranha impossibilidade de alguns lerem o português, embora seja uma das dez línguas mais faladas no mundo. E seguramente entendível, na forma escrita, pela hispanidade.
Ou a tentativa de me afundarem sob o peso de milhões e milhões de dólares.
Ou, de facto, tenho cara e e-mail de labrego.
Não sei a qual das hipóteses se deve, mas lá recebi mais um aviso prometedor. Desta feita são 2.000.000 USD.
A juntar aos 5,45 e ao 0,5 das anteriores, o bolo já vai em 7,95 megas.
Não faço a menor ideia de quantos mais terão este Natal sido contemplados com tantos Los Gordos, mas com três sorteios a meu favor, já quase igualo o recorde que detenho na barraca das panelas, onde consecutivamente, e para gaúdio dos soldados que me cortejavam a criada, arrematei lá para casa um novo trem de cozinha.
Das duas vezes anteriores, publiquei aqui o mail ganhador e das duas vezes aqui vieram espreitar ou camaradas meus ou os próprios benfeitores, na esperança de entreverem na minha face uma plácida lágrima de contentamento.
Não lhes goro a pesquisa. Sejam benvindos.
"HEAD OFFICE
EURO-AFRO SWEEPSTAKE LOTTERY NL.
BURDENSTREET 21B
1053 DS AMSTERDAM, THE NERTHERLANDS.
FROM: THE DESK OF THE MANAGING DIRECTOR
INTERNATIONAL PROMOTION PRIZE AWARD DEPT.
REF: HWS/2001130802
BATCH: 18/203/JJS.
DATE: 04/0
/2003
Attention:Sir,Madam
WINNING NOTIFICATION.
We are pleased to inform you about the release today the 10th of
december 2003 of the ERO-AFRO SWEEPSTAKE LOTTERY INTERNATIONAL
PROGRAMMS held on the 28th june 2003, Your company name atta
he
toticket number: 564 ?75600545 ? 188 with serial number 5388/02
drew the lucky numbers:3-11-27-30-34 41, which consequently won the lottery
inthe 2ndcategory. You have therefore bee
approve or a lump sum pay out of UD$2MILLION in cash credited
to file HWS/200118308/02.This
is from a total cash prize of US$20MILLION share! among the ten international
lucky winners in this category. Furth
rmore, your lucky winning number alls within our NORTH AMERICAN booklet
representative office in CANADA indicated in your play coupon. In view of
this, your US$2,000,000.00 (Two million US Dollars) would be released to
you by our COMPANY regional
branch office in CANADA ,CONGRATULATION.Take no that 20 million email addresser
was drawn out from
net and many people won both in the first and second
and third category. Your fund has been therefore deposited with the CANADIAN
COMPANY in your name from where it would be released to your nominated
bank account. Due to the mixed up of some numbers an names, we ask that
you keep this a top secrect from the public notice until your claim has
been processed and your money remitted to your account
as this is part of security protocols to avoid double claiming or unwarranted
taking advantage of his programs by participats. To begin your claim,you
should first acknowledge
receipt of this notification through the above emailaddress Endevour to
include your full recent contact address,telephone/fax numbers and your
bank account details were you want this fund to be remitted to you As soon
as you confirm receipt of this notification, you shall be advised/directedon
how to contact the CANADIAN COMPANY for processing and remittance of your
funds to your nominated bank account. Remmbe ,Al winnings must be claim
not later than 31st of december 2003. and after this date all be returned
as unclaimed. NOTE: In order to avoid unnecessary delays and complications,
please remember to quote your reference and batch numbers
every correspondnce. Furthermore , should there be any change of your address,
do inform us as soon as possible. Congratulations again from all members
of the staff and thank you being part of our promotional program.
Sincerely yours,
DrEdward
Thompson"
O e-mail de contacto é ethompsonall@tiscali.co.uk
P.S. A moeda desta vez não é U.S.Dollars Only. Aproveito para dizer aos organizadores destas notáveis quermesses que, em português, é mais bonito dizer que o prémio é logo de 2.000.000 de dólares, em vez de 2.000.000 de dólares só. Isso cheira a falsa modéstia e a novo-riquismo.
P.P.S. Adorarei ler a tradução instantânea disto tudo, mais uma vez. É talvez por isso que eles também insistem.
Ou a estranha impossibilidade de alguns lerem o português, embora seja uma das dez línguas mais faladas no mundo. E seguramente entendível, na forma escrita, pela hispanidade.
Ou a tentativa de me afundarem sob o peso de milhões e milhões de dólares.
Ou, de facto, tenho cara e e-mail de labrego.
Não sei a qual das hipóteses se deve, mas lá recebi mais um aviso prometedor. Desta feita são 2.000.000 USD.
A juntar aos 5,45 e ao 0,5 das anteriores, o bolo já vai em 7,95 megas.
Não faço a menor ideia de quantos mais terão este Natal sido contemplados com tantos Los Gordos, mas com três sorteios a meu favor, já quase igualo o recorde que detenho na barraca das panelas, onde consecutivamente, e para gaúdio dos soldados que me cortejavam a criada, arrematei lá para casa um novo trem de cozinha.
Das duas vezes anteriores, publiquei aqui o mail ganhador e das duas vezes aqui vieram espreitar ou camaradas meus ou os próprios benfeitores, na esperança de entreverem na minha face uma plácida lágrima de contentamento.
Não lhes goro a pesquisa. Sejam benvindos.
"HEAD OFFICE
EURO-AFRO SWEEPSTAKE LOTTERY NL.
BURDENSTREET 21B
1053 DS AMSTERDAM, THE NERTHERLANDS.
FROM: THE DESK OF THE MANAGING DIRECTOR
INTERNATIONAL PROMOTION PRIZE AWARD DEPT.
REF: HWS/2001130802
BATCH: 18/203/JJS.
DATE: 04/0
/2003
Attention:Sir,Madam
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We are pleased to inform you about the release today the 10th of
december 2003 of the ERO-AFRO SWEEPSTAKE LOTTERY INTERNATIONAL
PROGRAMMS held on the 28th june 2003, Your company name atta
he
toticket number: 564 ?75600545 ? 188 with serial number 5388/02
drew the lucky numbers:3-11-27-30-34 41, which consequently won the lottery
inthe 2ndcategory. You have therefore bee
approve or a lump sum pay out of UD$2MILLION in cash credited
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is from a total cash prize of US$20MILLION share! among the ten international
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rmore, your lucky winning number alls within our NORTH AMERICAN booklet
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this, your US$2,000,000.00 (Two million US Dollars) would be released to
you by our COMPANY regional
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was drawn out from
net and many people won both in the first and second
and third category. Your fund has been therefore deposited with the CANADIAN
COMPANY in your name from where it would be released to your nominated
bank account. Due to the mixed up of some numbers an names, we ask that
you keep this a top secrect from the public notice until your claim has
been processed and your money remitted to your account
as this is part of security protocols to avoid double claiming or unwarranted
taking advantage of his programs by participats. To begin your claim,you
should first acknowledge
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include your full recent contact address,telephone/fax numbers and your
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as you confirm receipt of this notification, you shall be advised/directedon
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not later than 31st of december 2003. and after this date all be returned
as unclaimed. NOTE: In order to avoid unnecessary delays and complications,
please remember to quote your reference and batch numbers
every correspondnce. Furthermore , should there be any change of your address,
do inform us as soon as possible. Congratulations again from all members
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Sincerely yours,
DrEdward
Thompson"
O e-mail de contacto é ethompsonall@tiscali.co.uk
P.S. A moeda desta vez não é U.S.Dollars Only. Aproveito para dizer aos organizadores destas notáveis quermesses que, em português, é mais bonito dizer que o prémio é logo de 2.000.000 de dólares, em vez de 2.000.000 de dólares só. Isso cheira a falsa modéstia e a novo-riquismo.
P.P.S. Adorarei ler a tradução instantânea disto tudo, mais uma vez. É talvez por isso que eles também insistem.
A porta do largo
O blogue não é suficiente. Aliás, o blogue não é o local adequado.
Sendo um blogue quase anónimo, não posso reagir aqui aos acontecimentos.
Tenho assim um grave problema para resolver.
Quando tinha a porta do largo, aberta ao centro da vila, bastava-me encomendar um púlpito de madeira de castanho a um bom marceneiro e colocá-lo depois ao lado da cabina telefónica.
Assim, de peito aberto, e devidamente identificado pelos presentes, por ser pessoa da sua lidação, poderia livremente exprimir os meus pontos de vista sobre o que se está a passar.
Teria, obviamente, que me aconselhar com este e com aquele sobre quais os assuntos que mereceriam a minha reacção a tempo.
Mas assim, estou de mãos atadas.
Já não disponho da porta do largo.
A varanda do monte só dá para o montado. Não há ali vizinhos interessados em ouvir as minhas doutas sentenças. O cais das traseiras é avistável da estrada, mas a estrada é particular (a Câmara nunca me deu um chavo por a ter alcatroado e chamado sua – sou muito mal agradecido, não sou?)
Resta-me virar para o outro lado e continuar a acompanhar a situação.
A má qualidade da imagem é propositada
O blogue não é suficiente. Aliás, o blogue não é o local adequado.
Sendo um blogue quase anónimo, não posso reagir aqui aos acontecimentos.
Tenho assim um grave problema para resolver.
Quando tinha a porta do largo, aberta ao centro da vila, bastava-me encomendar um púlpito de madeira de castanho a um bom marceneiro e colocá-lo depois ao lado da cabina telefónica.
Assim, de peito aberto, e devidamente identificado pelos presentes, por ser pessoa da sua lidação, poderia livremente exprimir os meus pontos de vista sobre o que se está a passar.
Teria, obviamente, que me aconselhar com este e com aquele sobre quais os assuntos que mereceriam a minha reacção a tempo.
Mas assim, estou de mãos atadas.
Já não disponho da porta do largo.
A varanda do monte só dá para o montado. Não há ali vizinhos interessados em ouvir as minhas doutas sentenças. O cais das traseiras é avistável da estrada, mas a estrada é particular (a Câmara nunca me deu um chavo por a ter alcatroado e chamado sua – sou muito mal agradecido, não sou?)
Resta-me virar para o outro lado e continuar a acompanhar a situação.
A má qualidade da imagem é propositada
Falta uma foto
É verdade! Falta aqui uma foto.
Segundo um dos meus primos, deve ser tirada à porta do monte, a cavalo e de cajado na mão, com a família ao lado, alinhada segundo o protocolo.
Em plano anterior, os cães. Se possível uma galinha peada por um baraço mas nenhum gato.
Talvez um garrafão displicentemente colocado a um canto, também ele amarrado.
Não sei. Talvez a tire. Também não sei a quem é que hei-de pedir o cavalo emprestado. É melhor não.
Tudo apeado.
Eu depois dou vaia ou coloco-a aqui.
imagem de
É verdade! Falta aqui uma foto.
Segundo um dos meus primos, deve ser tirada à porta do monte, a cavalo e de cajado na mão, com a família ao lado, alinhada segundo o protocolo.
Em plano anterior, os cães. Se possível uma galinha peada por um baraço mas nenhum gato.
Talvez um garrafão displicentemente colocado a um canto, também ele amarrado.
Não sei. Talvez a tire. Também não sei a quem é que hei-de pedir o cavalo emprestado. É melhor não.
Tudo apeado.
Eu depois dou vaia ou coloco-a aqui.
imagem de
13/12/2003
Vou escrever um livro
Escrever não é bem.
É a rogo.
Encomendei a um discípulo de La Fontaine uma biografia minha.
Não é para ser O Fabuloso Mundo de H Gasolim. Não.
É outra coisa.
É uma exo-auto-biografia feita por animais e plantas.
Ele vai chamar os meus cães e ouvir as suas queixas.
Vai entrevistar os pássaros na gaiola. É possível que não consiga nada do rabugento.
Terá o depoimento de muitos chaparros e azinheiras.
Vai notificar os porcos dos caseiros e entrevistá-los um a um.
Contará também com o contributo inestimável de ovelhas e vacas.
Já não poderá infelizmente auscultar a opinião das galinhas há muito desinstaladas nos ramos da velha oliveira.
Mas ainda assim, já encomendei as faixas amarelas. Também elas falam.
Que tal?
Na foto, é mesmo o meu querido cão. A capa está uma trampa, tirando o cão. Vejam bem o título às escadinhas. Encomendei-a a um tipo que tem uma filha com jeito pó desenho
Escrever não é bem.
É a rogo.
Encomendei a um discípulo de La Fontaine uma biografia minha.
Não é para ser O Fabuloso Mundo de H Gasolim. Não.
É outra coisa.
É uma exo-auto-biografia feita por animais e plantas.
Ele vai chamar os meus cães e ouvir as suas queixas.
Vai entrevistar os pássaros na gaiola. É possível que não consiga nada do rabugento.
Terá o depoimento de muitos chaparros e azinheiras.
Vai notificar os porcos dos caseiros e entrevistá-los um a um.
Contará também com o contributo inestimável de ovelhas e vacas.
Já não poderá infelizmente auscultar a opinião das galinhas há muito desinstaladas nos ramos da velha oliveira.
Mas ainda assim, já encomendei as faixas amarelas. Também elas falam.
Que tal?
Na foto, é mesmo o meu querido cão. A capa está uma trampa, tirando o cão. Vejam bem o título às escadinhas. Encomendei-a a um tipo que tem uma filha com jeito pó desenho
12/12/2003
Pó branco e pastéis de bacalhau
Já dei voltas à cabeça, já li cinquenta manuais, treze compêndios e nada.
Não consigo encontrar explicação para o bacilo escolher o pó branco como veículo.
Qual bacilo?
O do carbúnculo – o Bacillus anthracis.
Sabemos todos que os bacilos são formas de vida. E que devem ter lá as suas idiossincrasias. Mas escolher o pó branco? Caramba, não é nada politicamente correcto.
Nada com pós azuis, verdes ou vermelhos, só brancos.
Agora parece andar retirado. Não se fala nele. Já o açucar pilé relaxou, as farinhas de sílica e de trigo estão mais descansadas, o próprio pó-de-talco parece mais novo, menos preocupado.
Eu, como sou desconfiado, tenho andado a pensar se ele não terá escolhido os pastéis de bacalhau como transporte.
Já nessa época de Setembro / Outubro de 2001, tinha advertido os meus mais chegados para essa hipótese.
Agora que a coisa anda esquecida, volto a alertar.
É que o pó branco tem um universo potencial mais limitado. Os pastelinhos são uma forma muito mais eficaz de distribuição.
Dizem-me que ninguém aspira pastéis de bacalhau. Não aspira um, certo. Mas aspira por um. Muita gente aspira por eles sem os confundir com notas enroladas. Lá estou eu com trocadilhos.
Não se iludam, o bicho é manhoso. Se não fôr pelos pastéis, como eu prevejo, há-de ser pelos tremoços, que é uma boa forma de dizimar as tropas. Assim como assim, mata os homens e deixa as mulheres.
imagem em
Já dei voltas à cabeça, já li cinquenta manuais, treze compêndios e nada.
Não consigo encontrar explicação para o bacilo escolher o pó branco como veículo.
Qual bacilo?
O do carbúnculo – o Bacillus anthracis.
Sabemos todos que os bacilos são formas de vida. E que devem ter lá as suas idiossincrasias. Mas escolher o pó branco? Caramba, não é nada politicamente correcto.
Nada com pós azuis, verdes ou vermelhos, só brancos.
Agora parece andar retirado. Não se fala nele. Já o açucar pilé relaxou, as farinhas de sílica e de trigo estão mais descansadas, o próprio pó-de-talco parece mais novo, menos preocupado.
Eu, como sou desconfiado, tenho andado a pensar se ele não terá escolhido os pastéis de bacalhau como transporte.
Já nessa época de Setembro / Outubro de 2001, tinha advertido os meus mais chegados para essa hipótese.
Agora que a coisa anda esquecida, volto a alertar.
É que o pó branco tem um universo potencial mais limitado. Os pastelinhos são uma forma muito mais eficaz de distribuição.
Dizem-me que ninguém aspira pastéis de bacalhau. Não aspira um, certo. Mas aspira por um. Muita gente aspira por eles sem os confundir com notas enroladas. Lá estou eu com trocadilhos.
Não se iludam, o bicho é manhoso. Se não fôr pelos pastéis, como eu prevejo, há-de ser pelos tremoços, que é uma boa forma de dizimar as tropas. Assim como assim, mata os homens e deixa as mulheres.
imagem em
O diabo aquático
Não sou contra os neologismos nem tenho um conhecimento profundo sobre as formas que apresenta o rabudo, o coisa ruim, o ...
Mas, deixando de lado a caneca que existia no trem de praia dos meus bisavós em que ele figurava, na certa como recordação de algum mascate menos timorato, e em que aí sim, convivia com a água que eu lá lhe colocava, não me recordo de nenhuma outra ocasião em que o ... se tenha familiarizado com a água.
Sempre o figurei como um gato escaldado.
Mas há uns tempos, um noticiário de rádio revelou-me esta estranha metamorfose. O ... tinha aprendido a nadar. Depois de narrar alguns factos estranhos em certa cidade, o locutor concluiu: "... e o Diabo aquático!"
Pronto, pensei, tornou-se rei dos mares. Adeus, Neptuno. Ou será que não? Afinal, esse deus tão traiçoeiro para marinheiros e viajantes não ostentava ele um tenebroso tridente? Seria já o próprio ou um enviado seu?
O certo é que o ... já não andava a quatro.
O mais estranho é que, numa altura em que todos querem andar a quatro (tracção às quatro, motos-quatro), o ... se tenha decidido pela barbatana dorsal. Não me conformo.
Será que ele comprou uma moto de água?
imagem adaptada de
Não sou contra os neologismos nem tenho um conhecimento profundo sobre as formas que apresenta o rabudo, o coisa ruim, o ...
Mas, deixando de lado a caneca que existia no trem de praia dos meus bisavós em que ele figurava, na certa como recordação de algum mascate menos timorato, e em que aí sim, convivia com a água que eu lá lhe colocava, não me recordo de nenhuma outra ocasião em que o ... se tenha familiarizado com a água.
Sempre o figurei como um gato escaldado.
Mas há uns tempos, um noticiário de rádio revelou-me esta estranha metamorfose. O ... tinha aprendido a nadar. Depois de narrar alguns factos estranhos em certa cidade, o locutor concluiu: "... e o Diabo aquático!"
Pronto, pensei, tornou-se rei dos mares. Adeus, Neptuno. Ou será que não? Afinal, esse deus tão traiçoeiro para marinheiros e viajantes não ostentava ele um tenebroso tridente? Seria já o próprio ou um enviado seu?
O certo é que o ... já não andava a quatro.
O mais estranho é que, numa altura em que todos querem andar a quatro (tracção às quatro, motos-quatro), o ... se tenha decidido pela barbatana dorsal. Não me conformo.
Será que ele comprou uma moto de água?
imagem adaptada de
Nostalgia do burro
Sem grande explicação, o burro veio à baila.
Falou-se demoradamente dos asininos.
Que eram dóceis e teimosos como burros(?)
De vez em quando um coice mas nada de cuidado.
Pica-lhes a mosca.
Lá recordámos as imagens dos bichos, que os havia lá no monte.
A minha mãe condoeu-se de os animais estarem em vias de extinção.
Às vezes ponho-me a pensar que pertenço à primeira geração apeada. Uma espécie de anspeçada.
Sempre houve cavalos, mus e burros, arramadas e cavalariças. Os meus avós a cavalo, o meu pai a cavalo. Eu a pé.
Ora, ultrapassadas que estão as necessárias três gerações para fazer um cavalheiro, onde é que ficamos? Num cavaleiro sem cavalo? Num Artur centaureando ao som de hemi-cocos?
Nem um burro fiel, para me fazer companhia? Só maples com quatro rodas?
Não sou de opinião.
imagem de
saiba mais nesta página de António Gil
Sem grande explicação, o burro veio à baila.
Falou-se demoradamente dos asininos.
Que eram dóceis e teimosos como burros(?)
De vez em quando um coice mas nada de cuidado.
Pica-lhes a mosca.
Lá recordámos as imagens dos bichos, que os havia lá no monte.
A minha mãe condoeu-se de os animais estarem em vias de extinção.
Às vezes ponho-me a pensar que pertenço à primeira geração apeada. Uma espécie de anspeçada.
Sempre houve cavalos, mus e burros, arramadas e cavalariças. Os meus avós a cavalo, o meu pai a cavalo. Eu a pé.
Ora, ultrapassadas que estão as necessárias três gerações para fazer um cavalheiro, onde é que ficamos? Num cavaleiro sem cavalo? Num Artur centaureando ao som de hemi-cocos?
Nem um burro fiel, para me fazer companhia? Só maples com quatro rodas?
Não sou de opinião.
imagem de
saiba mais nesta página de António Gil
11/12/2003
O espião dos serviços ou
Uma noite em Lisboa
O convite de um velho e bom amigo, levou-me a um dos centros nervosos da economia nacional.
Anarcka sabe qual é. É um cujo nome não divulgo mas sobre o qual ele há tempos discorreu.
No gabinete do homem, armários, ficheiros, estantes, gavetas.
Conversa vaga sobre o desempenho da casa.
Como já estava há um bom bocado sem fumar uma cigarrada, levantei-me e deambulei entre as estantes.
Foi então que descobri o pequeno volume: "Cheques descontados na Ilha das Flores".
Fiquei preso à lombada, imaginando todo o romance que encerra tal título.
Todos os apertos porque passaram os que os assinaram, todas as alegrias dos que os descontaram. Os atrasos, as faltas de fundos, a revolução nas vidas dos bons açoreanos das Flores.
Já estava a imaginar gente a comprar carros novos, sacos de cimento para um reboco, a pagar o casamento da filha, o IRC, a viagem para a América, quando ele se levantou e nos disse que eram horas de jantar.
Às vezes sonha-se entre dossiers e armários.
Melhor do que saber novas do out-sourcing e das tomadas firmes.
Ninguém se apercebeu do meu interesse por aquele dossier em particular.
Ainda trago no bolso uma base para copo do Fontória.
Uma noite em Lisboa
O convite de um velho e bom amigo, levou-me a um dos centros nervosos da economia nacional.
Anarcka sabe qual é. É um cujo nome não divulgo mas sobre o qual ele há tempos discorreu.
No gabinete do homem, armários, ficheiros, estantes, gavetas.
Conversa vaga sobre o desempenho da casa.
Como já estava há um bom bocado sem fumar uma cigarrada, levantei-me e deambulei entre as estantes.
Foi então que descobri o pequeno volume: "Cheques descontados na Ilha das Flores".
Fiquei preso à lombada, imaginando todo o romance que encerra tal título.
Todos os apertos porque passaram os que os assinaram, todas as alegrias dos que os descontaram. Os atrasos, as faltas de fundos, a revolução nas vidas dos bons açoreanos das Flores.
Já estava a imaginar gente a comprar carros novos, sacos de cimento para um reboco, a pagar o casamento da filha, o IRC, a viagem para a América, quando ele se levantou e nos disse que eram horas de jantar.
Às vezes sonha-se entre dossiers e armários.
Melhor do que saber novas do out-sourcing e das tomadas firmes.
Ninguém se apercebeu do meu interesse por aquele dossier em particular.
Ainda trago no bolso uma base para copo do Fontória.
Gasolim e as pontes ou
Comendo peixe-muge não sabendo onde
Fui mostrar ao deserto a Syllan e à sua progenitora.
O deserto de que falo fica um pouco a sul de São João do dito.
É aquela faixa entre as E.E.N.N. 123 e 124, 2 e 122. Mais ou menos isso.
Um lugar de encantos desoladores.
A horas de almoço, estávamos em Mértola, prontos para o peixe frito do rio.
Na esplanada, além dos matraquilhos, havia apenas mais um casal.
O dono do restaurante e o dito casal falavam alto, ouvia-se bem o que diziam.
Depois de ele apontar os pedidos, perguntaram-lhe:
"O que é isto aqui atrás?" - isto era o vale cavado mesmo junto à esplanada.
"É o Guadiana, minha senhora." - disse o homem, incrédulo.
Syllan, que é bom navegador, também não acreditou no que ouviu.
foto da JAE
Comendo peixe-muge não sabendo onde
Fui mostrar ao deserto a Syllan e à sua progenitora.
O deserto de que falo fica um pouco a sul de São João do dito.
É aquela faixa entre as E.E.N.N. 123 e 124, 2 e 122. Mais ou menos isso.
Um lugar de encantos desoladores.
A horas de almoço, estávamos em Mértola, prontos para o peixe frito do rio.
Na esplanada, além dos matraquilhos, havia apenas mais um casal.
O dono do restaurante e o dito casal falavam alto, ouvia-se bem o que diziam.
Depois de ele apontar os pedidos, perguntaram-lhe:
"O que é isto aqui atrás?" - isto era o vale cavado mesmo junto à esplanada.
"É o Guadiana, minha senhora." - disse o homem, incrédulo.
Syllan, que é bom navegador, também não acreditou no que ouviu.
foto da JAE
10/12/2003
A máquina inútil
Passei a minha infância entre obras.
Grandes e pequenas.
Das maiores que se fizeram às mais elementares.
Convivi com tractores, pás-escavadoras, dumpers, cilindros, camiões-basculantes, auto-niveladoras, gruas, etc.
Havia porém uma dessas máquinas que me intrigava. Nunca a via em acção. Pelo seu formato, não a imaginava capaz de grandes façanhas. Contudo, lá estava sempre. Muitas das vezes, mais do que uma.
Nunca me dei por achado, era o que faltava perguntar ao meu pai ou a quem quer que fosse, para que é que aquilo servia. Só observava, à espera de um deslize, de um movimento, de uma acção. Nada. Só barulho, e muito.
Um dia, apanhei-a. Numa manhã algarvia de laranjas.
Estava parada como sempre e a fazer um cagaçal medonho.
Mas desta vez, consegui ver que nas pontas das mangueiras que dela saíam, havia acção.
Uns operários lançavam jactos de areia sobre uma estrurura metálica.
Foi então que, todo orgulhoso, expliquei ao meu pai como é que aquilo funcionava.
Mas a minha teoria caiu por terra no segundo seguinte. Ainda hoje me lembro da explicação devolvida quando vejo um compressor.
imagem tirada daqui
Passei a minha infância entre obras.
Grandes e pequenas.
Das maiores que se fizeram às mais elementares.
Convivi com tractores, pás-escavadoras, dumpers, cilindros, camiões-basculantes, auto-niveladoras, gruas, etc.
Havia porém uma dessas máquinas que me intrigava. Nunca a via em acção. Pelo seu formato, não a imaginava capaz de grandes façanhas. Contudo, lá estava sempre. Muitas das vezes, mais do que uma.
Nunca me dei por achado, era o que faltava perguntar ao meu pai ou a quem quer que fosse, para que é que aquilo servia. Só observava, à espera de um deslize, de um movimento, de uma acção. Nada. Só barulho, e muito.
Um dia, apanhei-a. Numa manhã algarvia de laranjas.
Estava parada como sempre e a fazer um cagaçal medonho.
Mas desta vez, consegui ver que nas pontas das mangueiras que dela saíam, havia acção.
Uns operários lançavam jactos de areia sobre uma estrurura metálica.
Foi então que, todo orgulhoso, expliquei ao meu pai como é que aquilo funcionava.
Mas a minha teoria caiu por terra no segundo seguinte. Ainda hoje me lembro da explicação devolvida quando vejo um compressor.
imagem tirada daqui
09/12/2003
O fabuloso mundo das máquinas de costura
Lembro-me do cuidado que era preciso entre Olhão e Tavira, a certas horas, com aquela chusma de bicicletas a motor que apareciam na estrada.
Macais, Casais, Faméis-Zundapp, Sis-Sachs.
Ali para a zona de Águeda, era também forte a coisa. Havia assim uns pontos em que a motorização velocipédica obrigava a cuidados redobrados na condução.
Nunca houve, que eu me lembre, tanta discriminação social à volta de um objecto como destas máquinas.
Quando apareceram as japonesas, qualquer das marcas acima citadas era coisa ainda mais acintosamente popular.
Quem queria ter pose, tinha que ter uma Honda ou uma Yamaha. Suzuki e Kawasaki não apareceram logo em versão 50 c.c., ou eram bicho muito raro.
É claro que detrás já vinha o culto da moto. Mas isso eram as altas cilindradas, as Norton, as Triumph, as BMW, as MZ, as Husqvarna, as Harley e muitas outras.
Eu próprio me imaginava na sela de uma Honda 50 (eu era mais pela asa e menos pelos diapasões), mas isso foi sol de pouca dura.
As japonesas eram motos, mesmo que tivessem a mesma cilindrada das outras, e jogavam com capacete Bell ou similar, mais tarde com integral e nunca com penico e fitinha xadrez.
As outras eram bicicletas a motor, chocolateiras, máquinas de costura.
Ora aí é que bate o ponto. Vinte e muitos anos depois, calhou-me competir, a pé, não com uma bicicleta a motor, mas com várias máquinas de costura e de bordar.
Uma delas era Toyota, outra Husqvarna. Alguém, mais uma vez, me explica isto?
Honda CB 50 em
bordado em
Lembro-me do cuidado que era preciso entre Olhão e Tavira, a certas horas, com aquela chusma de bicicletas a motor que apareciam na estrada.
Macais, Casais, Faméis-Zundapp, Sis-Sachs.
Ali para a zona de Águeda, era também forte a coisa. Havia assim uns pontos em que a motorização velocipédica obrigava a cuidados redobrados na condução.
Nunca houve, que eu me lembre, tanta discriminação social à volta de um objecto como destas máquinas.
Quando apareceram as japonesas, qualquer das marcas acima citadas era coisa ainda mais acintosamente popular.
Quem queria ter pose, tinha que ter uma Honda ou uma Yamaha. Suzuki e Kawasaki não apareceram logo em versão 50 c.c., ou eram bicho muito raro.
É claro que detrás já vinha o culto da moto. Mas isso eram as altas cilindradas, as Norton, as Triumph, as BMW, as MZ, as Husqvarna, as Harley e muitas outras.
Eu próprio me imaginava na sela de uma Honda 50 (eu era mais pela asa e menos pelos diapasões), mas isso foi sol de pouca dura.
As japonesas eram motos, mesmo que tivessem a mesma cilindrada das outras, e jogavam com capacete Bell ou similar, mais tarde com integral e nunca com penico e fitinha xadrez.
As outras eram bicicletas a motor, chocolateiras, máquinas de costura.
Ora aí é que bate o ponto. Vinte e muitos anos depois, calhou-me competir, a pé, não com uma bicicleta a motor, mas com várias máquinas de costura e de bordar.
Uma delas era Toyota, outra Husqvarna. Alguém, mais uma vez, me explica isto?
Honda CB 50 em
bordado em
08/12/2003
Hygiaphone
Fale aqui diante do Hygiaphone.
Era o que nos diziam bastas vezes, sem dizer.
A setinha lá estava, a apontar para os buraquinhos.
Ainda os deve haver, tal era a profusão.
Da secretaria da faculdade às bilheteiras dos comboios,
das repartições de finanças às bilheteiras de cinema, era o mundo Hygiaphone.
Por estes dias, tive um choque.
Já nem nas Finanças existem. Agora é um balcão aberto, um banco, uma recebedoria.
Independentemente da estranheza que se relaciona com o facto de certas doenças, pois julgo que era disso que se tratava, ainda existirem e se propagarem aereamente, há outra coisa que ainda me intriga mais:
Se o balcão é corrido, como é que fazem agora aqueles funcionários que invariavelmente nos mandavam para o guichet ao lado?
P.S.: O Hygiaphone até foi cantado em poema.
imagem adaptada de
Fale aqui diante do Hygiaphone.
Era o que nos diziam bastas vezes, sem dizer.
A setinha lá estava, a apontar para os buraquinhos.
Ainda os deve haver, tal era a profusão.
Da secretaria da faculdade às bilheteiras dos comboios,
das repartições de finanças às bilheteiras de cinema, era o mundo Hygiaphone.
Por estes dias, tive um choque.
Já nem nas Finanças existem. Agora é um balcão aberto, um banco, uma recebedoria.
Independentemente da estranheza que se relaciona com o facto de certas doenças, pois julgo que era disso que se tratava, ainda existirem e se propagarem aereamente, há outra coisa que ainda me intriga mais:
Se o balcão é corrido, como é que fazem agora aqueles funcionários que invariavelmente nos mandavam para o guichet ao lado?
P.S.: O Hygiaphone até foi cantado em poema.
imagem adaptada de
Es-tú-pido
Se o tempo é de balanço, é tempo de fechar as contas.
Deixei algumas pontas aqui e ali, com promessa de réplica.
Começo por esta. Vem do dia 9 de Novembro.
Suponho que a coisa ficou mais ou menos clara para os homens.
Para as mulheres, já não sei.
É o eterno retorno à incompreensão dos géneros. Eu confesso que há muito deixei de querer ver razão no raciocínio feminino. Não encerra esta afirmação nenhum sentido pejorativo, apenas significa que:
O racionalismo é útil, muito útil, mas não é decisivo, tanto mais que não joga com o baralho todo.
É possível que exista um racionalismo feminino, estribado em cartas fora do baralho. E para o caso, tanto faz. Se aos homens faltam cartas, as decisões são por isso insuficientemente racionais. Se as mulheres usam jokers, a diferença está na incapacidade masculina de compreender a omnipotência dessas cartas.
Dito isto, julgo que não há palavra que mais aproxime um homem de uma mulher, do que a supra escrita.
É óbvio que tem que ser dita sincopadamente. E com um sorrriso. Mas quando sai assim dos lábios de uma mulher, já não há nada a fazer, é tiro-e-queda.
Dir-me-ão alguns: mas se elas ainda não sabiam disso, para quê dar-lhes trunfos?
Respondo eu: não me oponho a que os meus congéneres sejam apanhados na malha grossa, não me parece que seja algo a evitar, muito antes pelo contrário.
O que já é de evitar, isso sim, é o pérfido "Ah, sim?" prenunciador de todas as divergências.
Meus caros, aqui, pode um homem dizer a mais sábia das sentenças, discorrer sobre as mais ignotas sabedorias, pronunciar o mais brejeiro comentário ou concluir da mais desastrada maneira. Não há também nada a fazer.
É a linha para além da red line. É o ponto para além do borregar. Peguem na trouxa e ala.
Se o tempo é de balanço, é tempo de fechar as contas.
Deixei algumas pontas aqui e ali, com promessa de réplica.
Começo por esta. Vem do dia 9 de Novembro.
Suponho que a coisa ficou mais ou menos clara para os homens.
Para as mulheres, já não sei.
É o eterno retorno à incompreensão dos géneros. Eu confesso que há muito deixei de querer ver razão no raciocínio feminino. Não encerra esta afirmação nenhum sentido pejorativo, apenas significa que:
O racionalismo é útil, muito útil, mas não é decisivo, tanto mais que não joga com o baralho todo.
É possível que exista um racionalismo feminino, estribado em cartas fora do baralho. E para o caso, tanto faz. Se aos homens faltam cartas, as decisões são por isso insuficientemente racionais. Se as mulheres usam jokers, a diferença está na incapacidade masculina de compreender a omnipotência dessas cartas.
Dito isto, julgo que não há palavra que mais aproxime um homem de uma mulher, do que a supra escrita.
É óbvio que tem que ser dita sincopadamente. E com um sorrriso. Mas quando sai assim dos lábios de uma mulher, já não há nada a fazer, é tiro-e-queda.
Dir-me-ão alguns: mas se elas ainda não sabiam disso, para quê dar-lhes trunfos?
Respondo eu: não me oponho a que os meus congéneres sejam apanhados na malha grossa, não me parece que seja algo a evitar, muito antes pelo contrário.
O que já é de evitar, isso sim, é o pérfido "Ah, sim?" prenunciador de todas as divergências.
Meus caros, aqui, pode um homem dizer a mais sábia das sentenças, discorrer sobre as mais ignotas sabedorias, pronunciar o mais brejeiro comentário ou concluir da mais desastrada maneira. Não há também nada a fazer.
É a linha para além da red line. É o ponto para além do borregar. Peguem na trouxa e ala.
Acho pouco
Conto do vigário II
Sinceramente!
Ou eu tenho e-mail de labrego (já que não pode ser a cara!) ou então existe uma conspiração internacional para me derrubar.
Há uns dias, estavam à minha espera para me dar 5,45 milhões de dólares. Hoje, agraciam-me com meio milhão. Acho pouco.
Pensei escrever este post em inglês. Mas não, eles já cá vieram espreitar quando coloquei aqui a cópia do outro e virão com toda a certeza outra vez. Brindo-os assim com uma daquelas maravilhosas traduções automáticas, que sempre é mais condicente (o que eu me lembro às vezes do C.O.) com a prática dos moços.
"FROM RISE LOTTERY INTERNATIONAL
TELEPHONE;+31-64 111 58 62
Ref. Number: 132/756/4509
Batch Number: 538901527-Bc68
ATTN.
LOTTERY WINNING NOTIFICATION (CONGRATULATION)
We are pleased to inform you of the result of the Lottery Winners International programs held on the 23th of Nov, 2003. Your e-mail address Attached to ticket number 27522465896-6453 with Serial number 3772-554 Drew lucky numbers 7-14-18-23-31-45 which consequently won in the 2ND category, you have therefore been approved for a lump sum pay out of US$ 500,000.00. (Five Hundred Thausand United States Dollars Only).
CONGRATULATIONS!!!
Due to mix up of some numbers and names, we ask that you keep your winning information confidential until your claims has been processed and your money Remitted to you. This is part of our security protocol to avoid double claiming and unwarranted abuse of this program by some participants.All participants were selected through a computer ballot system drawn from over 20,000 company and 30,000,000 individual email addresses and names from all over the world.
This promotional program takes place every three year.
This lottery was promoted and sponsored by eminent personalities like
Mr Bill Gates and the Sultan of Brunei, we hope with part of your winning you will take part in our next year international lottery. To file for your claim, please contact our Lottery Coordinator .
MR ROBERT MBOMA AND ASSOCIATES NETHERLAND.
TEL. 0031-64 111 58 62
Reply Email: roboma30@fsmail.net
Remember, all winning must be claimed not later than 30th of Dec. 2003.After this date all unclaimed funds will be included in the next stake.Please note in order to avoid unnecessary delays and complications,remember to quote your reference number and batch numbers in all correspondence.
Furthermore,should there be any change of address do inform our agent as soon as possible.
Congratulations once more from our members of staff and thank you for beingpart of our promotional program.
Note: Anybody under the age of 18 is automatically disqualified.
You can contact me on this my private Tele phone Number 0031 -64 111 58 62 for more briefing.
Sincerely yours,
MR. ROBERT MBOMA
Lottery Coordinator"
E mais uma vez, estou como o outro:
Se se anuncia remédio para os piolhos, é porque há quem os tenha.
Conto do vigário II
Sinceramente!
Ou eu tenho e-mail de labrego (já que não pode ser a cara!) ou então existe uma conspiração internacional para me derrubar.
Há uns dias, estavam à minha espera para me dar 5,45 milhões de dólares. Hoje, agraciam-me com meio milhão. Acho pouco.
Pensei escrever este post em inglês. Mas não, eles já cá vieram espreitar quando coloquei aqui a cópia do outro e virão com toda a certeza outra vez. Brindo-os assim com uma daquelas maravilhosas traduções automáticas, que sempre é mais condicente (o que eu me lembro às vezes do C.O.) com a prática dos moços.
"FROM RISE LOTTERY INTERNATIONAL
TELEPHONE;+31-64 111 58 62
Ref. Number: 132/756/4509
Batch Number: 538901527-Bc68
ATTN.
LOTTERY WINNING NOTIFICATION (CONGRATULATION)
We are pleased to inform you of the result of the Lottery Winners International programs held on the 23th of Nov, 2003. Your e-mail address Attached to ticket number 27522465896-6453 with Serial number 3772-554 Drew lucky numbers 7-14-18-23-31-45 which consequently won in the 2ND category, you have therefore been approved for a lump sum pay out of US$ 500,000.00. (Five Hundred Thausand United States Dollars Only).
CONGRATULATIONS!!!
Due to mix up of some numbers and names, we ask that you keep your winning information confidential until your claims has been processed and your money Remitted to you. This is part of our security protocol to avoid double claiming and unwarranted abuse of this program by some participants.All participants were selected through a computer ballot system drawn from over 20,000 company and 30,000,000 individual email addresses and names from all over the world.
This promotional program takes place every three year.
This lottery was promoted and sponsored by eminent personalities like
Mr Bill Gates and the Sultan of Brunei, we hope with part of your winning you will take part in our next year international lottery. To file for your claim, please contact our Lottery Coordinator .
MR ROBERT MBOMA AND ASSOCIATES NETHERLAND.
TEL. 0031-64 111 58 62
Reply Email: roboma30@fsmail.net
Remember, all winning must be claimed not later than 30th of Dec. 2003.After this date all unclaimed funds will be included in the next stake.Please note in order to avoid unnecessary delays and complications,remember to quote your reference number and batch numbers in all correspondence.
Furthermore,should there be any change of address do inform our agent as soon as possible.
Congratulations once more from our members of staff and thank you for beingpart of our promotional program.
Note: Anybody under the age of 18 is automatically disqualified.
You can contact me on this my private Tele phone Number 0031 -64 111 58 62 for more briefing.
Sincerely yours,
MR. ROBERT MBOMA
Lottery Coordinator"
E mais uma vez, estou como o outro:
Se se anuncia remédio para os piolhos, é porque há quem os tenha.
07/12/2003
Ainda em balanço
Tudo começou em 16 de Agosto.
O calor tinha amainado e eu tinha descoberto que não era preciso pagar para escrever aqui umas coisas.
O nacional-borlismo.
Bem, quase quatro meses depois, o universo de visitantes não é amplo. É até muito restrito. Meia-dúzia de fidelidades que passo a citar, pela respectiva página e por ordem alfabética:
Anarcka
Brasil e reminiscências españolas (Brasil & Espanha)
Mente Brilhante
Pensatorium
Tem alguém aí?
Sei que há mais, mas infelizmente nunca deixaram qualquer comentário.
Então como explicar quase 2000 visitantes na versão brasileira e mais de 1300 na portuguesa?
Em primeiro lugar, a contagem divergiu quando decidi que afinal mantinha os dois blogues mais ou menos iguais. Nessa altura, aí por volta dos 1140 visitantes, passei a ter dois contadores, um para cada blogue.
Explicam-se facilmente as 160 visitas adicionais em Blogspot com os fiéis leitores e os numerosos pára-quedistas a que já aludi.
Quanto aos números do Blogger da Globo, eles reflectem ainda um sem-número de curiosos que espreitam quando o blogue está na lista dos últimos actualizados. Tantos são, que explicam este desfasamento de quase 700 visitas.
Ora, o resultado é mau. Se há num contador perto de 2000 visitas e ao mesmo tempo se contam pelos dedos de uma mão os fiéis leitores, é porque a coisa não agrada à imensa maioria.
Mesmo assim, não desisto. Enquanto houver gente que aqui vem, ficarei no meu posto. Não faço isto para agradar a todos. Faço-o porque gosto e para quem gosta de me ler.
Só lhes peço em troca, a esses que leio, que continuem também.
Assim haja serviço à borla.
Há aqui uma parte que promete para um Manifesto Político a que aludirei para o ano. Não se assustem, não vou formar nenhum partido.
Tudo começou em 16 de Agosto.
O calor tinha amainado e eu tinha descoberto que não era preciso pagar para escrever aqui umas coisas.
O nacional-borlismo.
Bem, quase quatro meses depois, o universo de visitantes não é amplo. É até muito restrito. Meia-dúzia de fidelidades que passo a citar, pela respectiva página e por ordem alfabética:
Anarcka
Brasil e reminiscências españolas (Brasil & Espanha)
Mente Brilhante
Pensatorium
Tem alguém aí?
Sei que há mais, mas infelizmente nunca deixaram qualquer comentário.
Então como explicar quase 2000 visitantes na versão brasileira e mais de 1300 na portuguesa?
Em primeiro lugar, a contagem divergiu quando decidi que afinal mantinha os dois blogues mais ou menos iguais. Nessa altura, aí por volta dos 1140 visitantes, passei a ter dois contadores, um para cada blogue.
Explicam-se facilmente as 160 visitas adicionais em Blogspot com os fiéis leitores e os numerosos pára-quedistas a que já aludi.
Quanto aos números do Blogger da Globo, eles reflectem ainda um sem-número de curiosos que espreitam quando o blogue está na lista dos últimos actualizados. Tantos são, que explicam este desfasamento de quase 700 visitas.
Ora, o resultado é mau. Se há num contador perto de 2000 visitas e ao mesmo tempo se contam pelos dedos de uma mão os fiéis leitores, é porque a coisa não agrada à imensa maioria.
Mesmo assim, não desisto. Enquanto houver gente que aqui vem, ficarei no meu posto. Não faço isto para agradar a todos. Faço-o porque gosto e para quem gosta de me ler.
Só lhes peço em troca, a esses que leio, que continuem também.
Assim haja serviço à borla.
Há aqui uma parte que promete para um Manifesto Político a que aludirei para o ano. Não se assustem, não vou formar nenhum partido.
Retrato de um blogue
Em época de balanços, aqui fica um retrato feito pelos motores de busca a estas linhas aqui deixadas desde Agosto.
Na impossibilidade de convidar comentadores no campo da sociologia ou da psicologia, fica a crueza dos números, que reflectem decerto o que vai na cabeça do relator:
Em época de balanços, aqui fica um retrato feito pelos motores de busca a estas linhas aqui deixadas desde Agosto.
Na impossibilidade de convidar comentadores no campo da sociologia ou da psicologia, fica a crueza dos números, que reflectem decerto o que vai na cabeça do relator:
06/12/2003
No tempo dos calendários
A memória prega-nos partidas. A uns apaga os ficheiros, a outros baralha-os, a mim, sem que não tenha deixado de fazer coisa e outra, traz-me às vezes para o acesso rápido ficheiros de há décadas.
Hoje foi uma foto que eu extraí de um vídeo da BBC.
Devo aqui dizer o seguinte: a maior parte das imagens que aqui insiro são de má qualidade. Isso deve-se ao facto de serem quase todas extractos de vídeo.
Algumas, poucas, são tiradas de trechos de emissões de televisão e devidamente identificadas.
A maior parte é extraída de gravações próprias.
Raramente são fotografias digitalizadas e que me recorde, nem uma é fotografia digital.
Fica assim explicada a falta de qualidade. Talvez também não me interesse colocar aqui fotos de alta definição.
Adiante.
Essa imagem que por aqui anda há anos, suscitou-me hoje a necessidade de falar sobre os calendários que costumavam aparecer lá em casa, por esta época.
Os calendários eram de origem nórdica. Não posso dizer de que país eram. Talvez suecos.
Tinham como é hábito, uma fotografia para cada mês.
A mim, encantavam principalmente as fotografias de inverno.
Recordo-me vagamente de algumas. Da luz espectral que nelas surgia. De uma igreja em campo de neve, sob um céu azul cru, em cujas janelas se adivinhava um interior inundado de luz amarela.
De um preto-e-branco ferroviário (de onde vem hoje a inspiração) igual a tantos outros, mas diferente. Diferente pela mulher que caminhava ao longo dos carris, diferente pela qualidade da composição.
É um disparate estar a tentar descrever o que é indescritível. Todos sabem do que falo, do encanto de uma imagem, que tanto pode ser fabricada como não.
Hoje estou assim. A lembrar-me de coisas inacessíveis, mais uma vez.
Esta imagem da BBC foi retirada de uma reportagem em que, a propósito dos repetidos acidentes ferroviários que aconteceram na Reino Unido nos últimos anos, se chamava a atenção para a dificuldade que os maquinistas sentem em identificar em certos troços o semáforo correspondente à via onde circulam.
A memória prega-nos partidas. A uns apaga os ficheiros, a outros baralha-os, a mim, sem que não tenha deixado de fazer coisa e outra, traz-me às vezes para o acesso rápido ficheiros de há décadas.
Hoje foi uma foto que eu extraí de um vídeo da BBC.
Devo aqui dizer o seguinte: a maior parte das imagens que aqui insiro são de má qualidade. Isso deve-se ao facto de serem quase todas extractos de vídeo.
Algumas, poucas, são tiradas de trechos de emissões de televisão e devidamente identificadas.
A maior parte é extraída de gravações próprias.
Raramente são fotografias digitalizadas e que me recorde, nem uma é fotografia digital.
Fica assim explicada a falta de qualidade. Talvez também não me interesse colocar aqui fotos de alta definição.
Adiante.
Essa imagem que por aqui anda há anos, suscitou-me hoje a necessidade de falar sobre os calendários que costumavam aparecer lá em casa, por esta época.
Os calendários eram de origem nórdica. Não posso dizer de que país eram. Talvez suecos.
Tinham como é hábito, uma fotografia para cada mês.
A mim, encantavam principalmente as fotografias de inverno.
Recordo-me vagamente de algumas. Da luz espectral que nelas surgia. De uma igreja em campo de neve, sob um céu azul cru, em cujas janelas se adivinhava um interior inundado de luz amarela.
De um preto-e-branco ferroviário (de onde vem hoje a inspiração) igual a tantos outros, mas diferente. Diferente pela mulher que caminhava ao longo dos carris, diferente pela qualidade da composição.
É um disparate estar a tentar descrever o que é indescritível. Todos sabem do que falo, do encanto de uma imagem, que tanto pode ser fabricada como não.
Hoje estou assim. A lembrar-me de coisas inacessíveis, mais uma vez.
Esta imagem da BBC foi retirada de uma reportagem em que, a propósito dos repetidos acidentes ferroviários que aconteceram na Reino Unido nos últimos anos, se chamava a atenção para a dificuldade que os maquinistas sentem em identificar em certos troços o semáforo correspondente à via onde circulam.
Caros pára-quedistas:
Lamento informar que não disponho de casas para alugar.
Não tenho aqui imagens de mulheres nuas.
Não forneço desdobramentos de totobola ou totoloto. E o software não está à venda.
Estou mal informado sobre os programas de passagem de ano no reino do Algarve.
E, finalmente, estudantes brasileiros, sobre a salsaparrilha há muito melhor informação do que a que pôde dar SG nos seus desequilibrados textos.
Mesmo assim, espero que voltem.
Há sempre os disparates habituais por aqui.
Lamento informar que não disponho de casas para alugar.
Não tenho aqui imagens de mulheres nuas.
Não forneço desdobramentos de totobola ou totoloto. E o software não está à venda.
Estou mal informado sobre os programas de passagem de ano no reino do Algarve.
E, finalmente, estudantes brasileiros, sobre a salsaparrilha há muito melhor informação do que a que pôde dar SG nos seus desequilibrados textos.
Mesmo assim, espero que voltem.
Há sempre os disparates habituais por aqui.
O correspondente de “O Século”
As vantagens dos correspondentes na imprensa nacional eram várias:
Sabiam sempre o nome da terra onde se encontravam, a que concelho e distrito pertenciam.
Normalmente identificavam bem, pelo número, a estrada nacional que servia o local.
Sabiam distinguir a flora e a fauna locais, incluindo a humana, não se enganando também no nome dos entrevistados.
Não se espantavam por os dias mais frios serem solarengos, nem acreditavam que o verão daquele ano fosse o mais quente de sempre.
Tinham limitações, é verdade. Só se soube que o meu amigo V.F. tinha trincado uma moeda de 2$50 que estava dentro de um papo-seco, três dias depois do ocorrido.
As vantagens dos correspondentes na imprensa nacional eram várias:
Sabiam sempre o nome da terra onde se encontravam, a que concelho e distrito pertenciam.
Normalmente identificavam bem, pelo número, a estrada nacional que servia o local.
Sabiam distinguir a flora e a fauna locais, incluindo a humana, não se enganando também no nome dos entrevistados.
Não se espantavam por os dias mais frios serem solarengos, nem acreditavam que o verão daquele ano fosse o mais quente de sempre.
Tinham limitações, é verdade. Só se soube que o meu amigo V.F. tinha trincado uma moeda de 2$50 que estava dentro de um papo-seco, três dias depois do ocorrido.
05/12/2003
Fenómenos seculares
A bitola da engenharia era construir prevendo riscos com uma determinada probabilidade de ocorrência.
Os chamados fenómenos seculares (com períodos de retorno da ordem dos 100 anos ou mais) eram excluídos, por três razões determinantes:
A baixa probabilidade de ocorrência durante a vida útil da construção.
O elevado custo de uma solução "hiper-resistente" para casos de solicitações extremas e conhecidas.
A incapacidade de prever a forma como alguns fenómenos extraordinários actuariam sobre a construção.
A juntar às tradicionais solicitações calculadas (ventos, sismos, forças hidráulicas, etc.) soma-se agora outra, igualmente secular.
A ser verdade que os prédios que ruem quando se lhes escavam as fundações são todos seculares, existe uma justificação forte que iliba os projectistas: trata-se de um risco desprezado por improvável.
A bitola da engenharia era construir prevendo riscos com uma determinada probabilidade de ocorrência.
Os chamados fenómenos seculares (com períodos de retorno da ordem dos 100 anos ou mais) eram excluídos, por três razões determinantes:
A baixa probabilidade de ocorrência durante a vida útil da construção.
O elevado custo de uma solução "hiper-resistente" para casos de solicitações extremas e conhecidas.
A incapacidade de prever a forma como alguns fenómenos extraordinários actuariam sobre a construção.
A juntar às tradicionais solicitações calculadas (ventos, sismos, forças hidráulicas, etc.) soma-se agora outra, igualmente secular.
A ser verdade que os prédios que ruem quando se lhes escavam as fundações são todos seculares, existe uma justificação forte que iliba os projectistas: trata-se de um risco desprezado por improvável.
Diálogo$
Não é erro do editor, não.
Não é nenhuma variável de texto. É numérica. É o diálogo$.
Houve uma época em que proliferou.
Não havia caderno reivindicativo que não contivesse uma alusão ao diálogo$.
Queremos mais diálogo$.
Sem diálogo$ não se compram melões.
Se não há diálogo$, vamos para a greve.
Agora volta de novo a carência de diálogo$.
Já se começam a ouvir as vozes ansiosas por conversação.
Não se aceitam prepostas. Queremos propostas. Queremos diálogo$.
Eu limito-me a monologar.
Não é erro do editor, não.
Não é nenhuma variável de texto. É numérica. É o diálogo$.
Houve uma época em que proliferou.
Não havia caderno reivindicativo que não contivesse uma alusão ao diálogo$.
Queremos mais diálogo$.
Sem diálogo$ não se compram melões.
Se não há diálogo$, vamos para a greve.
Agora volta de novo a carência de diálogo$.
Já se começam a ouvir as vozes ansiosas por conversação.
Não se aceitam prepostas. Queremos propostas. Queremos diálogo$.
Eu limito-me a monologar.
04/12/2003
O Teatro Circo
Nem uma coisa nem outra.
Vá-se lá saber porquê.
Se em pequeno as poucas experiências circenses foram um desastre de tédio e tirem-me daqui para fora, as experiências posteriores com a boca de cena não foram mais animadoras.
Ah, Londres, em Londres é que é.
Devias ir a Londres ver uma peça.
Bem, devo-vos dizer que me passeei intrigado (comigo próprio) entre as filas de espectadores à porta dos teatros da corte de Saint James. Mas o impulso derradeiro não surgiu. Provavelmente também não iria encontrar um bilhetinho à venda para um dos dias em que lá permaneci.
Fica assim por fazer o último teste.
A verdade é que se me instalou esta ideia de que o teatro teve a sua época. Que o cinema é um teatro em evolução. Sei, bem sei, que o cinema é outra coisa, cheio de truques e que é no teatro que se percebe um actor. Mas fazer o quê? As experiências que fiz, e foram várias, não me agradaram nada. Talvez esta rusticidade congénita (valha-me São Rústico) não me deixe urbanizar mais do que a conta.
Há porém um dado nesta história que é fortemente contraditório.
Eu que não sou propriamente um melómano, gosto afinal de ópera. É escusado dizer que não há coisa que mais tédio me dê do que um bom filme musical. Isso é o supremo fastio.
Insanável esta contradição? O homem não gosta de teatro e gosta de cinema. Gosta de ópera e não consegue ver um filme musical...
A verdade é, como diria o outro, não tem nada a ver. Porque é não se há-de gostar de uma coisa e abominar outra?
Para concluir, só vos digo que melhor do que a última récita a que assisti, e já passaram alguns anos, foi o ensaio a que me deixaram assistir, em camarote alto.
Não havia mais ninguém em São Carlos além do elenco e dos técnicos.
Apenas este parvo empoleirado num camarote a desenhar.
O som é completamente diferente com a sala vazia. Há a depuração do ruído de fundo. E os próprios gritos de interrupção soam como parte do espectáculo. Magnífico.
imagem do Teatro Circo de Braga em http://www.min-cultura.pt/Noticias/MecenatoCnt.html
Nem uma coisa nem outra.
Vá-se lá saber porquê.
Se em pequeno as poucas experiências circenses foram um desastre de tédio e tirem-me daqui para fora, as experiências posteriores com a boca de cena não foram mais animadoras.
Ah, Londres, em Londres é que é.
Devias ir a Londres ver uma peça.
Bem, devo-vos dizer que me passeei intrigado (comigo próprio) entre as filas de espectadores à porta dos teatros da corte de Saint James. Mas o impulso derradeiro não surgiu. Provavelmente também não iria encontrar um bilhetinho à venda para um dos dias em que lá permaneci.
Fica assim por fazer o último teste.
A verdade é que se me instalou esta ideia de que o teatro teve a sua época. Que o cinema é um teatro em evolução. Sei, bem sei, que o cinema é outra coisa, cheio de truques e que é no teatro que se percebe um actor. Mas fazer o quê? As experiências que fiz, e foram várias, não me agradaram nada. Talvez esta rusticidade congénita (valha-me São Rústico) não me deixe urbanizar mais do que a conta.
Há porém um dado nesta história que é fortemente contraditório.
Eu que não sou propriamente um melómano, gosto afinal de ópera. É escusado dizer que não há coisa que mais tédio me dê do que um bom filme musical. Isso é o supremo fastio.
Insanável esta contradição? O homem não gosta de teatro e gosta de cinema. Gosta de ópera e não consegue ver um filme musical...
A verdade é, como diria o outro, não tem nada a ver. Porque é não se há-de gostar de uma coisa e abominar outra?
Para concluir, só vos digo que melhor do que a última récita a que assisti, e já passaram alguns anos, foi o ensaio a que me deixaram assistir, em camarote alto.
Não havia mais ninguém em São Carlos além do elenco e dos técnicos.
Apenas este parvo empoleirado num camarote a desenhar.
O som é completamente diferente com a sala vazia. Há a depuração do ruído de fundo. E os próprios gritos de interrupção soam como parte do espectáculo. Magnífico.
imagem do Teatro Circo de Braga em http://www.min-cultura.pt/Noticias/MecenatoCnt.html
O moínho sem velas ou um momento brejeiro
Um casarão vazio é uma tentação.
Para crianças de seis, sete, oito, dez anos é um mundo.
Para mim, eram também memórias. De anos ainda mais tenros.
A casa fechada, o quintal acessível, onde ainda existia a pista de obstáculos entre a cavalariça e a escada das traseiras. A casa dos meus avós.
No terraço da casa de banho jogávamos à calha.
Um dia, um objecto de louça ali caído chamou-me a atenção.
Parecia um moínho de presépio a que faltava o eixo e as velas. Dom Quixote decerto teria passado por ali.
Faltava-lhe um bocado da base, mas dava para perceber que era um moínho sem porta, com duas pedras grandes quase cravadas na parede.
Ao fim de uns minutos de curiosidade, voltei a colocá-lo no canto onde o encontrara.
Tempos depois, no alambique da serra onde íamos por medronho, a um dos meus tios foi dado a provar o destilado.
Quando acabou de beber, deu um berro e quase atirou a canequinha para o chão.
Os demais riram-se. Uns mais, outros menos.
Passado um bocado, consegui pegar na canequinha sem que ninguém desse por isso.
Tinha lá dentro um moínho igual. Só que este não pretendia ser moínho, via-se bem o que era.
Um casarão vazio é uma tentação.
Para crianças de seis, sete, oito, dez anos é um mundo.
Para mim, eram também memórias. De anos ainda mais tenros.
A casa fechada, o quintal acessível, onde ainda existia a pista de obstáculos entre a cavalariça e a escada das traseiras. A casa dos meus avós.
No terraço da casa de banho jogávamos à calha.
Um dia, um objecto de louça ali caído chamou-me a atenção.
Parecia um moínho de presépio a que faltava o eixo e as velas. Dom Quixote decerto teria passado por ali.
Faltava-lhe um bocado da base, mas dava para perceber que era um moínho sem porta, com duas pedras grandes quase cravadas na parede.
Ao fim de uns minutos de curiosidade, voltei a colocá-lo no canto onde o encontrara.
Tempos depois, no alambique da serra onde íamos por medronho, a um dos meus tios foi dado a provar o destilado.
Quando acabou de beber, deu um berro e quase atirou a canequinha para o chão.
Os demais riram-se. Uns mais, outros menos.
Passado um bocado, consegui pegar na canequinha sem que ninguém desse por isso.
Tinha lá dentro um moínho igual. Só que este não pretendia ser moínho, via-se bem o que era.
03/12/2003
Licenças em dia
Cai um prédio.
Tal como um dente na gengiva, tinha perdido o vizinho do lado.
A primeira coisa que ouço é que o prédio em construção, no buraco do lado, estava licenciado. É uma coisa importantíssima para apurar seja o que fôr.
Uns tempos atrás, caiu uma laje de um edifício em construção.
A primeira coisa que ouvi é que o dito edifício violava o PDM quanto à localização.
Importantíssimo para apurar as causas da derrocada.
Ainda bem que não tenho ouvido as declarações em todas as ocasiões do género.
Onde é que anda a gente capaz?
Cai um prédio.
Tal como um dente na gengiva, tinha perdido o vizinho do lado.
A primeira coisa que ouço é que o prédio em construção, no buraco do lado, estava licenciado. É uma coisa importantíssima para apurar seja o que fôr.
Uns tempos atrás, caiu uma laje de um edifício em construção.
A primeira coisa que ouvi é que o dito edifício violava o PDM quanto à localização.
Importantíssimo para apurar as causas da derrocada.
Ainda bem que não tenho ouvido as declarações em todas as ocasiões do género.
Onde é que anda a gente capaz?
Quem está a seguir para pagar?
Faz favor!
Era assim que estava a Tesouraria da Fazenda Pública cá do bairro, há uma hora atrás.
Fila única mas com excepções que cada um tem que adivinhar.
Na Repartição de Finanças, ali ao lado, a confusão de avisos, a ininteligível sequência de rolos de senhas de espera, senha verde em invólucro côr-de-rosa, senha rosa em maquineta azul, balcão de execuções não é preciso senha.
Como sempre, é preciso pensar pela cabeça de quem lá põe as folhas A4 com as indicações. Se escreveu isto, é porque quer dizer aquilo. Às vezes, dou razão aos americanos e aos seus manuais exaustivamente explicativos.
Mas descobri ainda mais.
A primeira experiência de execução fiscal.
É certo que a contribuição autárquica se tem pago nos últimos anos em Abril. Certo.
Todos devemos saber disso. Certo.
Mas é também certo que certas repartições de finanças não falham com o aviso. Chega sempre a horas. É portanto de aviso na mão que todos pagamos, no Multibanco ou de outra forma qualquer.
Mas descobri agora que há repartições que não enviam o aviso a que estávamos habituados.
E o contribuinte esquece-se de pagar. Aconteceu-me. Devia ter-me lembrado? Pois devia.
Obrigam-nos assim a ir levantar uma guia de pagamento ao balcão. E poupam a despesa dos impressos e do correio. OK.
E o contribuinte lá paga os juros de mora, etc.
É o deficit, é o deficit - diria um certo cantor brasileiro - um patinho eu sou!
Faz favor!
Era assim que estava a Tesouraria da Fazenda Pública cá do bairro, há uma hora atrás.
Fila única mas com excepções que cada um tem que adivinhar.
Na Repartição de Finanças, ali ao lado, a confusão de avisos, a ininteligível sequência de rolos de senhas de espera, senha verde em invólucro côr-de-rosa, senha rosa em maquineta azul, balcão de execuções não é preciso senha.
Como sempre, é preciso pensar pela cabeça de quem lá põe as folhas A4 com as indicações. Se escreveu isto, é porque quer dizer aquilo. Às vezes, dou razão aos americanos e aos seus manuais exaustivamente explicativos.
Mas descobri ainda mais.
A primeira experiência de execução fiscal.
É certo que a contribuição autárquica se tem pago nos últimos anos em Abril. Certo.
Todos devemos saber disso. Certo.
Mas é também certo que certas repartições de finanças não falham com o aviso. Chega sempre a horas. É portanto de aviso na mão que todos pagamos, no Multibanco ou de outra forma qualquer.
Mas descobri agora que há repartições que não enviam o aviso a que estávamos habituados.
E o contribuinte esquece-se de pagar. Aconteceu-me. Devia ter-me lembrado? Pois devia.
Obrigam-nos assim a ir levantar uma guia de pagamento ao balcão. E poupam a despesa dos impressos e do correio. OK.
E o contribuinte lá paga os juros de mora, etc.
É o deficit, é o deficit - diria um certo cantor brasileiro - um patinho eu sou!
02/12/2003
O chalet da condessa
Faz hoje anos.
Dezassete.
Na falta do Rei-consorte e da amante legítima que lhe aconchegou a viuvez, estávamos nós a pisotear as folhas secas pela manhã.
Não consegui mostrar-te a serra toda, os ralis, mas mostrei-te as minhas estradas de eleição.
O que será feito do teu vestido de lã?
imagem em http://www.malhatlantica.pt/sintra/gardens/j3.htm
Faz hoje anos.
Dezassete.
Na falta do Rei-consorte e da amante legítima que lhe aconchegou a viuvez, estávamos nós a pisotear as folhas secas pela manhã.
Não consegui mostrar-te a serra toda, os ralis, mas mostrei-te as minhas estradas de eleição.
O que será feito do teu vestido de lã?
imagem em http://www.malhatlantica.pt/sintra/gardens/j3.htm
Desde cedo
O Centro Comercial Colombo não veio suprir a falta do Desde Cedo.
É verdade, tal centro de atracção não tem hoje paralelo nas redondezas.
Não era nada de sedimentado, não pensem.
Era até muito provisório e episódico.
Tinha lugar a certas quartas-feiras que alguns denominavam europeias. Como se em Benfica pudesse haver quartas-feiras de outro continente.
Mas era um mundo de cheiros a petisco sem rival.
Vinham os homens do morangueiro na malga, os da entremeada e da febra, os das sandes de molho, das bifanas, eu sei lá!
Bancas à dúzia e bancos corridos de madeira, espias e cordame, grelhadores de bidom, todas as maravilhas do mundo.
Eu e o R.C., correndo o risco de algum fiscal mais atento nos apanhar sem bilhete pá bola em plena gare de iguarias, lá estávamos sempre torcendo pelas águias (ainda que nem um nem outro tenhamos tais simpatias) para que o estojo se renovasse na jornada seguinte.
Agora, é um deserto.
Deserto não será, sempre lá estarão umas quantas roulottes, creio eu. Mas nunca mais voltei ao sítio do morangueiro e dos exames de condução.
E já agora, porque é que nunca nos entrevistaram? Não havia quarta-feira europeia na Luz que não tivesse destaque nos telejornais, abrindo em panorâmica e sempre assim:
"Desde cedo...os espectadores foram afluindo..."
Nota: quem baptizou o local não fui eu, foi o R.C.
imagem do Estádio da Luz tirada daqui
O Centro Comercial Colombo não veio suprir a falta do Desde Cedo.
É verdade, tal centro de atracção não tem hoje paralelo nas redondezas.
Não era nada de sedimentado, não pensem.
Era até muito provisório e episódico.
Tinha lugar a certas quartas-feiras que alguns denominavam europeias. Como se em Benfica pudesse haver quartas-feiras de outro continente.
Mas era um mundo de cheiros a petisco sem rival.
Vinham os homens do morangueiro na malga, os da entremeada e da febra, os das sandes de molho, das bifanas, eu sei lá!
Bancas à dúzia e bancos corridos de madeira, espias e cordame, grelhadores de bidom, todas as maravilhas do mundo.
Eu e o R.C., correndo o risco de algum fiscal mais atento nos apanhar sem bilhete pá bola em plena gare de iguarias, lá estávamos sempre torcendo pelas águias (ainda que nem um nem outro tenhamos tais simpatias) para que o estojo se renovasse na jornada seguinte.
Agora, é um deserto.
Deserto não será, sempre lá estarão umas quantas roulottes, creio eu. Mas nunca mais voltei ao sítio do morangueiro e dos exames de condução.
E já agora, porque é que nunca nos entrevistaram? Não havia quarta-feira europeia na Luz que não tivesse destaque nos telejornais, abrindo em panorâmica e sempre assim:
"Desde cedo...os espectadores foram afluindo..."
Nota: quem baptizou o local não fui eu, foi o R.C.
imagem do Estádio da Luz tirada daqui
À nora
Houve uma questão qualquer que me chegou aos ouvidos, era no tempo do Netpac, parece que queriam que eu lá o fosse instalar.
Mas a coisa morreu e nunca mais pensei no assunto.
Ao fim de umas semanas, ela disse-me: "Parece que afinal tens que lá ir por causa da Internet."
"Então? Ainda não instalaram?"
"Já! Já instalaram" - disse com o sorriso malandro que tão bem lhe fica.
"Então? Não sabem trabalhar com o Netscape?"
"Não, não é isso. Querem saber o que é que hão-de procurar."
"Procurar? Não estou a perceber."
"Sim. Querem saber o que é que hão-de procurar na Internet!"
Houve uma questão qualquer que me chegou aos ouvidos, era no tempo do Netpac, parece que queriam que eu lá o fosse instalar.
Mas a coisa morreu e nunca mais pensei no assunto.
Ao fim de umas semanas, ela disse-me: "Parece que afinal tens que lá ir por causa da Internet."
"Então? Ainda não instalaram?"
"Já! Já instalaram" - disse com o sorriso malandro que tão bem lhe fica.
"Então? Não sabem trabalhar com o Netscape?"
"Não, não é isso. Querem saber o que é que hão-de procurar."
"Procurar? Não estou a perceber."
"Sim. Querem saber o que é que hão-de procurar na Internet!"
01/12/2003
O cigano do amor
Já sei que sou um rústico.
Já sei que quem nasce para dez réis nunca chega a vintém.
Mas não consigo conter estas manifestações mentais de saudosismo que me levam a acordar cantando essa inolvidável melodia que enchia o ar abaixo e acima dos discos voadores vermelhos, verdes e azuis.
Nada, nem o cheiro dos frangos com pó, nem a perícia dos banqueiros do gaitinha, nem o microfone com lenço dos mascates, nem a confusão de plásticos de todas as cores, nem o aroma gorduroso das farturas me vem tantas vezes à memória.
Talvez porque todo o resto é ainda avistável ou sensível, ainda que em versões modernas, a dôr seja mais funda. Do Cigano do Amor nem mais um acorde. É pena.
Não me contentaram as "vinte e quatro rosas", "maravilhoso coração maravilhoso" ou os Gipsy Kings.
Continuo a gostar de feiras, mas nunca mais viverei em êxtase.
Já sei que sou um rústico.
Já sei que quem nasce para dez réis nunca chega a vintém.
Mas não consigo conter estas manifestações mentais de saudosismo que me levam a acordar cantando essa inolvidável melodia que enchia o ar abaixo e acima dos discos voadores vermelhos, verdes e azuis.
Nada, nem o cheiro dos frangos com pó, nem a perícia dos banqueiros do gaitinha, nem o microfone com lenço dos mascates, nem a confusão de plásticos de todas as cores, nem o aroma gorduroso das farturas me vem tantas vezes à memória.
Talvez porque todo o resto é ainda avistável ou sensível, ainda que em versões modernas, a dôr seja mais funda. Do Cigano do Amor nem mais um acorde. É pena.
Não me contentaram as "vinte e quatro rosas", "maravilhoso coração maravilhoso" ou os Gipsy Kings.
Continuo a gostar de feiras, mas nunca mais viverei em êxtase.
Mais disparates
É sempre difícil, já o disse, identificar o indivíduo para quem falam políticos, jornalistas, etc.
Porque a confusão quanto à capacidade de entendimento do dito receptor é grande, porque a confusão na mente emissora é considerável, saem coisas incompreensíveis.
Repete-se, desde há algum tempo, em relação à SIDA uma curiosa catadupa de afirmações categóricas:
"Há grupos de risco."
"Já não há grupos de risco. O que há são comportamentos de risco."
"Já não há comportamentos de risco."
Se o assunto não fosse sério, a gente ria-se um bocado.
Primeiro, é preciso recuar à primeira fase do conhecimento generalizado da doença.
Final da década de oitenta.
As previsões eram catastróficas, recordo-me de ter feito contas baseadas nas taxas de contaminação previstas e o que obtinha era uma probabilidade mínima de qualquer um de nós estar vivo hoje em dia, no ano de 2003.
Mas isso é o costume, também. Fala sempre mais quem não sabe o que diz. Agitam-se monstros inverosímeis que se voltam contra os titeriteiros, desacreditando-os.
Agora há coisas que são tão simples que eu não consigo perceber a confusão que geram.
Primeiro o conceito de comportamento de risco e de grupo de risco.
Estamos a falar da transmissão de uma doença. Sabendo-se o que se sabe sobre as vias de transmissão, que não é obviamente tudo, sabe-se quais são alguns comportamentos arriscados.
É assim para todas as doenças transmissíveis. Ou não será?
Desde as que se propagam com maior dificuldade até às que facilmente geram epidemias.
É certo que para estas últimas, muitas vezes é impossível evitar um comportamento de risco.
A questão aqui é uma e só uma. São os riscos de contrair esta doença tão diversos que se torna impossível preveni-los? Não é isso que nos dizem. Então se não são, é possível fazer qualquer coisa para evitar a contaminação. E quem despreza isso, está obviamente a ter um comportamento arriscado face à doença.
Incluindo a senhora que se mantém casada com um marido promíscuo. Ou o homem que tem uma mulher pública. Podem não saber? Pois podem, mas contra isso batatas.
E os grupos de risco, o que são, senão etiquetas de agrupamento, de acordo com determinado tipo de comportamentos, uma definição por compreensão?
Então há ou não há comportamentos arriscados? Se querem ou não agrupar as pessoas, isso é outra questão.
Mas o espalhafato é grande quando se diz, com grande convicção: "O número de casos aumenta entre os heterossexuais. São já o grupo mais afectado." Como se a maioria das pessoas não o fosse, com a consequente conversão probabilística.
Não seria isto previsível? Qual é o espanto? E mais, existiu algum tempo em que assim não fosse? E se existiu, é porque as probabilidades de transmissão numa relação homossexual são maiores, ou não? Se é, qual a razão?
Já não falo dos riscos óbvios das agulhas compartilhadas, dos riscos que correm médicos, enfermeiros, bombeiros, etc.
O problema é sempre o mesmo. Não é a ciência e a evidência que comandam os cuidados a ter e a propôr. É uma espécie de amálgama de gente com boas intenções que acha que certas coisas não se podem dizer para não melindrar estes e aqueles. Um critério sem critérios e depois queixam-se.
Bem sei que estas coisas não são fáceis de resolver. Os lazaretos também não impediram outros males de se propagar. É sempre muito difícil impedir quem está contaminado com uma doença contagiosa, que a transmita a outros.
Lutamos com isso desde sempre, e aparentemente melhorámos as defesas, mas se o fizémos, foi usando a cabeça, não foi dizendo disparates.
Quando as pessoas não atacam a doença mas se revoltam contra os catálogos, não é preciso dizer mais nada.
imagem do Lazareto em http://www.terravista.pt/baiagatas/1053/lazareto.htm
É sempre difícil, já o disse, identificar o indivíduo para quem falam políticos, jornalistas, etc.
Porque a confusão quanto à capacidade de entendimento do dito receptor é grande, porque a confusão na mente emissora é considerável, saem coisas incompreensíveis.
Repete-se, desde há algum tempo, em relação à SIDA uma curiosa catadupa de afirmações categóricas:
"Há grupos de risco."
"Já não há grupos de risco. O que há são comportamentos de risco."
"Já não há comportamentos de risco."
Se o assunto não fosse sério, a gente ria-se um bocado.
Primeiro, é preciso recuar à primeira fase do conhecimento generalizado da doença.
Final da década de oitenta.
As previsões eram catastróficas, recordo-me de ter feito contas baseadas nas taxas de contaminação previstas e o que obtinha era uma probabilidade mínima de qualquer um de nós estar vivo hoje em dia, no ano de 2003.
Mas isso é o costume, também. Fala sempre mais quem não sabe o que diz. Agitam-se monstros inverosímeis que se voltam contra os titeriteiros, desacreditando-os.
Agora há coisas que são tão simples que eu não consigo perceber a confusão que geram.
Primeiro o conceito de comportamento de risco e de grupo de risco.
Estamos a falar da transmissão de uma doença. Sabendo-se o que se sabe sobre as vias de transmissão, que não é obviamente tudo, sabe-se quais são alguns comportamentos arriscados.
É assim para todas as doenças transmissíveis. Ou não será?
Desde as que se propagam com maior dificuldade até às que facilmente geram epidemias.
É certo que para estas últimas, muitas vezes é impossível evitar um comportamento de risco.
A questão aqui é uma e só uma. São os riscos de contrair esta doença tão diversos que se torna impossível preveni-los? Não é isso que nos dizem. Então se não são, é possível fazer qualquer coisa para evitar a contaminação. E quem despreza isso, está obviamente a ter um comportamento arriscado face à doença.
Incluindo a senhora que se mantém casada com um marido promíscuo. Ou o homem que tem uma mulher pública. Podem não saber? Pois podem, mas contra isso batatas.
E os grupos de risco, o que são, senão etiquetas de agrupamento, de acordo com determinado tipo de comportamentos, uma definição por compreensão?
Então há ou não há comportamentos arriscados? Se querem ou não agrupar as pessoas, isso é outra questão.
Mas o espalhafato é grande quando se diz, com grande convicção: "O número de casos aumenta entre os heterossexuais. São já o grupo mais afectado." Como se a maioria das pessoas não o fosse, com a consequente conversão probabilística.
Não seria isto previsível? Qual é o espanto? E mais, existiu algum tempo em que assim não fosse? E se existiu, é porque as probabilidades de transmissão numa relação homossexual são maiores, ou não? Se é, qual a razão?
Já não falo dos riscos óbvios das agulhas compartilhadas, dos riscos que correm médicos, enfermeiros, bombeiros, etc.
O problema é sempre o mesmo. Não é a ciência e a evidência que comandam os cuidados a ter e a propôr. É uma espécie de amálgama de gente com boas intenções que acha que certas coisas não se podem dizer para não melindrar estes e aqueles. Um critério sem critérios e depois queixam-se.
Bem sei que estas coisas não são fáceis de resolver. Os lazaretos também não impediram outros males de se propagar. É sempre muito difícil impedir quem está contaminado com uma doença contagiosa, que a transmita a outros.
Lutamos com isso desde sempre, e aparentemente melhorámos as defesas, mas se o fizémos, foi usando a cabeça, não foi dizendo disparates.
Quando as pessoas não atacam a doença mas se revoltam contra os catálogos, não é preciso dizer mais nada.
imagem do Lazareto em http://www.terravista.pt/baiagatas/1053/lazareto.htm
30/11/2003
A lição
Viu chegar os dois carros e aproximou-se quase a correr.
Vinha só em calções, com uma bola de futebol na mão.
O cão seguia-o, abanando o rabo.
"É a primeira vez?" - repetiu a pergunta.
Que era para uns, que não era para outros.
Reparou em tudo, quis identificar os casais e saber de quem era o cão.
Depois designou, uma por uma, as quintas que dali se avistam.
Quando a explicação topológica já não tinha muito mais a dar, virou-se para o cão:
"Lava-o com quê?"
...
"Deve usar o shampô Piloto. Pi-lo-to. É uma embalagem amarela com um cão pintado, assim..."
E virava a cabeça já cheia de cabelos brancos para a esquerda, empinando o queixo.
Viu chegar os dois carros e aproximou-se quase a correr.
Vinha só em calções, com uma bola de futebol na mão.
O cão seguia-o, abanando o rabo.
"É a primeira vez?" - repetiu a pergunta.
Que era para uns, que não era para outros.
Reparou em tudo, quis identificar os casais e saber de quem era o cão.
Depois designou, uma por uma, as quintas que dali se avistam.
Quando a explicação topológica já não tinha muito mais a dar, virou-se para o cão:
"Lava-o com quê?"
...
"Deve usar o shampô Piloto. Pi-lo-to. É uma embalagem amarela com um cão pintado, assim..."
E virava a cabeça já cheia de cabelos brancos para a esquerda, empinando o queixo.
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