Enquanto Carlos
(para se perceber bem quando é que fui Carlos é melhor
ler isto)
Enquanto Carlos fazia a minha vidinha balnear ao som de um bar de praia, de vez em quando perturbado pelo apito dum beep emprestado pelo velho amigo R.C.. Era o tempo dessas geringonças.
Mas não andava muito preocupado com as comunicações, estava de férias.
Certo dia, uma mensagem:
GANA BOA 6 FEIRA 21:00
Gana boa?
Que raio será isto?
Cheira-me a mensagem do R.C.. Mas Gana boa?
Se é dele, é para o petisco. Sexta-feira, 9 da noite, bate choco.
Lá fui eu para a praça de táxis perguntar por um restaurante ou tasca chamado Gana Boa, Gamba boa ou Gamboa, tudo o que me pareceu.
Nada. Não sabiam de nenhum.
Nem eu, que conhecia mais ou menos bem a zona.
Fazer o quê?
Não valia a pena preocupar-me. O que fosse, soaria.
Na sexta-feira, um pouco antes das 9 da noite, parei o automóvel na praça principal da vila, em local conspícuo, e lá fui para a taberna do costume. Esperei.
Às 9 e 20, e como nada tivesse acontecido, lá pedi o jantar ao meu intermediário no negócio do alojamento, que já estava farto de me ver ocupar a mesa só para beber cerveja.
Quando chegou o peixe, tocou o beep:
ESTA QUASE
Passou o tempo e nada.
Terminei o jantar pouco antes das dez.
Saí para a rua e lembrei-me de levar o carro para a zona dos cafés, mais abaixo.
Encontrei um lugar bem visível quase, quase em cima da hora certa.
Estacionei e como estava a começar o noticiário na rádio, fiquei dentro do carro a ouvi-lo. Era o tempo da discussão sobre as últimas experiências nucleares francesas nos atóis da Polinésia e sobre o filme do ET de Roswell.
E eis que passa por mim um árabe. Vestido a rigor, de fez na cabeça. Coisa estranha, nunca vi um árabe assim vestido aqui em Portugal. Só pode ser o R.C. e uma das suas entradas de leão.
Saí do carro e interceptei-o.
Começou a falar comigo em francês.
Comecei a perguntar-lhe que história era aquela de Gana boa e ele só me falava em poulets.
Perguntei-lhe se bebia um café e ele que je n'ai pas de escudos, seulement ça, e mostrava-me dirames marroquinos.
Lá bebemos o café e só depois de irmos ao jipe dele, onde trocou de roupa e me mostrou um balde com uma galinha viva dentro, me contou a história, já em português.
Que me tinha mandado uma mensagem a marcar hora dizendo "Gaja boa, 6ª feira, 21:00"
Ah, gaja boa, porra, as voltas que eu dei à cabeça.
E depois mandou outra que eu não recebi, dando a indicação do local onde se apresentou depois, vestido de árabe, com o balde com duas galinhas, as quais fingia vender.
Toda a gente lhe achou graça, mas ninguém lhe comprou nenhuma.
As moedas marroquinas eram para o troco.
Ofereceu a que faltava a um casal de namorados.
Bem, lá levei foi o homem a um petisco, que ele estava era com fome.
Depois, levei-o lá a casa para deixar o saco e a galinha.
É claro que a minha senhoria apareceu logo no quintal e assim se habilitou a ganhar o último prémio da noite.
Só achou é que a galinha estava um bocadinho magra.
Nada que não se resolvesse com ração.
Depois lá partimos à caça, mais para sul. A ver das ganas boas.
Uma semana depois, quando um dos meus primos passou por lá, veio a senhoria a correr dizer-lhe: "Já viu como é que está a galinha? Muito mais gorda."
O meu primo: "?"
Quando ela finalmente percebeu que não era o mesmo, disse:
"Pois, desculpe lá, quem me deu a galinha foi o Carlos!"
imagem obtida em www.smartbeep.com/.../motorola/ motorola_elite.htm (link perdido)