16/01/2004

Os sonhos



Já falei aqui de sonhos. Não dos sonhos de cada dia, mas dos sonhos nocturnos que ainda pairam ao acordarmos.
Uns perduram, outros escorrem pelo cano a uma velocidade vertiginosa.
Já li alguma coisa sobre a interpretação dos ditos e, confesso, pareceu-me que se queria encontrar uma explicação imediata para tudo.
Há sempre um trauma, uma recordação, isto e aquilo na ponta do fio. Não sei, não me parece assim tão fácil.
Não consigo encontrar uma causa para se sonhar noites a fio com uma espécie de bandas multicor que passam da direita para a esquerda, e vice-versa, como rodapés de telejornal. Apenas as bandas em fundo vermelho a escorregar para azul. Nada mais.
Isto muitos anos antes de tais bandas surgirem nos écrans. Existiam apenas nos painéis publicitários luminosos.

15/01/2004

Gasolim (a)variando


Sombrinhas e chapéus de chuva

Fui habituado assim. O adereço masculino era chapéu de chuva (ou guarda-chuva), o feminino era sombrinha.
Mais, era vedado ao homem andar de chapéu de chuva que não fosse preto, excepção feita a certos chapéus rústicos de pano azul.
Descontando aqui a questão da côr preta, que aparentemente claudicou em último lugar aos pés desta peça de aparato, depois de ter abandonado os fatos, os automóveis, as máquinas fotográficas e os telefones, sendo primeiramente substituída nos chapéus de chuva pelas cores atribiliárias da publicidade e mais tarde por padrões vagamente escoceses, passemos aos outros aspectos.
Parece que ninguém sabe ao certo qual foi a sua função primeira: se a de sombrinha, se a de guarda-chuva, se a de adereço. Provavelmente logo as três.
Para as suas duas funções hoje essenciais, proteger do sol e da chuva, os requisitos são diferentes, quer na côr quer nas características do tecido, uma vez que se parece aconselhado a uma sombrinha propriamente dita ser branca e permeável, já um guarda-chuva, embora a côr não importe, é razoável que seja impermeável.
Ora as sombrinhas que apenas protegiam do sol, depois de terem estado muito em voga ainda no século passado, são hoje peças de museu.
Qualquer pessoa que em dias de canícula use um acessório destes opta por um chapéu de chuva.
O dois em um tomou conta destes objectos.
Mesmo que o meu chapéu de chuva azul de cabo de madeira seja permeável e que o caseiro lá do monte insista em chamar-lhe sombrinha.
Atraso e ignorância minha.
Não sei o nome da minha fada

Eu, que até tenho boa memória, não me lembro.
É estranho, tão estranho como a minha relação com ela.
Conheci-a, talvez seja melhor dizer vi-a a primeira vez, ainda menino.
Andava no mesmo colégio do que eu, e era mais velha.
Por alguma razão gostou de mim. Sorria-me sempre. Sabia o meu nome. Mas pouco falámos.
Depois perdi-a de vista.
Voltei a encontrá-la muitos anos depois, certa tarde num café. Sorriu-me e chamou-me pelo nome. Era agora uma mulher bonita, alta e elegante. Dava muito nas vistas mas tinha o ar angelical que às fadas compete.
E voltei a perdê-la.
Encontrei-a mais tarde numa rua de Lisboa. Transportava sinais de quem frequentava a mesma escola do que eu. Falámos pouco, não lhe perguntei onde estudava.
E uns tempos depois, vi-a na escola. Uma única vez.
Depois disso, encontrei-a uma vez à saída de um comboio.
Há três dias, vi-a pela última vez.
Envelheceu, a minha fada. Não disse o meu nome mas continua bonita. E continua a emanar aquela sensação estranha de bem-estar.
E é uma das poucas pessoas que me reconhece sempre, mesmo que os anos passem no meu rosto.

14/01/2004

Gasolim às curvas

Lavando mais branco



O mundo está cheio de conceitos absurdos.
Quase sempre surgidos na voragem da inovação ignorante.
Sem o devido olhar à volta, sem a mínima reflexão.
Uma das pérolas mais famosas é o conceito de lavagem de dinheiro, que de resto pegou de estaca.
Se alguém me conseguir demonstrar que existe uma forte razão para tal conceito não ser absurdo, eu fico grato.
Se alguém me explicar porque é que é crime, mais grato fico.
Na minha modesta opinião, trata-se apenas de um mecanismo para tentar apreender capitais que, de outra forma, seriam inalcançáveis. Mas que tem uma designação estúpida, lá isso tem.
Mesmo que se alegue que é uma designação histórica, que tem que ver com lavandarias.
É que hoje já não tem esse significado.
Parece bem claro que uma coisa é obter dinheiro de forma ilícita; outra, completamente diferente, é utilizá-lo depois de forma lícita.
O dinheiro deixa de ser ilícito? Claro que não. Deixa de ser sujo? Claro que não.
A questão é interceptá-lo no seu tráfego de ilicitude ou depois disso.
A questão não é, nem pode ser, o que se faz ao dinheiro depois de o roubar ou obter de outra forma.
É, e será sempre, a forma como foi obtido.
Se alguém monta diligentemente uma fábrica com dinheiro roubado, a fábrica pertence-lhe?
Se compra depois modestamente um Ferrari, fica com ele?
A questão aqui é que pouca vez é roubado, quase sempre é fruto de negócios proibidos. Mas o conceito mais uma vez não colhe. Não faz sentido.
Duas notas de rodapé:
Ainda sou do tempo em que circulavam boatos de que alguns corriam o país à cata de cautelas de lotaria premiadas para as comprar.
E também sou do tempo em que circulou o rumor de que as notas de euro quando iam à máquina de lavar perdiam muita cor. Mais dos que os nossos queridos e saudosos escudos. Com euros, ainda não fiz a experiência.

imagem tratada a partir desta

13/01/2004

A importância Google



Quem tenha activada a barra Google no IExplorer, vê a importância Google das páginas que visita. Haverá outras formas de o fazer mas não sei quais são.
A mim, apareceu-me a barra Google depois de alguma instalação do IE a que fui alheio. Nunca me preocupei muito com o assunto até que um dia pensei que raio será isto de PageRank? Que rank? Feito como?
Depois lá me pus a investigar o mecanismo da coisa. Não sabendo os pormenores completos do funcionamento, fica-se com uma noção de como são elaboradas estas hierarquias.
E sempre é o Rank do Sr.Page e do seu sócio.

E agora?
Iremos começar a dizer:
O meu nível é 3!
Nem sequer tens nível Google...
O teu nível é 0, zeeeero!
Olha, ela é uma Google 7!
Só me caso contigo quando tiveres nível 6!
Será que é isso?

Coincidências

É provável que hoje se atinjam as 1500 visitas aqui, enquanto no Blogger da Globo se chegará às 4000.
Considerando que o contador foi o mesmo até cerca das 1140 visitas, a explicação do desfasamento residirá no maior número de leitores brasileiros, nas aparições nos Fresh Blogs e na preferência do Google pela versão branca do Blogger da Globo.
Deve ser isso.

(enquanto isso JPP ultrapassou hoje os 350000!)
Vaca fria



Concluir que existe uma coerência nas notas aqui deixadas nos últimos meses é uma impossibilidade.
Creio que se aplica a todos. A todo o ser humano e à sua obra.
O mistério vem da invenção da razão. Seja lá isso o que fôr. Mas creio que não andaremos longe se identificarmos a razão e o racionalismo com a necessidade de estruturar, arrumar e fazer depender de um conjunto de regras, o pensamento humano.
Cada um terá a sua noção do que é. Não faltam tratados sobre o assunto.
O mister é saber se o pensamento humano é compaginável com aproximações mais ou menos rigorosas. Quando ele próprio é, à partida, um mistério insolúvel. E todas as construções mentais que se possam fazer sobre ele, é nele que radicam. A pescadinha de rabo na boca.
Tenho sobre as coisas a vaga suspeita, já aqui referida, de que estamos única e exclusivamente dependentes dos caprichos da vida. Não do fado cantado, mas dessa misteriosa característica que anima os seres vivos.
Que faz e desfaz espécies, que as adapta, que as mobiliza com o único aparente intuito de se perpetuar, seja sob que forma fôr.
Não estamos a salvo enquanto espécie, dos arbítrios dessa misteriosa força(?).
Até a ordem para nos extinguirmos poderemos receber. Não somos nisso diferentes das outras espécies.
Por isso, suspeito também que qualquer coisa que eu possa pensar e dizer tem mais a ver com um comando que me é dado, do que com a minha própria vontade (o que será isso?).
Coisas que penso e digo em reacção a estímulos exteriores ao indíviduo que sou e em consequência da ordem que recebo face a esses estímulos. Não creio que seja muito mais do que isso.
Se eu fosse um homem de fé (não o serei porquê?), encaixaria todos estes argumentos na vontade divina e descansava. Seria assim?
Como não sou, suspeito apenas que algo me impeliu mais uma vez a escrever estas linhas.
Apenas para mostrar a mim próprio, é disso que me convenceram as estranhas pulsões que me comandam, que escreva eu o que escrever, nunca serei coerente.
Não o serei porque apesar de todas estas suspeitas, a maior parte das vezes convenço-me de que existe uma razão e uns estão mais perto dela do que outros.
Identifico comportamentos e raciocínios criticáveis e disso dou conta.
Falo de emoções e qualifico-as.
De justiça e de injustiça.
Do belo e do feio.
Sem suspeitar então que estou a ser comandado.
E continuarei.

imagem em

12/01/2004

O pintor de memória

Na linha daquela velha história do pintor e do pastor que, para quem não sabe, se pode resumir a poucas linhas:
Um pastor encontrou um pintor no meio do campo e depois de observá-lo durante algum tempo, perdeu a timidez e perguntou-lhe: "O senhor também faz retratos?"
O pintor que sim, que fazia.
"Então, talvez me pudesse fazer um retrato do meu falecido pai. Sabe, nem uma fotografia tenho dele. Talvez se eu lhe dissesse como ele era..."
O pintor que, se ele lhe desse uma boa descrição, poderia tentar.
Lá se pôs o pastor a rememorizar os traços do pai.
Disse-lhe depois o pintor que passasse por aquelas bandas, dali a uns três dias.
E assim foi.
Ao fim de três dias, o pastor roendo-se de curiosidade, lá se chegou.
O pintor estendeu-lhe o quadro:
"Este é o meu pai?" - intrigava-se o pastor - "o que os bichos fazem à gente depois de mortos...!"
Na linha dessa história, o que os processadores de imagem fazem aos nossos rabiscos em guardanapos de papel:

Do que é que falamos quando falamos entre nós?

Essa é uma das questões mais persistentes entre os géneros.
E talvez onde o desconhecimento seja mais profundo.
Vez por outra, caem umas pistas, uma confidência: estivemos a falar de tal e coisa.
Mas não há grandes compêndios sobre o assunto.
Para mim, os temas femininos constituem ainda um mistério. Embora, parecendo que não, os blogues tenham levantado um pouco o véu.
Mas são um mistério e eu procuro não cometer a injustiça de julgar que as mulheres falam sempre dos mesmos temas e que têm todas os mesmos interesses. Isso não pode ser verdade. Claro que não é. E concerteza que um trio de mulheres não é igual a um duo, nem a uma turma de trinta e duas. O número deve fazer a diferença. A precisão da conversa deve aumentar de forma inversa ao número de participantes, digo eu.
Quanto aos homens, também não posso traçar um quadro geral.
Apenas posso subsumir a partir dos meus grupos de amigos. Das fases por que passam e da localização geográfica. Da instrução e educação que tiveram.
Mas, ao contrário do que possam supôr muitas mulheres, se é que o fazem, o tema fêmea não é uma constante nas nossas preocupações.
Talvez por ser demasiado delicado e complexo, decididamente não é prioritário.
Não que não se comente o exemplar que acabou de se sentar três mesas ao lado e que embasbacou metade da plateia (a outra metade dos sentantes era feminina). Claro que isso acontece.
Mas ele há prioridades. Descontando os temas da infância, que já vai longe, há sempre a fase militar que às vezes se prolonga até ao fim da vida, e em que os temas parecem teimar em não vestir à civil. Toda a tropa tem que ser esmiuçada, desde os copos na messe até às semanas de campo.
E há, sem dúvida, o futebol. Curiosamente, na minha pálida amostra, verifico que o tema da bola não é tão universal como o militar.
O tema da bola parece ganhar importância nas grandes zonas urbanas e perder nas rurais.
Aí, é sempre mais importante falar de vacas e de ovelhas, de tractores e de rações.
No campo, a bolsa de produtos é um tema importantíssimo. O preço do trigo já foi mais relevante, mas ainda pontua o preço da carcaça de bovino.
A política sofre da mesma variação. É analisada à escala nacional na cidade e ponderada a nível local no campo.
Não há grande apetência nas cidades para falar da vida alheia. Já no campo...
Depois os petiscos, quase uma constante. Aqui, sim, parece haver uma importância nacional. Um tema caro a pobres e a ricos, a campónios e a urbanos. Não há homem que não sorria face à perspectiva de um bom bródio.
Depois há interesses mais específicos. Sempre que encontro certos amigos, surge sempre uma conversa de cash-flow, liderança, custo-benefício. O curioso é que não são estes os que realmente lidam com o problema. Normalmente são apenas funcionários. Quanto aos que conheço que põem mesmo a mão na massa, a bem dizer o dinheiro em risco, esses normalmente falam de outras coisas, de viagens e de restaurantes. Não é estranho?
Há ainda os que só falam de desporto, que dizem que correm todos os dias não sei quantos quilómetros, etc.
Há o tema dos carros, mais na cidade do que no campo. Pelo menos hoje em dia. Creio que, em tempos mais recuados, não era assim.
Bem, quanto ao assunto de que falam os dois géneros quando em tête-à-tête, toda a gente sabe o que é. Não vale a pena dizer nada.

11/01/2004

Altura disso



Costumava ser altura disso.
De copiar números de telefone de uma agenda para outra.
Havia sempre uns que ficavam para trás.
Gente a quem recorremos e que já não é útil.
Se calhar um amigo que morreu.
E aqueles que deixámos de ver há dois anos mas cujo número mantivemos esse tempo.
É difícil definir como se perde um amigo.
A última vez que o vimos, qual foi?
O que é que lhe dissemos: Até amanhã?
Agora os telefones encarregam-se disso.
Às vezes apagam as memórias sem que a gente dê ordem.
E já não há uma época de apagar.
Quando a capacidade de armazenar se esgota, apaga-se o tal e coloca-se o do mecânico do carro.
Faz mais falta.
Falha de energia

10/01/2004

Heranças na paisagem

Assaltos na estrada



Os salteadores de estrada parece que ainda não acabaram.
Mas houve um tempo em que tinham mais fama do que proveito.
Hoje já nem isso. Ainda bem.
A verdade é que ouvi muitas histórias mas nunca conheci ninguém que tivesse sido assaltado na estrada.
Porém, certa vez, em noite de meados de Agosto, a caminho do sul e da praia, aconteceu.
Ia eu já embalado no sono pelas luzes do tablier, quando os meus tios se agitaram nos bancos da frente: "O que é aquilo?"
Aquilo eram uns carros parados à beira da estrada e pessoas cá fora.
Fizeram-nos sinal de parar. Parámos.
Não era acidente.
"Parece que este amigo ia sendo assaltado." - disse um dos presentes.
O VW tinha as duas rodas do lado direito furadas. Estava na berma e o condutor contava a história. Tinha passado por uma barreira feita com tábuas com pregos, tinha fugido aos meliantes e só parara ali.
Os circunstantes eram quase todos caçadores em fim de jornada. Todos a abrir os porta-bagagens e a carregarem as armas. "Onde é que eles estão?"
A mim, o que me fazia confusão era o estado do homem. Falava arrastadamente e dizia umas coisas sem grande sentido.
Depois, ele seguia no mesmo sentido do que nós. E não tínhamos visto ninguém nem tábuas algumas no meio da estrada.
Ainda por cima, os pneus não estavam rasgados, o que seria de supor se ele tivesse andado um bom bocado com eles furados.
Mas ele insistia. Que era uma barragem de malfeitores, que estavam armados e que tinham feito fogo. O carro não tinha uma beliscadura, estava era cheio de pó e de ervas secas do lado direito, o lado dos furos.
Um dos meus tios, pelo sim pelo não, confirmou se a arma estava a jeito. Os outros lá deram uma boleia ao homem para ir buscar ajuda, um reboque ou uma roda suplementar.
Quando reiniciámos a viagem, a conversa era sobre quantos copos teria o homem bebido e quantos metros é que ele teria andado na berma até furar os pneus.
Já o nosso companheiro de viagem, o único que viajava no mesmo sentido, num Fiat 600, de cada vez que o meu tio acelerava o 1500, começava a fazer sinais de luzes, para que ele não se afastasse muito. Naquele tempo, de Grândola para sul, mesmo de dia, era raro ver-se outro carro na estrada. O meu tio fez-lhe a vontade.
O estranho mundo

Momentos sem escrita possível

09/01/2004

Pessoal e intransmissível

La Habana e outras histórias



Apetecia-me agora invocar aqui outro blogue mas não o faço porque já é demasiado conhecido. O certo é foi mais um que me roubou um post aqui há uns tempos. Um post que mais uma vez não escrevi. Mas tinha a ver com horas.
Ora é de horas e de dias que se trata. Talvez até de locais.
Relembro aquela velha teima entre duas amigas sobre o local onde tinha ocorrido determinado acidente rodoviário. Uma afirmava que fora em Roma. Outra retorquia que fora no Crato.
Ambas tinham razão.
Que horas são as de um acontecimento? A que dia pertence?
Em que dia entrou Fidel em Havana, há 45 anos atrás? É coisa fácil de apurar, não é matéria de opinião.
Mas as referências vacilam entre duas datas: 8 e 9 de Janeiro. Os mais errados dizem que foi no Dia de Ano Novo.
É provável, mas não o sei, que a diferença se deva à diferença horária entre a Europa e a grande antilha.
Sem apurar a verdade - que horas eram e que dia era em Havana - porque a verdade pouco me interessa, digo que foi a 9.
Isto porque se impõe recordar um dos posts que primeiro aqui coloquei:

Fidel Castro había ganado la guerra a Fulgencio Baptista, entrando triunfalmente en La Habana, mientras se rompía el muro de contención de la presa de Vega de Tera, provocando la inundación del pueblo de Ribadelago.

Michel Debré était nommé premier-ministre.

Qual é a tradução para português destes dois parágrafos?


E já agora, a Sopol.

O que é que tudo isto significa? Se é que significa alguma coisa.

As horas de um acontecimento deveriam ser as locais. E a que horas chegou esta última sonda a Marte? E em que dia?
Há um velho livro de ficção científica que tem a resposta. Depois digo qual é.

08/01/2004

O homem voltou! (Os post roubados II)
um post dedicado ao Anarcka



Caramba! Voltou das férias e tem razão para estar magoado.
Primeiro: foi ele que levantou a lebre e até, posso dizê-lo, em minha atenção. O mestre não tinha nada que o citar, sem sequer indicar a fonte.
Segundo: peço desculpa por me não ter lembrado da data de 23. Mas o meu amigo também desapareceu...

Espero que venha com força para continuar.
Os posts roubados

A minha opção por não comentar os últimos acontecimentos, que se baseia na maior parte das vezes no desinteresse que me suscitam, faz todavia com que às vezes me roubem posts.
Não é que eu fosse comentar de imediato a notícia. Já há demasiada gente a fazê-lo e todos passam muito bem sem a minha opinião.
Mas é que, às vezes, há na notícia esse lado fugitivo (fugidio?) que a pode arrastar no tempo como um cavalo arrasta o cavaleiro preso aos estribos.
E é isso que me interessa. Não o diz que disse de porta de café.
Dito isto e perdoem-me mais uma vez a bizarria, roubam-me posts.
Nos últimos tempos tem sido por demais.
É na televisão, vem este e aquele e trás, lá está o ponto.
É em algum jornal ou revista, num mais recatado artigo, lá está.
Também em alguns outros blogues, já verifiquei que tem sucedido.
Ora porra, assim não dá.
Está o homem a começar a teclar e já o copiaram. Nem sequer tem ainda as ideias ordenadas em frases e as ilustrações alusivas, e já estão a bater no ponto. Não pode ser.
Se continuarmos assim, não me resta senão fazer como certo entrevistado que certo dia ouvi:
"Faço deles as minhas palavras."
Outros dirão: É falta de imaginação!
É tinto ou branco?



Um destes acasos fez com que tivesse ficado pregado a um documentário (julgo que francês) sobre o cheiro.
Passou esta madrugada na SIC Notícias sem a indicação final da proveniência.
Já aqui há uns tempos tinha aqui mencionado o museu dos odores. O cheiro a escola, a terra molhada, etc.
A verdade é que, apesar de tudo, sabe-se ainda pouco sobre os mecanismos sensoriais e particularmente sobre o tacto, o olfacto e o paladar.
Eu sou um ignorante profundo destas matérias mas como qualquer outra pessoa gosto de apreciar as questões que se apresentam.
É provável que o documentário em questão ainda passe a outras horas, não faço ideia.
Mas o que ele releva é interessante.
Toda a irracionalidade do comportamento humano (se por hipótese, considerarmos que o racionalismo é uma redução a zeros e a uns, é extraordinário que os mesmos zeros e uns nos permitam comunicar desta forma, colocar máquinas em Marte e que, ao mesmo tempo, estejamos tão longe de entender os nossos próprios mecanismos de leitura) aqui mostrada é um magnífico exemplo para outras considerações sobre a nossa forma de caracterizar as coisas.
O documentário abre e fecha com alguém que perdeu traumaticamante o olfacto. Há uma nota estranha no meio das imagens, vê-se outrem (talvez uma médica) a observar o interior da cavidade nasal do indivíduo. Como se a explicação estivesse ali, à vista desarmada. Talvez não passe de uma imagem documental absurda, à semelhança do aperto de mão para a fotografia ou do voto que fica pendurado dois minutos da ponta dos dedos.
O indíviduo em questão traça o quadro da sua incapacidade. Algo a que estamos habituados com os cegos e com os surdos, mas não com os que não têm cheiro.
Nem sequer há um designação vulgar para essa incapacidade.
Depois há uma série de observações mais ou menos apaixonadas sobre os aromas. Dados sobre a importância do cheiro na sobrevivência (todo o nosso organismo trabalha para sobreviver e para se reproduzir, digo eu), nas memórias, etc.
Há também o lado obscuro e humano dos extremos. Uma cidade canadiana (Halifax) onde parece começar a haver uma estranha luta contra o cheiro.
Sinais de "No scent" e outras particularidades que eu suponho já terão outros locais de acolhimento.
Depois, casos de pessoas que não suportam cheiros (como o mundo está trocado, o homem do traumatismo decerto acolheria de bom grado uma troca) chegando ao ponto de tentarem eliminar das suas casas as partículas que transportam da rua! Como se o cheiro só existisse lá fora, fosse coisa alheia, como se os seus aparelhos de televisão, as suas roupas, os seus alimentos não tivessem cheiro...
Há dúvidas se são ou não doentes psiquiátricos.
Depois o habitual da publicidade, a atracção dos cheiros. Sem nunca se saber se funciona ou não e como é que funciona. As habituais pérolas de que este perfume é para "uma jovem mulher, com alguma beleza, com dois filhos e um emprego, dinâmica..."
Todos os discursos ocos deste mundo. Quando se fala para comentar o que não é comentável.
E finalmente... Não foi no final, foi lá para o meio, uma prova de vinhos: cheira a palha e a limão, se fôr branco. Cheira a framboesas, a madeira, se fôr tinto.
Acontece que o tinto (parecia mais palhete) era branco colorido. Supostamente colorido com algo inodoro!!! Haverá algo que o seja completamente?
O certo é que os supostos escanções de imediato associaram a côr ao aroma.
É branco ou tinto?
Cheio!

a imagem supra saiu de um ficheiro do qual já não sei a origem - as minhas desculpas

06/01/2004

The trusty guy

Peço encarecidamente aos meus leitores que me esclareçam:
Também vós tendes sido premiados com avultadas somas nessa estranha moeda que dá pelo nome de USD only?
Por favor, dizei-me se sim ou se não.
Começo a pensar-me no centro do mundo, pois já conto com a módica quantia de 20,660,000 USD only (usando a notação de origem).
Hoje, porém, já abusando da minha sempre afável solicitude, pedem-me a colaboração a troco de nada.
Sabem-me assim já disponível para ajudar só porque sim.
Informai-me: o mal é geral ou tenho mesmo e-mail de labrego? É que já são nove as graças recebidas.
Eu sei que o dólar está a descer mas segundo os especialistas ainda não chegou aos 400% de desvalorização, tal como certas fontes disseram do peso argentino! Se fosse assim, eu percebia.
Enquanto Carlos
(para se perceber bem quando é que fui Carlos é melhor ler isto)

Enquanto Carlos fazia a minha vidinha balnear ao som de um bar de praia, de vez em quando perturbado pelo apito dum beep emprestado pelo velho amigo R.C.. Era o tempo dessas geringonças.
Mas não andava muito preocupado com as comunicações, estava de férias.
Certo dia, uma mensagem:
GANA BOA 6 FEIRA 21:00

Gana boa?
Que raio será isto?
Cheira-me a mensagem do R.C.. Mas Gana boa?
Se é dele, é para o petisco. Sexta-feira, 9 da noite, bate choco.
Lá fui eu para a praça de táxis perguntar por um restaurante ou tasca chamado Gana Boa, Gamba boa ou Gamboa, tudo o que me pareceu.
Nada. Não sabiam de nenhum.
Nem eu, que conhecia mais ou menos bem a zona.
Fazer o quê?
Não valia a pena preocupar-me. O que fosse, soaria.
Na sexta-feira, um pouco antes das 9 da noite, parei o automóvel na praça principal da vila, em local conspícuo, e lá fui para a taberna do costume. Esperei.
Às 9 e 20, e como nada tivesse acontecido, lá pedi o jantar ao meu intermediário no negócio do alojamento, que já estava farto de me ver ocupar a mesa só para beber cerveja.
Quando chegou o peixe, tocou o beep:
ESTA QUASE

Passou o tempo e nada.
Terminei o jantar pouco antes das dez.
Saí para a rua e lembrei-me de levar o carro para a zona dos cafés, mais abaixo.
Encontrei um lugar bem visível quase, quase em cima da hora certa.
Estacionei e como estava a começar o noticiário na rádio, fiquei dentro do carro a ouvi-lo. Era o tempo da discussão sobre as últimas experiências nucleares francesas nos atóis da Polinésia e sobre o filme do ET de Roswell.
E eis que passa por mim um árabe. Vestido a rigor, de fez na cabeça. Coisa estranha, nunca vi um árabe assim vestido aqui em Portugal. Só pode ser o R.C. e uma das suas entradas de leão.
Saí do carro e interceptei-o.
Começou a falar comigo em francês.
Comecei a perguntar-lhe que história era aquela de Gana boa e ele só me falava em poulets.
Perguntei-lhe se bebia um café e ele que je n'ai pas de escudos, seulement ça, e mostrava-me dirames marroquinos.
Lá bebemos o café e só depois de irmos ao jipe dele, onde trocou de roupa e me mostrou um balde com uma galinha viva dentro, me contou a história, já em português.
Que me tinha mandado uma mensagem a marcar hora dizendo "Gaja boa, 6ª feira, 21:00"
Ah, gaja boa, porra, as voltas que eu dei à cabeça.
E depois mandou outra que eu não recebi, dando a indicação do local onde se apresentou depois, vestido de árabe, com o balde com duas galinhas, as quais fingia vender.
Toda a gente lhe achou graça, mas ninguém lhe comprou nenhuma.
As moedas marroquinas eram para o troco.
Ofereceu a que faltava a um casal de namorados.
Bem, lá levei foi o homem a um petisco, que ele estava era com fome.
Depois, levei-o lá a casa para deixar o saco e a galinha.
É claro que a minha senhoria apareceu logo no quintal e assim se habilitou a ganhar o último prémio da noite.
Só achou é que a galinha estava um bocadinho magra.
Nada que não se resolvesse com ração.
Depois lá partimos à caça, mais para sul. A ver das ganas boas.
Uma semana depois, quando um dos meus primos passou por lá, veio a senhoria a correr dizer-lhe: "Já viu como é que está a galinha? Muito mais gorda."
O meu primo: "?"
Quando ela finalmente percebeu que não era o mesmo, disse:
"Pois, desculpe lá, quem me deu a galinha foi o Carlos!"

imagem obtida em www.smartbeep.com/.../motorola/ motorola_elite.htm (link perdido)
As raparigas riam-se

Às vezes, no meio de uma aula, as circunstâncias levavam a alterar o rumo da lição.
Naquele dia, a propósito de perspectivas e de fotografias que os alunos tinham trazido, levantou-se um emocionado sururu com base numa foto mais antiga que mostrava umas senhoras em trajes à moda de uma década longínqua.
Risadas - esta é a minha tia-avó. Gritinhos - esta é a minha mãe ao colo da minha avó.
Quando o professor, depois de observar as fotografias, lhes perguntou se achavam que as roupas eram assim tão diferentes das actuais, não hesitaram, ainda entre risinhos, em dizer que sim:
"Ò s'tôr, não diga que não são!"
"E concordam que as coisas evoluíram muito desde esses anos?"
"Evoluíram como?"
"Se vocês acham essas roupas estranhas, é porque hoje as vossas são muito diferentes, certo? Não foi isso que disseram? Então houve uma evolução."
Mais risinhos. Que sim. E falam das roupas dos artistas de um espectáculo de há anos, que passou há poucos dias na televisão.
"E então, o que é que acham que vai acontecer quando as vossas netas virem as vossas fotografias?"
"Nada!"
"Nada? Não acham que elas se vão rir também das vossas roupas?"
"Não. O que é que as nossas roupas têm de especial? Não andamos com vestidos de alta costura! Ai delas que se riam!"
"Pois não. E essas roupas da fotografia, eram assim tão especiais?"
"Ò s'tôr, então não são? Não diga que não são engraçadas!"
"Tão engraçadas como as vossas serão daqui a quarenta ou cinquenta anos."
A argumentação aqueceu. Mas quando a aula acabou, ouvia-os falar a caminho da porta: "Achas que sim? Achas que se vão rir das nossas roupas?"
Gasolim e as encruzilhadas

versão alargada de post velhinho

05/01/2004

O fotógrafo não estava lá



imagens de http://marsrovers.jpl.nasa.gov/gallery/all/spirit.html
Mea culpa

Depois de ter visto algumas imagens na televisão e lido alguns jornais espanhóis, fico convencido de que ontem se verificou algo mais do que o cíclico espectáculo dos meteoros. Parece que, no meio das Quadrantíadas, umas pedras maiorzinhas entraram a atmosfera. E foram anormalmente visíveis.
Sendo certo que a previsão de visibilidade destes fenómenos envolve uma diversidade de elementos, uns mais fáceis de avaliar como a nebulosidade, outros menos, como as características do corpo e o seu comportamento ao atrito atmosférico, o facto é que estão determinadas as zonas do trânsito da Terra em que há maior probabililidade de ocorrência destes fenómenos.
Sabia-se que ontem era um desses dias.
Também se sabe que, de vez em quando, caem umas maiores.
Da minha janela, há muitos anos que uma depressão de terreno de forma circular me interroga: serei eu uma pequena cratera formada por um meteorito ou uma depressão causada por abatimento natural do terreno?
Respondo-lhe quase sempre que deve ser a primeira hipótese.

O tempo dos monos



Os monos de que falo são aqueles restos de colecção que ninguém quer.
Podem ser gravatas, laços, jarras, garrafas, ursinhos de louça, alguidares de plástico, livros, qualquer pechisbeque.
Talvez eu esteja enganado, mas fico com a sensação de que se operou uma mudança profunda desde o célebre trauma da velha retrosaria.
Eu confesso que sou um tanto ou quanto nefelibata e que as coisas por vezes passam por mim sem que eu lhes preste a devida atenção. E até quando despertam em mim alguma curiosidade, desleixo-me e por vezes perco boas oportunidades.
Foi o que sucedeu com a velha retrosaria de uma terra vizinha.
Certo dia, reparei que na montra havia um conjunto de monos interessantes: gravatas estreitas, ao meu gosto, laços, um mundo de pequenos adereços masculinos que ninguém queria.
Os preços eram escandalosamente baixos. Era aquela promoção ou liquidação final, mais propriamente.
Marquei a loja com um X, na mira de lá entrar e arrematar discretamente aquele espólio.
A verdade é que também não sou muito de andar por aí a comprar peças de vestuário. É mais quando é preciso.
Assim, a minha inacção, é amanhã, é para a semana, revelou-se desastrosa.
Um dia passo para nova verificação e já estava tudo estragado.
A loja mantinha-se igual, mas não posso garantir que não tenha mudado de proprietário.
Os objectos na montra eram mais ou menos os mesmos.
Só que os preços tinham sido multiplicados por 20 e por 30, até 40.
Alguém decidira que a partir de certa altura, os monos já não eram monos, eram raridades.
Temo que todos os monos interessantes se estejam a converter em raridades e a ficar fora do meu alcance orçamental. Quem manda viver nas nuvens?

04/01/2004

A ignorância meteórica



Parece-me que hoje estou votado às actualidades.
Logo eu, que tão pouco gosto de comentar as últimas horas.
Mas esta ignorância abissal de jornalistas e comentadores, embora não seja nova, dá-me sempre volta ao estômago.
Ou eles se fazem de parvos em nome do espectáculo, da sensação, ou então não sei...
De vez em quando apregoam chuvas de meteoros como se fossem coisas verdadeiramente únicas. Muitas vezes quando as previsões atmosféricas já deixam antever péssimas condições de visibilidade.
Hoje, quando toda a gente sabia que as condições pareciam ser boas para tais avistamentos, fazem parangonas das bolas de fogo no céu. Dizem até que em Portugal já se sabe que são meteoros, mas em Espanha ainda não há explicação oficial!
Há depois um senhor que diz que foi agora informado que se trata das Quadrantidas ou Quadrantíadas e que sim, que estava previsto, segundo lhe disseram.
Não há limite para a ignorância. Mas não era suposto que quem nos informa, nos informasse mesmo?

imagem em
Vamos a votos

Já muitos outros se devem ter lembrado disto, não é nada de novo.
Mas que era um boa maneira de matar dois coelhos de uma cajadada, não há a menor dúvida.
Isto porque, apesar de não ser um amante apaixonado do mundo do pontapé na bola, hoje estou tocado pelo espírito daquela cidade britânica, como é que se chama? Derby, acho eu.
Já aqui fiz referência à minha côr clubística. Não é nada de muito importante ou talvez seja.
Mas voltando à vaca fria, dizia eu que há uma boa forma de esclarecer de vez, pelo menos por quatro anos, aquela dúvida que paira sobre todos nós:
"Haverá seis milhões de benfiquistas?"
Eu confesso que não sei. Nem sei como é que é possível saber sem irmos a votos.
As amostras não chegam. É preciso ir mais fundo.
Eu próprio nunca cheguei a saber muito da côr clubística da minha família. Às vezes, por um acaso descobre-se qualquer coisa. O espanto que foi para mim perceber que o meu avô materno tinha simpatias sportinguistas, que a minha avó era vagamente benfiquista, que a minha mãe gosta que o Sporting ganhe.
Saber ainda que um dos meus tios desligou certa vez a televisão quando o Manuel Bento sofreu o quarto golo. Nunca me tinha passado pela cabeça, confesso.
Quanto ao meu pai, nunca dei por nada. Fico hoje com a impressão, ligando isto e aquilo, que poderia ser benfiquista. Não sei.
Ora tudo isto releva, digo eu.
Como é que o cidadão comum sabe quantos torcedores tem o seu clube? Não sabe. Usa daquela magnífica manobra intelectual que é pensar de acordo com a vontade (já que hoje é dia de Derby, wishful thinking).
Por isso, é da mais elementar utilidade fazer uso da máquina eleitoral para apurar o verdadeiro sentimento do povo.
Reparem que o voto flutuante é quase nulo (não se diz que se troca de mulher, de religião e de partido mas nunca de clube?).
O voto útil já constitui um problema. Tende a eliminar os clubes de menor dimensão. Há inúmeros casos de simpatia pelo Oriental e pelo Belenenses, e é certo que sairão prejudicados todos os clubes que figuram em segunda e terceira prioridades. Mas isso é o que acontece também com os pequenos partidos. Poderíamos eventualmente considerar desde já uma revisão da lei eleitoral.
Mas o importante é conseguir chegar a um resultado eleitoral expressivo. Conhecer as verdadeiras preferências dos portugueses (porque não dos brasileiros? - mas aí eu não posso nem devo interferir).
Ao mesmo tempo, conseguia-se uma eliminação espectacular da abstenção. Integrar um referendo deste tipo numa eleição parlamentar seria um autêntico ovo de Colombo (ou Cavalo de Tróia?).
Por último, já repararam que nem sequer seria preciso fazer uma campanha eleitoral?

Não é por nada, mas

Gasolim em estradas inexistentes

Marte à vista



Se não me engano, recitava-se a Aida no Estádio de Honra, na vertente do Jamor, ao tempo em que a curiosidade apertava para ver as imagens de Marte.
É certo que já se tinham visto as fotografias da Viking, mais ou menos vinte anos atrás.
Mas já na época da informação instantânea, a coisa era diversa. Muitos nem sequer cá estavam ainda na noite em que se esperou ver e se viu como era a Lua.
Hoje, depois do ainda presumido falhanço da nave europeia, renasce a expectativa.
Só não entendo esta catadupa de comentários, aparentemente feitos por especialistas, sobre a relação entre água e vida.
Água e vida. Água e vida. Então não são capazes de imaginar formas de vida independentes da água? Tem toda a forma de vida que ser uma mistura de gato e de alface?
Se não é assim, e se ela fôr detectável à nossa escala, é bem provável que não dêem por ela, se a encontrarem algures, em algum tempo.
Fazem-me lembrar, mal comparado, aquele participante de um qualquer concurso Nem Sim Nem Não, que certa vez ouvi na rádio.
Depois de ter resistido alguns segundos sem dizer as duas palavras proibidas, lá se espalhou.
Quando o apresentador lhe perguntou: “Então, amigo, como é que foi isso?”, respondeu: “É que eu estava tão concentrado em não as dizer, que me distraí!”

imagem da página da NASA
O homem da casa

O herdeiro natural



Já me tinha apercebido de que as minhas cartas à Junta de Freguesia tinham pouco acolhimento.
Mesmo que fosse a anunciar a criação de uma página sobre a vila, oferecendo os préstimos a troco de nada.
É que há sempre a hipótese de eu estar a trabalhar para ter direito a uma placa com o meu nome numa esquina disponível.
Depois, pus-me a pensar. Não pode ser só isso. Não serei eu o herdeiro natural da cadeira de presidente dos fregueses?
Isto de carregar dois apelidos que se revezaram na referida cadeira durante décadas dos séculos XIX e XX, não terá como consequência óbvia a minha entronização no meio de foguetório e arruada?
Se calhar, tem.
Qualquer passo meu em direcção à porta da junta, mesmo que seja só por carta, deve ser visto como mais um marco na minha caminhada triunfal.
Pois é, está explicado. Já sei que nunca vou obter resposta às minhas missivas.
Aqui para nós, uma vez tive. Há uns bons anos, pedi para consultar uns canhanhos.
Puseram-me à disposição a secretária do presidente.
O que é que acham? Candidato-me ou não?
Um dia falarei das movimentações que estiveram por detrás de uma minha suposta candidatura (imaginem!) à Câmara Municipal!
Amigos do Brasil, há quem me diga que eu ando a ver muitas novelas.

03/01/2004

Sinalizando



Como diria um amigo meu, estes sinais não enganam quem conhece o caminho.
Na minha experiência, uma das coisas que mais vezes surgiu evidenciada, é a incapacidade generalizada de se darem boas indicações a quem não sabe que caminho tem que tomar.
É de facto um mal geral.
O que talvez justifique que não se consigam encontrar as pessoas capazes de elaborar um projecto de sinalização capaz.
Eu conheço muito poucos.
Para não falar nas estradas e no ridículo de quase todas as novas sinalizações, apenas vos digo que foi em vão que tentei convencer da inutilidade do seu gesto um funcionário que teimava em colocar-me sobre a única porta de um gabinete que ocupei, um sinal de saída.
Que era assim que tinha que ser.
Quando saí do gabinete um pouco depois, verifiquei que no corredor junto ao acesso às escadas, não existia uma única placa de sinalização.
Fazer o quê?
Eu até aceito que alguém, que ali estivesse naquela sala de 10m2, no meio de um incêndio, sem luz de nenhum tipo, conseguisse divisar a placa a brilhar no escuro. Que o fumo, e mais não sei que desorientação pudesse tornar minimamente útil a placa.
Depois descobri que faltavam não só as do acesso às escadas, mas em muitos outros locais de dúvida.
Não vale a pena dizer mais nada, pois não?
O estranho caso do loto



Já não há lotos como antigamente.
Nos clubes, com cartões da Majora e marcados com feijões.
Quando o M.C. fixava os números e escondia os cartões debaixo do rabo. Eram os que saíam à borla.
Agora é tudo com impressos para riscar.
Uma das primeiras vezes que fomos experimentar a novidade, íamos sete ou oito.
Entrámos no clube aqui da terra ao lado e ala para o loto. Para o loto, não. Para o bingo, se faz favor.
Lá nos sentámos. Sala vazia. Não havia quorum.
Vieram as simpáticas moçoilas com os bolinhos e o vinho do Porto, e a gente à espera.
Nada de minis como no antigo loto.
Lá chegaram mais uns quantos desocupados naquela tarde de sábado e rolaram as esferas.
22 - eu à espera de ouvir "dois patinhos". Nada. Tudo muito profissional.
Quando saiu o 11, disse baixinho o que estava à minha esquerda: "O número da cabeça".
Mais umas bolas e grita o que estava à minha frente "Linha!"
Boa! Está a começar bem. Eu a olhar à volta e a ver meia-dúzia de mesas ocupadas e a pensar que o prémio devia ser uma carrada de dinheiro.
Mais uma rodada de bolas com voz fina, nada de gritos guturais como no loto, e zás: "Bingo!" Desta vez foi o meu parceiro do lado.
Depois de mais bolos, a bandeirinha. E a massa. Uma resma de notas, nem dava para pagar as cervejas.
Havia um que tinha que ir ter com a namorada mas como lhe saiu um bingo na terceira jogada da tarde, fechou-se em copas e ficou.
O mais estranho é que, ao fim de algumas horas, ou a gente estava mesmo com sorte ou sei lá o quê, mas não houve um só da companhia que dissesse que tinha perdido dinheiro.
Admirei-me. A sala continuava com muito pouca gente. De onde é que teria vindo o dinheiro?

imagem em
Lagoa Azul - Peninha - Sintra

Momento nostálgico.
Para todos os que participaram nessas romarias de Sintra, Montejunto e Arganil entre os meados de 70 e 86 (o ano do desastre de Joaquim Santos).
E que sabem o que é um Fiat 131 Abarth e um Ford Rs 200.





imagens aqui e aqui

02/01/2004

Totoloto

Bem, vamos lá esclarecer as coisas.
A todos os que ainda aqui possam cair na mira de um palpite milagroso, através de pesquisas tais como “como prever totoloto” (as aspas são minhas!), do dia 14 de Dezembro passado.
Pois... não sei!
Se eu soubesse, acham que dizia?
É certo que, contra a opinião de muitos, incluindo o meu caro amigo que lecciona estatística lá em Atenas, mas com o apoio e a motivação de um velho amigo economista, há cerca de vinte anos, ainda a coisa era só totobola, que mato a cabeça a lutar contra as probabilidades.
Mero exercício de recreação, dirão os mais lúcidos.
O certo é que se conseguem resultados interessantes.
E fascinantes. Modéstia muito à parte, já vi e analisei muito do software que outros loucos portugueses produziram, e nenhum é um disparate tão completo como este que conta com cerca de 20 anos de trabalho e 27 versões. A 28ª está em estudo e tal como na fórmula 1, ainda se utiliza a versão do ano anterior.
Resultados? O algodão não engana - diz o mordomo.
Maus. Muito maus.
Mas a verificação de que, em certas condições, identificáveis a priori, e que não coincidem necessariamente com os grandes bolos acumulados, há boas probabilidades de uma aposta forte ser altamente lucrativa. Como nunca me dispus a aventuras, nem é meu hábito jogar todas as semanas, fica apenas a constatação dos resultados.
Entretanto, o meu amigo M.C. já conseguiu comprar um carro à conta. Há muitos anos.


Coisas que ainda hoje não faço

Perguntar onde é a praia em Messejana.
Perguntar pelas saídas em Entradas.
Perguntar as horas em Aguiar.
Dizer moita-carrasco na Moita.
Em quantos mais sítios há ditos proibidos?
Teste

Duas imagens que são negativos uma da outra. Aceitam-se apostas para saber qual é a original.



sempre estas câmaras

01/01/2004

A Marcha Radetzky, vinho do Porto e jornais de anteontem

Ainda não descobri melhor forma de iniciar o ano.
Mentira. Já descobri muitas outras.
Mas hoje faz-me falta qualquer coisa que surge neste trecho de SG em dia de Ano Novo:

"Como não teve réplica, saiu. Para a morrinha cinzenta que preenchia as ruas de gotas lentas e mornas.
Escolheu ao acaso uma direcção e teimou com a humidade que quase lhe apagava o prazer de uma cigarrada.
Ao atravessar a ponte sobre o canal, viu aparecer o Rodrigues a correr esbaforido, trazendo atrelada uma moça alta, tão alta como ele, que era um homem alto, e que lhe berrou, escolhendo-o para confessor:
- Roubei a mulher ao morto!
João, ainda que momentâneamente surpreendido, absolveu de imediato o seu velho conhecido:
- Não lhe vai fazer grande falta!
Rodrigues nem se detivera.
João nem sequer sabia quem eram o morto e respectiva viúva mas tinha a certeza que o Rodrigues já era casado.
Todavia, resolveu inverter a marcha, temendo encontrar-se com a família do morto, pois já se considerava cúmplice dos fugitivos.
Optou por recolher-se da chuva na Sociedade Recreativa, onde se foi anichar a um canto. Perto, uma grande janela dava para um pátio calçado de seixos onde a humidade azulbrilhava sobre as pedras. Aí ficou, lendo o jornal da antevéspera, fumando muito sobre sucessivas chávenas de café e olhando o que restava da tarde através de cálices de medronho.
"



Tenham um bom ano
O ano dos 45

Antigamente mandar-me-iam para casa, onde já estou, com isto nos ombros.

31/12/2003

As idades

Todos nós temos uma disputa com a idade.
Quase sempre se inverte a certo ponto. Primeiro puxamos para a frente, queremos mais anos. Depois, para trás, à cata da juventude que se esvai como um sonho matinal.
Se não é assim com todos, é com uma maioritária maioria(?).
É certo que o ciclo solar faz sentido. Tanto o diário como o anual. O lunar já é de mais duvidosa utilidade, mas aceita-se que sirva a pescadores e a parteiras.
A uns com mais propriedade que a outros.
O certo é que, ambos, sol e lua foram precursores dos deuses.
A minha questão é só esta: o tempo passou ou não sobre a espécie humana?
Se passou, modificou-nos ou não?
Se nos modificou, em que é que o fez?
Terá sido em mostrar que os deuses eram de um tempo anterior?
Se foi, porque é que as religiões ainda fazem sentido?
Se não fazem, se são apenas instrumentos de controlo social, quanto tempo mais teremos de esperar para que se não temam deuses?
O tempo para percebermos que apenas devemos temer os nossos feitos?
E se assim é, quanto tempo até lá?
Convenções

Ver 2004 a partir de 2003



Tal como todos os dias podemos ver o dia seguinte. Nada de novo na frente.

imagem de câmara de tráfego na Finlândia, mais uma vez.
Era velha

O céu já escondeu o último sol
Que a esta terra do verde ainda aqueceu.
Marca-se outro traço na angústia
Cimentada às quatro paredes gradeadas,
Véu que se abate ou se destapa,
Sol que renuncia ou se resolve,
Pré-destino que as calendas pretenderam!
Era uma era que outra era anunciava,
Elo em sequência, sem cadência
Que a marcar possa sem assaltos!
Era efémera, diluída na razão
Que a sua ponderação tem nos tempos todos.
E com a era, já eram satisfeitos
Tratos e contratos e outros aparatos
Que, na era nova, obsoletos,
São pesos-mortos no contar dos anos.
E cá estamos!
Reza o relógio no tique-taque baixo
Que se confunde com o cardiorritmo!
Sufraga-se a vela que se consome
Como a vida, era após era!
Rasguem a página que esta já era!

1985

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Um erro de data



trecho de imagem da SIC
Grrr... isto não é o cabo de Sagres

Mesmo que se trate de música sacra de Haendel
Este som não me preenche a lacuna
A que sal basta para ficar desinfecta.
Melodia de paisagens em língua desconhecida,
Concebida para audições solenes a desoras
De modo a que o ventre a que se refere
Se recorte vago numa qualquer parede de fundo.
Mensagem hidráulica e fetal
De vitais fluidos repleta
Ecoando sinais que remontam às origens
Num caldo de cultura viciado
Com os dados que o Operador manipulou.
A verdade esconde-se assim num retrato genético
Perpetuado em difusas multiplicações
Carentes de uma explicação arrumada e demonstrativa
De uma Lógica anciã e incorrupta
Que alinhe os pontos discerníveis
Numa emocionabilidade pura
Pelas convulsas contorções dos geniais cérebros.
A paz e a procura porque não compatíveis,
Subsistem em contempladas pausas de percurso,
Eivadas desta melodia simples e esmagadora
A que o céu não é estranho.
A noite é ainda madrinha desta encruzilhada
Em que a interrogação se levanta a cada passada
Como o pó dos caminhos velhos que já percorremos.
Embora a imagem que subsiste
Não se afaste muito do espectro embrionário que já fomos,
Começamos a vaguear cansados
Por sobre a História ou do que resta dela.

1985

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Com alguma sorte



tentaremos chegar ao fim de 2004 com um 9155 na placa

30/12/2003

Dias sem Brylcreem



Quase a dobrar a meta volante dos 2003 anos depois de uma data em que ninguém sabe o que aconteceu de relevante, reconheço que há dias sem Brylcreem.
Fiz aqui uma aposta de escrever o que me viesse à cabeça quotidianamente.
Logo com a condição de não comentar as actualidades.
E, se há quem me leia, é porque alguma coisa com interesse aqui venho gravando.
Mas há dias em que a coisa é chocha, muito chocha.
Vejo este blogue muitas vezes como o comentador lateral das coisas.
Como se num grande acidente rodoviário, apenas descrevesse com pormenor o símbolo da marca do automóvel cravado na retaguarda.
Outras vezes como o leitor de almanaques que sabe quantos parafusos tem a torre Eiffel. Memorizou o número, sem cuidar que provavelmente a torre nunca teve em dia nenhum da sua existência, esse exacto número de parafusos.
Outras ainda como a personagem sentada numa esplanada que faz perguntas sem sentido a quem passa perto.
E muitas vezes me ocorre a sapiência desregulada de um velho vizinho que teimava em dar explicações ao monarca, encomendar sandes de produtos químicos, fumar nos parapeitos e nadar em medicina. Disse-me certa vez que estava em Ceuta em '415, à espera das tropas de D. João I.
Às vezes estou como ele. Em dias sem Brylcreem.

imagem em www.anzwers.org/free/tackorama/ clipart_ads_2.htm (link perdido)
O feijão tem bicho

Pois tem – dizia o Zé da dos Barros, confirmando.
Queres ver que tá todo assim – picava-o a mulher.
Tu nem me digas isso.
Mas estava.
Nessa tarde, depois de uns copos, já culpava o vizinho mais o tratamento que tinha dado às oliveiras.
O Jaquim da Moca meteu-lhe mais ferro, que era do efeito de estufa.
O cunhado que foi lá jantar, perguntou-lhe se ele tinha posto cabelos à roda da horta para afastar os ratos. Fez cara feia, pensou o que é que o cú tem a ver com as calças e não disse nada.
Mais à noite, depois do café e do bagaço, foi o Toino Moura que lhe veio dizer que andavam a pôr umas cercas na Herdade das Bichezas para criar avestruzes.
É dessa merda das avestruzes, podes ter a certeza! – concluiu o Zé, encostado ao balcão.
Quando chegou a televisão, já ele culpava também a falta de “subsílios”.
A culpa não morre solteira.
E todos os dias o feijão tem bicho.
Em preparação

Um pare, escute e olhe



trecho de imagem da SIC
Ordem unida



trecho de imagem da Sky News

29/12/2003

Mouro na costa



foto de MSMS
O chefe e o técnico

Primeiro foi o chefe.
Todos tinham que ser chefes. Operário-chefe, maquinista-chefe, chefe de vendas.
Não havia restaurantes mais populares do que esses onde se ouvia um “Ò chefe!” a cada três minutos.
Depois, já não bastava.
Era preciso ser técnico. Técnico de vendas, técnico de compras, auxiliar técnico.
Uma certa necessidade de promoção semântica, desvalorizada rapidamente pela inflação.
Mas a moda há-de passar.
Se assim não fosse, ainda haveria reposteiros, almotáceis, aguadeiros, uns mores outros não.
Saudades da pré-história

O Colégio do Bom Senso

Às vezes penso que devia existir uma instituição assim.
Acima da Lei, derradeiro recurso em todas as circunstâncias.
Não existe ainda em certas sociedades o apelo à sabedoria dos velhos, para esclarecer questões mais complicadas?
Não seria um tribunal, não seria um senado, não teria que se sujeitar a lei escrita ou consuetudinária.
Apenas um colégio de homens-bons com o poder supremo de utilizar o bom senso e contrariar o Direito, se necessário.
Uma utopia. Eu sei.
Como escolher as pessoas certas?
Mas que faz falta, faz.
Alguém vê o bom senso por aí, seja lá isso o que fôr?
Cumprindo

Gasolim e as marcas obrigatórias

28/12/2003

A natureza e o tempo

Tomemos como bom que o conceito de natureza é o conjunto da matéria original do planeta Terra e tudo a que ela deu origem, com o tempo.
Tomemo-lo inevitavelmente num sentido um pouco mais lato, incluindo os factores exteriores mais conhecidos e indispensáveis: os raios solares, a atracção gravitacional da lua e a matéria cósmica que penetra no sistema terreno.
Nada disto parece controverso.
Já o tempo, que é um elemento integrante deste conceito, é impossível de definir.
A Natureza é uma nomia inventada pelo homem para designar algo que compreendeu (no sentido matemático) - algo com o qual formou conjunto. Mesmo que os contornos desse conjunto não sejam muito precisos quanto aos factores externos e quanto à origem primordial dos seus elementos.
Mas o conceito existe, é universal e aceite.
Não sabemos então o que é o tempo.
Temos a ideia de que actua sobre a matéria e que a transforma.
Dizemos que as coisas envelhecem naturalmente com o tempo.
Aceitamos assim que a natureza se transforma com o tempo, não deixando de ser natureza, como decorre do conceito.
Às vezes confundimos algumas coisas: foi a Natureza ou o tempo que destruiu os dinossauros? É claro que foi a Natureza. O tempo é apenas um dos factores que a integram e que dá sentido ao conceito.
De acordo com o que conhecemos e pensamos conhecer, se o tempo não fosse um factor integrante, toda a Natureza estaria no seu estado natural, primordial. Haveria um momento natural, nada mais.
Aceitemos então definitivamente o conceito.
Ao fazê-lo, não podemos deixar de incluir o homem como elemento integrante do conjunto natureza.
E sendo-o, é, por agora, tão importante como os castores, as formigas, os abetos, o granito.
O tempo transformou coisas com outros nomes em castores, em formigas, em abetos, em granito.
Em homens.
São então formigas e castores elementos naturais (elementos do conjunto natureza).
E os homens.
Sendo as formigas elementos deste conjunto, os formigueiros sê-lo-ão também?
Sendo os castores elementos deste conjunto, as barragens sê-lo-ão também?
Serão os expedientes de cada um dos elementos integrantes, elementos de outro conjunto que não o inicial?
A função criação de será uma função em N (conjunto natureza)?
Não poderá deixar de o ser.
O conceito de natureza a isso obriga.
Vamos então ao homem.
É ele um elemento natural?
Não encontro nenhum argumento que o contradiga, a não ser a visão antropocêntrica do mundo, que coloca o homem numa dimensão à parte.
A verdade é que, mesmo para os dependentes desta maneira de ver, é necessário recorrer à classificação do homem como elemento natural (animal) para teorizar sobre certos fenómenos.
Passarei pois adiante sem me deter neste aspecto.
Outro argumento que me parece pouco polémico é que grande parte, diria quase a totalidade da massa de problemas com que nos debatemos, dos fenómenos visíveis, é consequência da intervenção humana sobre o planeta, porventura será esta constatação, ela própria decorrente do antropocentrismo.
Assim, direi que para todos os que não têm uma ideia consistente do que é ou não natural, a maioria dos fenómenos visíveis é de origem não-natural ou humana.
Ora, não havendo dúvida de que o homem pertence ao conjunto N, todas as suas criações não poderão também deixar de pertencer-lhe.
É aqui que desaparecem conceitos como artificial, laboratorial, sintético(?!), nas asserções anti-naturais a que nos vimos habituando há algum tempo.
Gasolim às armas


A capa de quê?

A discussão pendurada

Ainda faltavam oito anos para a campanha do PS de 95, e ainda não se discutia, sem se ler, a obra do Prof. Damásio.
Razão e emoção não andavam assim tanto nas bocas do mundo.
Discutia-se arquitectura. Na medida em que ela é discutível ou não.
E houve quem, no meio disso, dissesse que a Matemática, por ser uma ciência-ferramenta, de construção e complexidade humanas, e não ser uma ciência de exploração e desconstrução de complexidade universal, estava absolutamente dependente da razão, ao contrário das outras, da Física, da Química... mais sujeitas ao contributo da emoção.
Houve quem se levantasse e tentasse argumentar contra.
O professor entendeu que a discussão se desviava muito do tema. Ele próprio também tinha a sua opinião e o seu partido, mas que isso ficaria para depois da ordem do dia.
E ficou. Até hoje.
O que eu gostava de juntar as mesmas pessoas.
Faltam-me 2



H G U desconhecido em África e na Oceania.
Imagens e música

Primeiro foram os tele-discos, os clips ou o que quer que seja.
Agora, estamos na fase dos DVD.
Mas a ideia assombrosa é sempre a mesma: impingirem-nos umas imagens a acompanhar a música.
Como se cada um de nós não tivesse as suas imagens associadas a cada melodia. Como se tivesse alguma utilidade.
E não terá? Não será mais uma forma de uniformização?