08/02/2004

Telhas, gatos e a rã... que é peixe



Há muitos anos, no excelente programa de rádio "Lugar ao Sul", de Rafael Correia (Antena 1, sábados, 9:00 - 11:00) travou-se um curioso diálogo entre o realizador e um homem que caçava rãs em algum lugar do meridião.
Perguntava o primeiro se rã seria peixe ou carne.
O segundo respondia, depois de uma pausa em que parecia meditar, que era peixe.
Rafael Correia iniciou então um delicioso jogo de palavras com o seu interlocutor, por certo adivinhando já o excelente momento de rádio que se seguiu.
Ao fim de um longa conversa sobre peixes e anuros, quando o programa caminhava para o fim, entre a música misturada e já sobreposta aos sons ambiente, distinguia-se vagamente a voz do pescador-caçador: "Rã é peixe! Então rã não é peixe?"

Anos depois, eu, o R.C. (não, não é o grande homem da rádio) e outra figura eminente do meio conferenciávamos em torno de um prato de carapaus bigodudos.
Disto e daquilo passou-se à análise da famosa sub-telha e da redundante protecção que concede aos esconsos.
Caí na asneira de dizer que se fosse o caso de um gato deslocar uma telha, em telhados acessíveis pelo desvão e cujo estado é mais facilmente observável pelo interior do que pelo exterior, o que aconteceria é que niniguém daria por isso e a água apareceria, mais tarde ou mais cedo, em local diferente de onde se estava a infiltrar.
A minha conclusão não mereceu reparo da figura eminente que connosco partilhava o lanche.
Com o que não concordou foi com o ponto de partida. Então era lá possível uma telha mover-se?
Seguiu-se acesa polémica em que figuraram os já mencionados gatos, as mais diversas aves, o próprio Eolo (de que a figura não conhecia a graça) e o mais que lembrou.
E desfez-se em seguida, esmagada pelo argumento implacável de uma sapateira recheada (a tal santola que eu e o R.C. apostámos há anos, não há meio de lhe encontrarmos o paradeiro).
Ora bem, da patuda passou-se aos cafés e à conversa sobre outros assuntos.
Quando a coisa começou a ficar demasiado complicada para os conhecimentos da figura, esta guardou silêncio, acompanhando-nos apenas com o olhar.
Mas a tentação de intervir era muita. Notava-se nos trejeitos e nos rictos faciais.
É quando num momento de maior entusiasmo na nossa discussão, nos damos conta de que a figura balbuciava: "Mas as telhas não se conseguem arredar... não se conseguem..."
Eu parei de argumentar e disse bruscamente para o R.C.: "Rã é peixe!"
Ainda hoje a figura não percebeu porque é que o R.C. saiu disparado para a casa de banho, de mão na boca, ao ouvir a minha ordem.

imagem em

07/02/2004

A mania da perseguição



Se eu tivesse a mania da perseguição, haveria de haver vezes em que me esconderia tão bem que nem eu próprio soubesse onde estava.
Mas não é o caso.
Nunca tive tal tipo de preocupações. Em primeiro lugar, julgo não haver nada de interessante nas minhas actividades que justifique a curiosidade alheia. Em segundo, os ódios de estimação que possa ter granjeado não me parecem muito consequentes, mas vá-se lá saber...
Ora sucede que este tranquilo cidadão circulava há tempos pela E.N.362 quando se apercebeu que uma viatura circulava na sua cola, a idêntica velocidade, está bem de ver. Como a velocidade era da ordem dos 60 Km/h, estranhou que o carro se não aproximasse. É que isso de andar devagar já não é assim tão comum.
Depois de cruzar alguns nós com outras estradas e mantendo-se a situação inalterada, este pacato condutor achava, nunca deixou de achar, que o facto de se tratar de uma coincidência era o mais provável.
Resolveu brincar um pouco.
Acelerou e no primeiro lugar próprio que lhe surgiu, zás, fora da estrada a coberto de umas árvores.
Viu o outro passar.
Inverteu a marcha em cima das ervas e quando estava pronto para entrar na estrada, vê surgir o dito cujo de volta, em baixa velocidade e de cara à banda.
Mirou-o bem. Tinha mais aspecto de polícia do que de bandido.
Continuou a sua marcha até à localidade mais próxima e estacionou o carro bem à vista da estrada.
Atravessou e foi instalar-se num café com vista para o alcatrão. O perseguidor não apareceu ou então trocou de carro.
Até hoje, este pacato cidadão que, repito, não tem a mania da perseguição, ainda não sabe a que se deveu tão insólito interesse.
A única coisa duvidosa que fizera nesse dia fora parar junto a uma brigada da GNR e solicitar uma informação sobre o estado de uma determinada estrada.

06/02/2004

O desenho com T

A Dyane Nazaré



O pretexto foi a licenciatura de um amigo.
A jantarada, a voltinha do costume, etc.
A Dyane Nazaré era de um que é médico.
Quando saímos do bar, o moço meteu a chave à porta e entrámos os três.
Eu notei qualquer coisa de estranho.
Ele pegou numa caixa de medicamentos que estava no porta-luvas e disse:
“Este carro não é meu. Eu não tenho isto no carro!”
Saímos.
Ele fechou com cuidado a porta à chave.
O carro dele estava dois lugares à frente.
Entrámos.
No porta-luvas, lá estavam as caixas de medicamentos. Ele mostrou-nos que de facto não tinha aquele.
Estranhas formas de se reconhecer o próprio carro. Coisas de médicos.

imagem em
Gasolim e as pedras

05/02/2004

Depois da Matemática



A menina S. vinha credenciada. Fluente em Germânicas. Oral e escrita.
Tomou posse numa segunda-feira e na terça já tinha um ursinho de peluche e duas fotografias em cima da secretária que ficava num corredor.
Eram suas funções atender o telefone, rasgar as mensagens do telex na serrilha, dactilografar e dar corpo a cartas cujo conteúdo lhe fosse transmitido em duas penadas.
Mas o primeiro teste foi a tradução de uma certa ficha técnica do inglês.
Pegou nela com dois dedos, abanou-se e lá foi para o seu corredor.
Ao fim de três dias, os três A4 da ficha deram lugar a umas folhas alinhavadas, rasuradas, onde se podia ler entre outras as seguintes expressões: "... depois da matemática..." "...funis inertes..."
Estendeu as folhas, sorriu e disse: "Não fazia ideia de que math era uma abreviatura de matemática. Nos dicionários que consultei não havia nada sobre isso..."

O depois da Matemática é hoje a minha expressão preferida para substituir ressaca, rescaldo, dia seguinte. A minha ignorância da língua pátria faz com que não encontre uma palavra curta e grossa que defina bem aquele tempo depois do caso, em que um homem vagueia pelas ruas à procura de um sítio para beber uma imperial, mesmo que seja manhã cedo.
O tempo de solidão depois de um combate bem sucedido, de uma aposta ganha, de um sonho que se figurou.
Não havendo no meu léxico essa palavra, adopto a expressão inglesa.
Depois da Matemática é um tempo curioso.

(P.S.: Este post surgiu inspirado na menina S. de que não ouço falar há quinze anos. Mas pode bem dizer-se que a amiga Arabella a Bella também tem o seu quinhão de responsabilidade)
Gasolim baralhado com viatura em fundo


É lindo

Esta coisa de se fazerem pesquisas sem usar aspas, que permitiriam ligar um conjunto de palavras e acertar no alvo, é de certa forma demonstrativo da incapacidade da maioria esmagadora dos pesquisadores lidarem com uma ferramenta simples e bem explicada.
Ao incorporarem na pesquisa preposições e artigos de uso universal, que a maior parte dos motores de busca ignora, mais vincam essa incapacidade.
Por isso, deslumbro-me às vezes e disso tenho dado conta, com as fabulosas chaves de pesquisa que encontro no meu contador.
Esta de hoje, tocou-me.
Digam lá se não é caso disso: Frases bonitas de blogger
O mais tocante é que, na altura, este blogue surgiu em primeiro lugar! Comovi-me!

04/02/2004

O biombo obrigatório

Se as coisas fossem devidamente estudadas, a sugestão do velho R.C. estaria decerto incluída nas alterações ao Código da Estrada.
É que ele há muito defende a obrigatoriedade da utilização de um biombo sempre que há um acidente. Para gorar os instintos curiosos da turbamulta.
A questão da regulamentação não é dispicienda. Ter-se-ia que optar por uma côr adequada e por ausência de pormenores decorativos nam-bam.
Mas como não se optou por essa via, decidiu-se penalizar, ao que me dizem*, no âmbito do mesmo código, a beata pela janela. Está certo.
Ainda não cheguei à parte em que a referida beata interfere com o trânsito e com a segurança do dito.
Dizem-me que isto anda tudo ligado.
Então e o Barnabé que tem uma malhada de porcos mesmo ao pé da estrada, e cujo cheiro é insuportável, não está também abrangido pelo código da estrada?
E a Maria que atira restos de comida para cima dos carros dos vizinhos? Também não?
É claro que a beata pode provocar um incêndio e o incêndio pode provocar uma nuvem de fumo que proporcione acidentes. É claro que a afluência de viaturas de socorro em alta velocidade é um risco acrescido.
E então, digo eu, e as queimadas? Não devem ser punidas pelo mesmo código?
E os arruaceiros da bola que provocam grandes afluências de meios de segurança, não deveriam também?
Quem tem árvores sabe desde sempre que uma beata em certos dias do ano é o suficiente para arruinar a economia doméstica. E tem cuidado, muito cuidado com isso.
Independentemente de ir a pé ou de carro. De avião a hélice ou de trotinete.
Certas pessoas só descobriram isso no ano passado quando durante 14 dias consecutivos o calor não abrandou. É pena que as coisas sejam novidade apenas quando assumem proporções catastróficas.
Mas é assim. Talvez porque a excessiva compreensão dos riscos seja incompatível com a gestão das massas. Não se consegue tudo prevenir, é certo. Mas se houvesse um pouco mais de observação das coisas, mais atenção, talvez se corressem menos riscos e não houvesse tanta agitação estúpida em torno de certos fenómenos naturais.
Vamos aprovar o biombo?



* pode ser falha minha, mas não consegui encontrar o conjunto de alterações ao Código da Estrada que, suponho, estão em vigor desde dia 1 de Fevereiro. Com tanto dinheiro mal gasto, não seria uma boa ideia termos acesso rápido e bem conhecido às leis que nos regem? São as receitas da INCM que estão em causa? O que é que isso significa em euros?

imagem do painel de René Bertholo em
Gasolim com grão lá para o norte

03/02/2004

Ao lado de uma grande carreira

Nunca se percebe com que sentido se diz isso.
Passou ao lado de uma grande carreira.
Se é porque havia uma carreira de cavalos ao lado e decidiu seguir pela vereda.
Se é porque tinha características pessoais que o guindavam naturalmente ao topo da hierarquia e ficou-se a ver os outros passar-lhe à frente.
Se é por benévolo lambe-botismo inútil. Quem passou ao lado não carrega adeptos.
Se é por piedade.
Por mim, gosto mais de interpretar à minha maneira. Uma carreira é (era) uma camioneta de passageiros.



esta magnífica fotografia encontrei-a na página de BusesofPortugal e já não está lá.
A idade e os blogues

O fosso entre gerações existe sempre. Se assim não fosse, ainda andávamos à pedrada uns aos outros. Ou qualquer coisa assim.
É claro que há ambientes em que se dilui.
Dilui-se na vida rural de algumas regiões mais atrasadas.
Dilui-se em ambientes artísticos de vanguarda.
Dilui-se entre especialistas de certas áreas do conhecimento.
E em outras situações.
Acentua-se em muitas outras.
Haverá diluição entre os blogueiros?
A grande maioria parece ser gente jovem, entre os vinte e os trinta. Mas também parece haver uma representação mais ou menos contínua das idades. A curva respectiva ignoro qual é.
Convivo aqui com várias gerações, com extremos em pessoas separadas de mim por vinte anos para mais e para menos. Desses de que sei a idade.
E aprendo com todos.
Talvez exista um espírito qualquer que faz com que o fosso desapareça ou se atenue.
Que se troquem ideias e palpites com interesse mútuo.
Não sei se é o espírito da rede, de um certo isolamento face ao teclado, não faço ideia.
É claro que há o mundo dos insultos, das polémicas sem conteúdo, etc. As coisas da vida.
Por mim, fico-me com o exemplo, pela positiva, de dois blogues, entre outros que poderia citar, que me acompanham à distância.
Por serem extremos da escala de gerações que leio, tanto quanto sei.
Senhorita Lilian (Tem alguém aí?)
Senhor Fernando (O Observador)
A estes amigos e a todos os outros a que não falho uma espreitadela, um grande abraço.

02/02/2004

Gasolim e as fixações


Oportunidade perdida

Há coisas que eu não entendo.
Como é que os homens de negócios deixaram passar esta oportunidade?



Também já ninguém se lembra.

31/01/2004

Que é difícil, é

A Brigada Anti-Lacoste lançou o seu terrível sétimo desafio.
Quem quiser participar nesta disputa face a perguntas bem tramadas, siga por aqui

Não basta ter iniciativa



A história de Nicolas (um nome fictício) terminou em bem.
É uma das muitas histórias de comportamentos de risco com um final feliz, razão pela qual fomos entrevistá-lo a Faro, sentados tranqüilamente numa esplanada (o trema tinha que ser).

H Gasolim Ultramarino: Então conte-nos lá como tudo aconteceu...
Nicolas: Bem, é uma longa história. Temos que recuar alguns anos...
HGU: Temos tempo.
(pedimos uns cafés e uns bolos de amêndoa)
N: No final dos anos 80, no decurso de uma excursão a Espanha, arranjei por lá uma namorada. Por sinal, era um amigo meu que se estava a preparar para a caçar, mas eu consegui manobrar a coisa cá para o meu lado...
HGU: Então e isso faz-se?
N: Podia (re)citar-lhe vários ditados portugueses alusivos, mas não o faço. Aconteceu, o que é que se há-de fazer? Ademais, o meu amigo era casado.
HGU: E o Nicolas à época, era solteiro?
N: Eu? Não. Claro que não. Só em Espanha é que era solteiro. É que nunca me casei em Espanha.
HGU: Ah!
(os bolos são espectaculares)
HGU: Traga mais dois, se faz favor!
N: Estas esplanadas fazem-me lembrar Espanha!
HGU: Se calhar é por causa dos espanhóis que aqui estão.
N: Acho que não. Tudo me lembra Espanha, entiendes?
HGU: Sim. Mas ainda não está muito clara a relação entre esse episódio e a sua história...
N: Pois, a vida é assim, nem sempre é fácil chegar onde se quer. Eu, por exemplo, demorei uns anos e corri inúmeros riscos...
HGU: Voltemos ao assunto, arranjou uma namorada em Espanha...
N: Sim. Não é isso uma tradição portuguesa?
HGU: É?
N: Creio que sim.
HGU: Muito bem, seja. Continue, por favor.
N: Ora, o meu amigo calcula o que foi. A namorada lá, a mulher cá. O problema que era o telefone...
HGU: E a caixa do correio...
N: O correio, não. Dei-lhe a morada dos meus pais. Se perguntassem alguma coisa, seriam cartas de uma antiga namorada.
HGU: E quanto tempo durou isso?
N: Quanto tempo durou? Anos a fio.
HGU: Quer dizer que ia frequentemente a Espanha?
N: Ia, claro. Mas ela também veio algumas vezes a Portugal. Até aos Açores foi comigo. Imagina o que é uma lua-de-mel nos Açores...
HGU: Mas e aqui, no continente? Como é que isso era feito, onde é que ela ficava?
N: Ficávamos por aí, em zonas turísticas. A minha vida itinerante proporcionava isso.
HGU: Sempre longe da sua casa...
N: Sempre longe da minha casa. Apesar disso, uma vez ao jantar cruzei-me com um grupo de amigos dos meus pais. Mas foram de um discrição completíssima, nada de comprometedor, antes pelo contrário.
HGU: E nunca ela lhe sugeriu o casamento, ao fim de tantas aventuras?
N: Ah, mas sim, claro! Chegámos a noivar.
HGU: E depois como acabou?
N: Bem, acabou. Chegou uma altura em que já era impossível mantê-la longe da minha casa...
HGU: Claro que isso nunca fez...
N: Ah, mas fiz!
HGU: Fez? Quer dizer que a trouxe a sua casa?
N: Sim. Vou contar-lhe como foi. Numa altura em que a mulher e os filhos se encontravam de férias, resolvi convidá-la.
HGU: Cafés?
N: Venham eles! Mas dizia eu que a convidara para minha casa. Assim que me decidi, havia apenas que superar uma dificuldade, a qual era esconder anos de vida da família ali passados. Digo-lhe que não é tarefa fácil. Tenho a sorte de morar num prédio com uma uma geometria muito peculiar em planta, o que possibilitou a eliminação de dois quartos e de uma casa de banho, onde ocultei tudo o que pude, sem que essa ocultação suscitasse a mais pequena suspeita.
HGU: Eliminou dois quartos e uma casa de banho? Mas como?
N: No corredor de acesso, construí um tabique em placa de gesso e encostei-lhe uma estante pesada, de forma a evitar qualquer acidente com a frágil placa. Ficou tão aceitável que ninguém diria que por detrás daquela estante havia mais casa.
HGU: Foi então que...
N: Sim, um fiscal da câmara que me viu a transportar baldes de gesso, bateu-me à porta. Já tinha a obra nos acabamentos, estava a fazer os remates...
HGU: E ele foi lá ver de que obra se tratava?
N: Sim, queria saber se estava a fazer algumas alterações na casa. É claro que eu lhe disse que não, que eram só uns retoques no estuque das paredes...
HGU: E depois?
N: Ele lá fez um relatório, mais ou menos de cenho franzido, e não sei porquê foi verificar o cadastro da casa. Viu então que era um T6. Voltou lá e viu um T4, que era exactamante do que ele se lembrava. A coisa deu um pequeno sururu, porque eu tinha feito alterações ao projecto sem licença.
HGU: E como é que se resolveu?
N: Meu caro amigo, você imagina a minha dificuldade em explicar isto a quem não esteja como o meu amigo, receptivo a certas liberdades de imaginação...
HGU: Calculo. E a sua mulher, não deu por nada?
N: Deu. Viu as marcas na parede e perguntou o que era aquilo.
HGU: E o que é que lhe disse?
N: Disse-lhe que tinha experimentado fazer um arco no corredor, mas que não tinha ficado em condições, por isso tinha desistido. E que depois logo lixava as imperfeições. Sabe que este pormenor de desleixo é necessário para credibilizar o argumento...
HGU: Recebeu então a espanhola?
N: Claro. Correu tudo na perfeição. Mas depois fui a Espanha e acabámos tudo. Sabe, eu já frequentava a casa dos pais dela, conhecia a família...
HGU: Deixou-se de aventuras...
N: Não exactamente. Sabe o que é que é estranho? Cada vez que saio com uma mulher, dou com ela a perguntar-me: "Porque é que me estás a falar em espanhol?"
Gasolim em pedras

Agradecimento

Se não fosse o amigo do Descalabro, a opção dos comentários ainda estaria a dar erro.
Esta besta que se assina Manuel e mantém o H Gasolim nem se lembrou de testar os ditos comentários...
Por favor, não comentem este post...
Eu sei que fui burro. Confianças cegas...
Um obrigado ao homem do Descalabro.

30/01/2004

A volta ao mundo por um centavo



Uma das histórias preferidas de um dos meus avós era a aventura de um homem dele conhecido que certa vez viera da serra a Lisboa, em primeira viagem.
De entre as inúmeras coisas com que ficara maravilhado, havia a visita ao Jardim Zoológico.
Feitas as contas pelo viajante, exultava frente ao meu avô:
“Sabe que não saiu a tostão cada bicho?”
As voltas da vida puseram-me há pouco mais de um ano frente a umas caixas e a uns caixotes contendo moedas, vindas de heranças e de ajuntamento próprio, que quase se constituem em colecção.
Olhando para elas, decidi-me a acrescentá-las com as novas moedas correntes.
Mas como as moedas correntes são hoje cunhadas em várias origens, meti-me num desafio um bocadinho complicado.
Percebi entretanto que o facto de não ter uma colecção mas um conjunto desarrumado de moedas significava que me faltavam moedas facilimas de obter e, pasme-se, tinha algumas moedas valiosas e raras.
E, de repente, em pouco mais de um ano, eis que quase duplico o número de moedas diferentes que possuo. É tudo uma questão de empenhamento, está visto.
Ora isto coloca-me frente ao meu agora habitual fornecedor de jornais, revistas e tabaco, comentando a moeda que acabara de me entregar num troco.
A figura que ali estava no papel de comentador, encostada ao balcão dos totolotos, saiu à liça.
Se não seria o caso de eu ter um certo cêntimo grego que pudesse trocar com ele.
Disse-lhe que sim. A cara do homem não me era estranha. Nesta nova vizinhança, já começo a fixar alguns rostos que disputam comigo um espaço ao balcão do café. E por isso lhe disse que contasse com a moeda tão cedo nos cruzássemos na senda da cafeína.
Mas por não o ter encontrado no espaço de uma semana, lá resolvi fazer fiel depositário o fornecedor de jornais.
Hoje, fui interceptado na rua. O homem agradecia-me o gesto e trazia com ele um saco de moedas de onde esperava poder recompensar-me.
Recompensou-me com um volta ao mundo. Começando em Marrocos, passando pela URSS, por Cuba, pelas duas Alemanhas, pelo Irão, por vários países africanos e terminando na terra dos filisteus.
Com objectos que não vi, mas que me descreveu. Tapetes persas, jarras marroquinas, relógios russos, microprocessadores, um mundo de aventuras.
Não saiu de facto a tostão cada bicho.
E ainda me quer recompensar.
Gasolim na água

por interposta pessoa



foto de MSMS
A peste negra

A última grande praga abalou o mundo há cerca de oitenta e cinco anos.
Tive oportunidade de ouvir alguns relatos da época, pelos meus avós que eram já adultos na altura.
A dama da gadanha deixou um largo rasto por onde passou.
Volta e meia, há destes alarmismos. E se...
A questão é como a do terramoto em Lisboa. Não é uma questão de se, mas de quando.
Temos armas a favor. Afinal, a medicina embora navegue ainda em águas escuras, evoluiu. A bioquímica era quase embrionária na época e desenvolveu-se consideravelmente.
Mas temos muita coisa em desfavor. A mobilidade dos homens, dos micro-organismos. E a consolidação dos conceitos de liberdade individual.
É esta última a mais problemática. A luta será entre a sobrevivência da espécie e a dos indivíduos que a compõem. Mas em última análise, será da própria vida, independentemente da forma em que se apresenta.



imagem de

29/01/2004

Confiança cega



O que é a confiança?
Quando alguém que conhecemos bem e nos merece a dita, nos diz algo de insólito, acreditamos sempre?
Estás a brincar!
Estás enganado!
Não acredito!
É muitas vezes a nossa reacção. Sabemos que a pessoa não nos está a mentir, mas pode estar a brincar connosco ou até estar equivocada.
Temos sempre um limite de credulidade.
Nas notas de 1000 escudos de chapa 12, com a efígie de Teófilo Braga, havia um teste e uma aposta que se fazia amiúde.
Perguntava-se quantas vezes se conseguia ler "Banco de Portugal" na nota em causa.
A resposta mais frequente era: duas!
Alguns mais atentos diziam mais umas quantas que correspondiam às do filete de segurança.
Quase ninguém descobria mais.
Se era um apostador a desafiar, a aposta era quase sempre a mesma:
"Aposto que consigo encontrar pelo menos mais dez vezes a mesma designação do que tu!"
E muitas vezes a coisa pegava, o outro virava e revirava a nota, atentava aos pormenores e aceitava o repto por umas quantas cervejas.
E perdia.
Certa vez, fiz essa aposta com uma pessoa que mostrava ter alguma confiança no que eu dizia.
Quando lhe demonstrei que tinha perdido a aposta, não aceitou.
Dizia que não conseguia lê-las.
Pediu-se uma lupa. Continuava a dizer que não conseguia ler.
Pediu-se aos presentes que, com a lupa, confirmassem o que estava escrito aqui e ali.
Confirmaram.
Depois, lá acedeu em dizer que com a lupa parecia que eu tinha razão.
Mas não acreditava que eu ou outro alguém fosse capaz de ler aquelas letras sem auxílio de lentes.
Ficámos por aí. Não acreditava assim no que eu lhe dizia.
Hoje, ao lembrar-me disto, ocorre-me também que ela poderia estar a enganar-me.
Poderia ter lido com facilidade as letras mas, danada por ter perdido a aposta e os dois cafés envolvidos, recusava-se a aceitar o veredicto.
Seria isso? Haverá alguém que tenha confiança cega em outrem?

28/01/2004

Um teste

Depois de ter activado os comentários na versão ultramarina e de o balanço ter sido positivo (menos comentários vazios e mais críticas e mais conhecimento de outros parceiros), resolvo também aqui deixar essa possibilidade, para além do habitual e-mail.
Espero que batam forte e feio.
Surpresa

Ainda me surpreendo com os motores de busca.
Alguém chegou até aqui, mercê de um busca por fertilizantes, palavra que nunca utilizei neste blogue.
Mas porque o google reconheceu um ficheiro nitchile.jpg como sendo relacionado com a palavra em causa, aterrou aqui.
Notável ou não?

A caligrafia



Quem conhecesse a caligrafia de J. aos três anos de idade, teria dificuldade em imaginar que se viesse a tornar um perfeccionista de proporções milimétricas.
O gaiato escrevia as suas palavras apenas em maiúsculas de imprensa, sempre separadas por travessões.
Quando lhe perguntavam porque é que ele não escrevia na mesma forma dos textos que lia, respondia que não lhe era possível mostrar às pessoas que o lessem quais as palavras em que estava a pensar. Não tinha a capacidade de controlar os espaços inter-palavras e apercebia-se disso. Para separar uma palavra de outra, lá punha o travessão. O seu maior pavor eram as palavras que incluíssem já um hífen. Nesse caso dava sempre uma explicação oral adicional.
Para se vingar do passado, vejo-o hoje adequar o tamanho da letra ao espaço disponível.
Com aparos de 0,1mm, escreve em tipo tão pequeno que muitos não conseguem ler. Mas a escrita é perfeita. Quase saída de um escantilhão.
Dir-se-ia que a necessidade aguça o engenho.

27/01/2004

Evoluções

É tudo uma questão de zeros e uns – de uns que passam a zeros e de zeros que passam a uns. Segundo regras simples.
De uns rabiscos, saem estanhas formas.
A evolução em pequeno formato.


O que é um acidente?

Eu não sei.
Como todos os conceitos vagos que dependem de balizas, é difícil dizer quando é que começam e quando é que acabam.
Comummente, um acidente é algo que acontece independentemente das preocupações de prevenção que se tomaram.
Em abstracto, pode-se dizer que quanto maior fôr o conhecimento sobre um determinado campo, menor será a ocorrência de acidentes.
Porque existindo conhecimento sobre o funcionamento das coisas, não se desculpam as falhas que desencadeiam catástrofes (em sentido lato).
Ora o que sucede é que o homem, não obstante ter conhecimento dos riscos que a vida apresenta, não se demite de viver.
Subestima riscos quotidianamente por não ser viável tudo prevenir.
Em todas as actividades, em todos os tempos, o fez.
A paranóia da prevenção é o contraponto da inconsciência face aos riscos.
Parece que a vida se encarrega de formar estas correntes opostas para nos colocar no meio-termo.
Em qualquer actividade, e sem procurarmos muito, identificamos riscos desnecessários.
Em algumas actividades, à vista de todos, há uma prevenção redundante.
Se é verdade que o seguro morreu de velho, também o é que é impossível tomar todas as precauções.
Se olhássemos mais para o que nos rodeia, deixaríamos de procurar bodes expiatórios para tudo o que nos acontece.
É a vida!
Gasolim sobre os sinos


Gasolim sob as pontes


26/01/2004

A televisão



Certos efeitos da televisão estarão porventura ainda mal estudados.
Sei que há muita coisa de que se fala, deste efeito e daquele, mas verifico que na maior parte dos casos não passam de teses momentâneas, sem bases e sem aprofundamento.
Não pertenço ao clube dos que acham que o que é importante é fazer as perguntas.
Muito menos ao dos que têm respostas para tudo.
As perguntas que se fazem normalmente não têm pés nem cabeça. São pretensas originalidades, acompanhadas de exagerada ênfase.
As respostas que se dão, têm o hábito de se reconhecer como definitivas e universais. Outro logro.
Continuo convencido de que a curiosidade de um indivíduo qualquer é a chave mais perfeita para a entrada no caminho da descoberta.
E que, sendo ou não o próprio a chegar a uma conclusão, ela será sempre cativa da estatística, da escala e do tempo.
Posto isto, recordo-me hoje de um episódio trágico que ocorreu há uns anos nos meus sítios.
Depois da tragédia e da morte que todos tinham presenciado, fazia-se uma pausa (catársica?) ao balcão do café.
Quando começou o telejornal e as imagens que todos tinham na memória fresca, começaram a surgir no écran, não se ouvia uma mosca e as lágrimas corriam na face de alguns.
Estranho momento esse.
Curiosamente, como no jogo dos espelhos, os jornalistas estavam ali a dez metros, dentro ou fora dos estúdios móveis.

imagem da RTP
Geometrias

Em tempos, colaborando com uma velha amiga, andei às voltas com estudos de estacionamento.
Para além dos aspectos normativos e do bom senso, há uma certeza: os traços amarelos ou brancos que delimitam os lugares de estacionamento são uma necessidade.
A incapacidade do comum dos mortais para arrumar de forma optimizada a sua viatura, de modo a permitir a outros que o façam também, requer as baias pintadas no chão.
Caso não estejam lá, acontece o que vejo da minha janela: no parque em frente, das três zonas de estacionamento em espinha onde, em cada uma, cabem arrumados doze carros, nenhuma delas tem os doze. Há uma que tem nove, e não cabe mais nenhum.
Venham as baias, para os cavalos se arrumarem.
Ou seremos mais felizes sem elas?


O meu vizinho do rés-do-chão

O homem escrevia num semanário.
Não era por seu meu vizinho, mas era duma lucidez notável a comentar a imprensa e os seus meandros.
Escreveu certa vez que a quantidade de disparates na imprensa era directamente proporcional à importância que essa mesma imprensa dava aos factos.
Deixou de escrever.
Continua a dar aulas na universidade. Mas não é cá.

25/01/2004

Droga asfaltowa

Os polacos têm razão, a estrada é uma droga.
Uma droga de cujo fascínio dependem alguns, sem saberem bem como tudo começou.
Como se se sentassem num cinema e embalados, dessem ordens ao realizador.
Comigo, é disso que se trata. Não é da vertigem da velocidade, ou da competição com o da frente.
Nem sempre a posso desfrutar, mesmo quando nela estou. Mas esforço-me por isso.
A estrada quer-se deserta. Mas toma-se tanto molhada como seca. De noite ou de dia. Fria ou quente.

Quando me falam

De coisas alternativas, radicais ou biológicas, fico sempre estarrecido.
Não se conseguiriam arranjar melhores definições?
Ou os próprios conceitos são vazios?
Pontes e cabos

24/01/2004

Captando os sinais

Espero que sim, mas acho que não



É, como todos sabem, a impossibilidade em futebol. Achar que não mas esperar que sim.
É porém, baseado em números a que acedi, o meu alvitre.
O Sporting não chega lá.
Pelo menos nos últimos sete campeonatos (quantos mais serão para trás?), nenhuma equipa logrou superar a diferença para o primeiro tal como estava este ano à 15ª jornada.
Lamento, meus caros confrades sportinguistas, mas este ano a coisa não vai lá.
Oxalá me engane, oxalá os números se modifiquem.

imagem da RTP
Miopias


23/01/2004

Enquanto Carlos (2)



“Carlos! Carlos! Não se importa de vir aqui..?”
Entrei.
“Ó Carlos, veja lá esta chatice. A minha televisão não está boa.”
Sentado num divã, a meio da sala, em frente a dois aparelhos sintonizados no mesmo canal, o meu senhorio balnear, Zé Povinho escanhoado, virou a cabeça e saudou-me, piscando-me o olho.
Na certa, referia-se às confidências que me fizera, instalado no banco à esquina da casa, protegido do sol quase poente mas ainda abrasador.
O problema era na televisão dela, confirmou.
A dele, colocada mesmo ao lado, embora mais pequena, tinha uma imagem perfeita.
Ela dizia-me: “Já viu? Foi logo a minha que se avariou. Se ainda tivesse sido a dele...”
Compreendi a dificuldade dela em observar as imagens em ponto mais pequeno também em virtude das confidências que me fizera sobre a doença dos olhos de que sofria.
“Vamos lá ver.” – dizia eu esperançado no milagre técnico dito português – a pancadinha no lugar certo.
Verifiquei a ligação da antena. Liguei e desliguei a ficha e continuava tudo igual. Abri a caixinha do sintonizador e zás, a imagem melhorou.
Grandes agradecimentos.
Saí.
No dia seguinte, o meu amigo e senhorio lá se confessou:
“Ela não quer ver a minha. E eu cá também não quero ver a dela.”

imagem do Zé Povinho barbudo em http://manuelcarvalho.8m.com/
ver também:
O Carlos
Enquanto Carlos

O santo e a senha



A senha eu tinha. Era o número 384.
Quando chegou a minha vez, lá entreguei o envelope e disse "Azul".
O homem do balcão colocou a carta no prato da balança, olhou para o remetente e para o destinatário, fez uma pausa e indicou o valor da franquia.
Puxei do dinheiro e paguei.
Quando iniciava o movimento de rotação para ceder o lugar ao 391, fui travado pelo funcionário que me estendia um maço de papéis.
"É uma publicidadezinha." - disse-me.
Aceitei, convencidíssimo de que se tratava da contra-senha.
Entre os diversos papéis do maço, estou agora a tentar descobrir as pistas mais úteis para completar a próxima missão.
Talvez em letra muito, muito pequena encontre um "Good luck, M!"
A grafonola do Major



Ainda me vi do lado de dentro da janela.
Da casa grande que ordenava o largo.
Já não nos tempos do seu esplendor, mas numa fase em que já tinha sido dividida em três.
Por isso, quando a grafonola ecoou na minha memória, que não podia ter, de acontecimentos do início do século passado, foi fácil olhar a janela aberta e adivinhar o fonógrafo a difundir a música.
Quase setenta anos depois, não estranhava assim que os carros se passeassem com altifalantes, distribuindo panfletos.
Nesse início de século, os panfletos eram ainda inúteis. Riscos em papel sem sentido para a maioria.
Mas a música já embalava os votos.
O major passou uns dias em que não ouviu as suas músicas preferidas.

22/01/2004

A uma escritora desconhecida



Um dos sonhos do escriba é ler.
Ler umas páginas que alguém há-de lançar das janelas de um comboio.
Páginas soltas, de cuja arrumação dependa a obra.
Sem saber quem as lançou, embora sabendo que lhe eram destinadas.
Já elegeu um sítio onde as esperará.
Fica ao fundo desta imagem. Embora não seja identificável, a linha férrea está lá.
Cortando em duas partes certa fatia de terra, de que o escriba certo dia se enamorou.
Um destes anos, a casa estará lá. E ao fundo do quintal, num dia de Outono, verá cair as folhas.
Gasolim na fronteira

21/01/2004

Gasolim e as direcções

Factos e opiniões



Há quem tenha opinião sobre qual era o nome do jogador que envergou a camisola 2 da equipa de Alguidares de Baixo, no último domingo, frente à sempre difícil equipa de Chouriçal da Serra.
É difícil convencer essa pessoa de que se trata de um facto observável e incontornável: foi o Joaquim Francisco. Toda a gente o sabe.
Ora aqui é que a porca torce o rabo.
Quanto tempo será necessário para que tal facto passe a ser objecto de opinião histórica?
Já não haverá ninguém vivo ou confiável. Não haverá a unanimidade de café em torno do nome de Joaquim Francisco, pois a maioria dos olhos que o viram já seguiram o destino que os há-de comer. Não haverá boletim de jogo. Não haverá fotografias. Não haverá video caseiro.
Deixará assim de ser um facto. Será uma hipótese histórica.
Qual será a duração de um facto?
Experiências

O que um processador faz a uma imagem de televisão:



imagem de France 5

20/01/2004

Papel e radiação



Ouve-se falar muito nos e-books e no seu insucesso face aos livros puros e duros.
A magia das folhas de papel, etc.
Pela parte que me toca, posso dizer que tenho lido poucos livros aqui. Também não me resolvi a imprimir um só que seja. Tenho alguns em stand-by, na versão disco rígido do belissimamente encadernado na estante para vizinho ver.
Mas tal como a maioria dos que por aqui andam há uns aninhos, tenho lido muita outra coisa: páginas temáticas, jornais, revistas, blogues, etc.
Provavelmente o que me afasta dos livros é o mesmo que faz com que o burro arreie na grande recta, o caminho visível a percorrer.
Há porém uma coisa em que estou convencido que os écrans batem o papel – nas paciências.
Partindo do princípio de que a maioria dos que perdiam tempo a sós com um baralho de cartas tem acesso a uma maquineta, quase me convenço de que já não voltam a baralhar e a dar de novo. Agora é mais rato e clique.
Não tenho qualquer base de observação para sustentar este disparate. É um mero alvitre.
Mas ainda hoje descobri que a expressão displicente (e sentada) do meu novo fornecedor de jornais, tabaco e revistas não se deve à atenção que dá à contabilidade da loja. É outra coisa que ele procura resolver.
Quadrados ?

Na ausência do povo, dos cavalos, dos prelados e de Suas Majestades

As coisas que se dizem (II)

Uma das frases mais habituais no discurso actual sobre a emigração e a imigração, é mais ou menos esta:
"Se Portugal foi um país de emigrantes, agora tem que acolher bem os imigrantes, também."
Confesso que não entendo a ligação.
E depois ponho-me a pensar:
"Se os Estados Unidos foram um país de imigrantes, agora têm todo o direito de começar a enviar emigrantes para todo o lado."
O que dirão as mesmas cabeças a uma frase destas?
Cruzes, canhoto.
Mas não há dúvida que é uma frase bonita, a primeira. Mas o mundo não se fez com frases bonitas, muito menos com boas intenções.
Faz-se como se faz. Com pressões e resistências, equilíbrios e catástrofes.
As coisas que se dizem

Para quem ainda se recorda, o disparate mais propalado em 2002 foi a suposta viragem à direita em França, a propósito da distribuição dos votos na 1ª volta das presidenciais.
Deu o que deu, tumultos um pouco por toda a parte. O habitual cortejo de manifestantes porque sim.
Há sempre nestas coisas quem saiba aproveitar as massas e induzi-las em erro, é a história do homem.
Em 2003, foi a história das armas do Iraque. Deu o que deu, matou quem matou, e ainda está a dar.

As diferenças são:
No caso do Iraque, as armas existiram e entraram na Guerra do Golfo (para quem se lembra, a Guerra do Golfo foi aquela que decorreu pelos anos 80 e só foi substituída nos écrans pela guerra civil jugoslava).
Em França não houve viragem à direita. É uma questão de comparar os números da eleição com os da anterior, em 1995.

As armas do Iraque não se encontraram. Mas o saldo foi de uns milhares de mortos e continua. Saber se Saddam Hussein era pior ou melhor do que muitos outros que envelheceram tranquilos, é outra questão. Sem resposta, a meu ver.
Em França, não tendo havido nada senão o equívoco e a manipulação dos simples, o saldo foi bem menor, algumas escaramuças que alastraram a outros países e eventualmente alguns mortos relacionados.
Pretextos faltam para libertar energia. Pretextos faltam para tomar posições. Pretextos faltam para justificar o que não é justificável, a natureza humana.
Foi assim e assim há-de ser, por muito tempo.
Perde tempo quem pensa encontrar razões e coerências nas atitudes do homem.
Gasolim de praça a praça

19/01/2004

Outras grandezas



M. e P. olhavam para norte, da porta de serviço.
Como dois cavaleiros de western que se deslocam até perto da cerca para travar curtas palavras e depois se voltam rumo ao horizonte.
Ali estavam, rebobinando cada um para si as ásperas palavras que haviam trocado algumas vezes durante a obra.
Agora a certeza do dever cumprido.
Depois de terem lutado contra o tempo e contra as adversidades, de se terem degladiado, depunham as armas.
Era o tempo de respirar fundo e partir para outra. Começar tudo outra vez.
P. disse que afinal o ministro já não viria para a inauguração.
M. rematou que isso não teria qualquer importância, embora desconfiando que ao outro o facto não seria indiferente.
P. entre um sorriso amarelo e um derradeiro olhar para a pilha de restos de obra que ainda não tinham seguido o destino competente, disse calmamente que os jornalistas o tinham ido entrevistar.
Depois, mostrando os primeiros sinais de desilusão, virou-se para o interior do edifício e concluiu:
"Tudo o que queriam saber era quantos quilómetros de tubagens aqui instalámos!"

imagem de http://www.maristela.com.br/produtos_comum.html (imagem já não existente)
A massa da bomba

A repetição do mesmo disparate na imprensa é uma recorrência.
Não parece haver ninguém no circuito que se aperceba da enormidade que está a retransmitir.
Eu gostava de saber como é que se determinou que a bomba de ontem em Bagdade era de 500 Kg.
(eu sei que é comummente usada uma comparação com o poder destrutivo de x Kg de TNT, mas isso não passa de uma escala do tipo da de Mercali)
Gasolim às cores

Extremo Oriente



Nos extremos da cidade. Cresci no extremo oriental da urbe. Atrás de mim, o campo. Searas de tantos em tantos anos, papoilas todos os anos.
Vastas vistas sobre o território, moínhos no topo de colinas.
Agora estou do outro lado. Também no extremo. Uns palmos de terra e a auto-estrada. Do lado de lá das faixas de rodagem, a pequena aldeia de outrora, apresenta agora aspecto de cidade, ela também.
Nunca soube muito bem qual era a minha qualidade: se rústico, se suburbano, se urbano.
Uma mistura das três, é o mais certo.
Vou mantendo as minhas janelas a oriente e a ocidente. Na mesma cidade, amanheço e anoiteço com o sol. A oriente, a manhã, as minhas recordações, os meus livros, um rádio velho e o que resta da paisagem rural. A ocidente, a tarde, as televisões, os computadores, a auto-estrada e as torres de 15 andares.
Nos meus pesadelos mais brandos e reais, vejo os meus montes rodeados de urbanidade.
Gasolim e as memórias da cidade

18/01/2004

Notícias

Juntamente com os anúncios de futuras alunagens, que já referi, há outra notícia.
Eu sei que esta sofre dos síndromas ClonAid, Antinori e de outros efeitos desmobilizadores.
Mas por alguma razão estranha, suscita-me mais confiança desta vez.
Que vai nascer algures um destes dias um ser humano clonado parece que ninguém duvida. Ou ainda haverá cepticismo entre os “esclarecidos”?
Se será desta, não sei. O que sei, todos sabemos, é que quando se aponta o farol em determinada direcção quase sempre se chega lá.
É verdade que há questões para as quais o farol está há muito apontado e parecem por ora inalcançáveis – veja-se o caso do teletransporte. Que também parece ser um campo onde ainda há muita pedra para partir. Muito conhecimento prévio e necessário em falta.
Sucede que parece haver uma espécie de manto de desalento sobre determinadas matérias que faz com que escasseiem recursos, humanos e materiais, na sua investigação. Mas um dia atinge-se a praia.
Não é o caso da clonagem. A expectativa é grande. Há resultados na sala ao lado.
Um destes dias, há notícia.
E é importante.
Quando o homem se lembra de uma coisa...
A árvore do Stingray

O progresso roubou-nos a memória.
É a velha questão da frequência do aparecimento e desaparecimento das landmarks ser superior à frequência dos ciclos de vida humana, assunto de resto largamente escalpelizado.
Mas o facto é que, se por um lado, temos oportunidade de ver as mudanças, por outro a nossa memória sente as perdas.
Muito embora eu e os meus amigos de infância há muito não desfrutássemos dos encantos do lugar onde crescemos, que nos proporcionava campos de futebol quase exclusivos, árvores para subir, veredas para descer, searas para nos escondermos em tiroteios de boca, recantos para escondermos arcas de tesouro inverosímeis, tudo isso à porta de casa, em plena urbe, muito embora esse tempo já fosse há muito, sinto a falta desses lugares.
Das centenas de árvores que existiam no talude ferroviário, não resta uma única.
Dos metros quadrados de terra onde travámos as nossas batalhas, onde fizemos correr os berlindes e de onde pretendíamos impressionar as donzelas que pressentíamos atrás de janelas, resta muito pouco.
Não sei quem baptizou a árvore do Stingray. Talvez alguém que misturou a forma do periscópio com a da escada em espinha. O certo é que era uma espécie de pinheiro a que tinham sido cortadas não cerce as pernadas mais baixas. Pelo generoso número de pernadas que a imponente árvore já tinha decepadas, se atingia um nível elevado em que as pernadas intactas proporcionavam excelente esconderijo e toca de emboscadores.
Por ser das mais longínquas (o que eram as distâncias nesses tempos...), não era das mais usufruídas, mas o seu nome era sempre dito com respeito.
Contavam-se os degraus que cada um subira. Ninguém lograra alcançar o topo, tocar no cume. Um risco que não corríamos.
Nunca algum de nós partiu um braço, uma perna, um dedo que fosse nestas e noutras andanças.
Às vezes, uma pedrada numa disputa entre ruas era mais funesta.
É da árvore do Stingray que me lembro hoje. E da excessiva protecção que se dá hoje às crianças também. O mundo estará assim tão diferente?
A feira do fumeiro e outros certames



As feiras, um pouco por todo o lado, fizeram o seu aggiornamento e agora dão-se ares.
Já há alguns anos que o bicho da curiosidade me impele a ir a uma delas.
Para mim, que às vezes tenho a pretensão de ser imune à publicidade, este é um bom exemplo de que o não sou.
Gosto de feiras como muita outra gente. Sei há muitos anos que o Almanaque Borda d’Água fornece indicações precisas dos locais e dos dias onde se realizam.
Então porque razão só agora que elas são profusamente anunciadas na rádio e na televisão é que me disponho a lá ir?
Não faço ideia. Mas a contradição depois toma conta de mim. Então se estas coisas são assim tão divulgadas, não será o caso de haver enchentes insuportáveis? Deve ser o caso – e fico-me.
Já aconteceu com a Fatacil dos primeiros tempos. Cheguei a preparar-me para a jornada certa vez, mas algo de imprevisto fez-me arrepiar caminho.
Depois, bastou um amigo fazer-me um relato da confusão de gente que era, para perder a vontade.
Feiras, decididamente, são um problema insolúvel.
A feira dos Bentos ainda será maravilhosa?

Feira do Fumeiro de Montalegre aqui

17/01/2004

A história e a rede

A rede é hoje a ferramenta de consulta por excelência.
É a grande enciclopédia sempre à mão e de pouco peso.
Mas a rede tem uma inquinação.
Os jornais já se sabe, servem para consulta do quotidiano. Cobrem épocas bem determinadas.
Os livros cobrem temas com maior ou menor extensão no tempo.
A rede aparenta cobrir tudo.
Mas ilude quanto ao tempo.
Dá uma excessiva ponderação aos factos ocorridos depois da sua generalização.
Em tempos em que a memória já é curta, potencia o seu encurtamento.
O dia do eremita que sabia adicionar aproxima-se.

(Myron Aub não era eremita e também sabia multiplicar, mas o eremitério é o destino dos quase profetas)
Para que conste
(post dedicado aos apostadores que aqui vêm à procura da sorte)

Depois de 1h e 33m de cálculos, o meu programazinho extraiu 3 chaves:
3,7,11,29,30,43
3,7,11,29,30,49
11,13,31,39,40,43


como já estamos nas 20h, podem copiar à vontade.
Assim, ficam a saber que não vale a pena cair aqui à procura de palpites. São todos furados.
Como se isto obstasse a que continuem aqui a procurar pela sorte.
Outras surpresas

Talvez isto pareça estranho aos leitores do Brasil. Aqui temos a ideia de que o Carnaval no Brasil é como as iscas aqui – ou se ama ou se odeia, ninguém fica indiferente.
Mas o facto é que nunca estive muito familiarizado com as epactas. Por isso, o Carnaval quase sempre me apanhava de surpresa.
Fazia-se anunciar pelo bzzzzz da bicha-de-rabiar, pelo estampido do estalinho, pelo sonoro bum das bombas.
E na montra das minhas predilecções, lá estavam as serpentinas e os papelinhos.
Então acordava para a época.
A mim, seduziam as bisnagas – as pistolas de água. Quantas vezes não acontecia ao James Bond de pasta para as aulas sentir a perna encharcada pela súbita descarga da traiçoeira arma escondida no bolso das calças.
Nunca gostei das vira-bicos. Nunca se sabia bem para onde é que se apontava.
Tive um bisnaga preferida. Era uma cópia 3D da pistola de João Bafo-de-Onça. De borracha azul acinzentada. Uma verdadeira bisnaga que não dependia de gatilho e de êmbolo. Era muito pouco eficaz como pistola de água, nada que se comparasse com as Parabellum de plástico translúcido.
Mas por alguma razão estranha, de que eu apenas suspeito, tomei-lhe aborrecimento. Pior, excomunguei-a. Só de olhar para qualquer outra que se assemelhasse, viravam-se-me as tripas.
Hoje, gostava de saber onde pára. Talvez ainda se encontre dentro de algum caixote nesse mundo de causas perdidas que são os depósitos de tralha que mantenho espalhados pelos quatro cantos do meu reino.
Fazer o quê?
O Carnaval deve estar a chegar, digo eu...
Água vai e a extinção das espécies

Às vezes ainda me surpreendo.
Um calmo diálogo familiar travado em português a dois sotaques pode ser interrompido pelo insólito.
De um urbano sexto andar fronteiro, enquanto discutíamos a persistência da humidade matinal no betão dos paralelipípedos, vê-se o tradicional gesto de água vai.
Pensei que me tinha equivocado, que tinha sido uma qualquer ilusão óptica. Mas não. Eis que o gesto se repete, um braço nu e uma bacia de plástico descrevem um arco a pouco menos de 20 m de altura.
De repente, vem-me à memória um passeio por Trás-os-Montes em que, numa aldeia de fronteira, acompanhado por um cicerone de ocasião que mal me viu apontar a máquina de filmar se tornou companheiro de andanças, quase me expus a um banho de águas residuais.
Por ruas desertas, conduzia-me à igreja que era na opinião dele o lugar certo para fotografar.
Detive-me por momentos olhando uma velha e seu cão, sentados ao sol de inverno na soleira da porta.
Nesse instante de imprevidência, uma outra velha mulher abriu a janela quase na minha vertical e lançou à rua um jorro de águas.
Ninguém se perturbou. Eu não reagi, de surpreendido. O meu companheiro continuava a andar paulatinamente para o adro da igreja. A velha da porta e o seu cão não mostraram quaisquer sinais de atenção ao ocorrido. A outra fechou a janela e desapareceu.
Continuei sem que nada fosse. Nada tinha sido, de facto.
Agora lembro-me da praia onde passava os meus verões de infância.
Da água que corria pelos regueirões nas ruas, sobrevoada por enormes insectos que eu apelidava de helicópteros.
Há muito que essa colónia de insectos voadores se extinguiu. Ninguém parece preocupado com isso.
Mistérios.

16/01/2004

Estruturas 2


O que é que há de novo?

De vez em quando bato na tecla das actualidades.
Quase sempre para dizer que, embora os jornalistas mostrem o contrário, não há nada de novo na frente.
E que quando há, são incapazes de o reconhecer.
Não se pode dizer que estejamos face a algo de completamente novo.
Avanços e recuos são a história do homem.
Mas voltar à lua ou a decisão de o fazer é um marco histórico.
Se realmente assim fôr, é a história a repegar as suas teias.
Mas, como já disse JPP, são os aspectos laterais da coisa que fazem notícia.
Não sei qual é a razão. Provavelmente é porque interessa a mais gente a pequena história.
Talvez desta vez os jornalistas tenham razão.
Talvez se dirijam à maioria, sem o saber.

Quantos serão os que hoje escrevem nestes espaços e que testemunharam a noitada de Julho de 1969?



imagem em
Gasolim de volta às curvas


E agora?

Bem, em primeiro lugar, quero deixar aqui bem expresso aos amigos da Brigada Anti-Lacoste que se não falei aqui há mais tempo do concurso foi porque, apesar do parco número de visitantes que tenho, temia a concorrência.
Agora que chegou ao fim, e que não há nada como palpites à segunda-feira (hoje é sexta?), já posso dizer que sabia 14 das 15 respostas.
Também posso dizer que gosto destes desafios.
E que fico à espera de mais.

Anotação posterior: Estúpido! - as respostas que sabias eram 15 em 16, nem ler sabes!
O electricista espantado

O povo lá diz "Santos de casa não fazem milagres".
E não há nada de mais certo quando se trata de dar palpites em pequenas ou grandes reparações domésticas a certa pessoa.
Certa vez foi um fio de ligação de um candeeiro de tecto que se desligou. Nada mais fácil.
Mas como a coisa não foi resolvida de imediato, pois o tal fiozinho tinha a ponta curta e era preciso fazer um enxerto e a posição de trabalho não era das mais favoráveis, a tal pessoa aproveitou o pedreiro curioso que andava lá a pôr uns mosaicos para pedir uma opinião.
Quando eu cheguei, o homem preparava-se para opinar doutamente sobre a solução a adoptar, empoleirado em cima de um escadote.
"Desligou a energia?" - perguntei-lhe.
"Não. Não é preciso. Então o interruptor não está desligado?" - já me considerava um analfabeto na matéria.
"E você não tem um busca-pólos? É que eu não tenho a certeza se o interruptor está antes ou depois da lâmpada" - insistia eu, preocupado com o à-vontade dele.
Não me respondeu. Ou eu expliquei-me mal ou ele não fazia ideia do que era um interruptor antes ou um interruptor depois.
Não me deu tempo de ir desligar a energia. Avançou com o alicate para puxar a ponta do fio e pumba, tocou com as pontas do alicate nos dois fios.
Não é preciso pôr aqui a fotografia do homem espantado que desceu do escadote. Vá lá que o alicate era isolado.
Perguntou-me se o interruptor estava avariado. Eu não lhe consegui explicar que o interruptor estava bom, mas que agora tinha a certeza de que estava depois da lâmpada.
É claro que tive que fazer eu o resto do trabalho.
É possível que ele tenha ido depois contar a um electricista amigo o que lhe aconteceu. Mas não deve ter falado em interruptores antes e depois de lâmpadas.