Não basta ter iniciativa
A história de Nicolas (um nome fictício) terminou em bem.
É uma das muitas histórias de comportamentos de risco com um final feliz, razão pela qual fomos entrevistá-lo a Faro, sentados tranqüilamente numa esplanada (o trema tinha que ser).
H Gasolim Ultramarino: Então conte-nos lá como tudo aconteceu...
Nicolas: Bem, é uma longa história. Temos que recuar alguns anos...
HGU: Temos tempo.
(pedimos uns cafés e uns bolos de amêndoa)
N: No final dos anos 80, no decurso de uma excursão a Espanha, arranjei por lá uma namorada. Por sinal, era um amigo meu que se estava a preparar para a caçar, mas eu consegui manobrar a coisa cá para o meu lado...
HGU: Então e isso faz-se?
N: Podia (re)citar-lhe vários ditados portugueses alusivos, mas não o faço. Aconteceu, o que é que se há-de fazer? Ademais, o meu amigo era casado.
HGU: E o Nicolas à época, era solteiro?
N: Eu? Não. Claro que não. Só em Espanha é que era solteiro. É que nunca me casei em Espanha.
HGU: Ah!
(os bolos são espectaculares)
HGU: Traga mais dois, se faz favor!
N: Estas esplanadas fazem-me lembrar Espanha!
HGU: Se calhar é por causa dos espanhóis que aqui estão.
N: Acho que não. Tudo me lembra Espanha, entiendes?
HGU: Sim. Mas ainda não está muito clara a relação entre esse episódio e a sua história...
N: Pois, a vida é assim, nem sempre é fácil chegar onde se quer. Eu, por exemplo, demorei uns anos e corri inúmeros riscos...
HGU: Voltemos ao assunto, arranjou uma namorada em Espanha...
N: Sim. Não é isso uma tradição portuguesa?
HGU: É?
N: Creio que sim.
HGU: Muito bem, seja. Continue, por favor.
N: Ora, o meu amigo calcula o que foi. A namorada lá, a mulher cá. O problema que era o telefone...
HGU: E a caixa do correio...
N: O correio, não. Dei-lhe a morada dos meus pais. Se perguntassem alguma coisa, seriam cartas de uma antiga namorada.
HGU: E quanto tempo durou isso?
N: Quanto tempo durou? Anos a fio.
HGU: Quer dizer que ia frequentemente a Espanha?
N: Ia, claro. Mas ela também veio algumas vezes a Portugal. Até aos Açores foi comigo. Imagina o que é uma lua-de-mel nos Açores...
HGU: Mas e aqui, no continente? Como é que isso era feito, onde é que ela ficava?
N: Ficávamos por aí, em zonas turísticas. A minha vida itinerante proporcionava isso.
HGU: Sempre longe da sua casa...
N: Sempre longe da minha casa. Apesar disso, uma vez ao jantar cruzei-me com um grupo de amigos dos meus pais. Mas foram de um discrição completíssima, nada de comprometedor, antes pelo contrário.
HGU: E nunca ela lhe sugeriu o casamento, ao fim de tantas aventuras?
N: Ah, mas sim, claro! Chegámos a noivar.
HGU: E depois como acabou?
N: Bem, acabou. Chegou uma altura em que já era impossível mantê-la longe da minha casa...
HGU: Claro que isso nunca fez...
N: Ah, mas fiz!
HGU: Fez? Quer dizer que a trouxe a sua casa?
N: Sim. Vou contar-lhe como foi. Numa altura em que a mulher e os filhos se encontravam de férias, resolvi convidá-la.
HGU: Cafés?
N: Venham eles! Mas dizia eu que a convidara para minha casa. Assim que me decidi, havia apenas que superar uma dificuldade, a qual era esconder anos de vida da família ali passados. Digo-lhe que não é tarefa fácil. Tenho a sorte de morar num prédio com uma uma geometria muito peculiar em planta, o que possibilitou a eliminação de dois quartos e de uma casa de banho, onde ocultei tudo o que pude, sem que essa ocultação suscitasse a mais pequena suspeita.
HGU: Eliminou dois quartos e uma casa de banho? Mas como?
N: No corredor de acesso, construí um tabique em placa de gesso e encostei-lhe uma estante pesada, de forma a evitar qualquer acidente com a frágil placa. Ficou tão aceitável que ninguém diria que por detrás daquela estante havia mais casa.
HGU: Foi então que...
N: Sim, um fiscal da câmara que me viu a transportar baldes de gesso, bateu-me à porta. Já tinha a obra nos acabamentos, estava a fazer os remates...
HGU: E ele foi lá ver de que obra se tratava?
N: Sim, queria saber se estava a fazer algumas alterações na casa. É claro que eu lhe disse que não, que eram só uns retoques no estuque das paredes...
HGU: E depois?
N: Ele lá fez um relatório, mais ou menos de cenho franzido, e não sei porquê foi verificar o cadastro da casa. Viu então que era um T6. Voltou lá e viu um T4, que era exactamante do que ele se lembrava. A coisa deu um pequeno sururu, porque eu tinha feito alterações ao projecto sem licença.
HGU: E como é que se resolveu?
N: Meu caro amigo, você imagina a minha dificuldade em explicar isto a quem não esteja como o meu amigo, receptivo a certas liberdades de imaginação...
HGU: Calculo. E a sua mulher, não deu por nada?
N: Deu. Viu as marcas na parede e perguntou o que era aquilo.
HGU: E o que é que lhe disse?
N: Disse-lhe que tinha experimentado fazer um arco no corredor, mas que não tinha ficado em condições, por isso tinha desistido. E que depois logo lixava as imperfeições. Sabe que este pormenor de desleixo é necessário para credibilizar o argumento...
HGU: Recebeu então a espanhola?
N: Claro. Correu tudo na perfeição. Mas depois fui a Espanha e acabámos tudo. Sabe, eu já frequentava a casa dos pais dela, conhecia a família...
HGU: Deixou-se de aventuras...
N: Não exactamente. Sabe o que é que é estranho? Cada vez que saio com uma mulher, dou com ela a perguntar-me: "Porque é que me estás a falar em espanhol?"