29/03/2004

Fato domingueiro
Um post de domingo, à segunda-feira



Estamos descrentes. Não é com o governo, não é com a oposição, não é com o futebol, não é com o país, é connosco.
A um ateu e agnóstico (há quem defenda que estas duas qualidades não convivem) não há sublime crença que lhe valha. É o meu caso.
Mas não considero que esteja a subsumir a partir do que sinto. Olho em volta e vejo o mesmo. Poderei estar equivocado, é uma forte possibilidade. Mas parto do princípio de que não estou.
E então, porquê?
Porquê esta descrença e este aparente fastio?
Só tem fastio quem está de barriga cheia – dizem há muito alguns.
Mas o fastio por ora fica de parte, vamos à descrença.
Alguns dirão que a queda dos deuses e dos medos é a responsável por ela.
O temer a Deus já não faz parte do vocabulário. Mesmo para os crentes.
O mundo ocidental caracteriza-se hoje pela ausência do medo. Adiante (mas não aqui) se verá se ele regressa ou não. O meu palpite é que não. Pelo menos, a médio prazo e salvo circunstâncias extraordinárias como a ocorrência de pestes ou a previsão de cataclismos de dimensão muito superior aos conhecidos.
Não há medo, não há temor, não há novidade.
E não há sonho.
Grande parte dos povos que constituem a sociedade ocidental vive numa estabilidade sem meta. Os sonhos são os que todos sabem, as coisinhas do costume.
A própria sociedade deixou de prosseguir grandes objectivos. Se é que alguma vez o fez. Mas ao conferir a grande parte dos seus elementos um certo bem-estar, deixou de ter visão prospectiva. Empenhou-se essencialmente numa maior unificação. Talvez levando o carro à frente dos bois.
Ao conseguir um certo bem-estar, a maioria da população anseia por mais qualquer coisa, sem saber o quê.
Ao atingir determinados patamares de conhecimento e de intimidade com os senhores, perdeu o medo, fez comparações e viu esfumar-se o sonho.
Apercebeu-se de que não há uma glória em ser isto ou em ser aquilo.
As próprias metas de descoberta que poderiam potenciar novos sonhos, estão pouco visíveis.
O racionalismo tropeçou na falta de dados e na dificuldade de os tratar, à medida que a precisão exigia mais.
E somos atacados pelos bárbaros, pelos novos bárbaros.
Não creio que estes, por ora, possam causar maior dano.
Mas estou convencido de que vivem num patamar onde os temores e as crenças são caldos que proporcionam o sonho e a vontade.
A vontade deles será acabar com a nossa civilização. Sem saberem muito bem como e porquê. Mas alimentam esse desidério.
Continuo ainda convencido de que o nosso maior inimigo é o sonho. A ausência dele.
Já ninguém veste um fato domingueiro.

imagem adaptada de

27/03/2004

Um conto



Um conto sobre varão roscado?
Sim. Por que não?
Um conto sobre varão roscado? Parafusos e porcas?
Sim. Mas o essencial é a demanda. A demanda pelo varão, o clima, a chuva copiosa, as pessoas, a estrada, os livros em saldo.
Os livros em saldo?
Sim. Se não fosse pelo varão, jamais teria comprado aquele lote em saldo.
E depois? Achas que chega para um conto?
E o que é que chega para um conto?
Sei lá.
Mas sabes que uns metros de varão roscado, mesmo que seja M16, não chegam...
Não sei, acho que não...
Nem com aquele painel publicitário a cair rés vés ao carro da polícia? Ou os mecânicos à porta da oficina à espera que alguém ficasse no lençol de água?
Não te lembras de mais nada?
Do recheio das casas de ferragens...
Não escrevas.

imagem de
Uma tíbia à porta do cemitério

Ia às vezes para aqueles lados.
Entre muros, as ervas escondiam antigas lápides, algumas belamente trabalhadas.
O panorama para o exterior, junto ao muro baixo dos fundos, era deslumbrante.
Naquele dia, estranhei encontrar uma tíbia, esquírolas e restos de dentes junto à porta.
Entrei e vi o que não queria.
Pedras partidas, grades arrancadas, fezes de animais, uma triste revolução sobre as sepulturas.
Fiz uma ronda e levantei grosseiramente os estragos de um estranho vandalismo, dificilmente atribuível.
No posto da guarda, assim que vi que o plantão era maçarico, e que não o conhecia, limitei-me a descrever o que tinha visto e a pedir que comunicasse ao comandante, depois de me identificar.
No dia seguinte, encontrei o comandante do posto. Tal como eu suspeitava, não fora informado.
Falámos demoradamente e ele quase se desculpou por deixar que tal tivesse acontecido.
E que falaria com os responsáveis locais. Estava convencido de que ninguém, a não ser eu, se apercebera do ocorrido.
Retorqui com uma pergunta respondida: “Sabe de quem é a culpa? É de nós todos.”

Nas eleições seguintes, houve até quem incluísse uma alínea no programa para falar na valorização do cemitério velho.
Houve depois até uma reportagem num dos canais de televisão.
Tudo continuava na mesma, da última vez que lá fui.
A culpa é de quem?

26/03/2004

Água


Faladura

Que o povo fale de cor, na rádio e na televisão, tudo bem. Sempre foi assim, agora só é mais visível.
Que certas personagens falem do que não sabem, é normal. Sempre foi assim, agora só são repetidos mais vezes os seus dislates.
Que haja uma espécie de opinião unânime a respeito de um facto, é normal. Nada mais fácil do que criar unanimidades.
Que seja tudo baseado em disparates, em coisas que muitos viram sem ter visto, em coisas que muitos sabem sem saberem, também é normal. É a história que o diz.
Mas ainda há quem não ceda a estas unanimidades emocionais.

25/03/2004

A estranha palavra ou os sinais imprevisíveis

Usara aquela palavra a despropósito.
Sempre designara assim certas coisas desde que se lembrava.
E nunca percebera porquê, como se isso pudesse ser percebido.
Naquele dia, desmanchava a tenda, depois de uma feira de cem anos.
Abriu até pela primeira vez em mais de meio século, uma certa porta.
Viu o azul celeste debaixo do amarelo, debaixo do cinzento, debaixo do branco, nas camadas de cal.
Fosse para onde fosse que demorasse o olhar, sentia a alma da casa a ranger.
Era a ele que cabia fechar as portas, à quarta geração.
Nesse momento, a sua ama entrou-lhe pela porta. Não a via há alguns anos.
Como se os sinais se houvessem de se juntar teimosamente, ouviu-a na outra ponta dos dois quartos, feitos um, feito espaço público, murmurar:
“As voltas que eu dei para perceber porquê...”
E ali mesmo, revelou o segredo, quarenta anos depois.

24/03/2004

Gasolim às portas

Ei-lo de volta



Por um bambúrrio, não pode ser outra coisa, o sol bate no écran do monitor exactamente entre equinócios.
Não houve aqui mão de astrónomos antigos, apenas o concurso de técnicos mais mão na massa.
Este exactamente é uma simplificação óbvia. Mas entre o primeiro dia de Primavera e o último de Verão, já sei que para o fim da tarde tenho encadeamento.
Reparti a minha vida durante 42 anos por duas casas diferentes. Em nenhuma delas verifiquei qualquer relação especial entre esta astronomia solar e os meus espaços preferidos.
Talvez nunca me tivesse preocupado com o assunto.
Nunca construí nenhum relógio de sol em nenhuma delas, mesmo que imaginário.
Mas tinha e ainda tenho na que me resta a possibilidade de desfrutar de uma câmara escura que me permite captar as imagens da rua no tecto do quarto.
Nada mais do que o acaso permite que em certas circunstâncias de luz e de inclinação do sol tenha uma nítida imagem do que se passa lá fora projectada sobre a minha cama.
Nada disto é novidade para muitos de vós. Terão com toda a certeza observado muitas destas incidências nos locais onde vivem.
Acontece que este é o segundo equinócio de Primavera que passo sentado a esta secretária.
E no ano passado, tinha observado o fenómeno. Mas esquecera-me. Agora o sol fez questão de me o recordar.
Fica registado.

imagem adaptada de

23/03/2004

Outra vez a memória



Possa um homem convencer-se de que possui uma boa memória, que ela não tardará em pregar-lhe uma boa partida.
Costumava desprezar os comentários em programação, por inúteis.
Quem programa sabe o que faz e saberá o que fez, amanhã como hoje.
Ora não é bem assim, já o sei.
Já me aconteceu ter o trabalho de perceber o raciocínio que seguira, anos antes, ao fazer determinado programa.
É que ao olhar para aquelas variáveis e funções, estava quase como o jumento defronte do paço.
Depois de agarrar a ponta do fio, foi fácil dobar a meada. Mas descobri-la levou tempo.
Fui buscar uma fotografia minha desse tempo e coloquei-a ao lado de uma actual. Depois, disse à mais antiga: “Se encontrasses este homem na rua, também não o reconhecias, pois não?”
Senti-me vingado.
Paixão seguindo São Romão (II)



Sentiu o costumeiro arrepio quando o primeiro solavanco do comboio deu ordem de marcha.
Ia despedir-se do último dos homens do seu sangue.
Absurdamente, transportava consigo um caderno preto e a máquina fotográfica.
Alternava entre a tinta e os raios de luz para registar as impressões fortes da jornada.
A tristeza do objectivo, a beleza da paisagem tantas vezes percorrida e a tanta luz diferente, que notas lhe mereceriam?
Ou seria pela ilusão de uma mulher na ponta da linha?
Na ponta da linha, presa a que estranho feitiço?
Gostava que este comboio se mantivesse assim, com poucas alterações desde o tempo em que o tomara pela primeira vez, recordando os criados de branco chamando para a segunda leva de bife com mostarda.
Isso não se mantivera.
Mas ficara o alumínio canelado, as portas de correr, o cheiro metálico.
E logo os combinava com a imagem da mulher com a qual partilhara nas vésperas uma primeira cumplicidade arrebatadora e clandestina. Agitava-se.
Poucos companheiros de viagem.
Altas vozes, afectadas por sotaque algarvio.
Um certo cheiro de casa.

22/03/2004

Manhã


Paixão seguindo São Romão (I)

Outra vez os semáforos a compasso na rua deserta.
Na manhã morna e azul, ouvia claramente os disparos electromecânicos e avançava na onda verde.
Nem vivalma.
Ao chegar à praça, ouviu o longínquo toque d’alvorada vindo do outro lado do mar.
Se não é um mar este rio...
Do convés, ao olhar para montante, não adivinhou que exactamente quatro semanas depois, traria consigo para sul tudo o que lhe importava. Por sobre aquela ponte ainda não atravessada e com a qual sonhava desde menino.
E ela lá estava, recortando-se na luz crua da manhã.
À popa, o estandarte nacional transportou-o para mais um episódio recente do fim do Império.
Distinguia claramente a bandeira das quinas lado a lado com a do Cruzeiro do Sul recortando-se no perfil do cargueiro retirante.
Na fotografia, o espectro dessa massa metálica povoada de gente sob o sol do Equador.
Em terra, entusiasmou-se com algumas velhas locomotivas que posavam para ele, entre ervas secas e cheiro de manhãs.

21/03/2004

Outras formas, outras cores



Foto de MSMS
Estranhas emoções

Nos dias que correm, há uma certa arrogância racional.
Eu sei do que falo, porque dela padeço. E julgo vislumbrá-la aqui e ali.
É o não admitirmos a surpresa dos argumentos alheios. Repito, não são os argumentos, é a sua novidade.
É o não admitirmos que haja outras hipóteses para além das que considerámos. Não é que defendamos uma ou outra em especial, é não admitirmos a novidade de uma outra qualquer. É a necessidade de a encaixarmos num determinado lote bem classificado.
São muitos outros sinais de arrogância face à novidade.
Mas, depois, há um estranho contraponto.
Face a um depoimento emocional, uma catadupa de reacções de encanto.
Face a uma imagem, um delírio de maravilha.
Face a um poema, uma exaltação.
Isto para mencionar só as reacções emocionais positivas.
São essas que interessam para serem confrontadas com a anti-surpresa racional.
O que é que isto quer dizer?
E não terá sido sempre assim?

20/03/2004

A análise consensual

A análise consensual é aquela que se baseia no que se considera ser a opinião da maioria.
Nunca se sabendo efectivamente qual é a opinião da maioria, salvo quando expressa e mesmo assim com todas as reservas sobre a coincidência entre o pensamento e a sua expressão.
Mas a análise consensual é fortemente contaminadora.
Num primeiro estádio, é tudo menos análise e muito menos consensual, é mais um estado de espírito que se começa a transmitir.
Depois propaga-se rapidamente e quase desemboca em certeza absoluta.
Mesmo os sinais contrários a essa certeza, são facilmente assimilados.

19/03/2004

Assobios

A diferença de atitudes entre os protagonistas dos programas de rádio do tipo forum, nocturnos e diurnos, lembra-me aquela estação ferroviária que às cinco e meia da manhã tem gente que assobia e às oito tem gente de trombas.

18/03/2004

À esquina

Verde é o teu encanto

Ela deixou atrás de si um rasto verde que o confundiu.
Da seguinte vez que a viu
Quis levá-la dali para um encanto qualquer.
E docemente tomá-la mulher.
Num cavalo, como ela quereria
Ou num tapete voador como pertence à euforia.

SG, inéditos, 1996

17/03/2004

Dar uma curva


Quem é quem?

Todos nós temos umas quantas fotos de desconhecidos.
Seja num grupo, seja numa foto oferecida daquelas a que chamam de passe, lá estão os estranhos a olhar para nós, sem nos conseguirem dizer que parentesco, que amizade, que cumplicidade tiveram com os nossos antepassados.
Às vezes dá-me vontade de colocar aqui uma ou outra (tenho mesmo muitas) na esperança de que alguém os identifique.
Depois, a consciência. Será legítimo fazê-lo? Não quererão eles que os deixem os paz?


16/03/2004

Devoção e pano de fundo


Serão todos estúpidos?

O drama dos dirigentes políticos é não saberem se o povo é estúpido, assim tão estúpido ou nem por isso.
O drama dos eleitores é não saberem se os políticos (todos os políticos) são estúpidos, assim tão estúpidos ou nem por isso.
Espreitando


15/03/2004

O (9+n)º planeta

Pela nª vez, anuncia-se a descoberta do décimo planeta do sistema solar.

O livro

Nunca lerei todos os livros que reuni.
De herança, os mais de entre eles. Comprados, muitos.
Houve um no entanto que não herdei nem mais o vi.
E é desse que sinto a falta.
Comprá-lo não posso. Não existe. Não está referenciado em catálogo algum.
Só existe na minha memória e porventura na posse de poucos, muito poucos mais.
Decerto esquecido em sótãos ou em segundas filas de estantes recônditas.
Poucos, muito poucos se lembrarão dele.
Talvez o tenham desprezado como eu um dia.
Talvez não se lhes tenha aguçado a curiosidade ao ponto de o quererem perceber.
Não o compraram com toda a certeza. Foi-lhes oferecido tal como o exemplar que conheci.
Para que é que alguém quer um livro que apresenta uma teoria há muitos séculos comprovadamente errada?
Ninguém se apraz com erros grosseiros.
E os que gostam de os analisar não souberam da sua existência.
Um livro ao nada. Nunca existiu.
Senão na minha memória.

Mas com o livro, outras memórias.
Todas as memórias do mundo, de mosaicos hidráulicos desenhando um padrão, de mesas à sombra entre flores, de vinhos variados em tardes estivais.
De uma tardinha, um encontro fatal.
De ver franqueada a porta de todos os dias por um vulto juvenil encadeante e logo ali sentir o perfume que descia sobre as coisas.
Das batalhas inevitáveis que travámos com o resultado previsível, o esquecimento. Como o livro que se guardava de nós (de mim) entre as paredes iniciais, nos esquecemos (me esqueci).
Nem se fale já da viagem estonteante no verão de ananases por rectas derretidas onde as cobras se confundiam com ondas de calor.
Nem se mencione a louca noite em que as dunas nos alijaram a queda fatal ou a desvairada procissão de febre que desenhámos a eito e à revelia dos demais.
Sequer a jornada ao local secreto, a que poucos, muito poucos se atreviam então.
Não há nada para recordar senão o livro.
Nunca o li de fio a pavio, era só aquela inquietação no título, e o folhear desesperado à procura do erro fatal. Com a pressa dos anos pueris.
E só eu sei onde ele ficou.
Provavelmente não soubeste sequer que ele existia, apesar de estar sempre ali à mão.
Não o imagino nas tuas mãos de menina.

Vê-se agora que de nada me esqueci.
O livro talvez ainda lá esteja, entre gente que não faz a menor ideia do que possui.
Militão por um dia



Foi amor à primeira vista. Já sabia que me era destinado, só não o tinha visto.
Aquela amostra de cão que encontrei empoleirada no banco do carro, esticando-se para o volante, ia ser o meu cão.
Tinha que se chamar Militão.
O rapaz que eu não conhecia, mas parecia entender de cães e que estava ali para ensinar cães e donos, perguntou-me porquê.
Eu respondi que não sabia. Era apenas porque me tinha vindo à cabeça.
No dia seguinte, a notícia. Revoltante e trágica.
O cão foi rebaptizado, contra a minha vontade. Uma triste e não menos curiosa coincidência, argumentava eu, já em dificuldade.
Ainda hoje, o tal rapaz deve pensar que eu sabia muito mais do que disse naquela tarde.
O nome que escolhi para a cadela, meses depois, foi bem aceite.
Morreu com sete meses.
Para a que veio depois, não adiantei nenhum palpite em tempo útil. Mais tarde, sugeri um nome português, ao ver a cadela baptizada com nome de bolacha americana.
Mas vejo agora que essa opção se revelaria também tragicamente premonitória.
Nunca mais baptizo nenhum cão.
Para o Douro


Urbanidades

Ser rústico é uma qualidade ou um defeito.
O rústico é autocrata. O urbano democrata.
As opções de côr que o meu avô tomava incidiam praticamente todas sobre as barras da casa.
Conheci-as amarelas, azuis, vermelhas, ocres, verdes, cinzentas. Isso no tempo em que o Alentejo e o Algarve não estavam normalizados, em que havia montes vermelhos, amarelos e barras de todas as cores.
Nunca o vi levar em consideração quaisquer critérios que não a sua vontade ou a da minha avó.
Hoje, Alentejo e Algarve estão normalizados e muito piores.

E por aqui, abriu a campanha eleitoral.
Já há quem tenha iniciado a propaganda.
Que não pode haver entendimento entre os verdes e os vermelhos, é o que me dizem.
Eu olho para o boletim de voto e para as opções e não espero influências de última hora.
Vou votar no verde.
Estamos a escolher a côr da porta do elevador.


13/03/2004

Memória colectiva



De que é que depende a memória colectiva de um povo?
Partindo do princípio simplificado que a memória colectiva é o conjunto de factos e de conceitos que constam da memória da grande parte das pessoas, quer por experiência quer por comunicação, como é que ela se estreita e se alarga?
Não será muito difícil adivinhar que na memória colectiva dos portugueses, até à unificação do último século, com a rede escolar, as comunicações e outros factores como os jornais, a rádio e a televisão, não haveria muita coisa.
Episódios verdadeiramente nacionais como pestes, guerras e sismos seriam a essência dessa memória. Perdida muitas vezes no tempo, que nem sempre a tradição oral tudo transporta.
Se falarmos apenas nas últimas décadas, e descontarmos os conhecimentos escolares, o que é que fica?
Acho que fica pouco mais do que o que passou na televisão.
Julgo não ser necessário ter amplo e fundamentado conhecimento para aqui chegar.
E se isto é verdade, a nossa memória enquanto povo será desta vez filtrada pelas câmaras. Só os factos que merecem (quem decide isso, é outra história) ser transformados na sua tele-imagem ficarão nessas gavetas.
Será que a multiplicação de imagens de acontecimentos conduz ao aumento proporcional dessa memória?
Ou eles acabam por substituir-se nas gavetas e apenas restarão meia-dúzia deles?
O que mais me intriga nisto é apenas uma questão, que até se pode dizer não é de memória colectiva nacional, é de memória tout court:
Tendo eu privado de perto com grande número de pessoas, das mais diversas idades, dos mais diversos graus de instrução, mas tendo em comum a rusticidade, apercebi-me sempre da sua relação com a memória (regional, local, da natureza) ser pautada pela noção de que o mundo não havia começado ontem, nem no dia em que nasceram.
E hoje, cada vez mais, se assiste ao apagar dessa base. A maioria das pessoas acha que o mundo é coisa nova, o conceito mais presente é o da novidade.
Que as televisões o façam, é esperado. Vivem do espalhafato que promovem. Mas se elas marcam assim tanto, a ser verdade o que disse acima, a memória colectiva, não restarão grandes dúvidas de que a surpresa será o pão nosso de cada dia.
Basta ya

Quando ouço estas palavras, tragicamente repetidas ao longo de anos, interrogo-me sempre sobre o destinatário e a sua utilidade.

11/03/2004

Hoje como ontem

... quando entrou uma mulher velha que vinha ao avio.
O homem mais perto da porta desafiou-a de chofre: "Ó ti' Ana, diga lá o que é que manda mais!"
Ela não se demorou com a resposta, pegando no ponto: "O que é que manda mais? É a força!"
...


Podia ter sido qualquer de nós, hoje em Madrid, ontem em Nova Iorque, anteontem em Belgrado, em Sarajevo, em Paris, em Bolonha, em Telavive, em Bagdade, em Istambul, em Moscovo, em Beirute, em qualquer lado, vítima de bomba, de míssil, de bala, de energia libertada.
David e Golias repetem-se de forma cada vez mais sangrenta.
Ou a energia que continuamente se acumula e se liberta, matando tudo à volta.
É provável que seja cada vez pior.

Hoje falei de actualidades, mas esta história não tem nada de novo.
O diálogo acima presenciei-o numa taberna da serra alentejana. Lapidar, a meu ver.
Em itálico porque reproduz um post antigo.

Auto-retrato de beira de estrada


10/03/2004

Desinquietação

Há coisas que me desinquietam.
Quando se juntam duas ou mais paixões no mesmo prato, está o caldo entornado.
Então o amigo Almariado não tratou de me pôr água na boca, de uma forma que é um autêntico convite à perdição?
Fala-nos de petiscos, de serra algarvia, do barrocal.
Arre porra, que é difícil resistir.
Eu que sou um velho amante daquelas paragens, um caso perdido em se tratando de bons manjares, fico-me à nora ao ler aqueles posts (1 e 2).
Mesmo sabendo da proliferação destas iniciativas um pouco por todo o lado, a magia do Algarve mais remoto é algo de muito forte. E os petiscos muito bons.
Os dez mais



Li no Expresso que a RTP vai fazer a eleição dos dez mais, à semelhança do que se tem feito noutros países.
Os dez mais serão os dez portugueses mais importantes (ou mais famosos?) de sempre. Não sei bem se é uma coisa se é outra, porque fama e proveito como sabemos são bem distintos, mas confundem-se.
Estranhei que a notícia falasse de um acordo com a BBC.
Acordo porquê?
Terá a BBC os direitos sobre todas as ideias do género?
Será a RTP incapaz de fazer tal eleição sem recorrer a espertos das mais diversas origens?
Pois não sei, mas faz-me sempre lembrar a velha máxima funcional: "Não se inventa nada!"
Agora o resultado vai ser decerto curioso.
Alguém votará em Fernão de Magalhães, Fernando de Bulhões, Pedro Nunes ou Pedro Julião?

09/03/2004

As viagens



Modificaram-se muito desde que me recordo de as empreender, no banco de trás.
Já não são uma aventura.
E isto não tem a ver necessariamente com a infância e os seus mitos. Para os adultos também o eram.
Ficaram muitos episódios na minha memória.
Do encontro imprevisto com a praga de gafanhotos (quem se lembra hoje que tivemos uma nos anos 60?), das estradas que se finavam debaixo de água no vale de Santarém, dos incêndios e das tempestades atravessadas, às inúmeras explorações de estradas em perspectiva, atravessamento de barrancos, atasqueiros, paisagens remotas, ficou um mundo de impressões ainda hoje presentes.
As viagens hoje são uma maçada com destino.
Pouca gente atenta aos percursos. O que lhes interessa é chegar depressa. Auto-estradas, áreas de serviço, pouco mais se conhece.
Uma viagem é o seu destino.
Há pouco quem ande por aí sem destino certo, ao sabor de sinais, de marcas na paisagem.

Foto de MSMS
De volta à estrada


08/03/2004

Ponte no fim do país


Animaje

Não sou antropólogo, sociólogo ou possuo qualquer qualificação que me permita tecer grandes considerações sobre o actual estado do conhecimento nessas áreas.
Dito isto, refirir-me-ei apenas a uma certa tendência mais ou menos evidente no discurso político e social que podemos ouvir todos os dias.

Não se sabe desde quando, mas o homem assumiu a dada altura a sua diferenciação no mundo animal.
E passou o tempo todo desde essa altura a imaginar-se mais do que um animal.
Lá terá as suas razões.
Mas seria de supor que, com o actual estado da ciência, nomeadamente com o conhecimento das últimas décadas sobre alguns dos mecanismos sensoriais, que nos voltássemos a encarar como animais.
Mas não é isso que no discurso corrente e corriqueiro acontece.
Dir-se-á que a política tem como último objecto o esquecimento desse facto.
É provável que sim.
A minha questão aqui é só uma:
Serão os conhecimentos científicos decisivos para a organização social? Ou ela é demasiado complexa para poder ser compreendida e enquadrada, de forma a aperfeiçoar-se com o conhecimento?
Bem sei que não há sistemas perfeitos. E que os mais cientifizados deram bota.

07/03/2004

Torre e escada


A 7 de Março



Até há alguns anos, 7 de Março não tinha significado especial.
Quem não fosse imune a televisão, saberia que é o aniversário das emissões regulares.
Sem que fosse sempre a 7, existiu durante alguns anos a coincidência entre a data do Festival da Canção e a noite de Sintra do rali de Portugal.
Não teriam relação nenhuma as duas coisas se não fosse o caso de durante a preparação da nossa escalada da serra, sermos confrontados ainda na vila, com os televisores a debitarem as últimas ocorrências festivaleiras.
Lá mais para o final, no meio da excitação dos carros e das meninas, havia um sempre que fazia a pergunta em voz alta: "Quem terá ganho o festival?"
Essa pergunta ecoou durante anos na minha memória, por ser inusitada e irrelevante face às circunstâncias. Ninguém sabia ou queria saber.
Foi substituída por outras igualmente irrelevantes e inusitadas em outras circunstâncias.
Mas ficou.
A partir do ano em que o rali ficou moribundo, a data passou a ter um significado pessoal.
Não por essa razão, mas por outra.
E o certo é que merecia comemoração. E a pérfida pergunta surgia sempre na altura mais inoportuna.
De tal sorte, que fosse ou não dia de festival, era um excelente bálsamo para o que queiram imaginar.

imagens aqui e aqui
Imagens ao acaso


06/03/2004

Papéis

Sou um ajuntador.
Das mais variadas coisas a que acho piada.
Mas o que mais me fascina são os papéis.
Papéis, essa terrível praga, que chama insectos comedores, acumula pó e alimenta o fogo.
Se há quem leia os clássicos, manuais de instruções, ementas de restaurante e listas telefónicas compulsivamente, eu junto documentos, envelopes, etiquetas, bilhetes, facturas, recibos, boletins, tudo o que vem à rede.
É duvidosa a utilidade de tal congregação. Mesmo que sinta um certo prazer ao contemplar documentos antigos, brochuras, ver a forma como foram escritos, do que tratam, não sei que destino levará tal coisa em tempos futuros.
Meu avô materno tinha o mesmo hábito. Apesar de ter visto o fogo destruir muito papel contra minha vontade, ainda herdei muita coisa.
Pouca de meu pai, mais frugal nas memórias.
Mas o grosso é recolha minha.
Recordo-me de um primo que vivia sozinho enterrado em papéis.
Um dos nossos familiares comuns mencionou-me há tempo esse arquivo que ele supõe conservado em certo monte.
Vi pelo brilho dos seus olhos que o fascínio por esse espólio nos é comum.
Ao que ele supõe, grande parte da história da nossa terra e da nossa família se encontra ali documentada.
Supõe também que ninguém mais do que nós se interessará por tal acervo.
É assim uma espécie de tesouro à espera de ser descoberto de novo.
Receio fazê-lo. A meias ou por minha conta.
Mesmo toda a minha recolha o mais certo é que acabe por ser queimada.
Haverá alguma coisa interessante para um arquivo, uma biblioteca, um museu.
Mas não diviso ninguém que se candidate à herança.
Aliás, todos me encaram como fiel depositário. Recebo de quando em vez fotografias, postais, documentos oficiais já inúteis, limpezas de sótãos.
Quem será o próximo guardião?

05/03/2004

Fotógrafo ocasional



As magníficas imagens das câmaras de tráfego da Finlândia já aqui tantas vezes mencionadas.
Senilidade

Hoje, dia 5 de Março de 2004, sábado, sexta-feira, um preocupante sinal de senilidade tomou conta de mim.
Melhor dizendo, e o que é mais preocupante, não foi hoje. Arrastou-se até hoje.
Deve ter surgido insidioso lá para meio da semana.
E o que fez? Adiantou-me um dia da semana. Não a data, mas o dia da semana.
Creio que já passei a quarta a pensar que era quinta e a quinta decididamente a julgar-me na sexta. Hoje seria sábado.
Como a minha vida independe de horários semanais, apenas me confrontei com dois ou três pormenores estranhos. Um programa de televisão a que às vezes assisto, não foi transmitido. Um programa de rádio que é um vício antigo e sabático, substituído por uma estranha emissão.
Só quando comuniquei que ia sair para comprar o Expresso, é que me contrariaram.
O mais espantoso é que consegui convencer (ou talvez não) quem me contrariou.
Depois, em descargo de consciência, lá cliquei no relógio – sexta-feira!!!
Fui à papelaria onde já mereço algum crédito e esbanjei-o logo:
“Só não lhe peço o Expresso, porque há cerca de dez minutos dei-me conta de que hoje não é sábado!”
A senhora, ao despedir-se de mim, não sei porquê, desejou-me um bom domingo.

Água, pedra e ferro






Algarve, São Luís e peças de Lego



As indicações não eram muitas, um prédio junto ao São Luís e um 1ºD.
A caminho. O Joaquim Moutinho ultrapassou-o na 125, como se o Renault 5 fosse um avião.
Quando chegou a Faro, era já de noite. Horas de jantar.
Dobrava uma esquina junto ao São Luís, quando duas pessoas se atravessaram à frente do carro: M. e uma moça muito engraçada.
O efeito foi magnífico. Disparatou com M. e M. com ele, enquanto a via empolgar-se toda.
É claro que M. o convidou para jantar e para ficar lá em casa. E não queria tanto, o jantar não podia dizer que não calhava, agora a dormida...
Mas subiu. A esposa de M. também ficou admirada de o ver. Depois acabaram por lhe apresentar a L., que ainda era mais engraçada à luz dos candeeiros da sala.
Já agora ficava também para jantar. A moça, claro.
Ele, a quem o dia tinha corrido bem, estava virado para toda a sorte de disparates.
E a moça começou a empolgar-se ainda mais.
Depois do jantar, M. fez questão de lhe ir mostrar os mais recentes ambientes nocturnos da capital do reino. Lá foram, de déu em déu, sempre com grande à-vontade de M. no franquear das portas. Mas, nessa altura, já só pensava em voltar para a casa do amigo. Tinha percebido que a moça ia lá dormir.
Voltaram. Ainda estavam as duas acordadas. Mas não demorou que a esposa de M. se retirasse com o habitual deixem-se estar.
Nessa altura, já estava encostado a um balcão com garrafas, entretido com umas peças de Lego. M. via televisão.
A moça veio para o pé dele. Brincar com o restante Lego.
M. começou a bocejar. Olhou para os dois e levantou-se. Foi à cozinha e depois chamou-o.
Disse-lhe nessa altura que estava a guardar a moça para o primo. Que ele, de resto, bem conhecia.
Há uns dois anos, viu o primo de M. Não lhe perguntou se ele tinha alguma vez sido dono de uma certa L., de Faro.

imagem em

04/03/2004

Devaneios patrióticos

Ou como diria R.C., vieram de todo o Portugal e de quase todo o Alentejo


Triagens

Quem pode, foge.
Há pouco quem goste de estar em filas. Em repartições, em bancos, até nos serviços de saúde.
Já convivemos todos com os mais diversos sistemas de filas de espera. Uns mais eficazes do que outros.
Mas não há um sistema perfeito.
Quem não sabe ao que vai, facilmente se desorienta e perde tempo, fazendo perder tempo aos outros.
Quem sabe muito bem ao que vai, almeja que todos os que o precedem também o saibam e lhe não façam perder tempo.
Quem atende tem que lidar com uns e outros. E é compreensível que se desgaste também, na exacta proporção em que tem que corrigir os erros da organização.
Os sistemas que ultimamente tenho experimentado, felizmente com baixa frequência, pecam todos por ser crípticos.
Não há informação vestibular clara, de forma a que cada um se dirija a um dado local.
Às vezes parece que bastaria ter em cada um destes sítios, esse tipo de informação bem legível e clara e, ao mesmo tempo, um amplo balcão de informações, para atender quem tem mais dificuldade.
Bem sei que gerir recursos não é tarefa fácil. Uma empresa pública que tinha um balcão de atendimento que funcionava razoavelmente, perto da minha casa, fechou-o. Talvez porque não havia habitualmente grandes filas de espera, o que terá significado para os gestores um desperdício de recursos.
E se se pretende desviar as pessoas dos balcões, o que me parece bem, também é preciso atentar nos serviços que estão disponíveis on-line. Que quase sempre não respondem a casos que fogem ao corriqueiro.
Primaveras


03/03/2004

Barba e cabelo


A rapariga do carro verde



O carro não era verde. Era preto.
É daquelas coisas que não tem discussão.
J. argumentou com uma possível confusão com outro qualquer carro. Ela retorquiu que não havia nada a dizer. Era uma confusão dele, ponto.
A rapariga do carro verde que afinal era preto julgou tratar-se de uma abordagem propositadamente desastrada. Mas aceitou ouvi-lo um pouco mais.
Depois cortou cerce a conversa. Não lhe agradavam discussões socráticas, foi o que disse.
Só gostava de debater quando se buscava uma solução. Para um problema real. Discutir sem objectivo não fazia para ela o menor sentido.
Reuniam-se sempre com o mesmo fito - analisar um projecto de reconstrução de uma casa numa aldeia. Faziam-no rapidamente e partiam para um jantar. Às vezes faziam duzentos quilómetros para tal. E a discussão não podia ser vaga para ela. Para ele, tanto fazia. Reconhecia-lhe a competência intelectual.
A casa foi construída.
E a discussão com objectivo chegou ao fim.
Ela vendeu a casa sem sequer a ter experimentado, depois de discutir meses a fio a decoração interior.
Tempos depois, J. voltou ao local do crime. Fotografou a sua obra com as cores frescas.
Foi num carro igual.
Que era verde. Deliciosamente verde.

Já não sei onde fui buscar esta imagem. As minhas desculpas mais uma vez.

02/03/2004

Espiando o monarca


A utilidade

Para que servirá este blogue?

Uma das consequências que devemos tirar do facto de haver quem nos leia, é que não podemos usar de excesso de modéstia. Isso seria menosprezar também aqueles que aqui vêm ler estas linhas.
Poderia até ser encarada como altivez, como quem diz: escreve os disparates que quiseres que virá sempre aqui alguém.
Pois não é assim.
Nem escrevo para disparatar, embora às vezes pareça. Nem escrevo com determinado objectivo.
Não comento as actualidades, já todos o sabem. Ainda que ali ou acolá, me resvale o pé para o jornal da antevéspera.
Não escrevo sobre um assunto em particular, embora confesse que, de início, julguei que este blogue viesse a ser um blogue estradista. Tratasse de estradas, de caminhos, de viagens. Tudo ou quase tudo em Portugal, na exacta proporção dos meus conhecimentos.
Mas não foi assim.
Vieram as histórias, as perplexidades, que já não são ou não deviam ser muitas, na minha idade.
Veio o olhar sobre as coisas, encarcerado na duplicidade da minha ignorância e das minhas pulsões. Um homem que desconfia que a vontade humana é um mito, pode opinar pouco sobre as coisas. Mas fá-lo. É essa duplicidade que em outros se encontra noutras coisas que me deixa ao mesmo tempo aborrecido e fascinado.
Por isso alvitro. A mor das vezes com a qualidade das teorias que nunca se poderão demonstrar ou desmentir.
Por um caminho que a nada conduz.
Mas faço-o sempre com a convicção de que a minha vontade (a vontade humana, bem entendido) se explicará um dia, à luz da biologia ou de outra ciência qualquer. Mas com toda a certeza não será explicada aos humanos. E haverá para nós explicações e ciências para além das que entendemos e entenderemos como tal? Melhor dizendo, alguma vez aceitaremos algo que não consigamos compreender? Ou é isso o que afinal fizemos, fazemos e faremos todos os dias? E não me refiro a religiões ou crenças.

Não. Não estou a perder o fôlego.
Janela de colecção


01/03/2004

A contagem do tempo (revisto)
(a propósito de bissextos)

Sabemos todos que os nossos calendários são de base solar e lunar.
O ciclo solar, ou melhor, os ciclos solares diurno e anual determinam a nossa contagem do tempo.
Já os ciclos lunares são de mais duvidosa utilidade nos dias que correm.
Dias e anos são assim as unidades fundamentais da nossa contagem.
Semanas e meses correspondem pouco rigorosamente aos ciclos lunares.
Todas as outras, mais recentes - segundos, minutos, horas – são discutíveis. Não passam de convenções do homem na procura de um certo rigor.
Acontece que os anos não são múltiplos dos dias e que os ciclos lunares não se encaixam nos solares.
Mas a nossa necessidade de ordenar as coisas, diferente de civilização para civilização, e mais rigorosa com o decorrer do tempo, conduziu-nos a calendários mais ou menos complexos que procuram coincidir com a realidade.
A verdade é que o actual calendário gregoriano, aperfeiçoamento de outros mais antigos, e mestre da contagem do tempo, já que submeteu todos os outros de civilizações diversas, é uma manta de retalhos pouco coerente e pouco conforme com as nossas medidas decimais.
Se os dias e os anos são a base de que se tem obrigatoriamente de partir, já a dependência de semanas e meses face a um aproximado ciclo lunar, pode ser contestada.
As novas propostas de calendário coincidem mais na necessidade dos meses conterem um número inteiro de semanas do que na uniformidade quanto ao número de semanas. O que dá quase sempre meses de 28 dias, com 4 semanas de 7 dias e meses de 35 dias, com 5 semanas de 7 dias. Os acertos fazem-se depois com dias suplementares em cada ano, bissexto ou não.
Se é verdade que a deixar cair o ciclo lunar, não se vê a necessidade das semanas terem 7 dias, apesar das óbvias resistências dos sectores religiosos, também o é que não há nada que justifique o dia de 24 horas. Nem a hora de 60 minutos, nem o minuto de 60 segundos.
Nesse ponto, poderíamos até aproximar-nos da nossa preferida escala decimal: dia de 10 horas, hora de 10 minutos, minuto de 10 segundos, por aí fora, até uma unidade da mesma ordem do actual segundo.
Sabendo sempre que os dias tal como os anos não têm todos a mesma duração. Os dias evidentemente, os anos menos evidentemente.
Poderíamos até ter semanas de 10 dias, meses de 10 semanas. O que daria 3,5 meses de 100 dias mais 15 ou 16 dias adicionais. O que também não é muito racional, à partida, bem o sei.
É claro que cairia o Carmo e a Trindade em todas as línguas, se uma proposta destas fosse, por exemplo, apresentada nas Nações Unidas.
Mas, descontando todo o ruído de fundo, as pessoas não trabalhariam mais do que o tempo que trabalham com este actual calendário. As grandes religiões teriam sempre os seus feriados como os têm hoje. Calcular datas tradicionalmente dependentes do ciclo lunar não seria mais difícil do que é actualmente.
Agora, o mundo adaptar-se a isso, é outra história.
Mas não nos adaptámos já a tanta coisa nova?
Alguém se lembra da grande crise que se anunciava com a adopção da moeda europeia?
Pois então.
A questão principal é: serviria de alguma coisa?

29/02/2004

O vendedor de colchões

- Já cá esteve um a vender disso.
- O quê? A vender o quê? Então você não sabe a diferença que há entre um carro de linhas e um Mercedes 240? Tudo o que é caro, é bom!
- Mas para isso é preciso ter dinheiro.
- É preciso é ter doenças ou dores. Então você não tem 20 contos para dar por mês?
- Bem, se fôr 20 contos para isto, 20 contos para aquilo...
- Você não é capaz de dar 800 contos por uma mobília? Já pensou que se comprar uns maples só se senta neles uns minutos por dia? E no colchão, são 8 horas!
- E depende sempre como se dorme...
- Então você quer endireitar a coluna? Se você nasceu com a coluna torta, com sifose e escoliose, quer endireitá-la? Você já viu o anograma da sua coluna?
Férreo


A regra e o caso

Às vezes, vemo-nos em circunstâncias tais que o quebrar de uma regra é uma atitude de maior bom-senso do que o respeitá-la.
Outras, é isso que esperamos dos outros.
Mas nem sempre nós e os outros temos esse lampejo.
E o que é pior, nem sempre estamos preparados para o fazer.
É claro que há regras estúpidas, obsoletas, desadequadas. Todos sabemos isso, seja a que nível fôr. Seja uma lei, seja um regulamento, um estatuto ou uma regra de jogo.
O que não há é, em todas as alturas necessárias, alguém com capacidade para assim entender e optar pela sua transgressão.
E ainda bem que assim é.
Se as regras, boas ou más, não existissem, cada um jogava a seu critério e provavelmente em seu proveito.
E existindo, como existem, se fossem quebradas todos os dias e a toda a hora, seriam irremediavelmente caducas.
É bom que o não sejam.
Mesmo que já todos tenhamos sentido na pele uma injustiça, mercê de uma regra que entendíamos não dever aplicar-se em certo caso.
Mas ainda bem que há quem as transgrida, aqui e ali, com bom-senso.
As gravuras



Já tornaram ao lugar de onde vieram - a História (se quiserem pôr-lhe um Pré...).
Mas enquanto cá andaram, deram que falar.
Há até quem diga que deram uma mãozinha à chamada alternância democrática.
E proporcionaram um serviço adicional. Um espectáculo de argumentos e contra-argumentos verdadeiramente delicioso.
O tal dos defensores acérrimos.
Com um pormenor muito curioso que não foi de somenos importância.
Um dos muitos convidados de telejornais da época foi um geólogo. Que me perdoe por não lhe citar o nome. Já não me recordo.
Mas recordo-me bem do que disse. Falou sobre geologia, sobre ciclos, sobre comportamentos da rocha. Falou na sua qualidade de geólogo.
Mas foi interrompido. Interrompido porque o que interessava era outra coisa.
Não me espantei que o tivessem interrompido. Não que as suas afirmações não fossem válidas. Não que estivesse a falar sem razão. Não que estivesse a opinar ao desbarato.
É que estava a falar do que sabia.
E o que estávamos (e estamos) habituados a assistir era (e é) outra coisa.
Era a cada um a falar do que não sabia. Os formados em X, a falar de Y; os de W a falar de Z. Isso sim, é que é normal. E todos a disparatar em grande.
Não é que cada um não se possa pronunciar em campo alheio.
Com toda a certeza de que pode e deve.
Mas com argumentos válidos e sustentados, não com a certeza dos defensores acérrimos, apoiada em nada.

imagem em

28/02/2004

Tudo como dantes

Tudo em ângulo recto
Na casa dos degraus
Fez-se uma açorda
Com três paus.

Tudo em permanência
No café central
Fez-se uma conferência
No final.

Tudo engarrafado
No I.P.
Fez-se um simultâneo
Para a T.V.

Tudo em sintonia
No rebanho
Fez-se a telefonia
Tomar banho.

Tudo a contragosto
Até ao fim
Mudou-se o mês de Agosto
Para o jardim.

SG, "inéditos", 2002
Do outro lado do mar



foto de MSMS
O mundo das ilusões

Pois é. Não conheço uma única pessoa por detrás dos blogues que leio.
E não há mais do que uma que me conhece bem, que de vez em quando vem aqui espreitar.
Descontando as conversas electrónicas, os mails e os comentários trocados aqui e ali, com algumas delas, sempre numa amável harmonia, não há mais conhecimento.
Duvido que alguns dos meus amigos e conhecidos alguma vez tenham tropeçado nestas linhas.
É pouco provável.
Apercebo-me de que não é normalmente assim.
Em muitos se encontram vínculos de cumplicidade com este e com aquele, que parecem revelar mais do que um conhecimento electrónico.
Assisto a debates acesos, uns mais urbanos do que outros. Alguns manchados pelo ataque pessoal e anónimo que não se chega a perceber se é à pessoa (conhecê-la-ão?) se é só aos argumentos.
Tenho passado ao lado disso.
Por um lado, não creio que o aqui escrevo seja suficientemente polémico para despertar a ira alheia.
Por outro, não tenho por hábito marcar obrigatoriamente a minha discordância com o que leio.
Só lamento que a troca de ideias não se faça de forma mais razoável e edificante.
Grande parte dos argumentos apresentados em crítica e contra-crítica são insustentados. Por vezes, inteiramente disparatados:
“Se te vestes de verde, é porque costumas ladrar ao lado do teu cão. Pois fica sabendo que a caravana passa!”
Há muito disto. Que chegava para um anexo de compêndio de lógica.
Mas há também muita escrita lúcida e intemporal. Discorrendo sobre os eventos sem a carga do momento e sem ser tolhida por hemivisão.
Apesar de considerar que não há nada mais inútil do que uma opinião, continuarei a dizer o que vem à cabeça.

27/02/2004

Anacronismos


Decididamente

É hoje!
Decidi solidarizar-me com a notícia que ouvi há pouco.
Vou sair por aí à procura das origens da vida.
Então não foi isso que me disseram que a sonda Rosetta vai fazer?
Eu por mim posso dar uma ajuda.
Vou investigar. Afinal deve ser mais fácil do que responder correctamente ao rol de perguntas da Brigada.
O que eu gosto do nível dos nossos noticiários!

26/02/2004

A Tv das vendas

Às vezes, fazemos coisas de que nos admiramos.
Ontem (hoje, de madrugada) foi o ficar a assistir a um canal onde passavam os habituais anúncios à americana.
Tratava-se de uma pequena câmara digital, com software de edição incluído e uma pequena bolsa de cabedal(?).
Fiquei amarrado às explicações e aos argumentos.
No meio disto tudo, vem-me sempre à memória o argumento lapidar de um dos meus velhos amigos, economista de formação: "Se se anuncia um remédio para os piolhos, é porque vende. E se vende, é porque há quem tenha piolhos!"
Suponho assim que, se existem estes espaços publicitários, é porque vendem.
Embora eu me espante com este tipo de publicidade à americana. E pense que em Portugal não resulta. Mas só posso estar enganado.
Outra coisa que vem de ontem, é um certo painel de fotografias num restaurante.
Painéis de fotografias em restaurantes são coisas comuns. Uns têm mais caras conhecidas do que outros, mas é uma moda que pegou.
Não é um resultado agradável.
É até confrangedor. É o povo na sua expressão de olhar para o passarinho.
Mas depois levanta-se uma questão.
E quando o tempo fizer das suas?
Quando toda aquela quantidade de fotos a fugir para o vermelho se converter em documento histórico?
É certo que há diferenças entre as fotos de um olhar e de outro.
Há fotos com mais interesse do que outras.
Eu que tenho muitas dúvidas quanto ao que é arte e o que não é, às vezes fico a olhar para certas fotos de mão não profissional e vejo uma qualidade impressionante.
Não foi o caso naquele painel.
Mas é o caso, entre outros, de uma foto que possuo que retrata a praia da Zambujeira em 1932. Todo o povoado coube na película.
Ou de uma outra de um camião nas margens do Guadiana no final dos anos 50.
Ou aquela da L'Étoile nos alvores de 50, com os vestígios da guerra ainda visíveis.
E fico-me a pensar.
Nos dias de hoje, com tanta máquina de filmar e fotografar sempre presente, que legado deixaremos aos vindouros?
Será tudo mau? Ou o tempo encarregar-se-á de lhe dar alguma beleza?

23/02/2004

Cartas



O Sr. HB9GJDT FGT S673GA DX SAU7222 esteve cá em casa a jantar.
Passou a noite a dizer que nunca compraria certo casaco que vira numa das lojas mais caras de Lisboa, só para jogar às cartas.
Completamente obcecado com a situação, sabe-se lá por quê, foi para casa e narrou a experiência no seu blogue. Foi de resto muito gentil com os anfitriões, como é seu apanágio.
Os comentários começaram a chover.
Diz um que "...só os porcos capitalistas compram casacos só para jogar poker com o dinheiro do proletariado..."
Diz outro que "...não percebi. Então o casaco é só para as cartas ou também serve para outras ocasiões? Quanto é que custa?..."
Outro ainda comenta "... que merda é esta? Que sítio é este? Isto é um blogue?..."
Um pouco abaixo, há quem diga que "...os casacos são como os colchões, eh eh. O uso é que é importante! Pois. ..."
E ainda quem sugira "... e se pagasses os impostos, pá? Cambada de mafiosos, que só cá andam a espezinhar o pessoal! Casacos, hem? Ainda há coisas destas? Sim, porque você é uma coisa qualquer vestida de..."
A tudo isto, o Sr. HB9GJDT FGT S673GA DX SAU7222 nada respondeu.
Deve, por certo, continuar a matutar no casaco. Que ao que me lembro, era verde com uma discreta quadrícula amarela.

imagem adaptada de

22/02/2004

A ignorância dos riscos

Já aqui falei sobre riscos, a sua ignorância e a sua prevenção.
Uma história tão velha como a da sobrevivência.
As novidades quase sempre acarretam novos riscos. Para muita gente desconhecidos.
Foi assim com o cavalo-de-ferro, com a energia eléctrica, com o automóvel.
Com tudo o resto.
Hoje, a evolução rápida no acesso a certas coisas fez com que muita gente lide com coisas que não domina por atavismo. Se é que filho de peixe sabe nadar.
A novidade não são as coisas novas. São as coisas a que nunca se teve acesso.
Das mais simples ou seguras às mais complicadas ou arriscadas.
A ignorância de regras há muito conhecidas de outros, faz com que se corram riscos desnecessários e ridículos.
Vem isto a propósito de correntes para a neve. Podia ser a propósito de outra coisa qualquer, como banhos na praia ou canalizações de gás.

A casa dos meus sonhos

Não, não é uma casa apalaçada.
Nem um mimo daqueles construído à imagem de não se sabe o quê.
Nem um monte no Alentejo, por razões óbvias.
É outra coisa.
É uma certa casa que me aparece nos sonhos e da qual já conheço os mais ínfimos pormenores.
A garagem em rampa, ao nível do 2º piso. A escada em caracol das traseiras que dá acesso àquela porta de que ninguém se serviu durante anos, está tapada pelas heras e afinal é tão bonita.
O desvão do telhado compartimentado a meia altura.
A oficina-laboratório de janelas sombreadas a betão.
Tudo isso muito insistente e consistente.
Às vezes, chego a pensar que se trata da topologia distorcida habitual. A casa não é outra senão a que tão bem conheço.
Mas toda a envolvente o nega. A ribeira, as ruas em socalco, o pequeno hotel que funciona nas traseiras, tudo isso é ficção. Tal como a casa.
Os barcos da CP



Os barcos da CP valeram-me o único castigo em toda a escola primária.
Naquela parte em que se aprendiam os rios e as linhas de caminhos-de-ferro face ao tradicional mapa na parede, a minha insistência, já não sei porquê, em incluir os barcos da CP e uma linha imaginária a traço-ponto sobre as águas do Tejo, valeu-me a reprimenda e o mapa como panorama durante meia-hora.
Pior a emenTa que o soneto. Será que vem daí o meu fascínio por mapas? Acho que não, acho que vem mais de trás.
E a teimosia também.