18/05/2004

As revistas da minha sogra



O habitual portinhol com las chicas de la tuna.
Pouco antes fora a velha que pedia cocáculas e era aragonesa, não pensem.
Qualquer coisa como tiens la certeza que es esta la boîte?
Não me safo em castelhano.
Ela dizia que sim e ainda lamentava o reloj que tinha perdido algures.
O porteiro é que não estava de modas. Era uma festa privada. Não podia ser nada, mas não me peçam que retroverta a frase.
Qualquer coisa o fez mudar de ideias. Entrámos pois.
Estava farto de ver nas ruas os cartazes da peça em exibição en el Teatro del Mercado. Traduzi as fotos para a cena nacional, deviam ser os nomes que a gente sabe...
Como não sou muito de teatros, não conhecia os figurões.
Mas depois de descer a escada, já estava em casa.
Os cartazes todos ali em carne, osso e fato de noite. Um bocadinho para o sobrelotado, o porteiro lá sabia o que fazia.
Mas era ali a combinação. Lá estava o moço agarrado à sua espanhola, irmã da minha.
Bailámos, pois.
Na confusão das luzes, já foi tarde que o homem acordou:
Caramba, tenho que comprar as !Holas! todas no quiosque em frente à minha sogra!

imagem em

17/05/2004

Death toll

É o que faz separarmo-nos das raízes.
Viver num exílio anónimo de lugares para estacionar e compras de supermercado.
Nada de escolher a sombra do prédio em frente ou comprar alfaces no lugar da curva.
Nada de enfrentar a fila de cumprimentos para tomar posse de um café.
Nada de casas de tias, bolos na mesa.
Nada de tascas com facas cortando nacos de presunto e falando de porcos.
Quando o telefone toca, há sempre uma lista de mortos. Massacres gota-a-gota que nos chegam de enxurrada.
Aprendendo



Dizem que os cheiros despoletam recordações. Claro.
Também as visões, os sons, os paladares. Talvez o tacto seja o parente pobre. Talvez não. A pele transporta-nos às vezes lá para trás.
Mas os cheiros, sim. Claro.
Anos a fio, aquele perfume das areias. Eu sabia-o. Pressentia-o, sempre naquele local. Talvez que em outros também assim fosse. Mas só ali me envolvia, como desenho animado transportado numa nuvem de aromas.
E sempre às escuras, sempre nada sabendo. Apenas envolvido no aroma, como se fosse parte indefinida e indefinível do local.
O segredo só foi quebrado décadas depois do primeiro contacto.
Tinhas que ter a mania das plantas, tinhas que me obrigar a parar no Caramulo, em Moncorvo, em Monchique, em Brinches, no Cercal, em Vila Franca das Naves ou no Beliche.
Naquele dia, tive que ficar com os pés a escaldar na areia quente. Mas valeu a pena.
Ainda não sei como se chama a plantinha.

16/05/2004

Sobressalto

Ia embicado às bóias, bolas, postais e jornais estrangeiros.
Como sempre, na avidez do jornal de sábado, último hábito informativo que se permitia em férias.
O companheiro de ressaca ia calado, talvez magicando numa solução frugal para o jantar. Caldeira ainda quente.
Quando a voz chamou, os dois pararam e entreolharam-se, tentando reconhecer quem chamava e a qual deles.
É a ti - disse o companheiro.
Eh lá! Uma gaiatona. O que é que ela quererá?
Tem juízo, pá. Não vês que é uma miúda? Para aí com uns treze anos!
Atravessou a estrada na direcção da carrinha. Agora via que era uma miúda novinha. Uma carinha encantadora e sorridente.
Então quando é que volta a cantar lá no bar?
Hmmmmm. Lá no bar?
Sim, naquele da piscina. Gostei muito de o ouvir.
Ah, obrigado. Pois é, um dia destes... quem sabe?
Vá. Vá, que eu gostei de o ouvir e aos seus amigos.
Obrigado.

Olha lá, Zé, tu deste por mais alguém lá no bar ontem à noite?
Eu? Achas que sim? A gente até perdeu o outro no caminho...
É que a miúda diz que gostou de me ouvir...

Olha lá, o teu tio nunca teve uma Peugeot 504? Aqui há uns vinte anos?
Não.
Nunca andaste numa nesses anos de Algarve? Ninguém conhecido que tivesse uma?
Não me lembro. Acho que não.
E a um bar onde havia fado vadio, junto a uma piscina? Nunca foste?
Não. Porquê?
Por nada. Vamos dormir. É quase dia.

15/05/2004

Posto público



A cabina ficava dentro do café.
Ali esteve séculos de madeira.
Negócios de gado, telefone para o Sr. F., querem um carro de praça. Não, não está aqui. Deixe estar que eu logo lhe digo.
E lá tinha a lista, a de papel, manuseada, e a de madeira, graffiti utiltários de esferográfica Bic. No fundo e dos lados, até na porta havia números escritos com e sem indicativo.
Um desses números quisera-o riscado, desentranhado dos veios da madeira. Era um número útil, de acesso a serviços.
Para mim, não.

14/05/2004

Burro velho

Um dos meus velhos e bons amigos dizia há tempo que o que mais o atormentava na velhice era perder a noção das proporções e o consequente sentido do ridículo.
Assino por baixo, quero dizer, também isso me aflige.
E outra coisa mais me aflige, é o facto de os burros velhos comprovadamente não aprenderem línguas.
Se um dia me sentei frente a uma máquina que me dizia C:> e lá lidei com ela depois de um primeiro esclarecimento, sem grandes sobressaltos, um dia virá (se viver até que venha) em que face a um signo qualquer ficarei à brocha.
Terei que delegar poderes, terei que me submeter à intermediação de alguém para satisfazer necessidades básicas. Perderei a tão cantada soberania.
Acontece a todos (este pensa que é só a ele...) bem sei.
Mas que diabo não consigo preocupar-me com a reforma (qual reforma?), com a bricolage, com a jardinagem, ainda me falta o filho e a árvore, a árvore não sei. Valem os caroços?
Com essas minudências, não consigo preocupar-me. Nem sequer em pagar a quota do lar aqui do burgo.
O pior é que o grilo falante de vez em quando vem-me com esta:
"Quando lá chegares, vais arrepender-te do descaso!"

13/05/2004

Palavras-passe

Palavraquenãopercebo.
Todo o universo de utilitários que solicita o nome do meu cão, o modelo do meu primeiro carro, a minha cor preferida ou outros dados pessoais e intransmissíveis, não faz mais do que mimar os velhos filmes que metem computadores, tragédias iminentes e a miraculosa descoberta do nome da sogra do cientista maluco.
Não percebo. Nunca percebi.
Desconfiamos todos hoje que esta coisa de passwords é quase inútil. Que já não se torna necessário o tal milagre no último segundo, sempre em números vermelhos e em formato rombóide, para arrombar as nossas seguranças.
Agora a história da password com o aniversário do casamento faz-me confusão.
Então não haverá forma de inventir passwords completamente independentes da biografia de cada um?
Será que as pessoas não são capazes de usar passwords completamente desligadas de episódios com significado?
Ninguém adopta um rosinhasdetoucar, um AstonMartinsDBXVIII, um mamutecahdecasa, um tromboneafinado sem que isso tenha a ver com qualquer coisa de marcante? Será caso?
Confesso que não percebo.

E fico-me com a passwordquenuncaesquecerei.

12/05/2004

Directamente das Palavras de SG

sem mais comentários



Pinguins de papo para o ar em pleno Mar Báltico

Charge ? grito lancinante de um dos primeiros centuriões a chegar perto do cosseno ribeirinho, constatando que o decrépito olival já não pertencia a seu tio e que a ignorância dos cabelos era maior em cima do convento do que na própria azinhaga fatal.
Bolbo raquidiano é uma porção de sentinelas alcoolizados dentro de um balde de potassa, atendendo a que os olhos dela só me vêem a mim na banda permitida que vai de 4000 Å a 7000 Å, não esquecendo que um chapéu de chuva ao sol pode ficar retemperado com dietas lá na Áustria tirolesa.
A simultaneidade de critérios em casa do café não passa por uma homeostasia límpida em quatro sectores já que Decimal, o Verdugo, não se mostra condescendente com as atitudes mais ou menos vegetais da filha dos quintos logaritmos rurais e a potência do vassalo passa a assumir, a partir de certa ordem, valores incompatíveis com a sonorização da lira camoniana.
O cerne da questão passa, desta forma, a ser um celibatário não concorrente à eleição das misses do ano transacto, o que nos leva a pensar em termos de macrocefalia descritiva e geográfica, ou não fôssemos nós velhos barcarenos à procura da notícia podre do fim do dia Austral, quando as cabanas dos indígenas se revestem de tonalidades azuis-celestes e os pássaros emigrados reclamam por extenso, de cima dos fios de telefone.
A cidade perdida de Tuta-e-Meia terá sido sepultada por uma erupção do vulcão Stª Helena ou a possibilidade remota de a podermos avistar do Castelo dos Mouros assume já foros de verdadeira sensacionalidade?
Ao fim e ao cabo, prefiro o cabo.

SG, "Palavras de Dom Goda", 1980

Imagens sem fotógrafo

Já se pode ver a luz da meia-noite nestas magníficas câmaras de tráfego
Não é o caso aqui, que esta é do centro da Finlândia.


11/05/2004

As pontes de outro condado (I)

Fórmicas de várias cores, mesas de vidro. O básico café modernista.
Não se sabia se aqueles olhos mais antigos tinham pousado ali muitas décadas atrás, vindos das moradias da álea da estação.
Comboios a carvão.
Décadas de copos de vidro, chávenas de louça, colheres de alumínio e aço inox.
Estudantes, militares, esposas. Médicos e engenheiros.
O rapaz contara não mais que dez anos desde que estacionara a primeira vez ao lado da vitrina dos chocolates.
Namoros de olhos. Cervejas, aguardentes. Conversa de chacha.
A mulher pouco mais tempo contara desde que impressionara os circunstantes pela primeira vez. Ruidosa, cativante, desbocada, deslumbrante.
Falava, exaltava-se, ria, discutia.
O rapaz não lhe concedia mais atenção do que às outras peças do xadrez de mosaico hidraúlico.
Duas ou três vezes trocaram palavras. De uma das vezes, ela reclamou um cumprimento. De outra, contra-atacou um dos seus discursos de costumes.

O irmão, o colega do irmão e a namorada do colega do irmão assentavam arraiais pela noite fora, em sábados indistintos, discutindo o que apelidavam de geopolítica, uma espécie de Trivial Pursuit de medronhos, aguardentes de alfarroba, Jack Daniels e gin tónico.
E o colega do irmão que lhe contasse o que era feito da tal irmã, dele colega do irmão.
Pois é. O café fechou. Fechou, não. Acabou. Agora é uma tasca que parece um café. Espelhos, lindos mosaicos cerâmicos 30 x 30 daqueles riscadinhos. Listéis. Sim, foi o que me disse a vendedora na SIMAC. Balcão de painéis de vidro castanho, mais espelhos. Sandes diversas. Pipis. Nunca mais lá fui, o que é feito dela?

O café da bola. D' A Bola nas mesas para os fregueses. Do balcão corrido de imperiais e tremoços. Licores Beirão.
Ele, o rapaz, explicava a táctica ao colega do irmão. Talvez uma votação no Conselho de Segurança. Mas isso é estratégia. Seja.
Virou-se, transportando o último fino da noite.
Como está a senhora?
Surpreendeu-se com o grito dela. Desbocada. Deslumbrante. És tu?
Majoraram nessa noite o somatório das anteriores conversações.

10/05/2004

4 passos

Para levante, a contar da segunda sobreira junto à margem direita do barranco, contada desde o Poço da Lebre.
Enquanto os Alpha-Jet da BA11 faziam uma passagem.


27 anos de estrada

E mais uns cinco de caminhos.
Um dia de memória.



imagem em

09/05/2004

O verão de 2000 (II)

A minha geração tinha muita ilusão no ano 2000, como dizem os de Castela.
Um dos grandes desafios do homem, mesmo para aqueles que escrevem diários, é reconstruir o que lhe ia na alma, trinta, quarenta anos atrás.
Um exercício inconsequente. Mas ainda assim, um exercício interessante.
Ao rever o que foi esse ano, ao relembrar o post de há dias, vem-me justamente à memória essa expectativa.
O que foi esse ano e o que afinal trouxe (já trazia de trás) de novo.
Para mim, formado para o mundo na década de 60, no meio da corrida à lua, dos livros da colecção Argonauta e de outras projecções, parece que ficou muito aquém do sonho.
Mas era um sonho infantil, inchado de ignorância e pouco comedido.
Não andarei muito longe se disser que a grande novidade é este mundo de computadores, ferramentas todo-o-terreno, comunicações, telefones móveis, telefaxes.
Que se anteviam mal na Brunswiga cujos carretos torturei, sob o olhar complacente do meu pai.
Embora não fossem sonhos, pois eram até evoluções previsíveis.
O mundo deu um salto com a guerra. Depois da guerra aperfeiçoou as técnicas. Estava tudo ou quase tudo à vista. Talvez por isso, o sonho fosse maior.

A propósito de mais uma conversa ultramarina. Lili, como é que chegámos ao ano 2000?



imagem de uma Brunswiga em

08/05/2004

Dia de feira



Há feira na minha terra. Suponho que entre hoje e terça-feira.
As raízes perdidas são coisas que doem.
Os dois séculos da minha vida teimaram em ganhar fronteiras bem definidas, com erro de somenos importância.
O séc.XX foi o meu tempo das origens, rústico, repleto de conhecenças, onde os demais me chamavam pelo nome.
O XXI é esta difusa coisa urbana, anónima, como está?
Sempre fui bicho-do-mato. Amante dos silêncios povoados, recluso de porta aberta, onde a praça estivesse sempre à mão.
Algures no virar do século, perdi o pé.
Deixei de ver o porto onde fazia a cárrega.
Navego sem conhecenças, não diviso o rosto de outros marinheiros.
Por isso, hoje não atravessarei as ruas entre plásticos e barros, entre vergas e carrosséis.
Não ficarei à mesa para o frango com pó.
Ninguém me chamará pelo nome.

07/05/2004

O atum e a cavala



Naquela linha de cavalo e égua, muitos anos andei enganado com a suposta concubinagem entre atum e cavala.
Se ninguém me disse que eram géneros diferentes da mesma espécie, também ninguém me convenceu depois do contrário.
Deve ter havido um dia em que acordei e decidi colocar a cavala a salvo das investidas do atum.
Que era o meu preferido.
Mas havia ainda outros casos. Carapau e sardinha não eram bem o mesmo, nem faziam par.
Mas era como se fizessem.
É claro que era uma espécie de clubite gastronómica. Um Sporting-Benfica, um Simone-Madalena das coisas de comer.
E eu sempre fui mais pelo carapau até ao tal dia em que decidi trocá-lo de repente pela sardinha.
Menos borrego e mais cabrito. Mais perdiz e menos pombo. Menos lebre e mais coelho. Mais galinha e menos peru. Por aí.
Havia também os pêros e as maçãs. Definitivamente pelas maçãs. A laranja e o ananás, pelo ananás.
Hoje, graças à negação dessas dicotomias ou não, meto o dente em qualquer um. Já não vou por sons, por palavras, por supostos géneros. Até por cores.
Também não vou pela embalagem. Lembram-se todos da fase da fruta bonita. O freguês come com os olhos. Tudo a saber a nada. Pão sem sal.
Tenho saudades da fruta do Cercal, de São Luís, e lá da horta do monte da minha bisavó.
Lá na minha, já quase não há árvores de fruto. Abençoadas as poucas figueiras que restam.
Como vêem, começo a falar de alhos e acabo em bugalhos, outra dicotomia.

imagem em
Sono

E adormeceu, agarrada ao teclado de peluche...


06/05/2004

Traços

Nada batia certo.
Nem os alçados com os cortes, nem as plantas com as perspectivas nem a bota com a perdigota.

Isso foi culpa do ACAD.
Qual ACAD? Isto foi feito à unha, num programazinho do século passado, tipo régua, esquadro e compasso.
Mas atão?
Atão... nada. Deu-me para isto. Porque é que as coisas haveriam de bater certo? E a expressão artística? Queres limitar-me? Queres submeter-me a regras ultrapassadas em que tudo tem que bater certinho?

05/05/2004

O verão de 2000

Ainda me divido entre os calendários agrícola e civil. Mesmo que as ligações ao campo se limitem hoje a presenças espaçadas.
E, por isso, vejo os anos terminarem na época balnear. Quando ela existe.
Quando não acontece, a sensação é a de emendar anos em anos, sem que 31 de Dezembro seja mais do que fim de mês.
Poucos anos passei sem molhar os pés. Mas neste século, só uma vez mergulhei nas águas do Atlântico. Com muita pena minha.
Estou portanto quase em ano seguido desde o verão de 2000.
Em que não tive férias.
Mas todos os dias, quase todos os dias, levantava voo dos complexos industriais da margem sul com destino a uma das minhas praias de infância.
Fui Carlos mais uma vez. Mas por poucos dias, já que a senhoria desta vez acabou por entrar com o meu nome.
Sr. Manuel, já não lhe chamo Carlos. Mas alugou a casa e agora não a aproveita?
Não lhe consegui explicar que sim, que a aproveitava.
Que aproveitava a casa, a praia, as ruas em calçada, as casas velhas, os cafés, a noite.
Que aproveitava as viagens, a auto-estrada, a estrada nacional, o calor alentejano e as melodias que me acompanhavam no banco do Toyota e do Honda. Que encontrei nessas viagens alguns companheiros, cavalheiros da estrada. Aqueles com quem fazemos uma viagem, ora atrás, ora à frente, como dois ciclistas em fuga. Sem picanços, com muita cortesia e ajuda nas ultrapassagens.
Que aproveitava o regresso, às vezes com a neblina das manhãs, o café recém-aberto, a estrada, a auto-estrada, Paio Pires, Barreiro.
Ver os monstros industriais. Assistir à demolição triste de quarteirões fabris. Fotografar esses mundos de cabeça.
Conseguir viver em férias, em fim-de-ano, a trabalhar.

04/05/2004

Os intelectuais e a política

Meter prego e estopa em campo minado é leviandade. Mas apetece-me hoje entrar por caminhos ínvios mais uma vez.
A primeira questão que se levanta logo é definir o intelectual. O que é um intelectual?
Em tempos, dei a minha definição a um velho amigo com o qual partilhei o número suficiente de viagens de carro para termos tempo para muita conversa fiada.
Não ficou muito de acordo. Deu a dele.
Estou convencido de que hoje, se fosse caso disso, ainda trocaríamos longos argumentos sem resultado nenhum.
O que nos levaria para outro campo, o da discussão. A isso irei em outra altura.
Não estou convencido de que a definição que apresentei nesse dia seja melhor do que todas as outras. Mas estou convencido de que é um conceito suficientemente vago para ser visto e carimbado de muitas formas.
Como todos ou quase todos os conceitos que não são matemáticos.
Talvez que eu me refira a um subconjunto mal definido desse conjunto difuso de cujos elementos se diz que são intelectuais.
É isso com toda a certeza. Uma vez que qualquer conjunto é subconjunto de si próprio.
Adiante.
Há em grande parte das análises e dos comentários políticos uma base de erro que me espanta.
Essa base, passe a redundância, é partir do princípio que as coisas, a sociedade, os homens, o seu comportamento, são racionais.
Nada mais errado.
Todas as construções que se fazem com essa base, são inevitavelmente instáveis. Para não dizer outra coisa.
O que me leva sempre a imaginar o que seria a condução de uma sociedade entregue a tais cabeças.
Devo dizer que considero, não sei se erradamente, que o bom político não pode ser um homem de horizontes muito largos. Mas se o é, tem que os ter tão largos que isso lhe permita ser capaz de os encurtar.
Tudo isto que acabei de dizer tem tanta razão ou tão pouca que nem sei onde me inclua.
Se no grupo dos políticos, se no dos intelectuais, se no dos presumidos, se no dos irrefutavelmente ignorantes.
Como é que se podem dizer coisas sem pretender racionalizar ou ser artista?
Rotas demarcadas



Foto de MSMS
O Civic preto

O carro não tem travões!
Não tem, pai? Mas ainda agora funcionavam.
Não tem. Não me vês a carregar no pedal?
Caramba! Vá bombeando! Será a bomba que se foi?
Não sei, só sei que não trava.
Bolas.
Arre! Nada. Nem resistência tem o pedal.
Vai bater no Civic.
Chiça!

Então... mas tu não vês em que pedal é que eu estava a carregar?
Qual?
Neste, no da embraiagem. Tinha o pé esquerdo encostado ao pedal do mija-mija. Troquei os pedais.
Ah ah ah! E eu nem sequer me lembrei de puxar o travão de mão...
Nem eu. O que é que me dizes disto?
Digo que tal pai, tal filho. Fazer o quê? Sabe de quem é o Civic?
Não. Ainda por cima, deve ser de alguma visita. E novinho em folha.

Ó Zé, sabes de quem é o Civic preto que está lá fora?
O Civic preto? Porquê? O que é que aconteceu?
Eh pá, uma das minhas. Vinha com o carro desligado, lá de cima da oficina, e em vez de carregar no travão, vinha com o pé na embraiagem...
E bateste? Bateste no carro da minha mulher? Logo hoje que lhe pedi para o trazer, porque tenho o meu na oficina...
E é novo, ainda não o tinha visto.
Novo? Fui buscá-lo esta semana!
Foi só o farol...

(o meu pai conduziu durante décadas sem nunca ter tido um acidente, apesar de nefelibata)

02/05/2004

Concessão à bola

Reparo hoje que a minha última referência ao futebol, descontando o post anterior parece datar do último Benfica – Sporting, a 4 de Janeiro. Há uma outra a propósito dias depois, nada mais.
Falava então dos seis milhões de benfiquistas, esses alegados 60% que agora dormem mais descansados.
Faço esta concessão naquela linha tradicional do contra. O Sporting perdeu, não se fala de futebol. Pois eu falo. Já que falo tão pouco de bola, lá vai.
Disse uns dias depois no tal outro e último post que o campeonato estava arrumado desde o dia em que o Sporting ganhou ao Leiria, a 20 de Dezembro. À 15ª jornada. Ou seja, de acordo com umas tabelas que me mostraram, nos últimos não-sei-quantos anos, nenhuma equipa recuperara a distância, da 15ª jornada até ao final, para o primeiro que se verificava então (considerando a percentagem de pontos obtidos sobre os possíveis).
Pois é, nesse dia o Sporting ganhou e ficou fora da carroça. Pelo que os números ditavam.
Hoje, aconteceu o que se temia. Principalmente para aqueles que fazem contas ao dinheiro, lá se vai a hipótese de reduzir o défice.
Em algum lado da história, o futebol deixou de ser aquela coisa de clube, camisola, facção e passou a ser negócio, empresa, rendimento, mas um negócio piramidal, ruinoso e pouco empresarial. Nunca me empolguei muito com futebóis. Nesta coisa de bola, só tenho saudades é do muda aos cinco e acaba aos dez, em que fazia a minha perninha. Futebol é jogar à bola, não é ficar a ver os outros jogar. Mas sabe-se lá como, numa esquina qualquer, vi-me sportinguista. E lá tinha as minhas discussões com o empregado da pastelaria, fervoroso benfiquista, que ainda deve estar a recuperar da tareia que lhe dei quando o Lourenço (o outro Lourenço) marcou quatro na Luz (a outra Luz).
Esta minha filiação clubística é um mistério. Nunca percebi na minha família a não ser já com os meus cabelos brancos qual era o clube de cada um. E tive as minhas surpresas. Já aqui falei disso também.
As coisas hoje estão longe desse tempo em que me colocava dentro do balcão da pastelaria para melhor alvejar o meu adversário do alto dos meus sete anos.
O futebol é hoje uma necessidade ainda maior. Basta olhar para as falanges ululantes e pensar o que seria se não tivessem aquele escape para a energia (estúpida?) que acumulam.
Basta ouvir as discussões acaloradas e facciosas para perceber que, se não houvesse a bola, aquela verve incendiária cairia sobre coisas bem mais importantes, e de forma certamente desastrosa.
Ainda se lembram do “ópio do povo”?
Dito isto, acrescentar apenas que continua a tornar-se imperativo fazer o tal escrutínio para saber qual é o erro dos 6.000.000
E outra coisa, isto muito sinceramente, se calhar é melhor que vá o Benfica à Liga dos Campeões. Sempre costuma fazer melhor figura.
Como é que é possível que eu tenha falado tanto de bola?
Ah, e vi o jogo. Há muitas luas que não via um jogo de futebol de fio a pavio. Estou a ficar velho, deve ser isso.

01/05/2004

Subsídios para a eterna luta

De vez em quando, nas minhas divagações de link em link, deparo com uma bem ou mal humorada e feminina catilinária contra os machos.
Ah, la guerre...
É claro que do outro lado, do meu lado, do nosso lado, também há alguns lamentos. Se os há. Mas esses não vêm agora ao caso, ou talvez venham.
O certo é que, ou estou muito enganado, ou a coisa funciona desta forma:
Elas sabem muito bem quais são os nossos defeitos (incluindo aqueles que muitos de nós não têm, como ficar sentado num sofá a beber cerveja e a ver a bola ou colar autocolantes e pôr bandeirinhas no carrão).
Nós temos uma dificuldade do caraças em perceber sequer quais são os defeitos delas.
Resulta daqui, se não me enganei atrás, que o macho é um bicho previsível e a fêmea um bicho imprevisível, mais ou menos isto, com desculpa do atropelo jornalístico à lógica.
Mas também não é de excluir que o que se passa é que elas pensam que sabem e nós nos limitamos a pensar que nada sabemos, como dizia o outro...

(mete essa merda na SporTv e traz as b’jecas!)

30/04/2004

Que Império é este?



E que hora tem?
A esta hora, o Novo Império Europeu já tem as fronteiras quase napoleónicas.
Por aqui, ainda não é meia-noite.
Mas o facto está consumado.
Esta coisa de impérios, a julgar pela História, é cíclica.
Mas um dia a História deixa de repetir-se. É inevitável.
Nunca sabemos que lições históricas devemos considerar e que coisas novas acontecerão.
Também não sabemos se esta génese imperial é assim tão diversa das anteriores. Não há um Imperador, mas há escravos.
A difusa identidade e caracterização dos escravos ao serviço do Império.
Que domínio é este e o que pretende?
Mais um Império comigo na ponta. Aqui ou lá na ponta ocidental.
Não menosprezemos a actualidade hoje.
É um dia histórico.

imagem adaptada de
A feira dos Bentos

Ainda não é amanhã que lá volto.
Eu que sempre fui um amante de feiras à antiga.
Descobri esta por acaso.
Num Dia de Maio em que atravessava a serra de volta a casa.
Num dia em que as sandes de presunto da Fernanda ficaram para depois. Foram para a ribeira, disseram-nos.
Continuámos, entre a ameaça de trovoada e a chuva abatendo-se sobre as estevas.
Um velho fazia cestos numa esquina da estrada. Ao abrigo de umas telhas.
As cores escuras do mato sob o céu cinzento, o calor húmido da chuva grossa.
De repente, ao sair de uma portela, os carros. Carros e carros estacionados na estradinha estreita, ali no meio do mato.
A máquina fotográfica na caixa do carro, tiro, não tiro?
Chegámos à feira com a trovoada. Trazendo a chuva.
As lonas a serem rapidamente desmontadas, os guardas a correrem para evitar que a estrada ficasse bloqueada.
As pessoas a refugiarem-se nos carros.
A feira a desmanchar-se num ápice sob os nossos olhos.
A máquina na caixa do carro, tiro, não tiro?
Fiquei a dever uma à feira dos Bentos. E ainda não é amanhã.

29/04/2004

Composição global


Azedume e riso

Nem uma coisa nem outra são bom sinal.
Azedume como no post anterior, riso como às vezes me suscitam as pesquisas que aqui caem.
Só mostram a minha incapacidade. Não a dos outros.
Ninguém é perfeito, ninguém sabe tudo. Na escala disto e daquilo, sejam lá elas feitas como forem, ocupamos lugares muito distintos – numas, lá para o fundo da tabela; noutras a meio; outras ainda, na metade superior. Mas há sempre este instinto de olhar de cima para baixo os degraus que distinguimos na proximidade inferior...
Como não sou perfeito, não tenho pretensões, e isto não é imodéstia, é a pura realidade, lá vai uma resenha das últimas pesquisas excepcionais:

fotos de plebeus romanos
vendedor com cepticismo
feitiços para totoloto
fotos de mulheres goda pelada
ementas de restaurante
tatuagem diverças
imagens de avestruzes para escrever uma matéria para televisao
a pulitica ea igreja
postais de sogras
individuo excepcional cantor
O que é uma Anedota?
conclusao sobre anfibios
DEFINIÇÃO DE ANEDOTA
fotos sado mulher manda
nome para o meu cao
para que serve a ponte de h ?
molas de dar corda
quando e quem deu inicio as viagens
resenha virando a propria mesa
aumento de la gasolins

Sendo certo que nem todas são do mesmo grau, há até algumas que parecem razoáveis, descontando as gralhas.
O que continua a fascinar-me é a total incapacidade demonstrada em mais de 95% dos casos, de perceber o funcionamento (afinal tão simples) dos motores de busca.
Lá estou eu...

Nem tenho razão para me rir, muito menos para andar azedo.

Mas ainda assim, querer postais de sogras, feitiços para totoloto, nome para o cão, ementas de restaurante e fotos (!!!) de plebeus romanos (sim, cometo o erro de pensar que estes romanos são os que estão, estavam loucos, não os actuais) e ao mesmo tempo querer saber para que serve uma ponte de Hidrogénio - lá suponho eu que seja isso - quem e quando deu início às viagens e ainda por cima concluir sobre anfíbios, é dose. Digo eu.

28/04/2004

Ultrapassagem

Já aqui falei disso e o problema deve ser meu.
Desculpai-me mas às vezes fico um bocado azedo. Os grandes não azedam, toleram, compreendem, e eu sou pequeno. Fazer o quê?
Mas azedo quando abro um documento ao acaso, e ao ler umas quantas linhas, vejo etiquetada como ultrapassada uma qualquer teoria.
Confesso que não percebo.
Uma teoria, neste nosso santo e deficiente racionalismo, parece não poder ser outra coisa que certa ou errada. Ultrapassada é uma qualidade que não sei qual é.
Pretender que as teorias hoje aceites sejam certas, é estultícia. Sei-o bem.
Mas quando e se se demonstrarem erradas, erradas serão. Não serão ultrapassadas.
É que há teorias que resistem, resistem, resistem. Por séculos e séculos.
E outras que se desmoronam com fragor, ao mínimo abalo.
Pelo que sou dado a concluir, talvez erradamente, que as que efectivamente têm muita pedra partida na sua origem, chegam longe.
Outras, muitas vezes pouco capazes de até teorias serem, mais dadas a modas e a unanimidades bem-pensantes, caem como tordos.
Ora se são dadas a modas, se de teoria têm pouco, então digam lá que estão ultrapassadas. Mas não lhes chamem teorias.

27/04/2004

Aprendizagem

Há ene coisas na vida que aprendemos como supomos que os animais aprendem.
Nada mais óbvio, uma La Palissada.
Mas se pensarmos um bocadinho mais além, veremos que a contaminação do conhecimento transmitido escamoteia muitas vezes esta constatação.
Diria até que há quase a ideia generalizada de que a totalidade do nosso conhecimento nos vem por transmissão. Muitas vezes me deparo com essa sensação ao ouvir, ao ler o que outros dizem.
Não será hoje possível (quem sabe o que se experimenta por aí?) criar condições experimentais adequadas para ter uma ideia sobre o assunto.
Aparecem aqui e ali obras de ficção que andam lá perto. Mas não passam disso, de ficção.
Se me perguntarem o que é que eu aprendi animalmente, posso dizer pouco. Terei aprendido a respirar, a alimentar-me, a reconhecer os progenitores e a envolvente amiga...
Mas o resto que é, deve ser, muito, o que terá sido?
A caminhar? A ler? Que coisas?
A caminhar? E as vezes que me puseram em pé, que me instigaram a fazê-lo?
A ler? E as vezes que ouvia as palavras escritas à minha frente, ainda que fosse sem a intenção de me ensinar?
Há na aprendizagem um fenómeno curioso para mim, que sou um ignorante total.
É a colisão e a negação entre a aprendizagem animal e a transmitida, em coisas que normalmente não são ensinadas.
Lembrei-me disto a propósito de estrelas. Ver estrelas, na banda desenhada, nos filmes de animação.
Sempre pensei que se tratava de uma qualquer representação metafórica, sempre as entendi assim.
Até que um dia as vi.
Ninguém me tinha dito que era verdade. Nunca perguntei a ninguém, convencido que estava da metáfora.



imagem em

26/04/2004

Racionalismo

Os que me lêem há mais tempo, já têm a noção de que aqui há um racionalista incompleto e desconfiado (e que não joga com o baralho todo).
Divide-se entre a descrença do racionalismo por falta de dados e deficiência de compreensão e a conjectura de um universalismo dependente das condições iniciais (a terem existido) e do tempo, operando através de funções obscuras, e em que a vontade humana é uma imagem, uma ilusão.
Quando baixa à terra, preocupa-se com o preço da cortiça, as calinadas dos políticos, a ignorância dos jornalistas e a revisão do carro.
Do alto da sua ignorância, arremete com um duvidoso sucedâneo do racionalismo contra uma série de coisas.
As mais das vezes, contra os medos, as crendices, as superstições, os defensores acérrimos e outras pragas que ele lá contempla.
Mas, de vez em quando, fica de boca aberta à espera da maçã saloia.
Ele há coisas...
Como é que ele e outra pessoa juram a pés juntos que adivinharam a presença de um terceiro sem que ele estivesse por perto e sem que tivessem disso dado conta um ao outro?
Aconteceu há pouco.
Aónio, cidadão campónio

Não. Não sou o que escrevia memórias no primeiro quartel do séc. XIX. Esse registou a marca.
Mas também não me identifico aqui no blogue. Embora alguns já saibam quem sou.
Às vezes, sinto-me quase obrigado a abrir outro blogue, de forma a expressar alguns pontos de vista mais ácidos. Com a identificação do animal.
Mas como não o faço, também evito enveredar por caminhos incompatíveis com o anonimato.
Mas lá que apetecia, apetecia.
Sabendo ainda assim que todas as opiniões são inúteis.

23/04/2004

Um círio que não flameja

Gastos os pneus
Do carro cinzento
Na velha garagem
De porta de chapa esburacada.
Pelos buracos
A luz de cães errantes
Sobre a calçada.
Já mal se distinguem
Os sons do carro de parelha
Com chapa de Ourique.
Apenas o cacarejar de uma galinha choca
Se confronta com o zumbido eléctrico
Da bomba de água.
Cheira a lenha e a sul.
A cal caída sobre as ervas
E a fruta amadurecendo
Ao sol.

SG, inéditos, 2001

22/04/2004

Marcações


O gráfico



Quando ouço falar em previsões quase sempre me arrepio.
O mais estranho é que são os que mais gozam com as cartomantes e quiromantes de bilhetinho na caixa do correio, que produzem as maiores calinadas em papel milimétrico (isto do papel milimétrico é saudosismo...)
Mas se um dia se fizer uma verdadeira antologia das previsões, verificar-se-á por certo que a qualidade dos conteúdos não andará muito longe da das colectâneas de erros escolares.
Não desdenho de quem diz que a verificar-se em dado intervalo a constância das condições evolutivas actuais ou ponderadas, teremos em tal ano este valor.
Mas isso também faz a senhora dos créditos do anúncio de televisão. Diz logo ao povo quanto é que vai pagar daqui a 23 anos, se as taxas se mantiverem inalteradas.
Qualquer computador bem alimentado de dados e bem ensinado, dá respostas rápidas.
Porque será que insistimos tanto na miopia?

21/04/2004

No recesso


Deu na televisão

O pacato fim de tarde pascal no café central da vila alentejana não foi interrompido pela catadupa de notícias que o telejornal debitava por cima das cabeças indiferentes dos circunstantes.
Apenas um julgou ouvir um relato que começara assim: “Uma mulher de 29 anos...”

Conheceu Luísa no dia em que se apresentou ao serviço.
Pelas referências que se abstiveram de fazer, percebeu metade da história.
A outra metade quando encontrou Luísa.
Ela mostrou-lhe os dossiers, os apontamentos, falou dos casos complicados, entregou-lhe tudo. Despediram-se.
Dias depois, viu-a entrar na sala de aulas, cumprimentou-a de longe, viu-a falar com alguém, sair, voltar a entrar, sair outra vez.
Encontrou-a à porta da sala, no fim das aulas. Falaram um pouco, Luísa perguntou se ele ia para casa.
Aproveitaram-se a boleia no comboio nocturno.
À medida que ouvia Luísa falar, tinha a consciência de que o ténue fio se ia desfibrando, desfibrando...
Quando se despediram, marcaram um café para depois da Páscoa.

20/04/2004

Colado com cuspo

Falava de alto sobre a segunda guerra, os mapas de desembarque, Anzio, Dunquerque, depois de Tobruk, de Varsóvia, de outros lugares incidentais.
Segurança nos pormenores, um detalhe aqui, outro acolá.
O parceiro fez-se entendido. Aquiesceu e adiantou mais nomes, mais locais, mais incidentes.
A tudo dizia que sim.
A um surdo pode dizer-se um palavrão no meio, que ele não nota.
A um entendido, meia-dúzia de locais inexistentes e personagens de almanaque soam como heróis em batalhas longínquas.
Em rios


18/04/2004

Plágio

Hoje copiei de outro blogue.
Confesso-o.
Não copiei tudo, copiei só uma ou outra frases. Mas a ideia está lá.
Não vou dizer de onde, nem vou atribuir os créditos (como se diz agora) ao autor.
Já conferenciei com ele e negociámos a coisa, ele deixa-me dormir e eu fumo menos. No meio disto, perdoa-me o plágio.
Às vezes, sofremos disto. Do dois em um. Ou do um em dois. Ele e eu. Segreda-me coisas quando estou quase a dormir mas não as assume, passa-me a bola.
Eu retribuo-lhe ao volante, enquanto ele acelera ou reduz. Talvez seja perigoso, um com os pedais, outro com a manobra. Mas a Brigada de Trânsito ainda não deu por nada.
Mas é assim. Algures, o homem escreveu:
"Porque não existe essa coisa de mudar o rumo, voltar atrás... As pessoas é que traçam rotas imaginárias, umas mais rectilíneas, outras loxodrómicas e pensam que o seu destino é esse.
Mas esquecem-se das tempestades, das correntes, dos leixões, que as mandam ao fundo ou para outras paragens. E esquecem-se sobretudo do mecanismo interno, que a sua vontade não é reduzível a um traço num mapa. E que talvez essa vontade nem sequer exista. Dizendo de outra forma, não se foge nem se altera o destino. Ele é o que tem que ser."

Ora eu subscrevo e digo mesmo mais:
Onde raio é que fomos buscar a ideia de que somos um produto acabado?
Onde raio é que fomos buscar a ideia de que somos diversos de átomos, moléculas, células reagindo a outros átomos, moléculas e células, campos eléctricos, magnéticos, gravíticos?
Onde raio é que fomos buscar a ideia de que, seja o tempo lá o que fôr, não é o tempo, seja com a concordância de algo que desconhecemos ou não, que operando sobre as condições iniciais, se é que existiram, que nos coloca aqui, frente a um teclado e a um écran?
Onde e quando é que nos convencemos de que somos deuses?
Procura

Por duas razões essenciais, uma das mais procuradas imagens deste blogue é esta:



Por um lado, chegam aqui procurando referências ao livro de Paco Roca, uma banda desenhada inspirada em Dali e no quadro Jogo Lúgubre.
Por outro, procuram a carta Alberto Lúgubre de um desses baralhos fantásticos agora em voga.
O certo é que a imagem aparece em segundo lugar nos resultados do Google há bastante tempo.
Trata-se apenas do portal do cemitério de Montalegre, filmado num dia de outono. Nada mais do que isso. Uma imagem retirada do super 8 que, pelos vistos, corre mundo. Bizarrias.
Justiça a dois

O que é justo e o que o não é, é daquelas coisas em se vira o mundo ao contrário, volta-se a pô-lo na mesma posição e não se chega a conclusão nenhuma.
Até na velha e simples regra do Um parte, o outro escolhe, quando de dois se trata, há ou pode haver uma injustiça latente...
Mesmo que não se trate da criança que Salomão terá poupado.

16/04/2004

As lembranças (II)

De cada vez que se diz que a memória é curta, há sempre um limite, uma assimptota ou um foco nesse propósito.
Assimptota, porque não se espera que ela ultrapasse certos limites que possam ofuscar a argumentação.
Foco, porque se exige a concentração num aspecto, numa atitude, numa palavra.
Lembras-te de quando...?
Já aqui disse que a memória é e não é essencial.
Não o será mais do que o erro, esse sim, essencial na evolução.
Quem aperfeiçoa uma máquina, precisa de dominar a sua constituição e funcionamento, não é necessário que saiba a história da sua evolução até ao momento em que se confronta com ela.
Errará. Tornará a errar até que consiga obter dela mais rendimento, mais adequação.
Juntos, erro e a memória desse erro, ajudam-nos a sobreviver. Focados, aquém das assimptotas.
O pensamento, porém, teima em desfocar as coisas, em ultrapassar todos os limites. O sonho, envolve-o e é-lhe cerne. Contradições.

15/04/2004

As lembranças

Ainda as há. E haverá.
Lembrança de Fátima. Lembrança da Nazaré. Lembrança de... Recordação de...
Também há as prendas, aquelas que se compram à pressa no centro comercial e que titulam o melhor amigo, consagram o dia do pai, parabenizam e osculam.
As estantes lá se vão enchendo destas inutilidades, deste consumismo obscuro sem objectivo visível.
Mas quando alguém dá importância a uma carica, a um guardanapo de papel, a uma faca roubada, a um jornal amarelento, é o diabo.
O que é que isto está aqui a fazer?

Um destes dias, alguém teve o desplante de destruir uma recordação que eu tinha em cima da secretária.
Era uma maço de tabaco vazio, tudo bem...
Mas que raio é que a pessoa tinha com isso?
A secretária é dela? O maço era dela?

Deixa lá. Eu depois compro-te um maço de tabaco...

Como é que se explica isto a uma pessoa que nos dá uma resposta destas?

Digam-me...

14/04/2004

Nunca na vida

Nunca na vida.
Nunca se prendera em teclas, nunca se dedicara a chats, a newsgroups, essas coisas...
Criara umas páginas lá para meados de 90.
Interesse público. A terra dele, fotografias, coisa formal.
O diabo é que tinha um caderno preto.
Desse caderno, inaugurado vezes sem conta, quis fazer um blogue.
Para ali escreveu. Banalidades.
Ilustrou.
Fotografias, desenhos, rabiscos.
Depois começou a ler. Aqui, ali, acolá.
Afinal, tantos como ele. Uns, políticos. Outros, sociólogos. Outros, o que fosse.
Leu.
Anotou os que gostava.
Um dia, abriu os comentários.
“Nd a vê, teu blog!”
“Passa lá no meu!”
Um dia, um comentário chamou-lhe a atenção.
Aquele nome ele conhecia. Era de alguém que ele costumava ler. Confirmou.
Sem ser seu hábito, deixou um comentário de resposta. Formal.
Teve réplica.
Um dia, considerou que o que lhe apetecia dizer era grande demais (talvez até não o quisesse público) e enviou um e-mail.
De resposta em resposta, vieram as teclas como cerejas.
Até que...
Lhe conheceu a voz.

13/04/2004

Estou curioso

Corre a ideia de que é quando elas se tornam avós que estas coisas se sabem.
Eu do pessoal só sei o que este ou aquele deixou escapar com uns copos a mais. Pouca coisa. Às vezes dava para desconfiar de certas insistências mas enfim... fraquezas todos têm. Elas provavelmente sabem mais do que nós, a crer na sempiterna intuição feminina.
Mas não sei o que ia naquelas cabecinhas naqueles anos de fogo. Nunca fiz a menor ideia, a julgar pelas surpresas que me reservaram.
Qualquer dia são todas avós, ou deveriam ser.
Vai ser bonito quando beberem de mais. E um melão para os externos, para os adidos.

12/04/2004

O sistema de drenagem

A obra é bela e robusta.
Não obstante, a pouca atenção a que tem sido sujeita permitiu os estragos do tempo.
Uma das queixas do meu interlocutor era o sistema de drenagem das águas pluviais.
Mostrou-me as infiltrações, os danos, tudo com pormenor e conhecimento.
Depois rematou:
"Estou em crer que nunca se desobstruíram os tais tubos de drenagem.
Há pouco tempo, quando mandei fazer isso, nem imagina a quantidade de maços de três vintes que de lá saíram!"

10/04/2004

Arroz de marisco

Hoje não é dia para essas coisas.
Vejo mais a preocupação no cabrito e no borrego.
Mas se calhar, vem a propósito falar dessas ondas de prato único que nos assolam como modas de Primavera – Verão.
Dizem-me que já não há colecções de Primavera – Verão e Outono – Inverno. Que agora a coisa é mais diluída...
Voltemos à mesa.
Mais uma vez, estas coisas não são novas. E muitas vieram de longe.
Imagino o que terá sido quando se vulgarizaram as batatas. E o bife.
Ainda hoje lhe ferramos o dente, eu que o diga.
Mas que volta e meia, há estes surtos de pratos que se encontravam confinados a meia dúzia de sítios, é um facto.
Vivi ainda tempos em que se buscavam os locais para se provarem as especialidades.
Hoje, comem-se coisas daqui e dali em qualquer local do país.
E volta e meia, vem a onda.
Assim de memória recente, vem-me o arroz de marisco e o porco preto.
Claro que há mais. Mas estas redescobertas cheiram-me sempre a whisky em cima do almoço.
E eu cá sou madronhêro.

Bom apetite e boa Páscoa.

09/04/2004

A razão que eu tinha

Há poucas coisas piores do que isso.
Vês? Vês como eu tinha razão? Eu não te disse?
Em primeiro lugar, esta é uma frase que não se pode dizer.
Em segundo, contrariando o primeiro, mesmo que se diga, de nada serve.
Em terceiro, contrariando o segundo, se serve é para alargar distâncias.
Mas o diabo é que se diz. E diz-se sempre.
O outro perguntava à evangelizadora porque é que ela insistia em querer salvar os outros.
Ela respondeu-lhe com uma pergunta:
Se visse o seu filho à beira de um precipício não corria para o salvar? Não lhe chamava a atenção para o perigo?
Ao que ele respondeu:
E porque haveria eu de ver o precipício, se ele próprio o não via?
E se visse, supondo que via, o que faria?
Supondo que via, que o precipício existia, avisava-o, mandava-o recuar, abeirava-me, saltava e depois dizia: Vês? Eu não te disse?
E sítio



imagem do SNIG

08/04/2004

Lápide

Talvez te sintas melhor assim.
Nunca conviveste bem com a popularidade.
Achavas até que te confundiam com outro, como quando os estudantes brasileiros te disseram que te conheciam pela obra.
É curioso que não haja na rede (existe agora uma rede de comunicação e de informação à escala global) uma só menção ao teu nome.
Talvez prefiras assim.
Quantos serão os portugueses que não conhecem, não usam a tua obra? Poucos, muito poucos.
Quantos já não a admiraram, sem saberem quem fez aqueles traços, quem calculou aqueles pilares?
Demoliram uma delas. Não, não tinha nenhum problema. Foi o progresso. Coisas novas. Mas o serviço que fazia, e que não foi substituído, faz falta. Mentalidades.
De um jornal, uma pessoa atenciosa mandou-me várias fotografias da demolição.
Vê-se a qualidade da coisa, que foi má de deitar abaixo.
Retribuí com uma foto dos primórdios.
Para minha surpresa, teve destaque de primeira página. Sem que eu quisesse, lá apareceu o teu nome.
Ainda não as descobri todas. Naquele dia, no metro, em que falámos da tropa, das manobras de Pegões, das cento e tal obras, não pormenorizámos o suficiente. Fazia-me falta um arquivo, um caderno.
Assim, tenho usado as tuas agendas de bolso, uns blocos que me entregaram, cópias dos arquivos oficiais, ozalids que encontrei dentro de baús, fotografias, uns dossiers de projecto, rabiscos em mapas do ACP e já descobri cinquenta e seis. Para aí metade. Mas há muitas outras para as quais olho e em que vejo os traços de família, falta o teste do ADN.
É bom, muito bom um fim de tarde à beira do Mira. Ao pé de uma das que mais gosto. Não, não é aquela grande. É a que chamam do Salvador.
Isso deu-me outra ideia.
Um dia conto-te.
Tenho saudades tuas. Já lá vão vinte e três anos.
Pois é, ainda não tens netos. Mas as tuas árvores têm sobrevivido.

É verdade. Nunca te tratei por tu.
Pirraça



Pois é.
Em homenagem aos mais de cem visitantes que aqui têm vindo em busca do sistema milagroso, e os quais curiosamente aqui entram através de um resumo semelhante a este:



Na verdade, o sistema existe e não está à venda. É tão elaborado, tão elaborado que nunca acertou.
Apesar disso, na semana passada por exemplo, ao desdobrar os 49 números segundo critérios que têm em conta tão só intrincadíssimas intersecções estatísticas, gerou 4 chaves.
Das 4, uma foi premiada (3 acertos).
Digam lá se não são capazes de fazer o mesmo, pedindo os números a quem está ao vosso lado no café. Acho que sim.
Mas claro que vou jogar.
Daqui a umas horitas, quando ele completar os cálculos, já que à primeira mostrou não existirem chaves que passassem por todos os filtros, lá irei eu também com o boletinzinho na mão.
Boa sorte, que ganhe o mais sortudo. Tenho a certeza de que será assim.
Há vinte anos que ando nisto. Manias.

07/04/2004

Mar das Antilhas

Descobriu a fotografia a meio da manhã
Num semi-deserto povoado de nómadas
Que pagavam caro a sua estadia sazonal.
Deixou-se ficar junto da praia,
Admirando as gaivotas na pequena lingua d'areia
E auscultando o mar.
Desejou regressar à pequena cabana de colmo
Para se bater com um peixe fresco
E provar o tal branco que fresquinho...
E recordou as tardes de água verde
Escorrentes e embaladas
Pelo som de segredos ciciados no seu corpo.
Entendeu o prazer como um corolário meditabundo
De pós-guerra
Pondo na lembrança as mulheres possuídas.
Resumiu as vivências acumuladas
Numa canção recuperada às juke-boxes
De verões sessentistas e sorriu.
Gozando sol e mar
Nas suas paragens preferidas
Largou fumaças sob as escuras lentes.
E então contemplou o casario longínquo,
De branco pintado entre palmeiras e muros,
Mirou o imponente castelo
Que parecia flutuar sobre as areias e o rio
E, àvidamente, descobriu a fotografia!
Faltavam sete minutos para o meio-dia!

SG, "Dizeres do Sul", 1993

05/04/2004

Muda ós 5, acaba ós 10

A coisa sempre me fez espécie.
Mudava aos cinco, acabava aos dez. Mas a vantagem era sempre dos que começavam por baixo.
Eu explico.
O largo ainda é inclinado. Só que agora já não estão lá os bancos de betão que até nem eram muito bonitos, até pareciam ter sido feitos com os mesmos moldes de algumas das vedações da CP. Não daquelas dos losangos em negativo. Das outras, que se viam mais na província.
Está lá agora um chafariz mal parido. Desenhado na certa pela filha daquele senhor que se gabava de ter uma filha com jeito para o desenho.
E o largo soçobrou às exigências viárias. Como se ali houvesse horas de ponta e necessidades de três faixas em cada sentido. Um mistério.
Mas voltemos.
Fazia-me espécie.
O banco de baixo, o da direita, e o de cima eram as balizas.
A coisa chegava ao intervalo aí com um 5-0, um 5-1 para os que vinham de cima para baixo.
E terminava com uns 6 ou 7 a 10. Ganhando os outros.
Foi sempre assim.
E nunca ninguém barafustou.
No dia em que o Zé Inácio aliviou directamente para os vidros da janela do Sr. Hipólito, percebi porquê.
Ninguém disse: “Foi aquele! Não fui eu!”
Já não me lembro se fugimos todos.
No topo da pirâmide



Há em todos nós um pedaço de Deus. Mesmo para o ateu que vos escreve assim é.
Não se trata de fé, do sublime, do divino.
Trata-se da luz.
Todos temos a tentação da luz.
De nos sentirmos iluminados e de termos que iluminar os outros.
Não falta quem queira dar lições disto e daquilo. Incluo-me no lote, não quero ser mais divino do que os outros e gozar da suprema humildade e da suprema presunção.
Mesmo ao dizer isto, julgo poder reconhecer uma certa pesporrência. Paciência. Sou humano.
Mas no meio deste lote, há casos e casos.
Há os que afirmam mas ouvem os outros. Há os que afirmam e não querem saber.
Há os que encontraram a solução. Há os que duvidam de tudo.
Há os que estão sempre numa destas posições e há os que oscilam entre elas.
Às vezes gostava de saber em qual delas estou.

03/04/2004

Uma guerra

Então não foi? Uma guerra dos diabos!
J. olhava em volta e interrogava-se: de quantos sítios te podes tu gabar de conheceres tal e qual como estão hoje, há mais de vinte anos?
O dono da casa nem precisava de pedidos. Servia sempre de acordo com as memórias.
Volta e meia, assegurava-se: Falta alguma coisa?
Foi ou não foi uma guerra? Tás a ver?
Mostrava-lhe uma mensagem SMS que incluía uns cumprimentos para o J.
Da Finlândia, dizia ele com ar triste.
Assim ficaram, tarde adentro, comendo e bebendo.
Foi uma guerra.
As imagens do penalty

Chegou e disse.
Repara bem nas repetições das imagens do penalty.
Agora diz-me se és capaz, se alguém é capaz de dizer que é ou que não é.
Mas repara bem que há milhões a vociferar. Quase todos ao lado da equipa pela qual torcem. É certo que há uns quantos que tomam o partido contrário. Uma minoria. Mas não penses que são melhores, também eles estão plenamente convencidos do que viram.
E tu?
Eu? Eu não gosto de futebol.
Enganas-te com outras coisas...
Saiu e tinha dito.

01/04/2004

Logro

Vamos dizer mais mal de ti ou de mim?
Dos dois, pá. Sem personalizar.
Mas tu é que te ajoelhaste aos pés do pai dela.
Mas pensava que era ela que vinha à porta.
Enganos. Mas ponho o quê? Os teus amigos?
Sim. Os teus amigos são insuportáveis, qualquer coisa assim.
O.K.. Achas que a letra tá boa assim?
Tá. Achas que ele vai olhar muito para a letra? É letra de gaja e chega.

Então, ele mordeu o isco?
Não te disse nada?
Não.
A mim disse-me. Disse-me que não percebia nada daquilo.
Então?
Ó pá, não percebia nada daquilo. Quem é que teria escrito a carta a ela. Acho que ele pensa que foste tu!
Pensa?
Se não pensasse, tinha-te dito. Ele pensa que foste tu e está admirado por ela ter respondido.
Quer dizer que vem esperá-la ao comboio?
Vem. Deve estar a aparecer.

Devíamos ter ficado do lado de lá.
Pois é. Mas onde é que a gente se escondia?
Eh pá, não nos escondíamos. Ficávamos ali ao pé da cancela e aparecíamos como quem não quer a coisa.
Aí é que ele desconfiava logo.
Achas que sim? Assim também não vemos a cara deles...
É agora! Apostamos?
Que ele falou com ela? Pois falou. Então para que é que viria esperá-la?
Olha! Olha-me bem para aquilo!
Eu não acredito! Ela está a ler a carta!

Ele não te disse nada?
Não.
Então é porque pensa que foste tu. Mas também acha que fui eu.
Então?
Disse-me seus cabrões, foram vocês. Mas depois disse-me que não percebia porque era mesmo a letra dela, frases dela...
E engatou-a?
Não sei. Acho que sim.
M 16

O homem tanto insistiu que eu fiz-lhe a vontade:



É o resto. Agora só depois do Natal. Já viu nos outros lados que eu lhe disse?
Já. Em Portimão, não há loja de ferragens em que não eu tenha já comprado o stock.
Vá a Faro.
Naquele dia, São Pedro estava zangado com os algarvios.
Seguiu para Lagos, decidido a bater o Algarve de lés a lés. Não podia era voltar de mãos a abanar.
A caminho do Alvor, à porta de uma oficina, um grupo de homens parecia divertir-se com as possibilidades de negócio que um enorme lençol de água mesmo em frente à porta, lhes oferecia.
Até Lagos, a fustigação não parou.
De casa em casa, feito um pinto, fez o pleno de não temos.
Até Faro, experimentou os poucos depósitos de materiais de construção que lhe faltavam. Chapéu.
Ooops, lá se vai o outdoor. Parou para tentar arrastá-lo para fora da faixa de rodagem, mas ainda bem que apareceu a BT. Nem saiu do carro.
Horas de almoço à entrada da cidade. Chuva em barda.
Entrou no grande centro comercial que lhe permitia estacionar mais ou menos ao abrigo.
Saiu com um atado de livros em saldo.
Tal como em Portimão e em Lagos, verificou a amável cooperação corporativa do comércio especializado: Já foi a tal sítio?
Como dizem os discípulos de La Palisse, foi no último que encontrou.
Já estava a tomar as coordenadas de Olhão e Tavira, quando ouviu o velhote: Quantos quer?
M 16? Tem varão M 16?
O homem ria-se. Será que o senhor quer assim tantos varões?
Levo tudo.
Ainda hoje se gaba de ter esgotado o varão M 16 no Algarve no último Natal do século XX.
Lembro-lhe que foi só entre Lagos e Faro.
Replica ele que, a acreditar no que lhe disseram, não valia a pena procurar a Sotavento.
Em São Brás de Alportel foram registados 124 mm nesse dia. 7,75 varões M16 em cima uns dos outros.


Sem comentários.

Imagem de

31/03/2004

Outras descrenças

Elaborar uma mentira de 1 de Abril que tenha tanto sucesso como a célebre praga (ou nuvem) de pirilampos não seria muito difícil.
Apesar da generalizada descrença, há sempre pontos fracos que se podem explorar.
Com a dependência informativa de telejornais, rádios e imprensa propriamente dita levada a níveis nunca antes experimentados, uma concordância entre estes num terreno propício a logros, levaria decerto a resultados surpreendentes.
Num plano diferente, e guardadas as distâncias, tomemos o exemplo da onda gigante que se aproximava da costa algarvia naquele dia de Agosto de 1999.
Independentemente da justeza da decisão das autoridades de mandar evacuar as zonas costeiras, há que reter que a inverosimilhança do fenómeno (ainda que possível) não deixou de influenciar multidões, ao que me disseram e ao que se viu e ouviu nos noticiários da época.
Talvez que a data de 1 de Abril já seja demasiado óbvia para pôr em campo um dispositivo de engano. Mas que precisávamos de um estímulo parvo qualquer que nos animasse e nos fizesse sorrir, nem que fosse o sorriso amarelo do desengano, não tenho grandes dúvidas.
Nunca mais é sábado


30/03/2004

A resma

Como nos clássicos e nos menos clássicos (espero um dia vir a entender o critério de atribuição da clássica qualidade), apareceu-me aqui na secretária uma resma de folhas dactilografadas a espaço e meio.
O autor, é claro, é dado em parte incerta.
O portador foi de poucas falas, apenas disse que era mais velho do que o prédio onde encontrou o maço de folhas. Não percebi o significado das suas palavras, confesso.
São folhas A4, folhas de carta modelo americano, folhas quadriculadas arrancadas a cadernos comprados ao velho Carvalhosa e outras de duvidoso formato.
O tipo é de dois tipos. Temos uma Adler do início do século passado e uma Messa dos anos setenta.
O que lá está escrito, só Deus sabe.
Surpresas boas quando o calor tarda em convidar à praia.
Pensar que há dois anos, os primeiros dias de Março foram balneares...
Ah, estão depositadas num arquivador diário da Eril, com a referência 502/80. E parecem mais do que uma resma. É tudo.

29/03/2004

Contador

Testando a possibilidade de unificar a contagem das visitas aos três blogues.