16/07/2004

O pacto de regime

Há muito que me convenci de que a política não tem nada de racional.
O que não impede que se façam, por parte dos próprios intervenientes e dos observadores mais ou menos privilegiados, as maiores considerações sobre racionalização. Já nem falo de razão, que este conceito de racionalizar parece ser mais complexo e difuso.
É certo que o nosso país não possui o hábito de fabricar bons dirigentes.
Antes reprime a capacidade precoce, desde que não relacionada com o pontapé na bola.
Creio que em gerar talentos, não seremos muitos diferentes dos outros. Em aproveitá-los, que é onde está o ganho, segundo um antigo publicitário avisado, é que a coisa desamassa.
Também não creio, nunca o cri, que os grandes talentos sejam bem aplicados na política. Mas ajudava que, em postos intermédios, dispuséssemos de uma plêiade capaz de preparar terreno para políticas mais "racionais".
Ora o que sucede é que há uma demissão em massa dos mais capazes quando se trata de ombrear com a mediocridade. Por ombrear, quero dizer correr ao lado e roubar a bola.
Vai-se tudo embora. Não sei quantos se queixam depois disto e daquilo. Mas se se queixam, queixam-se mal.
Posto isto, que como é hábito já divergiu do caminho alinhavado, apenas um singelo comentário, que é feito hoje, mas poderia ter sido feito em muitas outras ocasiões anteriores, tivesse eu um blogue nessas épocas:
Não seria já altura do PSD e o PS se entenderem quanto a uma orgânica do governo?
E de se criarem aparelhos ministeriais mais razoáveis e duradouros?
Ou iremos assistir permanentemente a este esbanjar do nosso dinheiro e a esta perda de eficácia que é a criação, a extinção e a mudança de nomes dos ministérios ao sabor do vento?
Eu sei que há sempre o perigo humphreano. Mas ainda assim parece-me mais "racional".



imagem em
Orientem-se

Li há semanas no Expresso que uma das queixas mais frequentes por parte dos jornalistas estrangeiros que acompanharam o Euro 2004 foi a sinalização deficiente.
Menos mal se foi isso afinal o pior da coisa. E parece que assim terá sido.
Seja ou não cortesia dos entrevistados, é um aspecto a reter.
Um velho amigo, sempre irónico, diz há muito que com a nossa sinalização, ninguém que conheça o caminho se engana.


Durante muitos anos, houve nas nossas estradas uma tradição na sinalização informativa que se pautava pela legibilidade bem estudada e pela coerência dentro de uma hierarquia da rede rodoviária.
Havendo quatro diferentes categorias de estradas nacionais, sucedia que as estradas de 3ª categoria (efectivamente a 4ª, pois havia as estradas principais, as de 1ª, de 2ª e de 3ª categorias), ainda dispunham de uma sinalização razoável.
Aos sinais de aproximação de cruzamento ou de entroncamento, sucediam-se nas intersecções os sinais indicadores de direcção e posteriormente, os sinais de confirmação da direcção em que se seguia, para já não falar dos marcos quilométricos que confirmavam rumos e distâncias a percorrer.
Em regra, já as estradas e caminhos municipais eram desprovidos de sinalização.
A certa altura, a intervenção municipal começou a notar-se nesse campo.
Primeiro timidamente. Depois, de forma eufórica e folclórica. E sem critério.
Na maior parte dos casos, percebia-se claramente que a concepção e a colocação dos sinais era arbitrária.
Em zonas urbanas, a coisa piorava. Cores dependentes da escolha de cada um, consoante o município. Escolhas péssimas quanto à legibilidade, quer no contraste forma / fundo, quer no formato e na escala das letras.
De uma situação em que existia uniformidade no país, embora com falhas evidentes ao nível das localidades mais populosas, passámos para a competição pelos sinais mais aberrantes.
Na colocação, na hierarquia dos locais a sinalizar, um desastre.
Sinais mais do que evidentes de que pessoas sem a mínima preparação ou bom senso decidiam estas coisas.
Ainda no plano nacional, verifica-se a degradação da informação. Um caso gritante é a substituição ou a nova pintura dos marcos quilométricos que apenas revela o quilómetro respectivo. Sabendo nós que essa informação é irrelevante para quem se orienta por meio de um mapa de estradas.
É a eterna dificuldade de nos colocarmos no lugar do outro, do que não sabe, do que não conhece.
Quem peça muitas informações sobre direcções verá que a esmagadora maioria dos interpelados, embora com boa vontade, não conseguem dar uma explicação adequada ao desconhecimento. Comum é ouvir-se um ponto prévio: conhece isto, conhece aquilo?
De qualquer forma, há que dizê-lo, e voltando aos jornalistas de fora, supondo que grande parte dos trajectos se fizeram em auto-estrada, a sinalização nestas é muito razoável.
Referir-se-ão provavelmente ao acesso próximo de estádios e hotéis. Esse sim, costuma ser calamitoso. Mas não sei se houve ou não sinalização temporária a apontar os locais mais procurados. E é natural que tenha havido.
Não fui ver, não sei, não faço ideia.
Gasolim, sim!



projecto para um novo cabeçalho no blogue do Sapo

15/07/2004

Imbecilidade

Haverá coisa que mais irrite que a nossa própria imbecilidade? Arre!
Ligações e cortes


 
O meu banco Gorringe



Do banco Gorringe, dizem-se duas coisas. Que é uma zona fatal em se tratando de gerar terramotos e que é um pesqueiro abundante.
Parece uma boa metáfora para denominar as histórias em hipógrafe.
Na verdade, não são histórias.
Apenas a constatação de que o banco de pesca onde desencantei pequenos terramotos feminis se situa algures na periferia de mares amigos.
Perto e longe de casa.
Sempre longe dos sítios onde a força maior me obrigava a permanecer.
Sempre as amigas dos amigos, as primas dos primos e nunca as colegas de escola ou de profissão.
Sempre por acasos, como quando certo irmão enganchou um polvo no anzol enquanto sirgava ao longo da margem.
A afinal não tão misteriosa irmã de um companheiro de copos que teimava em abandonar as capelinhas para a ir buscar para a festa.
A estranha a quem se pediu o favor de entregar isto à amiga comum.
A que fazia par com a namorada do amigo e tens que vir comigo.
A que apareceu na casa de uns amigos antes do jantar.
A que falava alto na mesa ao lado.
A que estava sentada ao lado do velho amigo já não sei por quê.
A que ficava na praia, uns toldos abaixo, e que ganhou coragem quando apareceu alguém que nos conhecia a ambos.
A prima do primo que jogava ringue noutra praia ao cair da tarde.
A que abriu a porta da casa de família naquele fim de tarde primaveril.
A amiga da prima que surgia sempre sem se saber de onde.
Algumas outras em circunstâncias semelhantes.
Tudo bem visto, o meu banco Gorringe situa-se a sul. Um pouco mais a norte do que o verdadeiro, desencadeando pequenos sismos e cheio de peixe.
Sou como o Anarcka, não acredito na aquacultura.
O que é que me anda a dar para ser tão autobiográfico?

imagem adaptada de

14/07/2004

Mistérios do Google

Centenas e centenas, diz você?
Dezenas e dezenas, contei eu!
Ao contrário dos envolvidos neste diálogo que, segundo o velho RC, contavam camiões de pedra rumando à barragem do Roxo, nos tempos em que a construíam, trata-se aqui de visitas a este blogue, oriundas (oriunção direi depois o que é) das sete partes do mundo e que têm como único objectivo esta foto:



Que não é minha. Veio com a devida menção deste sítio.
Ilustrou um post sobre memórias (mais um) dos tempos em que ver passar os carros era um passatempo bem complementado por outras interessantes actividades.
Mais um mistério do Google.
É o Renault 5 Turbo de Joaquim Moutinho, no ano em que venceu o rali de Portugal.

13/07/2004

Às vezes, lembro-me...

E não é preciso muito.
Uma das coisas boas disso tudo é, ou foi, a nossa capacidade de inventar, disparatar, criar as cenas que depois nos envolveram.
Há algumas fotos, poucas.
Ninguém nos fotografou na portagem de Condeixa ou nas ruas de Castro Verde.
Ainda hoje não sei quem foram os espectadores do nosso almoço na feira.
Mas vejo a tua cara quando o Manel, sem palavras, te encheu o prato com mais um petisco.
Rias e exclamavas que era duro acompanhar o jet-set alentejano.
Jet-set de pão com linguiça, digo eu.
Foste castelã e banhista de água doce, entre os meus afagos.
Ainda hoje escreveria o mesmo postal, datado de Penamacorvo...
E provei que estavas enganada quanto à tua própria fotogenia.
Às vezes, lembro-me. Basta espreitar um filme. Isso ontem foi o bastante. Estiveste sempre por ali, disfarçada de actriz inglesa, C2S.



a imagem tirei-a não digo de onde, mas é de uma actriz inglesa

12/07/2004

Qualquer coisa sou eu

Não sei se pousas
Sobre os carris que fotografei
Ou se trazes
Odores de plateias de madeira.
Talvez sejas apenas
Uma presença num parque de árvores
Que nunca identifiquei,
Uma sede entre estevas chacinadas
Pelos verões, sob botas caneleiras
Arrastando pó.
Um outro odor metálico de
Cadeiras vermelhas, verdes, azuis ou
Amarelas, contracenando com
O meu chapéu de sol, de iguais cores.
Talvez até um som gritado
De "fruta ò chocolate".
Uma deixa numa récita,
Um biombo velho dividindo
Promiscuidades.
Um carro soando em estradas
Desertas.
Qualquer coisa.
Definitivamente minha.

SG, inéditos, 1998


imagem de

11/07/2004

Salvação



clique aqui para ler o grafito

Olhando

De onde vem esta desolação?
De onde vem o desânimo? De onde vem o ressentimento?
Será que vem da confusão entre realidade e utopia?
Será que vem daí? Da nossa constante insistência em tomar o mundo pelos nossos desejos improváveis?
As condições ideais fazem-me sempre lembrar um peixe que se carregava da praça embrulhado em papel de jornal.

09/07/2004

Ah, sim

Pois, o post anterior não tinha nada de político. É que só agora me dei conta que a foto se presta a outras interpretações. Não me passou pela cabeça misturar fosse o que fosse com os sons de Rafael Correia.
Por aí, não. Por aí.



Lugar ao Sul. Para aí vinte anos a ouvir estes sons.
Bom dia

Um quarto para as seis, o azul já é mais claro e alguém chega aqui, vindo do Google, desta forma:
bom dia paixoes acordar coracoes de romances
Assim sim. Bom dia a todos.

08/07/2004

Pautas



Quando dizemos que a pausa depois da nota permite que esta ecoe nos nossos sentidos, não faço ideia se esta é uma afirmação que se possa valorar.
Como muitas outras, por não ser refutável ou demonstrável, é mais um pouco do ruído com que nos habituámos a contar à nossa volta.
Não vale a pena entrar mais a fundo no tema, do que é uma demonstração de verdade ou falsidade, pois me parece que quando por aí se entra, o universo restringe-se dramaticamente às convenções e às arquitecturas abstractas que forjámos para que nos servissem de ferramentas.
Adiante.
Não faço também ideia do que é um blogue.
Poderia elencar aqui meia dúzia de características que eu suponho que têm, mas também seria ruído.
Como ruído é pôr-me a pensar e a escrever que uma pausa na escrita e a consequente permanência no topo da página de um qualquer post o faz ecoar. Sei lá se faz.
Mas o facto é que pensei nisso por ter estado desligado dos fios por um dia e tal.
A única certeza é que um dia chegará em que a um post não se seguirá outro. Mais uma banalidade. Há dias assim.

imagem de

06/07/2004

Anticiclone



Como sempre, quem pressiona não sou eu, são os outros.
Claro que isto se aplica a todos, sem excepção.
Só uma dúvida paira no ar por aqui: servirá de alguma coisa tanta pressão?
Eu já nem falo de quem não votou em Sampaio. Falo de quem o elegeu. Merece-lhe agora tão pouco respeito?

imagem adaptada de
Atã' isto será o quem?



Distraí-me. Se não fosse o JPP, não ia hoje lá espreitar.
Saiba o que se passa aqui
Não vem só o bacalhau

Da Noruega.
Da mesma equipa que andou a fazer aquelas contas extraordinárias sobre as hipóteses de cada selecção ganhar o europeu de futebol, chegou-me há pouco um fax. Não foi e-mail nem SMS, foi mesmo fax.
Nesse fax, que me está devidamente endereçado, sem cálculos e princípios de partida que o justifiquem, figura um valor: 0,0004 %.
Um pouco abaixo, misturado com o que se suporia ser um resumo do método aplicado, uma nota em inglês: This is the probability of you to be contacted as a future member of the government.
Como vêem, com um inglês destes, até o diabo desconfia.
Depois de algumas consultas, estranhando o facto de este valor ser maior do que zero, tranquilizaram-me. Disseram-me que esse era um valor médio. Só isso. Cada português teria em média essa probabilidade de ser chamado a Monsanto ou a qualquer outro local.
E eu fiado nas minhas amizades...
Já sabem, se o blogue ficar deserto, fui cumprir o meu dever.

P.S. : Não conheço o Dr. Ferro Rodrigues
P.S.D. : Não conheço o Dr. Santana Lopes
A questão dos 14

A sério que achas isso?
Acho. Os 14 são 14, fazem tudo para ser 14, conseguem ser 14, gostam de ser 14, querem ser 14.
Mas os 18?
Os 18, não. Às vezes são 20 mas gostavam de ser 4. Vez por outra são 10. Fogem de ser 18.
Dizes então que mais vale um 14 do que um 18...
Os 14 são certinhos. Bons profissionais, sem grandes rasgos mas esforçam-se. Gente em quem se pode confiar. Os 14 que conheci estão todos a funcionar. Todos sem excepção. Já os 18...
Passaram-se?
Uns passaram-se para o outro lado do mar. Outros para mais perto, mas foram-se. Outros passaram-se mesmo. Não ouves falar deles.
Não há nenhum 18 que me possas apontar?
Há. Claro que há. Não conheci assim tantos. Mas alguns, poucos, andam por aí. Parece que adoptaram a teoria do 14. Aderiram ao 14. Não sei se gostam de o ser ou se são bem pagos para isso. Sabes, essa é a única coisa em que o 18 bate o 14. O 18 pode passar a 14, mas a inversa não é verdadeira.

05/07/2004

Uma questão de género



A praça é a mesma.
Quase se opõem em relação ao eixo longitudinal da dita.
Um é macho, a outra é fêmea.
Um é café, a outra é pastelaria.
Talvez por isso, as minhas passagens por um e por outra, se faziam sempre no estrito respeito do sexo do progenitor que me acompanhava.
Também quando era com ambos, a coisa batia de acordo com a gramática. O casal seguia para o café. Mas não para a sala de cima. Para o reservado da cave.
Assim foi toda a minha infância.
Vá-se lá saber se por causa de bater com a gramática ou não, eu prefiro hoje o Nicola. Acho que sempre o preferi.
Os bolos sempre vieram embrulhados em papel manteiga.

imagem composta a partir de outras encontradas aqui, ali e acolá.
Facchetti (II)

Eu disse Facchetti, não disse Trapattoni.

04/07/2004

Facchetti

Foi o nome que mais terá lembrado a quem já viu alguns jogos de futebol.
Hoje não te safas

Nem tu nem eu.
Tu não te safas porque hoje é escusado pensares que elas vão para a discoteca enquanto eles ficam em casa a ver a bola. É cedo demais para isso.
Eu não me safo porque já não trago no bolso a chave da casa grande.
Não adianta fazeres a tua ronda, da forma como me disseste que a fazias. Vais encontrar tudo deserto.
Eu já levo umas horas de atraso para cumprir o tal programa de que não te falei.
Quando começasse o jogo, já eu teria que ter passado a ponte Vasco da Gama rumo a sul, ao dealbar do dia. Depois de uma noite atribulada, sim.
Provavelmente, ter-te-ia encontrado para um café das seis e tal da manhã, lá no sítio do costume. Apresentava-te a moça.
A esta hora, apenas um carro estacionado junto à janela do escritório trairia o meu esconderijo. Preguiça de abrir a porta da garagem.
Como sabes, a televisão lá de casa há muito que não funcionava.
Assim pela tardinha, mais à fresca, lá iria eu passar pelo monte, sem parar claro, e adivinha onde seria o jantar.
É verdade, já fechou.
Mas nesse dia, tinha pouca clientela. Final do Campeonato do Mundo.
Confesso que não vi.
Estava calor. Muito calor.
Soube depois que o resultado não nos tinha sido favorável. O da bola, claro.
No meio disto tudo, lembro-me de um rato a espreitar de dentro de uma caixa de lata. Vê lá tu.

02/07/2004

As regras

O estabelecimento acrítico de regras é qualquer coisa de fundamental.
Sempre esteve a par com a aceitação de outras mais próximas do bom senso.
O que se nota de diferente, nos dias de hoje, é a visibilidade de mais mundo.
Mais mundo visível, mais espalharei por toda a parte.
Criam-se assim estranhas regras, logo aceites e inquestionadas.
Tomemos dois exemplos:
Os programas de rádio e de televisão em que há participação directa do público via telefone.
Existe uma regra introdutória quase universal, ao nível dos prezados senhores da carta comercial, objecto já de paródia publicitária.
As comunicações dos incêndios, em jeito de ficha. Obrigatório divulgar o número de bombeiros e de meios envolvidos.
Não nos afastámos muito do adeus, até ao meu regresso.
Há uns dias que arde



O mundo coado pelas televisões.
Não é preciso muita sabedoria para saber que o que passa na televisão é o que verdadeiramente acontece.
E o que acontece é futebol e folclore político.
No ano passado, a silly season teve esse abrenúncio primordial. O fogo. O fogo e as cinzas, tudo em directo. É natural que à medida que os meios operacionais abandonam os estádios vazios se venham a virar para os matos que ardem.
Assim será.
O fogo é eterno e necessário. Bani-lo é tão quimérico como impedir o avanço das águas.
Dir-se-á que levamos milénios a domesticá-lo.
Mas é uma tarefa sempre incompleta e imprecisa. E precisamos dele. Como precisamos.
Por isso, a enxurrada de argumentos que inevitavelmente se derrama sobre as coisas quando o fogo dá sinais, é normalmente vaga e inconsistente.
A velha questão da culpa e dos culpados.
No ano passado, o argumento final foi o da prevenção. Aliás, este é um argumento que se aplica quase como um emplastro a todos os males.
Eu prefiro a previsão. Talvez seja defeito de mester.
Bem sei que a previsão falha. E falha muito. Mas sem prever, previne-se o quê?
Se houve lição que se tirasse do ano transacto, já aqui o disse no Inverno, foi a de que, ocorrendo durante catorze dias uma vaga de calor parelha à que se registou, vai arder, ah isso vai.
Falem-me em aceiros e eu mostro-lhes as auto-estradas e as linhas de água que o fogo transpôs.
Falem-me em limpeza das matas e eu pergunto até que ponto? Cimentando tudo em volta das árvores? E ainda mostro a propagação copa a copa que as imagens mostraram amiúde.
É claro que não ajuda nada não haver aceiros e haver abundância de combustível nos campos. Não haver acessos também não facilita. Certo. Mas não chega.
A questão é matá-lo à nascença, sempre que possível. Todos sabemos disso.
Todos os que vivem ou viveram no campo sabem disso. Matá-lo à nascença ou impedir que aconteça.
O ermamento a que o país foi sujeito não ajuda.
Não haver gente por perto quando ele se inicia é o primeiro dos factores de risco.
Quanto ao combate, os próprios envolvidos deram razão a quem apontou esta e aquela falha evidente.
Também eu vi colunas de bombeiros à deriva, sem saberem para onde se dirigir.
Mas não nos iludamos, temos hoje muito maior capacidade para o combate ao fogo do que alguma vez no passado.
Do que quando nos reuníamos ao toque das buzinas e, em cima das camionetas, lá íamos bater com rama nas chamas, até que os bombeiros chegassem de longe, de muito longe. E nunca houve por ali um fogo dos tais. E não faltava como não falta combustível. Vade retro.
Organizemo-nos pois.
E tenhamos a consciência de que em determinadas condições, não há outro remédio senão deixar arder.
E que São Pedro não nos brinde com o quadro do ano passado. Por dias a fio.

trecho de imagem da SIC
Pensei muito antes de escrever este post (II)

Duas frases, as de baixo, que figuram na minha galeria de frases grosseiramente inúteis.
Aquelas que não pronunciarei enquanto não perder a noção das coisas, assim o espero.
Não. Não é nada de biográfico. Nada dirigido. Saiu-me!

01/07/2004

Pensei muito antes de escrever este post

...

Desculpa, tu sabes que eu não penso isso! Saiu-me. Desculpas-me?
Imagens novas

por você
vou roubar os anéis de Saturno

(Rita Lee)

30/06/2004

Bater em meninas

Um post totalmente machista, nacionalista e mais não sei o quê...

Primeiro, a Grécia deu-lhe uma bofetada. Mas essa sabe-a toda. Sempre teve bons professores.
Depois, o moço recompôs-se.
A Rússia, moça grande e forte, papou-as.
A Espanha, a vizinha do lado, levou um açoite.
A Inglaterra, que costuma passar férias no quintal do moço, fez-se difícil mas não resistiu.
A Holanda, que já teve a mania de se meter com ele, há uns séculos, levou o troco.

Havia outras no baile. A Alemanha, a Itália, a Dinamarca, a Suécia, a Suiça, a Letónia, a Croácia, a França, a Bulgária. Mas foram-se embora sem dançar com o moço.
Agora, há por aí uma que ainda pode sair na rifa.
Vamos ver se o moço baila com elas todas e as manda para casa.
Ele também era o único no baile.

29/06/2004

Pelo São João

Pinga no pão. Pelo São Pedro, não sei não.
Mas come-se na mesma.
Aqui chegados, não espanta pois que toda a gente puxe a brasa à sua sardinha.
Uns com mais jeitinho, uns outros mais desastradamente, outros com a tal subtileza do boi ou do touro na loja de louças, de porcelanas ou de cristais.
Olhando daqui, é um ver-se-te-avias com o capacho, de um lado e doutro.
Como não há nada de novo nestas andanças, vou cortar os pimentos, dos verdes e dos vermelhos.


imagem de
Com a calma que aí tá

Descorticemos pois


A ver se ela dá

imagem de

28/06/2004

Perguntas parvas II

Em que país foi feita a bandeira que figurou nas televisões ao lado do Primeiro-Ministro, lá em Istambul?
Que significado transcendente se pode atribuir ao facto de os castelos (... das torres) se terem tornado peões e de os besantes se terem eclipsado?
Perguntas parvas

Uma candidatura forte tem que ter dez estádios novos ou remodelados? Nesse caso, ganha sempre?
Se ainda não ganhámos o torneio, porque é que já querem dar-nos as prebendas?
Porque é que as manifestações são combinadas por SMS e não por telefonemas? Porque sai mais barato? Porque não é preciso argumentar? Porque pode acontecer que o alvo não atenda?
Qual é a definição de espontâneo?
Será verdade que os trabalhadores das áreas de serviço da Galp são uma boa amostra da população portuguesa? - pressupondo que não têm ouvido outra coisa senão "menos ais..."
Coerência

É nestas alturas que claramente se demonstra que a coerência é um conceito com costas demasiado largas para ter algum valor argumentativo.
Conheço a coerência em sistemas engendrados pelo homem, mas só nos abstractos. E mesmo nesses há brechas por onde ela foge.
Não sei que tipo de coerência se pode exigir ao homem. Talvez a que é própria da sobrevivência e mesmo essa...
Não espanta assim que quem mais clama contra a incoerência alheia seja depois quem mais se contradiz.
E não é a questão do burro, o tal de quem dizem não muda de opinião. Não. É o dizerem-se, a intervalos relativamente curtos, coisas que são contraditórias. Quando não, na mesma frase.
Sempre tive pouca paciência para defensores acérrimos. E sim, também sou incoerente.

26/06/2004

Desapontamento

Não percebo nada dessas coisas. Psicologia colectiva, ânimos de massas.
Gostava de conhecer ensaios razoáveis sobre o assunto. Não conheço. Havê-los-á?
Noto, creio que todos notamos, o desalento generalizado.
Que origina o ressentimento, a procura de culpados, quase a revolta.
Entrecortados por surtos de euforia associados a esta ou aquela febre.
Em dias, tudo passa. Pior, passa rapidamente da euforia à depressão profunda.
Arrasta-se isto há anos e anos. Aparentemente com efeitos cumulativos. Mesmo que tenha havido um ou outro período de contraste.
Só me pergunto uma coisa, alguma vez terá sido diferente? Nota-se mais hoje porque tudo é mais visível? E porque há mais gente visível?
As grandes motivações não são todas elas como as paixões individuais? Efémeras, voláteis. Existirão mesmo?
O país está deprimido. Leiamo-nos uns aos outros, é o que se vê.
Quanto ao futebol, essa erva dos milagres, lembrem-se quantos dias durou a vitória do Porto.
Ganhemos ou não o torneio, em quarenta e oito horas a coisa volta ao que era.
Leiamo-nos uns aos outros. Desânimo.
Alguma vez terá sido diferente? O que é que é preciso que aconteça para os corações irem ao alto e lá permanecerem por uns anos?


Prisão preventiva

Estive um mês em prisão preventiva.
Melhor dizendo, trinta e três dias.
O bom comportamento valeu-me um fim de semana em casa.
Mas ainda assim a pena que sobre mim podia desabar, não me deu para grandes euforias.
Nunca pensei fugir à justiça. Sabia bem que era uma ideia inútil.
Pena de morte era o que constava da sentença. Assim tão grave? Sim. Mas há hipóteses de comutação em liberdade vigiada, diziam-me com ar pouco seguro.
Na noite que antecedeu o cadafalso, fugi à guarda do corredor da morte e, às escuras, nos lavabos, contemplei demoradamente a paisagem.
Um avião. Três ambulâncias cujo único sinal era a luz azul, nada de gritos. Pouca gente na rua.
Via os reflexos das luzes nos tejadilhos dos carros e era tudo. O único brilho que podia ter era esse.
Comutaram-me a pena. Moisés intercedeu por mim, soube-o na altura.
Às vezes dá-me para ler a sentença. Liberdade vigiada doravante, uma vez que o réu tem apenas doze anos.
Em letras pequeninas, porém, lá está:
Caso o comportamento futuro não seja conforme ao estipulado nos artigos acima, esta sentença é reversível, em qualquer altura, com ou sem notificação prévia.
É a vida!

25/06/2004

E agora, José?

Poucos posts deste blogue incidiram sobre a actualidade.
E muito menos incidiram sobre a política nacional.
Alguns que me lêem há mais tempo terão antevisto uma posição política aqui e ali. Mas nada de muito preciso.
A razão já a anunciei e enunciei aqui. Se és anónimo, não deves falar muito.
Mas, a ser algo mais do que sensacionalismo jornalístico o corrupio de notícias que nas últimas horas sai das rádios, se lê nos jornais, portugueses e estrangeiros, e surge nas televisões, temos um problema.
Goste-se ou não do que este governo tem feito, se o homem do leme sai agora e se transfere para Bruxelas, as notícias não são boas.
Lá está a tal diferença entre país e Europa, de que já aqui falei. Se um presidente de câmara faz um bom trabalho e ascende a primeiro-ministro, pouca gente se queixará. Mesmo os que perdem o autarca.
Se o primeiro-ministro fez um bom trabalho ou não, cada um terá a sua opinião.
Na minha, fez em muitas coisas e falhou em outras. Como sempre, como todos os outros. Uns mais, outros menos, outros ainda muito menos.
Se é da minha cor? Não, não é. Mas é talvez o mais próximo que consigo arranjar. Por isso, a minha opinião não é asséptica.
O que me parece é que, a acontecer o que se diz, o país vai entrar numa fase que não agradará a ninguém, da esquerda à direita.
A ver vamos.
Intrigante

Há aqui um vizinho que, há alguns dias, ora põe ora tira da varanda uma bandeira da Suécia.

24/06/2004

Lugares

Soubéssemos nós o que nos faz gostar de um lugar e não apreciar outro.
Arranjamos sempre uma argumentaçãozinha, na base do podemos sempre dizer que...
Eu não sei o que me faz gostar das Caldas da Raínha.
Também não me recordo de quando lá fui a primeira vez.
Não faço ideia se houve algum impacto especial, não tenho memória de algo marcante.
Tenho outrossim, uma colecção intervalada de pequenas fotos na retina que me embalam.
Acordar sobranceiramente ao parque em solarento dia de Ano Novo e ter um postal ilustrado diante dos olhos.
Passar pela Rua da Amargura e dar conta disso.
Pisar as folhas secas dos plátanos da mata e ler os entalhes nos troncos.
Correr o mercado com um saco de laranjas. Por quantas vezes?
Ficar enfeitiçado pelas fachadas envidraçadas dos pavilhões.
Se eu disser que até a rebarbadora que comprei na antiga loja de ferramentas me proporcionou desfrutar de ambientes perdidos, alguém achará que há algo mais por detrás desta fixação com o lugar. Companhias, talvez. Companhias, também.
Bifes em cervejarias.
Talvez Capri de Pousão coado pelas telas de Malhoa, no museu amarelo. Seria amarelo da primeira vez que o visitei? Cor-de-rosa?
A memória atraiçoa-nos a cada passo. Quantas vezes não é ela própria mais dourada (cor-de-rosa?) do que os factos...



imagem adaptada de foto em

23/06/2004

Discriminação

Nos tempos que correm, esta é a palavra proibida.
Mas, na vida real, a discriminação na forma de escolha, é o pão nosso de cada dia.
Repisando a frase que nos cataloga a todos como humanos mas diferentes uns dos outros, se somos diversos é natural que sejamos uns e outros mais capazes para certas tarefas.
Acho que sei para que tipo de tarefas não presto. Julgo saber quais posso executar com maior facilidade e eficácia. Neste juízo, estarei enganado em algumas coisas. E haverá até aquelas tarefas sobre as quais nada saberei, o que me impede de ter uma ideia do meu eventual desempenho.
Parece-me utópico que cada um tenha incumbências apenas em áreas onde desempenha bem. Mas parece-me razoável que se façam escolhas dos supostamente mais capazes.
Se o são ou não, isso é outra história.
O que me parece mau é partir do princípio que todos, sem excepção, estão à altura desta ou daquela tarefa.
Que não se deve descriminar por isto ou por aquilo.
Também me parece mau que se ataque tanto a estupidez.
Não me parece que a estupidez seja muito diferente dos pés chatos, da altura ou da cor dos olhos. Ninguém fez muito por nascer assim.
Carvão sem estragos



e poucas palavras

22/06/2004

Estragos visíveis

A União

Os onze que restam são todos da União.
Dos que se foram, Bulgária incluída, só os nossos vizinhos eram da casa.
Isto para dizer que quando se fala de Europa, ninguém sabe do que fala.
O mesmo se poderia dizer de quase todos os assuntos, é certo. Mas da Europa, que tão desapaixonadas opiniões suscita, não há muito a dizer que não seja asneira.
Coloco-me obviamente lá no meio, no meio dos disparatados com faladura. Se tantos falam, mais um não fará diferença por certo.
Quando se fala de Europa, é logo à partida necessário estabelecer do que é que se fala.
Se do semi-continente com fronteiras imprecisas se da União de Estados saída já não da ferida mas da crosta da última guerra.
Quanto à primeira, não conheço compêndio que defina os seus limites com exactidão. Não sei se existe uma linha de festo nos Urais aquém da qual sejam todos europeus. A sul da cordilheira, aponta-se a Porta como limite oriental sul da civilização aqui contida. O que cria o tal problema de dividir Rússia e Turquia e incluir ou não partes da Ásia (?) Menor como Chipre e países outrora inclusos na U.R.S.S..
Claro que estas coisas são móveis e dependem muito dos interesses do momento.
Se os russos se encarregaram de povoar o Império mais ou menos eficazmente, também a ilha conhece gesta grega de longa data.
Mas ser europeu ou não em certas zonas é apenas uma questão de saber onde passa a linha, nada mais do que isso.
Já quanto à segunda, não é bem assim.
Sabe-se com alguma precisão quais são as fronteiras, embora haja algumas bizarrias.
Saber que se é europeu UE, aceitar que se é europeu UE, é mais fácil e pode dar milhões.
Mas pelo que parece obriga a ter que desvalorizar num futuro mais ou menos próximo, as cores nacionais que tanto brilho deram às ruas e praças do país.
É aceitar o dinheiro que vem dos impostos dos longínquos escandinavos e ter que encarar a bebedeira dos bretões do lado de lá do canal, como se uns e outros fossem da Beira ou do Algarve (não estou a chamar patos aos beirões nem bêbedos aos algarvios, ou vice-versa!).
É como já referi aqui, tomar medidas para evitar que um petroleiro se afunde ou que polua e não mandá-lo para o Ribatejo, rio acima, como se isso não afectasse a todos.
É combater os incêndios quando deflagram e não empurrá-los para o concelho vizinho.
É sentir os mortos de Madrid como se fossem de uma cidade portuguesa.
É planear estradas para Varsóvia como se nos levassem até ao Alentejo.
É aceitar que os nossos destinos sejam decididos longe das coisas que conhecemos e à revelia das pessoas das quais sabemos o nome.
Nessa altura, fará pouca diferença que seja o Minho ou Trás-os-Montes, perdão a Alemanha ou a Itália a ganhar o Europeu.
Como não faz que o primeiro-ministro seja de Lisboa, de Boliqueime ou das Donas.
Alguma vez lá chegaremos?
Outra vez

É inevitável. De vez em quando, o registo das pesquisas que aqui caem tem que vir a público.
Uma súmula das mais curiosas:
(a grafia é da inteira responsabilidade dos buscantes)

1 homens idiotas
2 fotos da ria cadillac pelada
3 CLIPART IMAGENS CHEFE
4 onde houve um sismo ?
5 botas caneleiras
6 grelhadores de frangos
7 pintores que faziam suas obras em papeis quadriculados
8 felicitar aniversariantes
9 blog entender mulheres
10 A contribuição de Zenão para os dias de hoje
11 sandes de paio
12 siga por aqui
13 senha do rio zezere
14 chapeu chaves
15 casamentos sines
16 o que écran?
17 "o que é um intelectual"
18 modelos de borla
19 msn conversa
20 MORTES NO DECERTO
21 compro carrinha de nove lugares
22 definicao de anedota
23 O QUE PREJUDICA O TABACO Á SAUDE
24 Fotos de escravos romanos
25 O QUE É A SONOPLASTIA , E PARA O QUE SERVE
26 mulheres disputam força bruta
27 qual o indicativo par ligar de portugal para o peru
28 frases engraçadas, arquivo morto
29 02 de novembro funcionario publico
30 palco do H
31 exemplos de disparates
32 materia para os testes escritos da guarda nacional republicana
33 festa privada 22/05 fotos
34 QUANDO É QUE SE VAI A INSPECÇÃO AUTOMOVEL
35 fotos sado mulher manda
36 frases sobre a desilusão
37 filhos nascidos no canada
38 caixoes bizarros
39 site da web que tenha uma novidade muito louca
40 delapidou paredes
41 sócrates espertalhão
42 tecnicas fazer barba
43 carros pensantes
44 fotos sogras de merda
45 Quem é o Lourenço do Sporting
46 frases bonitas matematica
47 as facanhas de bill gates

Quem olhe para isto sem atenção, pensará que aqui há de tudo como na botica.
Não é bem assim.

Eu voto na 9, na 31 e na 44.

20/06/2004

Um domingo diferente

O Dr. S. morreu há alguns anos.
Desde que me lembro, a bandeira nacional surgia na varanda da casa dele do nascer ao pôr do sol, em dias de domingo e feriados nacionais.
Andei há pouco pelas ruas e nunca vi nada assim. É difícil apanhar um ângulo que não traia a nossa condição de portugueses republicanos.
Mas na varanda onde morou o Dr. S. não há bandeira.
Golos



Há oito anos, enquanto Poborski passava a bola por cima de Vítor Baía, começava a atravessar o vale de Loures, em cima do altaneiro viaduto do IC18.
Há quatro anos, enquanto os turcos sofriam o primeiro golo, já tinha passado Alcácer rumo a sul. E dias depois, a senhora à minha frente algures no trânsito urbano pensou que era com ela que as buzinadelas dos demais se metiam. Nuno Gomes abria as portas da final, que o tal penalti no último minuto fechou de vez.
Tal como muitos anos antes, de eléctrico para a Graça, brotava dos rádios dos circunstantes mais um golo dos endiabrados coreanos a que Eusébio e os outros puseram cobro numa alucinante segunda parte entrevista em televisão comunitária, enquanto o meu pai bebia mais um café algures no caminho de casa.
Mesmo que não se seja fã destas coisas, elas ficam-nos na memória. Porque será?

Imagem da RTP
Contributo para a vitória


19/06/2004

Enquanto se aprova a constituição

E a ser verdade o que circula na imprensa, o Reino Unido faz tábua rasa de decisões judiciais dos competentes órgãos portugueses, informando que a pena aplicada a um dos habituais integrantes do lixo que costumam exportar, não se coaduna não sei com quê.
Pelo que, e repito, a ser verdade o que se diz, continua a fazer todo o sentido condenar aqui e expatriar depois. Brincamos à justiça.
Bem sei que o Reino Unido não é signatário dos Acordos de Schengen. Mas também sei da facilidade com que um passaporte ou documento de identificação comunitário transpõe uma fronteira dessas que se dizem quase eliminadas. Fará assim algum sentido falar em penas de expulsão do território nacional? Não andamos todos equivocados?
Enquanto isso, aprova-se uma constituição e o Reino Unido continua a encolher os ombros à costumeira e criminosa escória que a gente sabe.
Por falar nisso, e mais uma vez a ser verdade o que nos conta a imprensa, qual será a pena em que incorre um indivíduo que rouba uma ambulância em serviço de urgência?
Espero que eles se queixem se a polícia lhes bateu. Pode ser que isso acabe por ter boa publicidade. Se não vai a bem, pode ser que vá à mal.
Eu sei que ando com azia. Desculpem-me, meus caros.

18/06/2004

Sinais de perigo (II)



A verdade é que, à medida que as condições das estradas melhoraram, e melhoraram muito, à medida que os automóveis se tornaram mais seguros, e tornaram-se muito mais, aumentou a nossa sensação de segurança.
Para quem não tem o histórico dos automóveis com três velocidades, dos travões sem servo-freio, das direcções sem desmultiplicação e das estradas de maquedame ou apenas de terra batida e dos tapetes de alcatrão onde era necessária toda a cautela e um bom meio-metro de berma para que dois camiões se cruzasssem, para quem não tem essa experiência e nela não baseou a sua aprendizagem, é perfeitamente natural que o nível de confiança cega (todos nós temos um limite de confiança cega quando circulamos) seja alto.
É natural que habituado às vias actuais (ainda que algumas delas sejam ardilosas) não conte com uma curva de perfil transversal desadequado, não conte com um entroncamento mal sinalizado no final de uma recta larga e comprida, não se dê conta que num certo troço de auto-estrada, a visibilidade não se adequa à suposta velocidade de projecto.
Digamos que, inversamente mal comparado, se trata da ausência de necessidade que não contribui para o aguçar do engenho.
Tornaram-se os perigos menos evidentes? Creio que não.
Aumentou o limite da nossa confiança cega.
A confiança que nos permite descrever uma curva (excepto em algumas zonas do país) e esperar que não esteja um carro estacionado na via à saída da mesma.
A confiança que nos permite transpor uma lomba e esperar que não se encontre uma vala aberta a toda a largura da estrada.
Essa confiança tinha outrora um limite mais baixo. Na época do tomate (ainda acontece) não era raro tropeçar num reboque carregado deles à saída duma curva. Em dias de feira, poderia ser uma carro de parelha e um cão atrás. A certa hora do dia, um enxame de Faméis à saída de uma fábrica.
Para não falar de tapetes de alcatrão que terminavam de repente sem aviso. De estradas que passavam para dois terços da largura sem sinal e de muitas outras curiosidades, naturais ou não, que propiciavam o acidente ao mais incauto.
Nessa época estávamos equipados para enfrentar a coisa. Agora, aparentemente, não estamos.
Sinais de perigo



Se há coisas que nos parecem ser diferentes ontem e hoje, esta é para mim uma delas.
As minhas primeiras estradas foram tortuosas, difíceis de seguir. Não precisei que me apontassem os perigos para saber que eles lá estavam.
É claro que em alguns locais havia sinais de PERIGO DANGER. Quase sempre em curvas e contracurvas antes de atravessar alguma ribeira ou rio mais importante.
Mas nunca precisei que me dissessem que era proibido ultrapassar onde não devia, antes de lombas, de curvas sem visibilidade, de cruzamentos.
Sermpre me fez mais falta a sinalização provisória. Essa sim. Mesmo que não tenha acertado nas divisórias de betão com que alguém se divertiu a bloquear uma curva sem visibilidade, cortando a estrada em toda a largura, sem que o tivesse sinalizado.
Vivemos hoje um tempo diferente. É necessário assinalar perigos evidentes, talvez porque as cabeças andem cheias de coisas que só atrapalham.
Talvez porque tenhamos ensinado mal as gerações que vieram depois a andar na estrada.
Talvez isso aconteça porque poucos são os que têm os tais atavismos que só se ganham ao fim de três ou quatro gerações com um volante nas mãos.
Será que estas considerações, perto ou longe de valerem alguma coisa, não se aplicam também ao resto das coisas?
Dava a coisa pano para mangas, se fôssemos pelos caminhos da confiança e da visibilidade. Fica para outra altura.
Restos de traços


17/06/2004

Imprecisão

Acidente na E.N. 18 (Guarda ? Ervidel), em direcção ao Porto, junto ao Campo de Tiro de Alcochete.
Diria eu que é a 118, no sentido de quem vai para o Porto Alto.
É verdadeiramente impressionante a percentagem de erros neste tipo de informações.
Interessará assim tanto em que sentido se deu o acidente? Ou será que querem dizer que é depois do Campo de Tiro, para o lado do Porto Alto? Para quem vai do Montijo claro.
Ecos

Hoje, mais uns ecos de progresso no teletransporte.
Não consegui encontrar nada de substancial sobre a notícia em causa.
Sabe-se bem como certas notícias são difundidas. Se quem as transmite não tem a menor ideia do que está a dizer, é muito difícil separar o trigo do joio nas linhas assim lidas.
Uma coisa é certa. Damos passos, damos passos e um dia destes dias teremos uma revolução inimaginável mesmo para aqueles que se detiveram com estas ficções.

16/06/2004

As always (ainda as contas)

Confesso também que há uma coisa que sempre me diverte nestas alturas de fazer contas à vida, a bola pois.
É que não se aproveita uma.
Será que cada um diz o que lhe apetece?
Será mesmo verdade que os computadores só servem como máquinas de escrever?
Mas à mão também se fazem contas. Aprende-se lá para a escola primária.
São Pedro e os outros

Confesso que sempre ouvi com as orelhas à banda o tal argumento do acréscimo de turistas à conta do Euro 2004.
Haveriam de vir, como vieram, as equipas, os jornalistas, os adeptos.
Que isso tivesse algum impacto no tempo posterior, sempre duvidei.
A França tem mais visitas desde que organizou o Mundial de 98? A Holanda? A Bélgica? A Coreia do Sul? O Japão?
Se têm, qual foi o aumento?
Que se mostraria o país, isto e aquilo, as televisões...
Basta já ter visto reportagens em uns quantos canais de televisão de acontecimentos desportivos como este, para saber que tudo isso são quimeras.
Portanto, estava céptico quanto a esta capacidade atractiva do país e ao seu aumento por mor do torneio.
Mas esqueci-me deles.
De São Pedro e dos outros. Do nosso António (seja Fernão ou Fernando) e do Baptista.
Quis o primeiro, e é a ele que devemos o tempo que temos e não aos manda-chuvas, já toda a gente o sabe, que a temperatura subisse e se mantivesse alta pelo menos nos primeiros dias da coisa.
O segundo deu festa em Lisboa, com alguma porrada nos habituais suspeitos pelo meio, e o último decerto descarregará não alho-porro mas martelinhos de plástico nas cabeças já atordoadas dos nossos convidados, mesmo que os jogos no Porto não tenham um calendário favorável a essa coincidência.
Ora esta temperatura que vamos tendo em meados de Junho, não sendo inusual, é decerto surpreendente para quem nunca aqui pôs os pés.
Sabemos todos como certos povos se deliciam com os prazeres do sol.
Ao encontrarem um clima assim, na ponta de um voo charter de poucas centenas de euros e cerveja a preços de saldo (digo eu, que não sei os preços que agora se praticam) é possível que voltem.
Depois, lá vem a questão. Será que isso é bom para todos nós?

15/06/2004

As contas

Se uma vitória pode ser suficiente, também duas podem não chegar.
Depender dos outros, como sempre...
É a bola, pois.

14/06/2004

O ponto de vista do pedreiro

Divide-se essencialmente em duas categorias:
O ponto de vista de quem não consegue prever as consequências desta ou daquela solução mal engendrada e o ponto de vista de quem já não vai estar ali quando os defeitos se evidenciarem.
Entre uns e outros, há os mais propensos à argumentação. Uns convencidíssimos de que o interlocutor não percebe nada se desatarem a falar em prumos, em traços, em cimento branco e em roscones. Outros mais radicais, usam o lapidar então o senhor não vê que assim é que está bem?
Quase sempre se torna cansativo e pouco prometedor rebater a inexpugnável lógica com que nos esmagam.
Das duas uma, ou o paciente acaba por se render se não se julga à altura das sólidas razões aduzidas ou entra na lógica do faz-se isto e não discuta comigo.
Neste último caso, corre sérios riscos de enfrentar continuados resmungos e sorrisos trocistas, se a coisa não descambar para uma greve de zelo.
Eles é que sabem, eles é que sabem.
E ai daquele que tenha encolhido os ombros e mais tarde ouse chamá-los com um venha cá ver a merda que fez!
Que não, que não estava assim quando se acabaram os trabalhos. Irrebatível. De facto não estava.

13/06/2004

Europa

Como tudo na vida, a ideia de uma União Europeia é um cadinho de contradições.
A organização social dos homens é, aos olhos de um leigo, um processo demasiado complexo e cheio de incertezas, do qual se sabe apenas, e com o rigor possível, alguma coisa dos últimos dois mil anos.
Assistimos pelos relatos históricos a uma sedimentação de relações sociais com base num território, em ciclos de séculos.
Criar uma Europa Unida por decreto não será fácil. Deixar que ela se crie apenas pela mobilidade e pelas referências conjuntas dos cidadãos também não é garantido.
A questão da identidade é uma questão de escala.
À escala da aldeia, os da aldeia vizinha são forasteiros.
À escala da região, os da região ao lado têm outros costumes.
À escala dos países, os estrangeiros falam (ou não) outras línguas, comem outras coisas, manifestam-se de outro jeito.
Há ciclos de expansão de identidade e outros de recessão. Umas vezes defendemos a França, outras guerreamos os vizinhos do bairro.
Mas a Europa actual enquanto ensaia a moeda única, empurra petroleiros em risco de naufrágio, através de linhas de fronteira que ninguém distingue no mar.
Enquanto se comove com os atentados à sua civilização, degladiam-se os estados que a integram por protagonismos nesta ou naquela direcção.
Enquanto rasga estradas e vias férreas, preocupa-se com a excessiva atracção de alguns dos seus pólos.
Nada é garantido. A não ser que, em alguns séculos, uma realidade diferente terá lugar. Quanto tempo demorará, julgo que ninguém se atreve a palpitar.

12/06/2004

Leveza

Se a leveza é a das bandeiras que tremulam
Se o ânimo pode ser subido pelos golos
Juntemo-nos então ao espírito da coisa
E desagrademos assim hoje a gregos.

11/06/2004

Os ses na base da argumentação

Ainda devia estar fresco na memória. Mas já passaram três meses...
Os atentados terroristas em Madrid suscitaram, no plano político, as mais delirantes análises dos resultados eleitorais que se lhe seguiram.
Infelizmente, aqui, por razões diversas mas também trágicas, já vai sucedendo a especulação mirabolante, embora em pequena escala.
Em relação a Espanha, não houve dúvidas. Da esquerda à direita, todos se precipitaram a tirar conclusões impossíveis do desfasamento entre as últimas sondagens conhecidas e os resultados que se vieram a verificar.
A ninguém ocorreu que as sondagens pudessem estar muito longe da realidade.
Como tinham estado na última reeleição de Felipe Gonzalez.
Como estiveram aqui, por exemplo, nas últimas eleições autárquicas.
Em ambos os casos, não houve fenómenos de última hora que pudessem justificar tal afastamento.
Ouço hoje, ao serem mencionadas situações como a morte de Sá Carneiro e a sua repercussão nos resultados eleitorais, que as sondagens nessa época eram muito pouco fiáveis.
Tal como todas as outras ferramentas do dia a dia, de há vinte e quatro anos para cá, se verificou evolução. É natural que as sondagens hoje sejam mais precisas. Como natural é que, daqui a um quarto de século, se olhe com um sorriso para a forma como se fazem hoje.
Em relação às últimas legislativas em Espanha, sabe-se bem que muitas das análises que se ouviram sobre o assunto, cá e lá, mais não eram do que formas disfarçadas de se querer chegar a algum ponto político na argumentação.
De penalizar erros de primeira e de última hora, consoante o ponto de vista.
Um dado curioso, de que quase ninguém falou nessa altura porque não interessava, é o resultado das sondagens que apareceram já depois das urnas encerradas. Quase todos muito longe do alvo.
Tudo isto dá campo para muita opinião sobre os reflexos da trágica morte de Sousa Franco.
Quase todas elas baseadas em nada.
Pelo menos, ainda há quem face a esta situação, reconheça que não é capaz de se pronunciar sobre as eventuais modificações no voto por ela causadas.
Em muitos casos, o que se diz incapaz é o mais capaz de todos.
Veremos ainda se a questão se resume à atribuição do 24º mandato.

09/06/2004

Blogues e a vida lá fora

Interessa-me pouco a caracterização dos blogues. Como todas as caracterizações, será redutora quando fôr feita por alguém capaz para tal tarefa.
Assinei por baixo um post de JPT no Ma-Schamba aqui há uns tempos. Falava ele da possibilidade de se constituir um arquivo desta forma de escrita que surtou nos primeiros anos do séc. XXI.
Interessante seria por muitas razões.
Uma delas a de poder dispor de um outro instrumento além da imprensa para rever as actualidades desta época.
Aqui, pouco se falou de actualidades.
E é justamente por isso que saem estas linhas.
Em dias como o de hoje, em que os acontecimentos são marcantes e há abundância de referências cruzadas, surge uma dificuldade a mais para quem escreve sem atender ao momento.
Ter que o mencionar? Ter que dizer algo a propósito?
Faço-o quando sou impelido a isso. Nem sempre o sou.
Hoje, saíram-me curtas linhas.
Aprecio os que se detêm sobre os factos correntes e quase troco a leitura da imprensa pela de alguns blogues que a isso se dedicam.
Aprecio também os que o não fazem. Que mais ou menos poeticamente, mais ou menos racionalmente falam de coisas sem tempo.
Caracterizá-los não sei como se fará.
Mas que é pena deixar que desapareçam sem deixar rasto como fotografias que se abandonam ao sol, lá isso é.
A vida lá fora foi hoje ao ritmo de antanho. Sem energia, sem notícias, sem luz que não a do Sol.
Arruaça

Quando escrevi o último post, ainda não sabia da notícia do dia. Coisas de viver fora do mundo.
A arruaça é o que é. Nunca gostei de arruaças. Sejam elas promovidas por quem forem, da esquerda à direita.
E ainda dizem que o povo se transfigura ao volante.
A bandeira nacional



Na minha vida há duas bandeiras verde-rubras.
A primeira, desaparecida sabe-se lá por que artes, era aí de 1911.
Contava a história que tinha sido oferecida a um bisavô meu, consabido republicano, e era das primeiras confecções na forma actual.
Infelizmente perdida.
A segunda veio de onde tinha que vir, fazendo o trajecto inverso ao da glória.
Comprei-a na loja mais altaneira do Portugal continental. E lá veio, descendo a E.N. 339 pela serra abaixo, até ao Q.G..
Em dias de bandeira à futebol, está a bom recato. Não crê que a Pátria dependa de cinco ou seis pontapés numa bola. Envergonha-se. Não quer sair para não ser confundida com a arruaça.
E até já me confessou: só se lembram de mim por causa disto?

08/06/2004

Pausa a preto e branco

Que já soam sirenes


Divergências

Eu nunca aprendo. Tens razão. Assim nunca aprendo.

#@!%!*£@!

É verdade, não aprendo mesmo.

#@!%!*£@!

Talvez se me dissesses onde eu me enganei...

#@!%!*£@!

Em que argumento está o erro. Que implicação é imprópria.

#@!%!*£@!

Se me ouvisses de novo, calmamente, e me mandasses parar onde achas que erro...

#@!%!*£@!

Pois é. Eu nunca aprendo. Assim não aprendo.
Atã, mas...



Pensava eu que se tratava de Vénus à frente do Sol, com todas as conotações que a coisa pode ter se se lhe juntar a palavra monte, quando afinal...
Eu sabia que devia ter ido hoje de manhã lá para a altura da Malhada, mas nunca previ tal coisa.
5 pesquisas 5 indagando sobre esta foto: OVNI, Alentejo, foto.
Das duas, três. Eu não me admiro que a maior parte das pessoas não tenha identificado o ponto à frente do Sol. Dizem que é Vénus, mas nunca se sabe... Agora, e se os moços lá dos espaços lhes deu para aproveitar e se puseram disfarçados à frente do sol a ver se passava...
Esta foto eu garanto. Estava vento e fiquei até com a cabeça descoberta.
Mas afinal, aconteceu alguma coisa?
Em vez de bola, vai um ringue?


07/06/2004

Não olhem para o sol



Volta e meia, há destes avisos.
Não olhem para o sol, não façam isto e aquilo.
Eu fico de boca aberta. Bem, pode ser que batam na tecla por causa das crianças. Mas depois vem-me à cabeça a inevitável vontade de contrariar que os homens em tenra idade possuem. Será que repetir isto a torto e a direito não é contraproducente?
Quanto aos adultos, haverá alguém no seu estado normal de razão que se disponha a queimar a retina? Isso não faz parte de um certo instinto animal, com o qual já de crianças estamos equipados, independentemente da informação que possuímos?
Não haverá dados sobre o assunto? Quantos casos de cegueira se conhecem, causados por tal situação?
Valerá a pena tanta conversa?
Se vale, se realmente vale, então a evolução é um mito.
E, às vezes, face a certas campanhas e a certas afirmações é a conclusão a que chego.
Há gente que já não tem os pés assentes na terra. Isso será evolução ou será o quê?

Imagem em
Traços velhos


06/06/2004

Le jour J plus 21915

Hoje fiz uma coisa que é raro fazer. Pendurei-me na televisão e ali fiquei a ver as cerimónias.
Fiquei com a impressão de que bateram as de há dez anos.
Nesta coisa de comemorar as décadas, daqui a uma mais, já não haverá muitos sobreviventes.
Uma coisa que vi acontecer nas manhãs da Avenida da Liberdade, em onzes de Novembro sucessivos. Cada vez menos homens em sentido frente à estátua.
Compreende-se assim que estas comemorações tenham sido grandiosas.

Não enveredo por outras explicações mais complicadas.
Inúmeras considerações inúteis se poderiam fazer.
Mas a História, seja a história desta comemoração seja o do evento celebrado, não se justifica.
Acontece.
Iludidos andam aqueles que procuram justificações para tudo e para nada.

Na verdade, a única certeza que a História nos ensina, é que não há justificações para a História.
O que fez desencadear a guerra?
Uma coisa é certa. Não bastou um cabo austríaco para incendiar o mundo.

Talvez um dia quando o tal algoritmo evolucionista fôr descoberto e as condições iniciais se estabeleçam tal e qual, se saibam estas e outras respostas.
Até lá, é inútil tentar justificar a História. Mesmo esta que nos é coetânea.

05/06/2004

Em casa

Não me informei sobre a origem da expressão imortalizada em azulejo.
Os de língua inglesa também a usam, suponho que a nossa é uma tradução à letra. Não faço ideia.
Se fosse possível averiguar junto dos outros animais se este conceito também a eles se aplica, independentemente de ser uma planície, um lago, uma gruta, uma montanha, uma praia, um banco oceânico, talvez se conseguisse perceber mais sobre a fixação animal dos homens aos lugares...
Se... se... talvez... Surpreendo-me muitas vezes com a inutilidade de reflexões deste jaez que me passam pela cabeça.
Podia ser um pouco mais claro, meu caro? Ingleses, animais, azulejo, lugares... está a falar de quê?
Home, sweet home - será isso?
Bem, a verdade é que hoje li algo que me transportou de novo para...
Para a janela dos pardais? Para o muro de cem anos?
Para o meu lugar. Se não é o lugar de um homem a casa onde viveu grande parte da sua vida, onde deixou a marca de água nas madeiras, nos rebocos, nas árvores, aquele casmineiro não terá nascido da insistência em enterrar caroços?
Começou o verão, falta-te o muro e o azul, pardais madrugadores e folhas de nespereira.
Começou o verão do sol, que o oficial é só daqui a dias.

04/06/2004

A propósito de verões, ozono, mulheres e médicos

É sabido que em 1993 se verificaram os mais baixos níveis de ozono estratosférico registados sistematicamente.
O abaixo assinado não contava até então nos seus próprios registos uma que fosse queimadela do sol.
Numa tarde desse ano, e por circunstâncias que não vêm ao caso, descuidou-se.
Não se queimou muito mas ficou com aquela picadinha irritante debaixo da pele. E um bocadinho abananado.
Ao fim de um dia de férias estragado, lá se dispôs, cabisbaixo, a enfrentar a fila do Centro Médico. As mulheres acham sempre que os homens se deixam abater mais do que a conta.
Depois de uma horita de espera, lá se abre a porta amarela. O próximo.
"Então, c....., o que é que fazes aqui?"
Quando saí, risonho e triunfante e no vê lá tu quem é que estava a dar consulta, nem a cara dela me fez parar a pequena resenha das aventuras dos anos de Lisboa.
Já na farmácia, para o avio, é que me dei conta que elas às vezes podem ter razão.

02/06/2004

Ciência e cepticismo

Uma das coisas que me põe os cabelos em pé, em se tratando de ciência, é a desabrida conclusão do "nothing happened" face à igualmente desabrida inquietação dos especuladores.
Quando acontece qualquer coisa que não é fácil de entender, como o caso dos avistamentos de ontem, é sabido que as hostes do sensacionalismo e de outros ismos fazem uma festa.
Mas o que me choca é que face à onda de disparates que rapidamente se propaga, se assista a uma reacção supostamente científica de tentar explicar de imediato e de qualquer forma o que sucedeu.
As explicações como facilmente se percebe são meras efabulações. Muitas delas encerrando o próprio contraditório e pouco ajustadas aos relatos e às observações dos aparelhos.
Esta pressa da ciência em se querer equiparar à especulação em nada a ilustra.
Ainda estou à espera de saber o que aconteceu no verão de 1979. Que comparando com ontem foi um fenómeno de muito maior visibilidade.
Desanuviando



Foto de MSMS
Ah, pois!

Não sou, nunca fui adepto desta expressão.
Mas é o que me apetece dizer às vezes.
Há umas quantas situações para as quais não fui construído.
Uma delas é enfrentar alguém que nos julga completamente idiotas.
Isso pode suceder face a um vendedor de qualquer coisa, pode suceder com um comprador que se julga de olho vivo, pode suceder com um conhecido que nos aborda a propósito de qualquer coisa, tendo em mente outra diferente e que pensa que nos enrola.
E pode suceder em muitas outras circunstâncias.
As pessoas que assim agem, têm-se em tão alta conta que nem sequer se apercebem das suas muitas limitações. Geralmente, dá bota o discurso que preparam ou que lhes sai torrencialmente.
Não sei se sou muito desconfiado, não sei se é por ser alentejano
A verdade é que a tentação vai logo no sentido de uns quantos enfastiados "Ah, pois!" que lá consigo evitar à última hora.
Reajo mal ao comprador que desfaz quando não é meu hábito valorizar o que vendo. Faça o favor de inspeccionar o material, o preço é xis. Quer, quer, não quer, fica para a próxima.
O mesmo na situação inversa. Talvez a minha costela de regateio esteja hipotrofiada. Deve ser isso.
Mas o que mais me incomoda, e isso incomoda-me mesmo, é aquela coisa de conversa mole a propósito dos astros quando se está a ver que o objectivo é outro e parece que nos andam a sondar.
Não tenho mesmo poder de encaixe para isso.
Com este, já são dois posts de indignação. Nada a ver com a vida virtual. Mas com tudo a ver com o que se passa fora das quatro linhas do monitor.

O "Ah, pois!" de que eu gostava era dito por um velho amigo à passagem dos tais exemplares femininos. E a entoação era outra, muito diferente.

Desabafos, pois.

01/06/2004

Condutas

Quer a gente queira quer não, ética e moral a cada um a sua.
Talvez apenas por não ser homem de fé, sempre desconfiei dos excessivos ordenamentos sobre uma e outra.
Claro que são essenciais. Essenciais na medida em que do ponto de vista histórico, chegámos onde chegámos mercê de imposições que os homens atribuíram aos deuses.
Mostrando assim que o castigo é certo.
Mais do que as leis dos homens, as leis e os castigos divinos amedrontaram muita gente.
Vá-se lá demonstrar que assim foi. Mas descansa-nos pensar que sim. Como se isso agora fosse importante.
Não creio que seja muito difícil aceitar que o homem mais do que à justeza das leis, reage ao risco do castigo.
Se não crê que haja castigo divino, apenas teme o castigo dos outros homens.
O que não invalida que não construa a sua própria ética, a sua própria moral, provavelmente a partir de um base atávica fundada na religião dos seus antepassados.
Anda assim entre os limites auto-impostos e as barreiras que a sociedade lhe impõe, quer estes intervalos coincidam (o que é muito pouco provável) ou não.
De outro ponto de vista, há os que acreditam na bondade dos homens e os que não.
No meu caso, considero apenas que os homens são máquinas que lutam para sobreviver e para se reproduzir e que nada de bom ou de mau há à partida nelas.
Aceito isso dessa forma e sendo eu uma máquina igual, luto também pelo mesmo. Só isso.
Todas as minhas decisões se subordinam a esses dois princípios. Disso me convenço.

Optei por manter um certo grau de anonimato neste blogue.
Não tenho nada contra nem a favor de quem optou por se identificar.
Cada um sabe de si.
A decisão que tomei, subordinada ao que acabei de dizer sobre a espécie humana, vá-se lá saber como é que se formou.
Mas formou-se tendo como pano de fundo a ideia de que o anonimato não permite muita coisa. Não permite crítica directa, não permite apreciações específicas e também não deve albergar grandes encómios.
O que é uma limitação que não me importo de me impor, tendo em conta certo número de vantagens.
Entre essas vantagens inclui-se a baixa probabilidade de sofrer ataques pessoais.
Não é que os tema, mas aborrecem-me. E não escrevo aqui para me aborrecer.
Em boa verdade, não serei dos que mais inimigos de estimação fomentaram. Mas toda a gente os tem. Se me perguntarem quem são, não saberei identificá-los. Será falsa modéstia? Não sei.
Perdoem-me desde já todos os meus leitores.
Todos eles, sem uma única excepção, de uma elevada atitude quando por aqui deixam a sua achega, concordante ou discordante. Não tenho por isso a mínima razão de queixa e talvez soe a despropósito este texto.
Mas aceito mal ataques que vi nos últimos dias e que tenho visto ao longo do tempo, a pessoas que considero neste universo blogueiro.
Ataques cobardes, anónimos (o anonimato dos cobardes não deve, não pode diminuir a todos os que o escolhem) e pessoais.
Pessoais porque se dirigem só à pessoa que escreve e nada ao que está escrito.
Não quero dar lições a ninguém e nunca tive o sonho de mudar o mundo. Aceito as coisas como são. Há pessoas que para sobreviver precisam de ter uma ética muito própria, que repugna à maioria.
A mim, repugna-me. Mas tenho que viver com isso.
E porque tenho que viver com isso, decidi pelo anonimato.
Mais uma vez, peço desculpas aos meus leitores.
Vós não mereceis que estas linhas aqui saiam. Mas também não é a vós que me dirijo.
Hoje escrevo para quem me não lê. E ainda bem.

31/05/2004

Objectos únicos



Anteontem à noite, Peter Gabriel trouxe-me à memória uma presente de aniversário recebido há umas décadas.
Trata-se do LP Peter Gabriel 2. O exemplar que me ofereceram é feito a partir de massa preta e branca.
Um LP raiado. Haverá outros de outras edições de outros autores. O meu, ao que me disseram na época, é unzinho e foi feito de propósito.

30/05/2004

Aberto o concurso

Declaro aberto o concurso público para a atribuição do meu voto nas eleições europeias de 13 de Junho de 2004.
Serão admitidos a concurso todos os candidatos enquadrados em listas de acordo com a Lei em vigor.
Serão excluídos todos aqueles que não consigam entender a diferença entre acesso(s) e acessibilidade.
Não terão acessibilidade é o que é.
Os cheiros do verão

Este ano está chocho. Estamos aqui, estamos em Junho e nada.
Talvez eu cometa um erro ao afirmar que os aromas do verão me marcam mais do que os de outras estações do ano.
Muita gente cita os dos primavera.
Mas a verdade é que guardo na memória uma colecção de perfumes estivais.
Uns mais naturais do que outros.
As praias têm cheiro. Cada uma o seu.
Os carros cheiram a quente.
Os montados cheiram a cortiça.
Os caminhos cheiram a pó.
Mas este ano está chocho. Muito chocho.
Mudem lá isso para o verão.

28/05/2004

Isossistas da comoção



Tomemos como exemplo o terramoto de 1755. Ainda hoje se tentam reconstituir as isossistas desse dia. Quantos abalos houve? Centrados onde?
As fontes são inúmeras, toda a gente o sabe. Um fenómeno natural que para a época quase anunciava o fim de l'Ancien Régime.
Mas são pouco esclarecedoras. Não fosse a colecção de registos do Inquérito às Paróquias e outros documentos de acervos locais, o quadro da desgraça não seria tão conhecido.

Suponhamos agora que a comoção é uma grandeza escalar. Sem grande rigor, uma Mercali das sensações.
Suponhamos também que a importância de um acontecimento mortífero é uma grandeza escalar, directamente proporcional ao número de mortes.
Sabendo que um acontecimento deste tipo pode consensualmente ocorrer num intervalo de tempo mais ou menos extenso, quer de trate duma guerra, duma peste, dum furacão, dum terramoto, de um acidente causado pelo homem, suponhamos que é possível relacionar directamente um certo número de mortes com o sucedido.

Atrevamo-nos a dizer que existe uma relação linear ou não, entre a importância de um acontecimento deste tipo e a comoção por ele provocada em grupos humanos.
Se existe essa relação e se tanto a importância do acontecimento como a comoção geradas podem ser medidas, por serem grandezas escalares, poder-se-á decerto mapeá-las.
A um acontecimento produzido no local L, de importância I, corresponderá, em certo instante pertencente ou não ao intervalo da sua duração, um conjunto de isossistas (chamemos-lhe assim) passando por grupos humanos sujeitos a uma comoção de igual grandeza.

Suponhamos que tudo isto é possível.
Que surpresas nos guardariam os mapas de alguns dos acontecimentos recentes?
Que factores se teriam de levar em conta para explicar o desenho das curvas?

27/05/2004

Subtis, o cacete...

Eu sempre tive a impressão que batatas com bacalhau não era a mesma coisa que bacalhau com batatas.
Acho que não foi na escola, não foi em casa. Foi algures no mundo que aprendi ou que ganhei essa impressão.
Mas vejo essa diferença ser hoje ignorada. Da mesma forma que não há mestres de cantaria, entalhadores artistas e outros profissionais do milímetro, as subtis diferenças também se foram.
Nem em tudo, é claro.
Mas dir-se-ia que no geral, para quem é, bacalhau basta! Ou serão só as batatas?

26/05/2004

Pistas

Aquele era o sítio.
Pequeno por dentro, grande por fora.
Música que se amaciava dos decibéis a mais, à medida que caminhava na direcção da praia.
Escadarias, pequenos recantos, a lua por acaso cheia.
Olhava o rosto dela a essa luz.
Não sabia muito bem que rótulo lhe apor. Segunda escolha?
Segunda escolha decerto não naquele dia. Naquele dia não. Olhara para ela com outros olhos.
Um rosto que ele supunha não voltar a ver. Ofuscado que estivera sempre pelo sorriso de uma estranha presença.
Não. Segunda escolha não. O que seria feito da pequena princesa atormentada que surgia sempre do nada?
Essa sim, essa não apareceria mais.
Não ofuscaria o brilho ligeiramante estrábico daqueles olhos. Não. Não viria.
De repente, o remorso. Porquê? Por que carga d'água nunca reparara a sério naquela face?
A música apenas se misturava com o som do mar. Com as palavras pouco mais do que ciciadas que ela pronunciava.
Teria reparado outrora? Seria por isso que a sentara no banco das suplentes?
Não. Agora, o banco era de tijolo, muro acabado a tartaruga. Tudo branco. Branco brilhante nos contornos da íris castanha. Pequena divergência.
Suave a pele, tão suave. Morena. E serenas as palavras, sempre serenas.
Não mais procurou fosse quem fosse. Apenas um ou dois copos apanhados no bar, à revelia da comitiva. Aquele rosto não fazia parte do catálogo que os outros lhe atribuíam.
E ninguém mais se acercou da pequena plataforma sobre a praia.


Caminhou lado a lado com a inevitável companhia mais uma vez.
No terraço, seguiu o mesmo caminho.
Quando reparou que ela se encostava ao mesmo muro, da mesma forma, voltou a lembrar-se da segunda escolha.
Depois, ela tocou em qualquer coisa que estava no chão.
"Olha lá, onde é que te meteste ontem à noite?"

Dançaram como sempre. As mesmas músicas.
Ao fim da noite, discretamente, voltou ao recanto e roubou do chão o copo da véspera.

25/05/2004

Sob estes olhos

Vento do deserto
E mar suado.
Na costa dos Esqueletos
Aportei.
St. Exupéri caiu mais a norte,
Mas não tenho bússola
Que me desdiga.
Há um rosto na praia
Entre barcos em ruínas.
No olhar, pistas, rumos,
Travessias.
Farol falso de contrabandistas
E piratas.
Travessias dos desertos
Ou morrer na praia
Sob estes olhos?

SG, inéditos, 1998

24/05/2004

Pantalássico

Estatísticas, registos, anotações.
Eu sempre fui mais pelos sítios onde ousava abandonar o estado de vigília. Uma espécie de mapa dos locais seguros para baixar a guarda.
R.C. ao contrário, anotava as bacias hidrográficas onde vertia águas. Tinha o objectivo último de ser pantalássico. Contribuir para a massa de todos os oceanos, sendo que todos são um.
Soube disto num cais qualquer do Sena.
Faltou então o terceiro português para completar o provérbio.



Foto de MSMS
Os habituais disparates

Nada disto é, mais uma vez, novo.
Gosto pouco de falar de actualidades, mas há algo recorrente nestas coisas que, aparentemente, não é visto, não é assinalado.
Falo do colapso da estrutura de betão do aeroporto de Roissy.
Há qualquer fenómeno na nossa sociedade, decerto já estudado por alguns, que parece dividir os cidadãos entre os filhos da filosofia grega e os repetidores de argumentos sem sentido.
Uns dirão que é a massificação da comunicação, outros que sempre assim foi e que o que essa massificação faz é não difundir o erro mas ampliá-lo. Sendo coisas diferentes.
Dou de barato que o racionalismo não é tudo na vida. Já aqui o disse por mais de uma vez. Mas continuo convencido de que, tenha ele as bases onde as tiver, falte-lhe a consistência e os dados que lhe faltarem, nos trouxe até ao patamar em que estamos.
E que é difícil (só difícil?) discutir seja o que fôr sem usar lógica. Depois, até podemos discutir (?) a discussão em si, a sua validade, por aí fora...
Retomando.
Independentemente da minha falta de informação, pois apenas disponho dos dados que obtive nas televisões e nos jornais, parto do seguinte conjunto de informações:
Existia uma estrutura em betão do tipo túnel com janelas, em que assentava uma outra estrutura metálica de suporte a vidraças.
Essa estrutura colapsou depois de fissurar.
Suponho (com algumas dúvidas) que o troço que colapsou era idêntico aos adjacentes.
A estrutura estava ao serviço há cerca de um ano.
Ouço depois as habituais lengalengas:
Que a estrutura foi feita à pressa.
Que a data da inauguração prevista foi postergada por mor da falta de condutas secas (?) para os bombeiros, de sinalização e ainda por ter caído um candeeiro.
E que durante a obra, as falhas de segurança do estaleiro eram evidentes.
Isso foi o que ouvi e que li.
Ora isto leva-nos onde?
Leva-nos a um primeiro ponto que é recorrente e esclarecedor: quando acontecem coisas destas, há sempre um sem número de factores irrelevantes mas supostamente negativos que nos é apresentado como decisivo - a falta de sinais, a falta de condutas, o candeeiro caído e a insegurança do estaleiro. Faltou dizer que o engenheiro chefe usava sempre uma camisa negra e que as garrafas de água bebidas pelos operários eram de duvidosa proveniência.
É com esta espécie de argumentação que se pretende explicar o sucedido.
E leva-nos mais longe, leva-nos a ignorar que quando colapsa uma estrutura destas, uma de três coisas deve ter acontecido: ou foi mal calculada, ou foi mal executada ou foi sujeita a esforços para os quais não estava dimensionada.
Dando de barato que não houve um sismo de grande magnitude em Roissy ontem de manhã, que nenhuma aeronave colidiu com o terminal e que não se procedeu a uma demolição propositada da estrutura, podemos eliminar a terceira hipótese.
Ficamos com o erro de projecto ou com má execução.
Aqui faz algum sentido apanhar o sentido das frases soltas que se ouviram - foi tudo feito à pressa!
Ah, pois foi! E não é isso o que sucede hoje em dia em todo e qualquer lado? Que obra pública ou privada se faz hoje sem que haja uma correria desenfreada contra o tempo?
A frase ridícula de alguém que dizia que agora pensava duas vezes antes de entrar num aeroporto poderá ter sido dita por quem reside num edifício construído à pressa, por quem transita por vias feitas à pressa, por quem assiste a jogos de futebol em estádios feitos à pressa...
Tudo se faz a correr. É o sinal dos tempos. Não adianta berrar a torto e a direito, porque quem decidiu isso fomos todos nós. Todos queremos mais produtividade, mais riqueza criada pelas nossas mãos, mais dinheiro ao fim do mês.
Às vezes pagamos caro por isso.
Ainda se há-de descobrir o que aconteceu. Mas de certeza que não foi por não haver sinalização, condutas ou pela cor da camisa do engenheiro responsável que a coisa se deu.

23/05/2004

Z - À falta de material



Podem, sim. A gente tem pressa no trabalho feito.
E depois, como é que fazemos? Para fechar as portas, essas coisas...
Ah, não se preocupem, o guarda há-de vir aqui. Depois, avisam-no quando saírem...

E assim foi, a tarde caiu. A noite fechou-se, os holofotes lá apontavam para as reparações que iam sendo feitas.
O cansaço acumulava-se, até porque a semana já tinha incorporado outras noitadas.

Ô. Ô. Ô. - era assim a modos que um grito. Uma vaia sem vocativo.
A parte da nave industrial que os holofotes não cobriam apenas tinha aqui e ali um ténue brilho de reflexão. Parda.
Do meio disso, surgiu a figura. Baixa, com uns óculos de massa e um boné de orelhas, que o frio apertava. Não para eles que trabalhavam para aquecer. Um cão pouco mais que minúsculo, acompanhava as botas que podiam ser de elástico. E levantava, orgulhoso ou requerente, o focinho.

Não esperavam já guarda nenhum. Eram quase três da manhã e ainda havia muito para fazer.
A figura surpreendeu-os, de facto.

Então, aqui andam, a trabalhar...
É verdade.
Não me disseram nada.
Não?
Não. Ninguém me disse que vocês aqui estavam. Até podia ter trazido o cão. Ou a arma. Mas nunca solto aquela fera. E não gosto de apontar uma arma a um homem, atão e agora?
Quer dizer que estávamos sujeitos a ataque?
Ladrões... ladrões... atão veja lá. Ninguém me disse nada. Eu é que não quis trazer a arma. Nem o cão.
Pois é, a gente disse ao seu patrão que ia ficar. Ele disse que o avisava.
Mas estão a trabalhar... Se vocês soubessem como os outros aqui penaram... à falta de material. Eles bem queriam trabalhar, ficavam aqui também à noite, mas... à falta de material, o que eles aqui penaram... Vocês têm tudo o que precisam? Não lhes vai acontecer como aos outros, à falta de material...?
Não. Esteja descansado. Não será à falta de material...
Mas está frio! Não têm frio?
Frio? Há lá frio que entre com a gente, homem! Estamos a trabalhar.
Pois eu tenho. Tenho que andar de um lado para o outro. Mas não trouxe o cão. Vocês sabem lá do que aquilo é capaz. Este não. Este coitado. Agora a fera... nem lhe abro a porta do canil. É perigoso. E também não sou homem para apontar uma arma a outro homem, atão e agora?... Mas não me disseram nada...
Pois é, esqueceram-se.
Não lhes disseram para irem ter comigo? É que eu nunca aponto uma arma a outro homem, atão e agora... Também nunca quis conhecer outro homem, atão e agora? Mulheres? Mulheres, já conheci muitas. Agora outro homem, nunca quis conhecer nenhum... atão e agora?
Pois é, faz bem.

Amigo, vamos embora.
Tá tudo pronto?
Tá. Se a coisa correr bem, só voltamos para a semana.
Ah sim? Atão e o que é que pode correr mal?
Pode acontecer que ainda haja chochos para preencher. Só depois do material secar, é que se vê.
Ah sim?
É. Por agora, parece bom. Mas daqui a umas horas, pode ser que apareçam pequenos orifícios, coisa pouca.
Atão e eu não posso ver isso?
Pode. Você é capaz de dar uma vista de olhos e ver se está tudo na mesma? Venha cá que eu explico-lhe o que é que pode acontecer...

Teja descansado. Daqui a umas duas horas, ligue-me.
Tá certo.
Sabe o número?
Então não é o número aqui da fábrica?
É. Mas você faz o seguinte: Dá-me uma letra. Por exemplo Z. Liga e diz Z. Não diz mais nada. Assim eu já sei que é você e digo logo: Sem novidade!

22/05/2004

Curiociosidades

Se o tabaco prejudica a saúde, e poucos ou nenhuns duvidam que assim seja, porque é que, do ponto de vista do coleccionador, se podem encontrar actualmente 28 diferentes embalagens do tradicional SG Filtro?
O mesmo se aplicará, suponho, a todas as outras marcas e modelos.
São duas mensagens diferentes de um dos lados do maço e catorze (ou quatorze) do outro.
Se alguém descobriu mais, faça o favor de dizer.

21/05/2004

Os dinheiros



Que a política é um exercício de prestidigitação parece não restarem grandes dúvidas.
Depois dos tempos da força bruta, da repressão, disto e daquilo, chegamos à idade da representação.
Os actores são quase todos maus. Os lado esquerdo e os do lado direito do palco. Eles lá se colocaram nessas posições relativas, muitas vezes sem perceberem como nem porquê.
O público é o que é.
Uns batem palmas, outros assobiam, alguns pateiam, poucos atiram ovos.
Os actores falam entre si num dialecto estranho. Ninguém os entende. Nem os esclarecidos sentados nos fauteuils de orquestra, nem os deserdados das galerias.
Julgam convencer a audiência de que quem pagou o palco, as vestes, a música, não se encontra ali. Na realidade o dinheiro dos bilhetes foi muito bem empregue. Todo para instituições sociais.

Saindo da sala, depois do espectáculo, ainda ressoam as palavras.
O dinheirinho com que se faz a festa não é vosso. Caiu do céu.

Porque é que será que o dinheiro esbanjado pelas câmaras municipais, pelas empresas públicas e por outras entidades que sobrevivem com o dinheiro que alguns de nós entregam aos cofres do estado, teima em não dizer de onde vem?

20/05/2004

Pedido de desculpas



Já com mais de trinta anos de atraso, mas lá vai.
Minha senhora:
Apesar dos boatos que fizemos correr em devido tempo, mercê das nossas técnicas de telefonia baseadas na ampliação jornalística propriamente dita. Sim, era com jornais em forma de cone que amplificávamos os nossos comunicados marginais. Sim, marginais, porque o fazíamos quase sempre na estrada da praia. Mas digo, apesar disso nunca foi proibido fazer curoché na praia. Muito o menos o foi na esplanada do Habimar, embora saibamos todos que não era do agrado da gerência.
Foi assim em vão o seu receio, em boa hora transmitido a suas amigas e depois segredado aos nossos ouvidos cúmplices. Cúmplices e autores desse falso alarme.
Previsão e prevenção



J. teve sempre uma capacidade de previsão acima da média.
Não se tratava de previsões económicas, meteorológicas ou dos habituais prognósticos da bola, tratava-se de dormir descansado.
E suportava até ao limite a irritação dos outros, como bom condutor de homens quando tinha a certeza de que estava certo.
Como daquela vez em que, de férias, com o irmão e com o melhor amigo, os fez dar voltas e voltas até estacionar o carro junto a um prédio em obras.
Aqui poderemos dormir descansados.
Os outros já quase nem respondiam, mas ainda sorriram e largaram um desconfiado huuum, ao pé de uma obra....
Que não, que era domingo e que o sol só bateria por ali, lá para a tarde. Longe da estrada, sem ruído. E assim foi, só acordaram quando as costas já não podiam mais.
Estava tão treinado nas situações, mesmo a escolher os lugares para pernoita ao relento, que qualquer sinal que lhe indicasse a perturbação do descanso era identificado e analizado. Deixassem-no dormir em paz.
De vez em quando cometia imprudências. Poucas é certo. Mas houve aquela vez em que alugou a costumeira casa algarvia pelo telefone e ao chegar avisou logo a mulher: Amanhã vamos à procura de uma casa em Espanha. Depois virou o olhar para a betoneira escondida atrás das figueiras.
Havia ainda a recordação mais remota de um Domingo de Ramos na velha cidade forte e fria (os outros efes que se acusem...) quando os pais lhe destinaram um quarto ao lado dos sinos da Igreja da Misericórdia.
Hoje J. telefonou-me.
Acordou com berbequins, rebarbadoras, martelos eléctricos ao lado da cama. Está pois à beira sabem todos do quê...

19/05/2004

O clima está a diminuir

Há uns anos esta manchete apareceu num jornal.
Não se tratava de climinha. Ou de qualquer liberdade poética. Era o clima mesmo.
Agora, ficamos a saber que um terço da costa portuguesa está a ser destruída.
Eu cá estou em dificuldades para enquadrar estas duas afirmações.
Ainda não percebi se são contraditórias, se são relacionadas do tipo causa-efeito ou vice-versa.
Mas confesso que me preocupo.
A costa a ser destruída sem que eu veja por lá as bondosas, as catrapilas, dá-me que pensar.
Quem andará a fazer tal maldade?

Falando a sério.
A linha de costa está a recuar? Receio que haja pouco a fazer nesse capítulo.
Estas coisas não se medem aos palmos, nem em séculos.
Avanços e recuos acontecem. É natural que as barragens impeçam os depósitos sedimentares nas zonas estuárias, é natural que o aproveitamento das areias favoreça o avanço das águas.
Mas o problema está muito acima desses aspectos. São ciclos de uma grandeza que nos escapa e forças a que não nos podemos opôr com eficácia.
Podemos fazer alguma coisinha? Ah sim. Os holandeses fazem-no há muito. Mas nem sempre as coisas são parelhas aqui e ali.
E não ajuda nada ouvir tanto disparate a propósito. Mas isso também é habitual. Forças cuja grandeza nos impede de as combater.
Há os revoltados. Ainda os hei-de ouvir clamar contra os movimentos tectónicos e a deriva dos continentes. Talvez reivindiquem indemnizações por nos terem separado da América. Ou talvez não.



A imagem ilustrativa é do IM e apenas nos diz que os deuses parecem ter identificado os dois pólos do nosso país. Não bradem muito alto que eles andem aí.
Ah, e a importância relativa de cada um... será que os deuses vão à bola connosco?

18/05/2004

Concessão ao basquetebol



Vinte anos depois, o caneco tá à mão. Falta dobrar o FCP.
Cães metálicos

Cães metálicos
Esculpidos por romenos
Bailam em telhados
Que são varandas
Sobre cores
Cães metálicos
E negros
Juntos em matilha
Tragam cobras
Que lhes disputam
A língua
Cães metálicos
E romenos
Em pedestais de prata
Sobre que cores
Mar de morte
De cães e víboras
De raiva e esgana
Cães metálicos
De cuspo vivo
Nas mandíbulas
Cães rosnando em ferro
Sobre estátuas



SG, inéditos, 1998