04/05/2005
03/05/2005
O que queremos saber e o que não queremos
Este blogue começou com uma frase - Dizer o óbvio.
Dizer o óbvio, o dito e o redito. Não há nada mais absurdo do que pretender ser original, discorrer sobre as coisas como se ninguém antes o tivesse feito da mesma forma. Registada ou não.
Se se conseguem avanços na técnica, o que é indesmentível, já no pensamento temos poucas descobertas. E temos aquela máxima ridícula do "já não se pensa assim" que apenas sublinha o pouco acerto de uma intelectualidade sujeita a modas.
Em todos os tempos, há coisas que queremos saber e outras que não.
Muitas das que não queremos saber seriam até fáceis de esclarecer a certa escala. Mas os insondáveis mecanismos sociais a isso obstam.
Fica disso um resto de suposta consensualidade. De tem que ser.
As condições ideais, já o disse aqui, lembram-me sempre peixes que comprava na praça, embrulhados em papel de jornal.
Ou, tendo em conta os dias que correm, embrulhados em plástico. É indiferente.
Só mudou a moda.
Este blogue começou com uma frase - Dizer o óbvio.
Dizer o óbvio, o dito e o redito. Não há nada mais absurdo do que pretender ser original, discorrer sobre as coisas como se ninguém antes o tivesse feito da mesma forma. Registada ou não.
Se se conseguem avanços na técnica, o que é indesmentível, já no pensamento temos poucas descobertas. E temos aquela máxima ridícula do "já não se pensa assim" que apenas sublinha o pouco acerto de uma intelectualidade sujeita a modas.
Em todos os tempos, há coisas que queremos saber e outras que não.
Muitas das que não queremos saber seriam até fáceis de esclarecer a certa escala. Mas os insondáveis mecanismos sociais a isso obstam.
Fica disso um resto de suposta consensualidade. De tem que ser.
As condições ideais, já o disse aqui, lembram-me sempre peixes que comprava na praça, embrulhados em papel de jornal.
Ou, tendo em conta os dias que correm, embrulhados em plástico. É indiferente.
Só mudou a moda.
02/05/2005
Apostinhas
Tenho pouca paciência para teimosias. Já me basta a minha.
Quando se trata de um qualquer irredutível a proferir disparates sobre matéria de facto, não mexo os lábios a não ser para dizer: "Vai uma apostinha?"
Se pegar, pegou. Sempre se ganha qualquer coisa. Se não pegar, acabou a disputa.
Mas não aposto só pela certa. Coisa que há quem ache que não é de bom tom.
Aposto também quando tenho palpites estapafúrdios, como daquela vez que apostei em Outubro - sei até que foi no dia 18, porque essa aposta teve lugar enquanto almoçávamos e passavam na televisão as imagens do terramoto em São Francisco, ocorrido no dia anterior - que o Benfica ia chegar à final da Taça dos Campeões Europeus e perdia. Não ganhei uma pipa de massa porque estranhamente não encontrei muitos mais apostadores convencidos do contrário(!).
Ou quando as coisas me parecem, como quando Mário Soares andava pelos 8% nas sondagens e eu apostava, apenas secundado por mais dois, contra um café inteiro que ele iria ser o próximo presidente da República.
E também aposto na completa escuridão. Qualquer coisa que mereça uma boa aposta. E há sempre milhões de coisas susceptíveis de serem apostáveis sobre as quais um grupo não tem o menor controlo ou previsão.
Ora isto leva-me ao seguinte ponto: por que raio é que não há-de haver outro tipo de apostas, já que há o totobola, o totoloto e outros? Não é com toda a certeza por não serem legais ou legítimas, uma vez que sendo legítimo apostar no resultado de um jogo de futebol não se adivinham impedimentos a que se aposte na classificação final, no número de pontos somados por todos os clubes ou outra coisa qualquer.
Da mesma forma, se é legítimo o aproveitamento da ingenuidade alheia nos diversos votos SMS promovidos pelas televisões, por que raio não há-de esse bolo ser disputado como aposta?
Não faltam inquéritos desses que podiam ser assim transformados.
E para além disso, abria-se um campo à imaginação. Não faltam por aí moços e moças capazes de conceber as mais mirabolantes hipóteses apostivas.
E, ao mesmo tempo, baixava-se o bedame a muito arauto que mete a viola no saco quando dá palpites errados.
Pois, é isso mesmo, devia ser obrigatório para certos analistas quando se deitam a adivinhar, uma linhazinha no final da crónica:
Apostei 4:1 nesta hipótese - enterrei 1500 euros. A ver vamos.
Ah, e para quem pense que sou profissional destas coisas e que me farto de ganhar dinheiro: a grade de cervejas é que é a unidade-padrão das apostas (por enquanto).
Ah ainda - há depois outras coisas que já não se podem considerar apostas. Mas que também dão lucro. Um destes dias direi quais são.
Tenho pouca paciência para teimosias. Já me basta a minha.
Quando se trata de um qualquer irredutível a proferir disparates sobre matéria de facto, não mexo os lábios a não ser para dizer: "Vai uma apostinha?"
Se pegar, pegou. Sempre se ganha qualquer coisa. Se não pegar, acabou a disputa.
Mas não aposto só pela certa. Coisa que há quem ache que não é de bom tom.
Aposto também quando tenho palpites estapafúrdios, como daquela vez que apostei em Outubro - sei até que foi no dia 18, porque essa aposta teve lugar enquanto almoçávamos e passavam na televisão as imagens do terramoto em São Francisco, ocorrido no dia anterior - que o Benfica ia chegar à final da Taça dos Campeões Europeus e perdia. Não ganhei uma pipa de massa porque estranhamente não encontrei muitos mais apostadores convencidos do contrário(!).
Ou quando as coisas me parecem, como quando Mário Soares andava pelos 8% nas sondagens e eu apostava, apenas secundado por mais dois, contra um café inteiro que ele iria ser o próximo presidente da República.
E também aposto na completa escuridão. Qualquer coisa que mereça uma boa aposta. E há sempre milhões de coisas susceptíveis de serem apostáveis sobre as quais um grupo não tem o menor controlo ou previsão.
Ora isto leva-me ao seguinte ponto: por que raio é que não há-de haver outro tipo de apostas, já que há o totobola, o totoloto e outros? Não é com toda a certeza por não serem legais ou legítimas, uma vez que sendo legítimo apostar no resultado de um jogo de futebol não se adivinham impedimentos a que se aposte na classificação final, no número de pontos somados por todos os clubes ou outra coisa qualquer.
Da mesma forma, se é legítimo o aproveitamento da ingenuidade alheia nos diversos votos SMS promovidos pelas televisões, por que raio não há-de esse bolo ser disputado como aposta?
Não faltam inquéritos desses que podiam ser assim transformados.
E para além disso, abria-se um campo à imaginação. Não faltam por aí moços e moças capazes de conceber as mais mirabolantes hipóteses apostivas.
E, ao mesmo tempo, baixava-se o bedame a muito arauto que mete a viola no saco quando dá palpites errados.
Pois, é isso mesmo, devia ser obrigatório para certos analistas quando se deitam a adivinhar, uma linhazinha no final da crónica:
Apostei 4:1 nesta hipótese - enterrei 1500 euros. A ver vamos.
Ah, e para quem pense que sou profissional destas coisas e que me farto de ganhar dinheiro: a grade de cervejas é que é a unidade-padrão das apostas (por enquanto).
Ah ainda - há depois outras coisas que já não se podem considerar apostas. Mas que também dão lucro. Um destes dias direi quais são.
01/05/2005
30/04/2005
O ciclo fecha-se (com fé)
Quando, na noite de 18 de Maio próximo, Pedro Barbosa levantar a Taça UEFA em pleno Alvalade XXI, um ciclo de quase 50 anos estará fechado.
Um ciclo iniciado a poucos quilómetros, no Estádio Nacional, a 4 de Setembro de 1955, com o primeiro de todos os jogos das competições europeias de clubes.
Com o Sporting como anfitrião e o Partizan de Belgrado como adversário.
Pelo meio, passou pela conquista da Taça das Taças em 1964.
E ao completar-se, de verde e branco, 50 anos depois, carrega de simbolismo a vitória.
Vamos a eles!
Quando, na noite de 18 de Maio próximo, Pedro Barbosa levantar a Taça UEFA em pleno Alvalade XXI, um ciclo de quase 50 anos estará fechado.
Um ciclo iniciado a poucos quilómetros, no Estádio Nacional, a 4 de Setembro de 1955, com o primeiro de todos os jogos das competições europeias de clubes.
Com o Sporting como anfitrião e o Partizan de Belgrado como adversário.
Pelo meio, passou pela conquista da Taça das Taças em 1964.
E ao completar-se, de verde e branco, 50 anos depois, carrega de simbolismo a vitória.
Vamos a eles!
29/04/2005
Passagem para Lisboa
Os pais não costumam revelar aos filhos as patifarias que faziam aos seus pais, na juventude.
Ou talvez o façam quando tal já não tem qualquer importância como exemplo.
Do meu pai, recebi sempre mais exemplos do que lições. Serviram-me bem, assim o creio.
Mas, um certo dia, já a coisa não faria grande mossa na sua reputação, veio a história.
Que estava já no Porto, a acabar os estudos, quando foram inauguradas as carreiras regulares entre a Invicta e a capital, por via aérea.
Nesses dias, a muito consabida e anormal necessidade de novos livros e compêndios, chegou por carta ao Alentejo.
Poucos dias depois, num fim-de-semana, chegou a casa mais depressa do que os pais calculavam.
Não acredito que o meu avô não tivesse dado pela coisa.
Lembrei-me hoje disto, dizem que a TAP faz sessenta anos. Não foi a 14 de Março?

imagem do Dakota das páginas da TAP
Os pais não costumam revelar aos filhos as patifarias que faziam aos seus pais, na juventude.
Ou talvez o façam quando tal já não tem qualquer importância como exemplo.
Do meu pai, recebi sempre mais exemplos do que lições. Serviram-me bem, assim o creio.
Mas, um certo dia, já a coisa não faria grande mossa na sua reputação, veio a história.
Que estava já no Porto, a acabar os estudos, quando foram inauguradas as carreiras regulares entre a Invicta e a capital, por via aérea.
Nesses dias, a muito consabida e anormal necessidade de novos livros e compêndios, chegou por carta ao Alentejo.
Poucos dias depois, num fim-de-semana, chegou a casa mais depressa do que os pais calculavam.
Não acredito que o meu avô não tivesse dado pela coisa.
Lembrei-me hoje disto, dizem que a TAP faz sessenta anos. Não foi a 14 de Março?

imagem do Dakota das páginas da TAP
O assunto é sério
E por demais debatido.
Já ouvi descrições das mais variadas formas de lhe fazer face.
Uns dormem com um caderninho na mesa de cabeceira - já o fiz. Outros levantam-se a meio da noite e resolvem o assunto, outros ainda têm um gravador de bolso ou o telemóvel à mão para fazerem o relato da ocorrência.
Há também os que acordam a testemunha mais à mão para lhe dar conta. Creio ser esse o processo mais falível e mais arriscado.
O certo é que tenho a convicção de que ontem, depois de ter visto Bob Hoskins no papel de Mussolini, me surgiram em catadupa linhas e linhas de texto sobre a primeira metade do séc. XX, as ideologias perfeitas e as tentativas de as aplicar.
Hitler morreu em 1989. Estaline ainda está vivo. Outros, menos conhecidos, mas igualmente "perfeitos" são dados como desaparecidos. Ou não será assim?

imagem de
E por demais debatido.
Já ouvi descrições das mais variadas formas de lhe fazer face.
Uns dormem com um caderninho na mesa de cabeceira - já o fiz. Outros levantam-se a meio da noite e resolvem o assunto, outros ainda têm um gravador de bolso ou o telemóvel à mão para fazerem o relato da ocorrência.
Há também os que acordam a testemunha mais à mão para lhe dar conta. Creio ser esse o processo mais falível e mais arriscado.
O certo é que tenho a convicção de que ontem, depois de ter visto Bob Hoskins no papel de Mussolini, me surgiram em catadupa linhas e linhas de texto sobre a primeira metade do séc. XX, as ideologias perfeitas e as tentativas de as aplicar.
Hitler morreu em 1989. Estaline ainda está vivo. Outros, menos conhecidos, mas igualmente "perfeitos" são dados como desaparecidos. Ou não será assim?

imagem de
27/04/2005
25/04/2005
Discussões
Uma das discussões mais estéreis e absurdas que ocorreu há um ano atrás, centrava-se na queda de um "R". Como se não tivesse havido uma revolução em 1974 ou se as coisas desde então não tivessem evoluído.
Nunca percebi o que sustentava tanto ímpeto polemista à volta do caso. Mas não era decerto a letra em causa.
Dir-se-á que o homem não vive sem estas querelas. Sem querer pôr os outros na ordem ou na desordem. A mim tanto se me dá. Não pretendo iluminar ninguém.
Mas quando se fala no 25 de Abril, percebe-se que ainda não decorreu o tempo suficiente para poder para ele olhar com distanciamento. Até os que depois dele nasceram parecem submetidos a umas quantas verdades indiscutíveis.
Não posso saber o que desencadeou de facto a revolta dos militares. Não estive presente em nenhuma das reuniões preparatórias e apenas sei o que li e ouvi depois.
Tenho como todos os que tinham já idade para tal, uma ideia do clima que se vivia.
Da inevitabilidade da queda de um regime podre por dentro.
No qual ninguém já acreditava.
E da iminência dessa queda, reflectida nos inúmeros boatos que, independentemente da origem, coincidiam na notícia.
Claro que havia também os que achavam que a coisa se prolongaria por mais uns quantos anos, tendo em conta a forma como o regime se defendia dos seus adversários. Creio que não eram muitos os que assim pensavam.
Penso pois que a razão directa pela qual caiu é de somenos importância. Se era um maior ou menor descontentamento dos militares com a questão dos milicianos, se era outra coisa qualquer.
Nestas coisas da História, encontrar explicações é quase sempre tropeçar num episódio como o descrito por Luz Soriano na "História da Guerra Civil" quando relata a queda de Lisboa a 24 de Julho. Ou ainda mais remotamente na aclamação do Mestre de Aviz.
Mas houve uma revolução nesse dia. Uma revolução que não terminou com a conquista da cidade.
E houve naturalmente uma evolução. Que teria existido independentemente do resto.
Não percebo que dúvidas é que isto suscita ou suscitou o ano passado.
Uma das discussões mais estéreis e absurdas que ocorreu há um ano atrás, centrava-se na queda de um "R". Como se não tivesse havido uma revolução em 1974 ou se as coisas desde então não tivessem evoluído.
Nunca percebi o que sustentava tanto ímpeto polemista à volta do caso. Mas não era decerto a letra em causa.
Dir-se-á que o homem não vive sem estas querelas. Sem querer pôr os outros na ordem ou na desordem. A mim tanto se me dá. Não pretendo iluminar ninguém.
Mas quando se fala no 25 de Abril, percebe-se que ainda não decorreu o tempo suficiente para poder para ele olhar com distanciamento. Até os que depois dele nasceram parecem submetidos a umas quantas verdades indiscutíveis.
Não posso saber o que desencadeou de facto a revolta dos militares. Não estive presente em nenhuma das reuniões preparatórias e apenas sei o que li e ouvi depois.
Tenho como todos os que tinham já idade para tal, uma ideia do clima que se vivia.
Da inevitabilidade da queda de um regime podre por dentro.
No qual ninguém já acreditava.
E da iminência dessa queda, reflectida nos inúmeros boatos que, independentemente da origem, coincidiam na notícia.
Claro que havia também os que achavam que a coisa se prolongaria por mais uns quantos anos, tendo em conta a forma como o regime se defendia dos seus adversários. Creio que não eram muitos os que assim pensavam.
Penso pois que a razão directa pela qual caiu é de somenos importância. Se era um maior ou menor descontentamento dos militares com a questão dos milicianos, se era outra coisa qualquer.
Nestas coisas da História, encontrar explicações é quase sempre tropeçar num episódio como o descrito por Luz Soriano na "História da Guerra Civil" quando relata a queda de Lisboa a 24 de Julho. Ou ainda mais remotamente na aclamação do Mestre de Aviz.
Mas houve uma revolução nesse dia. Uma revolução que não terminou com a conquista da cidade.
E houve naturalmente uma evolução. Que teria existido independentemente do resto.
Não percebo que dúvidas é que isto suscita ou suscitou o ano passado.
23/04/2005
22/04/2005
Jornal
É verdade. Há muito que não lia um jornal diário em papel.
O há muito é o bastante para significar que certas coisas me espantaram.
A primeira foi ter verificado que ainda existe a secção da necrologia.
Foi nos antigos "O Século" e "Diário de Lisboa" que fiz o meu tirocínio como leitor de jornais.
Mais n' "O Século" pois era este o único que o meu avô assinava. Aqui pelas bandas dos subúrbios citadinos, o meu pai trazia os dois. Um à hora do almoço, outro à hora do jantar.
E em dias de guarda, lá vinha a formidável pontaria do homem que lançava jornais às janelas, a quase quinze metros do chão. Ignoro se o formato tablóide dá dobra para tal projéctil.
N' "O Século", depois de ultrapassada a fase em que só lia as maiúsculas, a morbidez inclinava-me para as secções Viação Perigosa e Dia-a-Dia. Notícias breves de acidentes de automóvel e de rixas de vizinhos. Claro que havia também as insuspeitas doenças súbitas. Desaguava então na referida necrologia.
Hoje, verifiquei por exemplo que as múltiplas chamadas dos pequenos anúncios envolvendo nomes de localidades não se referem a andares à venda mas a bustos 44, atendimentos personalizados e massagens não sei de onde. Verifiquei que as farmácias de serviço, no caso era uma necessidade, não figuram. Verifiquei muitas outras coisas de somenos importância - que ainda há estranhas formas de ajudar os apostadores a jogar no totoloto, horóscopos, palavras cruzadas e outros passatempos com letras. Mas falta o salto de cavalo. O salto de cavalo em falta é imperdoável.

Soluções no próximo número
É verdade. Há muito que não lia um jornal diário em papel.
O há muito é o bastante para significar que certas coisas me espantaram.
A primeira foi ter verificado que ainda existe a secção da necrologia.
Foi nos antigos "O Século" e "Diário de Lisboa" que fiz o meu tirocínio como leitor de jornais.
Mais n' "O Século" pois era este o único que o meu avô assinava. Aqui pelas bandas dos subúrbios citadinos, o meu pai trazia os dois. Um à hora do almoço, outro à hora do jantar.
E em dias de guarda, lá vinha a formidável pontaria do homem que lançava jornais às janelas, a quase quinze metros do chão. Ignoro se o formato tablóide dá dobra para tal projéctil.
N' "O Século", depois de ultrapassada a fase em que só lia as maiúsculas, a morbidez inclinava-me para as secções Viação Perigosa e Dia-a-Dia. Notícias breves de acidentes de automóvel e de rixas de vizinhos. Claro que havia também as insuspeitas doenças súbitas. Desaguava então na referida necrologia.
Hoje, verifiquei por exemplo que as múltiplas chamadas dos pequenos anúncios envolvendo nomes de localidades não se referem a andares à venda mas a bustos 44, atendimentos personalizados e massagens não sei de onde. Verifiquei que as farmácias de serviço, no caso era uma necessidade, não figuram. Verifiquei muitas outras coisas de somenos importância - que ainda há estranhas formas de ajudar os apostadores a jogar no totoloto, horóscopos, palavras cruzadas e outros passatempos com letras. Mas falta o salto de cavalo. O salto de cavalo em falta é imperdoável.

Soluções no próximo número
20/04/2005
Mania de ser elefante
Mais tarde ou mais cedo, havia de acontecer.
Não me faltavam, nem a nenhum de nós, suponho, lições sobre como e porquê reescrever a história.
Talvez o porquê seja inatingível, na medida em que não acredito que a história se decida por vontades e com explicações claras e objectivas. Mas isso é, com perdão do conceito redundante, outra história.
Esta mania de recordar factos passados só se torna perigosa quando eles se avivam na mente de quem escuta. Quando o interlocutor percebe que não há ali invenção ou fantasia. Foi assim mesmo. Também se recorda afinal.
Eventualmente recorda-se de um ou outro esqueleto que guardou no armário desde essa época.
Pois é. Por alguma razão, existe esta figura do direito ao esquecimento.
Esta mania de ser elefante trouxe-me um dissabor. Cuja causa não entendi nem quero entender. É o meu direito à ignorância.
Mas é, por outro lado, a confirmação do que há muito sabia. Para alguns, o esquecimento é fundamental. Afinal, assim são as coisas na nossa cabeça. Não sabermos já o que almoçámos anteontem.
Mais tarde ou mais cedo, havia de acontecer.
Não me faltavam, nem a nenhum de nós, suponho, lições sobre como e porquê reescrever a história.
Talvez o porquê seja inatingível, na medida em que não acredito que a história se decida por vontades e com explicações claras e objectivas. Mas isso é, com perdão do conceito redundante, outra história.
Esta mania de recordar factos passados só se torna perigosa quando eles se avivam na mente de quem escuta. Quando o interlocutor percebe que não há ali invenção ou fantasia. Foi assim mesmo. Também se recorda afinal.
Eventualmente recorda-se de um ou outro esqueleto que guardou no armário desde essa época.
Pois é. Por alguma razão, existe esta figura do direito ao esquecimento.
Esta mania de ser elefante trouxe-me um dissabor. Cuja causa não entendi nem quero entender. É o meu direito à ignorância.
Mas é, por outro lado, a confirmação do que há muito sabia. Para alguns, o esquecimento é fundamental. Afinal, assim são as coisas na nossa cabeça. Não sabermos já o que almoçámos anteontem.
18/04/2005
16/04/2005
15/04/2005
Mais dois agradecimentos e um lamento
O anormal número de visitantes que esta pacata casa acolheu hoje deve-se à coincidência entre a partida que me fez o João Espinho e as gentis referências da Juliana e do Dante, lá da outra banda do mar.
É a ambos que agradeço terem-se lembrado destas vagas linhas aqui escritas.
Se ao Saudade do presidente Figueiredo fui dar hoje através do contador de acessos, ao After the fall e ao seu antecessor há muito que batia à porta.
O lamento é pelo post que a Juliana escreveu em jeito de despedida. Espero que ela volte depressa.
O anormal número de visitantes que esta pacata casa acolheu hoje deve-se à coincidência entre a partida que me fez o João Espinho e as gentis referências da Juliana e do Dante, lá da outra banda do mar.
É a ambos que agradeço terem-se lembrado destas vagas linhas aqui escritas.
Se ao Saudade do presidente Figueiredo fui dar hoje através do contador de acessos, ao After the fall e ao seu antecessor há muito que batia à porta.
O lamento é pelo post que a Juliana escreveu em jeito de despedida. Espero que ela volte depressa.
Cadeia de Literatura
Ora bem, pela primeira vez nesta colectividade, e graças ao João Espinho, ali da famosa Praça da República, calha-me entrar numa cadeia.
Então, a entrevista decorre assim:
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
- Por muito difícil que fosse memorizar os diferentes Arcádios e Aurelianos, e depois de ter visto o próprio Montag, seria decerto os Cem Anos de Solidão.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
- Não me parece.
Qual foi o último livro que compraste?
- "Diogo Alves e os crimes do aqueduto" de Artur Varatojo. Ainda não li.
Qual o último livro que leste?
- "Pernambuco no tempo do cangaço" de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho. É uma colecção de notas, notícias de jornal, ordens de serviço e outros documentos tendo como pano de fundo a carreira militar do avô do autor.
Que livros estás a ler?
- O 2º volume da obra acima.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
- Cinco livros que não tivesse lido. Assim sendo, não sei responder.
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
- À Lili
- À Riacho
- Ao Gato (que anda escondido)
Porque blá blá blá... e espero que nenhuma delas me excomungue.
Obrigado, João, pela d(r)eferência.
Ora bem, pela primeira vez nesta colectividade, e graças ao João Espinho, ali da famosa Praça da República, calha-me entrar numa cadeia.
Então, a entrevista decorre assim:
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
- Por muito difícil que fosse memorizar os diferentes Arcádios e Aurelianos, e depois de ter visto o próprio Montag, seria decerto os Cem Anos de Solidão.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
- Não me parece.
Qual foi o último livro que compraste?
- "Diogo Alves e os crimes do aqueduto" de Artur Varatojo. Ainda não li.
Qual o último livro que leste?
- "Pernambuco no tempo do cangaço" de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho. É uma colecção de notas, notícias de jornal, ordens de serviço e outros documentos tendo como pano de fundo a carreira militar do avô do autor.
Que livros estás a ler?
- O 2º volume da obra acima.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
- Cinco livros que não tivesse lido. Assim sendo, não sei responder.
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
- À Lili
- À Riacho
- Ao Gato (que anda escondido)
Porque blá blá blá... e espero que nenhuma delas me excomungue.
Obrigado, João, pela d(r)eferência.
Mais uma concessão à bola

Eu sei que não percebo nada de futebol. E que vejo pouco. Mas ontem vi o meu Sporting.
Vi o meu Sporting tal como vi a selecção durante o campeonato europeu. Com expectativa e com emoção.
Ora o que não compreendo é esta euforia à roda do jogo.
O Sporting procurou jogar ao ataque - de acordo.
O Sporting jogou melhor do que o adversário - de acordo.
O Sporting mereceu a vitória - de acordo.
Mas o Sporting teve muita sorte, tal como teve a nossa selecção no campeonato europeu, particularmente frente à Inglaterra e à Espanha.
Dir-se-á que não se chega a lado nenhum sem sorte - mais uma vez de acordo.
Agora o que eu não vi no Sporting foi aquela sensação de favas contadas que o Porto mostrou por exemplo na chegada à final (quartos e meias finais) da Taça das Taças de 1984, na conquista de 1987 da Taça dos Campeões Europeus e até da Taça UEFA de 2003. Já o ano passado, como sabemos, houve alturas em que parecia ter terminado ali a carreira da equipa.
Nessas competições, a forma como o Porto jogava, com uma segurança defensiva fora-de-série, e com um ataque sem grandes falhas, dava a ideia a cada momento que era só uma questão de minutos até o adversário cair. Não vi isso ontem, lamento dizê-lo.
Claro que há adversários e adversários. E que uns acabam por pôr mais a nu as fragilidades do que outros.
Mas eu não percebo nada de futebol.
Também espero, desejo, que o meu Sporting ganhe a taça.
Eu sei que não percebo nada de futebol. E que vejo pouco. Mas ontem vi o meu Sporting.
Vi o meu Sporting tal como vi a selecção durante o campeonato europeu. Com expectativa e com emoção.
Ora o que não compreendo é esta euforia à roda do jogo.
O Sporting procurou jogar ao ataque - de acordo.
O Sporting jogou melhor do que o adversário - de acordo.
O Sporting mereceu a vitória - de acordo.
Mas o Sporting teve muita sorte, tal como teve a nossa selecção no campeonato europeu, particularmente frente à Inglaterra e à Espanha.
Dir-se-á que não se chega a lado nenhum sem sorte - mais uma vez de acordo.
Agora o que eu não vi no Sporting foi aquela sensação de favas contadas que o Porto mostrou por exemplo na chegada à final (quartos e meias finais) da Taça das Taças de 1984, na conquista de 1987 da Taça dos Campeões Europeus e até da Taça UEFA de 2003. Já o ano passado, como sabemos, houve alturas em que parecia ter terminado ali a carreira da equipa.
Nessas competições, a forma como o Porto jogava, com uma segurança defensiva fora-de-série, e com um ataque sem grandes falhas, dava a ideia a cada momento que era só uma questão de minutos até o adversário cair. Não vi isso ontem, lamento dizê-lo.
Claro que há adversários e adversários. E que uns acabam por pôr mais a nu as fragilidades do que outros.
Mas eu não percebo nada de futebol.
Também espero, desejo, que o meu Sporting ganhe a taça.
13/04/2005
Um dia estranho

Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, depois de tantos anos, apareceste no meu sonho.
Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, logo hoje que apareceste no meu sonho e depois de tantos anos, me telefonaste.
Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, logo hoje, tinha o telefone ligado.
Hoje, que tantas coisas pequenas aconteceram, levando-me à irritação e à tomada de decisões que se vinham adiando.
Logo hoje, depois da irritação com os ladrões, com o lixo que aí por anda, sim, acredito pouco nos homens, quando me dá a travadinha vem ao de cima o desprezo pela gente que rouba, que maltrata os outros. Aqueles que eu acho que só sofrendo na pele as bordoadas percebem alguma coisa. Se é que percebem. Não sou piedoso nem condescendente. Já deves saber isso, há tantos anos que me conheces.
Logo hoje, apaziguaste-me com o mundo.
Foi uma voz. Um forte sotaque. As lembranças. Até daquela noite em que quase te fazia desistir do casamento. Melhor assim, rapariga. Melhor assim.
O rio Mira ia cheio mas nós os dois cá na mesma banda.
Um pouco mais a norte, a esplanada do Habimar e aquela face que sorria. Eu nem precisei de perguntar quem eras. A fama precedia-te.
Uns dias depois, apanhaste-me desprevenido à porta de casa, envergando a camisa dos toiros. O assobio quadrado que ouvi fez-me olhar à volta para ver qual das moças merecera tal agravo. E identificar o agressor.
E o que vi foi a (des)conhecida que ficara bem gravada, a gozar comigo e ainda com o biquinho do assobio.
Havia lá forma de não nos enrolarmos?
Logo hoje...
Isto anda muito autobiográfico.

Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, depois de tantos anos, apareceste no meu sonho.
Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, logo hoje que apareceste no meu sonho e depois de tantos anos, me telefonaste.
Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, logo hoje, tinha o telefone ligado.
Hoje, que tantas coisas pequenas aconteceram, levando-me à irritação e à tomada de decisões que se vinham adiando.
Logo hoje, depois da irritação com os ladrões, com o lixo que aí por anda, sim, acredito pouco nos homens, quando me dá a travadinha vem ao de cima o desprezo pela gente que rouba, que maltrata os outros. Aqueles que eu acho que só sofrendo na pele as bordoadas percebem alguma coisa. Se é que percebem. Não sou piedoso nem condescendente. Já deves saber isso, há tantos anos que me conheces.
Logo hoje, apaziguaste-me com o mundo.
Foi uma voz. Um forte sotaque. As lembranças. Até daquela noite em que quase te fazia desistir do casamento. Melhor assim, rapariga. Melhor assim.
O rio Mira ia cheio mas nós os dois cá na mesma banda.
Um pouco mais a norte, a esplanada do Habimar e aquela face que sorria. Eu nem precisei de perguntar quem eras. A fama precedia-te.
Uns dias depois, apanhaste-me desprevenido à porta de casa, envergando a camisa dos toiros. O assobio quadrado que ouvi fez-me olhar à volta para ver qual das moças merecera tal agravo. E identificar o agressor.
E o que vi foi a (des)conhecida que ficara bem gravada, a gozar comigo e ainda com o biquinho do assobio.
Havia lá forma de não nos enrolarmos?
Logo hoje...
Isto anda muito autobiográfico.
Geografia
Há coisas que não me surpreendem. Mas que mostram claramente o jornalismo que temos.
Quando um jornalista faz uma reportagem e não sabe onde está, como há pouco na RTP.
Sucede mais vezes do que se possa pensar.
Não é preciso recuar ao verão passado.
Há coisas que não me surpreendem. Mas que mostram claramente o jornalismo que temos.
Quando um jornalista faz uma reportagem e não sabe onde está, como há pouco na RTP.
Sucede mais vezes do que se possa pensar.
Não é preciso recuar ao verão passado.
10/04/2005
Notícias serôdias
A noite era já de Maio, 1º do dito, cacimbada e deserta, nas ruas do Alentejo marítimo.
Ao abrir a porta, vi a figura plantada no eixo da via.
Olhou para mim com um ar algo interrogativo, talvez por não contar ver alguém sair assim tão bem ataviado em local de vilegiatura.
Cumprimentei-o como se faz no Alentejo. Boa noite. Não me respondeu senão quando eu já tinha dado uns trinta passos.
Voltei-me para trás, vi-o parado no mesmo local. Na rua nevoenta, apenas ele e eu, já quase a dobrar a esquina. Disse-lhe então que o melhor era vir beber um café comigo, um ministro assim parado no meio da rua... Acho que não me respondeu. Nessa noite, no carro da E., ainda comentei que podíamos ter convidado o homem para o resto da festa. Ela achava que não.
Dez anos depois, reparo agora que o homem não ficou parado no meio da rua. É o que diz a rádio, o que mostra a televisão.
A noite era já de Maio, 1º do dito, cacimbada e deserta, nas ruas do Alentejo marítimo.
Ao abrir a porta, vi a figura plantada no eixo da via.
Olhou para mim com um ar algo interrogativo, talvez por não contar ver alguém sair assim tão bem ataviado em local de vilegiatura.
Cumprimentei-o como se faz no Alentejo. Boa noite. Não me respondeu senão quando eu já tinha dado uns trinta passos.
Voltei-me para trás, vi-o parado no mesmo local. Na rua nevoenta, apenas ele e eu, já quase a dobrar a esquina. Disse-lhe então que o melhor era vir beber um café comigo, um ministro assim parado no meio da rua... Acho que não me respondeu. Nessa noite, no carro da E., ainda comentei que podíamos ter convidado o homem para o resto da festa. Ela achava que não.
Dez anos depois, reparo agora que o homem não ficou parado no meio da rua. É o que diz a rádio, o que mostra a televisão.
A fé na política
Não é preciso recuar muito para que nos argumentários políticos se perceba uma certa fé e uma certa aceitação, aparentemente inquestionada e inquestionável, de algum tipo de dogmas.
É preciso recuar ainda menos para perceber que muitos dos que assinavam por baixo nessas cartilhas passaram a renegá-las.
E ao fazê-lo quase o fazem com o mesmo fervor com que anteriormente as defendiam.
Está o mundo cheio destes exemplos. Dir-se-á que é da natureza humana. Que seja. O que me custa a entender é que venham desses lados os clamores pela coerência. Que a coerência não é um dos atributos humanos, a não ser na procura da sobrevivência, parece-me evidente. Por isso faz pouco sentido que a exijamos. Menos faz quando não nos olhamos ao espelho.
Não é preciso recuar muito para que nos argumentários políticos se perceba uma certa fé e uma certa aceitação, aparentemente inquestionada e inquestionável, de algum tipo de dogmas.
É preciso recuar ainda menos para perceber que muitos dos que assinavam por baixo nessas cartilhas passaram a renegá-las.
E ao fazê-lo quase o fazem com o mesmo fervor com que anteriormente as defendiam.
Está o mundo cheio destes exemplos. Dir-se-á que é da natureza humana. Que seja. O que me custa a entender é que venham desses lados os clamores pela coerência. Que a coerência não é um dos atributos humanos, a não ser na procura da sobrevivência, parece-me evidente. Por isso faz pouco sentido que a exijamos. Menos faz quando não nos olhamos ao espelho.
09/04/2005
A chuva
É-me difícil dizer se já vi a terra tão seca como está agora, em Abril. Tenho sempre muitas dúvidas quando ouço as certezas alheias.
O que sei é que já vi secas, várias secas e também já vi anos de chuva mais ou menos abundante.
No Alentejo, as barragens que existem há décadas contam pelos dedos de mãos humanas os anos em que atingiram o nível de pleno armazenamento. Já as vi mais baixas. Não nos esqueçamos que a despeito de pouco ter chovido este inverno, o final do verão passado - o mês de Agosto - foi particularmente chuvoso, não provocando a normal evaporação da época.
Vejo o meu montado cada vez com mais baixas, isso é um facto. Azinheiras mais, sobreiros um pouco menos, lá vão definhando. Não é coisa nova, infelizmente. Há uns trinta anos ou mais já ouvia o meu pai dar conta disso.
Aqui e ali, um viveiro de árvores novas vai dando alguma esperança. Mas a regeneração não tem compensado as perdas.
Veremos o que sucede este ano.
É-me difícil dizer se já vi a terra tão seca como está agora, em Abril. Tenho sempre muitas dúvidas quando ouço as certezas alheias.
O que sei é que já vi secas, várias secas e também já vi anos de chuva mais ou menos abundante.
No Alentejo, as barragens que existem há décadas contam pelos dedos de mãos humanas os anos em que atingiram o nível de pleno armazenamento. Já as vi mais baixas. Não nos esqueçamos que a despeito de pouco ter chovido este inverno, o final do verão passado - o mês de Agosto - foi particularmente chuvoso, não provocando a normal evaporação da época.
Vejo o meu montado cada vez com mais baixas, isso é um facto. Azinheiras mais, sobreiros um pouco menos, lá vão definhando. Não é coisa nova, infelizmente. Há uns trinta anos ou mais já ouvia o meu pai dar conta disso.
Aqui e ali, um viveiro de árvores novas vai dando alguma esperança. Mas a regeneração não tem compensado as perdas.
Veremos o que sucede este ano.
08/04/2005
8 de Abril
Não vou ver o teu nome escrito na pedra que os anos escureceram.
Estive por aí há menos de um mês acompanhando mais um dos teus bons amigos, de quem te fizeste primo.
Neste último ano desmanchámos a velha casa.
Mas ainda está no mesmo sítio o cadeirão onde te sentaste para sempre.
É das poucas coisas que resta.
As tuas árvores continuam a resistir e mais algumas das tuas obras vão passando os cinquenta com ares de moças novas.
O teu filho mais novo casou, um pouco mais novo do que tu - não esperou pelos 40.
Ainda não tens netos mas talvez para o ano haja mais um do teu nome.

espólio Campos Vilhena - autor desconhecido
Não vou ver o teu nome escrito na pedra que os anos escureceram.
Estive por aí há menos de um mês acompanhando mais um dos teus bons amigos, de quem te fizeste primo.
Neste último ano desmanchámos a velha casa.
Mas ainda está no mesmo sítio o cadeirão onde te sentaste para sempre.
É das poucas coisas que resta.
As tuas árvores continuam a resistir e mais algumas das tuas obras vão passando os cinquenta com ares de moças novas.
O teu filho mais novo casou, um pouco mais novo do que tu - não esperou pelos 40.
Ainda não tens netos mas talvez para o ano haja mais um do teu nome.

espólio Campos Vilhena - autor desconhecido
07/04/2005
06/04/2005
05/04/2005
Dropping names
Na verdade, a imagem que mais me ocorre não é a do lápis azul, a que de resto só vi os traços em fotografias históricas embora ache que se tratava de um vulgar lápis de côr, é a do padre tocando a campaínha em pleno Cinema Paraíso.
1162 páginas - diz o processador de texto. A vermelho as que passaram para aqui.
Não fiz a conta às que foram cortadas.
É de há nove anos o primeiro texto. Não me passava então pela cabeça vir a expô-los a escrutínio.
Também é certo que, não fora o blogue, muitas das impressões, memórias, observações que me dei ao trabalho de teclar não teriam sido fixadas.
Ora desse conjunto de coisas escritas, muitas das que não foram aqui publicadas não o foram porque mencionam nomes.
Não se trata de críticas nem de ataques pessoais, sequer de louvores. Trata-se de citações, de evocações, de referências. Que incluem gente viva e morta e gente que nunca existiu, parte de uma confusão entre História e mito que o meu amigo SG fez o favor de me comunicar, com a devida autorização de publicação.
Aos vivos e aos mortos não faria sentido mencioná-los a fazer e a dizer coisas que nunca presenciei. A comer pão com manteiga, a guiar em marcha-atrás, a saltar de arranha-céus, a navegar à bolina, a encher pneus.
Dos últimos, seria desnecessário dar conta das façanhas e das fraquezas de Xenofonte, o Controverso; Sebâncio, o Forte; Xerxes, o Timorato; Simão, o Foxtrot; Peu, o Assim-Sebento entre outros, pois são por demais conhecidas do público em geral.
Ainda assim, um destes dias sentar-me-ei aqui a escolher das fitas, digo, das páginas proibidas, o que me aprouver.
Na verdade, a imagem que mais me ocorre não é a do lápis azul, a que de resto só vi os traços em fotografias históricas embora ache que se tratava de um vulgar lápis de côr, é a do padre tocando a campaínha em pleno Cinema Paraíso.
1162 páginas - diz o processador de texto. A vermelho as que passaram para aqui.
Não fiz a conta às que foram cortadas.
É de há nove anos o primeiro texto. Não me passava então pela cabeça vir a expô-los a escrutínio.
Também é certo que, não fora o blogue, muitas das impressões, memórias, observações que me dei ao trabalho de teclar não teriam sido fixadas.
Ora desse conjunto de coisas escritas, muitas das que não foram aqui publicadas não o foram porque mencionam nomes.
Não se trata de críticas nem de ataques pessoais, sequer de louvores. Trata-se de citações, de evocações, de referências. Que incluem gente viva e morta e gente que nunca existiu, parte de uma confusão entre História e mito que o meu amigo SG fez o favor de me comunicar, com a devida autorização de publicação.
Aos vivos e aos mortos não faria sentido mencioná-los a fazer e a dizer coisas que nunca presenciei. A comer pão com manteiga, a guiar em marcha-atrás, a saltar de arranha-céus, a navegar à bolina, a encher pneus.
Dos últimos, seria desnecessário dar conta das façanhas e das fraquezas de Xenofonte, o Controverso; Sebâncio, o Forte; Xerxes, o Timorato; Simão, o Foxtrot; Peu, o Assim-Sebento entre outros, pois são por demais conhecidas do público em geral.
Ainda assim, um destes dias sentar-me-ei aqui a escolher das fitas, digo, das páginas proibidas, o que me aprouver.
04/04/2005
Não há limite para a estupidez
Sou como os demais. Também me irrito com a estupidez. Particularmente com a minha. Essa é a que mais solenemente me irrita.
Há neste combate dos homens contra a estupidez uma dose (estúpida) de incoerência.
Se a mentalidade hoje instalada é totalmente contrária à discriminação e à catalogação compreende-se mal que a estupidez seja tão catalogada, ridicularizada e discriminada.
Mas é. Não se pode atacar outra qualquer deficiência, outra qualquer anormalidade, mas a estupidez, ah essa, é malhar-lhe forte e feio.
Como ninguém fez nada por nascer estúpido, míope, com o pé chato, com propensão para a calvície (outra das que merece ainda chacota), parece-me sempre da mais óbvia estupidez (lá estou eu) que se ataquem os estúpidos.
Mas é uma espécie de desporto internacional. Estúpido, é claro.
O que hoje fiz e me levou a esta irritação é exemplar:
A porra da impressora não funcionava. Um documento ficou encalhado, já pronto para impressão, e daí a coisa não saía. Tentei os métodos mais elementares, depois fui dar a volta por trás, nada.
Desinstalei a impressora. Depois voltei a instalar, enquanto me indignava com as figurinhas à americana que procuram explicar o que é um cabo, o que é uma porta, etc.
Mandava-me verificar as ligações. Arre macho.
Quando me resolvi a sair da cadeira, reparei que umas das fichas do cabo de comunicação estava solta.
Arre macho duas vezes. Foi mais de uma hora de voltas e voltas.
Não há de facto limite para a estupidez.
Nem com figurinhas...
Sou como os demais. Também me irrito com a estupidez. Particularmente com a minha. Essa é a que mais solenemente me irrita.
Há neste combate dos homens contra a estupidez uma dose (estúpida) de incoerência.
Se a mentalidade hoje instalada é totalmente contrária à discriminação e à catalogação compreende-se mal que a estupidez seja tão catalogada, ridicularizada e discriminada.
Mas é. Não se pode atacar outra qualquer deficiência, outra qualquer anormalidade, mas a estupidez, ah essa, é malhar-lhe forte e feio.
Como ninguém fez nada por nascer estúpido, míope, com o pé chato, com propensão para a calvície (outra das que merece ainda chacota), parece-me sempre da mais óbvia estupidez (lá estou eu) que se ataquem os estúpidos.
Mas é uma espécie de desporto internacional. Estúpido, é claro.
O que hoje fiz e me levou a esta irritação é exemplar:
A porra da impressora não funcionava. Um documento ficou encalhado, já pronto para impressão, e daí a coisa não saía. Tentei os métodos mais elementares, depois fui dar a volta por trás, nada.
Desinstalei a impressora. Depois voltei a instalar, enquanto me indignava com as figurinhas à americana que procuram explicar o que é um cabo, o que é uma porta, etc.
Mandava-me verificar as ligações. Arre macho.
Quando me resolvi a sair da cadeira, reparei que umas das fichas do cabo de comunicação estava solta.
Arre macho duas vezes. Foi mais de uma hora de voltas e voltas.
Não há de facto limite para a estupidez.
Nem com figurinhas...
03/04/2005
Mééééne, pá!
Em se tratando de gifs animados, lembro-me dos seus precursores estradistas. Aqueles corações que eu nunca via nas cabinas dos camiões, apesar dos insistentes relatos de terceiros e das chamadas de atenção fora de tempo da minha companheira de viagens.
Por um qualquer mistério, demorou meses até poder deliciar-me com a visão nocturna das luzinhas vermelhas - sursum corda!
Atachado a esse berloque vinha quase sempre um outro, do qual também só tardiamente me dei conta e que era a inevitável identificação do condutor em formato de chapa de matrícula:

Pois digo-vos que tenho aqui um gif animado com o coraçanito. Figurando na esquerda alta da cabina, de quem vê de fora, claro. Mas como ficou com uma brutalidade de bytes, abstenho-me de por ora o colocar aqui. Talvez simplificando a figura se consiga um tamanho mais adequado que não sobrecarregue a página. Também é só mais uma ideia parva que me andava a perseguir, ou este sonho secreto de ser camionista...
roubei a foto do camião aqui e a da bandeira acolá
Em se tratando de gifs animados, lembro-me dos seus precursores estradistas. Aqueles corações que eu nunca via nas cabinas dos camiões, apesar dos insistentes relatos de terceiros e das chamadas de atenção fora de tempo da minha companheira de viagens.
Por um qualquer mistério, demorou meses até poder deliciar-me com a visão nocturna das luzinhas vermelhas - sursum corda!
Atachado a esse berloque vinha quase sempre um outro, do qual também só tardiamente me dei conta e que era a inevitável identificação do condutor em formato de chapa de matrícula:

Pois digo-vos que tenho aqui um gif animado com o coraçanito. Figurando na esquerda alta da cabina, de quem vê de fora, claro. Mas como ficou com uma brutalidade de bytes, abstenho-me de por ora o colocar aqui. Talvez simplificando a figura se consiga um tamanho mais adequado que não sobrecarregue a página. Também é só mais uma ideia parva que me andava a perseguir, ou este sonho secreto de ser camionista...
roubei a foto do camião aqui e a da bandeira acolá
02/04/2005
O buffer
Suponho que adquiri este hábito em férias. E talvez na época em que os semanários passaram a ser servidos em sacos de plástico.
Para gozo e alguma irritação feminina, de que ainda hoje não percebi a origem visto o tempo que consagraria à leitura ser aproveitado de formas mais lúdicas, acumulava na caixa do carro as notícias da silly season.
Agora a coisa alastrou a outras épocas. Já não na caixa do carro, excepto em viagem, mas pelos mais insuspeitos locais do lar.
Vou acumulando assim as novidades, deixando que deixem de o ser, permitindo o amarelecimento de algumas, etc.
Ora o que sucede é o seguinte: a cada ano que passa, quando me detenho a pôr a leitura em dia, o que observo é cada vez mais anedótico.
E é anedótico porque em vez da notícia relembrada, do avivamento da memória, que seria a consequência natural da leitura de jornais atrasados o que acontece é que, dada a cada vez maior tentação opinativa e prospectiva, se lêem as ditas páginas como se fossem uma colecção de profecias furadas.
Há pouco li uma acabada argumentação prevendo um péssimo desempenho da selecção nacional no Euro 2004.
Sobre temas políticos, não vale a pena adiantar muito.
É verdade, era um jornal do verão de 2002. Ainda o Sr. Boloni aparecia em destaque a fazer publicidade a uma instituição.
Suponho que adquiri este hábito em férias. E talvez na época em que os semanários passaram a ser servidos em sacos de plástico.
Para gozo e alguma irritação feminina, de que ainda hoje não percebi a origem visto o tempo que consagraria à leitura ser aproveitado de formas mais lúdicas, acumulava na caixa do carro as notícias da silly season.
Agora a coisa alastrou a outras épocas. Já não na caixa do carro, excepto em viagem, mas pelos mais insuspeitos locais do lar.
Vou acumulando assim as novidades, deixando que deixem de o ser, permitindo o amarelecimento de algumas, etc.
Ora o que sucede é o seguinte: a cada ano que passa, quando me detenho a pôr a leitura em dia, o que observo é cada vez mais anedótico.
E é anedótico porque em vez da notícia relembrada, do avivamento da memória, que seria a consequência natural da leitura de jornais atrasados o que acontece é que, dada a cada vez maior tentação opinativa e prospectiva, se lêem as ditas páginas como se fossem uma colecção de profecias furadas.
Há pouco li uma acabada argumentação prevendo um péssimo desempenho da selecção nacional no Euro 2004.
Sobre temas políticos, não vale a pena adiantar muito.
É verdade, era um jornal do verão de 2002. Ainda o Sr. Boloni aparecia em destaque a fazer publicidade a uma instituição.
01/04/2005
1 de Abril
De certa forma, este blogue é uma mentira do dia das ditas.
Em primeiro lugar, porque a maioria dos que aqui chegam, vindos dos lados do Google, não encontram o que pretendem.
Em segundo lugar, porque ao próprio autor às vezes lhe parece ser mentira ter escrito tantas barbaridades.
Em terceiro porque não se percebe se há aqui modéstia, falsa modéstia ou vaidade. E havendo qualquer coisa dessas, seria interessante saber com que fundamento.
Apesar disso uma coisa não há, de certeza. Cópias de argumentos, fotografias roubadas ou qualquer outro tipo de produção alheia sem a devida identificação. Apenas o SG aparece sem se identificar, vez por outra. Mas isso é ele que pede e eu acedo quando me apetece.
Não caiam nesta.
De certa forma, este blogue é uma mentira do dia das ditas.
Em primeiro lugar, porque a maioria dos que aqui chegam, vindos dos lados do Google, não encontram o que pretendem.
Em segundo lugar, porque ao próprio autor às vezes lhe parece ser mentira ter escrito tantas barbaridades.
Em terceiro porque não se percebe se há aqui modéstia, falsa modéstia ou vaidade. E havendo qualquer coisa dessas, seria interessante saber com que fundamento.
Apesar disso uma coisa não há, de certeza. Cópias de argumentos, fotografias roubadas ou qualquer outro tipo de produção alheia sem a devida identificação. Apenas o SG aparece sem se identificar, vez por outra. Mas isso é ele que pede e eu acedo quando me apetece.
Não caiam nesta.
31/03/2005
Um sonho que se realiza
E me faz encolher os ombros.
Houve uma época, da qual já dei aqui nota, em que não falhava uma noitada, uma tardinha ou uma matina em Sintra.
Em que fui a Montejunto e a Arganil.
Em que bati o poeiredo ou o lamaçal dos ralis do Algarve.
Pelava-me por ver, de sítio altaneiro, os bólides. Também gostava do resto, da festa que se fazia, da parte feminina da assistência, etc.
Acho que me deixei disso em 86. Com a morte simbólica do rali de Portugal, com a morte das pessoas que ficaram debaixo do RS200 do Joaquim Santos.
Agora que a organização parece apostada em retirar o rali da sombra, escolhe as estradas da minha serra para o fazer. A serra é minha porque eu sou daquelas paragens, falo com aquele sotaque, bebo aquele medronho, tenho a mesma cara dos que lá moram.
Sonhei com este dia, muitos anos atrás. Poder ver as máquinas entre as azinheiras e os sobreiros, com o cheiro da terra que bem conheço misturado com os odores da máquina.
Contudo, hoje não me suscita mais do que o gesto dito acima.
Há coisas que mudam.
A última noite que passei na minha serra não me traz boas memórias.

imagem em http://www.rallydeportugal.pt/evento_etapas_2.html
E me faz encolher os ombros.
Houve uma época, da qual já dei aqui nota, em que não falhava uma noitada, uma tardinha ou uma matina em Sintra.
Em que fui a Montejunto e a Arganil.
Em que bati o poeiredo ou o lamaçal dos ralis do Algarve.
Pelava-me por ver, de sítio altaneiro, os bólides. Também gostava do resto, da festa que se fazia, da parte feminina da assistência, etc.
Acho que me deixei disso em 86. Com a morte simbólica do rali de Portugal, com a morte das pessoas que ficaram debaixo do RS200 do Joaquim Santos.
Agora que a organização parece apostada em retirar o rali da sombra, escolhe as estradas da minha serra para o fazer. A serra é minha porque eu sou daquelas paragens, falo com aquele sotaque, bebo aquele medronho, tenho a mesma cara dos que lá moram.
Sonhei com este dia, muitos anos atrás. Poder ver as máquinas entre as azinheiras e os sobreiros, com o cheiro da terra que bem conheço misturado com os odores da máquina.
Contudo, hoje não me suscita mais do que o gesto dito acima.
Há coisas que mudam.
A última noite que passei na minha serra não me traz boas memórias.

imagem em http://www.rallydeportugal.pt/evento_etapas_2.html
Aprendam
Eu sei que sou mais um de faquinha afiada. E que de críticos está a praça cheia.
E que também gosto pouco de dar lições. Muito pouco. Só que a lição não é minha.
Ouvi há uns minutos uma coisa exemplar. Não que seja extraordinária. Mas é rara nos dias de hoje quando alguém se apanha na frente de um microfone.
Para os que também viram, desculpem a repetição.
Para os que não viram o telejornal da RTP, onde se fazia notícia de um enxame de abelhas, acho que na Rua de Santo António em Faro, valeu a resposta de um apicultor à repórter que lhe perguntou:
"Então e agora?"
"Agora vou lá acima e 'panho-as!"
Eu sei que sou mais um de faquinha afiada. E que de críticos está a praça cheia.
E que também gosto pouco de dar lições. Muito pouco. Só que a lição não é minha.
Ouvi há uns minutos uma coisa exemplar. Não que seja extraordinária. Mas é rara nos dias de hoje quando alguém se apanha na frente de um microfone.
Para os que também viram, desculpem a repetição.
Para os que não viram o telejornal da RTP, onde se fazia notícia de um enxame de abelhas, acho que na Rua de Santo António em Faro, valeu a resposta de um apicultor à repórter que lhe perguntou:
"Então e agora?"
"Agora vou lá acima e 'panho-as!"
O biombo obrigatório
Mais uma sugestão (do R.C.) que se perdeu nestas alterações ao Código da Estrada.
Não sou contra o aumento das penalizações mas chamar a uma revisão dos valores e à alteração de algumas penas, da redacção e da ordem de certos artigos e a um colete a saber, um Novo Código parece-me pouco próprio e até ridículo.

imagem do IEP
A falta que faz a porra do biombo.
P.S.: Há até gente sentada a uma secretária que procura uma webcam para ver um acidente!
Mais uma sugestão (do R.C.) que se perdeu nestas alterações ao Código da Estrada.
Não sou contra o aumento das penalizações mas chamar a uma revisão dos valores e à alteração de algumas penas, da redacção e da ordem de certos artigos e a um colete a saber, um Novo Código parece-me pouco próprio e até ridículo.

imagem do IEP
A falta que faz a porra do biombo.
P.S.: Há até gente sentada a uma secretária que procura uma webcam para ver um acidente!
30/03/2005
Aggiornamento (II)
Sendo certo que são sopas depois de almoço, pois aqui chegado, o leitor já se conectou, ainda assim vos indico esta oração.
Serve sempre para amanhã.
Sendo certo que são sopas depois de almoço, pois aqui chegado, o leitor já se conectou, ainda assim vos indico esta oração.
Serve sempre para amanhã.
29/03/2005
Afinal o cigano do amor

Há um ano e tal, lamentava-me aqui de não mais me ser possível saborear um frango com pó ao som do "Cigano do Amor".
Desde essa altura, em que me passava pela cabeça construir uma espécie de banda sonora do meu filme, já reuni umas 600 canções e músicas diferentes. Mas nada do "Cigano".
Disseram-me que era Cauby Peixoto o intérprete. Mas algures vi uma letra que não correspondia à minha memória.
Encontrei há dois ou três dias esta página onde o intérprete é Francisco Petrónio e onde a letra é de facto a de que me recordo:
Que pena eu sou, cigano do amor, nada mais
Correntes não há pra me segurar, nunca mais
E vai-se encontrar a forma de lhe pertencer
Meu coração decerto vai morrer, ou se fechará, quem sabe, ou se fechará
Agora o que eu queria era ouvi-la de novo.
Se não puder ser dentro de um disco voador amarelo ou num carrinho de choques que seja aqui sentado em frente ao monitor.

Há um ano e tal, lamentava-me aqui de não mais me ser possível saborear um frango com pó ao som do "Cigano do Amor".
Desde essa altura, em que me passava pela cabeça construir uma espécie de banda sonora do meu filme, já reuni umas 600 canções e músicas diferentes. Mas nada do "Cigano".
Disseram-me que era Cauby Peixoto o intérprete. Mas algures vi uma letra que não correspondia à minha memória.
Encontrei há dois ou três dias esta página onde o intérprete é Francisco Petrónio e onde a letra é de facto a de que me recordo:
Que pena eu sou, cigano do amor, nada mais
Correntes não há pra me segurar, nunca mais
E vai-se encontrar a forma de lhe pertencer
Meu coração decerto vai morrer, ou se fechará, quem sabe, ou se fechará
Agora o que eu queria era ouvi-la de novo.
Se não puder ser dentro de um disco voador amarelo ou num carrinho de choques que seja aqui sentado em frente ao monitor.
27/03/2005
A mesa do café e a montra dos doces
A tendência para enegrecer o presente e o futuro e glorificar o passado é, sabemo-lo todos, imemorial.
Dirão alguns que o que verdadeiramente lamentamos é já não termos vinte anos. Que o que de facto confundimos é a juventude com o concerto universal.
Não sei que diga. Há coisas que de facto estão piores. Outras não sei. Algumas haverá que melhoraram desde a minha juventude.
Pensando na vida que levei, não há assim nada que eu possa dizer que melhorou muito. Não sei se me ajuda muito poder chegar ao Porto ou ao Algarve em pouco mais de duas horas.
Mas com toda a certeza, uma das coisas que me facilita e muito a vida é a revolução nas comunicações. Mas nas outras. Telefones móveis dão jeito, computadores, jeitão. A rede proporciona acesso rápido a informação de que necessito. O cartão de débito permite-me ir buscar dinheiro à parede. OK.
Agora a questão que mais me melindra é justamente a da mesa do café.
Estarei eu a desprezar os disparates que ouvi outrora? Não sei. O que sei é que hoje a influência crescente da massificação na informação, concatenada com a catadupa de bytes que nos derramam em cima a cada passo, parece que contamina mesmo as cabeças mais críticas.
Oiço amplificadas e sujeitas a escrutínio as maiores enormidades.
A questão não é a maior ou menor futilidade dos assuntos. Conversa de chacha também fazia falta ao fim da tarde.
O que mais me sufoca é o tratamento e a atenção que merecem disparates intelectuais, opiniões obviamente sectárias e uma certa primaridade popular na avaliação dos factos, normalmente influenciada pela péssima informação transmitida.
Digamos que o filtro do bom senso is off. Que o tratamento básico da informação é dispensado.
Lembro-me aqui, entre outras, daquela desvalorização de 400% do peso argentino anunciada repetidamente ao longo de um dia. E do ar grave com que alguém comentava a notícia.
Há de facto coisas que podem desvalorizar 400%. Não é com certeza o caso das conversas de café. Ou do olhar que lançávamos por detrás da montra dos doces às pernas das desconhecidas. Ou mesmo da moeda argentina, depois de deixar a paridade com o dólar.
São outras. Mas não digo quais.
E ao café, ao tal café, já não vou há anos. Também ninguém aparece.
A tendência para enegrecer o presente e o futuro e glorificar o passado é, sabemo-lo todos, imemorial.
Dirão alguns que o que verdadeiramente lamentamos é já não termos vinte anos. Que o que de facto confundimos é a juventude com o concerto universal.
Não sei que diga. Há coisas que de facto estão piores. Outras não sei. Algumas haverá que melhoraram desde a minha juventude.
Pensando na vida que levei, não há assim nada que eu possa dizer que melhorou muito. Não sei se me ajuda muito poder chegar ao Porto ou ao Algarve em pouco mais de duas horas.
Mas com toda a certeza, uma das coisas que me facilita e muito a vida é a revolução nas comunicações. Mas nas outras. Telefones móveis dão jeito, computadores, jeitão. A rede proporciona acesso rápido a informação de que necessito. O cartão de débito permite-me ir buscar dinheiro à parede. OK.
Agora a questão que mais me melindra é justamente a da mesa do café.
Estarei eu a desprezar os disparates que ouvi outrora? Não sei. O que sei é que hoje a influência crescente da massificação na informação, concatenada com a catadupa de bytes que nos derramam em cima a cada passo, parece que contamina mesmo as cabeças mais críticas.
Oiço amplificadas e sujeitas a escrutínio as maiores enormidades.
A questão não é a maior ou menor futilidade dos assuntos. Conversa de chacha também fazia falta ao fim da tarde.
O que mais me sufoca é o tratamento e a atenção que merecem disparates intelectuais, opiniões obviamente sectárias e uma certa primaridade popular na avaliação dos factos, normalmente influenciada pela péssima informação transmitida.
Digamos que o filtro do bom senso is off. Que o tratamento básico da informação é dispensado.
Lembro-me aqui, entre outras, daquela desvalorização de 400% do peso argentino anunciada repetidamente ao longo de um dia. E do ar grave com que alguém comentava a notícia.
Há de facto coisas que podem desvalorizar 400%. Não é com certeza o caso das conversas de café. Ou do olhar que lançávamos por detrás da montra dos doces às pernas das desconhecidas. Ou mesmo da moeda argentina, depois de deixar a paridade com o dólar.
São outras. Mas não digo quais.
E ao café, ao tal café, já não vou há anos. Também ninguém aparece.
26/03/2005
Oferece!
Ou como se mostra que um mau militar perde todas as batalhas.
Claro que há desculpas. A minha antagonista levava-me quatro anos de avanço.
O certo é que em sábado algum de Aleluia lhe levei a melhor.
Até a última vez que nos decidimos a fazer um contrato, muitos anos depois, fui apanhado a escanhoar-me. Como vêem...
Mas no meio dos inúmeros Waterloos, há um em que a derrota foi mais estrondosa.
Nesse dia decidira-me por uma colocação altaneira, de forma a divisar todos os movimentos do inimigo. Do terraço do meu tio via os dois largos, quase todos os troços das ruas circundantes por onde poderia haver movimentos hostis e ainda o quintal da minha bisavó, de onde suspeitava vir a ser desferido o ataque.
O erro estúpido foi obviamente o da visibilidade. E ter desprezado o sistema de informações do outro lado.
Já cantava vitória ao ver as horas a passar e nem sinal de movimentos contrários. Mas era um empate de xadrez.
Havia que traçar um plano B. E desalojar o inimigo das trincheiras. As simulações de retirada que fizera de nada tinham servido. Por certo nalgum campanário longínquo alguém fazia sinais, dando conta das minhas manobras.
O problema de abandonar a posição era ter que, por breves minutos, perder o controlo visual. O risco de uma manobra inimiga nessa fase era algum.
Decidi-me. Desci as íngremes escadas de um fôlego. Abri a porta lateral com todos os cuidados. Costa livre. Dobrei a primeira das esquinas que me separavam da exposição às baterias. Nada. O muro altíssimo que defendia o quartel-general das tropas inimigas estava agora à minha direita. Não acreditava que houvesse uma posição descoberta do outro lado do muro. Avancei. Nada. Dobrei o ângulo agudo na esquina do largo e já, de cuidados redobrados, resolvi-me a adentrar, disparando em todos as direcções, a toca do lobo. Assim o fiz. Nada. A minha bisavó recebeu-me com um sorriso trocista.
Estava a dominar as trincheiras inimigas e nem sinal de vitória.
Nada a fazer. Retrocedi e, a passos calculados, dobrei as mesmas esquinas. Decidi-me a prosseguir para o meu próprio QG. Havia várias portas a considerar. Usei a principal, pensando que essa era a melhor hipótese. Nada. Relaxei. O tiro ouviu-se nessa altura: Oferece!
sobre imagem do SNIG
Este jogo consistia numa celebração de contrato:
"Contrato, contrato, contrato fazemos.
Sábado de Aleluia ofereceremos!"
e numa combinação sobre o seu objecto, normalmente um pacote de amêndoas.
No sábado, não valia apanhar o outro a dormir. Era preciso que estivesse já a pé. O primeiro a disparar um "Oferece!" à vista, ganhava.
Esta memória foi há tempos avivada por um post da Sónia no seu Vadiar, que relembrava uma variante insular deste jogo.
Ou como se mostra que um mau militar perde todas as batalhas.
Claro que há desculpas. A minha antagonista levava-me quatro anos de avanço.
O certo é que em sábado algum de Aleluia lhe levei a melhor.
Até a última vez que nos decidimos a fazer um contrato, muitos anos depois, fui apanhado a escanhoar-me. Como vêem...
Mas no meio dos inúmeros Waterloos, há um em que a derrota foi mais estrondosa.
Nesse dia decidira-me por uma colocação altaneira, de forma a divisar todos os movimentos do inimigo. Do terraço do meu tio via os dois largos, quase todos os troços das ruas circundantes por onde poderia haver movimentos hostis e ainda o quintal da minha bisavó, de onde suspeitava vir a ser desferido o ataque.
O erro estúpido foi obviamente o da visibilidade. E ter desprezado o sistema de informações do outro lado.
Já cantava vitória ao ver as horas a passar e nem sinal de movimentos contrários. Mas era um empate de xadrez.
Havia que traçar um plano B. E desalojar o inimigo das trincheiras. As simulações de retirada que fizera de nada tinham servido. Por certo nalgum campanário longínquo alguém fazia sinais, dando conta das minhas manobras.
O problema de abandonar a posição era ter que, por breves minutos, perder o controlo visual. O risco de uma manobra inimiga nessa fase era algum.
Decidi-me. Desci as íngremes escadas de um fôlego. Abri a porta lateral com todos os cuidados. Costa livre. Dobrei a primeira das esquinas que me separavam da exposição às baterias. Nada. O muro altíssimo que defendia o quartel-general das tropas inimigas estava agora à minha direita. Não acreditava que houvesse uma posição descoberta do outro lado do muro. Avancei. Nada. Dobrei o ângulo agudo na esquina do largo e já, de cuidados redobrados, resolvi-me a adentrar, disparando em todos as direcções, a toca do lobo. Assim o fiz. Nada. A minha bisavó recebeu-me com um sorriso trocista.
Estava a dominar as trincheiras inimigas e nem sinal de vitória.
Nada a fazer. Retrocedi e, a passos calculados, dobrei as mesmas esquinas. Decidi-me a prosseguir para o meu próprio QG. Havia várias portas a considerar. Usei a principal, pensando que essa era a melhor hipótese. Nada. Relaxei. O tiro ouviu-se nessa altura: Oferece!
sobre imagem do SNIG
Este jogo consistia numa celebração de contrato:
"Contrato, contrato, contrato fazemos.
Sábado de Aleluia ofereceremos!"
e numa combinação sobre o seu objecto, normalmente um pacote de amêndoas.
No sábado, não valia apanhar o outro a dormir. Era preciso que estivesse já a pé. O primeiro a disparar um "Oferece!" à vista, ganhava.
Esta memória foi há tempos avivada por um post da Sónia no seu Vadiar, que relembrava uma variante insular deste jogo.
25/03/2005
Uma Páscoa com ovos

Foi no conforto da leitura matinal do jornal da antevéspera, já com duas ou três chávenas alinhadas na mesa que vi a cara do homem debruçada sobre a necrologia.
Sabes a que hora é o comboio para cima?
Não posso dizer que não estranhei a pergunta. Era sabido que antes da Páscoa só interessavam os comboios ascendentes*.
Olhei à volta, não vi o Manel no seu posto e perguntei-lhe:
Já viste se o táxi está aí fora? Pergunta ao homem. Se ele não estiver, é porque está na hora do comboio - foi com esta peça de informação abundante e palisseira que o despachei.
Já era noitinha quando combinámos o poiso para a cartada de depois do jantar.
Nestas coisas de cartas, convém sempre uma certa tranquilidade, uma estante com licores e um pratinho de bolachas. Era o que tínhamos. E uma noite quente de Abril. As portas da varanda estavam abertas e o sossego lá fora era propício a vazas peculiares.
Quebrou-se o encanto quando a mão estava do lado da brisa que abanava os cortinados.
Um pressentimento - disse ela - a minha irmã não apareceu para jantar.
Não posso dizer que não tenha somado de imediato dois mais dois, embora estivesse concentrado nas cartas em falta. Foi com algum incómodo que acedemos a uma pausa. Acompanhámos da varanda o percurso breve que ela desenhou na rua. Os gestos que fazia já à porta de casa prenunciavam que eu estava certo.
Foi nessa altura que uns faróis surgiram ao fundo da rua. Nessa época não me era difícil identificar o VW do J.C.
A perspicácia dele confundiu-me. Sabia que acabava de chegar de Coimbra e que estava figurativamente a leste dos factos. Pois de imediato parou o carro e me perguntou, afirmando:
Fugiram, foi?
Julgo que a minha resposta, da qual não me recordo palavra por palavra, já mencionava o facto de a garrafeira do anfitrião ter que suportar a despesa do copo d'água. Afinal havia um parentesco próximo.
A comemoração não acabou como é de hábito com a dispersão dos convidados.
Acabou quando as convivas, sabendo que eu e o J.C. há muito não nos víamos e que não tínhamos trocado uma palavra fora daquela sala, excepto as três frases que se ouviram da varanda para a rua, se assustaram com o truque de cartas que tão bem combinámos.
Caiu decerto a Páscoa sobre os noivos a essa hora. Houve quem tivesse mencionado essa hipótese.
*Os comboios ascendentes são, neste caso, os que seguem para Sul, para baixo.

Foi no conforto da leitura matinal do jornal da antevéspera, já com duas ou três chávenas alinhadas na mesa que vi a cara do homem debruçada sobre a necrologia.
Sabes a que hora é o comboio para cima?
Não posso dizer que não estranhei a pergunta. Era sabido que antes da Páscoa só interessavam os comboios ascendentes*.
Olhei à volta, não vi o Manel no seu posto e perguntei-lhe:
Já viste se o táxi está aí fora? Pergunta ao homem. Se ele não estiver, é porque está na hora do comboio - foi com esta peça de informação abundante e palisseira que o despachei.
Já era noitinha quando combinámos o poiso para a cartada de depois do jantar.
Nestas coisas de cartas, convém sempre uma certa tranquilidade, uma estante com licores e um pratinho de bolachas. Era o que tínhamos. E uma noite quente de Abril. As portas da varanda estavam abertas e o sossego lá fora era propício a vazas peculiares.
Quebrou-se o encanto quando a mão estava do lado da brisa que abanava os cortinados.
Um pressentimento - disse ela - a minha irmã não apareceu para jantar.
Não posso dizer que não tenha somado de imediato dois mais dois, embora estivesse concentrado nas cartas em falta. Foi com algum incómodo que acedemos a uma pausa. Acompanhámos da varanda o percurso breve que ela desenhou na rua. Os gestos que fazia já à porta de casa prenunciavam que eu estava certo.
Foi nessa altura que uns faróis surgiram ao fundo da rua. Nessa época não me era difícil identificar o VW do J.C.
A perspicácia dele confundiu-me. Sabia que acabava de chegar de Coimbra e que estava figurativamente a leste dos factos. Pois de imediato parou o carro e me perguntou, afirmando:
Fugiram, foi?
Julgo que a minha resposta, da qual não me recordo palavra por palavra, já mencionava o facto de a garrafeira do anfitrião ter que suportar a despesa do copo d'água. Afinal havia um parentesco próximo.
A comemoração não acabou como é de hábito com a dispersão dos convidados.
Acabou quando as convivas, sabendo que eu e o J.C. há muito não nos víamos e que não tínhamos trocado uma palavra fora daquela sala, excepto as três frases que se ouviram da varanda para a rua, se assustaram com o truque de cartas que tão bem combinámos.
Caiu decerto a Páscoa sobre os noivos a essa hora. Houve quem tivesse mencionado essa hipótese.
*Os comboios ascendentes são, neste caso, os que seguem para Sul, para baixo.
24/03/2005
Provas
Como é que alguém faz prova perante o Estado de que tem capacidade matrimonial?
E de que a tem para contrair matrimónio com uma determinada pessoa?
À primeira pergunta, supor-se-ia (claro que fui eu a supôr) que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse a idade e o estado civil compatível (todos à excepção de casado) e não ser portador de alguma doença que a lei preveja ser impedimento bastante.
À segunda pergunta, supor-se-ia que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse ser o sexo da pessoa com a qual se pretende casar, diferente do da própria. E, sem entrar nos impedimentos próprios do promitente cônjuge, que não fosse parente nos casos previstos na lei.
Ah, e ainda fazer prova de não ter jamais sido condenado por homicídio de anterior cônjuge da pessoa com quem pretende contrair matrimónio.
Ora isto supunha eu. Mas não é nada disto.
A prova documental de estado civil não é aceite, porque não são suficientes as garantias documentais que um (dado) estado estrangeiro dá nessa matéria.
A prova testemunhal é irrelevante, por não ser possível a ninguém no seu perfeito juízo, afirmar sem margem para alguma dúvida que x não é casado. E é-o também, embora as dúvidas aí se reduzam muito, quanto ao parentesco entre ambos. Claro que amostras de ADN podem ser trocadas em laboratório também. Claro que o teste não é 100% sim ou não. Havendo ainda parentescos que inviabilizam o matrimónio e que não são de sangue.
Quanto ao homicídio...
Claro que tudo isto acontece em Portugal. No século XXI, Ano da Graça de 2005.
Como é que alguém faz prova perante o Estado de que tem capacidade matrimonial?
E de que a tem para contrair matrimónio com uma determinada pessoa?
À primeira pergunta, supor-se-ia (claro que fui eu a supôr) que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse a idade e o estado civil compatível (todos à excepção de casado) e não ser portador de alguma doença que a lei preveja ser impedimento bastante.
À segunda pergunta, supor-se-ia que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse ser o sexo da pessoa com a qual se pretende casar, diferente do da própria. E, sem entrar nos impedimentos próprios do promitente cônjuge, que não fosse parente nos casos previstos na lei.
Ah, e ainda fazer prova de não ter jamais sido condenado por homicídio de anterior cônjuge da pessoa com quem pretende contrair matrimónio.
Ora isto supunha eu. Mas não é nada disto.
A prova documental de estado civil não é aceite, porque não são suficientes as garantias documentais que um (dado) estado estrangeiro dá nessa matéria.
A prova testemunhal é irrelevante, por não ser possível a ninguém no seu perfeito juízo, afirmar sem margem para alguma dúvida que x não é casado. E é-o também, embora as dúvidas aí se reduzam muito, quanto ao parentesco entre ambos. Claro que amostras de ADN podem ser trocadas em laboratório também. Claro que o teste não é 100% sim ou não. Havendo ainda parentescos que inviabilizam o matrimónio e que não são de sangue.
Quanto ao homicídio...
Claro que tudo isto acontece em Portugal. No século XXI, Ano da Graça de 2005.
23/03/2005
Testes e coincidências
Ligo pouco a testes, quero dizer aos seus resultados. Mas divirto-me às vezes a fazê-los.
Logo hoje que, a propósito de uma conversa, veio à baila o velho lema, casado em 2005:

Me saiu isto de uma caixa de correio que não abria há meses:

NOTA IMPORTANTE: Jamais alguém me chamou LELO. Mas num teste daqueles, foi o que me veio à cabeça.
Ligo pouco a testes, quero dizer aos seus resultados. Mas divirto-me às vezes a fazê-los.
Logo hoje que, a propósito de uma conversa, veio à baila o velho lema, casado em 2005:

Me saiu isto de uma caixa de correio que não abria há meses:

NOTA IMPORTANTE: Jamais alguém me chamou LELO. Mas num teste daqueles, foi o que me veio à cabeça.
Buvete
Não obstante a variada referência à cura de águas no Cartaxo, não se conhece um só indivíduo que aí se tenha instalado com esse fim.
O que nos promete para um futuro em que historiadores sociais escarafunchem nas fontes para obter líquida informação sobre expressão tantas vezes encontrada.
Passando o Cartaxo e o vale de Santarém, apercebo-me agora de que nunca fui um homem de caldas.
Jamais tracei rumos para estâncias termais, jamais estagiei à sombra de adegas.
Não tendo feito uma coisa e outra, não posso afirmar que não haja casos em que lá andei perto.
Se me instalei numas termas, sem cuidar de banhos ou eflúvios minerais, e ainda arrumei na mala da viatura umas caixas com setas para cima e aviso de fragilidade, isso quer dizer exactamente o quê?
Não obstante a variada referência à cura de águas no Cartaxo, não se conhece um só indivíduo que aí se tenha instalado com esse fim.
O que nos promete para um futuro em que historiadores sociais escarafunchem nas fontes para obter líquida informação sobre expressão tantas vezes encontrada.
Passando o Cartaxo e o vale de Santarém, apercebo-me agora de que nunca fui um homem de caldas.
Jamais tracei rumos para estâncias termais, jamais estagiei à sombra de adegas.
Não tendo feito uma coisa e outra, não posso afirmar que não haja casos em que lá andei perto.
Se me instalei numas termas, sem cuidar de banhos ou eflúvios minerais, e ainda arrumei na mala da viatura umas caixas com setas para cima e aviso de fragilidade, isso quer dizer exactamente o quê?
22/03/2005
O engenheiro das bolachas
O sketch existe. Está gravado em Beta. Numa daquelas noites incompreensíveis em que, de petisco em petisco, acabei em casa do R.C., com a namorada atrás.
Só os três, talvez com uns licores caseiros da lavra dele, resolvemos encenar o meu sonho da noite anterior.
Tinha morrido o engenheiro das bolachas.
Entrevistámos várias pessoas a propósito. A que melhor desempenhou foi o adjunto. De lágrima ao canto do olho, enquanto desfiava os pormenores do horrível acidente de trabalho na prensa das shortcake, dava francas mostras de estar à altura para ocupar o cargo do defunto.
O mais estranho de tudo isso é eu ter entrado em cena, quando a moça prestava declarações na pele já não sei se da viúva inconsolável, disfarçado de cidade do Porto.
Isso intriga-me. Mas está lá.
O sketch existe. Está gravado em Beta. Numa daquelas noites incompreensíveis em que, de petisco em petisco, acabei em casa do R.C., com a namorada atrás.
Só os três, talvez com uns licores caseiros da lavra dele, resolvemos encenar o meu sonho da noite anterior.
Tinha morrido o engenheiro das bolachas.
Entrevistámos várias pessoas a propósito. A que melhor desempenhou foi o adjunto. De lágrima ao canto do olho, enquanto desfiava os pormenores do horrível acidente de trabalho na prensa das shortcake, dava francas mostras de estar à altura para ocupar o cargo do defunto.
O mais estranho de tudo isso é eu ter entrado em cena, quando a moça prestava declarações na pele já não sei se da viúva inconsolável, disfarçado de cidade do Porto.
Isso intriga-me. Mas está lá.
21/03/2005
A minha vila
Talvez haja poucas pessoas entre os que me lêem que possam sentir o mesmo que eu, dadas as circunstâncias.
E as circunstâncias são as de ter vivido mais de quarenta anos, sempre que possível, na terra (pequena) onde nasceram os meus pais e grande parte da minha família.
Parece-me que este mundo dos blogues é mais urbano. De pessoas que lidam com outras sem lhes conhecerem a raiz.
E é essa proximidade que abandonei há quatro anos que me faz tropeçar em fotos de defuntos e nomes gravados na pedra e recordar de cada um deles um gesto, uma palavra, um petisco, um cantorio.
Parece-me que não há ninguém ali a quem eu não tivesse conhecido. Mesmo àqueles que partiram antes da minha chegada, sei-lhes das façanhas. Uma vila ali enterrada a quem às vezes visito.
Talvez haja poucas pessoas entre os que me lêem que possam sentir o mesmo que eu, dadas as circunstâncias.
E as circunstâncias são as de ter vivido mais de quarenta anos, sempre que possível, na terra (pequena) onde nasceram os meus pais e grande parte da minha família.
Parece-me que este mundo dos blogues é mais urbano. De pessoas que lidam com outras sem lhes conhecerem a raiz.
E é essa proximidade que abandonei há quatro anos que me faz tropeçar em fotos de defuntos e nomes gravados na pedra e recordar de cada um deles um gesto, uma palavra, um petisco, um cantorio.
Parece-me que não há ninguém ali a quem eu não tivesse conhecido. Mesmo àqueles que partiram antes da minha chegada, sei-lhes das façanhas. Uma vila ali enterrada a quem às vezes visito.
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