11/05/2005

O lixo electrónico ou um retrato de Tutancamon


imagem da RTP

Começo por mim. O facto de ter dedicado umas quantas horas da minha vida, repartidas por mais de vinte anos, a engendrar um programa que me facilitasse a vida nas apostas, primeiro do totobola, depois do totoloto, é suficientemente revelador da inutilidade a que consagrei parte do meu tempo.
Outras há, alhures, que merecem muito maior destaque. Hoje foi o "retrato" de Tutancamon (já agora, prefiro o c ao k, com ou sem h). Já passámos pelo de Jesus Cristo e talvez por outros de que não me dei conta.
É certo que em se tratando de "retratos", os há para os mais variados gostos desde sempre. Ainda hoje andamos à volta com as figuras do tríptico de Nuno Gonçalves, tentando saber quem é quem.
O que não significa que não tenham brotado as certezas um pouco por todo o lado.
E certezas é o que não falta quando aparecem estas novidades, embora aqui penetremos não no reino da adivinhação mas no da fantasia. Está visto que o faraó que morreu jovem era assim (não estão a ver?) e que o nazareno era assado (ora vejam!). Nem Melquíades faria melhor, suspeito.
Para além destas, há um mundo de novidades surpreendente. Dir-se-á que sem praticar não se chega a lado algum. Tenho as minhas dúvidas que assim seja. Mas há quem se farte de praticar.
O que acontece é que esse mundo de novidades está repleto de insignificâncias. De linhas de código que só têm utilidade para quem as escreve, como mero exercício ou como justificação de ganha-pão.
Entretanto, continuo a interrogar-me se a cultura da ignorância contamina de facto ou se, confirmada a imunidade, todos os fenómenos são olhados de cima.
A julgar pelo que leio em alguns locais, contamina mesmo.
Terminando como comecei, se não me houvesse contaminado, não falaria do assunto.
Correr Ceca e Meca



e o vale de Santarém

10/05/2005

Batem leve, levemente

Como quem chama por mim
Será chuva ou água-ardente?
Chuva não é certamente
Que a seca está contra mim.

É talvez má companhia
Já que há pouco, há bocadinho
Vi uma ave agoirenta
Daquelas de pena cinzenta
A pairar sobre o caminho.

Que paira assim indolente
Com tão lúgubre estranheza
A silhueta premente
Voando por cima da gente
E dos solos em pobreza.

Deu-me para beber. Bebi-a.
À água-ardente de mel
Amarela, doce e fria
Há que tempos não sentia
Um arrepio tão cruel.

Olho-a através da vidraça
Do copo pequenininho
Parece-me uma morraça
Dessas que muito mal passa
Pelo nó do colarinho.

Fico a olhar os pardais
Que de grãos enchem a pança
E noto que são sinais
Muito muito especiais
De tão reduzida esperança.

E aos saltinhos estendidos
Ainda consigo vê-los
Longe de se saberem bebidos
Fritos e logo comidos
Com muito poucos desvelos.

Que quem já é bebedor
Apanhe carradas assim
Mas aos ingénuos, Senhor
Por que lhes dais o pendor
De quererem beber por mim?

E uma infinita moleza
Uma funda turbação
Entra em mim, é da despesa
Que já se fez nesta mesa,
Do valente camadão.

Desculpa-me, Augusto Gil, não sou nada destas coisas. Mas isto do chove, não molha, está a transtornar-me.
As contas

Estas são as minhas. Outros as farão de outra forma.


Fontes: página de Jorge Miguel Teixeira e RSSSF, que se refere a resultados até 2003 e notícias posteriores.

08/05/2005

Espólio (8)

6 anos depois da guerra


Espólio Campos Vilhena - foto de MSS?

Esta coisa de quase todos os jornalistas confundirem o fim da guerra com a queda da Alemanha...
Lisboa, 1993

07/05/2005

06/05/2005

Dificuldade

Por que é que é tão difícil aos realizadores de cinema portugueses acertar nos detalhes de época?
Ataque de ciúmes

Já faz uns aninhos. Vai para nove.
A minha namorada socialista abria sempre muito os olhos e enchia a boca quando pronunciava o nome dele.
A coisa aborrecia-me. Particularmente em certas alturas. Se a rádio ou a televisão faziam a menor menção ao dito cujo, era certo o formoso pescocinho à banda.
Calava-me. Não dizia nada. Nem que sim nem que não. Nem espero que ganhe nem que perca. Era e é daquele tipo de coisas sobre o qual acho que de nada nos serve termos um lado.
Preferia o lado dela, claro, conquanto o senhor do sorriso fácil não desse à costa a meio da noite.
Comecei então a torcer às escondidas por William Hague. Apanhei a fase em que ele bradava "It's common sense!". Mas nada. Veio depois Iain Duncan Smith e o homem do sorriso fácil lá se aguentava. Hoje, deu mais um banho. Dizem por aí que um destes dias vai ceder o lugar a um dos Monty Pithon (não fui só eu que ouvi).
Aqui há tempos, o Dante afirmava que a esposa do senhor rings his bell. Senti-me um bocadinho vingado.

05/05/2005

GOOOOOOOOLO



imagem da TVI
A sofrer, como sempre

Continuo a ver o jogo, 102 minutos, o Sporting tem evidentemente melhor equipa, melhor jogo.
Mas a insegurança defensiva é o que é, já o disse atrás.
Passagem para Lisboa (2)

Já comprei as passagens.
Já reservei o alojamento - pensão completa.

04/05/2005

Quanto à cozinha

Pode não haver nada mais errado do que aquilo que nos parece.
E a mim parece-me que os meus ascendentes do sexo masculino (só do masculino?) não eram lá grandes especialistas em assuntos de temperos. Em boa verdade, poucas ou nenhumas vezes os vi com a mão na massa.
Já o mesmo não posso dizer dos colaterais. Alguns com muita queda para a coisa. Talvez mais para o petisquinho do que para a grande cuisine, é certo. Mas ainda assim, uns expertos.
Ora eu no meio disto, que já não conto com as mordomias de cozinheiras de mão-cheia de outros tempos, onde é que fico?
A bem dizer, não sei.
Pessoas houve que me gabaram os cozinhados. Não só os amigos esfomeados a altas horas da noite, que isso era mais na base da açorda e a esses tudo sabia a pouco, mas também as companheiras de estrada com quem alternei no fogão.
Nunca percebi, é certo, se estas últimas gabavam os meus dotes na tentativa de passarem mais vezes o cace para as minhas mãos, com o inconveniente por elas desprezado de terem que comer coisa que menos lhes agradasse ou se era mesmo a valer - perceber as mulheres!
O certo é que me desenrasco. Iniciei-me naturalmente no petisquinho de sopas feitas com ervas para os coelhos do avô de um certo vizinho e azeite (?) de lata de conserva. Tudo para atamancar as cervejas que bebíamos a acompanhar as cartadas de tarde inteira.
Passei pelas citadas açordas. Ainda que por vezes a escassez de recursos levasse mesmo a especialidades como açorda de molas (de roupa - daquelas de madeira - nem sabem o sabor que davam à coisa!).
Enveredei mais tarde pelos trilhos maritimos, começando por uma tradução ilegal de um certo polvo frito que se comia há décadas na Zambujeira, abastardada por influências de uma prima que interpretava o dito de forma mais livre.
Cheguei ao plano internacional com o célebre, mas já caído em desgraça, frango à Ilha Cristina, depois de uma outra incursão plagiadora do cantado Arroz Chau-Chau Naval da Antiga Casa Faz-Frio.
Agora, que cada vez menos tenho paladares alheios a criticar-me, desleixei-me. Já não manejo a colher de pau com a maestria e o pundonor de outras épocas.
Malditos supermercados que vendem pré-cozinhados.
Trânsito proibido

03/05/2005

O que queremos saber e o que não queremos

Este blogue começou com uma frase - Dizer o óbvio.
Dizer o óbvio, o dito e o redito. Não há nada mais absurdo do que pretender ser original, discorrer sobre as coisas como se ninguém antes o tivesse feito da mesma forma. Registada ou não.
Se se conseguem avanços na técnica, o que é indesmentível, já no pensamento temos poucas descobertas. E temos aquela máxima ridícula do "já não se pensa assim" que apenas sublinha o pouco acerto de uma intelectualidade sujeita a modas.

Em todos os tempos, há coisas que queremos saber e outras que não.
Muitas das que não queremos saber seriam até fáceis de esclarecer a certa escala. Mas os insondáveis mecanismos sociais a isso obstam.

Fica disso um resto de suposta consensualidade. De tem que ser.
As condições ideais, já o disse aqui, lembram-me sempre peixes que comprava na praça, embrulhados em papel de jornal.
Ou, tendo em conta os dias que correm, embrulhados em plástico. É indiferente.
Só mudou a moda.

02/05/2005

Apostinhas

Tenho pouca paciência para teimosias. Já me basta a minha.
Quando se trata de um qualquer irredutível a proferir disparates sobre matéria de facto, não mexo os lábios a não ser para dizer: "Vai uma apostinha?"
Se pegar, pegou. Sempre se ganha qualquer coisa. Se não pegar, acabou a disputa.
Mas não aposto só pela certa. Coisa que há quem ache que não é de bom tom.
Aposto também quando tenho palpites estapafúrdios, como daquela vez que apostei em Outubro - sei até que foi no dia 18, porque essa aposta teve lugar enquanto almoçávamos e passavam na televisão as imagens do terramoto em São Francisco, ocorrido no dia anterior - que o Benfica ia chegar à final da Taça dos Campeões Europeus e perdia. Não ganhei uma pipa de massa porque estranhamente não encontrei muitos mais apostadores convencidos do contrário(!).
Ou quando as coisas me parecem, como quando Mário Soares andava pelos 8% nas sondagens e eu apostava, apenas secundado por mais dois, contra um café inteiro que ele iria ser o próximo presidente da República.
E também aposto na completa escuridão. Qualquer coisa que mereça uma boa aposta. E há sempre milhões de coisas susceptíveis de serem apostáveis sobre as quais um grupo não tem o menor controlo ou previsão.

Ora isto leva-me ao seguinte ponto: por que raio é que não há-de haver outro tipo de apostas, já que há o totobola, o totoloto e outros? Não é com toda a certeza por não serem legais ou legítimas, uma vez que sendo legítimo apostar no resultado de um jogo de futebol não se adivinham impedimentos a que se aposte na classificação final, no número de pontos somados por todos os clubes ou outra coisa qualquer.
Da mesma forma, se é legítimo o aproveitamento da ingenuidade alheia nos diversos votos SMS promovidos pelas televisões, por que raio não há-de esse bolo ser disputado como aposta?
Não faltam inquéritos desses que podiam ser assim transformados.
E para além disso, abria-se um campo à imaginação. Não faltam por aí moços e moças capazes de conceber as mais mirabolantes hipóteses apostivas.
E, ao mesmo tempo, baixava-se o bedame a muito arauto que mete a viola no saco quando dá palpites errados.
Pois, é isso mesmo, devia ser obrigatório para certos analistas quando se deitam a adivinhar, uma linhazinha no final da crónica:
Apostei 4:1 nesta hipótese - enterrei 1500 euros. A ver vamos.

Ah, e para quem pense que sou profissional destas coisas e que me farto de ganhar dinheiro: a grade de cervejas é que é a unidade-padrão das apostas (por enquanto).

Ah ainda - há depois outras coisas que já não se podem considerar apostas. Mas que também dão lucro. Um destes dias direi quais são.

Então...

Aqui é para ser a cozinha - dizias tu



(este blogue anda muito estranho)

30/04/2005

E quando nos mandam estacar

O ciclo fecha-se (com fé)

Quando, na noite de 18 de Maio próximo, Pedro Barbosa levantar a Taça UEFA em pleno Alvalade XXI, um ciclo de quase 50 anos estará fechado.
Um ciclo iniciado a poucos quilómetros, no Estádio Nacional, a 4 de Setembro de 1955, com o primeiro de todos os jogos das competições europeias de clubes.
Com o Sporting como anfitrião e o Partizan de Belgrado como adversário.
Pelo meio, passou pela conquista da Taça das Taças em 1964.
E ao completar-se, de verde e branco, 50 anos depois, carrega de simbolismo a vitória.
Vamos a eles!

29/04/2005

Passagem para Lisboa

Os pais não costumam revelar aos filhos as patifarias que faziam aos seus pais, na juventude.
Ou talvez o façam quando tal já não tem qualquer importância como exemplo.
Do meu pai, recebi sempre mais exemplos do que lições. Serviram-me bem, assim o creio.

Mas, um certo dia, já a coisa não faria grande mossa na sua reputação, veio a história.
Que estava já no Porto, a acabar os estudos, quando foram inauguradas as carreiras regulares entre a Invicta e a capital, por via aérea.
Nesses dias, a muito consabida e anormal necessidade de novos livros e compêndios, chegou por carta ao Alentejo.
Poucos dias depois, num fim-de-semana, chegou a casa mais depressa do que os pais calculavam.
Não acredito que o meu avô não tivesse dado pela coisa.

Lembrei-me hoje disto, dizem que a TAP faz sessenta anos. Não foi a 14 de Março?


imagem do Dakota das páginas da TAP
O assunto é sério

E por demais debatido.
Já ouvi descrições das mais variadas formas de lhe fazer face.
Uns dormem com um caderninho na mesa de cabeceira - já o fiz. Outros levantam-se a meio da noite e resolvem o assunto, outros ainda têm um gravador de bolso ou o telemóvel à mão para fazerem o relato da ocorrência.
Há também os que acordam a testemunha mais à mão para lhe dar conta. Creio ser esse o processo mais falível e mais arriscado.
O certo é que tenho a convicção de que ontem, depois de ter visto Bob Hoskins no papel de Mussolini, me surgiram em catadupa linhas e linhas de texto sobre a primeira metade do séc. XX, as ideologias perfeitas e as tentativas de as aplicar.
Hitler morreu em 1989. Estaline ainda está vivo. Outros, menos conhecidos, mas igualmente "perfeitos" são dados como desaparecidos. Ou não será assim?


imagem de

28/04/2005

27/04/2005

La Palissada

À medida que a massificação aumenta, torna-se cada vez mais difícil encontrar argumentos interessantes.
Também sei que é absurdo, que é ridículo, queixarmo-nos dos dados de um problema.

25/04/2005

Discussões

Uma das discussões mais estéreis e absurdas que ocorreu há um ano atrás, centrava-se na queda de um "R". Como se não tivesse havido uma revolução em 1974 ou se as coisas desde então não tivessem evoluído.
Nunca percebi o que sustentava tanto ímpeto polemista à volta do caso. Mas não era decerto a letra em causa.
Dir-se-á que o homem não vive sem estas querelas. Sem querer pôr os outros na ordem ou na desordem. A mim tanto se me dá. Não pretendo iluminar ninguém.
Mas quando se fala no 25 de Abril, percebe-se que ainda não decorreu o tempo suficiente para poder para ele olhar com distanciamento. Até os que depois dele nasceram parecem submetidos a umas quantas verdades indiscutíveis.
Não posso saber o que desencadeou de facto a revolta dos militares. Não estive presente em nenhuma das reuniões preparatórias e apenas sei o que li e ouvi depois.
Tenho como todos os que tinham já idade para tal, uma ideia do clima que se vivia.
Da inevitabilidade da queda de um regime podre por dentro.
No qual ninguém já acreditava.
E da iminência dessa queda, reflectida nos inúmeros boatos que, independentemente da origem, coincidiam na notícia.
Claro que havia também os que achavam que a coisa se prolongaria por mais uns quantos anos, tendo em conta a forma como o regime se defendia dos seus adversários. Creio que não eram muitos os que assim pensavam.
Penso pois que a razão directa pela qual caiu é de somenos importância. Se era um maior ou menor descontentamento dos militares com a questão dos milicianos, se era outra coisa qualquer.
Nestas coisas da História, encontrar explicações é quase sempre tropeçar num episódio como o descrito por Luz Soriano na "História da Guerra Civil" quando relata a queda de Lisboa a 24 de Julho. Ou ainda mais remotamente na aclamação do Mestre de Aviz.
Mas houve uma revolução nesse dia. Uma revolução que não terminou com a conquista da cidade.
E houve naturalmente uma evolução. Que teria existido independentemente do resto.
Não percebo que dúvidas é que isto suscita ou suscitou o ano passado.
Congresso

O caso é que se beberam uns códigos, digo, uns copos.

23/04/2005

Sebastianismos, pois

Salto de cavalo

Quem diria que há um algoritmo extremamente simples para gerar aleatoriamente os mais diversos caminhos para o salto de cavalo (testado numa quadrícula de 11 x 11)?

22/04/2005

Jornal

É verdade. Há muito que não lia um jornal diário em papel.
O há muito é o bastante para significar que certas coisas me espantaram.
A primeira foi ter verificado que ainda existe a secção da necrologia.
Foi nos antigos "O Século" e "Diário de Lisboa" que fiz o meu tirocínio como leitor de jornais.
Mais n' "O Século" pois era este o único que o meu avô assinava. Aqui pelas bandas dos subúrbios citadinos, o meu pai trazia os dois. Um à hora do almoço, outro à hora do jantar.
E em dias de guarda, lá vinha a formidável pontaria do homem que lançava jornais às janelas, a quase quinze metros do chão. Ignoro se o formato tablóide dá dobra para tal projéctil.
N' "O Século", depois de ultrapassada a fase em que só lia as maiúsculas, a morbidez inclinava-me para as secções Viação Perigosa e Dia-a-Dia. Notícias breves de acidentes de automóvel e de rixas de vizinhos. Claro que havia também as insuspeitas doenças súbitas. Desaguava então na referida necrologia.
Hoje, verifiquei por exemplo que as múltiplas chamadas dos pequenos anúncios envolvendo nomes de localidades não se referem a andares à venda mas a bustos 44, atendimentos personalizados e massagens não sei de onde. Verifiquei que as farmácias de serviço, no caso era uma necessidade, não figuram. Verifiquei muitas outras coisas de somenos importância - que ainda há estranhas formas de ajudar os apostadores a jogar no totoloto, horóscopos, palavras cruzadas e outros passatempos com letras. Mas falta o salto de cavalo. O salto de cavalo em falta é imperdoável.


Soluções no próximo número

20/04/2005

Restos de colecção (32)

Em dia de Taça



imagem in Association Internationale Permanente des Congrès de la Route - IX Congrès International de la Route, Lisbonne 1951 - Compte Rendu des Travaux du Congrès
Mania de ser elefante

Mais tarde ou mais cedo, havia de acontecer.
Não me faltavam, nem a nenhum de nós, suponho, lições sobre como e porquê reescrever a história.
Talvez o porquê seja inatingível, na medida em que não acredito que a história se decida por vontades e com explicações claras e objectivas. Mas isso é, com perdão do conceito redundante, outra história.
Esta mania de recordar factos passados só se torna perigosa quando eles se avivam na mente de quem escuta. Quando o interlocutor percebe que não há ali invenção ou fantasia. Foi assim mesmo. Também se recorda afinal.
Eventualmente recorda-se de um ou outro esqueleto que guardou no armário desde essa época.
Pois é. Por alguma razão, existe esta figura do direito ao esquecimento.
Esta mania de ser elefante trouxe-me um dissabor. Cuja causa não entendi nem quero entender. É o meu direito à ignorância.
Mas é, por outro lado, a confirmação do que há muito sabia. Para alguns, o esquecimento é fundamental. Afinal, assim são as coisas na nossa cabeça. Não sabermos já o que almoçámos anteontem.

18/04/2005

Restos de colecção (24 e 25)

Excursões artísticas



e estúdios fixos



Haverá quem coleccione esta espécie de ex-libris dos fotógrafos?
Voltando de uma viagem ao princípio do mundo

16/04/2005

Verso

Ouvi hoje um poema que continha um verso setenta e três vírgula sessenta e um por cento.
Acasos

Surpreender-me-ia encontrar hoje no mesmo sítio esta marca na paisagem

15/04/2005

Mais dois agradecimentos e um lamento

O anormal número de visitantes que esta pacata casa acolheu hoje deve-se à coincidência entre a partida que me fez o João Espinho e as gentis referências da Juliana e do Dante, lá da outra banda do mar.
É a ambos que agradeço terem-se lembrado destas vagas linhas aqui escritas.
Se ao Saudade do presidente Figueiredo fui dar hoje através do contador de acessos, ao After the fall e ao seu antecessor há muito que batia à porta.
O lamento é pelo post que a Juliana escreveu em jeito de despedida. Espero que ela volte depressa.
Cadeia de Literatura

Ora bem, pela primeira vez nesta colectividade, e graças ao João Espinho, ali da famosa Praça da República, calha-me entrar numa cadeia.
Então, a entrevista decorre assim:

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

- Por muito difícil que fosse memorizar os diferentes Arcádios e Aurelianos, e depois de ter visto o próprio Montag, seria decerto os Cem Anos de Solidão.

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?

- Não me parece.

Qual foi o último livro que compraste?

- "Diogo Alves e os crimes do aqueduto" de Artur Varatojo. Ainda não li.

Qual o último livro que leste?

- "Pernambuco no tempo do cangaço" de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho. É uma colecção de notas, notícias de jornal, ordens de serviço e outros documentos tendo como pano de fundo a carreira militar do avô do autor.

Que livros estás a ler?

- O 2º volume da obra acima.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

- Cinco livros que não tivesse lido. Assim sendo, não sei responder.

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?

- À Lili
- À Riacho
- Ao Gato (que anda escondido)
Porque blá blá blá... e espero que nenhuma delas me excomungue.

Obrigado, João, pela d(r)eferência.
Mais uma concessão à bola



Eu sei que não percebo nada de futebol. E que vejo pouco. Mas ontem vi o meu Sporting.
Vi o meu Sporting tal como vi a selecção durante o campeonato europeu. Com expectativa e com emoção.
Ora o que não compreendo é esta euforia à roda do jogo.
O Sporting procurou jogar ao ataque - de acordo.
O Sporting jogou melhor do que o adversário - de acordo.
O Sporting mereceu a vitória - de acordo.
Mas o Sporting teve muita sorte, tal como teve a nossa selecção no campeonato europeu, particularmente frente à Inglaterra e à Espanha.
Dir-se-á que não se chega a lado nenhum sem sorte - mais uma vez de acordo.
Agora o que eu não vi no Sporting foi aquela sensação de favas contadas que o Porto mostrou por exemplo na chegada à final (quartos e meias finais) da Taça das Taças de 1984, na conquista de 1987 da Taça dos Campeões Europeus e até da Taça UEFA de 2003. Já o ano passado, como sabemos, houve alturas em que parecia ter terminado ali a carreira da equipa.
Nessas competições, a forma como o Porto jogava, com uma segurança defensiva fora-de-série, e com um ataque sem grandes falhas, dava a ideia a cada momento que era só uma questão de minutos até o adversário cair. Não vi isso ontem, lamento dizê-lo.
Claro que há adversários e adversários. E que uns acabam por pôr mais a nu as fragilidades do que outros.
Mas eu não percebo nada de futebol.
Também espero, desejo, que o meu Sporting ganhe a taça.

13/04/2005

A coisa está assim



E todos os sinais estão nesta foto. Valham-me São Torpes e os bons petiscos.
Um dia estranho



Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, depois de tantos anos, apareceste no meu sonho.
Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, logo hoje que apareceste no meu sonho e depois de tantos anos, me telefonaste.
Ainda me hás-de explicar por que é que hoje, logo hoje, tinha o telefone ligado.
Hoje, que tantas coisas pequenas aconteceram, levando-me à irritação e à tomada de decisões que se vinham adiando.
Logo hoje, depois da irritação com os ladrões, com o lixo que aí por anda, sim, acredito pouco nos homens, quando me dá a travadinha vem ao de cima o desprezo pela gente que rouba, que maltrata os outros. Aqueles que eu acho que só sofrendo na pele as bordoadas percebem alguma coisa. Se é que percebem. Não sou piedoso nem condescendente. Já deves saber isso, há tantos anos que me conheces.
Logo hoje, apaziguaste-me com o mundo.
Foi uma voz. Um forte sotaque. As lembranças. Até daquela noite em que quase te fazia desistir do casamento. Melhor assim, rapariga. Melhor assim.
O rio Mira ia cheio mas nós os dois cá na mesma banda.
Um pouco mais a norte, a esplanada do Habimar e aquela face que sorria. Eu nem precisei de perguntar quem eras. A fama precedia-te.
Uns dias depois, apanhaste-me desprevenido à porta de casa, envergando a camisa dos toiros. O assobio quadrado que ouvi fez-me olhar à volta para ver qual das moças merecera tal agravo. E identificar o agressor.
E o que vi foi a (des)conhecida que ficara bem gravada, a gozar comigo e ainda com o biquinho do assobio.
Havia lá forma de não nos enrolarmos?
Logo hoje...

Isto anda muito autobiográfico.
Geografia

Há coisas que não me surpreendem. Mas que mostram claramente o jornalismo que temos.
Quando um jornalista faz uma reportagem e não sabe onde está, como há pouco na RTP.
Sucede mais vezes do que se possa pensar.
Não é preciso recuar ao verão passado.

12/04/2005

Restos de colecção (23)

Sonhei com V. (em 1913)



ou um certo francês das avós

10/04/2005

Notícias serôdias

A noite era já de Maio, 1º do dito, cacimbada e deserta, nas ruas do Alentejo marítimo.
Ao abrir a porta, vi a figura plantada no eixo da via.
Olhou para mim com um ar algo interrogativo, talvez por não contar ver alguém sair assim tão bem ataviado em local de vilegiatura.
Cumprimentei-o como se faz no Alentejo. Boa noite. Não me respondeu senão quando eu já tinha dado uns trinta passos.
Voltei-me para trás, vi-o parado no mesmo local. Na rua nevoenta, apenas ele e eu, já quase a dobrar a esquina. Disse-lhe então que o melhor era vir beber um café comigo, um ministro assim parado no meio da rua... Acho que não me respondeu. Nessa noite, no carro da E., ainda comentei que podíamos ter convidado o homem para o resto da festa. Ela achava que não.
Dez anos depois, reparo agora que o homem não ficou parado no meio da rua. É o que diz a rádio, o que mostra a televisão.
A fé na política

Não é preciso recuar muito para que nos argumentários políticos se perceba uma certa fé e uma certa aceitação, aparentemente inquestionada e inquestionável, de algum tipo de dogmas.
É preciso recuar ainda menos para perceber que muitos dos que assinavam por baixo nessas cartilhas passaram a renegá-las.
E ao fazê-lo quase o fazem com o mesmo fervor com que anteriormente as defendiam.
Está o mundo cheio destes exemplos. Dir-se-á que é da natureza humana. Que seja. O que me custa a entender é que venham desses lados os clamores pela coerência. Que a coerência não é um dos atributos humanos, a não ser na procura da sobrevivência, parece-me evidente. Por isso faz pouco sentido que a exijamos. Menos faz quando não nos olhamos ao espelho.
Restos de colecção (21)



Foto MOP

09/04/2005

A chuva

É-me difícil dizer se já vi a terra tão seca como está agora, em Abril. Tenho sempre muitas dúvidas quando ouço as certezas alheias.
O que sei é que já vi secas, várias secas e também já vi anos de chuva mais ou menos abundante.
No Alentejo, as barragens que existem há décadas contam pelos dedos de mãos humanas os anos em que atingiram o nível de pleno armazenamento. Já as vi mais baixas. Não nos esqueçamos que a despeito de pouco ter chovido este inverno, o final do verão passado - o mês de Agosto - foi particularmente chuvoso, não provocando a normal evaporação da época.
Vejo o meu montado cada vez com mais baixas, isso é um facto. Azinheiras mais, sobreiros um pouco menos, lá vão definhando. Não é coisa nova, infelizmente. Há uns trinta anos ou mais já ouvia o meu pai dar conta disso.
Aqui e ali, um viveiro de árvores novas vai dando alguma esperança. Mas a regeneração não tem compensado as perdas.
Veremos o que sucede este ano.

08/04/2005

8 de Abril

Não vou ver o teu nome escrito na pedra que os anos escureceram.
Estive por aí há menos de um mês acompanhando mais um dos teus bons amigos, de quem te fizeste primo.
Neste último ano desmanchámos a velha casa.
Mas ainda está no mesmo sítio o cadeirão onde te sentaste para sempre.
É das poucas coisas que resta.
As tuas árvores continuam a resistir e mais algumas das tuas obras vão passando os cinquenta com ares de moças novas.
O teu filho mais novo casou, um pouco mais novo do que tu - não esperou pelos 40.
Ainda não tens netos mas talvez para o ano haja mais um do teu nome.


espólio Campos Vilhena - autor desconhecido

05/04/2005

Novidade velha

Há já uns bons anos que quase não vejo televisão. Meia dúzia de minutos por dia, um filme ou um evento excepcional quando é caso disso. E é só.
Voltei agora a instalar uma placa de TV aqui na maquineta. Fiz hoje as ligações que faltavam.
Não sei se é bom sinal.
Dropping names

Na verdade, a imagem que mais me ocorre não é a do lápis azul, a que de resto só vi os traços em fotografias históricas embora ache que se tratava de um vulgar lápis de côr, é a do padre tocando a campaínha em pleno Cinema Paraíso.
1162 páginas - diz o processador de texto. A vermelho as que passaram para aqui.
Não fiz a conta às que foram cortadas.
É de há nove anos o primeiro texto. Não me passava então pela cabeça vir a expô-los a escrutínio.
Também é certo que, não fora o blogue, muitas das impressões, memórias, observações que me dei ao trabalho de teclar não teriam sido fixadas.
Ora desse conjunto de coisas escritas, muitas das que não foram aqui publicadas não o foram porque mencionam nomes.
Não se trata de críticas nem de ataques pessoais, sequer de louvores. Trata-se de citações, de evocações, de referências. Que incluem gente viva e morta e gente que nunca existiu, parte de uma confusão entre História e mito que o meu amigo SG fez o favor de me comunicar, com a devida autorização de publicação.
Aos vivos e aos mortos não faria sentido mencioná-los a fazer e a dizer coisas que nunca presenciei. A comer pão com manteiga, a guiar em marcha-atrás, a saltar de arranha-céus, a navegar à bolina, a encher pneus.
Dos últimos, seria desnecessário dar conta das façanhas e das fraquezas de Xenofonte, o Controverso; Sebâncio, o Forte; Xerxes, o Timorato; Simão, o Foxtrot; Peu, o Assim-Sebento entre outros, pois são por demais conhecidas do público em geral.
Ainda assim, um destes dias sentar-me-ei aqui a escolher das fitas, digo, das páginas proibidas, o que me aprouver.
Gasolim ao sol

04/04/2005

Não há limite para a estupidez

Sou como os demais. Também me irrito com a estupidez. Particularmente com a minha. Essa é a que mais solenemente me irrita.
Há neste combate dos homens contra a estupidez uma dose (estúpida) de incoerência.
Se a mentalidade hoje instalada é totalmente contrária à discriminação e à catalogação compreende-se mal que a estupidez seja tão catalogada, ridicularizada e discriminada.
Mas é. Não se pode atacar outra qualquer deficiência, outra qualquer anormalidade, mas a estupidez, ah essa, é malhar-lhe forte e feio.
Como ninguém fez nada por nascer estúpido, míope, com o pé chato, com propensão para a calvície (outra das que merece ainda chacota), parece-me sempre da mais óbvia estupidez (lá estou eu) que se ataquem os estúpidos.
Mas é uma espécie de desporto internacional. Estúpido, é claro.
O que hoje fiz e me levou a esta irritação é exemplar:
A porra da impressora não funcionava. Um documento ficou encalhado, já pronto para impressão, e daí a coisa não saía. Tentei os métodos mais elementares, depois fui dar a volta por trás, nada.
Desinstalei a impressora. Depois voltei a instalar, enquanto me indignava com as figurinhas à americana que procuram explicar o que é um cabo, o que é uma porta, etc.
Mandava-me verificar as ligações. Arre macho.
Quando me resolvi a sair da cadeira, reparei que umas das fichas do cabo de comunicação estava solta.
Arre macho duas vezes. Foi mais de uma hora de voltas e voltas.
Não há de facto limite para a estupidez.
Nem com figurinhas...

03/04/2005

Mééééne, pá!

Em se tratando de gifs animados, lembro-me dos seus precursores estradistas. Aqueles corações que eu nunca via nas cabinas dos camiões, apesar dos insistentes relatos de terceiros e das chamadas de atenção fora de tempo da minha companheira de viagens.
Por um qualquer mistério, demorou meses até poder deliciar-me com a visão nocturna das luzinhas vermelhas - sursum corda!
Atachado a esse berloque vinha quase sempre um outro, do qual também só tardiamente me dei conta e que era a inevitável identificação do condutor em formato de chapa de matrícula:



Pois digo-vos que tenho aqui um gif animado com o coraçanito. Figurando na esquerda alta da cabina, de quem vê de fora, claro. Mas como ficou com uma brutalidade de bytes, abstenho-me de por ora o colocar aqui. Talvez simplificando a figura se consiga um tamanho mais adequado que não sobrecarregue a página. Também é só mais uma ideia parva que me andava a perseguir, ou este sonho secreto de ser camionista...

roubei a foto do camião aqui e a da bandeira acolá

02/04/2005

O buffer

Suponho que adquiri este hábito em férias. E talvez na época em que os semanários passaram a ser servidos em sacos de plástico.
Para gozo e alguma irritação feminina, de que ainda hoje não percebi a origem visto o tempo que consagraria à leitura ser aproveitado de formas mais lúdicas, acumulava na caixa do carro as notícias da silly season.
Agora a coisa alastrou a outras épocas. Já não na caixa do carro, excepto em viagem, mas pelos mais insuspeitos locais do lar.
Vou acumulando assim as novidades, deixando que deixem de o ser, permitindo o amarelecimento de algumas, etc.
Ora o que sucede é o seguinte: a cada ano que passa, quando me detenho a pôr a leitura em dia, o que observo é cada vez mais anedótico.
E é anedótico porque em vez da notícia relembrada, do avivamento da memória, que seria a consequência natural da leitura de jornais atrasados o que acontece é que, dada a cada vez maior tentação opinativa e prospectiva, se lêem as ditas páginas como se fossem uma colecção de profecias furadas.
Há pouco li uma acabada argumentação prevendo um péssimo desempenho da selecção nacional no Euro 2004.
Sobre temas políticos, não vale a pena adiantar muito.
É verdade, era um jornal do verão de 2002. Ainda o Sr. Boloni aparecia em destaque a fazer publicidade a uma instituição.

01/04/2005

Fachada

1 de Abril

De certa forma, este blogue é uma mentira do dia das ditas.
Em primeiro lugar, porque a maioria dos que aqui chegam, vindos dos lados do Google, não encontram o que pretendem.
Em segundo lugar, porque ao próprio autor às vezes lhe parece ser mentira ter escrito tantas barbaridades.
Em terceiro porque não se percebe se há aqui modéstia, falsa modéstia ou vaidade. E havendo qualquer coisa dessas, seria interessante saber com que fundamento.
Apesar disso uma coisa não há, de certeza. Cópias de argumentos, fotografias roubadas ou qualquer outro tipo de produção alheia sem a devida identificação. Apenas o SG aparece sem se identificar, vez por outra. Mas isso é ele que pede e eu acedo quando me apetece.
Não caiam nesta.

31/03/2005

Um sonho que se realiza

E me faz encolher os ombros.

Houve uma época, da qual já dei aqui nota, em que não falhava uma noitada, uma tardinha ou uma matina em Sintra.
Em que fui a Montejunto e a Arganil.
Em que bati o poeiredo ou o lamaçal dos ralis do Algarve.
Pelava-me por ver, de sítio altaneiro, os bólides. Também gostava do resto, da festa que se fazia, da parte feminina da assistência, etc.
Acho que me deixei disso em 86. Com a morte simbólica do rali de Portugal, com a morte das pessoas que ficaram debaixo do RS200 do Joaquim Santos.
Agora que a organização parece apostada em retirar o rali da sombra, escolhe as estradas da minha serra para o fazer. A serra é minha porque eu sou daquelas paragens, falo com aquele sotaque, bebo aquele medronho, tenho a mesma cara dos que lá moram.
Sonhei com este dia, muitos anos atrás. Poder ver as máquinas entre as azinheiras e os sobreiros, com o cheiro da terra que bem conheço misturado com os odores da máquina.
Contudo, hoje não me suscita mais do que o gesto dito acima.
Há coisas que mudam.
A última noite que passei na minha serra não me traz boas memórias.


imagem em http://www.rallydeportugal.pt/evento_etapas_2.html
Aprendam

Eu sei que sou mais um de faquinha afiada. E que de críticos está a praça cheia.
E que também gosto pouco de dar lições. Muito pouco. Só que a lição não é minha.
Ouvi há uns minutos uma coisa exemplar. Não que seja extraordinária. Mas é rara nos dias de hoje quando alguém se apanha na frente de um microfone.
Para os que também viram, desculpem a repetição.
Para os que não viram o telejornal da RTP, onde se fazia notícia de um enxame de abelhas, acho que na Rua de Santo António em Faro, valeu a resposta de um apicultor à repórter que lhe perguntou:
"Então e agora?"
"Agora vou lá acima e 'panho-as!"
O biombo obrigatório

Mais uma sugestão (do R.C.) que se perdeu nestas alterações ao Código da Estrada.
Não sou contra o aumento das penalizações mas chamar a uma revisão dos valores e à alteração de algumas penas, da redacção e da ordem de certos artigos e a um colete a saber, um Novo Código parece-me pouco próprio e até ridículo.


imagem do IEP

A falta que faz a porra do biombo.

P.S.: Há até gente sentada a uma secretária que procura uma webcam para ver um acidente!
Lisboa, 1993



Marvila

30/03/2005

Aggiornamento (II)

Sendo certo que são sopas depois de almoço, pois aqui chegado, o leitor já se conectou, ainda assim vos indico esta oração.
Serve sempre para amanhã.
Lisboa, 1988



Túnel do Rossio

29/03/2005

Aggiornamento

Notícias chegadas há pouco deram-me conta de que nesta terra de onde desapareceram os cafés da cartada e do dominó, o "Oitavo Exército" joga agora às cartas dentro do McDonald's. Parece-me bem.
Afinal o cigano do amor



Há um ano e tal, lamentava-me aqui de não mais me ser possível saborear um frango com pó ao som do "Cigano do Amor".
Desde essa altura, em que me passava pela cabeça construir uma espécie de banda sonora do meu filme, já reuni umas 600 canções e músicas diferentes. Mas nada do "Cigano".
Disseram-me que era Cauby Peixoto o intérprete. Mas algures vi uma letra que não correspondia à minha memória.
Encontrei há dois ou três dias esta página onde o intérprete é Francisco Petrónio e onde a letra é de facto a de que me recordo:

Que pena eu sou, cigano do amor, nada mais
Correntes não há pra me segurar, nunca mais
E vai-se encontrar a forma de lhe pertencer
Meu coração decerto vai morrer, ou se fechará, quem sabe, ou se fechará


Agora o que eu queria era ouvi-la de novo.
Se não puder ser dentro de um disco voador amarelo ou num carrinho de choques que seja aqui sentado em frente ao monitor.

27/03/2005

A mesa do café e a montra dos doces

A tendência para enegrecer o presente e o futuro e glorificar o passado é, sabemo-lo todos, imemorial.
Dirão alguns que o que verdadeiramente lamentamos é já não termos vinte anos. Que o que de facto confundimos é a juventude com o concerto universal.
Não sei que diga. Há coisas que de facto estão piores. Outras não sei. Algumas haverá que melhoraram desde a minha juventude.
Pensando na vida que levei, não há assim nada que eu possa dizer que melhorou muito. Não sei se me ajuda muito poder chegar ao Porto ou ao Algarve em pouco mais de duas horas.
Mas com toda a certeza, uma das coisas que me facilita e muito a vida é a revolução nas comunicações. Mas nas outras. Telefones móveis dão jeito, computadores, jeitão. A rede proporciona acesso rápido a informação de que necessito. O cartão de débito permite-me ir buscar dinheiro à parede. OK.
Agora a questão que mais me melindra é justamente a da mesa do café.
Estarei eu a desprezar os disparates que ouvi outrora? Não sei. O que sei é que hoje a influência crescente da massificação na informação, concatenada com a catadupa de bytes que nos derramam em cima a cada passo, parece que contamina mesmo as cabeças mais críticas.
Oiço amplificadas e sujeitas a escrutínio as maiores enormidades.
A questão não é a maior ou menor futilidade dos assuntos. Conversa de chacha também fazia falta ao fim da tarde.
O que mais me sufoca é o tratamento e a atenção que merecem disparates intelectuais, opiniões obviamente sectárias e uma certa primaridade popular na avaliação dos factos, normalmente influenciada pela péssima informação transmitida.
Digamos que o filtro do bom senso is off. Que o tratamento básico da informação é dispensado.
Lembro-me aqui, entre outras, daquela desvalorização de 400% do peso argentino anunciada repetidamente ao longo de um dia. E do ar grave com que alguém comentava a notícia.
Há de facto coisas que podem desvalorizar 400%. Não é com certeza o caso das conversas de café. Ou do olhar que lançávamos por detrás da montra dos doces às pernas das desconhecidas. Ou mesmo da moeda argentina, depois de deixar a paridade com o dólar.
São outras. Mas não digo quais.
E ao café, ao tal café, já não vou há anos. Também ninguém aparece.
Espólio (7)

Passagem ou

traços brancos na paisagem.

Espólio Campos Vilhena - foto de MSS?