16/08/2005

E assim se passa

Compatibilidade e legibilidade

Se há imagem que se pode dizer datada, esta abaixo é uma delas.
Pertence ao intervalo compreendido entre a vulgarização do avião e a vulgarização do GPS. Século XX.
Recordo-me de várias pinturas destas. Um pouco por todo o lado no país. A grande maioria delas suponho que não avistáveis do chão.
Paralelamente, existia na rede viária um sistema de sinalização compatível com alguns mapas que era bastante eficaz.
Havia uma noção inteligente do que era necessário fazer.
Percebia-se a informação que era necessário fornecer e percebia-se como o fazer.
Depois, com o advento das competências municipais, ficou à vista que um sistema destes não pode ser entregue a qualquer um.
Pode ser uma das tarefas mais simples e óbvias deste mundo ensinar a alguém um caminho.
Mas a verdade é que muito poucos são capazes de o fazer. Donde o simples e o óbvio...


imagem da RTP

15/08/2005

Poucas as palavras

Não sei qual a razão da escassez. Mas as palavras amontoam-se noutros lados. E parece que não fazem sentido.

11/08/2005

Isto das fotos

Não se deve apenas aos novos meios ao dispôr - apetece-me dizer estes lugares comuns.
Na verdade, muito pouco partido tenho tirado da coisa. Falta de paciência para circular por aí, para escrever seja o que fôr - deve ser isso.

Isto dos posts sobre o fogo. Nada a subtrair, nada a acrescentar.
Hoje vi o programa a que se referiu um deputado e um membro do governo - a reunião de uma comissão da Assembleia da República. A tarde toda. Na AR TV.
Não retiro uma linha ao último post. E aos outros oito que encontrei:
de 20 de Agosto de 2004
de 17 de Agosto de 2004
de 28 de Julho de 2004
de 27 de Julho de 2004
de 2 de Julho de 2004
da mesma data
de 16 de Fevereiro de 2004
da mesma data

06/08/2005

Portimão, Novembro de 1989

A caminho do Sul

Naquela noite de 1986, resolvi relembrar os tempos do ferry boat.
Lá atravessei o Tejo, sentado na capota do Ford Escort, gozando a fresca.
Era uma noite destas, de calor intenso. Prenunciava o verão alucinante que se seguiria.
Recordo-me de, já em casa, ter fumado o abaladiço ali no poial da esquina. Ia a noite já alta e de botas caneleiras.
Nessa noite, não disse a ninguém que a primeira vez que atravessei o Tejo, frente a Lisboa, sem ser de barco, não foi no dia 6 de Agosto de 1966. Não. Foi uns tempos antes.


foto de Celestino Teixeira in "A ponte Salazar", GPST, Lx, Julho de 1966
Fogo

Se há coisa que fica a nu com os incêndios de verão é a falta de inteligência. Por todo o lado.
Em quem decide. Em quem critica. Em quem opina.
Não valem a pena os queixumes. A falta de inteligência é um dado do problema.
A tal piolheira, de que dizem falava o outro.
Coisas

Eu tenho uma relação bizarra com o dia 6 de Agosto.
Talvez certos pormenores só fiquem acessíveis no dia em que eu morrer.
O dia 6 de Agosto sendo um dia farto em efemérides, das quais se destaca a de 1945, não é de facto um dia que me diga muito.
Mas guardo um trauma de infância.
Sim, ainda não me esqueci. Faz hoje 39 anos estava danado. Muito danado.
Talvez por isso lhe dou importância a mais. Por isso ou por algo de que não faço ainda a menor ideia.

05/08/2005

O outro mistério

Quem se lembra de ter visto este post e ficou curioso, tem aqui
a resposta.

Não que eu não ache que, há muitos anos atrás, já a mãe da dita andava perdida do resto do maralhal, ali pela serra de Sintra ou pelas serranias à volta de Arganil.
Mistério

Argumentações sem fio, silogismos risíveis, imbecilidades várias com adornos, conversas vazias não são exclusivo de certas classes profissionais, sequer de um certo tipo pseudo-intelectual.
Todavia, há algumas destas classes que me irritam particularmente.

03/08/2005

Política

Algures em 1992, deixei de fumar.
Algures nesse mesmo ano autoexcluí-me dos queixumes face à política.
Numa noite ainda de cigarros, de conjunto musical, cervejas ao ar livre, alguns dos meus primos propuseram-me como candidato. A proposta não passou daquela mesa. Ou melhor, passou. Passou para três mesas ao lado, quando retornei à procedência e disse ao ouvido da mulher o que tinha sido a chamada.
Ninguém no imenso grupo soube da conversa. Ninguém mais soube de tal, até agora, que todos vós ficais ao corrente, a não ser outra mulher, em circunstâncias muito especiais.
Dita a coisa assim, parece que se tratou de uma conversa entre primos e de uma brincadeira qualquer. Não foi isso.
A verdade é que, tendo eu aceite a tarefa, muito provavelmente teria ganho.
Com essa decisão, aparentemente excluí-me da crítica política.
E digo aparentemente porque ainda não percebi muito bem a relação entre um acto qualquer que seja e todos os acontecimentos posteriores.
Nesse ano deixei de fumar. Até que em 1997 decidi voltar a fazê-lo, uma tardinha.
Há quase um mês voltei a pôr os cigarros de lado. Não faço a menor ideia das consequências que isso trará. Apenas sei que não me custou muito tomar a decisão nem a pô-la em prática.
Entretanto, continuo a subscrever-me.

Ponho-me a pensar que os recém-não-fumadores (ou recém-não-qualquer-coisa) costumam ser os mais fundamentalistas que há.
Eu se de alguma coisa sou fundamentalista é com toda a certeza do anti-defensorismo acérrimo. Defensores acérrimos, fundamentalistas de todos os tipos, tremei!

02/08/2005

E.N.247, 2005

Numbaro cinco

Obra de sabão

Pois PUB

Estava eu para escrever um post sobre as Férias Grandes, essa instituição em desuso, quando me deu a minha rara, diria raríssima veia consumista.
Já lhe posso dar férias outra vez.



Foi a numbaro um.

29/07/2005

De Braga para Guimarães

Há situações que me irritariam noutras circunstâncias. O caso é que, ouvidas e não entendidas as razões, não se perdeu um minuto.
Os mais expeditos já discutiam eventuais traçados alternativos.
Vamos fazer isto à moda antiga - disse-lhe.
Ela nem pestanejou, entrou no carro ao meu lado, pegou num bloco e riu-se.
Tinha a perfeita consciência de que, caindo já a noite, seria tarefa complicada escolher e medir novo traçado em tempo útil.
Avançámos assim sobre os restos de um caminho marcado num alqueive.
Voltas dadas, detivémo-nos junto a um muro de uma abadia.
Esta passagem é lindíssima - dizia ela, a contemplar o pequeno desnível das águas que assim emarulhava o silêncio da noite, não fosse, claro, o motor do carro.
Mas é também delicada. Veremos se ninguém se magoa aqui.
Ah, mas tens que utilizar este percurso. Isto aqui é magnífico. Está ainda como eu me lembrava disto.
Ok, descansemos então. Quando fecharem as comportas, atravessamos.

Caramba! Este gajo não podia apontar as luzes para outro lado?
Qual gajo? Não vês que é o Sol?
E o que é que a gente está a fazer na caixa do carro?
Tonto!

28/07/2005

28 de Julho de

Demasiados aniversários se comemoram a esta hora.
Nas margens do Mira.


espólio Campos Vilhena - composição de duas fotos de MSG
De volta às fileiras

Cumprimentámos o homem no caminho.
Eu tinha uma vaga ideia dele. O R.C. mais do que eu. E ele tinha, por sua vez, o R.C. em grande conta.
Fez-lhe a vénia intelectual da praxe e arrependeu-se dela no momento seguinte quando se apercebeu que muito provavelmente nos teria como subalternos.
Chegados a quartel, a coisa foi rápida.
Fardamento. Conversa pouca e galões. Estávamos os três no mesmo posto, o moço à nossa direita por ser mais antigo nas lides castrenses.
Lembro-me de ele me fazer, de uma espécie de balcão, a recomendação de organizar tal e tal: "Vamos lá ver se organizamos isto até amanhã!"
Mas havia festa. Eu a pensar cá para mim que era a segunda vez que vestia o uniforme nacional. Mentira ou verdade? Ainda hoje não sei. Há, no entanto, quem afirme a pés juntos que sim, que me viu militar. Embora metade já tenha morrido.
E a festa era logo ali, no rio, à frente da parada. Os F-16 por ali andavam, uma parelha apenas. Lá fizeram umas figuras evidentemente rápidas e desapareceram para os lados da Trafaria.
Em seguida a coisa decorria numa espécie de grande nave-claustro. Em ordem unida. Em havendo ordem unida, há-de haver ordem antes disso. Pelotões, companhias, essas coisas.
Como não sabia onde me enquadrar, vi a coisa de cima.
E o que vi era mais ou menos isto:



Descido à terra, os meus galões pararam em frente do tal balcão. O homem:
"Vamos lá ver se organizamos isto até amanhã!"
Não lhe perguntei em que companhia, em que pelotão estaria eu. Pelotão? Eu seria decerto o comandante da companhia. Mas de qual?
Ele estendeu-me então uns quantos bilhetes de comboio. Tinham marcada a hora exacta em que eu tinha de apanhar o dito.
"Vamos lá ver se organizamos isto até amanhã!"

25/07/2005

Esta parte da cidade

Ou lá o que é isto, é-me meio desconhecida.
Já por aqui ando há quarenta e tantos anos, ainda por aqui nada havia a não ser mato ou aquele barranco que era uma espécie de atracção para o pessoal da escola.
Vou à janela e imagino-o, ao barranco, emanilhado aqui por baixo desta espécie de praça. A linha de água é, são agora duas: uma subterrânea e outra à superfície. Um dia que chova muito se verá.

Afinal ainda há certos cheiros. Cheiros que não consigo analisar, identificar componente a componente, mas que são réplicas de outros.
Ontem, encontrei um deles perdido no mato. Algures perto de uma praia sem afluência.

Afinal ainda há certos ruídos. O daquelas bicicletas a motor que lembram as noites alentejanas.

Afinal ainda há certos casais. O H.G. e a namorada. Lá estavam a jantar envolvidos. Ele veio cumprimentar-me, de mesa para mesa, de palhaço para palhaço.
Ela gosta das palhaçadas dele. Vê-se. Sempre se viu. Não sei há quantos anos os conheço, quase há trinta, a namorar. Nem sei que mistério tão grande vêem os outros nisso.
Sim, os netos deles já são crescidinhos.

22/07/2005

Mais um sinal

Dos tempos estranhos.
Se é verdade que se prevê apoio psicológico a quem ganhar o totoloto.
Como já ouvi hoje algures.

Só me pergunto: haverá apoio psicológico a quem decide estas coisas do apoio psicológico?
Como me dizia, certa vez, trocista, o velho médico: "não há nada mais eficaz contra as radiações do que um bom apoio psicológico!".

18/07/2005

Traços femininos

Nesta coisa das campanhas, chegou a vez dos traços femininos aparecerem no rosto dos candidatos do sexo masculino. Tenho aqui à minha frente um folheto em que isso é evidente.
Vi hoje também um cartaz onde me pareceu ter sido usada a mesma técnica de retoque.

Esta coisa de campanhas faz-me sempre lembrar a chamada pancada técnica à portuguesa - bate-se no aparelho que alguma coisa há-de acontecer.

Quando o aparelho acaba por recomeçar a funcionar, há um sem número de argumentos que explicam o sucesso. Nas campanhas é a mesmíssima coisa.
A mediocridade

Ao olhar para a forma como são feitas no Google as pesquisas que aqui caem, a primeira coisa que salta à vista é a incapacidade da esmagadora maioria dos utilizadores de entenderem a forma como funciona o Google, em termos macroscópicos.
Ora o Google dá a esses ainda assim a possibilidade de encontrarem o que precisam. Não se trata de nenhum milagre. Trata-se da contínua adaptação da informática ao utilizador comum.
Desde o tempo em que andávamos, os da minha geração, às voltas com cartões perfurados até aos dias de hoje, que todos os dias se senta mais gente frente a um teclado, sem ter grande noção do que está a fazer.
Ora isso é de certa forma uma imagem da sociedade actual.
A adaptação ao utilizador comum. A distribuição às massas de algum tipo de conhecimento. A forma como se conduz um automóvel, como se tira partido de uma máquina de calcular, até como se deve pensar. O nivelamento por baixo, muito por baixo.
A quantidade de utilizadores comuns é de tal forma elevada que esmagou alguma possibilidade de elevação na informação, na comunicação. Tem que se descer baixinho porque a massa não entende.
Basta ler, basta ouvir, e a ideia com que se fica é que o nível do debate está lá rasteiro. O nível da escolha rasteiro está - discutem-se animadamente os mais rotundos disparates, o erro dentro do erro. O nível da argumentação igual anda - basta ver as construções lógicas que por aí circulam e que, de resto mostram logo que a mais simples lógica (que seja a da batata) é campo fora do alcance da maioria dos opinadores, dos analistas.
Tal como diz o Google. Não fazem a menor ideia de como o utilizar, apenas porque não têm a menor noção da tal lógica da batata.
Mas o Google ajuda-os. É desse ruído de fundo, das ajudas redundantes aos incapazes e da sua reverberação que se faz o ambiente hoje em dia. De mediocridade. Claro.
Alastrando, alastrando.

17/07/2005

A verdade

É que não consegui perceber o post que me escreveram para hoje.



Fiquemos então assim.

16/07/2005

Godot, seria dele?

Provavelmente, não.
O caso é que, quando aparentemente se sentava naquela cadeira, não faltavam as vozes em redor, dando palpites.
O velho, o rapaz e o burro parado.
E nada nas vozes fazia sentido.

15/07/2005

Restos de colecção (37)

À espera do ferry


foto de Celestino Teixeira in "A ponte Salazar", GPST, Lx, Julho de 1966

14/07/2005

Don Manolo

Diziam os mentideros que o homem não suportava nem o vento nem o sustento vindos do lado de lá.
Que teria até certa vez dado valente piparote num prato do qual comia com gosto, ao sabê-lo castelhano.
Pois hoje traçaram-me um quadro das zonas raianas que é muito pouco animador.
Mostraram-me até onde vem a atracção de Badajoz. Até onde chega a influência de Valência de Alcântara. E como vão os negócios portugueses em tais zonas.
O quadro, como disse, é muito pouco animador.
E o pior. O homem não só já vai a Espanha, como é por lá demais conhecido como Don Manolo. E gosta.


imagem em http://home.fmh.utl.pt/~al07833/Clavas.html

12/07/2005

12 de Julho de 1998

Não. Não vi o Brasil perder.
Pois calha mal

Ver e ouvir alguém que supõe estar a construir ou a demonstrar uma teoria, ostentar um sorriso alvar e debitar argumentos em borbotão.
De convencido que está que a poesia e as lindas palavras são ciência.
Lisboa, 1981

11/07/2005

Afinal

Parece que, antes do zunzum, saiu logo a notícia.
O céu estrelado, a rotunda e a ponte sobre o Nada

Não tenho nada contra.
Não posso ter nada contra, digo-me.
Cada um que tenha céus estrelados, rotundas e pontes sobre o Nada.
Eu próprio tenho as minhas bizarrias. E não serão poucas.
Todos as temos, digo já a desculpar-me.
Lindo céu de carpélio azul pois celeste ponteado por miríades de pequenas lâmpadas de Natal.
No tecto. Do bar. Em casa. No sótão.
Nada contra.
A rotunda que possibilita aos visitantes, no meio do mato, uma fácil inversão do sentido de marcha.
A ponte que replica, numa confusão de escalas diferentes, a outra. A grande. Terá um vão central dos seus 15 m, digo eu. Pareceram-me as fixações do tabuleiro no limite do cálculo. Talvez me tenha enganado. A acção do vento pareceu-me igualmente mal avaliada. Talvez me tenha enganado.
Esta coisa de inspeccionar a pedido esferas, digo planos inclinados, celestes, rotundas e pontes suspensas tem que acabar.
Mas não tenho nada contra. Não posso ter.
Uma ponte sob a qual se não nada, no Baixo Nada.

10/07/2005

La force tranquille



A ser verdade o que hoje se diz nos noticiários, a ser verdade o que foi dito por alguém que deve saber do que fala, a ser verdade aquilo que há muito suspeitávamos, fica mais uma vez bem visível uma fenda na suposta coerência dalguns que tanto clamam pela coerência alheia.
É que o mundo é assim mesmo.

imagem daqui
Na recta final PUB

09/07/2005

Falta de Loos

Boatos

Sem falar nos boatos que têm interesses obscuros e mesquinhos, que desses não cabe aqui menção, há depois aqueles que apenas resultam da má transmissão, da má recepção, da imaginação fértil ou duvidosa do esconfique...

O esconfique é uma nascente abundante de boataria.
Resulta de uma leitura preconceituosa dos sinais. Que pode bem ser inocente. Nada maldosa. Às vezes até com alguma preocupação com terceiros.

Esconfique que vai nascer por aí mais um boato.
As condições estão reunidas. Depois não digam que eu não avisei.
E não. Não põe em causa o bom nome, a reputação de ninguém.

07/07/2005

Guerra

Suponho que esta guerra terá desenvolvimentos mais notórios agora, do que teve após 11 de Março do ano passado.
Espólio (10)

Um falso pilar


Espólio Campos Vilhena - foto de MSS

06/07/2005

Definitivamente

Os bairros com trinta anos têm um cheiro que se assemelha.
Que é diferente do dos bairros com cinquenta.
E dos de que têm quarenta, vinte ou sessenta.
Cada época rescende de sua maneira.
Ou lá tresanda.

05/07/2005

La nuit



Não me interpretem mal. O facto é que a moça caiu do céu.
Era daquelas mulheres que não suscitava indiferença. Não era capa de revista. Era apenas portadora daquela terrível volta na ponta que, para os homens, se torna difícil de definir.
Não sei já bem quando a conheci. Creio que terá sido na rua, tropecei nela quando a minha companhia se deteve para a cumprimentar.
Eram então colegas. A conversa foi por aí, teses, aulas, pedras na engrenagem. O mais possível longe da possibilidade de eu dizer o que quer que fosse. O que me deu tempo para lhe apreciar os gestos, a desenvoltura.
Julgo que no encontro seguinte, igualmente fortuito, lhe oferecemos boleia até Lisboa.
Dizem que os taxistas são bons confessores porque se encontram de costas para quem com eles desabafa. Não sei se foi o caso.
Mas ela perguntou-me, lá do banco de trás, se eu já não fazia noitadas.
Explicou-se depois.
Que, durante anos, ela e eu partilhámos a noite. Ela sabendo que a partilhava com alguém. Eu de nada sabendo.
Via da janela dela, em outro ponto da vila, a luz da minha. Imaginava quem seria a pessoa que teimava em atravessar a noite, acompanhando-a. Eu, pela localização da janela dela, não me apercebia da luz. Era num ângulo para o qual nunca olhava.
Aliás, a janela pela qual observava o mundo, era do lado oposto do prédio. Dali distinguia milhares de luzes, aviões pairando, carros a circular, comboios tardios, sem que me fixasse num ponto em especial.
Mas era do outro lado que era observado. Sem disso dar conta. Eu não. A luz que mantinha acesa.
Nunca lhe perguntei como ela ligara o nome à pessoa, digo à luz na janela.

02/07/2005

A contaminação

Não sei se existe uma pudicícia da escrita pública.
Não sei se se entende que é melhor não fugir dos cânones quando a exposição é grande.
Não sei se é assim.
Não sei sequer se tal resulta de uma onda de regrismo que não se sabe bem a que costa vai dar.
Ou se advém de uma contaminação que a corrente amorfa e dominante trouxe às franjas marginais.
A verdade é que constato a cada vez mais rara ousadia de dizer coisas que colidam com a normalidade. Até de dizer coisas verdadeiramente interessantes.
Apesar daquela normalidade ser aparente. Ilusória.
Lembro-me do homem que dizia à mulher:
"Não argumentes comigo como se foras primeiro-ministro!"
E estou com ele. Ainda que muitos anos tenham passado.

01/07/2005

Noite

Percentagens

Não haverá ninguém que consiga explicar a estas criaturas que um aumento do IVA de 19% para 21% gera um aumento nos preços dos bens de 1,68% e não de 2%?
Claro que isto é na teoria. E a teoria só não se ajusta à prática quando é má teoria. Neste caso é má pois despreza, além de outros, o factor humano, seja lá isso o que fôr.

30/06/2005

O 63

Sempre me encantei com os nomes dos lugares.
E sempre gostei de ouvir as hipóteses explicativas para as mais estranhas designações. Muitas delas fabulosas, é certo. Há um grosso manto de ignorância sobre a maioria delas.
O ano passado ouvi pela primeira vez alguém designar o 63.
Não é número de polícia. Não é quilómetro constante de marco. Sequer é cota de festo. É apenas o 63. Um cruzamento de estradas perdido no mato.
No qual passei toda a minha vida sem lhe conhecer a graça.



Foto em http://ortos.igeo.pt/ortofotos/

29/06/2005

Restos de colecção (36)

Este objecto nunca foi meu.
Mas é meu há muitos anos.
Herdei-o algures do fundo de qualquer gaveta ou adido a outros que me vieram parar às mãos.
Não era o principal do lote, era adjunto - como diria a senhora que enumerava ruas adjuntas que não eram principais, ao ser interpelada por direcções, por sentidos.
Mas eu sei que é meu, sinto que é meu, porque há muito me aparece, surgido debaixo de alguma pilha de papéis a reclamar-se meu vassalo.
Nunca o usei como horário, jamais como régua, sequer como grelha. Semanas de seis dias. Recordações do tempo em que se falava da semana inglesa. E da americana.
E ele aqui, chegou ao século XXI sem ser jogado para o lixo.
Nunca foi meu. Seria de algum familiar que o desprezou.
Hoje ganha protagonismo, um lugar na História. Sai em todos os jornais.

Trajes regionais

Pode também dizer-se que uma boa linha divisória é aquela que passa entre os que tomam como absolutos e definitivos os trajes regionais, como se o tempo tivesse parado algures pelos séculos XIX ou XX e os que acham que ele, o tempo pássaro.
Ou ainda entre os que se tomam por intelectuais de serviço e os acabados imbecis. Incluo-me sempre nos últimos grupos e no grupo dos últimos, modéstia à parte.

28/06/2005

A malga e o Estado



Fosse o caso menos sério, fosse o caso menos velho, embora como os velhos, mais se tema por ele em certas épocas, fosse o caso de nos rirmos com isto tudo, diria que:
A malga e o Estado, o Estado e a malga, me lembram uma outra malga, a dos sócios que foram à feira com um pipa de vinho. E que acabaram por bebê-la, à pipa, sem uma única pinga venderem. À malga, o fizeram. Uma de cada vez.
E o estado em que ficaram.

Não tenho jeito para contar histórias. Mas há quem jure que já bebeu vinho, talvez morangueiro, por uma nalga - eu disse nalga.