Petite BeurreEstavas sentado ao meu lado nessa tarde, por isso te viste envolvido nos sucessos.
O homem entrou esbaforido. Tinha tido conhecimento de algo pouco antes.
Explicou sucintamente o que tinha que ser feito.
E o que tinha que ser feito era ir rapidamente a Leiria. E lá resolver a questão, custasse o que custasse.
Acedeste a ir connosco, sabendo que o risco era algum.
Pelo caminho, combinámos a táctica de amedrontamento que iríamos aplicar.
Escolheste um nome de guerra e um passado tenebroso. O meu seria Petite Beurre, dada a minha bizarra predilecção por tais bolachas, lá na Córsega.
Ainda hoje me custa acreditar que o homem tivesse acedido a ir connosco no carro, para o meio do pinhal. Não sabia ele o que o esperava.
Apenas nos apercebemos da tensão entre ele e o nosso comandante quando, da máquina de flippers, depois de impressionantemente teres batido sucessivos recordes de "play again", divisámos um esgar mais atormentado na cara do homem.
A seguir, deram-se as explosões. Ainda hoje, não sei se representámos bem ou mal a reacção.
Pagámos as cervejas, entrámos no carro ao sinal do chefe e seguimos de volta, enquanto ouvíamos uma balbuciada referência a um cunhado que dobrava varas de ferro.
A missão terminou quando ele voltou com um envelope e o entregou pela janela do carro. Já estava eu ao volante.
O chefe conferiu o material e arranquei. Pelo caminho, alguém confundiu as luzes de um prostíbulo com um incêndio, em plena E.N.1. Tu foste o que se sentou em cima dos pastéis de Tentúgal.
Quando chegámos ao km zero, ficaste a saber o que estava no envelope. Suponho que te terás rido por muitos anos, ao recordar esse dia.
Nunca mais lembraremos essas aventuras. Nunca mais musicarás umas instruções da revista "Crochetar" em tom de Samaritana.
Sequer assarás uma bola de borracha depois de a cortares aos gomos.
Vai em paz, amigo.