11/05/2006

Gasolim - ano XXX

mais uns quantos desde que cheguei aos pedais, e estes são os que me lembro que me passaram pelas mãos



composição feita a partir de fotografias alheias (nem todas) cuja proveniência me abstenho de nomear.
(acrescentada à medida que à memória acorrem outros volantes)

10/05/2006

Falta de espelhos

Não os há em São Bento. Nem na casa de cima nem no palácio de baixo.
Podiam de facto ser um bocadinho menos maus os protagonistas da peça.
E continuo a achar que um destes dias apanham um cagaço. Dos grandes.
Cabo da Roca, 2006



Em dia de várias efemérides, boas e más, ocorreu-me uma finisterra onde certo dia foi escolhida a mais ocidental das mulheres sitas no continente euroasiático.
O padrão está no sítio e os japoneses continuam a correr atrás das máquinas fotográficas. Quartel-General em Abrantes, digo Quartel na Serra. Viva o Trono e o Altar e El-Rei D. Miguel Nosso Senhor.

09/05/2006

Clarões e o seu contrário

Não será muito próprio dizer que um clarão é o contrário de um apagão. Não é.
Sendo que faz hoje, mais daqui a bocado, seis anos que aconteceu o tal apagão de que todos nos lembramos, também fez hoje exactamente zero anos que aconteceu algo estranho.
É que hoje, pelos alvores, ainda o sol estava longe de iluminar directamente o que quer que fosse aqui nas vizinhanças, embora o fizesse já ao longe, lá bem ao longe - sim, estou num buraco - hoje, por essa hora, algo de muito brilhante embora fugaz, iluminou a minha janela a poente, a minha secretária de onde controlo os equinócios.
Foi um brilho rápido como um relâmpago. Que já desaparecera quando o quis ver de frente. Vira-o sim pelo canto do olho.
A única explicação que encontro para tal brilho, dado que é pouco provável que se trate de descarga atmosférica, uma vez que o céu não se mostrava conforme, o IM não o assinala e o som, ainda que distante, não se fez ouvir, é a de um reflexo vadio da luz solar em algum vidro ou chapa que se houvesse movimentado lá longe, lá muito longe, de forma a produzi-lo aos meus olhos. Não é incomum. Mas há, havia qualquer coisa de mais intenso naquele brilho do que sugere tal explicação. Fiquei sem ela, a explicação. Como o fiquei na noite de 15 de Julho de 1979, em Cascais, quando vi a luz do dia perto das três da manhã. Dessa vez, porém, uns milhares mais viram o mesmo que eu. E ainda hoje estamos à espera de saber o que foi.
Há mais histórias destas narradas por gente em que acredito.
Sintra, 2005





Lembrando o belo trajecto de Bic Laranja com Raúl Proença, Madureira e Passaporte, entre outros.
(assim à primeira pareceu-me um Ford Popular o que está estacionado à frente, mas não é)
(actualizando: parece um Fiat 500 ou Simca 5, mais conhecido por Topolino)

03/05/2006

Espalhafato

De cada vez que há qualquer coisa que depende de um intervalo de tempo mais ou menos curto, é mostrada à saciedade a ignorância e a incapacidade de raciocínio da maioria dos jornalistas.
É o caso do alerta de tsunami desta tarde. Horas depois de ter sido cancelado, por ter passado o tempo devido mais as margens de segurança, ainda estarão excitados ao microfone.

Recordo-me do dia em que ocorreu a tragédia nas costas do sudeste asiático. Quando ouvi a primeira informação que dava conta de que uma onda atingira zonas tão afastadas como a costa indiana e tailandesa, percebi pelo tom nesse caso pouco excitado que ninguém que tivesse posto os olhos em tal despacho tinha tido a noção do que representava tal coisa. Viu-se logo a seguir que não. E vi também, nos minutos seguintes, que em algumas cadeias internacionais de notícias, já havia quem tivesse a noção das proporções. Nesse caso, tal como agora, parece que não se ouvem uns aos outros ou não percebem o que ouvem, o que é relativamente frequente ou então a necessidade de serem artistas de qualquer coisa faz com que o espectáculo tome conta dos telejornais. O que sabemos também é frequente.
O apagão da cegonha

Quando se apagou a luz na barraca dos petiscos, já o meu velho amigo tinha entrado a cavalo e, sem desmontar, bebido a sua cerveja.
Já a coisa estava como se viu e verá, calma.
O facto de a luz se ter apagado foi inicialmente atribuído a uma quebra de gerador.
Mas alguém reparou que se fizera escuridão total nas ruas da vila. Que não nos nos iludíssemos com os faróis dos poucos carros que manobravam em retirada.
Já não me recordo é quem foi que deu o alarme mais a sério ali no recinto. Mas foi evidentemente o primeiro que recebeu ou fez um telefonema, que as antenas de telecomunicações estavam operacionais.
Ficámos então a saber que em Faro não havia luz.
Pouco depois soubemos de Lisboa. E também de Crestuma, pois de lá disseram-nos que uma zona estava também sem energia.
Ora a situação era assim desastrosa. Havia já até os palpites catastrofistas do costume.
Na meia hora seguinte já se reunia, por via da GNR, informação bastante. Beja, Sines, Santiago, Setúbal, tudo à d'escuras.
A ideia pois iluminante surgiu logo após.
Foi quase como juntar um mais um.
O presidente da câmara ouvia mais um relatório do comandante do posto.
E foi só chegar a mecha:
"Vá, homem, 'bora lá derrubar mais um ministro!"
Não passaram dez segundos.
Ele virou-se para a direita e disse ao adjunto:
"Ligue-me já para o Governo Civil!"
Cada um fugiu para seu lado.
A energia só voltou já a gente vinha para os lados de Alcácer. O ministro não caiu dessa vez. E como é sabido quem pagou as favas foi a dita ave (pág.11).
Está a fazer seis anos não tarda nada.

02/05/2006

Santa Estupidez

Não há desculpa quando nem copiar se sabe. E já não é a primeira vez que acontece.
A verdade é que o cantado Compal Morango é uma edição especial e não uma edição limitada.
Eu é que nem copiar sei.
Já não me apetece roubar a coisa.

28/04/2006

Esse-(i)-ele-bê



Mantenho o que disse no antepenúltimo parágrafo deste longínquo post.
Quanto ao que lá está escrito no início, os números diziam este ano, apesar da intromissão na estatística de um campeonato como o do ano passado, que o Porto assegurara o título na mesma 15ª jornada. Quando o Nacional era segundo, o Setúbal terceiro, o Braga quarto, o Benfica quinto e o Sporting ganhou à Naval.

26/04/2006

Manias

E anteontem, só me apeteceu roubar, de cima do balcão do café onde vou todos os dias, a amostra de Compal Morango - edição limitada, deixando lá o cestinho.
Isto porque não vislumbro edições que não sejam limitadas.
Os tachos e as panelas

O que me parece é que quando os tachos e as panelas saírem à rua, esta malta vai ser apanhada de surpresa. Repito, é o que me parece.
O homem do segredo

19/04/2006

A ponte

Pontuei a efeméride em devido tempo.
E por ser pouco usual tratar aqui de actualidades e por gozar este blogue de um certo grau de anonimato, seria decerto esperável que o assunto estivesse encerrado e que não se manifestasse aqui a preocupação que de facto me vai na alma.
Mas não posso deixar de dizer, face ao chorrilho de asneiras, aos disparates, às distorções da História e das histórias, que me preocupo com a sanha persecutória que se antevê.
O natural, para mim, seria que o processo tivesse tido o rumo traçado pelo Juiz de Instrução. Pela razão simples de que os responsáveis, a existirem, seriam de facto outros.
Leia-se o relatório dos peritos, atente-se no que de facto se passou.
Ouvir hoje os habituais papagaios de microfone na mão não é nada de novo. É o trivial.
Mas é também o sinal de onde sopra o vento. E o lado de onde sopra não anuncia nada de bom.
E.N. 261, 1992

Melanie (See U)

Estranha é a sensação que me assola depois de me ter lembrado de Melanie e de ter encontrado na rede uma foto de grupo em que supostamente ela está. É o tamanho da foto e a sua resolução que, juntos, dão as tonalidades à sensação que me assola.
Não se chama Udson, claro.

18/04/2006

Melanie (Miss U)

Posso dizer que a primeira vez que ouvi falar no VE Udson foi no dia a seguir à sua morte. Mas, de facto, sabia vagamente da sua existência através de uns mapas que fotocopiara uns dias antes. A suposta falta do H chamara-me a atenção.
Não era normal que um VE chegasse a Portugal sem eu o detectar. Logo se havia de dar com o Sr. Udson.

Horas mais tarde, um recibo de ordenado escrito em inglês foi quanto bastou, mostrado de relance, para alcançarmos, eu e a minha colega, a zona internacional do aeroporto.
Já lá estava a vice-cônsul.
Posso acrescentar que, apesar da hora, meia-hora bastou para que eu considerasse seriamente uma ou várias deslocações ao consulado. Certo de ser muito bem recebido.

Mas tudo isso se esvaneceu de pronto quando ela se dirigiu a mim, que era o que ostentava a folha de papel onde a minha colega insistira que eu colocasse um ponto no I maíusculo - "M?SS UDSON".
Foi um abraço, claro. Mas o mais estranho foi a espécie de cumplicidade que se seguiu. Eu, a bem dizer, sabia pouco o que fazer em circunstâncias tais. Mas ela procurava-me com o olhar de cada vez que algo lhe era dito e lhe suscitava algumas dúvidas.
Nessa altura, já eu sabia que não era possível arranjar-lhe um lugar para o Porto num avião ainda nessa tarde. Possível talvez fosse, como tudo o é, mas uma secreta esperança de a conduzir ao Porto deve ter feito com que não usasse mais nenhum truque ou até talvez a influência que a vice-cônsul poderia pôr a funcionar.

A minha colega mandou fazer uma reserva no comboio. Eu próprio lá fui depositar Melanie, certificando-me de que a viagem correria da melhor forma possível. E fiquei no cais, como se jamais acenasse.

Quando cheguei ao escritório, já a minha colega falara com o director mais uma vez. E fez-me uma pergunta. Por que raio não tinha eu levado Miss Udson ao Porto de carro?
I.C. 18, 2006

Vila Nova de Milfontes, 1994

10/04/2006

Tabaco

Eu apoiaria sem reservas a indignação com que alguns aplaudem - é isso mesmo a indignação com que aplaudem - a lei de que se fala agora sobre o tabaco sse (se e só se) fosse prevista a pena de morte para todos os que na estrada causam acidentes com mortos. Já dava de barato os feridos graves.
Já fui fumador, sim. Hoje não fumo.
A(s) moça(s) das Caldas

O que há de facto de relevante para dizer, começar a dizer, desse dia é que a minha tia estava defunta. Soube-o não por carta, telefone, aerograma ou de viva voz, soube-o simplesmente.
Mas mais tarde haveria de ouvir a voz lamentosa da minha prima.
Soube também que o vulto da casa do Largo, aquela casa que fora dos meus avós paternos e que agora fora dividida em duas, falecera também. Isto, sim, dito de viva voz por uma prima também parente do vulto.

Mas havia a festa do Lopes. A festa que o Lopes dava para comemorar acho que o pau-de-fileira da fábrica que era dos outros, meus amigos também, mas que não tinham nada a ver com o Lopes, a não ser o facto de ele lhes ter construído a fábrica.

À festa, eu não podia faltar, obviamente.
Quando me ia deslocar a cada um dos velórios, fui interceptado por um outro primo, accionista da inaugurada, que fazia questão que eu fosse verificar isto e mais aquilo. Disse-lhe que não, que era amigo do Lopes e confiava nele. Se ele tinha alguma queixa, que a fizesse directamente. Eu lá estaria, depois, se ele quisesse, para dar opinião para os dois ouvirem.

E a coisa prosseguiu, sem mais delongas, a caminho da festa.
Havia grupos e grupos. Não sei por quê, as pessoas dividiam-se como dizem que o fazem nos congressos partidários. O grupo de Évora, o grupo de Cabeção, o grupo do Escoural, o grupo de Estremoz, o de Borba, o de Elvas e o mais decisivo, claro, ainda que o não soubesse então, o das Caldas da Raínha.
Da festa toda, por junto e atacado, lembro-me de termos saído para ir ao velório da casa do Largo e de lá a coisa se encontrar assim distribuída: daquelas salas à esquerda de quem entra, uma era de senhoras e tinha um tapete de Arraiolos no chão e sofás verdes de aeroporto.
A seguinte era de homens e escura. Uma versão aumentada da minha velha mesa de cozinha de lá trazida no tempo antigo, ocupava o centro. À volta, os homens sentados. Apenas reconheci um. Aos outros, todos mais novos, retirava-lhes o parentesco pelas feições.
A sala do fundo, a que corresponderia grosseiramente a antiga casa de jantar, era a câmara ardente. O vulto encontrava-se depositado numa mesa idêntica à atrás não descrita (depois direi como é a minha - a dos meus avós - velha mesa de cozinha, mas digo já que é escura) com a diferença de que, na parte central, um entalhe permitia que o vulto descansasse não sobre a mesa mas num recesso dela. Estava coberto integralmente por o que parecia ser um tecido de veludo grosso, azul acinzentado escuro, quase de reposteiro.
Reconheci nessa roda, pois os homens distribuíam-se de igual forma à volta da mesa, o mesmo indivíduo da sala anterior. Perguntei-lhe por dois nomes, dos donos da casas em que se subdividia agora a antiga morada de meus avós. Respondeu-me que estavam provavelmente a descansar ou na festa da fábrica. Fiquei mais descansado.
Recuei para a posição da sala feminina, onde apesar de tudo ainda reconhecia algumas caras, as que me haviam acompanhado e outras mais.
Foi então que reparei que havia uma abertura na parede norte que permitia olhar para a chamada zona baixa da casa. Uma zona onde ficava a grande sala e de onde se acedia depois, subindo novamente, a um quarto de costura e, por outro lado, descendo mais um pouco a um quarto que nunca percebi muito bem para que servia, mas onde me deixavam sempre estender a minha tenda.
A minha familiaridade com a casa foi questionada pela Isabel. Eu espantei-me que ela não soubesse, não se lembrasse, de que aquela casa fora dos meus avós. Disse-lhe quais mais tinham sido deles, ela só se lembrava da que fora mais tarde de um tio meu.

De volta à festa, havia forte animação, já com sequelas combinadas para o dia seguinte. Eu já estava adstrito a uma delas, que metia um chibo.
Acho que foi mais ou menos na altura em que estava o Lopes a explicar-me do chibo que elas passaram à nossa frente. Quem são? - perguntei-lhe. Das Caldas.
Confesso que não me veio à cabeça perguntar-lhe que raio fazia ali um grupo de moças das Caldas. E a razão era simples, o grupo era encantador e eu fiquei embasbacado.
O Lopes chamou-as com a bruteza habitual, nicknamed Porthos, portesidade.
Elas aproximaram-se cheias de sorrisos. E ele: Aqui o Manel diz que vocês são muita boas.
Elas riram-se, claro. Eu não me desfiz. Mas reparei e bem no olhar dela.
Depois de dar mais duas voltas ao casão, falando com este e com aquele, tropecei outra vez no grupinho.
Disse-lhes então que tinha total confiança no Lopes, tudo o que ele dizia era verdade. Tinha o meu primo accionista ao lado, claro.
Continuei com mais copos e linguiça.
A coisa deu-se quando tive a consciência de que andava com os olhos à procura dela. Pior. Quando a alcancei, dei-me conta de que me fixava também.
Dei um salto como se estivesse sentado num muro. Ela riu-se. Já não nos largámos pelo resto da festa.
Dizia eu lá atrás que da festa lembrava-me disto e daquilo. É mentira. Só me lembro mesmo dela. E do que se seguiu.
Ela disse-me então que já sabia que eu no dia seguinte ia ao chibo. Era pena. Mas talvez nos encontrássemos depois.

Ora e o que se seguiu conta-se de uma pe(r)nada. Eu e a Chica chegámos a casa quase à mesma hora. Não sabendo eu que ela andava por ali, fiquei entusiasmado ao vê-la a fazer o caminho do muro, para entrar pela porta das traseiras. E, com a maior das naturalidades, fomos para a mesma casa de banho. Perguntei-lhe onde é que ela ia dormir, enquanto ela descobria uma magnífica perna direita. Mas corrigi. Perguntei onde é que não íamos dormir. Começámos a percorrer os quartos. Quase todas as camas ocupadas. Ela lembrou-se do quarto onde costumava dormir, como se fosse uma descoberta brilhante. Eu disse-lhe que os novos donos tinham derrubado aquela ala, mais uma barbaridade, já que vinha pelo menos do século dezoito. Depois, de repente, lá veio a habitual incomodidade com o facto de ainda ocuparmos a casa, depois de ter sido vendida. Passou-me quando vi uma cama livre...

Chegados do chibo, passando pelo topo sul do Rossio, por cima da Tendinha, onde fica aquele hotel com a designação Ritz e sua imponente escadaria que rivaliza em altura com o Teatro Nacional ou talvez com os Estaus, no topo oposto, lá estava a minha prima, chorosa.
Parámos, eu e o João e mais dois ou três que a não conheciam tão bem, para a consolar um pouco. Por toda a praça cintilavam os anúncios luminosos armados nos telhados.
O porteiro disse qualquer coisa sobre estarmos sentados nas escadas. A minha prima disse que era hóspede e ainda mais uns impropérios e que ele fosse mas é ver dos assobios para os táxis.
O porteiro encolheu os ombros e virou costas, descendo a cartola.
E assim ficámos ali a carpir as mágoas, a curtir os copos e a olhar para a praça.

Quando finalmente nos dispusemos a retirar, ela recolhendo e nós na certa, a caminho de qualquer bar, avistámos o grupinho a atravessar a praça, perto daquela pirâmide de vidro que arremeda não a do Louvre mas uma das fontes da Plaza El Pilar.
Verifiquei que os meus companheiros também se entusiasmaram. Beijámos as moças e a minha, a quem beijei no fim, disse: Granda pontaria! Mas eu calculava que os apanhássemos a esta hora. Olha, aproveitámos e fomos ver o filme do...
Agarrámos nelas e fomos para a tal discoteca em poço. A das portas à Get Smart. Já não duvidava que ela era a mulher dos meus sonhos.

No dia seguinte, uma arruada qualquer fez-me sair dos carris mais uma vez. Uns copos sabe Deus onde e o mesmo paramento na escadaria do Ritz, a acabar a ronda. A minha prima chorosa, recortada contra as traseiras do quartel do Carmo.
Eu mais de olhos pregados na praça do que qualquer outra coisa. A pensar em dois dias seguidos de oportunidades perdidas.
Nada.
Quando nos levantámos, íamos todos de monco caído.
Já na estação, enquanto em vez de subir, descíamos as escadas, divisámos o grupo a sair de trás de um daqueles pilares revestidos a mármore.
Não cheguei a cumprimentar as outras. Nem ela os meus amigos.
Fomos de mão dada por ali acima, e na gare, até ao fim do cais. Inventámos aí um banco para nos sentarmos.
Disse-lhe que ou era para sempre ou não era nem mais um minuto. Ela abriu muito os olhos e concordou. E que devíamos partir imediatamente para sul.
Eu repeti e ela disse que não, baixando os olhos.
Perante o meu quase terror pânico, abraçou-me e disse que eu tinha passado o teste.
Vá lá um homem perceber as mulheres os sonhos. As mulheres de sonho. A mulher dos seus sonhos.
Isso. Vá lá um homem perceber a mulher dos seus sonhos.

Insólito

Neste blogue - Eu e Minhas Artes - por enquanto, o único link sob a designação de blogs, aponta para o H Gasolim Ultramarino.
Não conheço a autora. E como não tem caixa de comentários, aqui fica o agradecimento e a referência.

07/04/2006

O Capataz

Tenho ali aos pés da cama um capataz e uma mala cheia de gente estúpida.
À mala não a comprei nem ma ofereceram. Veio parar-me às mãos em virtude de uma troca.

Há suficientes anos para não restar disto mais do que uma pálida memória, avistei, do alto de umas dunas fronteiras ao mar, na companhia de alguém a quem queria ainda impressionar, depois de séculos de conhecimento mútuo, como se diz agora, avistei, dizia, um barco cheio de mortos.
Acto contínuo, dei disso conta à única pessoa que me podia ouvir: "Olha um barco cheio de mortos!"
Ela passou por trás de mim, colheu mais três daquelas perfumentas flores d'areia e continuou a andar para norte, afastando-se de mim e dos outros, que se tinham atrasado lá para trás.

Ora, ainda nada refeito do caso, entrei dias depois numa loja da especialidade e disse ao homem que queria trocar a minha observação.
Depois de por assim dizer observar a minha observação, disse-me:
"Tem que a trocar por uma do mesmo género. E hoje só tenho aqui esta" - apontou para uma mala vermelha.
"Ainda ontem dispensei uma banheira cheia de vinho tinto e uma écharpe cheia de nódoas. Talvez amanhã tenha cá um homólogo cheio de sintomas. Quer experimentar a passar amanhã?"

Não sei o que fazer com o capataz.
"Ai-pode"

Já aflorei aqui o problema que me assola, chegando até a cometer a heresia de me comparar a Arquimedes. Mas pronto, o que eu queria mesmo era um daqueles gravadores que a malta usava antigamente. Com aquelas cassettes de brincar. Para ver, se de facto, não deixava apodrecer certas ideias parvas que surgem e ó, é vê-las a dar às de Vila Diogo. Apodrecer é bom de ver aqui é deixá-las mas é fugir. O homem não sabe o que diz, não sabe o que escreve.
Mas, porra, é isso mesmo.
É por não saber, não saber já as palavras que brotaram da fonte e que, lá onde o fizeram, pareceram fazer algum sentido ou nenhum, que me faz falta o registador.
Possa eu ter o discernimento para o ligar e para as proferir, sonoras, sem que entrem em desalinho.

Agora, é claro, se a coisa fosse já em digital era logo melhor. Daqui a uns tempos, o reconhecimento de voz fica disponível em português e então é que é vá roupa.

Por falar nisso, aqui há um porradão de anos havia um utilitário que permitia ensinar (tipo escola primária) ao computador a escrever as palavras que ouvia. Isso perdeu-se ou ainda existe?

05/04/2006

Espólio (15)*

E.N. 261, anos 50


Espólio Campos Vilhena - Foto de MSS

Heranças na paisagem

*título alterado, retomando a tradição da casa.

02/04/2006

Vistas curtas

A vista curta é ela própria uma parábola.
É ela que nos impede de ver que as vistas são curtas. Parábola e quase paradoxo.
Pode até sê-lo no sentido geométrico, imaginando uma superfície que nos oculte parte do universo e que tenha uma secção parabólica, quando cortada por um plano alfa (alfa não, beta* - diria com ar sério um dos meus amigos).
Mas nesse caso, não seria curta, seria empalada. Com palas.
Pois bem, deixemos o disparatado intróito e passemos ao que interessa.

Ando divertido com esta polémica entre darwinistas e criacionistas. Não que esteja a par de todos os sucessos, mas suficientemente a par para sorrir benevolente com os disparates proferidos por uma e outra parte.

Ando igualmente divertido com os que se referem ao determinismo como se fosse algo que se liga às segundas, terças e quintas e se desliga nos outros dias. Não faz noites e tira férias na Páscoa.

Ando divertido com isto tudo. E mais me divirto quando as notícias me chegam pela televisão ou pela rádio.
Por alguém que tenta contar uma história sem a perceber minimamente.

*por alguma razão que me escapa, não consigo colocar aqui alfas e betas de lei.
I.C. 18, 2006