O quarto 327 (II)
Entusiasmado que estava em explicar estas e outras coisas aos circunstantes, nem dei pela aproximação dos meus inquilinos, cuja cara não conheço.
Logo estes, ao encontrarem-me ali ao pé do prédio onde em outros tempos se podia desfrutar do cheiro da magnífica urina de gato, se prontificaram a enquadrar-me numa visita guiada às obras do prédio mais acima. O nosso, claro.
Mas deixaram-me a meio da viagem. Mas o que conta é que quando cheguei à entrada do prédio fui surpreendido pelo aspecto esventrado da bateria de caixas de correio.
Para conseguir abrir a minha caixa recuada, era preciso fazer rodar, sobre um eixo perpendicular ao seu eixo próprio, um comprido canhão.
Depois, tendo acesso à sua extremidade, lá se introduzia uma gazua que actuava sobre o cardan na outra ponta.
Lá dentro, os habituais envelopes grossos. De destinos longínquos.
Mas aqui na entrada, houve outro pormenor que me interessou. A forma como o empreiteiro - duvidava que alguém tivesse feito um caderno de encargos - tinha solucionado a reparação dos falsos lambris de pedra. Vi que o enxerto estava ligeiramente desalinhado e tomei nota. Mas pareceu-me o trabalho razoavelmente bem feito, ainda que os inertes desta marmorite renovada fossem exageradamente grandes. E estivessem pintados, um a um, com predominância dos ocres e dos cinzentos.
O que parecia faltar era uma organização criteriosa do trabalho. Como se alguém tivesse pegado num grafo de obra, o tivesse abanado e as tarefas estivessem todas fora de ordem.
Ali acabavam-se os revestimentos mas, logo à frente, faltava a escada. Como sempre.
No piso de cima, ainda se faziam demolições e se assentava tijolo.
No outro a seguir, havia um bar (sempre os bares) com uma tábua a fazer de balcão. E, na falta da parede de fundo, comunicava com o exterior, onde havia outro balcão de tábua, desta feita apoiado em bidons e, à direita, um grelhador de meio-bidom, é claro. Tudo isto no alto de uma colina de onde se via o mar. Era sempre a descer até lá.
A moça mais requisitada era a mais gordinha e mais bruta. Era mesmo com ela que eu queria falar. E falei.
O interesse dela no assunto fez piorar as coisas para o meu lado, uma vez que o resto do pessoal que atendia era pouco despachado.
Os restantes clientes, que de facto não se viam, tornaram-se hostis e haviam de me acompanhar em parte da vistoria, dizendo disparates a meu respeito e da obra.
Quando cheguei à minha porta, já vi acabadas as aduelas e o lindo enquadramento com conchinhas e motivos marinhos, tudo pintado a branco.
O inquilino mostrou-me a ainda mais bela e inevitável lareira. E deu-me conta de todos os melhoramentos que introduzira.
Já meio desesperado, bati em retirada. Ainda tive tempo para gabar a marmorite a um encarrregado e tropeçar nuns pintores que se entretinham a pintar de azul ultramarino uma ripas boleadas de um dos lados.
Foi a eles que pedi três ripas para juntar à escova de aço e a uma brocha larga que já adquirira na descida e que trazia penduradas por baraços.
Quando saí, estava no terreiro em frente a uma garagem de familiares. Cheio de riscos azuis na roupa.
Já sem a brocha e a escova de aço que me haviam saltado dos braços onde as pendurara.
Um pouco mais atrás, estava um patamar em plano alto de onde assomava a mãe dos Valente.
Foi ela mesma quem me disse que a mais pequenita, que andava ali na rua aos saltitos, não era filha dela como toda a gente pensava. Era neta. Filha da filha mais velha. Embarrigou, essa...
Deixei-a com os seus impropérios e voltei para o resguardo.
Quando tinha já passado o último guarda-vento, a enfermeira-chefe interceptou-me.
Era um mulherão. Não era bonita nem escultural. Mas era alta, forte e com formas bem definidas. Um mulherão.
Perguntou-me se eu não sabia que o 327 tinha duas casas de banho, à falta de uma.
Eu ri-me e respondi: Mas eu fui beber café!