31/07/2007

Valorizações morais e ciência

Se a moral é qualquer coisa que varia com as sociedades e que emana valores que são mais ou menos partilhados, a ciência é, em todas as sociedades sem excepção, a busca do conhecimento. Ponto.
É com base nisto que não aceito que um cientista, qualquer que ele seja, introduza valores morais na argumentação científica.
Nisa, 2005

Ainda as sandalinhas

E eu que não sabia disto. Com vídeo de demonstração e tudo.

30/07/2007

Alfa pendular

Diz um responsável da CP que não é possível regular o ar condicionado dos Fiat do serviço Alfa para valores de conforto quando a temperatura exterior é muito elevada, acima dos 35º.
Digo eu que estas afirmações e o ar natural com que são feitas me faz lembrar a velha anedota dos armários para esquis em projectos importados de escolas para o meridião.
As sandalinhas de plástico

Num dia de calma idêntico ao de hoje – que a temperatura neste escritório citadino não desce dos 30º e a Lua lá fora (quanto lá fora? muito ou pouco?) está cheia e parece ajudar, reflectindo as ondas, à festa – num dia de calma idêntico ao de hoje, um insuspeito comprador de cortiça sentenciou para quem o quis ouvir que já ninguém se lembrava da revolução do plástico.
Ao ouvi-lo dizer tal, passaram-me pela memória os vendedores de alguidares, de jarros, de vasos, montados nas suas Austin A 40, Ford Anglia ou Thames.
Ao escrever agora isto, também me vem à cabeça que quase nada resta da indústria automóvel britânica, um pouco à medida da British Ever Ready Export Co..
Adiante.
Atrás. Ao plástico. Ao plástico e à calma. A noite vai de altas pressões.
E nenhumas altas pressões, calor algum me fazia andar na rua de sandálias. Impossível.
Inadequável. Jogar à bola de sandálias?
Mesmo aquelas coisas mais ou menos fechadas à frente mas que se afivelavam e deixavam os lombos dos pés à mostra, mesmo essas, a custo aceitava calçar.
Quantos pares de sapatos terei desgraçado com o futebol-pedra? E com a travagem dos carros de rolamentos, rua abaixo? E biqueirando o chão para fazer piras e matas? Isso lá era possível de sandalinhas?
Ao plástico? Pois era do plástico que falava.
Às sandálias de plástico, seja (as voltas que este tipo dá para chegar a uma coisa tão óbvia como umas sandálias de plástico).
Não sei bem em que ano quase me converti a tal coisa. Uma coisa deve ser certa, devia estar longe da minha trupe e perto das minhas primas. Com elas, seria pouco provável que se desenrolasse um muda aos cinco, acaba aos dez a qualquer altura.
Nessa óptica, talvez me tenha rendido a experimentar as coisas. Afinal era só para chegar à praia. Lá, poderia de novo chutar a bola sózinho mas de pés nus.
Mas a rendição não terá sido incondicional, creio. Parecia-me aquilo coisa de mulheres.
E depois fazia-me roeduras nos dedos, ali onde encaixava nos ditos.
Era razão mais do que suficiente para preferir calçado mais másculo. Sapatos, pois.
E assim foi, até um dia.
Um dia qualquer, em que a minha masculinidade já não seria posta em causa por um calçado duvidoso, ainda que cor-de-rosa ou assim, deixei que ela me comprasse uns.
E a coisa estranha foi que não me fizeram mal aos dedos.
Devo ter ganhado calo.
Já era pois mais do que altura para me esquecer da bola e da dificuldade que era correr à frente da polícia com tais coisas nos pés.
Dispensei-me de lhe contar das minhas reticências a tal tipo de solas auxiliares e comecei a olhar com um certo carinho para as sandálias de plástico.
No verão seguinte, dado não as ter transportado na bagagem, comprei outras. De cor diferente.
E no outro, idem.
Para aí ao terceiro ou quarto verão - se fosse no terceiro tinha sido na linha de cima, não façam caso, mas terceiro a contar do quê? - fazendo a habitual paragem de meio do caminho na casa da vila, vi no meu quarto um par a olhar-me assim que suplicantemente. Leva-nos lá para a praia. Não fomos feitas para o sequeiro. E, dando-lhes razão, carreguei-as comigo.
Mas não resisti a mudar de cor, uma vez mais. E lá juntei um novo par.
Desde então, juntei umas quantas cores diferentes. Depois deixei de ver tal calçado à venda. Falo daquelas mesmo oficiais. Que imitações e apegreides é o que não falta para aí.
Deixei de ir à praia. Ou quase. Penso se terá o caso a ver com a falta de sandálias de uma cor nova. Talvez.
As penúltimas que comprei eram dessas já especiais de corrida. Pretas e com o arco-íris nas fitas. Arco-íris? Pois! Nesse tempo longínquo era apenas um arco-íris, a luz visível.
As últimas, foram há dias atrás. São amarelas, de fita cor-de-laranja.
E têm um saúrio, unzinho só, assim à maneira do Escher.
Tem que estar muito calor aqui (fui ver – estão 29º) para eu escrever tanto disparate.
E publicá-lo. Coisa que vou fazer a seguir, mesmo que não faça sentido dizê-lo assim, depois de já terem lido (corajosos!).
É do calor, acreditem.

Бериев

O que é que estes Beriev têm de novo, para os dos costume dizerem que é a primeira vez que combatem os fogos em Portugal?
O ano passado não contou? Estavam à experiência, isso soubemos por insuspeitas vozes. Mas estavam.


Beriev na ria de Aveiro - imagem da SIC N em 13 de Agosto de 2006

29/07/2007

Le Tour de France - c'est ça!



imagens dos canais RTP N e Eurosport
Coisas assim

Aquilo que ouvi hoje em dois canais distintos de televisão, em línguas distintas, ilustra bem o estado a que chegámos no que respeita a informação, a jornalismo.
Para quem não sabe, houve na sexta-feira em Phoenix uma colisão entre dois helicópteros ao serviço de televisões, que se dedicavam a seguir um tipo que fugia, de carro, à polícia. Morreram quatro pessoas.
Já todos vimos essas perseguições filmadas do ar. Se bem que sem acidentes de helicóptero.
O que me deixou de ouvido à banda foi a informação de que o caçado – que o foi mesmo – pode ser acusado por responsabilidade na morte destas quatro pessoas.
Haja ou não um fundo de verdade nesta afirmação, o resultado é igualmente absurdo e muito ilustrativo. E já agora, exemplar. Não sei é de quê, mais uma vez.

28/07/2007

O decil 4

É a minha aposta desta semana.
Agora que

A coisa começou a aquecer, não tardará quem venha dizer que este verão é o ... de sempre ou desde que há registos.
Portugal, 2005

Assim, à segunda vista, não há nada de invulgar neste bedouro, como se diz lá para as minhas bandas.
Falta-lhe a torneira em cima ou o constante repuxo, pelo que está inutilizado.
E, aproveitando a canalização, lá está uma torneirinha para a rega, como se subentende pela mangueira anexa.

Não se pode é dizer, dadas as circunstâncias, que não pareça, de repente, uma construção digna da lógica reinante.

26/07/2007

Le tour de France

Há uma espécie de falso pudor virginal nesta história à volta da volta à França e do ciclismo em geral.
Mas afinal desde quando é que andaram todos os que agora parecem surpreendidos, a enterrar a cabeça na areia?
Eu continuo a gostar de ciclismo da mesma forma e com a mesma admiração, desde a ribeira do Vascão.
Mas não confundo ciclismo com desporto, tal como não confundo com desporto a grande parte das actividades que como tal são designadas, o futebol por exemplo.

25/07/2007

A morte dos mapas em papel

Sei lá quando começou esta minha paixão pela cartografia, pelos mapas do estado das estradas, pela navegação de carta no colo.
Certa vez, vi-me comparado ao patriarca de Macondo, fechado num quarto com mapas portugueses.
Percebi ao longo da vida que esta minha paixão era abstrusa para a maioria.
E que para essa maioria, um mapa era uma coisa estranha, difícil de interpretar e de utilidade mais do que duvidosa.
Apercebi-me que esse era um dos factores que fazia com que o rebanho se encaminhasse todo para os mesmos percursos, deixando livres e desimpedidos valiosos caminhos secundários, de norte a sul.
Hoje, alguém entrou no H Gasolim Ultramarino através desta pesquisa:
lisboa a vila nova de milfontes estradas
E, apesar de, lá conseguiu a dica que se encontra em primeiro lugar nos resultados.
Isto fez lembrar-me de um episódio que faz parte da lenda, melhor dizendo do anedotário familiar.
No tempo em que a ida a banhos se fazia em comboio de tracção animal, contemplando carro com bagagem para três meses e até carrada de lenha. Coisa anterior ao maquedame que haveria de justificar a compra de automóveis, anos mais tarde.
Numa dessas idas, que eram de muitas e muitas horas até Vila Nova, falhou qualquer coisa. O navegador habitual estava impedido por qualquer razão e como a primeira parte da viagem era feita na calada da noite, sucedeu que a antemanhã os surpreendeu à vista da vila, posto que tinham circumnavegado.
Conheci alguns almocreves que foram lá do monte. Nenhum deles admitiu estar nessa caravana, lá pelo final dos anos 30.


trecho do Plano Rodoviário de 1945 (JAE)

Ah, os mapas em papel.
Pois parece que têm os dias contados.

24/07/2007

Um homem chamado Governo

aqui citei a história ao de leve.
Mas hoje vem a propósito da data.
Conta Luz Soriano, na História da Guerra Civil, que na manhã de 24 de Julho de 1833, um homem chamado António Joaquim Governo terá resolvido por sua iniciativa o impasse da guerra:

Rebentára pois a manhã do citado dia 24 de julho, quando, seriam então quatro horas, um homem do povo, chamado Antonio Joaquim Governo, de profissão alfaiate, e primeiro sargento da oitava companhia do segundo batalhão do regimento de ordenanças da côrte, arrebatado dos desejos de fazer apparecer a insurreição, se dirigiu ao caes do Sodré, onde achou em contestações junto do mesmo caes os catraeiros, que já ali se achavam, por causa de um d’elles haver levado a bordo da Mixeriqueira alguem que d’este navio pretendia passar ao Porto. Antonio Joaquim metteu-se entre os ditos catraeiros, a pretexto de os accommodar, e quando os julgou dispostos já a seu favor, tomou a resolução de romper em vivas e acclamações a sua magestade, a rainha D.Maria II, e à carta constitucional, tendo por si a fortuna de ser logo seguido por varios dos circumstantes, a que depois se reuniram alguns dos operarios, que vinham para os seus trabalhos do arsenal da marinha.
Este facto, presenciado de Cacilhas e Almada pela divisão constitucional do duque da Terceira, fez-lhe logo suppor, que algum movimento revolucionario se achava em começo em Lisboa, pensando nós também que este mesmo facto fôra um dos motivos, que levára o governador, e a guarnição do castello de Almada, a entregar-se ao referido duque, o que varios dos seus defensores fizeram, fugindo outros para a Trafaria, como já vimos. Alcançado assim este triumpho, o mesmo Antonio Joaquim Governo, enthusiasmado por elle, passou do caes do Sodré ao largo do Corpo Santo, acompanhado já por bastantes individuos da sua classe, e sentimentos iguaes aos seus. No referido largo encontrou elle alguns soldados, que com as bagagens dos seus respectivos corpos, se dirigiam para o Campo Grande, para lá se reunirem a elles. Governo e os seus companheiros lançaram-se atrevidamente aos referidos soldados, tendo a fortuna de os desarmar, sem haverem soffrido incommodo algum.
Do largo do Corpo Santo passaram depois ao do Pelourinho, e encarando com o arsenal da marinha, onde estavam de guarda alguns voluntarios realistas, tomaram os amotinados a resolução de se lhes apoderarem das armas, que por um dos postigos, que estava aberto na porta principal, viram encostadas a um dos pilares do telheiro fronteiro à capella de S. Roque. Foi o mesmo Antonio Joaquim Governo o que lhes deu o exemplo para esta façanha, que os levou a assenhorearem-se das referidas armas, sem que alguem se atrevesse a embaraçar-lhes o passo, pois que elle Governo, depois de as ter assabarcado todas a si, bem como as respectivas patronas e cartuchame, que dentro d’ellas havia, fez de todas estas cousas franca distribuição pelos seus associados. Eis-aqui pois como appareceu em publico armada e municiada a primeira porção dos amotinados em favor da causa liberal. A ella principiaram depois a reunir-se na cidade baixa outras porções de povo, visto não haver auctoridade alguma miguelista, que lhes impedisse o seu agrupamento, ou procurasse dominar a revolução. Da dita cidade baixa passaram os revolucionarios ao Limoeiro, onde soltaram os presos, seguindo-se-lhe depois todos os mais actos, que pozeram a revolução em caminho plano para o seu triumpho.



Antonio Joaquim Governo era um grande fallador, com a monomania de ter sido elle o auctor da revolução liberal, rebentada em Lisboa em 24 de julho de 1833. Arrastado por esta crença, veiu uma vez procurar-me a minha casa, para me confiar um documento passado em julgado, baseando-se a respectiva sentença, no depoimento unanime das testemunhas que apresentou, para provar os seus allegados serviços, exigindo tambem que eu os consignasse na minha historia, o que agora faço, convencido de que este homem já morreu ha muitos annos. Entretanto é um facto, que pelos seus ditos serviços foi nomeado, em 1 de Julho de 1835, continuo addido á repartição do ajudante general, d’onde depois passou para o ministerio da guerra, quando se extinguiu o estado maior general, e o commando em chefe do exercito, achando-se em outubro de 1867 em primeiro continuo da respectiva secretaria d’estado, tendo já sido preterido para o logar de porteiro por um outro individuo, que tendo menos serviços, é provavel que tivesse por si maiores empenhos, porque emfim, já muito antes de 1867, o ter por si bons serviços á causa constitucional, despidos de protecções clubisticas, eleitoraes e partidarias, embora taes serviços fossem prestados em arriscada epocha, de pouco, ou nada serviam para conseguir empregos. Nenhum liberal de boa fé pensou jamais até 1834, ou 1835, que o systema liberal, havia de facto ser o que desde então até hoje todos temos visto. Todavia, parece-nos tambem que Antonio Joaquim Governo, semi-doido como era, não estava no caso de ser nomeado porteiro, emprego que exige já mais alguma coisa de juizo e merito do que este homem tinha, ou mostrava ter, sendo por fim reformado no lugar de continuo.


Esta história, tendo ou não o seu fundo de verdade, faz lembrar que muitos desenlaces se dão de forma similar, fruto daquilo a que se costuma chamar acaso, custando por isso muitas vezes aturar o certezismo causa-efeito de alguns historiadores.

Luz Soriano, Simão José da; “Historia da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal”, 3ª época - tomo IV, Imprensa Nacional, Lisboa, 1884, pp. 389 a 391.

fac simile na BND – pp. 389 390 391

23/07/2007

Uma questão de mantissa

Era assim que eu exemplificava a relação entre massa e altura, nos homens.
Fazia-me forte enquanto ela se contorcia sob o véu branco da túnica e exibia os seios em toda a grandeza e esplendor, para usar o mais comum dos lugares, que era o meu.
Alguém tinha dito que eu a abandonara, horas ou minutos antes, na mesa do antigo presidente da câmara.
Entretanto não se passava em lado nenhum. As chuvadas de verão tinham enchido os barrancos e transformado em lamaçais intransponíveis os caminhos nas portelas, nos corgos e nas várzeas.
Só com tractores de rasto – dizia um.
Ela fazia-me esquecer a impossibilidade de ir ao monte.
Deitava-se algures com a luz por trás.
E eu saía para a praia. Logo ali ao começo do caminho, verificava que a maré cheia a desfazia por completo. Nem um assomo de areia, à excepção do acesso onde me encontrava.
Metia a viola no saco e voltava.
Ela estava sentada na mesa do antigo presidente da câmara. Sem o dito.
Só com crianças, praticando o magistério.
Ergueu os olhos, quando entrei no café. Terminou a lição e disse que era hora de tomar indecisões.
A natalidade fiscal

Parece que há para aí umas mentes iluminadas que partem do princípio que a inversão da tendência da taxa de natalidade se faz com incentivos fiscais e subsídios diversos.
A barquinha voadora do Professor Pardal

O sonho de uma vida.
Ter um veículo voador descapotável, meio termo entre o carro anfíbio e o disco voador, similar a uma das muitas versões da barquinha voadora do Professor Pardal.
Vermelho e com estofos canelados, é claro.



Este, a bem dizer, não se parece muito.
Apenas o suficiente para eu também querer ter um.
Esta parte da história da aeronáutica tem objectos curiosos.

20/07/2007

O estado das estradas

Um dos indicadores da situação do País é o estado das estradas.
A coisa está perto dos níveis de 75, 76 e seguintes.
Não era uma vez

Aquilo que é vulgar, que já foi milhentas vezes contado e recontado, um dia toca-nos à porta.
Sabíamos que era assim, estávamos fartos de o saber, mas não imaginávamos que assim fosse. Assim – connosco.
Ora de livros que um dia têm uma coisa escrita e no dia seguinte têm outra, há muito que falam outros livros, há muito que se contam os seus desenganos.
Com o que eu não contava era que isso me acontecesse.
Que um livro trocasse de letras na estante, contasse uma história semelhante mas com um final diverso.
Não me conformo.
O prémio de consolação

É uma consolação assistir à entrega do prémio da combatividade em cada etapa da Volta à França.

18/07/2007

O náufrago

Foi no domingo.
Contei a história do homem especado, gesticulando no local dos sucessos, como se uma reportagem qualquer me entrevistasse.
Dos presentes, ninguém a tinha ainda ouvido.
Dos ausentes, a única pessoa que podia ter alguma lembrança do episódio, não se lembrava.
No domingo, o homem começou portanto a cair no esquecimento.
Naufragou. Deu em todas as televisões.
Um argumento

Um argumento muito usado em tempos para terminar as operações no aeroporto da Portela era justamente o do perigo de acidente aéreo sobre área urbana.
Argumento que agora deve voltar em força, a julgar pelas notícias desta noite.
Em abstracto, acho-o válido. Mas é preciso escrutinar bem o assunto. E isso pouca gente é capaz de fazer, de forma acertada.

15/07/2007

Vila Nova de Milfontes, 2007

Discorrendo

Suponhamos a>b

como a=b

então 2a=3b

donde 2bx<3ax

logo c=d

Q.E.D.

(todos os dias, a todas as horas, numa televisão, numa rádio, num jornal ou num blogue perto de si)

14/07/2007

A má sistematização

Não é raro, é até muito frequente que qualquer tentativa de sistematizar dados em organismos públicos comece de uma dada forma e, logo a seguir, enverede por um caminho diferente.
Quase sempre porque qualquer coisa óbvia não foi inicialmente prevista.
Vim agora de consultar uma base de dados criada há semanas.
Um dos campos já está formatado de outra maneira.
É a vida.
Restos de colecção (62)

Coisas que se encontram dentro de livros:



E que não se encaixam na realidade conhecida.

11/07/2007

A taxa de natalidade

Pareceu-me ser o tema do dia, a julgar pelas vezes que a ouvi ser mencionada em fundo.
Duas notas perguntáveis:
Primeira – há quanto tempo é que a natalidade entrou em recessão em Portugal?
Segunda – o que dizem os estudos zoológicos sobre as causas prováveis que levam as outras espécies a não se reproduzirem?


Adenda ainda a tempo e terceira nota:
Sempre achei interessante olhar para estas tabelas.
Pereiro Grande, 1996

10/07/2007

Os livros

Dizia eu, acho que ontem, à Dona T. que, se me perguntassem quais os últimos cinco livros que arrumei, teria dificuldade em identificá-los. Talvez por não ter dado por nada de interessante lá dentro, talvez porque a memória de curto prazo se deteriorou indecentemente. Lá teria que ir à pilha ver se os conseguia ainda identificar.
Dado que se me depara uma pergunta diferente, descanso.

Ora bem. Esta coisa de indicar cinco livros carece de uma informação vital.
Saber o que lêem as pessoas que me lêem. E eu isso não saberei, para além de saber que me lêem.
É que não faz sentido indicar a outrem um livro que, na certa, já leu.
Assumirei então, de acordo com um critério que eu próprio não saberei identificar, se interpelado, que a probabilidade de algum dos meus leitores ter lido as obras indicadas é baixa. Mas isso só não basta.
Seria também preciso ter uma noção das preferências, dos gostos dos meus leitores. Lá terei umas suspeitas mais ou menos certeiras de acordo com o grau de conhecimento passado. Mas não sei grande coisa.
E, mais importante ainda, assumir que acham de alguma relevância a minha opinião sobre estes livros – mais um gosto do que uma opinião – e que experimentariam ler um ou outro.
Posto isto, há uma probabilidade baixa de algum dos leitores que entretanto aqui passarem se dar ao trabalho de procurar tais livros, a saber:

Pierre Benoit, “Pour Don Carlos” (1920), Le Livre de Poche – 375
Maurice Bedel, “Jerónimo a 60º de latitude norte” (1927), Ed. Sociedade Contemporânea de Autores
Eugène Dabit, “Hotel do Norte” (1929), Col. Miniatura – 92, Livros do Brasil
Georges Simenon, “A casa do canal” (1933), Col. Miniatura – 83, Livros do Brasil
Anders Bodelsen, “Um número à escolha” (1968), Col. Vampiro – 307, Livros do Brasil



Cadeia a que não darei continuação, apesar de achar útil a indicação de livros.
Por último, uma nota a propósito: na última cadeia destas a que respondi, também a solicitação do Nikonman, o autor do livro que lá citei como tendo sido o último a ter lido, escreveu-me, agradecendo a alusão.
Desta feita, a probabilidade de tal acontecer é muito baixa.
Bodelsen ainda é vivo.

09/07/2007

O porto seco

O defeito é meu. Sei-o bem.
Mas quando ouço falar do porto de Lisboa, fico sempre à espera de ouvir alguém dizer que já é altura de o retirar da zona ribeirinha.
A ponte do Carregado

Vale a pena assinalar, no dia de ontem, a inauguração da ponte do Carregado, dita das Lezírias, uma das que se falava há anos e anos e nunca mais se fazia.



Aqui há uns meses atrás, ouvi o Primeiro-Ministro referir-se a esta ponte como “a quarta...” e fiquei à espera do resto, de saber em que escala era ela a quarta, mas infelizmente o registo sonoro foi truncado e não fiquei a saber.
Ouvi-o hoje por duas vezes pronunciar “a quarta”.
De uma vez disse que era a quarta no estuário do Tejo. Ele lá saberá onde começa o estuário. Talvez imediatamente a montante desta ponte.
Da outra disse que era a quarta e pronto. Seja!
A contar da foz? É a quarta a contar da foz, de facto. Como antes de ser construída era a quarta a Ponte Raínha Dona Amélia e como seria a quarta qualquer uma que se fizesse entre aquela e a Marechal Carmona, em Vila Franca de Xira. Qualquer uma destas duas tendo sido em tempos idos a primeira. Observação notável, de facto. A fazer lembrar anedotas de outros tempos.
Não esperava mais, é certo.

A foto é manhosa. Retrata mal o estado da arte no dia 14 de Outubro do ano passado.

07/07/2007

E.N. 344, 2000



Barragem de Santa Luzia
A minha campanha (II)

Quando já não há pachorra para tanto papagaio com ar magisterial, pronunciando ilogismos, non sequitur, rotundos disparates e erros crassíssimos, denotando colossal ignorância e total incapacidade racional.
É que não há mesmo.
Uma campanha é sempre qualquer coisa de um roto para um nu. Por isso...

06/07/2007

E é também difícil

Manter a cúnea fleuma perante aqueles que sabem exactamente quais serão os cenários dos próximos 20 anos na fileira da cortiça.
Restos de colecção (61)


edição de Espada & Espada, Sines

Carimbado em 1945. Para que a Dona T. não fique triste.

05/07/2007

Restos de colecção (60)



E.N. 6
in "As estradas e a urbanização", palestra do Engº Civil Álvaro Lima, MOP - JAE, 1954
A qualidade dos intervenientes

Isto da massificação, da quase omnipresença da imprensa escrita e falada, dá uma ideia mais precisa da qualidade dos intervenientes.
E o que se percebe é tão mau, tão mau.
Tanta gente burra em lugares de responsabilidade. Burra, não. Muito burra.

02/07/2007

Rádio Gilão

Acho que sempre tive um fraco pelas rádios locais.
Particularmente pelas do Algarve, em tempo de férias.
Hoje tropecei no site da Rádio Gilão que me acompanhou por magníficas vilegiaturas por aquelas bandas.
Não há nada como a voz das locutoras algarvias!

Casada com vistas de Algarve quase antigo.



O que será feito do Jorge Luís, aquele que cantava “Paz na Cama” e que era requisitável nos discos pedidos?

Devia ser proibido ouvir rádios balsenses aqui nestas bandas.
As grandes questões universais – episódio q

Há quanto tempo é que os melhores programas humorísticos são as entrevistas com especialistas?

01/07/2007

Com legenda mas sem elas

O limite invisível

Há-de existir um limite da asneira plasmada nos despachos das agências de notícias, a partir do qual os jornalistas de serviço dão por ela, antes de a reproduzirem.
Ainda não dei eu por ele.
Há uns dias foram os 54º em Bucareste.
Sanlúcar de Guadiana, 1988



Este monte veio-me à lembrança quando em tempos se falou disto (aqui e ali).

Este e outros que para aí há.

30/06/2007

Improbabilidade

Há qualquer coisa de bizarro e de improvável nesta sequência de acontecimentos que tem tido lugar no Reino Unido.
Incêndios, 2007



Há coisa de minutos atrás.

29/06/2007

As unidades de medida

São como o resto.
Conhecemos, lidamos com umas e nada sabemos de outras. Mesmo que um dia tenhamos visto uma equivalência algures, nada nos dizem.
É o caso do alqueire. A mim não me diz nada, não obstante ter passado a vida a ouvir falar dele.
Um destes dias ouvi um indivíduo a dizer que os pais dançavam em cima de meio-alqueire. De uma caixa de castanho com essa capacidade.
Sei da arroba, vejo-a mais do que a peso. Vejo-a nos porcos, na cortiça.
Sei do hectare, passo-o a olho também.
Sei do cavalo-vapor, do quilómetro, do minuto. Sinto-os a puxarem-me, vejo-os a passar, estimo os que faltam.
Sei do grau centígrado, na pele. Do litro, goela abaixo.
Mas falta-me essa noção de alqueire, ainda que o saiba equivalente a... , ainda que o reouça contado nas inúmeras histórias da minha infância.
De azeite.

28/06/2007

Vila Nogueira de Azeitão, 2006

Palmela, 2006

O homem com cara de manta de baile

626 páginas - perdão, 625 páginas - já que esta foi eliminada, é a quanto monta o livro das coisas que para ali estão à espera de um dia descerem ao prelo virtual desta praça.
De tudo o que lá encontrei hoje, com a minha cara de hoje, foi a esta notícia que me apeguei:
A do homem com cara de manta de baile.
Daquelas que as vigilantes mães do povo punham no regaço nas noites de invernia.
Não creio que seja preciso dizer mais nada.

27/06/2007

Tony Blair


imagem da BBC

E é hoje que o homem se vai.
O critério pelo qual se avalia hoje o desempenho de um político parece-me ser o da quantidade da variação de qualidade de vida que proporcionou àqueles a quem governou.
Seja lá como é que isso se mede.
Por não saber como é que isso se mede é que não posso pronunciar-me objectivamente sobre o homem.
Como é sabido, tinha a minha parcialidade quando avaliava os seus actos. Parcialidade que começou ainda antes de ganhar as eleições em 1997.
Passados que são dez anos, acho agora que são raros os homens como ele.
Descontando todas as barbaridades que disse, exactamente por ser político.
É que políticos, hoje, há poucos. Ele era de facto um.
Avarias

26/06/2007

Algarismos significativos

De acordo com o estudo dito da CIP, a minha freguesia encontra-se na zona de atracção da zona do Poceirão mas não na da chamada zona H, a tal que se sobrepõe em parte, nas alternativas 2 a 6, ao Campo de Tiro, quando comparadas com a Ota.
Se considerarmos as seguintes distâncias*, com um erro a menos de 10 km, erro que me parece razoável dada a dimensão do empreendimento:
À Ota – 160 km
Ao Poceirão – 110 km
À zona H – 120 km
é de duvidosa clareza que se tome por unidade significativa a freguesia.



*medidas na aplicação do IGEOE sobre a Carta Militar de Portugal, do edifício da sede da freguesia ao centro dos rectângulos ditos Ota e Poceirão e ao baricentro do polígono definido pelas linhas exteriores da conjunção dos seis rectângulos traçados na zona H, no referido estudo.

24/06/2007

Restos de colecção (59)

A propósito da data que é também quase o 44º aniversário desta ponte, relembro outros posts.



in Ponte da Arrábida sobre o rio Douro e seus acessos, MOP - JAE, 1963
clicar para ampliar

22/06/2007

Torres Vedras, 2006



O meme visto por ele próprio

Confesso que não sou muito dado a cadeias. Vejo os links que aqui tenho como elos de uma, de umas. Basta-me isso.
Mas lançado que me foi o repto, uma vez mais, acedo a integrar-me numa.

Ora, o meme. O meme é um nome que já tinha visto escrito aqui e ali. Não me despertou interesse a palavra, o conceito, a ponto de querer saber exactamente o que era, ao contrário de outras palavras, de imagens que me levam em correntes, elas sim, de novos conhecimentos. Acontece a todos, creio eu.
E recebido o convite para o meme, houve então que completar a noção pálida que tinha do conceito e que era qualquer coisa relacionada com mimetismo.
Eu faço. Tu fazes. Ele faz.
Mas não é isso, sendo-o.
Do que descobri, via aqui e acolá, posso mencionar que tropecei neste post, que daí fui à wikipedia e que por lá me quedei. Diz que o nome tem mais de 30 anos. Muito prazer.
E fiquei com a ideia de que é uma definição poética demais para ser científica.

Aceitando todavia que estes pontos de contacto nos permitem passar memórias que se apagariam de outro modo e apesar de este blogue ser em parte dedicado à preservação de algumas memórias, passando-as, aproveito o ensejo para relembrar dois factos da História de Portugal do séc. XX que parece terem sido banidos dos relatos:

O acidente ferroviário do Rápido do Algarve que ocorreu perto de Sabóia (Odemira), creio que em 1956, e parece que foi um dos mais graves acidentes ferroviários ocorridos em Portugal.
A onda de muitos metros que matou na areia uns quantos pescadores na praia de Santo André (Santiago do Cacém), apanhando-os completamente desprevenidos e que terá ocorrido ou na década de 1950 ou na de 1960.

Suponho que as tentativas que fizerem de pesquisar na rede sobre tal, irão fatalmente voltar aqui, a posts anteriores em que os já mencionei.

A minha proposta é pois: Passo este meme a quem tiver alguma informação mais sobre um destes dois factos. Ficava muito grato se me a comunicasse.

E aqui está, Errezinha.
Anços, 2006

20/06/2007

Suicidário

Tínhamos vindo das cervejas no bar da praia.
Os sete ou oito que ali andávamos entre a política e as Marinas frescas, tivemos mais tarde a certeza de lá ter visto um blusão de cabedal que de costas parecia soçobrar a uma franja decorada com fita.
Entre o manifesto de resistência mais ou menos militante, ainda que naquela hora tão efémero que se reduzia a traços na areia que a maré vazia proporcionava como quadro, e o silêncio sobre as expectativas individuais incidindo no próximo baile da Esplanada, distinguimos claramente o som da motorizada em lancinantes arranques.
Celebração finda com a pancada brutal.
Quando alcançámos o final do túnel e encontrámos a máquina ainda acelerada no fundo das escadas, já o blusão de cabedal mostrava ao cimo dos degraus reflexos metálicos da pouca luz que a cerrada noite permitia. Talvez luar apenas.
Não morri! - a frase concatenava-se com os ecos da discussão que recordávamos agora.
Pôs-se de pé. Andava, sangrava, ria, chorava.
No hospital da vila, uma empregada em traje de sono escancarou-lhe as portas. Que venha a ambulância, que estou cá sozinha.
Não cheguei a saber a quem pertencia o blusão de cabedal, apenas soube de onde viera.
Três anos mais tarde, enquanto conduzia a casa o encanto de uma noite, percebi que era conterrânea do blusão preto. Se ela sabia quem era.
Morreu no ano passado. Matou-se, disse ela.

19/06/2007

Ali, ao pé dos arcos de pedra

Ali, a partir do momento em que transpus aquela porta que direi suja, mesmo sem saber se suja estaria, e digo suja daquele baço que os vidros tomam da argamassa de pó e humidade, ali, ao pé dos arcos de pedra, assim que transpus a porta, comecei a escrever estas linhas. Ou outras que não estas, que não há maneira de saber quais foram ao certo as linhas que então escrevi.
O homem ensaiava problemas nos escaques magnéticos. Olhou-me por cima de uns óculos que direi óculos sem cuidar de saber se o seriam, se seria apenas um olhar assestado a um zénite venial.
E levantou-se, tendo o cuidado de me perguntar o que desejava.
Nesse ponto, escrevia-o parte de uma companhia de caçadores que haveria de reunir no covil do camarada de armas um destes dias. Escrevia-o em papel verde, de 45 g, A5, convocando todos e indicando dois números de telefone, ou três, com alcunhas consagradas. Mesmo que me parecesse inútil, estranho, fazê-lo assim em papel.
Com ou sem manteiga?
Respondi, pensando nos pratos por encomenda que cada um reservaria para si, no tal bródio.
O para beber veio gelado, da arca.
Nesta altura antevia o parque de estacionamento ainda com os restos da sinalização "convívio da companhia de caçadores...", um ou dois ou mesmo três carros de companheiros mais recordativos ao sétimo uísque, o cão que fareja os restos, um fio de água que vem sabe-se lá de onde e é tudo.
Despeço-me do homem que demora os óculos ou o olhar descido nos escaques. O jornal continua marcado na mesma página. Parece que o está há meses.
Subtraio o meu carro à conta do parque. A diferença é zero.
Rio Jamor (sob a E.N. 6), 2007