10/01/2008

Sobre um ninho de cucos

De decisões preliminares está o inferno, digo o espaço aéreo, cheio.
Ainda assim, fica este governo, por ora, conhecido por ter decidido tomar uma decisão ("decidiu tomar uma decisão" - sic) que soa acertada. Parabéns!
Sendo uma ocasião rara, saúdo-a.
Como já aqui tinha dito, no auge da polémica – 5 dias depois do deserto – em toda a minha infância ouvi falar da ponte do Montijo (Beato – Montijo) e do aeroporto em Rio Frio.
A ponte está lá desde 98. Com o encontro noroeste mais a montante, em Sacavém.
Se o aeroporto fôr enfim construído onde agora se diz, não ficará longe de Rio Frio. Uma insignificância, comparando a distância com a dimensão da empresa.
Esta decisão preliminar não dá nenhuma certeza. Este processo já semelha o da decisão da primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa e o do metro do Porto, que se arrastaram por décadas. Isto num país em que há um templo que demorou quase três séculos a ser concluído.
Mas diz-me que, em tese, quem assim me mostrava o que o futuro traria, não me enganou. A quarenta e tais anos de vista havia muita gente que já tinha percebido isto mesmo.


(clique para aceder ao relatório)


corrigido e acrescentado a 11 JAN. pelas 0:05

09/01/2008

+1

O homem duplicado

(ou o tradicional post das 3:05)

Quando peguei no livro de Saramago, não tinha a menor ideia do que lá estava escrito. Coisa que, creio, não me tinha acontecido com os outros livros que lera dele.
Foi assim intensamente que logo ao início recordei a exacta experiência que ele lá descreve.
E é uma experiência vertiginosa. Actua seguramente sobre o cérebro duma forma semelhante à visão abrupta do abismo.
Experimenta-se a incapacidade de ordenar o universo. Ou de o contemplar com a ordem conhecida.
Ainda hoje não sei quem é o tipo da foto.
Suspeito que se chama António, que lhe chamavam Tóninho, que já morou em Sintra, que tinha há 30 anos uma namorada muito vistosa e que gostava de ralis.
Tudo isto sei-o, dito por umas quantas pessoas que não conhecia até se me dirigirem, tomando-me por ele. Se não sei mais, por via delas, vejo-o agora, foi porque o interesse que então me suscitava era escasso, para surpresa dos próprios interlocutores.
Parece que se acentuou, com a idade. O interesse.

07/01/2008

Que alívio!

Afinal o meu País não é desgovernado por um conjunto de incapazes.
Tenho agora a certeza de que esses desgovernam um outro país em que tudo corre pelo melhor e não o meu.
Fiquei aliviado.
Lisboa, 1988

06/01/2008

Os cigarros alheios é que fazem muito mal

A primeira vez que me apareceu um simples no écran alegando que nada poderia ter feito para evitar o desastre, porque já estava tudo parado, data do tempo em que as televisões começaram a dar importância aos directos de acidentes de trânsito. Há mais de uma década.
Esse simples era motorista profissional, presume-se, dado que conduzia um pesado de passageiros e matou nessa ocasião duas pessoas por não ter conseguido parar, numa auto-estrada, sem embater numa fila de carros parados.
Suponho que ainda conduza, nada o impede de. Se assim fôr e dado que ainda é impossível embutir discernimento em cabeças como a dele, há algumas probabilidades de que volte a matar, se as circunstâncias o proporcionarem.
Nestes últimos dias, já por duas vezes mais desde o post de 30 de Dezembro, que assisto a outros simples, com o ar mais natural deste mundo, a atribuírem a responsabilidade dos seus embates aos que já estão enfeixados, às más condições do piso, ao nevoeiro e à falta de atrito que o gelo origina.
Não vão perceber que a responsabilidade é deles até a companhia de seguros os acordar. O discernimento ou a ausência dele, não lhes permite tal. Por isso são tão espontâneos face às câmaras.
As autoridades sabem que a maior parte dos acidentes não se deve ao álcool – apenas 4,3% dos condutores testados por envolvimento em acidente apresentaram em 2006 taxas de álcool superiores ao limite legal (cf. relatório da antiga DGV – pág. 108, quadro 5).
Devem ter uma ideia de que, para além da tão apregoada falta de civismo, que existe claro e lhe está associada, é a falta de discernimento e a incapacidade de manobrar um automóvel que estão na base dos excessos de velocidade (dentro ou fora dos limites estabelecidos), das manobras arriscadas, do descontrolo da máquina. O mesmo relatório (pág. 64) atribui como causas que vitimaram 27% dos condutores, a velocidade excessiva e as manobras irregulares - o grosso das causas identificadas. 62% das vítimas ao volante ainda resulta de acidentes com causas desconhecidas.
Sobre isto, basta ter uma ideia de quem faz os autos dos acidentes para se saber o valor que esta informação tem, mas é a que existe.
Face a isso, a grande medida, para além de uma apregoado agravamento das penas de inibição, é a antecipação da revisão dos condutores vulgares dos 65 para os 50 anos.
Nada contra estas medidas em particular. Aliás, o adiamento dos 40 para os 65 foi mais uma das medidas que alguém tomou há umas décadas atrás, que só se justifica por puro facilitismo ou por reconhecimento da ineficácia de tal renovação.
Mas pensarão os que assim decidiram, que serve hoje para alguma coisa, para além de recolher mais uns cobres, antecipar esse prazo? Serviria, se fossem efectivas tais inspecções.
Atente-se, por exemplo, no número de condutores com mais de 65 anos, logo já sujeitos a exame médico, que andam em sentido contrário nas auto-estradas.
E qual é o número anual de condutores definitivamente impedidos de conduzir, por incapacidade? Alguém o conhece?
Pode impedir-se os simples de cometerem atrocidades na estrada? Não. A menos que se acabe com o trânsito, é claro.
Mas pode cassar-se de uma vez por todas a carta aos incapazes. Pode ser-se exigente no parâmetro do discernimento com os candidatos a condutores. E, por último, é possível amedrontá-los com penas de prisão em caso de provocarem a morte ou a incapacidade, quando ao volante.
Num tempo em que a sociedade enveredou por uma super-protecção dos individuos, da qual é exemplo a lei do tabaco, parece estranho que se ignore esta causa de morte e se insista em procurar em razões outras – o álcool, por exemplo – a causa dos acidentes.
Não se percebe assim que se proíbam os fumadores de frequentar ambientes onde o incómodo e o prejuízo que causam é infinitamente menor do que um homicídio ao volante e se permita que os homicidas continuem nas vias públicas.
Os fumadores não estão proibidos de frequentar tais lugares – não podem é lá fumar.
Da mesma maneira, não se proibiriam os homicidas do volante de andarem na estrada – não poderiam é ir com ele, volante, nas mãos.

05/01/2008

O Estreladeira

A escada era de madeira e contínua, sem patamares. Os degraus eram gomos na curva em gancho.
O Luís, que transportava sempre um sorriso que anos mais tarde e entre uns tragos de vinho verde, um de nós ao rever-nos infantes sob as asas protectoras da nossa professora, designaria como uma espécie de gula, irrompia invariavelmente impante, escorregando o bibe azul claro e os calções pelos boleados cobertores dos ditos degraus. Descia assim. Trac-trac-trac, num scú com cheiro a giz e a ardósia.

Certo dia de férias, a criada que todos os dias me ia buscar à escola, disse-me: Hoje vi o Estreladeira. Ia com o pai.
Eu fiquei assim sem dar parte de fraco. A tentar ligar o nome à pessoa.

Então aquilo que ele faz todos os dias não é uma estreladeira pela escada abaixo? – acrescentou ela.

03/01/2008

A terceira travessia do Tejo

Dizia eu que era para não me irritar tanto com tanta burrice.
Mas constato todos os dias que já não se trata de burrice, trata-se de gente que não percebe sequer o mundo em que vive. O básico desse mundo, naturalmente.
Dizer, como ouvi agora na RTP, que a Ponte das Lezírias é a terceira travessia do Tejo já não é a asneira de Sócrates que a dizia quarta, é o completo alheamento da realidade em que vive grande parte da classe dos jornalistas.
Têm um mundo de fantasia na cabeça, normalmente com designações em inglês, e é sobre ele que nos dão as notícias.
Qualquer semelhança com a realidade conhecida é, como sabemos, mera coincidência.
O caso da Saúde

Do panorama geral deste governo – feito de medíocres figuras, incapazes de alinhar duas ideias com um mínimo de lógica – salva-se o ministro da Saúde.
O homem não é mentalmente incapaz, antes pelo contrário.
E tem uma ideia para o sistema. A ideia pode ser em parte economicista em parte realista, tout court, mas é uma ideia e ele pretende pô-la em prática. Coisa de louvar.
É claro que o sistema proposto terá problemas tal como já os tem o sistema actual.
Mas tem o mérito de ser realista e de pretender racionalizar recursos.
É claro também que o pano de fundo que enquadra esta reforma é a desertificação de grande parte do país.
Ocorre-me perguntar, já não a este ministro, se há alguma ideia da capacidade que o interior tem para criar riqueza adicional e, havendo, qual é o número de pessoas, com os padrões actuais de vida, que essa riqueza pode fazer fixar.
Mesmo que estas contas incluam uma grande margem de erro, possibilitam saber se o interior desenvolvido é viável.
Tal como vai, tal como se prevê que esteja com estes parâmetros da curva, encaminha-se para o tal deserto.

02/01/2008

Caldas da Raínha, 2007

O lugar que ocupamos no concerto das nações

Deve estar relacionado com as mortes à bala nos festejos da sub-espécie.
E com um timoneiro que muda de um instituto público para uma universidade privada porque a segunda era ao lado do primeiro. E o diz na televisão. E não se apercebe do ridículo em que cai.
Ah, e o balanço

Para que não me esqueça.
O balanço é simples: 2007 foi pouco pior do que 2006.
Cumpriu a tradição da pioria gradual.

01/01/2008

Virando a página, por assim dizer

Primeiro, a mão à palmatória ou como falhei, acertando moralmente, as previsões para 2007.
Fiz, há precisamente um ano, esta aposta tripla:



Verificaram-se no mesmo dia e quem sabe se numa relação de causa-efeito, dois dos acontecimentos previstos. Dei quitação de tal acerto por mor do número das baixas associadas ser muito inferior ao predito.
Terramotos há-os todos os dias em Portugal e mar adjacente sem serem sentidos. Hoje mesmo já houve vários, um deles com magnitude superior a 4, segundo o IGN de Espanha.
Já um sismo sentido com a magnitude do de 12 de Fevereiro passado é coisa muito menos frequente. Disseram alguns que foi o maior desde 1969. Não sei se foi.
Acidentes ferroviários já são coisa rara. E com a gravidade do de 12 de Fevereiro na linha do Tua muito mais. Neste caso, à gravidade juntou-se ainda o aparato. Uma carruagem cair a um rio não sei quantas vezes terá já acontecido em Portugal, sequer se aconteceu tal.
Há, pois, uma vitória moral nessas premonições. Mas de vitórias morais...
O certo é que afirmei que haveria para aí uma centena de baixas, coisa dessa ordem. Falhei pois rotundamente.
Ora estes dois sucessos reduzem a uma insignificância, na minha bola de cristal, a probabilidade de uma aposta idêntica ter algum acerto em 2008.
Poderia apostar num desastre aeronáutico que é o que sobra da aposta feita.
A bola diz-me que não.

Farei, por ora, como um certo analista político de jornal que há uns bons anos face a um desacerto de previsões meteu a viola no saco.



Sem bola de cristal, apenas chamo a vossa atenção para o chorrilho de asneiras que vai sair da boca dos candidatos a candidatos à Casa Branca a propósito daquilo a que chamam mudanças climáticas.
O prólogo já foi farto. O que não será o acto principal.
Tinha prometido a mim próprio não me irritar tanto com as asneiras que leio e ouço este ano que entra.
Começo mal.

30/12/2007

Os simples ao volante

Quando ouço um simples dizer, com a maior naturalidade, que não conseguiu parar, no meio do nevoeiro, e embateu assim nos que já lá estavam, ocorre-me logo se não será um dos tais que tanto aplaudem a nova lei do tabaco.
Os simples são simples e nenhuma culpa têm de o ser.
Talvez a legislação é que não seja a mais adequada neste caso. O que nos leva a outros simples, é claro.
Será que morre mais gente por fumar os cigarros alheios do que na estrada, às mãos dos simples como estes que ouvi há pouco nos telejornais?
E, todavia, permite a lei que conduzam, após terem matado ou estropiado, com a boçalidade que lhes é característica.

29/12/2007

Os sinos, os sinais e a morte d’homem

Pertenço a uma geração que ainda sabe distinguir o toque de sinais dos outros toques sineiros.
Na verdade, pertenço a uma sub-espécie dessa geração que quase só ouviu sinais e se recorda, já adulta, de ter ouvido o primeiro e estranho toque de missa.
Os sinais – esses toques ladaínhentos anunciadores da morte – quando de primeira hora, entravam-me pelo quarto a dentro quase simultâneos com a minha Avó, que me ordenava o abandono do decúbito lateral em respeito por ela, a morte.

Pertenço igualmente a uma geração que convivia, na infância, com sinais muito diversos no campo e nos arrabaldes da cidade.
Assim, os sons das sirenes dos bombeiros, das ambulâncias, vulgares por cá, eram um raríssimo mau presságio lá na vila.
E digo raríssimo porque o era de facto. Não me recordo em toda a minha vida de ter visto um carro de bombeiros por lá antes do outono desse ano de 1997.
E quanto a ambulâncias, contam-se pelos dedos as vezes que aconteceu tal, já incluindo a debatida aquisição da ambulância da Junta de Freguesia, embora essa a soubesse guardada em certa garagem.

Nessa manhã estival de há dez anos, dormelento e só na casa ancestral, julguei ouvir primeiro o som de uma ambulância, calculando pelo doppler que passara sem se deter pela vila.
Pouco mais tarde, o toque dos sinais fez-me respeitar uma recordação de infância – ergui-me.
Era uma manhã que anunciava infernos augustinos e para a qual tinha programada uma saída para oeste, para o mar.
Assim fiz. Ainda não tinha percorrido uma légua quando vi o carro. Calcinado, uns bons metros fora da estrada. Sem sinais de embate.
Estava muito longe de imaginar o intrincado mistério que representava aquele quadro, para além de me ter devolvido os antigos sinais, talvez pela última vez.


Adaptação de ficheiro sonoro da autoria de acclivity em freesound.iua.upf.edu

28/12/2007

Os acontecimentos do ano

A febre da antecipacão que há muito se apossou dos homens faz com que se fechem as contas antes das contas estarem de facto fechadas, passe o absurdo da frase.
Há dois dias, quando escrevi um post sobre o jogo das damas era para ter começado justamente por uma introdução que mostrasse o contra-senso de antecipar o balanço do ano.
É que, por vezes, lembrava-me de 2004, o acontecimento marcante vem depois do balanço feito.
Quantos não terão sido os analistas que então reviram as suas escolhas e quantos não o farão este ano?
A questão da resolução do jogo das damas era por si tão importante no seu campo que a probabilidade de ser ofuscada por qualquer outra era diminuta. E continua a ser.
Mas como lá disse, o ano ainda não tinha acabado e ainda não acabou.
Anda hoje nas notícias uma outra revelação importante, embora num campo onde os graus de certeza não se aproximam de 1, como no caso das damas. E cuja importância, podendo ser decisiva, não ultrapassa em “períodos de retorno” a anterior.
Fala-se, embora a Organização Mundial de Saúde na sua página, não o diga, que há, pela primeira vez fortes suspeitas do vírus H5N1 se ter transmitido de homem para homem.
É este “primeira vez” que é sempre espectacular e suspeito. Nada nos garante que não tenha já acontecido. O vírus parece ser conhecido desde 1959. Nada nos garante que antes de ser identificada esta estirpe, ela não tinha saltado de humano para humano nem nada nos garante que depois de identificada não o tenha feito, à revelia da ciência.
Estamos ainda na infância da arte neste e noutros campos com ele relacionados.
E, como indica ainda – na altura em que escrevo esta exacta linha – a página da OMS, nada nos garante que tal transmissão tenha ocorrido.
Uma praga – a que poderemos chamar genericamente peste – é algo a que a humanidade está exposta de tempos a tempos. Estamos há cerca de 90 anos sem nos debatermos com uma. É natural que apareça um destes dias. Provavelmente não será por via deste vírus, será por via de um outro que ainda nem sequer conhecemos.
A morte teórica do jogo das damas – embora imperfeita – mostra-nos que estamos com uma capacidade de combate suficiente para enfrentar desafios de descoberta impensáveis há pouco mais de meio século. Essa capacidade dar-nos-á talvez meios de suplantar em tempo útil uma epidemia quase qualquer que seja. Faltará o quase, como sempre.
Mas há que, independentemente de todo o ruído e de todas as vulgares campanhas que andam por uma pequena parte da ecúmena, atentar na curva da população mundial.
Essa é que é a luta decisiva. Essa é que é a questão que se coloca e nenhuma outra.
Talvez as máquinas devessem falhar e não nos dar a solução para enfrentar uma epidemia.
Mas isso é uma questão de valores e valores interessam-me pouco.
O que sei, sabemos todos, é que não poderemos continuar a reproduzir-nos ao mesmo ritmo sem que encontremos territórios novos para colonizar.
Como os vírus, exactamente como os vírus.

27/12/2007

Infinitesimãos

Roucas.
Apontando gestos em paredes de cal.
Um ar de pedras lavadas pelo mar.
Remessas de ser.
Ali encostado ao olhar perdente.
Azul ao longe.

SG, inéditos, 2007

26/12/2007

O jogo das damas

Dizer que o jogo das damas foi, no ano de 2007, finalmente resolvido, descoberto, posto a nu e que dá sempre empate desde que... pode levar às interpretações mais românticas.
Na verdade, o jogo das damas de carne e osso para com os cavalheiros da mesma massa, esse está longe de se ver resolvido, reduzido a algoritmos actuando em potentes e capazes máquinas. Lá chegaremos.



Mas este, o das 24 peças no tabuleiro de 8 por 8, foi finalmente escrutinado por tais algoritmos, mostrando que a capacidade do engenho humano em avançar na resolução de problemas que esse mesmo engenho criou, séculos atrás, e que resistiram ao abrigo de uma grossa camada de zeros, contados em expoente de 10, está agora dotada de meios para vencer essas camadas de complexidade em tempo menor do que o de uma vida – este desafio durou 18 anos.
Sabendo da curva parabólica que representa a evolução no tempo da capacidade e da velocidade de processamento das máquinas, e admitindo que poderão existir pontos de catástrofe nessa curva que façam disparar ainda mais essa evolução, parece plausível que já existam as pessoas que irão ver a resolução do xadrez.
Até hoje, este foi para mim o acontecimento do ano.
Mas o ano ainda não acabou...

25/12/2007

Campo de Ourique, dia de Natal de 1993



É Natal,
Cheira a lenha e a linguiça
Em Alcácer do Sal.

SG, inéditos, 1993

24/12/2007

Restos de colecção (64)



O mais perto que consegui chegar do Pai Natal hoje aos alvores.

23/12/2007

Ligações

Enquanto assistia a uma reportagem sobre a manifestação para pôr termo aos acidentes mortais que ocorrem no cruzamento da 124 com a 264, em São Bartolomeu de Messines, à memória veio-me uma outra morte que relacionei de imediato com tal cruzamento.
E essa relação, a única relação que há entre essa morte e o cruzamento é de banda sonora.
De estar por ele a passar enquanto a rádio a anunciava. Isto há mais de dez anos.
Não haveria razão para me lembrar desta morte em particular – de uma figura pública – mas o facto é que me ficou agarrada àquele cruzamento.
Fiz uma pequena investigação para saber qual a data de tal passagem, para ter a certeza de que não se tratava de uma falsa memória.
Na data em que essa pessoa morreu passei de facto por aquele local.

21/12/2007

Cabo Espichel, 1990

O grande problema

Eu sei que me repito.
Mas quando ouço também repetidamente debater o sistema judicial português e quando ouço o que se diz nesses debates (agora mesmo é na RTP N), mais me apetece outra vez repetir que o grande problema desse sistema é a falta de inteligência, como se pode ver todos os dias ou quase todos, vá lá.
E é, por isso, irremediável. Fazer o quê?

Claro que há por lá as excepções. Que de nada servem.

17/12/2007

As músicas do castelo de Sines

Nesse final da gloriosa década de sessenta e nos alvores da seguinte, a minha escassa apetência para o mundo da música era espicaçada pelo mundo sonoro do meu primo J..
Dava-me prelecções sobre solos de bateria entrecortadas pelo relato de aventuras amorosas com as mais cobiçadas fêmeas a banhos.
Devo-lhe grande parte da minha iniciação musical e pouca da minha iniciação d’homme à femmes. Apesar dos exemplos franceses que também me dava. E da belíssima prima dele, meu primo.
Mas como era, e ainda é, um aventureiro e um narrador de primeira água, sentava-me na areia a ouvi-lo. Ao fim e ao cabo, a prima dele estava por perto, a tiro.
Um certo dia relatou os sucessos de uma fuga à Guarda, noitalta, que o levou a ele e a outros a não terem tempo nem pouso para cozinhar a galinha roubada que estava na base do caso.
Foi com base num pormenor da narração, que fiquei a saber que em certa dependência do Castelo estavam acantonados uns amigos dele com a parafernália própria dos conjuntos musicais.
Uns dias após, lá me levou.
Ainda hoje ouço o som do solo de bateria que afinal ninguém tocou.


Castelo de Sines, 1995

15/12/2007

Pelourinho do Ano – categoria Nacional – grau Bronze



Em primeiro lugar, agradecer ao João Espinho a atribuição do galardão.
Nunca conheci o João, apesar de nos termos decerto cruzado em Beja algumas vezes.
O facto é que Beja, embora sendo a cidade capital do meu Baixo Alentejo foi sempre um destino algo longínquo e pouco frequentado por quem repartia como eu o tempo entre os arrabaldes de Lisboa e o extremo sul do Reino de Portugal, ali nas faldas das serranias onde se entrelê a fronteira com o Algarve de Aquém.
Não obstante, tenho dela uma imagem, imagens de tempos bem passados. Não me queixo de nada que por lá me tenha acontecido, apesar de nem sempre ser de festa o motivo da minha deslocação.
Recordo, porque passam exactamente trinta anos sobre o facto – mais dia menos dia, talvez até sejam trinta certos - uma noite daquelas com que Beja contempla os forasteiros não habituados ao barbeiro. Não é o meu caso, nunca foi, que alentejano que se preze sabe o que é um geadão a sério e uma calorina de derreter alcatrões antigos, quando as caricas nele se embutiam à porta das vendas e dos cafés.
Essa noite de vela, passada ao relento do Largo do Carmo, cigarros e samarras espantando a rijeza, contrariada também por umas voltas de carro, com o calor da máquina a ajudar ao desentorpecimento que culminou com um outro carro alheio que havia zumbido toda a noite, cima e baixo, espetado numa parede ali para os lados da estação.

Porque hoje em Beja há-de estar uma noite igual e porque o João me dá, lá na sua Praça, as novas da cidade que raramente vejo mas onde se entroncam memórias próprias, de familiares e de amigos, e belas imagens que ele faz ou que nos dá a conhecer de outras feituras, aqui vai com umas fotos alusivas, este discurso de agradecimento parar.


da Cidade para o termo em 1981


do termo para a Cidade em 2005

14/12/2007

Outra vez o macaco

Ao fim de infinitas vezes, acerta. Acaba por. É inevitável.
Importa repetir que é só ao fim de infinitas vezes.



Já aqui disse que pertenço ao grupo dos que consideram que a classe política é e deve talvez ser sempre de extracção mediana em termos intelectuais.
Não cabem nela grandes intelectos, figuras excepcionais. Só o medíocre e o médio.
O que não invalida que se lhe peça que tenha, por isso mesmo, uma prestação equivalente. De medíocre a médio, entre o 8 e o 13, em dias de festa.
A actual não descola do mau.
É de uma craveira intelectual baixíssima, com uma ou outra excepção que confirma a regra. Basta ouvi-los discorrer mais de um minuto para perceber do que são capazes. Ou do que não são capazes.
Ainda não li o Tratado. Nada do que lá esteja escrito abala esta argumentação.

O macaco acaba por acertar, mesmo sem disso se dar conta. No infinito.
Segundo a CNN


imagem da CNN

Tanta coisa para dar este nome a um tratado...
E.N. 11, 2006

12/12/2007

A E.N. 2 ali em Beja

A quase totalidade dos noticiários e informações de trânsito que não se referem às corriqueiras estradas engarrafadas são erradas.
Sâo erradas porque o número da dita estrada está sempre errado.
É um dos muitos exemplos da capacidade desta gente da informação.
Outros estarão atentos a outros disparates em outros campos, eu dou por eles neste.
Há pouco mandavam apanhar a E.N. 2 em Beja.
Bastava um mapa do ACP. Só isso.


trecho da Carta Militar de Portugal - Série 1501A, escala (original) 1/250 000

Eu avistei um marco não regulamentar da 2-8 perto de Évora. Mas foi em sonhos, um dia destes, com o levitador amarelo* nas mãos.


*ainda hei-de falar sobre isso.
Ora bem

Lá se deu o que me faltava lá para os lados da Ferradura.

11/12/2007

Bem me parecia

Que estávamos com deficit de sismos.
Na verdade, ontem estranhei o baixo número de ocorrências dos últimos dias (dizê-lo agora...).
Ainda falta qualquer coisa lá para o Gorringe e além.
Vacina

Não é que tenha muita relevância pois trata-se de mais um atropelo num mar de disparates quotidianos. E a mim mais incomodam os ilogismos e a incapacidade de raciocínio seguidos da ignorância atrevida.
No entanto, “vacina contra o colo do útero” parece ser mesmo uma metáfora de uma civilização suicidária.
Há pouco, na SIC N.

08/12/2007

Um dia de datas

Dia de maus presságios difíceis de acertar. Porém, certeiros. E de más notícias difíceis de aceitar. Como nos filmes.
Um dia de ruins efemérides.
A coreografia infantil

Tropecei no genérico do Festival Eurovisão da Canção Júnior 2007.
E vi uns miúdos de capuz na cabeça a ensaiarem uma coreografia qualquer.
Fiquei absorto a observar as imagens.
Relembraram-me, de uma forma estranhamente muito acentuada, a minha aversão infantil a carneiradas, a circo e a folclore.
Avesso a todos os tipos de ordem unida, escrita, dançada, ginasticada ou cantada sempre fui.
Incapaz de admirar coreografias de qualquer sorte, grupais ou singulares.
Apenas apostado em integrar equipas da bola, sempre sem disciplina, sempre de extremos.
À avançada ou à baliza.
Um lobo solitário no meio de uma extensa alcateia.
Conversa entre linhas

07/12/2007

A Europa e a África

Estou com os que consideram que o grande paradoxo nas declarações europeias sobre a África é que qualquer intervenção é paternalista e todos os discursos anexos de igualdade são incompatíveis com a ideia inicial.
A incompatibilidade de argumentos em política é, porém, vulgaríssima.

06/12/2007

Os postos da PVT*

Por causa deste post do João Espinho, lembrei-me de ir ver aqui aos arquivos de fotos deles. Aí estão três.

Foram semeados na fase final do Estado Novo nas principais encruzilhadas ou "portos secos" dos itinerários da época.
Eram e são umas construções curiosas, agradáveis à minha vista, mas pouco "habitáveis".
Esse facto fez com que a sua utilização fosse efémera, estando em grande parte abandonados por esse país fora.
Mesmo a sua adaptação a outros usos parece impraticável, como decorre de dois destes exemplos, se não se alterarem aspectos de conforto térmico.


Lisboa, Portas de Benfica, E.N. 6** / E.N. 249, 2006


Torres Vedras, E.N. 8 / E.N. 9, 2006


Sacavém, E.N. 10, 2007


*Polícia de Viação e Trânsito, antecessora da Brigada de Trânsito da Guarda Nacional Republicana.
**A parte inicial da E.N.6 correspondia, no plano de 45, à circular exterior de Lisboa, vulgo Estrada Militar, de Moscavide a Algés.
O Carmo e a Trindade

O homem dizia que não. Que sendo em Salónica, cairia a Torre Branca.
Se fosse no Porto, então sim, é que era o Carmo e a Trindade.
Há pouco, na SIC.

É claro que há uma Igreja do Carmo e uma Igreja da Trindade no Porto. E haverá até por lá outros locais com esse nome associado.
E é também claro que os aforismos se perdem a maior parte das vezes na neblina ancestral.
E é ainda mais claro que certezas nisto...
Mas nunca me passou pela cabeça que “o Carmo e a Trindade” se referissem ao Porto.
Pode, no entanto, ser que me engane.
A certificação do blogue

Já que o post que tinha engendrado para dar entrada ao processo de certificação deste blogue fica eternamente prejudicado por este outro oportuníssimo do amigo Bic Laranja, resta-me distribuir os tó-colantes...

05/12/2007

O gang do Multibanco

Ouvi há pouco na RTPN e li depois aqui que o gang do Multibanco estava a começar a ser julgado.
E eu que pensava que o já tinha sido há muito. E condenados os seus membros.
Por vários crimes, incluindo o do homicídio e ocultação do cadáver da infeliz rapariga a quem o povão insistia como sempre em ver, depois de morta, em estações de serviço, restaurantes, passeando em Espanha, etc.
Afinal não.
Este é outro. É um, de vários, de tipos que se dedicavam a arrancar caixas multibanco das paredes e do chão, ao que parece. E que mataram também um homem.

Ora, sendo que a expressão “gang do Multibanco” ficou tristemente associada à matilha que operava a partir da outra banda (margem sul do Tejo, para quem não sabe), parece-me impróprio que se designe do mesmo modo esta outra cáfila.

Um caso idêntico e mais evidente ocorreu com a designação Guerra do Golfo.
De 1980 a 1988, todos os telejornais da RTP (não havia outra), todos os jornais se referiam assim ao conflito entre o Irão e o Iraque. Ainda que por vezes usassem a expressão atrás.
Em 1991, referiam-se à guerra de então como a invasão do Koweit (em 90), depois a invasão do Iraque e operação Tempestade do Deserto.
Já em 2003, se referiam à 2ª Guerra do Golfo. Sendo que a 1ª não era de 80-88 mas a de 91.
Mentalidades!

Um destes dias, talvez apanhem o Zé do Telhado!

P.S. - Ou julguem o Cagote!

03/12/2007

A estrada



Decorridos quatro anos sobre a minha sugestão, os painéis de sinalização vão começar a passar mensagens alusivas aos mortos e estropiados da estrada.
Não vai servir de nada, como sabemos.
A boçalidade não tem cura nem mitigação.

01/12/2007

Herdei-o, comprei-o e conquistei-o

Dizem que o segundo dos Filipes de Áustria terá proferido tal frase nos finais do séc. XVI.
Podemos hoje, quatro séculos e tal depois, pensar qual dos verbos não poderão hoje os de Castela conjugar a respeito da nossa Pátria.

30/11/2007

20,03%

Não há ninguém que chame a atenção a quem debita 20,03%, para o disparate nos algarismos significativos?
É esta a qualidade de quem nos governa.
Com gente desta, até apetece apoiar greves e grevistas.
A sindi-Gioconda

Há ou não uma Gioconda no sindicalismo português?
O ângulo inverso*



Bate sempre certo:

Se
β = π/2 – α

então
sen2 β + sen2 α = 1


imagem da RTP

*inverso só por incorrecção de linguagem – é o ângulo complementar

28/11/2007

Vai ser então aqui

La pluie

Muita gente se deve interrogar em França sobre a inconstitucionalidade de decretar noites chuvosas.
São Rústico não ajuda Sarkozy. Está mais do que visto.

27/11/2007

O morto “B” da Golegã

A culpa disto tudo é dos tipos que desenharam os bordos das moedas de dois euros.
Quem diz dois euros diz qualquer outra moeda passada ou futura, de bordos com inscrições não sobreponíveis à sua imagem rodada de 180º.
Ou seja, moedas cuja cunhagem dê origem a duas versões. Uma com a legenda do bordo orientada de uma determinada forma quando se observa o anverso para cima e outra, com a mesma legenda rodada de 180º, observada a mesma orientação do anverso.
Ora deu isto que nas moedas de dois euros cujo bordo tem uma série de 2 e de estrelas, observando o anverso para cima, a estrela imediatamente à direita de um 2 direito, terá uma ponta para cima ou para baixo.
Convencionou-se que quando uma ponta da estrela à direita do 2 direito está para cima, se trata do tipo A; se por outro lado, uma ponta da estrela à direita do 2 direito está para baixo, se trata do tipo B.



Exposto o anterior para quem está menos familiarizado com estas coisas, ocorre que certo dia marquei um almoço na Golegã.
A pessoa com quem me ia encontrar, indagando do meu conhecimento da localidade, e verificando que era escasso, expeditamente mandou-me seguir para a Igreja Matriz.
Ora, sucede que mesmo à entrada da Golegã, avistei um carro funerário. Lá dentro, coberto pela tradicional veste preta com motivos dourados, ia um caixão.
Calculei que se dirigisse à igreja e resolvi segui-lo.
Foi então que reparei que a estrela dourada do pano da cobertura que mais se destacava centralmente, tinha a ponta para baixo.
De imediato me ocorreu que o morto era um morto “B”.

26/11/2007

A mineração do cobre

Pode ou não estabelecer-se uma relação entre a quantidade de cobre roubada na rede de transporte e a percentagem de população Cro-Magnon na população total?
Mesmo que haja anacronismo na coisa.


imagem da imitação de caveira encontrada aqui

22/11/2007

E.N. 4, 2007

Scolari

Relembro, depois de ter visto e ouvido ontem o treinador da selecção portuguesa de futebol, a sua atitude desvairada ao longo do jogo contra a Sérvia.
Antes, muito antes, do caso do quase murro.
O que é que se passa com o homem?

21/11/2007

Um post já antigo



À procura nos cadernos de capa preta do rascunho da imagem acima e das recordações que à sua memória descritiva estão associadas, tropecei num post escrito umas páginas adiante.
Já nesse tempo, as três e muito da manhã eram uma hora sem comboios.
Nessa noite de 16 de Fevereiro de 1998 – na qual a temperatura parece ter sido amêndoa*, de acordo com os registos que pude consultar, dado que o post a isso não faz referência – aproximando-me das linhas e julgando-me sózinho na ecúmena, ouvi um berro.
Foi no rastreio que fiz a seguir, que vi o que parecia ser um saci-pererê.
Pois o homem era negro e só tinha uma perna.
Apoiado em duas muletas, tocava guitarra em pé.
Quando eu passei perto dele, começou a cantar em coro com uma ave que, ali perto numa árvore altaneira, tinha já por costume fazê-lo naquelas madrugadas. Havia talvez meses que ouvia cantar a ave (era para escrever a árvore) sempre que atravessava a linha.
Mais adiante e para me trazer de volta ao realismo, afastado do cantor, esperando por um comboio improvável, estava um casal em amena conversação.

Nunca mais vi tal personagem, posso dizê-lo agora.


*ver a nota de rodapé deste post

20/11/2007

Explicar

Outra coisa que é impossível explicar às massas é o que é um automóvel e como se conduz.
Sabemos isso sempre nestes dias de primeiras águas e nos outros todos do ano.
A boçalidade em estado puro.
Seixal, 2007

19/11/2007

As chamadas falsas para o INEM

Alguém acha que é possível explicar a quem as faz, as consequências dos seus actos?
Quem diz isto, diz muitas outras coisas.