13/02/2008
12/02/2008
Em busca de um deus
Vá lá saber-se quantos factores concorreram para que esta memória se reavivasse.
Um acaso talvez levou-me ontem (hoje) a escolher a foto da E.N. 373 (uma ampliação mázinha feita a partir de uma prova de contacto 24x36).
E um outro acaso fez com que rememoreasse os sucessos de uma data quatro anos anterior à foto.
Ao mesmo tempo, um aconchego a isso tudo. A companhia dessas andanças deu sinais de vida. Tudo isto junto...
Nesse dia de Abril de 91, andávamos em buscas de sinais de Endovélico, esse deus antigo como o são, ou devem ser, todos os deuses e que suscitava alguma curiosidade nessa época.
O certo é que o nosso useiro caracoroísmo de encruzilhadas nos levou àquele troço da 373.
Antes da ponte, um sinal à direita mandava-nos para a Mina do Bugalho. Obedecemos.
Mal virara o volante, o olhar perdeu-se no vale à esquerda e na estrutura que o vencia.
Qualquer coisa forte nos pregou àquele trecho de paisagem. É provável que tenhamos dispensado um ou dois cigarros à contemplação. Qualquer coisa nos venceu ali, numa batalha de que não tomámos conhecimento.
Seguimos para a Mina e da Mina para o Rosário, arrepiando parte do caminho.
E do santuário para Terena, por vaus quase secos e caminhos onde só os rústicos como eu fazem passar carros de cidade e estrada nova.
Aconteceu com esse episódio a curiosidade de o julgarmos imortalizado em foto e não o encontrarmos no rolo.
Passaram os tais quatro anos. Ou quase.
Um dia encalhei aqui numa estante num dossier pelo qual me lembrava vagamente de já ter passado os olhos.
Foi nesse momento que percebi que projecto era aquele, que ponte era aquela.
Tempos depois, bati esta foto aqui do post abaixo.
Ontem (hoje), pela primeira vez, percebi que a busca por Endovélico se nos apagou da mente naquele momento extático.
Acho tudo isto muito estranho.
Vá lá saber-se quantos factores concorreram para que esta memória se reavivasse.
Um acaso talvez levou-me ontem (hoje) a escolher a foto da E.N. 373 (uma ampliação mázinha feita a partir de uma prova de contacto 24x36).
E um outro acaso fez com que rememoreasse os sucessos de uma data quatro anos anterior à foto.
Ao mesmo tempo, um aconchego a isso tudo. A companhia dessas andanças deu sinais de vida. Tudo isto junto...
Nesse dia de Abril de 91, andávamos em buscas de sinais de Endovélico, esse deus antigo como o são, ou devem ser, todos os deuses e que suscitava alguma curiosidade nessa época.
O certo é que o nosso useiro caracoroísmo de encruzilhadas nos levou àquele troço da 373.
Antes da ponte, um sinal à direita mandava-nos para a Mina do Bugalho. Obedecemos.
Mal virara o volante, o olhar perdeu-se no vale à esquerda e na estrutura que o vencia.
Qualquer coisa forte nos pregou àquele trecho de paisagem. É provável que tenhamos dispensado um ou dois cigarros à contemplação. Qualquer coisa nos venceu ali, numa batalha de que não tomámos conhecimento.
Seguimos para a Mina e da Mina para o Rosário, arrepiando parte do caminho.
E do santuário para Terena, por vaus quase secos e caminhos onde só os rústicos como eu fazem passar carros de cidade e estrada nova.
Aconteceu com esse episódio a curiosidade de o julgarmos imortalizado em foto e não o encontrarmos no rolo.
Passaram os tais quatro anos. Ou quase.
Um dia encalhei aqui numa estante num dossier pelo qual me lembrava vagamente de já ter passado os olhos.
Foi nesse momento que percebi que projecto era aquele, que ponte era aquela.
Tempos depois, bati esta foto aqui do post abaixo.
Ontem (hoje), pela primeira vez, percebi que a busca por Endovélico se nos apagou da mente naquele momento extático.
Acho tudo isto muito estranho.
11/02/2008
10/02/2008
A moeda do Crato

imagem do BCE
Já passou mais de um mês e ainda não tenho um exemplar que seja desta moeda ou dos seus submúltiplos.
Ao trazer hoje isto à baila assinalo também uma efeméride.
Que agora é maré delas.
Aqui ou no Crato.

imagem do BCE
Já passou mais de um mês e ainda não tenho um exemplar que seja desta moeda ou dos seus submúltiplos.
Ao trazer hoje isto à baila assinalo também uma efeméride.
Que agora é maré delas.
Aqui ou no Crato.
09/02/2008
A questão das percentagens
A incapacidade para lidar com a matemática de uma esmagadora percentagem da população e de muita gente licenciada só por si não justifica a asneirola.
É preciso aquele quê de estupidez adicional que afiança ser a nossa ignorância coisa negligenciável.
Desta feita, foi ao ler Medina Ribeiro no Sorumbático que tomei conhecimento de mais estes dois fascinantes disparates.
Vão para a colecção das percentagens.
Eu um dia ainda hei-de dizer o que pode, de facto, desvalorizar 400%. Ou mais.
Alguém arrisca um palpite?
A incapacidade para lidar com a matemática de uma esmagadora percentagem da população e de muita gente licenciada só por si não justifica a asneirola.
É preciso aquele quê de estupidez adicional que afiança ser a nossa ignorância coisa negligenciável.
Desta feita, foi ao ler Medina Ribeiro no Sorumbático que tomei conhecimento de mais estes dois fascinantes disparates.
Vão para a colecção das percentagens.
Eu um dia ainda hei-de dizer o que pode, de facto, desvalorizar 400%. Ou mais.
Alguém arrisca um palpite?
Galardão
Agradeço à Dona T. a distinção que confere a estas páginas.
O galardão é, ainda por cima, bonito.
Não sei o que mais dizer. Não me sinto capaz de nomear outros cinco.
Agradeço à Dona T. a distinção que confere a estas páginas.
O galardão é, ainda por cima, bonito.
Não sei o que mais dizer. Não me sinto capaz de nomear outros cinco.
08/02/2008
Investimento e eficácia
À recentemente retomada discussão dos investimentos e da sua (in)eficácia no Portugal dos últimos séculos, há pouco ilustrei-a com o seguinte quadro:
Uma extensa fila de gente derramava-se da porta da papelaria aqui ao lado. Faltava quase nada para as 19 horas.
Quando lá entrei em busca da revista, depois da hora fatídica, não me contive – perguntei quantas pessoas tinham ficado de fora do sorteio.
A resposta foi que o número era incontável. Para eles que não viam muito para além da porta.
À recentemente retomada discussão dos investimentos e da sua (in)eficácia no Portugal dos últimos séculos, há pouco ilustrei-a com o seguinte quadro:
Uma extensa fila de gente derramava-se da porta da papelaria aqui ao lado. Faltava quase nada para as 19 horas.
Quando lá entrei em busca da revista, depois da hora fatídica, não me contive – perguntei quantas pessoas tinham ficado de fora do sorteio.
A resposta foi que o número era incontável. Para eles que não viam muito para além da porta.
Agitprop
Outro dos sintomas denunciadores da pseudo-intelectualidade, nacional e estrangeira, é a confusão entre ciência e propaganda.
Outro dos sintomas denunciadores da pseudo-intelectualidade, nacional e estrangeira, é a confusão entre ciência e propaganda.
06/02/2008
Quarta-feira de cinzento

Vejo agora que esta imagem me perseguiu estes anos todos, sem que eu desse por ela.
Era a minha companheira de imaginadas aventuras ao volante, vestida carnavalesca e empoadamente de madeirense, emoldurada na mesinha do telefone.
Ali, logo à vista de quem lhe entrava em casa.
Talvez que essa recordação se cimentasse pelo facto de eu pertencer a um subgrupo que não ostentava fotografias. Nem nas paredes, nem nas mesas nem em lado algum.
E que não andava por aí mascarado.

Vejo agora que esta imagem me perseguiu estes anos todos, sem que eu desse por ela.
Era a minha companheira de imaginadas aventuras ao volante, vestida carnavalesca e empoadamente de madeirense, emoldurada na mesinha do telefone.
Ali, logo à vista de quem lhe entrava em casa.
Talvez que essa recordação se cimentasse pelo facto de eu pertencer a um subgrupo que não ostentava fotografias. Nem nas paredes, nem nas mesas nem em lado algum.
E que não andava por aí mascarado.
05/02/2008
04/02/2008
Bater no ceguinho
É aproveitar agora que o ceguinho está de rastos.
Escrevi pouco aqui sobre o assunto McCann. Onze posts com este, se não me enganei a contar, escassas linhas de cada vez.
Mas escrevi mais do que a maioria dos blogues que costumo ler.
Significa isto que dei mais atenção ao caso do que acho se deveria dar, uma vez que escolho as minhas leituras pela capacidade dos seus autores e delas noto agora que tiro uma medida, que é afinal minha.
Não tenho nenhuma ideia sobre o caso a não ser a trivial de que a história está muito mal contada.
Quanto à acção da polícia e da investigação, dei vaga nota do desnorte de que a primeira conferência foi veículo.
Tratou-se de um lamentável espectáculo.
De forma ridícula e atabalhoada tentou copiar-se o aparato e o cerimonial das conferências de imprensa à inglesa e à americana, apresentando não sei quantas pessoas com intervenção no caso.
Hora e meia foi o lapso de tempo que decorreu entre a hora aprazada e o começo efectivo sem outra razão plausível que não fosse a de reunir o tal painel, uma vez que as declarações como se sabe foram vazias de conteúdo.
Desse primeiro passo à recente intervenção do Director Nacional, o caminho das declarações proferidas e dos actos públicos é conhecido e lamentável.
Não tomo em consideração notícias de jornal, apenas coisas que ouço directamente da boca dos responsáveis, ainda que obviamente veiculadas por rádios ou televisões.
O ceguinho não se levantou?
Há pouco mais de um mês, dei uma escassa e romântica nota sobre um misterioso episódio com o qual tive contacto há mais de dez anos.
Não sei sobre ele muito mais do que contei então.
Neste caso, faço tenção de me socorrer dos jornais para vos dar uma ideia do que se passou então e do que foi sucedendo depois, ao longo dos anos, sem que o mistério deixasse de o ser:
Expresso de 9 de Novembro de 2002 – I; II (cópias das notícias)
Correio da Manhã de 24 de Outubro de 2006
É aproveitar agora que o ceguinho está de rastos.
Escrevi pouco aqui sobre o assunto McCann. Onze posts com este, se não me enganei a contar, escassas linhas de cada vez.
Mas escrevi mais do que a maioria dos blogues que costumo ler.
Significa isto que dei mais atenção ao caso do que acho se deveria dar, uma vez que escolho as minhas leituras pela capacidade dos seus autores e delas noto agora que tiro uma medida, que é afinal minha.
Não tenho nenhuma ideia sobre o caso a não ser a trivial de que a história está muito mal contada.
Quanto à acção da polícia e da investigação, dei vaga nota do desnorte de que a primeira conferência foi veículo.
Tratou-se de um lamentável espectáculo.
De forma ridícula e atabalhoada tentou copiar-se o aparato e o cerimonial das conferências de imprensa à inglesa e à americana, apresentando não sei quantas pessoas com intervenção no caso.
Hora e meia foi o lapso de tempo que decorreu entre a hora aprazada e o começo efectivo sem outra razão plausível que não fosse a de reunir o tal painel, uma vez que as declarações como se sabe foram vazias de conteúdo.
Desse primeiro passo à recente intervenção do Director Nacional, o caminho das declarações proferidas e dos actos públicos é conhecido e lamentável.
Não tomo em consideração notícias de jornal, apenas coisas que ouço directamente da boca dos responsáveis, ainda que obviamente veiculadas por rádios ou televisões.
O ceguinho não se levantou?
Há pouco mais de um mês, dei uma escassa e romântica nota sobre um misterioso episódio com o qual tive contacto há mais de dez anos.
Não sei sobre ele muito mais do que contei então.
Neste caso, faço tenção de me socorrer dos jornais para vos dar uma ideia do que se passou então e do que foi sucedendo depois, ao longo dos anos, sem que o mistério deixasse de o ser:
Expresso de 9 de Novembro de 2002 – I; II (cópias das notícias)
Correio da Manhã de 24 de Outubro de 2006
A percepção da realidade
Não vale a pena entrar em caminhos de reflexão sobre o que é a realidade e o que é que tomamos por ela, antes e depois de a percebermos. Isso é problema com milénios de escrutínio que ainda não teve grandes soluções.
Adiante.
Mas no comezinho, na coisinha de trazer por casa, na vidinha dos dias uns atrás dos outros, em todos os outros inhos que nomear se possam para dar a ideia de vulgaridade, há alturas em que a realidade é suficientemente objectiva para dela se poder ter uma ideia utilitária capaz de ser passada e repassada aos outros.
Acho que foi com isso que chegámos aqui. A este ponto da História. Dizendo coisas uns aos outros. Umas vezes mais certas outras vezes mais erradas.
Uma coisa que (ainda) me custa é ver ou ouvir um jornalista que não percebe a notícia que está a dar ao mundo. Talvez porque é cada vez mais difícil assistir a um noticiário sem que tal aconteça.
A notícia desta noite, desta madrugada, é o caso das pessoas que estão em apuros lá para o Gerês.
A crer no que foi dito, algures entre a Portela do Homem e os Pitões das Júnias.
Ora a notícia refere sempre as pessoas como desaparecidas. E fala em buscas para as encontrar, ao mesmo tempo que nos diz que transmitiram, via telefone, as coordenadas do lugar em que se encontram.
Quem redigiu isto não percebeu várias coisas.
A primeira é que pessoas desaparecidas não costumam comunicar por telefone. É uma coisa que os desaparecidos têm, uma coisa lá deles, não gostam de dar notícias.
A segunda é que pessoas que comunicam a sua posição não carecem de ser encontradas, localizadas. Não é de uma busca que se trata, é de um resgate, de um salvamento.
Não perceber que se trata, pelo próprio teor da notícia, do resgate de gente que está em dificuldades e não de uma busca por desaparecidos parece-me apenas ser mais uma prova de que é mais fácil encontrar nos perfilados de qualquer paragem de autocarro um Q.I. médio superior ao dos alunos de alguns cursos de jornalismo do que o contrário.
Eu sei que estou a subsumir a partir deste e doutros casos. Mas apetece-me fazê-lo. Atão e agora?
Não vale a pena entrar em caminhos de reflexão sobre o que é a realidade e o que é que tomamos por ela, antes e depois de a percebermos. Isso é problema com milénios de escrutínio que ainda não teve grandes soluções.
Adiante.
Mas no comezinho, na coisinha de trazer por casa, na vidinha dos dias uns atrás dos outros, em todos os outros inhos que nomear se possam para dar a ideia de vulgaridade, há alturas em que a realidade é suficientemente objectiva para dela se poder ter uma ideia utilitária capaz de ser passada e repassada aos outros.
Acho que foi com isso que chegámos aqui. A este ponto da História. Dizendo coisas uns aos outros. Umas vezes mais certas outras vezes mais erradas.
Uma coisa que (ainda) me custa é ver ou ouvir um jornalista que não percebe a notícia que está a dar ao mundo. Talvez porque é cada vez mais difícil assistir a um noticiário sem que tal aconteça.
A notícia desta noite, desta madrugada, é o caso das pessoas que estão em apuros lá para o Gerês.
A crer no que foi dito, algures entre a Portela do Homem e os Pitões das Júnias.
Ora a notícia refere sempre as pessoas como desaparecidas. E fala em buscas para as encontrar, ao mesmo tempo que nos diz que transmitiram, via telefone, as coordenadas do lugar em que se encontram.
Quem redigiu isto não percebeu várias coisas.
A primeira é que pessoas desaparecidas não costumam comunicar por telefone. É uma coisa que os desaparecidos têm, uma coisa lá deles, não gostam de dar notícias.
A segunda é que pessoas que comunicam a sua posição não carecem de ser encontradas, localizadas. Não é de uma busca que se trata, é de um resgate, de um salvamento.
Não perceber que se trata, pelo próprio teor da notícia, do resgate de gente que está em dificuldades e não de uma busca por desaparecidos parece-me apenas ser mais uma prova de que é mais fácil encontrar nos perfilados de qualquer paragem de autocarro um Q.I. médio superior ao dos alunos de alguns cursos de jornalismo do que o contrário.
Eu sei que estou a subsumir a partir deste e doutros casos. Mas apetece-me fazê-lo. Atão e agora?
03/02/2008
02/02/2008
Imagens alheias

Praça Dom Pedro IV e Rua do Amparo - Fotografia de Armando Serôdio inscrita no Arquivo Municipal de Lisboa sob a cota AF\img71\A35496.jpg
Memórias pessoais.
Efeméride.

Praça Dom Pedro IV e Rua do Amparo - Fotografia de Armando Serôdio inscrita no Arquivo Municipal de Lisboa sob a cota AF\img71\A35496.jpg
Memórias pessoais.
Efeméride.
I & Mr. Teal
Acontece por vezes concorrer nas compras no supermercado aqui ao lado com Mr. Teal e seu chapéu.
Parece que os anos não passaram por ele.

Fotografia do actor Ivor Dean obtida em http://www.televisionheaven.co.uk/saint.htm
Acontece por vezes concorrer nas compras no supermercado aqui ao lado com Mr. Teal e seu chapéu.
Parece que os anos não passaram por ele.

Fotografia do actor Ivor Dean obtida em http://www.televisionheaven.co.uk/saint.htm
01/02/2008
O Regicídio
Sou republicano e considero o assassínio uma arma legítima em algumas circunstâncias, no actual estádio da evolução.
Sobre o Regicídio, depois de ter lido hoje muitas coisas com que concordo absolutamente, escritas pelos simpatizantes monárquicos e pelos que o condenaram, apenas registo que a actual situação, à excepção do Presidente da República, optou por um silêncio laudatório do assassinato político.
Um destes dias, criaturas capazes como são as da situação, virão decerto condenar toda e qualquer violência.
Sou republicano e considero o assassínio uma arma legítima em algumas circunstâncias, no actual estádio da evolução.
Sobre o Regicídio, depois de ter lido hoje muitas coisas com que concordo absolutamente, escritas pelos simpatizantes monárquicos e pelos que o condenaram, apenas registo que a actual situação, à excepção do Presidente da República, optou por um silêncio laudatório do assassinato político.
Um destes dias, criaturas capazes como são as da situação, virão decerto condenar toda e qualquer violência.
A cruz de Quintos

fotografia de João Espinho
Em tempos, encontrei esta foto no blogue do João Espinho – a Praça da República em Beja – e a sensação que me causou está lá hoje descrita, por gentileza dele que me chamou a integrar uma série de convidados semanais que escolhe e fala sobre uma das fotos que ele lá publicou.
Sem lisonja, acho a foto excepcional.
O facto de me ter suscitado memórias é apenas um complemento à submissão que ela me causa.
Socorro-me uma vez mais do meu velho SG, para acrescentar o que quer que seja ao que fica dito.
Sitiando a madrugada
Gastos os passos
Em tardes puídas de um inverno são.
Resta um pensamento enlutado
E uma estola de arminho pelada
Para desta janela te recordar viva.
Ainda ponho o jornal sobre o prato
E tu já não me fazes irritar.
Ah, levei o gato para casa de minha tia!
Vejo os pratos que empilho os dias todos
De semanas que prorrogam este lar
E desfaleço.
Volto a caminhar no mar de que tenho os mapas
E rotas há que só de noite me atrevo a percorrer,
Temor de azul que me fascina
Pelos perigos que se diriam simulados.
Chego ao porto.
Ancorado no velho sofá,
Preparo o tempo para um reveillon sempre adiado,
O sempre o mesmo smoking esfarrapado
Como as cordas das orquestras que se ouvem
Em sons de samba e bossa-nova.
Que aqui chegam ténues, os anos a passar (é meia-noite)
Sobre a tua campa.
1984
SG, "Dizeres do Sul", 1993

fotografia de João Espinho
Em tempos, encontrei esta foto no blogue do João Espinho – a Praça da República em Beja – e a sensação que me causou está lá hoje descrita, por gentileza dele que me chamou a integrar uma série de convidados semanais que escolhe e fala sobre uma das fotos que ele lá publicou.
Sem lisonja, acho a foto excepcional.
O facto de me ter suscitado memórias é apenas um complemento à submissão que ela me causa.
Socorro-me uma vez mais do meu velho SG, para acrescentar o que quer que seja ao que fica dito.
Sitiando a madrugada
Gastos os passos
Em tardes puídas de um inverno são.
Resta um pensamento enlutado
E uma estola de arminho pelada
Para desta janela te recordar viva.
Ainda ponho o jornal sobre o prato
E tu já não me fazes irritar.
Ah, levei o gato para casa de minha tia!
Vejo os pratos que empilho os dias todos
De semanas que prorrogam este lar
E desfaleço.
Volto a caminhar no mar de que tenho os mapas
E rotas há que só de noite me atrevo a percorrer,
Temor de azul que me fascina
Pelos perigos que se diriam simulados.
Chego ao porto.
Ancorado no velho sofá,
Preparo o tempo para um reveillon sempre adiado,
O sempre o mesmo smoking esfarrapado
Como as cordas das orquestras que se ouvem
Em sons de samba e bossa-nova.
Que aqui chegam ténues, os anos a passar (é meia-noite)
Sobre a tua campa.
1984
SG, "Dizeres do Sul", 1993
31/01/2008
29/01/2008
Ora aí está
A minha ideia de Correia de Campos era a que aqui exprimi.
Um dos poucos com cabeça num governo acéfalo.
Não admira, pois, que saia.
Da ministra da Cultura, recordo apenas a sua figura, de capacete de protecção algo montagueano embora verde na cabeça e algures num descampado de Foz Coa, decerto receando que o céu lhe caísse em cima da cabeça. Que outra coisa não poderia ser.

imagem da RTP
post adendado e alindado com ilustração às 16:17
A minha ideia de Correia de Campos era a que aqui exprimi.
Um dos poucos com cabeça num governo acéfalo.
Não admira, pois, que saia.
Da ministra da Cultura, recordo apenas a sua figura, de capacete de protecção algo montagueano embora verde na cabeça e algures num descampado de Foz Coa, decerto receando que o céu lhe caísse em cima da cabeça. Que outra coisa não poderia ser.

imagem da RTP
post adendado e alindado com ilustração às 16:17
28/01/2008
A zona dos ribeirinhos
Quem é que pagámos*, quanto é que custou e para que é que serviu aquela apresentação musicada da frente ribeirinha de Lisboa, à qual uma empolgada jornalista chamou margem sul do Tejo?
* não é erro nem gralha, é mesmo preconceito.
** onde se ouve que "...será uma cidade mais vibrante, mais agradável!"
Quem é que pagámos*, quanto é que custou e para que é que serviu aquela apresentação musicada da frente ribeirinha de Lisboa, à qual uma empolgada jornalista chamou margem sul do Tejo?
* não é erro nem gralha, é mesmo preconceito.
** onde se ouve que "...será uma cidade mais vibrante, mais agradável!"
Os baleados da noite
Até agora, a sensação com que se fica a propósito da onda de mortes no Porto e destas duas últimas de Rio de Mouro é que não se perdeu nada.
Porém, isso só por si não justifica a impunidade com que estas coisas se vão repetindo. Com toda a gente a assobiar para o lado.
Nem isto começou com os casos do Porto nem se vê uma única medida eficaz para pôr na ordem o lúmpen.
Até agora, a sensação com que se fica a propósito da onda de mortes no Porto e destas duas últimas de Rio de Mouro é que não se perdeu nada.
Porém, isso só por si não justifica a impunidade com que estas coisas se vão repetindo. Com toda a gente a assobiar para o lado.
Nem isto começou com os casos do Porto nem se vê uma única medida eficaz para pôr na ordem o lúmpen.
Correcção de um erro
Disse aqui que os mapas que a Optimus e o Expresso oferecem há anos eram da responsabilidade - a julgar pelo verso dos ditos - do Guia Turístico do Norte, até 2005. E de 2006 em diante da Forways e que todos continham um erro de implantação da A2 na zona de Messejana.
Errei numa coisa e esse erro deve-se a ter presumido que o mapa de 2007 era igual aos de 2006 e 2008, por não o ter encontrado.
Não é. É da autoria da Turinta e está correcto na zona de Messejana.
O que torna ainda mais bizarro que o erro, depois de finalmente corrigido em 2007, regresse em 2008.
De qualquer forma penitencio-me pela precipitação e peço desculpa por isso.
Disse aqui que os mapas que a Optimus e o Expresso oferecem há anos eram da responsabilidade - a julgar pelo verso dos ditos - do Guia Turístico do Norte, até 2005. E de 2006 em diante da Forways e que todos continham um erro de implantação da A2 na zona de Messejana.
Errei numa coisa e esse erro deve-se a ter presumido que o mapa de 2007 era igual aos de 2006 e 2008, por não o ter encontrado.
Não é. É da autoria da Turinta e está correcto na zona de Messejana.
O que torna ainda mais bizarro que o erro, depois de finalmente corrigido em 2007, regresse em 2008.
De qualquer forma penitencio-me pela precipitação e peço desculpa por isso.
26/01/2008
A cavalo dado
Eu sei que a cavalo dado não se olha o dente.
Porém, há casos em que o descaso é tal que merece que se contrarie a máxima e se perca um pouco de tempo com a coisa.
Há já uns anos que o Expresso e a Optimus oferecem um mapa de estradas de Portugal.
Reparei há seis anos, no primeiro que obtive, que a A2 estava mal implantada na zona de Messejana. Quando ela na realidade passa a nascente de Messejana, figura no dito mapa como passando a poente da dita vila.
Há pouco abri o dito mapa, na sua versão de 2008, ainda quentinho. O erro persiste. Anos volvidos.
Pergunto-me se um erro destes é filho único ou está multiplicado pelo mapa. Não conheço a rede a um pormenor tal que possa avaliar o mapa em toda a sua extensão.
Um descaso destes é um sinal dos tempos que correm. Em que tudo é feito sem cuidado, à pressa, em cima do joelho.

A autoria dos mapas é, pelas indicações do verso, do Guia Turístico do Norte, até 2005.
De 2006 em diante é da Forways.
Eu sei que a cavalo dado não se olha o dente.
Porém, há casos em que o descaso é tal que merece que se contrarie a máxima e se perca um pouco de tempo com a coisa.
Há já uns anos que o Expresso e a Optimus oferecem um mapa de estradas de Portugal.
Reparei há seis anos, no primeiro que obtive, que a A2 estava mal implantada na zona de Messejana. Quando ela na realidade passa a nascente de Messejana, figura no dito mapa como passando a poente da dita vila.
Há pouco abri o dito mapa, na sua versão de 2008, ainda quentinho. O erro persiste. Anos volvidos.
Pergunto-me se um erro destes é filho único ou está multiplicado pelo mapa. Não conheço a rede a um pormenor tal que possa avaliar o mapa em toda a sua extensão.
Um descaso destes é um sinal dos tempos que correm. Em que tudo é feito sem cuidado, à pressa, em cima do joelho.

A autoria dos mapas é, pelas indicações do verso, do Guia Turístico do Norte, até 2005.
De 2006 em diante é da Forways.
24/01/2008
O carnaval chinês
Não posso dizer que o Carnaval me apanhou este ano outra vez desprevenido.
As bombinhas de carnaval com que a polícia houve entretenga alertaram-me para os perigos da época.
Há pouco, imerso nos densamente povoados corredores de um bazar chinês (eu gostava de saber qual é a palavra ocidental que traduz do chinês este conceito), o segundo toque foi quando me detive nos bruxuleantes chapéus cónicos de aba larga e nas mui douradas coroas reais, perladas e rubicadas.
Já não me espantei depois de ver a sorte de nassas e de ardilosos apetrechos, misturada com um mundo de disfarces que a montra, olhada de dentro, me proporcionou.
Ao sair, qualquer coisa se soltou cá das gavetas e das coroas que antes vira, divisei os contornos da minha.
A minha coroa.
Um objecto sobre o qual eu tenho a plebeia certeza de que, para além do uso real a que o consagrei, há muitos e muitos anos, teve uma outra função antes de ser abandonado num canto da garagem da casa da vila. De onde o reergui para os mais altos significados e honras.
Não sei ainda hoje qual foi essa função. Coisa de rústico mal informado, de terratenente displicente, de sonhador com os pés no alqueve.
Ou não.
Talvez a sua função nada tivesse a ver com a vida montanheira.
Alguém me dá uma pista? Sem me pregar uma partida de carnaval?

clique aqui para ver a ficha técnica.
a pistola do Bafo-de-Onça está aqui na gaveta de honra da secretária – a de cima à direita.
Não posso dizer que o Carnaval me apanhou este ano outra vez desprevenido.
As bombinhas de carnaval com que a polícia houve entretenga alertaram-me para os perigos da época.
Há pouco, imerso nos densamente povoados corredores de um bazar chinês (eu gostava de saber qual é a palavra ocidental que traduz do chinês este conceito), o segundo toque foi quando me detive nos bruxuleantes chapéus cónicos de aba larga e nas mui douradas coroas reais, perladas e rubicadas.
Já não me espantei depois de ver a sorte de nassas e de ardilosos apetrechos, misturada com um mundo de disfarces que a montra, olhada de dentro, me proporcionou.
Ao sair, qualquer coisa se soltou cá das gavetas e das coroas que antes vira, divisei os contornos da minha.
A minha coroa.
Um objecto sobre o qual eu tenho a plebeia certeza de que, para além do uso real a que o consagrei, há muitos e muitos anos, teve uma outra função antes de ser abandonado num canto da garagem da casa da vila. De onde o reergui para os mais altos significados e honras.
Não sei ainda hoje qual foi essa função. Coisa de rústico mal informado, de terratenente displicente, de sonhador com os pés no alqueve.
Ou não.
Talvez a sua função nada tivesse a ver com a vida montanheira.
Alguém me dá uma pista? Sem me pregar uma partida de carnaval?

clique aqui para ver a ficha técnica.
a pistola do Bafo-de-Onça está aqui na gaveta de honra da secretária – a de cima à direita.
23/01/2008
22/01/2008
21/01/2008
O zénite do gineceu
Ando há algum tempo – o tempo que decorreu desde o ponto de serena idade – a dar comigo a tentar equacionar o deslumbre do gineceu.
No momento seguinte, dou-me conta da quantidade de variáveis a considerar em tal equação e abstenho-me de continuar. Até à próxima recaída.
Aqui e ali, ainda consinto a presença de terceiros nesta perquisição. Sai-me um há certas mulheres que atingem o auge na alta maturidade, outras na mais leda adolescência.
Como se o auge fosse absoluto e não dependesse do ponto de vista do observador.
Poucas coisas há na vida em que eu tenha em menos conta a opinião de terceiros do que esta – a beleza das fêmeas da espécie. Sendo certo que em poucas coisas tenho a conta a opinião alheia e que, ainda nesta, há casos em que... Ou havia. O caso de algum dizer quem tem uma irmã muita... é fulano de tal. Ou todos os outros que proporcionavam meras pistas a seguir.
Tentei, pois, com exclusiva base na minha observação, traçar gráficos de deslumbre para algumas das mais interessantes fêmeas que me foi dado conhecer num intervalo de tempo em que a probabilidade de ter o dito deslumbre atingido o seu zénite – o ponto de inflexão máximo da dita função – era elevadíssima.
O problema acessório que se põe é que o olhar do observador também percorre uma linha. É ele próprio função do tempo.
Ainda não encontrei uma equação descritiva de tal. Mas procuro-a.
Pergunto-me que coisas mais descobrirei, em função disso, no dia em que uma equação se adaptar a tal evolução.
Ando há algum tempo – o tempo que decorreu desde o ponto de serena idade – a dar comigo a tentar equacionar o deslumbre do gineceu.
No momento seguinte, dou-me conta da quantidade de variáveis a considerar em tal equação e abstenho-me de continuar. Até à próxima recaída.
Aqui e ali, ainda consinto a presença de terceiros nesta perquisição. Sai-me um há certas mulheres que atingem o auge na alta maturidade, outras na mais leda adolescência.
Como se o auge fosse absoluto e não dependesse do ponto de vista do observador.
Poucas coisas há na vida em que eu tenha em menos conta a opinião de terceiros do que esta – a beleza das fêmeas da espécie. Sendo certo que em poucas coisas tenho a conta a opinião alheia e que, ainda nesta, há casos em que... Ou havia. O caso de algum dizer quem tem uma irmã muita... é fulano de tal. Ou todos os outros que proporcionavam meras pistas a seguir.
Tentei, pois, com exclusiva base na minha observação, traçar gráficos de deslumbre para algumas das mais interessantes fêmeas que me foi dado conhecer num intervalo de tempo em que a probabilidade de ter o dito deslumbre atingido o seu zénite – o ponto de inflexão máximo da dita função – era elevadíssima.
O problema acessório que se põe é que o olhar do observador também percorre uma linha. É ele próprio função do tempo.
Ainda não encontrei uma equação descritiva de tal. Mas procuro-a.
Pergunto-me que coisas mais descobrirei, em função disso, no dia em que uma equação se adaptar a tal evolução.
18/01/2008
Afinal o cheiro
Ainda suscita mais umas questões.
A que horas é que a direcção da faculdade de Farmácia comunicou às autoridades o conhecimento que tinha do derrame do tiol (se era de facto tiol)?
E depois dessa comunicação, quanto tempo ainda durou o arraial das investigações?
E, já agora, qual terá sido a quantidade derramada?
Da resposta à segunda questão depende a avaliação da resposta a problemas deste tipo, a forma como as coisas são coordenadas, etc.
Ainda suscita mais umas questões.
A que horas é que a direcção da faculdade de Farmácia comunicou às autoridades o conhecimento que tinha do derrame do tiol (se era de facto tiol)?
E depois dessa comunicação, quanto tempo ainda durou o arraial das investigações?
E, já agora, qual terá sido a quantidade derramada?
Da resposta à segunda questão depende a avaliação da resposta a problemas deste tipo, a forma como as coisas são coordenadas, etc.
17/01/2008
O ordenamento do território
Por que é que eu tenho esta sensação de que a maioria dos que enchem a boca com o ordenamento do território se interrogados sobre o que isso é, do que é que trata, não saberiam responder?
Normalmente acontece com as pessoas que enchem muito a boca com um conceito qualquer.
Aproveito para dizer que eu não sei o que é o ordenamento do território. E que também tenho a noção de que quando as pessoas nada sabem de um assunto tendem a pensar que ninguém afinal sabe nada sobre tal.
Por que é que eu tenho esta sensação de que a maioria dos que enchem a boca com o ordenamento do território se interrogados sobre o que isso é, do que é que trata, não saberiam responder?
Normalmente acontece com as pessoas que enchem muito a boca com um conceito qualquer.
Aproveito para dizer que eu não sei o que é o ordenamento do território. E que também tenho a noção de que quando as pessoas nada sabem de um assunto tendem a pensar que ninguém afinal sabe nada sobre tal.
Esta história do cheiro
Que anda há horas e horas a dar que fazer aos bombeiros em Lisboa deixa pelo menos três dados curiosos.
A crer no que se disse aqui e ali.
O primeiro é que tenha sido por tanta gente confundido o cheiro dito de gás com o cheiro a enxofre.
O segundo é que um frasco possa conter uma quantidade tal de uma substância que cheire tão intensa e persistentemente e numa área tão vasta.
O terceiro é que removido o frasco ainda se ande à procura da fonte da contaminação.
Que anda há horas e horas a dar que fazer aos bombeiros em Lisboa deixa pelo menos três dados curiosos.
A crer no que se disse aqui e ali.
O primeiro é que tenha sido por tanta gente confundido o cheiro dito de gás com o cheiro a enxofre.
O segundo é que um frasco possa conter uma quantidade tal de uma substância que cheire tão intensa e persistentemente e numa área tão vasta.
O terceiro é que removido o frasco ainda se ande à procura da fonte da contaminação.
16/01/2008
Triste espectáculo
Para além da qualidade dos raciocínios expendidos, para além dos ricochetes que a palavra arrogância fez na madeira que parece encerada, ainda se vê no final este triste espectáculo de um sistema electrónico de carregar pela boca – pois a coisa é feita à zona, como se constata pelo resultado para ali erradamente metido – sistema que na certa nos custou os olhos da cara.
Tanta incompetência não admira. É a reflexão na dita madeira do brilho dos sentantes.

imagem da AR tv
Para além da qualidade dos raciocínios expendidos, para além dos ricochetes que a palavra arrogância fez na madeira que parece encerada, ainda se vê no final este triste espectáculo de um sistema electrónico de carregar pela boca – pois a coisa é feita à zona, como se constata pelo resultado para ali erradamente metido – sistema que na certa nos custou os olhos da cara.
Tanta incompetência não admira. É a reflexão na dita madeira do brilho dos sentantes.

imagem da AR tv
15/01/2008
A voz do Gazcidla

imagem do arquivo da RTP
Fui dar àquela sede de concelho alentejana, por via de algum espectáculo desportivo que teria a ver com bicicletas. A bem dizer, não sei se seriam bicicletas ao certo. Era um espectáculo viário sim, que passou efémero e nebuloso porque não fiquei a saber o que era, mas devia ter ao certo muita gente na caravana, dada a importância que assumia e ninguém a assistir.
Porque a assistir, assim parece, ao fundo daquela rampa que virava à direita, na subida, eu distinguia vagamente uma igreja em obras ou a carecer delas e que eu vagamente julguei reconhecer, disse para mim Aljustrel mas em Aljustrel não há nada parecido. Eu não sabia onde estava, fora para ali levado pelo tal fenómeno desportivo e não sabia onde estava. E a assistir, dizia, apenas vi um homem de preto, acho que com uma bóina, preto ou daqueles azuis escuros, arroxeados, castanhos, que parecem pretos ao longe, no verão. O homem ou teria bóina ou tinha o cabelo preto, vinha a andar para mim devagar e eu para ele, na esperança de ver parte da caravana ainda ou de reconhecer mais um sinal qualquer da povoação.
Compete dizer que isto decorria aos alvores, antes do nascer do sol mas já com luz suficiente para se dizer que era dia.
É quando um tipo de motorizada, que descia a dita rampa, ladeira digo, faz um esse para cima dele e de mim, o homem assusta-se e diz qualquer coisa ao outro e ele responde.
Soalheirinha, ou melhor Soeirinha, Soeirinha.
Foi um nome que eu vi em qualquer lado ou na moto ou no homem ou no capacete do homem, mas não sei como é que o vi. Decerto Soeirinha e a sua moto não seriam estranhos ao homem de preto, que com um sorriso me disse logo ser meu cúmplice. Mas não me apertou a mão. Dirigiu-se a uma espécie de triciclo do gás, eu digo que era do gás porque é importante dizer que era do gás, e disse-me então quando é que aparece ou uma coisa do género, pressupondo um conhecimento nosso anterior. Eu não respondi, julgando... tendo a certeza de que não conhecia o homem e que não podia ter compromisso com ele nenhum.
Aqui, ele pega no seu triciclo, julgo que dá uma meia-volta e diz mais qualquer coisa do género, talvez protegido por uma flama Gazcidla ou por uma flama azul e vermelha que se via... azul, branca e vermelha que se via numa esquina – então já não vende Gazcidla? – e eu respondi com ar galhofeiro: Não, desse já não vendo há muito tempo, agora só se fôr Galp. O homem riu-se e estacionou o triciclo numa rua que parecia principal* e que descia. Estacionou, creio, em sentido contrário. Saiu do triciclo e entrou rápido numa porta onde se subiam dois ou três degraus até uma loja. Segui-o, mais por galhofa do que por outra coisa qualquer. Ele perguntou-me assim: Atão o gás? Não me traz o gás? E eu disse-lhe: Não vendo gás. O senhor está a confundir com outra pessoa qualquer. Eu sou da charneca, como se isso me ilibasse de fornecer-lhe gás. Ele olhou para mim e nada disse. Mas diga-me uma coisa - disse eu - sou assim tão parecido com o indivíduo que o senhor espera? Ele respondeu: Não. Não sei, eu conheci-o pela voz. Pela voz? Sim, o caso é que eu estava de férias e sabendo que não tinha gás, telefonei para tal sítio e falei consigo. Consigo não, com o outro e pedi uma garrafa de gás. E que viessem arranjar uma coisa, que eu tenho aqui um problema. E reconheci-o pela voz hoje, pensei que era você. Ele antes disso tinha-me perguntado antes de entrar na loja, onde é que eu tinha deixado o carro. E o carro estava atrás de um outro nessa rua, um pouco mais para lá. Acho que eram só os dois que se viam nessa rua, só que o carro estava mesmo atrás do outro, não se via dali bem.
Então ele riu-se, percebeu finalmente que havia ali um engano de vozes, não fez referência nenhuma ao facto de eu conhecer o Soeirinha, de eu ser da charneca, de o meu sotaque ser parecido com o dele, e estava já a vender pregos a alguém, assim os tais três degraus acima de mim. Era sobranceiro. Quando a mulher dele, assim com muito bom aspecto, de óculos, uma senhora realmente com muito bom aspecto, muito educada, não era bonita, não era bem feita, tinha muito bom aspecto, talvez bonomia, uns óculos de massa, pretos, o cabelo ligeiramente desgrenhado, preto, uma roupa escura, preta, uma pele morena, disse um sonoro e sincero muito obrigado, senhor Manel. E eu saí da loja para não mais voltar. E ainda não sei em que sede de concelho alentejano estive.
Nem como fui conhecido pela voz sem abrir a boca.

* assim como a rua Infante Dom Henrique em Portimão.

imagem do arquivo da RTP
Fui dar àquela sede de concelho alentejana, por via de algum espectáculo desportivo que teria a ver com bicicletas. A bem dizer, não sei se seriam bicicletas ao certo. Era um espectáculo viário sim, que passou efémero e nebuloso porque não fiquei a saber o que era, mas devia ter ao certo muita gente na caravana, dada a importância que assumia e ninguém a assistir.
Porque a assistir, assim parece, ao fundo daquela rampa que virava à direita, na subida, eu distinguia vagamente uma igreja em obras ou a carecer delas e que eu vagamente julguei reconhecer, disse para mim Aljustrel mas em Aljustrel não há nada parecido. Eu não sabia onde estava, fora para ali levado pelo tal fenómeno desportivo e não sabia onde estava. E a assistir, dizia, apenas vi um homem de preto, acho que com uma bóina, preto ou daqueles azuis escuros, arroxeados, castanhos, que parecem pretos ao longe, no verão. O homem ou teria bóina ou tinha o cabelo preto, vinha a andar para mim devagar e eu para ele, na esperança de ver parte da caravana ainda ou de reconhecer mais um sinal qualquer da povoação.
Compete dizer que isto decorria aos alvores, antes do nascer do sol mas já com luz suficiente para se dizer que era dia.
É quando um tipo de motorizada, que descia a dita rampa, ladeira digo, faz um esse para cima dele e de mim, o homem assusta-se e diz qualquer coisa ao outro e ele responde.
Soalheirinha, ou melhor Soeirinha, Soeirinha.
Foi um nome que eu vi em qualquer lado ou na moto ou no homem ou no capacete do homem, mas não sei como é que o vi. Decerto Soeirinha e a sua moto não seriam estranhos ao homem de preto, que com um sorriso me disse logo ser meu cúmplice. Mas não me apertou a mão. Dirigiu-se a uma espécie de triciclo do gás, eu digo que era do gás porque é importante dizer que era do gás, e disse-me então quando é que aparece ou uma coisa do género, pressupondo um conhecimento nosso anterior. Eu não respondi, julgando... tendo a certeza de que não conhecia o homem e que não podia ter compromisso com ele nenhum.
Aqui, ele pega no seu triciclo, julgo que dá uma meia-volta e diz mais qualquer coisa do género, talvez protegido por uma flama Gazcidla ou por uma flama azul e vermelha que se via... azul, branca e vermelha que se via numa esquina – então já não vende Gazcidla? – e eu respondi com ar galhofeiro: Não, desse já não vendo há muito tempo, agora só se fôr Galp. O homem riu-se e estacionou o triciclo numa rua que parecia principal* e que descia. Estacionou, creio, em sentido contrário. Saiu do triciclo e entrou rápido numa porta onde se subiam dois ou três degraus até uma loja. Segui-o, mais por galhofa do que por outra coisa qualquer. Ele perguntou-me assim: Atão o gás? Não me traz o gás? E eu disse-lhe: Não vendo gás. O senhor está a confundir com outra pessoa qualquer. Eu sou da charneca, como se isso me ilibasse de fornecer-lhe gás. Ele olhou para mim e nada disse. Mas diga-me uma coisa - disse eu - sou assim tão parecido com o indivíduo que o senhor espera? Ele respondeu: Não. Não sei, eu conheci-o pela voz. Pela voz? Sim, o caso é que eu estava de férias e sabendo que não tinha gás, telefonei para tal sítio e falei consigo. Consigo não, com o outro e pedi uma garrafa de gás. E que viessem arranjar uma coisa, que eu tenho aqui um problema. E reconheci-o pela voz hoje, pensei que era você. Ele antes disso tinha-me perguntado antes de entrar na loja, onde é que eu tinha deixado o carro. E o carro estava atrás de um outro nessa rua, um pouco mais para lá. Acho que eram só os dois que se viam nessa rua, só que o carro estava mesmo atrás do outro, não se via dali bem.
Então ele riu-se, percebeu finalmente que havia ali um engano de vozes, não fez referência nenhuma ao facto de eu conhecer o Soeirinha, de eu ser da charneca, de o meu sotaque ser parecido com o dele, e estava já a vender pregos a alguém, assim os tais três degraus acima de mim. Era sobranceiro. Quando a mulher dele, assim com muito bom aspecto, de óculos, uma senhora realmente com muito bom aspecto, muito educada, não era bonita, não era bem feita, tinha muito bom aspecto, talvez bonomia, uns óculos de massa, pretos, o cabelo ligeiramente desgrenhado, preto, uma roupa escura, preta, uma pele morena, disse um sonoro e sincero muito obrigado, senhor Manel. E eu saí da loja para não mais voltar. E ainda não sei em que sede de concelho alentejano estive.
Nem como fui conhecido pela voz sem abrir a boca.

* assim como a rua Infante Dom Henrique em Portimão.
14/01/2008
Diametralmente opostos
Duma coisa estou quase certo: não estava em posição que se pudesse vulgarmente dizer diametralmente oposta à daquela senhora.
Mas sabemos todos que dados dois pontos quaisquer, o ponto médio do segmento de recta por eles definido é o centro de uma circunferência da qual esse segmento é diâmetro e os ditos pontos são assim diametralmente opostos. Era uma questão de escolher dois pontos, um na senhora outro em mim. Mas não era questão que se pusesse.
De resto, afianço que até não tinha dado por ela, tapada que estava por alguém que se intrometia entre nós.
Só depois de eu ter terminado a minha oração sobre pontos que tais é que lhe ouvi a voz.
Intrometeu-se na minha finalização de caso e tratou de contar uma história que metia belgas e a linha que divide a Flandres da Valónia e na qual se dizia que um flamengo tinha uma visão diametralmente oposta à de um valão. E depois um francês – acho que era um francês, que bem podia ser de outro país qualquer limítrofe, que dizia que a sua opinião era oposta à dos outros dois.
E esta senhora, com esta intromissão, pretendeu criar um problema irresolúvel graficamente. Eu depois disse que o tinha resolvido. Assim com uma chicoesperteza que me pareceu logo ser de mau tom explicar, uma vez que sendo aldrabada, ofendia a inteligência da dona.
Resolvi tossir.
Duma coisa estou quase certo: não estava em posição que se pudesse vulgarmente dizer diametralmente oposta à daquela senhora.
Mas sabemos todos que dados dois pontos quaisquer, o ponto médio do segmento de recta por eles definido é o centro de uma circunferência da qual esse segmento é diâmetro e os ditos pontos são assim diametralmente opostos. Era uma questão de escolher dois pontos, um na senhora outro em mim. Mas não era questão que se pusesse.
De resto, afianço que até não tinha dado por ela, tapada que estava por alguém que se intrometia entre nós.
Só depois de eu ter terminado a minha oração sobre pontos que tais é que lhe ouvi a voz.
Intrometeu-se na minha finalização de caso e tratou de contar uma história que metia belgas e a linha que divide a Flandres da Valónia e na qual se dizia que um flamengo tinha uma visão diametralmente oposta à de um valão. E depois um francês – acho que era um francês, que bem podia ser de outro país qualquer limítrofe, que dizia que a sua opinião era oposta à dos outros dois.
E esta senhora, com esta intromissão, pretendeu criar um problema irresolúvel graficamente. Eu depois disse que o tinha resolvido. Assim com uma chicoesperteza que me pareceu logo ser de mau tom explicar, uma vez que sendo aldrabada, ofendia a inteligência da dona.
Resolvi tossir.
13/01/2008
Mais uma
Não sei se é mera infantilidade se falta de tarola.
Clique na imagem e atente na data em que foi tirada e no nome do autor.
Depois veja este post.
Não sei se é mera infantilidade se falta de tarola.
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Depois veja este post.
11/01/2008
10/01/2008
Sobre um ninho de cucos
De decisões preliminares está o inferno, digo o espaço aéreo, cheio.
Ainda assim, fica este governo, por ora, conhecido por ter decidido tomar uma decisão ("decidiu tomar uma decisão" - sic) que soa acertada. Parabéns!
Sendo uma ocasião rara, saúdo-a.
Como já aqui tinha dito, no auge da polémica – 5 dias depois do deserto – em toda a minha infância ouvi falar da ponte do Montijo (Beato – Montijo) e do aeroporto em Rio Frio.
A ponte está lá desde 98. Com o encontro noroeste mais a montante, em Sacavém.
Se o aeroporto fôr enfim construído onde agora se diz, não ficará longe de Rio Frio. Uma insignificância, comparando a distância com a dimensão da empresa.
Esta decisão preliminar não dá nenhuma certeza. Este processo já semelha o da decisão da primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa e o do metro do Porto, que se arrastaram por décadas. Isto num país em que há um templo que demorou quase três séculos a ser concluído.
Mas diz-me que, em tese, quem assim me mostrava o que o futuro traria, não me enganou. A quarenta e tais anos de vista havia muita gente que já tinha percebido isto mesmo.

(clique para aceder ao relatório)
corrigido e acrescentado a 11 JAN. pelas 0:05
De decisões preliminares está o inferno, digo o espaço aéreo, cheio.
Ainda assim, fica este governo, por ora, conhecido por ter decidido tomar uma decisão ("decidiu tomar uma decisão" - sic) que soa acertada. Parabéns!
Sendo uma ocasião rara, saúdo-a.
Como já aqui tinha dito, no auge da polémica – 5 dias depois do deserto – em toda a minha infância ouvi falar da ponte do Montijo (Beato – Montijo) e do aeroporto em Rio Frio.
A ponte está lá desde 98. Com o encontro noroeste mais a montante, em Sacavém.
Se o aeroporto fôr enfim construído onde agora se diz, não ficará longe de Rio Frio. Uma insignificância, comparando a distância com a dimensão da empresa.
Esta decisão preliminar não dá nenhuma certeza. Este processo já semelha o da decisão da primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa e o do metro do Porto, que se arrastaram por décadas. Isto num país em que há um templo que demorou quase três séculos a ser concluído.
Mas diz-me que, em tese, quem assim me mostrava o que o futuro traria, não me enganou. A quarenta e tais anos de vista havia muita gente que já tinha percebido isto mesmo.

(clique para aceder ao relatório)
corrigido e acrescentado a 11 JAN. pelas 0:05
09/01/2008
O homem duplicado
(ou o tradicional post das 3:05)
Quando peguei no livro de Saramago, não tinha a menor ideia do que lá estava escrito. Coisa que, creio, não me tinha acontecido com os outros livros que lera dele.
Foi assim intensamente que logo ao início recordei a exacta experiência que ele lá descreve.
E é uma experiência vertiginosa. Actua seguramente sobre o cérebro duma forma semelhante à visão abrupta do abismo.
Experimenta-se a incapacidade de ordenar o universo. Ou de o contemplar com a ordem conhecida.
Ainda hoje não sei quem é o tipo da foto.
Suspeito que se chama António, que lhe chamavam Tóninho, que já morou em Sintra, que tinha há 30 anos uma namorada muito vistosa e que gostava de ralis.
Tudo isto sei-o, dito por umas quantas pessoas que não conhecia até se me dirigirem, tomando-me por ele. Se não sei mais, por via delas, vejo-o agora, foi porque o interesse que então me suscitava era escasso, para surpresa dos próprios interlocutores.
Parece que se acentuou, com a idade. O interesse.
(ou o tradicional post das 3:05)
Quando peguei no livro de Saramago, não tinha a menor ideia do que lá estava escrito. Coisa que, creio, não me tinha acontecido com os outros livros que lera dele.
Foi assim intensamente que logo ao início recordei a exacta experiência que ele lá descreve.
E é uma experiência vertiginosa. Actua seguramente sobre o cérebro duma forma semelhante à visão abrupta do abismo.
Experimenta-se a incapacidade de ordenar o universo. Ou de o contemplar com a ordem conhecida.
Ainda hoje não sei quem é o tipo da foto.
Suspeito que se chama António, que lhe chamavam Tóninho, que já morou em Sintra, que tinha há 30 anos uma namorada muito vistosa e que gostava de ralis.
Tudo isto sei-o, dito por umas quantas pessoas que não conhecia até se me dirigirem, tomando-me por ele. Se não sei mais, por via delas, vejo-o agora, foi porque o interesse que então me suscitava era escasso, para surpresa dos próprios interlocutores.
Parece que se acentuou, com a idade. O interesse.
08/01/2008
07/01/2008
06/01/2008
Os cigarros alheios é que fazem muito mal
A primeira vez que me apareceu um simples no écran alegando que nada poderia ter feito para evitar o desastre, porque já estava tudo parado, data do tempo em que as televisões começaram a dar importância aos directos de acidentes de trânsito. Há mais de uma década.
Esse simples era motorista profissional, presume-se, dado que conduzia um pesado de passageiros e matou nessa ocasião duas pessoas por não ter conseguido parar, numa auto-estrada, sem embater numa fila de carros parados.
Suponho que ainda conduza, nada o impede de. Se assim fôr e dado que ainda é impossível embutir discernimento em cabeças como a dele, há algumas probabilidades de que volte a matar, se as circunstâncias o proporcionarem.
Nestes últimos dias, já por duas vezes mais desde o post de 30 de Dezembro, que assisto a outros simples, com o ar mais natural deste mundo, a atribuírem a responsabilidade dos seus embates aos que já estão enfeixados, às más condições do piso, ao nevoeiro e à falta de atrito que o gelo origina.
Não vão perceber que a responsabilidade é deles até a companhia de seguros os acordar. O discernimento ou a ausência dele, não lhes permite tal. Por isso são tão espontâneos face às câmaras.
As autoridades sabem que a maior parte dos acidentes não se deve ao álcool – apenas 4,3% dos condutores testados por envolvimento em acidente apresentaram em 2006 taxas de álcool superiores ao limite legal (cf. relatório da antiga DGV – pág. 108, quadro 5).
Devem ter uma ideia de que, para além da tão apregoada falta de civismo, que existe claro e lhe está associada, é a falta de discernimento e a incapacidade de manobrar um automóvel que estão na base dos excessos de velocidade (dentro ou fora dos limites estabelecidos), das manobras arriscadas, do descontrolo da máquina. O mesmo relatório (pág. 64) atribui como causas que vitimaram 27% dos condutores, a velocidade excessiva e as manobras irregulares - o grosso das causas identificadas. 62% das vítimas ao volante ainda resulta de acidentes com causas desconhecidas.
Sobre isto, basta ter uma ideia de quem faz os autos dos acidentes para se saber o valor que esta informação tem, mas é a que existe.
Face a isso, a grande medida, para além de uma apregoado agravamento das penas de inibição, é a antecipação da revisão dos condutores vulgares dos 65 para os 50 anos.
Nada contra estas medidas em particular. Aliás, o adiamento dos 40 para os 65 foi mais uma das medidas que alguém tomou há umas décadas atrás, que só se justifica por puro facilitismo ou por reconhecimento da ineficácia de tal renovação.
Mas pensarão os que assim decidiram, que serve hoje para alguma coisa, para além de recolher mais uns cobres, antecipar esse prazo? Serviria, se fossem efectivas tais inspecções.
Atente-se, por exemplo, no número de condutores com mais de 65 anos, logo já sujeitos a exame médico, que andam em sentido contrário nas auto-estradas.
E qual é o número anual de condutores definitivamente impedidos de conduzir, por incapacidade? Alguém o conhece?
Pode impedir-se os simples de cometerem atrocidades na estrada? Não. A menos que se acabe com o trânsito, é claro.
Mas pode cassar-se de uma vez por todas a carta aos incapazes. Pode ser-se exigente no parâmetro do discernimento com os candidatos a condutores. E, por último, é possível amedrontá-los com penas de prisão em caso de provocarem a morte ou a incapacidade, quando ao volante.
Num tempo em que a sociedade enveredou por uma super-protecção dos individuos, da qual é exemplo a lei do tabaco, parece estranho que se ignore esta causa de morte e se insista em procurar em razões outras – o álcool, por exemplo – a causa dos acidentes.
Não se percebe assim que se proíbam os fumadores de frequentar ambientes onde o incómodo e o prejuízo que causam é infinitamente menor do que um homicídio ao volante e se permita que os homicidas continuem nas vias públicas.
Os fumadores não estão proibidos de frequentar tais lugares – não podem é lá fumar.
Da mesma maneira, não se proibiriam os homicidas do volante de andarem na estrada – não poderiam é ir com ele, volante, nas mãos.
A primeira vez que me apareceu um simples no écran alegando que nada poderia ter feito para evitar o desastre, porque já estava tudo parado, data do tempo em que as televisões começaram a dar importância aos directos de acidentes de trânsito. Há mais de uma década.
Esse simples era motorista profissional, presume-se, dado que conduzia um pesado de passageiros e matou nessa ocasião duas pessoas por não ter conseguido parar, numa auto-estrada, sem embater numa fila de carros parados.
Suponho que ainda conduza, nada o impede de. Se assim fôr e dado que ainda é impossível embutir discernimento em cabeças como a dele, há algumas probabilidades de que volte a matar, se as circunstâncias o proporcionarem.
Nestes últimos dias, já por duas vezes mais desde o post de 30 de Dezembro, que assisto a outros simples, com o ar mais natural deste mundo, a atribuírem a responsabilidade dos seus embates aos que já estão enfeixados, às más condições do piso, ao nevoeiro e à falta de atrito que o gelo origina.
Não vão perceber que a responsabilidade é deles até a companhia de seguros os acordar. O discernimento ou a ausência dele, não lhes permite tal. Por isso são tão espontâneos face às câmaras.
As autoridades sabem que a maior parte dos acidentes não se deve ao álcool – apenas 4,3% dos condutores testados por envolvimento em acidente apresentaram em 2006 taxas de álcool superiores ao limite legal (cf. relatório da antiga DGV – pág. 108, quadro 5).
Devem ter uma ideia de que, para além da tão apregoada falta de civismo, que existe claro e lhe está associada, é a falta de discernimento e a incapacidade de manobrar um automóvel que estão na base dos excessos de velocidade (dentro ou fora dos limites estabelecidos), das manobras arriscadas, do descontrolo da máquina. O mesmo relatório (pág. 64) atribui como causas que vitimaram 27% dos condutores, a velocidade excessiva e as manobras irregulares - o grosso das causas identificadas. 62% das vítimas ao volante ainda resulta de acidentes com causas desconhecidas.
Sobre isto, basta ter uma ideia de quem faz os autos dos acidentes para se saber o valor que esta informação tem, mas é a que existe.
Face a isso, a grande medida, para além de uma apregoado agravamento das penas de inibição, é a antecipação da revisão dos condutores vulgares dos 65 para os 50 anos.
Nada contra estas medidas em particular. Aliás, o adiamento dos 40 para os 65 foi mais uma das medidas que alguém tomou há umas décadas atrás, que só se justifica por puro facilitismo ou por reconhecimento da ineficácia de tal renovação.
Mas pensarão os que assim decidiram, que serve hoje para alguma coisa, para além de recolher mais uns cobres, antecipar esse prazo? Serviria, se fossem efectivas tais inspecções.
Atente-se, por exemplo, no número de condutores com mais de 65 anos, logo já sujeitos a exame médico, que andam em sentido contrário nas auto-estradas.
E qual é o número anual de condutores definitivamente impedidos de conduzir, por incapacidade? Alguém o conhece?
Pode impedir-se os simples de cometerem atrocidades na estrada? Não. A menos que se acabe com o trânsito, é claro.
Mas pode cassar-se de uma vez por todas a carta aos incapazes. Pode ser-se exigente no parâmetro do discernimento com os candidatos a condutores. E, por último, é possível amedrontá-los com penas de prisão em caso de provocarem a morte ou a incapacidade, quando ao volante.
Num tempo em que a sociedade enveredou por uma super-protecção dos individuos, da qual é exemplo a lei do tabaco, parece estranho que se ignore esta causa de morte e se insista em procurar em razões outras – o álcool, por exemplo – a causa dos acidentes.
Não se percebe assim que se proíbam os fumadores de frequentar ambientes onde o incómodo e o prejuízo que causam é infinitamente menor do que um homicídio ao volante e se permita que os homicidas continuem nas vias públicas.
Os fumadores não estão proibidos de frequentar tais lugares – não podem é lá fumar.
Da mesma maneira, não se proibiriam os homicidas do volante de andarem na estrada – não poderiam é ir com ele, volante, nas mãos.
05/01/2008
O Estreladeira
A escada era de madeira e contínua, sem patamares. Os degraus eram gomos na curva em gancho.
O Luís, que transportava sempre um sorriso que anos mais tarde e entre uns tragos de vinho verde, um de nós ao rever-nos infantes sob as asas protectoras da nossa professora, designaria como uma espécie de gula, irrompia invariavelmente impante, escorregando o bibe azul claro e os calções pelos boleados cobertores dos ditos degraus. Descia assim. Trac-trac-trac, num scú com cheiro a giz e a ardósia.
Certo dia de férias, a criada que todos os dias me ia buscar à escola, disse-me: Hoje vi o Estreladeira. Ia com o pai.
Eu fiquei assim sem dar parte de fraco. A tentar ligar o nome à pessoa.
Então aquilo que ele faz todos os dias não é uma estreladeira pela escada abaixo? – acrescentou ela.
A escada era de madeira e contínua, sem patamares. Os degraus eram gomos na curva em gancho.
O Luís, que transportava sempre um sorriso que anos mais tarde e entre uns tragos de vinho verde, um de nós ao rever-nos infantes sob as asas protectoras da nossa professora, designaria como uma espécie de gula, irrompia invariavelmente impante, escorregando o bibe azul claro e os calções pelos boleados cobertores dos ditos degraus. Descia assim. Trac-trac-trac, num scú com cheiro a giz e a ardósia.
Certo dia de férias, a criada que todos os dias me ia buscar à escola, disse-me: Hoje vi o Estreladeira. Ia com o pai.
Eu fiquei assim sem dar parte de fraco. A tentar ligar o nome à pessoa.
Então aquilo que ele faz todos os dias não é uma estreladeira pela escada abaixo? – acrescentou ela.
03/01/2008
A terceira travessia do Tejo
Dizia eu que era para não me irritar tanto com tanta burrice.
Mas constato todos os dias que já não se trata de burrice, trata-se de gente que não percebe sequer o mundo em que vive. O básico desse mundo, naturalmente.
Dizer, como ouvi agora na RTP, que a Ponte das Lezírias é a terceira travessia do Tejo já não é a asneira de Sócrates que a dizia quarta, é o completo alheamento da realidade em que vive grande parte da classe dos jornalistas.
Têm um mundo de fantasia na cabeça, normalmente com designações em inglês, e é sobre ele que nos dão as notícias.
Qualquer semelhança com a realidade conhecida é, como sabemos, mera coincidência.
Dizia eu que era para não me irritar tanto com tanta burrice.
Mas constato todos os dias que já não se trata de burrice, trata-se de gente que não percebe sequer o mundo em que vive. O básico desse mundo, naturalmente.
Dizer, como ouvi agora na RTP, que a Ponte das Lezírias é a terceira travessia do Tejo já não é a asneira de Sócrates que a dizia quarta, é o completo alheamento da realidade em que vive grande parte da classe dos jornalistas.
Têm um mundo de fantasia na cabeça, normalmente com designações em inglês, e é sobre ele que nos dão as notícias.
Qualquer semelhança com a realidade conhecida é, como sabemos, mera coincidência.
O caso da Saúde
Do panorama geral deste governo – feito de medíocres figuras, incapazes de alinhar duas ideias com um mínimo de lógica – salva-se o ministro da Saúde.
O homem não é mentalmente incapaz, antes pelo contrário.
E tem uma ideia para o sistema. A ideia pode ser em parte economicista em parte realista, tout court, mas é uma ideia e ele pretende pô-la em prática. Coisa de louvar.
É claro que o sistema proposto terá problemas tal como já os tem o sistema actual.
Mas tem o mérito de ser realista e de pretender racionalizar recursos.
É claro também que o pano de fundo que enquadra esta reforma é a desertificação de grande parte do país.
Ocorre-me perguntar, já não a este ministro, se há alguma ideia da capacidade que o interior tem para criar riqueza adicional e, havendo, qual é o número de pessoas, com os padrões actuais de vida, que essa riqueza pode fazer fixar.
Mesmo que estas contas incluam uma grande margem de erro, possibilitam saber se o interior desenvolvido é viável.
Tal como vai, tal como se prevê que esteja com estes parâmetros da curva, encaminha-se para o tal deserto.
Do panorama geral deste governo – feito de medíocres figuras, incapazes de alinhar duas ideias com um mínimo de lógica – salva-se o ministro da Saúde.
O homem não é mentalmente incapaz, antes pelo contrário.
E tem uma ideia para o sistema. A ideia pode ser em parte economicista em parte realista, tout court, mas é uma ideia e ele pretende pô-la em prática. Coisa de louvar.
É claro que o sistema proposto terá problemas tal como já os tem o sistema actual.
Mas tem o mérito de ser realista e de pretender racionalizar recursos.
É claro também que o pano de fundo que enquadra esta reforma é a desertificação de grande parte do país.
Ocorre-me perguntar, já não a este ministro, se há alguma ideia da capacidade que o interior tem para criar riqueza adicional e, havendo, qual é o número de pessoas, com os padrões actuais de vida, que essa riqueza pode fazer fixar.
Mesmo que estas contas incluam uma grande margem de erro, possibilitam saber se o interior desenvolvido é viável.
Tal como vai, tal como se prevê que esteja com estes parâmetros da curva, encaminha-se para o tal deserto.
02/01/2008
O lugar que ocupamos no concerto das nações
Deve estar relacionado com as mortes à bala nos festejos da sub-espécie.
E com um timoneiro que muda de um instituto público para uma universidade privada porque a segunda era ao lado do primeiro. E o diz na televisão. E não se apercebe do ridículo em que cai.
Deve estar relacionado com as mortes à bala nos festejos da sub-espécie.
E com um timoneiro que muda de um instituto público para uma universidade privada porque a segunda era ao lado do primeiro. E o diz na televisão. E não se apercebe do ridículo em que cai.
01/01/2008
Virando a página, por assim dizer
Primeiro, a mão à palmatória ou como falhei, acertando moralmente, as previsões para 2007.
Fiz, há precisamente um ano, esta aposta tripla:

Verificaram-se no mesmo dia e quem sabe se numa relação de causa-efeito, dois dos acontecimentos previstos. Dei quitação de tal acerto por mor do número das baixas associadas ser muito inferior ao predito.
Terramotos há-os todos os dias em Portugal e mar adjacente sem serem sentidos. Hoje mesmo já houve vários, um deles com magnitude superior a 4, segundo o IGN de Espanha.
Já um sismo sentido com a magnitude do de 12 de Fevereiro passado é coisa muito menos frequente. Disseram alguns que foi o maior desde 1969. Não sei se foi.
Acidentes ferroviários já são coisa rara. E com a gravidade do de 12 de Fevereiro na linha do Tua muito mais. Neste caso, à gravidade juntou-se ainda o aparato. Uma carruagem cair a um rio não sei quantas vezes terá já acontecido em Portugal, sequer se aconteceu tal.
Há, pois, uma vitória moral nessas premonições. Mas de vitórias morais...
O certo é que afirmei que haveria para aí uma centena de baixas, coisa dessa ordem. Falhei pois rotundamente.
Ora estes dois sucessos reduzem a uma insignificância, na minha bola de cristal, a probabilidade de uma aposta idêntica ter algum acerto em 2008.
Poderia apostar num desastre aeronáutico que é o que sobra da aposta feita.
A bola diz-me que não.
Farei, por ora, como um certo analista político de jornal que há uns bons anos face a um desacerto de previsões meteu a viola no saco.

Sem bola de cristal, apenas chamo a vossa atenção para o chorrilho de asneiras que vai sair da boca dos candidatos a candidatos à Casa Branca a propósito daquilo a que chamam mudanças climáticas.
O prólogo já foi farto. O que não será o acto principal.
Tinha prometido a mim próprio não me irritar tanto com as asneiras que leio e ouço este ano que entra.
Começo mal.
Primeiro, a mão à palmatória ou como falhei, acertando moralmente, as previsões para 2007.
Fiz, há precisamente um ano, esta aposta tripla:

Verificaram-se no mesmo dia e quem sabe se numa relação de causa-efeito, dois dos acontecimentos previstos. Dei quitação de tal acerto por mor do número das baixas associadas ser muito inferior ao predito.
Terramotos há-os todos os dias em Portugal e mar adjacente sem serem sentidos. Hoje mesmo já houve vários, um deles com magnitude superior a 4, segundo o IGN de Espanha.
Já um sismo sentido com a magnitude do de 12 de Fevereiro passado é coisa muito menos frequente. Disseram alguns que foi o maior desde 1969. Não sei se foi.
Acidentes ferroviários já são coisa rara. E com a gravidade do de 12 de Fevereiro na linha do Tua muito mais. Neste caso, à gravidade juntou-se ainda o aparato. Uma carruagem cair a um rio não sei quantas vezes terá já acontecido em Portugal, sequer se aconteceu tal.
Há, pois, uma vitória moral nessas premonições. Mas de vitórias morais...
O certo é que afirmei que haveria para aí uma centena de baixas, coisa dessa ordem. Falhei pois rotundamente.
Ora estes dois sucessos reduzem a uma insignificância, na minha bola de cristal, a probabilidade de uma aposta idêntica ter algum acerto em 2008.
Poderia apostar num desastre aeronáutico que é o que sobra da aposta feita.
A bola diz-me que não.
Farei, por ora, como um certo analista político de jornal que há uns bons anos face a um desacerto de previsões meteu a viola no saco.

Sem bola de cristal, apenas chamo a vossa atenção para o chorrilho de asneiras que vai sair da boca dos candidatos a candidatos à Casa Branca a propósito daquilo a que chamam mudanças climáticas.
O prólogo já foi farto. O que não será o acto principal.
Tinha prometido a mim próprio não me irritar tanto com as asneiras que leio e ouço este ano que entra.
Começo mal.
30/12/2007
Os simples ao volante
Quando ouço um simples dizer, com a maior naturalidade, que não conseguiu parar, no meio do nevoeiro, e embateu assim nos que já lá estavam, ocorre-me logo se não será um dos tais que tanto aplaudem a nova lei do tabaco.
Os simples são simples e nenhuma culpa têm de o ser.
Talvez a legislação é que não seja a mais adequada neste caso. O que nos leva a outros simples, é claro.
Será que morre mais gente por fumar os cigarros alheios do que na estrada, às mãos dos simples como estes que ouvi há pouco nos telejornais?
E, todavia, permite a lei que conduzam, após terem matado ou estropiado, com a boçalidade que lhes é característica.
Quando ouço um simples dizer, com a maior naturalidade, que não conseguiu parar, no meio do nevoeiro, e embateu assim nos que já lá estavam, ocorre-me logo se não será um dos tais que tanto aplaudem a nova lei do tabaco.
Os simples são simples e nenhuma culpa têm de o ser.
Talvez a legislação é que não seja a mais adequada neste caso. O que nos leva a outros simples, é claro.
Será que morre mais gente por fumar os cigarros alheios do que na estrada, às mãos dos simples como estes que ouvi há pouco nos telejornais?
E, todavia, permite a lei que conduzam, após terem matado ou estropiado, com a boçalidade que lhes é característica.
29/12/2007
Os sinos, os sinais e a morte d’homem
Pertenço a uma geração que ainda sabe distinguir o toque de sinais dos outros toques sineiros.
Na verdade, pertenço a uma sub-espécie dessa geração que quase só ouviu sinais e se recorda, já adulta, de ter ouvido o primeiro e estranho toque de missa.
Os sinais – esses toques ladaínhentos anunciadores da morte – quando de primeira hora, entravam-me pelo quarto a dentro quase simultâneos com a minha Avó, que me ordenava o abandono do decúbito lateral em respeito por ela, a morte.
Pertenço igualmente a uma geração que convivia, na infância, com sinais muito diversos no campo e nos arrabaldes da cidade.
Assim, os sons das sirenes dos bombeiros, das ambulâncias, vulgares por cá, eram um raríssimo mau presságio lá na vila.
E digo raríssimo porque o era de facto. Não me recordo em toda a minha vida de ter visto um carro de bombeiros por lá antes do outono desse ano de 1997.
E quanto a ambulâncias, contam-se pelos dedos as vezes que aconteceu tal, já incluindo a debatida aquisição da ambulância da Junta de Freguesia, embora essa a soubesse guardada em certa garagem.
Nessa manhã estival de há dez anos, dormelento e só na casa ancestral, julguei ouvir primeiro o som de uma ambulância, calculando pelo doppler que passara sem se deter pela vila.
Pouco mais tarde, o toque dos sinais fez-me respeitar uma recordação de infância – ergui-me.
Era uma manhã que anunciava infernos augustinos e para a qual tinha programada uma saída para oeste, para o mar.
Assim fiz. Ainda não tinha percorrido uma légua quando vi o carro. Calcinado, uns bons metros fora da estrada. Sem sinais de embate.
Estava muito longe de imaginar o intrincado mistério que representava aquele quadro, para além de me ter devolvido os antigos sinais, talvez pela última vez.
Adaptação de ficheiro sonoro da autoria de acclivity em freesound.iua.upf.edu
Pertenço a uma geração que ainda sabe distinguir o toque de sinais dos outros toques sineiros.
Na verdade, pertenço a uma sub-espécie dessa geração que quase só ouviu sinais e se recorda, já adulta, de ter ouvido o primeiro e estranho toque de missa.
Os sinais – esses toques ladaínhentos anunciadores da morte – quando de primeira hora, entravam-me pelo quarto a dentro quase simultâneos com a minha Avó, que me ordenava o abandono do decúbito lateral em respeito por ela, a morte.
Pertenço igualmente a uma geração que convivia, na infância, com sinais muito diversos no campo e nos arrabaldes da cidade.
Assim, os sons das sirenes dos bombeiros, das ambulâncias, vulgares por cá, eram um raríssimo mau presságio lá na vila.
E digo raríssimo porque o era de facto. Não me recordo em toda a minha vida de ter visto um carro de bombeiros por lá antes do outono desse ano de 1997.
E quanto a ambulâncias, contam-se pelos dedos as vezes que aconteceu tal, já incluindo a debatida aquisição da ambulância da Junta de Freguesia, embora essa a soubesse guardada em certa garagem.
Nessa manhã estival de há dez anos, dormelento e só na casa ancestral, julguei ouvir primeiro o som de uma ambulância, calculando pelo doppler que passara sem se deter pela vila.
Pouco mais tarde, o toque dos sinais fez-me respeitar uma recordação de infância – ergui-me.
Era uma manhã que anunciava infernos augustinos e para a qual tinha programada uma saída para oeste, para o mar.
Assim fiz. Ainda não tinha percorrido uma légua quando vi o carro. Calcinado, uns bons metros fora da estrada. Sem sinais de embate.
Estava muito longe de imaginar o intrincado mistério que representava aquele quadro, para além de me ter devolvido os antigos sinais, talvez pela última vez.
Adaptação de ficheiro sonoro da autoria de acclivity em freesound.iua.upf.edu
28/12/2007
Os acontecimentos do ano
A febre da antecipacão que há muito se apossou dos homens faz com que se fechem as contas antes das contas estarem de facto fechadas, passe o absurdo da frase.
Há dois dias, quando escrevi um post sobre o jogo das damas era para ter começado justamente por uma introdução que mostrasse o contra-senso de antecipar o balanço do ano.
É que, por vezes, lembrava-me de 2004, o acontecimento marcante vem depois do balanço feito.
Quantos não terão sido os analistas que então reviram as suas escolhas e quantos não o farão este ano?
A questão da resolução do jogo das damas era por si tão importante no seu campo que a probabilidade de ser ofuscada por qualquer outra era diminuta. E continua a ser.
Mas como lá disse, o ano ainda não tinha acabado e ainda não acabou.
Anda hoje nas notícias uma outra revelação importante, embora num campo onde os graus de certeza não se aproximam de 1, como no caso das damas. E cuja importância, podendo ser decisiva, não ultrapassa em “períodos de retorno” a anterior.
Fala-se, embora a Organização Mundial de Saúde na sua página, não o diga, que há, pela primeira vez fortes suspeitas do vírus H5N1 se ter transmitido de homem para homem.
É este “primeira vez” que é sempre espectacular e suspeito. Nada nos garante que não tenha já acontecido. O vírus parece ser conhecido desde 1959. Nada nos garante que antes de ser identificada esta estirpe, ela não tinha saltado de humano para humano nem nada nos garante que depois de identificada não o tenha feito, à revelia da ciência.
Estamos ainda na infância da arte neste e noutros campos com ele relacionados.
E, como indica ainda – na altura em que escrevo esta exacta linha – a página da OMS, nada nos garante que tal transmissão tenha ocorrido.
Uma praga – a que poderemos chamar genericamente peste – é algo a que a humanidade está exposta de tempos a tempos. Estamos há cerca de 90 anos sem nos debatermos com uma. É natural que apareça um destes dias. Provavelmente não será por via deste vírus, será por via de um outro que ainda nem sequer conhecemos.
A morte teórica do jogo das damas – embora imperfeita – mostra-nos que estamos com uma capacidade de combate suficiente para enfrentar desafios de descoberta impensáveis há pouco mais de meio século. Essa capacidade dar-nos-á talvez meios de suplantar em tempo útil uma epidemia quase qualquer que seja. Faltará o quase, como sempre.
Mas há que, independentemente de todo o ruído e de todas as vulgares campanhas que andam por uma pequena parte da ecúmena, atentar na curva da população mundial.
Essa é que é a luta decisiva. Essa é que é a questão que se coloca e nenhuma outra.
Talvez as máquinas devessem falhar e não nos dar a solução para enfrentar uma epidemia.
Mas isso é uma questão de valores e valores interessam-me pouco.
O que sei, sabemos todos, é que não poderemos continuar a reproduzir-nos ao mesmo ritmo sem que encontremos territórios novos para colonizar.
Como os vírus, exactamente como os vírus.
A febre da antecipacão que há muito se apossou dos homens faz com que se fechem as contas antes das contas estarem de facto fechadas, passe o absurdo da frase.
Há dois dias, quando escrevi um post sobre o jogo das damas era para ter começado justamente por uma introdução que mostrasse o contra-senso de antecipar o balanço do ano.
É que, por vezes, lembrava-me de 2004, o acontecimento marcante vem depois do balanço feito.
Quantos não terão sido os analistas que então reviram as suas escolhas e quantos não o farão este ano?
A questão da resolução do jogo das damas era por si tão importante no seu campo que a probabilidade de ser ofuscada por qualquer outra era diminuta. E continua a ser.
Mas como lá disse, o ano ainda não tinha acabado e ainda não acabou.
Anda hoje nas notícias uma outra revelação importante, embora num campo onde os graus de certeza não se aproximam de 1, como no caso das damas. E cuja importância, podendo ser decisiva, não ultrapassa em “períodos de retorno” a anterior.
Fala-se, embora a Organização Mundial de Saúde na sua página, não o diga, que há, pela primeira vez fortes suspeitas do vírus H5N1 se ter transmitido de homem para homem.
É este “primeira vez” que é sempre espectacular e suspeito. Nada nos garante que não tenha já acontecido. O vírus parece ser conhecido desde 1959. Nada nos garante que antes de ser identificada esta estirpe, ela não tinha saltado de humano para humano nem nada nos garante que depois de identificada não o tenha feito, à revelia da ciência.
Estamos ainda na infância da arte neste e noutros campos com ele relacionados.
E, como indica ainda – na altura em que escrevo esta exacta linha – a página da OMS, nada nos garante que tal transmissão tenha ocorrido.
Uma praga – a que poderemos chamar genericamente peste – é algo a que a humanidade está exposta de tempos a tempos. Estamos há cerca de 90 anos sem nos debatermos com uma. É natural que apareça um destes dias. Provavelmente não será por via deste vírus, será por via de um outro que ainda nem sequer conhecemos.
A morte teórica do jogo das damas – embora imperfeita – mostra-nos que estamos com uma capacidade de combate suficiente para enfrentar desafios de descoberta impensáveis há pouco mais de meio século. Essa capacidade dar-nos-á talvez meios de suplantar em tempo útil uma epidemia quase qualquer que seja. Faltará o quase, como sempre.
Mas há que, independentemente de todo o ruído e de todas as vulgares campanhas que andam por uma pequena parte da ecúmena, atentar na curva da população mundial.
Essa é que é a luta decisiva. Essa é que é a questão que se coloca e nenhuma outra.
Talvez as máquinas devessem falhar e não nos dar a solução para enfrentar uma epidemia.
Mas isso é uma questão de valores e valores interessam-me pouco.
O que sei, sabemos todos, é que não poderemos continuar a reproduzir-nos ao mesmo ritmo sem que encontremos territórios novos para colonizar.
Como os vírus, exactamente como os vírus.
27/12/2007
26/12/2007
O jogo das damas
Dizer que o jogo das damas foi, no ano de 2007, finalmente resolvido, descoberto, posto a nu e que dá sempre empate desde que... pode levar às interpretações mais românticas.
Na verdade, o jogo das damas de carne e osso para com os cavalheiros da mesma massa, esse está longe de se ver resolvido, reduzido a algoritmos actuando em potentes e capazes máquinas. Lá chegaremos.

Mas este, o das 24 peças no tabuleiro de 8 por 8, foi finalmente escrutinado por tais algoritmos, mostrando que a capacidade do engenho humano em avançar na resolução de problemas que esse mesmo engenho criou, séculos atrás, e que resistiram ao abrigo de uma grossa camada de zeros, contados em expoente de 10, está agora dotada de meios para vencer essas camadas de complexidade em tempo menor do que o de uma vida – este desafio durou 18 anos.
Sabendo da curva parabólica que representa a evolução no tempo da capacidade e da velocidade de processamento das máquinas, e admitindo que poderão existir pontos de catástrofe nessa curva que façam disparar ainda mais essa evolução, parece plausível que já existam as pessoas que irão ver a resolução do xadrez.
Até hoje, este foi para mim o acontecimento do ano.
Mas o ano ainda não acabou...
Dizer que o jogo das damas foi, no ano de 2007, finalmente resolvido, descoberto, posto a nu e que dá sempre empate desde que... pode levar às interpretações mais românticas.
Na verdade, o jogo das damas de carne e osso para com os cavalheiros da mesma massa, esse está longe de se ver resolvido, reduzido a algoritmos actuando em potentes e capazes máquinas. Lá chegaremos.

Mas este, o das 24 peças no tabuleiro de 8 por 8, foi finalmente escrutinado por tais algoritmos, mostrando que a capacidade do engenho humano em avançar na resolução de problemas que esse mesmo engenho criou, séculos atrás, e que resistiram ao abrigo de uma grossa camada de zeros, contados em expoente de 10, está agora dotada de meios para vencer essas camadas de complexidade em tempo menor do que o de uma vida – este desafio durou 18 anos.
Sabendo da curva parabólica que representa a evolução no tempo da capacidade e da velocidade de processamento das máquinas, e admitindo que poderão existir pontos de catástrofe nessa curva que façam disparar ainda mais essa evolução, parece plausível que já existam as pessoas que irão ver a resolução do xadrez.
Até hoje, este foi para mim o acontecimento do ano.
Mas o ano ainda não acabou...
25/12/2007
23/12/2007
Ligações
Enquanto assistia a uma reportagem sobre a manifestação para pôr termo aos acidentes mortais que ocorrem no cruzamento da 124 com a 264, em São Bartolomeu de Messines, à memória veio-me uma outra morte que relacionei de imediato com tal cruzamento.
E essa relação, a única relação que há entre essa morte e o cruzamento é de banda sonora.
De estar por ele a passar enquanto a rádio a anunciava. Isto há mais de dez anos.
Não haveria razão para me lembrar desta morte em particular – de uma figura pública – mas o facto é que me ficou agarrada àquele cruzamento.
Fiz uma pequena investigação para saber qual a data de tal passagem, para ter a certeza de que não se tratava de uma falsa memória.
Na data em que essa pessoa morreu passei de facto por aquele local.
Enquanto assistia a uma reportagem sobre a manifestação para pôr termo aos acidentes mortais que ocorrem no cruzamento da 124 com a 264, em São Bartolomeu de Messines, à memória veio-me uma outra morte que relacionei de imediato com tal cruzamento.
E essa relação, a única relação que há entre essa morte e o cruzamento é de banda sonora.
De estar por ele a passar enquanto a rádio a anunciava. Isto há mais de dez anos.
Não haveria razão para me lembrar desta morte em particular – de uma figura pública – mas o facto é que me ficou agarrada àquele cruzamento.
Fiz uma pequena investigação para saber qual a data de tal passagem, para ter a certeza de que não se tratava de uma falsa memória.
Na data em que essa pessoa morreu passei de facto por aquele local.
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