24/08/2008

E vão 70


imagens da RTP
A fuga vitoriosa de Vidal Fitas

Uma das características de Vidal Fitas, enquanto ciclista, era a de empreender, acompanhado ou sózinho, fugas compridas em cima da bicicleta.
Compôs uma fuga vitoriosa desta vez.
Para quem tem como eu raízes na serra algarvia, a mesma onde senti, talvez pela primeira vez, a magia das cores rolantes, magia essa que me envolve até hoje, o facto de uma equipa de Tavira, ainda que por via de um galego, ganhar finalmente a volta é motivo de satisfação.
O que é feito do resto do ciclismo português? Do algarvio de Olhão e Loulé, do saloio de Torres e Bombarral, do bairradino de Sangalhos e Águeda?
Entrementes na primitiva Ibéria... (V)



Do barulho à volta dos jogos olímpicos, chegaram-me, talvez pela intensidade, mais nítidas duas notícias: a do abraço entre as voleibolistas de areia da Geórgia e da Rússia e a da fotografia achinesada dos basquetebolistas de Espanha.
Esse abraço decerto nada resolveu, em nada contribuiu para que se encontre uma solução (se é que as soluções destas coisas existem para além do tempo que passa) para a difícil contenda caucasiana. É uma mera curiosidade irrelevante mas muito à moda, muito adequada a uma era de instantes propagandeados, rapidamente esquecidos e isentos de sumo, para usar a linguagem também adequada.
A imagem dos espanhóis de olho esticado é igualmente de uma irrelevância e de uma ausência de significado que não ultrapassa a mera piadola. Pode ser uma má piada, mas não passa disso. Passou, no entanto, pela diversa imprensa, como um gesto racista, chinófobo e mais sei lá o quê.
É destes dois extremos do ridículo, do bem e do mal segundo as figurinhas abraçadas ao politicamente correcto que se faz hoje o mundo.
Entrementes...

21/08/2008

Ouro olímpico

Sobre as olímpiadas, já falei aqui e ali atrás.
A minha aposta mal informada e mal formada para estes jogos era, como já disse, na Naide Gomes e na Vanessa Fernandes.
Fico satisfeito com a vitória de Nélson Évora, chegando assim ao ouro olímpico.
Quanto ao que penso da forma como os povos são representados, se é disso que ainda se trata, já o deixei dito lá atrás.
Acho que qualquer dos três atletas citados representa um Portugal que existiu.
Portugal continua muito acima da China em mérito olímpico (medalhas por habitante) nestes jogos. Um pouco abaixo de meio da tabela dos que já conseguiram medalhas.
Memória



Dos tempos do domínio francês, sabe-se que houve muito colaboracionista.
Uns mais notáveis do que outros.
E sabe-se que houve muito mercenário a combater ao lado das tropas portuguesas da resistência.
Sabem-se umas coisas, outras julga-se saber, que isto da História é terreno minado.
No entanto, parece não haver dúvidas de que um punhado de portugueses e uma mão-cheia de ingleses pôs os franceses com fogo no rabo. Uma das vezes em que o fizeram foi no Vimeiro. Faz hoje 200 anos e eu presto aqui homenagem a esses que resistiram.
Que os meus são sempre os melhores.
Comparações

Que as massas acríticas se comovam e fiquem em choque e com medo de voar, percebe-se e aceita-se. É assim o mundo, é assim a vida.
Que os governantes reajam quase da mesma forma percebe-se e aceita-se mal. É que não fogem à mediocridade.
E.N. 250, 2006

20/08/2008

Contagens

As primeiras notícias sobre o acidente de hoje em Madrid – pouco depois das duas da tarde - levavam a acreditar que se tratava de um acidente de menos gravidade, havendo apenas um número reduzido de feridos.
Um alvitre algures de que haveria mortos acabou por ser desmentido também algures, retirando gravidade ao sucedido.
Tudo isto a crer nos jornalistas que assim o noticiaram.
Há um quadro habitual – que suponho seja uma espécie de cartilha que se ensina às criaturas – em que se confunde normalmente a ideia da gravidade de uma catástrofe, por via da não distinção entre o número de mortos oficial ou oficiosamente confirmado e o número de mortos esperado, face aos dados disponíveis.
Daí, que o número de mortos vá sendo adicionado à medida que o tempo passa, numa macabra contabilidade, em tudo aparentemente destinada a fixar o espectador e que se assemelha a um jogo em que o resultado se vai avolumando.
Isto é uma pecha de toda a imprensa imediatista que conheço. Nacional e estrangeira.
Por vezes, dão uma ideia muito errada das coisas. Hoje foi uma dessas vezes.
A mais significativa, porém, foi no dia do maremoto no sueste asiático.
A forma ligeira como se anunciaram meia-dúzia de mortos em pontos tão distantes da Terra associados ao mesmo fenómeno fazia naturalmente suspeitar o pior. De imediato.
Mas nenhum dos que então ouvi se apercebeu da anunciada dimensão da coisa, até muito mais tarde...
A imbecilidade ignorante (episódio Θ+3)


imagem da RTP N

Uma maldade que não se pode fazer é perguntar em que ponto do rio Douro está implantada esta ponte.

Esta ponte situa-se na E.N. 222, ao km 25,... e é sobre o rio Inha, afluente da margem esquerda do rio Douro, como se pode ver aqui, na usurpada ferramenta do SCRIF, ampliando, ou acolá, na Carta Militar à escala 1:25000, depois de confirmar que a imagem da televisão corresponde à fotografia do Google.
A imbecilidade ignorante (episódio Θ+2)

E então a jormalista diz, referindo-se ao avião acidentado em Barajas, que este possuía à retaguarda um estabilizador vertical e um horizontal, formando assim a cauda em T.
Aposto eu que tinha também duas asas e uma cabina.

Claro que há caudas diversas nos aviões ao longo da história da aviação.
Qual será a percentagem de aviões comerciais actuais que têm uma cauda semelhante?
Vá lá que ela não se referiu, individualizando, a seres humanos como tendo dois braços e duas pernas.
Vesúvio, 2001

19/08/2008

Uma gentileza e uma agradável surpresa



Fui surpreendido com a gentileza de um leitor que me enviou umas carteiras de cromos para a colecção.
Fiquei igualmente surpreendido por ter constatado que não estou só nesta minha afeição aos marcos miliários. Desconfiava que deveria haver mais quem se interessasse por tal. No entanto, o ar de estranheza que a maioria dos interlocutores faz quando menciono este meu passatempo levava-me a esmorecer nessa “(des)confiança”.
Pois bem. Aqui neste blogue, começado recentemente, há imagens de marcos quilométricos.
E há histórias a eles ligadas.
E eu agradeço ao seu autor, DuVale, a atenção que teve para comigo.
E a sua contribuição para a weberneta.
As meninas de oiro (II)

Lá perdia eu o meu dinheirinho com a Naide.

18/08/2008

Call center

Diz a notícia que a PT vai criar um call center em Santo Tirso e com isso criar mil e tal postos de trabalho.
Diz o PM – e isso ouvi eu – que é emprego qualificado.
Alguém se equivocou algures ou a ideia de qualificação do PM é a de operador de call center.
Não sabendo a resposta, parece-me que é.

17/08/2008

As meninas de oiro

Apesar da minha distância a estas coisas olímpicas, ainda me chega para ter alguns palpites.
Antes que chegue a hora da verdade em que palpites tais acertam ou saem furados, devo dizer que o meu dinheiro iria sempre para a Vanessa Fernandes e para a Naide Gomes.
Palpita-me que ambas carregarão no regresso uma medalha. Dourada ou não.
A imbecilidade ignorante (episódio Θ+1)

O medronho e mel é, de facto e para certas cabeças, uma novidade.
Atente-se nas palavras do produtor que diz – segundo a notícia - existirem “poucas bebidas deste género”, afirmação que retiraria naturalmente o carácter de novidade à coisa, dando-lhe quando muito o epíteto de raridade. Que nem é.
É que nunca se viu tal na serra algarvia.
É que nunca ninguém bebeu tal aguardente.
A estupidez não será hoje maior do que antes. O que ela está é muito mais visível, gozando do crédito de veículos de propaganda de uma forma inédita.
Vai esta novidade para o lado da bicicleta desdobrável, do carro anfíbio e da máquina de amassar pão, tudo coisas descobertas pela classe jornalistíca nos anos mais recentes.

esta não-notícia passou hoje no Jornal da Noite, da TVI.
Entrementes na primitiva Ibéria... (IV)

Palavras duras



As palavras de Washington têm sido duras. Particularmente as de Miss Rice.
A forma como enfatizou potencial em potencial parceiro mundial foi interessante.
Todavia, em matéria de quem manda mais, ninguém bate a sabedoria da velha mulher da serra.
Memória



Estas coisas dos feitos, dos heróis, da História, é coisa de pouca ou nenhuma aceitação universal.
Se a memória é tão curta...
A base 10, inquestionada, dá-nos hoje um número notável de anos sobre a Batalha da Roliça.
Esta coisa de agruparmos as coisas a 10, seus múltiplos e submúltiplos, é uma espécie de religião:
20 x 10 = 200
Aluado

Olhei ontem à noite para a Lua e achei que não era possível aquela iluminação, a menos que se tratasse de um eclipse.
Como o discernimento não se foi de todo mas o resto já pouco funciona, acto contínuo esqueci-me de tal.
Ao ouvir agora pela primeira vez do eclipse, a coisa veio-me à memória.
Deve ser grave, isto da cabeça.

16/08/2008

Prendinhas

Eu não ligo muito a efemérides. Nem às pessoais.
Mas como isto aqui é outra coisa, até peço prendas.
Todos os contributos para a caderneta dos cromos das estradas, aqui ao lado, serão bem vindos.
Já agora, também peço chapas de matrícula municipais dos velocípedes, enquanto as há.

O peso da carga

Pertenço ao grupo dos ignorantes enciclopédicos.
Por tal pertença, pago o preço de quase nunca saber onde e quando há (houve) interessantes reflexões sobre aqueles temas mais comuns à coisa, à condição humana.
Quantas gentes não terão já discorrido sobre o peso que a mochila da memória não constitui para aqueles que a carregam? E de como esse peso é carga para uns e leve pena para outros.
Pois começa a pesar-me nos ombros esse embrulho.
Estes cinco anos que hoje se completam de registos aqui feitos, são já parte dele.
Uma parte mais visível, uma vez que facilmente posso percorrer estas calendas e encalhar com uma frase, com uma fotografia, e logo desencadear um torvelinho de coisas cadentes, como quem mexe numa despensa mal amanhada e vê pilhas de coisas caírem-lhe em cima.
Não sei se a memória é uma coisa boa.
Suponho que seja mais aprazível para todos aqueles que tiveram uma trajectória ascendente de vida (seja lá isso o que fôr) do que para os que, como eu, percorrem um trilho descendente desde a época em que o mundo entra por todos os poros, por todos e em todos os sentidos.
Pertenço também ao grupo dos que só se sentem capazes para serem taxativos no universo das convenções. Só quando os limites do jogo e as suas regras são facilmente entendíveis é que se permitem ser irredutíveis. E são-no. Sou-o. Não abdico de certezas absolutas em jogos de circunstâncias inteiras e pequenas, seja eu capaz de as adquirir, deduzindo-as ou adquirindo-as por compreensão.
Essa incapacidade de ser assertivo quanto ao que significa, em comparação com o Mundo, a carga que transporto e o que caminho que percorro, metaforicamente quase paradoxal, pois se o caminho é descendente, a carga deveria talvez ser menos onerosa. Talvez. Na descida, também a carga às costas nos empurra para o abismo. Essa incapacidade, dizia, não me deveria deixar escrever tantas linhas para dizer tão pouco. Seria preciso para tanto que o discernimento não me fosse abandonando também.
Não me apercebi então, cinco anos atrás, de que estava a iniciar esta tarefa no primeiro dia do ano. Talvez que qualquer atavismo o tivesse assim ditado, à revelia da consciência.
Passagem de ano

Houve quem me lembrasse de que o ano termina por Santa Maria.
Há anos que abandonei essa celebração.

15/08/2008

Estrelas

Ia eu escrever que me odemirava de este ano ainda não ter ouvido pronunciar a deliciosa “riantrê”, com o adicionado i bem sonoro, quando Jerónimo de Sousa me veio abafar o pretexto. Ora bolas!
Mas ainda ando odemirado por não ouvir falar em estrelas cadentes e em espectáculo único e irrepetível.
Qual será a razão?
Entrementes na primitiva Ibéria... (III)

13/08/2008

Uma casa no deserto






imagens do canal Hollywood

De entre os insondáveis mistérios da mente humana, há uns quantos que me fascinam.
Um deles é a capacidade que os sítios têm de nos suscitar prazer desmesurado só pela sua contemplação, ainda por mais indirecta.
Outro é a nossa ligação a sítios dos quais nos apossamos sentimentalmente, à revelia dos seus donos, e sobre os quais julgamos ter direitos estéticos, direitos esses que nos conferem a capacidade de nos insurgirmos contra as modificações neles operadas pelos seus legítimos proprietários.

Há uma meia-dúzia de anos, tropecei num filme de Pilar Miró, “El pájaro de la felicidad”.
Se me perguntarem, direi que o que me enredou nele foi a casa em Almeria onde tem lugar a parte final da acção.
Se me perguntarem, direi que é o deserto que a envolve, o mar ali à frente, os traços simples, a semelhança com casas de familiares, a quase certeza de já ter deambulado por todos aqueles compartimentos, de ter subido aquelas escadas, descansado à sombra, atrás daquela arcada.
Se me perguntarem, direi que aquela não é (era) a casa dos meus sonhos mas uma casa com a qual poderia ter sonhado acordado.

Tempos depois, andava eu a tentar saber coisas sobre o lugar, sobre a casa.
Num tempo em que a informação na rede era uma ínfima parte do que é hoje e em que os dados que dispunha sobre o filme eram pouco mais do que os do genérico final.

Mais tarde, já uns anos decorridos, uma noite a tentar encontrar no Google Earth a dita casa. Não era agulha em palheiro, mas quase.
Errei. Escolhi uma casa a 714 m de distância. Um erro indesculpável.

Por estes dias, a propósito de algo muito diferente, tropecei nessa memória.
Fui à procura de mais dados. Descobri que a casa fora convertida num hotel. Modificada e ampliada.
O resultado é, para mim, tristemente pobre. Até criminoso, digo-o para os meus botões com o tal direito estético que me arrogo sobre os bens alheios.

Pode ver-se no YouTube um trecho do filme acrescentado no final da transformação do edifício.
E esta é a ligação para a página do Hotel El Paraíso (que raio de nome!)


Ginjal, 2008

11/08/2008

Pensar com os pés

É infelizmente ainda maioritária a corrente que confunde os desejos e as emoções com a observação da realidade.
Talvez nunca deixe de o ser, enquanto houver humanos.
Estava mesmo agora aqui a ouvir o Prof. Fiolhais (nem de propósito) a discorrer sobre um algoritmo que prevê comportamentos da matéria.
Se houvesse nas profissões em –ólogo, como de resto já referi aqui certa vez, mais gente capaz de perceber o que dizem as Leis da Física, talvez não houvesse entre os políticos tanta surpresa de cada vez que o solo social treme.
Enquanto isso, ficamos com os modistas que pensam com os pés e acham sempre que há uma justiça para as coisas e que todas as decisões se devem conformar com ela.
As obras da* Caparica

Tem que ser nesta altura do ano (que as obras devem ser feitas) por causa da ondulação – cito de memória alguém responsável pela recolocação de areias na* Caparica.

Mas em meados de Agosto??? Só agora é que a ondulação o permite???
E quando acabarem os trabalhos, qual será a altura esperada da ondulação?

É esta gente que toma decisões em Portugal.


* deverei escrever "de Caparica", "em Caparica"?

10/08/2008

O cheiro a balneário e os recordes nacionais

Acho que estas coisas se adquirem no cedo. Ou então já estão embutidas algures.
Não tenho memória de quando comecei a detestar o cheiro a balneário.
Sempre quis distância desses locais húmidos e colectivos, onde me parecia que a razão abandonava os humanos.

Talvez por isso essa distância se mantivesse em relação a todos os assuntos que com eles estivessem vagamente relacionados.
Esta coisa de jogos olímpicos e afins sempre me passou ao lado, embora tenha vaga ideia de algumas coisas, tal como o salto de Bob Beamon e outras menos significantes.

No meio disso, há algo na minha memória que me diz que havia um conflito qualquer na minha mente quando ouvia falar em recordes nacionais batidos no estrangeiro.
Pois se eram nacionais haveriam de ter sido batidos em território nacional. Talvez uma boa designação fosse “recordes de atletas nacionais”, acho que era isso que me ocorria.
Não me passava nessa época pela cabeça que os recordes nacionais pudessem ser batidos por estrangeiros. E não é que podem?
Entrementes na primitiva Ibéria... (II)



O meu palpite é que, para já, a coisa vai ficar mesmo pelas escaramuças. Em maior ou menor escala.
Veremos o que se segue.

09/08/2008

Entrementes na primitiva Ibéria... (I)



Suponhamos que, em vez da Geórgia, era um dos membros da União Europeia.
Sob que formas seria visível a sua tibieza?
Lisboa, 2007

08/08/2008

A trégua olímpica

Entrementes na primitiva Ibéria...
A maneira de pensar

Ouço na televisão alguém na China que diz que é difícil perceber a maneira de pensar dos chineses.
Lembra-me esta afirmação aqueloutra comum entre os modistas que é “já não se pensa assim”.
Mas afinal o acto de pensar estará sujeito a tempos e modos?

Ou esta gente não distingue entre usos, costumes, crenças, mentalidade, semiótica e pensamento, acto de pensar?

07/08/2008

Um par de cornos

Sim. Mas o melhor foi que, no meio daquilo tudo, houve um tipo que descobriu que a mulher lhe metia os cornos.
Andava doido pela rua a dizer que fazia e acontecia.
Então quer dizer que não há mesmo festival?
Não, pá. Os tipos da Sagres é que descobriram a coisa. Disseram que não deixavam a cerveja sem receberem. Os tipos que estavam a montar os andaimes ou o palco ou o que aquilo era, pararam. Os artistas começaram a chegar e correu logo a coisa que não havia dinheiro. Chegavam e abalavam quase ao mesmo tempo.
E pessoal? Tava muita gente?
Tava, sim. Ficaram todos a saber que a mulher do outro lhe metia os cornos.

Foi mais ou menos assim, ciscando a memória, que o meu velho amigo M. me descreveu as peripécias em Panóias, depois do cancelamento do divulgadíssimo festival.
Ele tinha acabado de chegar de lá na sua bicicleta a motor, e punha-me assim ao corrente dos sucessos, em frente a umas quantas redondas no café da vila.
Estávamos no início dos anos 80 e ainda ia demorar década e meia até o Alentejo ter o seu primeiro grande festival rock.

Nesse dia de 97, chegava eu aos algarves para comer um petisco com os amigos por lá instalados quando um deles, já de uma geração mais temporã, me disse:
Atão e aquilo lá na Zambujeira? Parece que a coisa está mais ou menos em estado de sítio. Diz que não há comida nem bebida para tanta gente. E que já houve porradaria valente.
Veio-me à ideia Panóias. E um certo par de cornos atribuído a não sei quem por não sei quem, por via de não sei quem. Calculei que isso fosse agora pouco provável na Zambujeira. E previ que dessa vez talvez houvesse mesmo festival.

Se é verdade que não sou, nem nunca fui, um aficionado da Zambujeira, é também verdade que lá recolhi uma bateria considerável de memórias nos últimos quase 50 anos. E que hoje essas memórias começam a conferir ao sítio um aroma mais agradável. Talvez a pinhal e a noites do Clube da Praia.

O que acabei de escrever é uma espécie de manta de retalhos cuja linha de cosedura apenas se lê na minha memória.
Sei que o Sudoeste começa hoje.


cavaleiros na costa da Zambujeira, em 1932 - espólio Campos Vilhena - foto de JAM

06/08/2008

As Olímpíadas em Beijingue

(para não dizer Pequim e para fazer uso declarado de uma chinesice)
Há qualquer coisa que me faz ter a ideia de que há muita gente lá para a China que já se arrependeu de ter pugnado para obter a organização dos Jogos.
Isto é uma banalidade das mais completas, uma vez que para tudo e em tudo há gente que se arrepende.


tomei agora mesmo conhecimento de que o clube aqui do bairro envia cinco atletas a Beijingue. É obra!
Mudanças

Uma das coisas em que me parece que o mundo mudou desde que me conheço é a percentagem de pessoas incapazes de prestar atenção.
Talvez eu tenha nascido num ambiente em que as pessoas prestavam atenção ao que as outras diziam e talvez isso não fosse a norma.
Talvez eu tenha mudado de meio ou talvez as pessoas em geral prestem hoje menos atenção ao que os outros dizem e escrevem.
Talvez eu me engane nesta apreciação, talvez a idade tenha operado sobre os que me rodeiam e sobre mim, mudanças que justifiquem esta ideia.
Neste meio em que agora me encontro, neste tempo, observo que quase tudo é apanhado na diagonal. E como a capacidade para captar o sumo, quando se lê, se ouve na diagonal é algo ao alcance de muito poucos, ocorre uma propagação do erro absolutamente feroz, comprovadíssima a cada passo em qualquer conversa, em qualquer jornal, blogue, canal de televisão, etc.
Observo amiúde o olhar perdido do interlocutor, revelador da inutilidade de prosseguir com qualquer raciocínio, até com qualquer comunicação por mais simples que seja.
E venho de um tempo ou de um meio em que me habituei a atentar e a ter interlocutores atentos.
A ponte sobre o Tejo

Faz hoje anos. 42.
Talvez eu pudesse ter memória do Tejo sem as obras, sem os caixões flutuantes, as barcaças, a emergência das torres, a passagem dos cabos, a elevação dos troços de viga, sem nada disso.
Não a tenho.
Tenho a Ponte sempre presente. Do gabinete azul e branco com maquetes dentro, à primeira passagem, uma remessa de dias antes da inauguração.

fotografias de Celestino Teixeira in "A ponte Salazar", GPST, Lx, Julho de 1966
(clicando, ampliam)

05/08/2008

OVNI

Hora: 20:43 de 5 de Agosto de 2008 (cerca de uma hora antes desta nota)
Local: onde eu me encontrava.
Tipo: luz intensa do tipo sol reflectido em chapa ou vidro.
Orientação: 166
Ângulo com a horizontal: 7º

Não me pareceu ser um avião em que o sol se reflectisse pela forma como a luz se extinguiu, não sendo possível divisar nada no céu no momento imediato.

03/08/2008

Weekend

Em França, há 266 km de filas desde sexta-feira.
É o tipo de frase que qualifica quem a produz.
Há pouco, na SICN.
O livro antigo

Dizia o Ministro dos Negócios Estrangeiros na televisão que tinha tido muita dificuldade ao ler um livro de há dois ou três séculos, dada a ortografia.
Não me admira que a tenha tido. O contrário é que seria de admirar.

02/08/2008

Com pena dos que sabem exactamente o que vai acontecer

E que sabem que vai haver sempre mais e mais fortes catrinas.
Hoje estou com pena deles.
Pois pelo terceiro ano consecutivo, não há furacões que prestem.
Aquilo do Katrina ter rebentado com os diques foi uma maldade para esta malta. Acharam que a água era toda do evento.

01/08/2008

Um dia de rádio

Houve um tempo em que eu era rádio-ouvinte.
Houve um tempo de entre esse tempo em que eu era ouvinte da Emissora Nacional, RDP1, Antena 1, o que lhe queiram chamar.
Houve um tempo de entre esse tempo em que eu era ouvinte do “Portugal na Estrada”, às sextas, ao fim da tarde, com António Luís Rafael. Muitas vezes nas engarrafadas ruas de Benfica, acessos ao IC19, então desligado da 2ª Circular, passando por debaixo da linha, antes de ter lá caído o viaduto ferroviário em construção, numa das mais estúpidas, caladas e já esquecidas pequenas (só foi pequena porque por milagre não morreu ninguém) desgraças do tempo dos engenheiros de aviário.
Adiante.
Nesse tempo, também seguia as emissões especiais de trânsito no Verão. Naqueles dias em que me apetecia saber do inferno das filas, ainda que não fosse o caso de me meter à estrada.
Pensava eu que já não havia tais emissões.
Pois aqui estou a ouvir a reportagem feita na área de serviço de Aljustrel. O curioso disto é que, depois de a auto-estrada do Sul ter vencido os diversos bojadores, depois de eu ter cortado grande parte das raízes que ainda me prendem ao meridião, este ponto – a área de serviço de Aljustrel – é, talvez, o que substitui muitos outros pontos de paragem em que, ao longo dos anos, comi sandes, bebi cervejas e cafés, comprei cigarros e jornais, meti gasolina ou gasóleo.
Me detive.
Detenho-me agora nas palavras da rádio. Da querida rádio.



Ouvi agora que a área de serviço faz hoje seis anos.

31/07/2008

A aposta de SG

Dizia ele, naqueles dias de Janeiro de 2006, que o homem não chegava ao fim do mandato.
Deste ou do próximo. Mas que haveria de interromper um deles por razões pessoais.
Apostou e tudo.

30/07/2008

Sr. Primeiro-Ministro

Farto de o ouvir falar em investimentos na escola, computadores e banda larga e ser confrontado com a incapacidade mais profunda da generalidade do corpo discente de produzir um só raciocínio – um que seja, embora tenha notícia dos mais variados atropelos à disciplina e à boa ordem, coisas que me são afinal caras,
Farto de o ouvir falar em qualificações e novas oportunidades, regressos à dita escola e etc. e ter a ideia, que admito talvez errada, de que estas novas oportunidades apenas consistem em meia-dúzia de carimbos, como quem andou uma vida inteira a conduzir sem carta e, pronto, lá lhe metem o competente selo branco (acho que agora já não é assim, é simplex) mediante três voltas mais ou menos vistosas àquele famoso circuito dos arredores de Setúbal,
Farto disto tudo que acabei de enunciar, ocorreu-me ainda assim que talvez me ficasse bem aqui na secretária mais um PC ligado com uma banda larga ao mundo do copy & paste, bem como, por trás de mim e dignamente emoldurados, meia-dúzia de diplomas de bacharelato (ainda há agentes técnicos e isso?), licenciatura, mestrado, doutoramento e até pós-doc.
Em troca disso tudo eu comprometer-me-ia a escrever, com retroactividade até Agosto de 2003, um blogue onde mostrasse a minha incapacidade em diversos campos do conhecimento e o meu espírito crítico em relação a Vª.Exª. bem como a todos os seus antecessores e sucessores no cargo, sem distinção de raça, credo ou clube de futebol, naquela linha de não consigo saber bem quem, mas acho que era um anarquista qualquer a quem bastava que houvesse um governo, para ser contra ele.
Peço assim a vossa melhor atenção para este arrazoado que, como é comum neste tempo, nada deve à lógica.
Caso o deferimento (pedi eu um?) não venha imeditamente após a cilicisom, reservo-me o direito de fazer queixinhas à minha família. Ai eles!
Buscas no rio Teixeira

Não desaparecem dezasseis pessoas* assim de uma vez.
Cheira-me a que é apenas falta de rede e alguma (muita) desorientação.
Oxalá não esteja enganado.

*link para informação efémera, válido na hora da publicação
E.N. 119, 2005

29/07/2008

Exemplos

Exemplos da inépcia mental que tudo assola nos dias que correm são facílimos de encontrar nas coisas que mereceriam um pouco mais de atenção, de cuidado, de rigor.
O sítio da ANPC referente aos incêndios florestais apresenta de há pelo menos um ano, um quadro dos incêndios activos em que é possível aceder à localização dos mesmos, num mapa do Google.
Volta e meia, as coordenadas de localização estão a zeros (neste momento, estão-no), mostrando ou que há displicência ou que quem está a tratar do caso não é capaz de apontar num mapa o local do fogo. Coisa de resto muito frequente esta de não se conseguir apontar num mapa o que quer que seja.
Sendo esta última hipótese a verdadeira, estranha-se que para uma actividade tal se escolham pessoas com tal incapacidade.
Portugal, 2008

26/07/2008

Le Tour en rouge



imagens dos canais da RTP e Eurosport
As vinte regras do romance policial

(Clicando, consegue ler-se.)











S. S. Van Dine (trad. António Lopes Ribeiro), anexo a "Dois Crimes no Inverno"; Col. Vampiro, 57; Livros do Brasil, Lisboa.

24/07/2008

Parolas

Há os do discurso vazio e cheio de hipérboles. Esses não querem nornalmente afirmar coisa alguma. Enchem chouriços com banalidades e subjectivismos de fino recorte, recorrendo amiúde a citações as mais diversas, com o intuito de criar um clima favorável ao produto que vendem.
E há os das certezas infundadas. Os crentes.
Estes raciocinam com base em axiomas inexistentes, através de silogismos aparentes e chegam, inevitavelmente, a resultados que são mediata ou imediatamente contrariados. Recomeçam, pegando agora noutro fio, noutra meada, como se nada fosse.
Nos primeiros, incluí em tempo grandes maiorias de certas classes profissionais.
Nos segundos, incluo agora, com grande destaque a parte de leão dos comentadores desportivos. Realçando os do ciclismo. Por causa destes dias a ver, a ouvir a Volta à França.


imagem do Eurosport

23/07/2008

Os bichos

Numa sociedade humana, os animais não-humanos só têm direitos. Nenhuns deveres.
É preciso bater bem nesta tecla.
E a responsabilidade de tudo o que acontece é dos animais racionais.


adaptação de fotografia do autor deste blogue, captada no Porto Covo, no século passado e já aqui publicada duas vezes

22/07/2008

Chegando a casa - parte II

Trocadilho infame


Imagem da Sky News

Dizer que um driver de Ibn Laden está à experiência, mesmo que seja já obsoleto, é como se diz do outro lado do mar, um trocadilho infame. É, pois.

21/07/2008

Quanto é que nos custa

Em impostos e taxas, insistirmos em entregar cargos de responsabilidade a perfeitos imbecis?
Quitação

Ah, cosmpolita praia dos veraneantes esbranquiçados,
Que mesmo que a maré vaze e permita,
Continuo a ver frangos assados,
Fartos toucinhos na marmita.


SG, em postal ilustrado datado de 21 Jul. 82, há portanto 26 anos atrás.

Trocou porventura o arroz de frango pelo frango assado e as meras talhadas pelos fartos toucinhos.
Liberdades...
O comunicado afinal


imagem (aumentável) em http://www.law.umkc.edu/faculty/projects/ftrials/Hauptmann/fbiposter.gif

Nesta versão século XXI do caso Lindbergh, revista e adaptada às circunstâncias, calhou-nos a fava.
Pelo que pude ler em dois – diria três – livros, a polícia portuguesa fez o que dela se esperava. Não se esperava nem mais nem melhor.
Os dois livros que li sobre o caso – diria três – dão também um retrato que apanha para além dele. E que corresponde também ao esperado.
Não se esperava mais nem melhor.
Temo que o comunicado que afinal vai hoje ser lido ou emitido venha também a corresponder ao esperado.
Não se espera muito nem bom.

18/07/2008

A diminuição que aí vem

Suspeito que se vai atingir a massa crítica antes de conseguirmos um local para implantarmos as primeiras colónias.
Isso quer dizer que a população mundial parará de se multiplicar e sofrerá até, no meu palpite, um decréscimo a partir de um certo ponto no tempo.
E mais me parece que esse decréscimo será à conta de uma guerra biológica racicamente orientada. Guerra essa que pode já ter começado.
Isto de dar palpites sobre coisas que nenhum coevo poderá confirmar ou negar, é da mais pura infantilidade e inutilidade. E mesmo que esse tal o pudesse fazer, seria preciso que eu cá estivesse para ser confrontado com a asneira e que a ele lhe lembrasse a minha audácia.
Pertenço naturalmente a um grupo que assim suspeita e palpita. Não hei-de ser o único a inclinar-me para esta hipótese.

Uma coisa que ainda me surpreende na espécie humana é não terem os auto-designados fazedores de opinião já começado a propagandear a ideia de que a população mundial tem que diminuir ou...?

Eu não disse que tem que.

16/07/2008

O maluquinho do Excel

Há um carrada de anos que quase faço tudo com o Excel.
Nunca me tinha dado para o pôr a calcular o andamento das etapas do Tour e dar-me a coisa em gráfico.
Alguma vez tinha que ser.


mapa da página do Tour
10 minutos de atraso

Seja lá qual fôr a razão, relacionada com os mistérios da transmissão por cabo ou não, o certo é que o sinal horário da Rádio Portalegre está, nesta altura, com 10 minutos de atraso.
É verificar ende querendo.

já está calibrada a coisa (às 6:00)
Memória com estrada galgada

Faz hoje vinte anos que bati o meu recorde daqui (da foz do Tejo) até Tavira.
Mais de oito horas. Por um caminho que, mais troço menos troço, foi mais tarde designado por “rota amarela”, o que muito me desagradou, já que era aconselhado como alternativa ao congestionamento.
De Palmela para lá, sempre fora das canadas da transumância, como era meu hábito nesse tempo em que coincidia nas calendas com os grandes rebanhos.
Acho que só fui apanhado uma vez numa fila de trânsito daquelas a sério, desde a época em que as estradas começaram a ficar sazonalmente saturadas.
Já não me recordo qual foi o erro de cálculo que cometi então.


trecho do mapa do ACP - 89ª edição

15/07/2008

Memória com comboios em fundo



Já não sei a que propósito parei o carro naquele sítio. Talvez porque te tinha acabado de apanhar na estação e queria discutir pontos antes de te confrontar ou não com a minha família, com a velha casa de cinco gerações.
O sítio pareceu-me aprazível para um colóquio estival de fim de tarde.
Dá-me ideia de que, muitos anos então já passados, era a primeira vez que olhava para aquele trecho com outros olhos. Um sítio com vista para a ponte, o vale desenhado no horizonte próximo e o ondular dos campos para lá, para sudoeste, até à finisterra cúnea.
Nessa altura ainda não me dava para arquitectar uma casa ali no meio. Uma casa onde fosse despertado pelo som dos comboios nocturnos. Antigamente o comboio-correio hoje qualquer coisa que ande a desoras, se a houver.
Talvez nessa época nem sequer tivesse a noção de que aquele pedaço me viesse um dia parar às mãos.
Acende-se e apaga-se na gaveta dos impulsos esse daí abrir caboucos.
Nesta foto estavas ao meu lado, uns bons anos depois.

14/07/2008

Ainda os alojamentos e realojamentos

Não consigo já ouvir os crentes. Os que acreditam. Os que dizem as pessoas têm que.
Há um mito urbano recente – tomo-o como tal, não tenho razão nenhuma para pensar que seja verídico – que ainda assim reflecte bem os tempos que correm – é aquela sequência de últimas palavras que é atribuída a Theo van Gogh.
Uma destas noites

Na rua, aqui ao virar da esquina, apenas eu e um tipo que volteou do canteiro para trás, acção – reacção com o ramalho de flores arrancadas na mão.
Volteou, titubeou, balançou, hesitou, adejou, cambaleou e voltou a voltear. Quase sem norte.
Não havia forma de eu não construir uma personagem na outra ponta da história.
Anseios

Quem eu gostava de ouvir agora eram aqueles tipos que enchem a boca com as minorias étnicas.
Mas, pelo que ouço, nem piam.
Posso estar surdo, é claro.

12/07/2008

Um dia assim

Há dias que são preenchidos, hora a hora, minuto a minuto, numa intensidade inebriante.
O último de que me lembro bem – muito bem – foi o que decorreu faz hoje dez anos.



Não era terça-feira, o Aleixo tinha a porta aberta.
E também tinha a televisão ligada ao jantar – estava a dar a final do campeonato do Mundo.
Tenho uma vaga ideia de ver o Dunga vestido de amarelo, já aqui o disse.

11/07/2008

Os guetos e o planeamento urbano

Não há grau para os disparates que se ouvem, em tom de certeza, a propósito das políticas de alojamento e realojamento.
A maior parte das vezes, com os tradicionais argumentos que se desfazem a si próprios por se contradizerem na primeira derivada.
Das mesmas políticas para as quais também não há grau que as qualifique.
É sempre aquela ideia de que o que preside não é um raciocínio baseado na observação. É sempre a crença politicamente mais correcta em cada momento.
É todo um mundo de crentes absortos em meia-dúzia de chavões que abraçaram com denodo.
Deu na televisão

Vivemos num país e num tempo em que a televisão dá notícia de ciganos aos tiros como coisa extraordinária!
Portugal, 2007

10/07/2008

Mediocridade

Numa sociedade que valoriza e incentiva a mediocridade, que entrega responsabilidades a pessoas incapazes de perceber o que quer que seja, é de esperar que proliferem os erros profissionais.
Quando eles são catastróficos, a coisa dá nas vistas.
Mas enquanto passam na malha grossa, está tudo bem.
Vai a sociedade ruindo aos poucos.
Um destes dias com barulho, como diz Medina Carreira.