17/03/2009

Fui, pois

À Trafaria, ver da dinamite.





Fez no domingo uma semana.
O pai de um

Só assisti à segunda parte do prélio.
O simples que fez, durante esse tempo e ali atrás da baliza, o inverso da trajectória solar gastou desse mesmo tempo a primeira metade a dar ordens aos jogadores. A segunda, ocupou-a ele a percorrer, por mor do árbitro, o insultuário próprio, cujo rol era de resto escasso, o que o fez repetir-se.
No campo, os jogadores não tinham mais do que onze anos.
E eu não sabia muito bem o que fazia ali.

Agora, vendo a coisa à distância de uma semana, acho que poderia ter sido muito pior. Devo ter tido sorte com o calendário.

16/03/2009

O monstro

O que tem sido um manancial de aprendizagem a respeito da espécie humana é o conjunto das reacções à figura de Josef Fritzl.
Com os inevitáveis especialistas em comentários televisivos à cabeça.

14/03/2009

Berros

Há pouca coisa que me irrite mais num blogue do que ele começar aos berros.
Talvez só não me deixar sair de imediato sem recorrer a grandes remédios.

13/03/2009

Teores

Interrogo-me sobre o que será mais prejudicial ao País: se o teor (excessivo) de sal no pão se o quociente (defeituoso) de inteligência dos titulares de órgãos de soberania.

Contos do vigário

Nos antigos contos do vigário, o vigarizado, quase sempre atraído ao logro por uma cenoura apontada à sua própria ganância, sentia-se pouco confortável a denunciar a coisa.
Nos actuais, os vigarizados ou são mais estúpidos, dados a acreditar piamente que há gente a oferecer dinheiro nas esquinas, ou menos propensos a desconfortos.
Estação C.F. da Cruz Quebrada, 2006

12/03/2009

Lisboa, 2009

Explicações para a História

Há uma colecção de crentes que encontra explicações para a História.
Pelo que diz a imprensa, hoje parte deles anda, com a ajuda da polícia, à procura de explicações para o massacre das vizinhanças do Neckar.

09/03/2009

Portugal, 2009



Dá-me ideia de que esta imagem é exemplar de uma parábola qualquer.
Todavia, o estado líquido não me permite atingir uma parábola que esteja nessas condições.

07/03/2009

O espaço lá fora

Há quase dois anos, escrevi aqui e retomando uma preocupação antiga, a propósito do então cantado e já naturalmente esquecido Gliese 581c:

Perturba que se repitam os habituais lugares comuns sobre a existência de vida extraterrestre, como se fosse obrigatório que ela exista nos mesmos moldes atómicos, moleculares, celulares da nossa. Não é antropocentrismo. É estupidez pura e dura.

Outra coisa é a visão antropocêntrica da coisa. Biocêntrica, diga-se. Esta saga não tem nada a ver com vida extraterrestre. Tem a ver com a nossa. Tem a ver com a nossa necessidade de passar à frente, de ocupar novos territórios, de forma a garantir a continuidade. A nossa e a de outras espécies. As que pudermos levar na Arca. Sabe-se lá por que instinto, nosso, da própria vida em sentido lato, o fazemos.


Por uma daquelas circunstâncias em que o acaso é fértil, desde que delas nos apercebamos, há dois ou três dias recordei o tema em conversa com alguém que se interessa pelos mistérios insondáveis do Universo.
Ontem, apercebi-me de que a NASA consagrou a Kepler uma missão destinada a descobrir planetas terrestres.
E, mais uma vez, a notícia é dada como a tentativa de descoberta de vida extraterrestre.
Nem Kepler lhes vale na sua miopia.

04/03/2009

Eleições



Não sei qual foi a razão invocada para alterar a data das eleições autárquicas em 2005.
Não me recordo de a ter ouvido e não a descobri agora.
O facto é que estas eleições ocorreram até então sempre – em sete ocasiões - no quinquagésimo domingo do ano, à excepção de 1989 em que ocorreram no quinquagésimo primeiro.
Já as legislativas, descontando as datas simbólicas iniciais em 1975 (Assembleia Constituinte) e 1976 e todas as intercalares e antecipadas, ocorreram quatro vezes no quadragésimo domingo e uma no quadragésimo primeiro – estas as últimas em final de legislatura, no ano de 1999.
Ora as autárquicas em 2005 foram marcadas para o quadragésimo primeiro domingo do ano.
Foi portanto em 2005 que se resolveu aparentemente escolher como domingo eleitoral, para todas as causas, o quadragésimo primeiro. Talvez com opção pelo quadragésimo, consagrado que está por quatro eleições legislativas.
Se este ano se optar por separar as duas datas – coisa que aparentemente sucederá porque a democracia é o regime em que o povo é estúpido às segundas, quartas e sextas e inteligente às terças, quintas e sábados, sendo os domingos uma questão de caracoroísmo, e como tal se teme que este ano a um domingo ele possa ser estúpido e inteligente ao mesmo tempo – fica apenas demonstrado que, qualquer que tivesse sido a razão pela qual se anteciparam as autárquicas de 2005, foi essa uma ideia absurda.
O povo continuará a ser sempre, para quem isso está em questão, ou esperto ou imbecil aos domingos. Às vezes concomitantemente.

03/03/2009

Os canibais de luxo

Não sei se se tratava ou não do jantar anual do Partido numa versão alargada a umas miúdas com idade para serem nossas filhas.
Os sete contados à porta eram portanto apenas os membros permanentes.
Subimos a escada mal iluminada e entrámos no famosíssimo salão.
Tratava-se mesmo talvez do mais afamado dos restaurantes portugueses. Senão do mais caro.
Olhando em redor, as frugalíssimas e austeras mesas apenas mostravam gente comendo o tradicional frango. Não havia toalhas ou guardanapos. Apenas os pratos sobre a madeira. Sequer copos se viam.
Este frango à casa era uma espécie de frango de borracha, não depenado, dotado de bico e de crista e que se dizia ser uma especialidade indescritível.
Pedimos o supra-sumo da casa.
Não demorando, veio para a mesa. Numa urna de madeira de cerejeira e tampo de pau preto.
Quando abrimos o esquife, ouviu-se uma manifestação ruidosa – ohhhhhhhhhh. Adivinhava-se um cabelo branco, de homem.
Foi então que ele se levantou do decúbito e, tornando o torso, nos encarou. Era um homem de raça indiana, com óculos de massa, sobrancelhas espessas, usando um casaco de malha cinzento claro.
Não percebi a razão pela qual o correrio se desencadeou então.
Nem sequer a razão de alguém comentar que não tínhamos escolhido um restaurante indiano mas sim chinês, o que era obviamente falso.
Depois de sairmos ordeiramente escoltados por um grupo de ajudantes de cozinha, escadas abaixo, demos connosco a trocar presentes em forma de metade-de-meio-litro de vinho verde.
Num largo que semelhava ao de São Pedro, em Sintra.


01/03/2009

Azul

“A razão do azul é essa: uma maior participação, uma maior envolvência” – disse alguém aparentemente encarregado de tratar da encenação do congresso do PS.
A razão hoje em dia, para as massas, é qualquer coisa. Desde que soe bem aos ouvidos dos próprios marqueteiros. Eles próprios parte exemplaríssima dos ignaros.

25/02/2009

Sporting

É claro que sou do Sporting.
Há-de haver qualquer coisa que está mal por ali.
Talvez não fosse má ideia descobrir o quê.

24/02/2009

O carnaval de Torres

“Em casa de ferreiro, espeto de pau!” – dizia eu ao meu velho J.J. ao virar de mais uma esquina da terra que deve a fama aos fornos e aos bichos que lá se assam.
Espeto, a bem dizer, não. Que se assam os bichos sem recurso a tal, ao que consta.
O caso é que andávamos à procura de quem nos servisse uma sandes e nada.
Até que alguém nos indicou um sítio, talvez o único, disseram-nos.
A velhota que estava à porta ainda nos quis despachar para a concorrência. Desistiu quando percebeu que eram sandes. E sandes estava visto que...
Guardiã que era do estabelecimento comercial, não nos franqueou as portas senão quando anteviu o proprietário na curva.
Teve, nesse entretempo, oportunidade para, a diversos propósitos, dizer que “é a vida!”. Até a propósito do facto, por ela inquirido, de Fevereiro ter este ano vinte e oito dias a teve.
O homem, novo, chegou de Mercedes coupé com uma vistosa acompanhante.
Atendeu os nossos pedidos, explicou mal o facto de uma garrafa de 0,75 custar mais do que duas de 0,375 – as que exactamente trouxe para a nossa mesa – e ouviu o primeiro protesto vindo do Mercedes: “Mas onde é que está a tua mãe?” Reagiu com uma encolhidela de ombros e lá nos fez as sandes.
Enquanto procurava um frasco de molho para a sandes do J.J., ouviu uma buzinadela e um grito ainda com ar calmo. Nessa altura já o meu velho amigo se fazia entendido na matéria – Mulheres! São mulheres, a gente sabe.
O rapaz então confessou-nos que lhe tinha prometido uma escapadela ao Carnaval de Torres.
Ah, o Carnaval de Torres, disse eu que nunca lá pus os pés. Já o J.J. se mostrou ciente da coisa, dizendo que não fazia tenção de alguma vez lá voltar.
Entrementes, um rugido de motor e um chiar de pneus. O Mercedes ali à porta gritava a plenos pulmões: “Mas tu estás a gozar comigo ou quê?”
O homem saiu desarvorado, pegou no Mercedes, estacionou-o à porta do restaurante em frente e viu-a sair de queixo levantado e logo entrar pela porta do comércio antagonista.
Aí disse eu - casou com a concorrência este.
E disse-o já com os olhos fitos na vistosa balzaquiana que pilotava modelo da mesma marca ainda que mais familiar.
Deve ser a mãe dele – disse o J.J. – chegou afinal.
Um quarto de hora depois conseguiu convencê-la a tomar lugar no Mercedes e a seguir os caminhos de Torres. E nós, dispensada que fora a senhora que sabia o que era a vida quase no início deste episódio, comentávamos que ainda bem que tínhamos pedido logo tudo de uma vez, já que estávamos fregueses sem taberneiro a contemplar pela montra as formas abundantes da presuntiva sogra da carnavalesca moça, pois esta, saindo do seu veículo optara por uma conversa de circunstância com uma oportuna vizinha, a uma boa vintena de metros da porta do estabelecimento.
Quando achámos bem, o J.J. foi à porta com ar de quem quer pagar a conta.
Posto isto, baloiçaram-se os volumes a caminho da porta e do balcão, com um sorriso amplo que dizia “mas eu não sabia que os senhores estavam aqui!”
A isto retorqui eu que éramos – deveríamos ser - eu e o meu velho amigo, os arquétipos dos fregueses confiáveis, uma vez que estávamos ali de guardiões ia para uma boa meia hora.
A senhora exibiu ainda mais a volumetria, sorriu, e disse que ainda havia gente em quem se podia confiar.
Depois, o J.J. gabou-lhe o negócio e ela deu nota de uma noite em que fizera... milhares de sandes!
Chegada a coisa a tal ponto e rentabilizado o peixe, pedimos quitação exibindo o numerário.
Foi já na rua que o J.J. me confidenciou que não se importava de ter ido ao Carnaval de Torres. De Mercedes, acrescentou.

19/02/2009

O carnaval na China

Nestes últimos dias a afluência a este blogue disparou mercê dos inúmeros buscantes do Carnaval na China*.
Não sei se convencidos da inevitabilidade de haver lá agora um Carnaval, já que já há tanto do que faz a civilização do ocidente, se convencidos de que o Carnaval, como o Sol, sempre nasceu para todos.
Um mistério. Embora me passe pela cabeça que, para a maioria destes buscantes, o mundo é todo igual ao que vêem da janela.
Do de Torres ninguém faz caso. Que esse, desde hoje, espelha outra coisa.

*Há sempre a hipótese de ser este.

adenda (às 23:00 de 20 Fev.): em Torres Vedras, há um esforço carnavalesco a mais este ano. Um dia que fosse que aquilo a que ainda chamam “a justiça” não nos desse razões para considerar que o nível intelectual médio da coisa é deplorável.

14/02/2009

13/02/2009

Ciências

É possível que a minha fronteira da maioridade tenha estado no dia em que percebi que os percursos de ida e de vinda eram diversos.
Foi serôdia essa passagem da linha.
Uma hora e cinquenta e sete minutos

É o atraso da morte.


(link perecível clicando na imagem)


É tão estranha a anomalia neste registo que ponho a hipótese de haver um erro na identificação do voo.
Nos sapatos do fotógrafo enquanto jovem (cena 4)


Lisboa, rua de Entrecampos

12/02/2009

Na efeméride darwinista

Sendo eu ateu e agnóstico, continuo sem entender onde é que o darwinismo colide com a crença de um deus criador.
É claro que não considero as parábolas da criação. Mas a criação.
Imagens virtuais

A certa altura achou-se que [as imagens virtuais] não correspondiam bem à realidade!* – esta frase é todo um programa.


* Citando de memória um jornalista da RTP que falava a propósito da bola que foi tirada da baliza do Sporting no passado fim-de-semana e de ter sido posto fim à utilização de umas imagens de CAD na apreciação de lances de futebol.
Sobre tal, sobre a bola dentro ou fora da baliza, escrevi aqui que haveria muito barulho à volta. Não o ouvi.
Ou me enganei ou andei completamente fora do diz-que-disse.

08/02/2009

Corrigido

Este ano, o mapa do Expresso e da Optimus – elaborado pela Forways – tem finalmente corrigido o erro grosseiro de implantação da A2 na zona de Messejana, que me suscitou crítica e correcção no ano passado.
Foram demasiados anos a asneirar mas conta, é claro, a emenda.
Mesmo que tenha sido Messejana também a mudar de sítio. Está agora mais longe de Aljustrel e mais perto da Aldeia dos Elvas.

Bola

Vai seguir-se mais um interminável cortejo e cotejo de imbecis que têm a certeza de que a bola entrou ou não entrou.
É o habitual. Com as câmaras cujas imagens foram passadas, não se consegue afirmar nem uma coisa nem outra.
Fora isso, pareceu-me que o Braga mereceu ganhar o jogo.
Ou o Sporting mereceu perder. Sei lá eu.
Viva o Sporting!

06/02/2009

Cegueira

Ouvir a lenga-lenga sindicalista sobre os patrões que “aproveitam para despedir” apenas me diz da brutal incapacidade de entender o que se está a passar por parte de quem tal coisa afirma.

04/02/2009

Um Homem

Esta é a segunda vez que vejo aqui uma relação óbvia porém intangível entre algo que me ocorre e a visita da ceifeira.
A primeira foi há cinco anos. De me lembrar de publicar algo que tinha ocorrido uns anos antes. A pessoa na qual se centrava a peripécia desaparecia por volta dessa hora. E era a primeira vez que aqui a mencionava.
Na passada sexta-feira, dei arranque ao post sobre o desastre do Rápido do Algarve que trazia atravessado há uns séculos.
Disse então que tinha aproveitado as conversas com os mais antigos para recolher informações. Tinha presente a última.
Podemos querer ver sempre relações entre as estrelas. Alguns até descobriram constelações.
O certo é que essas relações só nós as vemos. Mais ninguém.

Herdei este homem, esta amizade, dos meus avós. Há pouco mais de quinze anos.
Já ele estava nos meados dos setenta e ainda cuidava da terra com tenacidade e consequência.
Vigoroso, de sorriso bom, de atenção constante. De palavras sadias.
Um amigo que talvez tenha ganho mais por mérito dos meus antepassados do que meu.
Um homem de quem seguramente fui amigo apenas por mérito dele.
Despedi-me dele há dois meses e pouco, com um abraço forte.
Soube-o ontem. A ceifeira tinha descido na sexta-feira.

03/02/2009

O blogger repórter

Esta é a segunda vez em que me dou conta de que o meu porte me abre portas nos desastres.
Circulo como o jornalista e não como o mirone.



Incêndio no antigo Cine-Teatro Lido, na Amadora, esta noite.

02/02/2009

O desastre do Rápido do Algarve

O que me deve ter levado a interessar-me por este caso terá sido a obnubilação a que foi sujeito pelo tempo.
Um dos mais mortíferos acidentes da história ferroviária do país do qual não consegui encontrar afinal uma única referência durante anos até que alguém escreve um artigo numa revista e me proporciona datá-lo.



Seriam cerca das 16h15m do dia 13 de Setembro de 1954, quando o comboio 8012 que partira de Vila Real de Santo António às 13h13m com destino ao Barreiro descarrilou entre o apeadeiro das Pereiras e a estação de Santa Clara – Sabóia, entre os km 260 e 261 da Linha do Sul. Era composto por uma locomotiva, um furgão, três carruagens de 3ª classe, um vagão-restaurante e duas carruagens de 1ª classe1.
Resultaram deste acidente 29 mortos confirmados pela CP – os números dos jornais variam entre 29 e 34 – e um número de feridos da ordem da meia centena.
De acordo com as primeiras impressões, o acidente teria ocorrido por descarrilamento da locomotiva, numa zona de curvas e contracurvas. Esta, ao tombar para a esquerda e a ficar travada abruptamente na trincheira, terá propiciado que a segunda carruagem esventrasse a primeira, causando aí grande parte das vítimas. As carruagens de 3ª classe iam com lotação esgotada.
Há um pormenor curioso nestas circunstâncias. A linha corre aqui quase paralela a uma ribeira, uns vinte metros abaixo. O local em que se deu o acidente é dos poucos em que há uma barreira entre a linha e o declive para a linha de água, à esquerda do sentido da marcha do comboio. Foi nesse talude que a máquina tombou e se segurou.
O impacto foi pouco sentido nas carruagens de trás, que não chegaram a descarrilar, o que não deu de imediato a verdadeira proporção da tragédia a quem nelas seguia, só tendo consciência da sua gravidade já apeados ao verem a colisão entre as duas primeiras carruagens.
Dado o local ser ermo, os socorros foram pedidos por passageiros do próprio comboio que se deslocaram em cada sentido pela linha, chegando às estações mais próximas, onde deram o alarme.
A notícia levou naturalmente o seu tempo a propagar-se. Mas, segundo informações que recolhi, terá chegado não muito tempo depois à feira de Odemira onde havia grande aglomeração de gente, o que terá concorrido para que muitos carros de particulares se tenham dirigido para o local.
Populares das terras mais próximas, Pereiras, Sabóia e Santa Clara, gente dos montes em redor, terão sido naturalmente os primeiros a chegar.
O grosso dos socorros chegou pela ferrovia. Da Funcheira (km 218), primeiro, um comboio com operários. De Beja (km 154), depois, um comboio de socorro com médicos e enfermeiros, que só terá chegado ao local ao sol posto, mais de três horas após o desastre.
Mais tarde, já de noite, um comboio ido de Faro e outro do Barrreiro, que partira desta estação por volta das seis da tarde.
Chegaram também entretanto de Monchique socorros por estrada. O acesso à zona faz-se pela 266 (entre os km 17 e 18 ou pelo ramal de acesso às Pereiras, com dois quilómetros e meio de estrada velha e duas ribeiras para transpor), a partir de Monchique (a 24 km) e pela 123 e 266 a partir de Odemira (a 38 km). Sendo que por esta altura estava ainda em construção a ponte sobre o rio Mira em Santa Clara, sendo a passagem do rio feita em condições precárias.
O primeiro comboio de evacuação dos sinistrados abandonou o local com destino a Beja já de noite, tendo chegado àquela cidade perto da meia-noite.
Foram entretanto levados por estrada alguns feridos para o Hospital de Portimão.
Os mortos foram transportados para a Estação de Sabóia, onde foram depositados provisoriamente.
Os sobreviventes que se dirigiam a Lisboa chegaram ao Terreiro do Paço perto das 5 da manhã.

A última história que ouvi a este respeito mencionava a estranheza dos circunstantes face a um meu conterrâneo que, tendo escapado com ferimentos mais ou menos ligeiros, se dedicou a dar conta do farnel enquanto não era transportado ao hospital.
Há sempre quem, no meio de uma desgraça, repare nestes pormenores.
E há sempre alguém como eu que os publica.

Bibliografia:
Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete - revista da Associação de Amigos do Museu Nacional Ferroviário, 10, 3º Trimestre de 2004
Diário de Lisboa, 14 e 15 de Setembro de 1954
Diário Popular, 14, 15 e 16 de Setembro de 1954


1 Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete, 10, 3º Trimestre de 2004

01/02/2009

Adereços

No “Conta-me como foi” já tinha notado as habituais faltas de rigor histórico.
Hoje foi outra vez o carro. Um Morris Marina em 1970. Azar. Só começou a sua produção em 71.
Uma matrícula BO em 1970. Azar, saiu em 75.
Continuo a gostar de ver, embora me pareçam mais fracos estes eposódios da 3ª série.
Jornalices

Na RTP ainda não se distingue entre a Malveira da Serra e a Malveira... dos burros.

31/01/2009

Tadjine crombet bel kefta (II)

Logo no dia em que escrevi sobre, me pareceu vir a ser efémera a experiência exótica aqui paredes quase meias.
Há já uns dias, semanas mesmo, que o prazo expirou. Portas cerradas.
Dou conta disso hoje. Fora de prazo também.
Ouve-se e não se acredita

Disse a Procuradora na RTP* que não há no caso Freeport sequer um suspeito.
Muito bem. Não há.
É precisamente por não haver que não consigo perceber que depois dissesse de alguém “não posso dizer [o seu paradeiro] senão ele foge”.
Só poderia estar a tentar dizer uma piada.


* Curiosamente o registo do programa está truncado na parte final.

30/01/2009

Desentranhando memórias

A rede tem uma distorção assinalável. Omite grande parte do trivial do tempo que a antecedeu e replica e enfatiza o mesmo trivial dos tempos depois dela.
E fica muito à mão dos que usam o argumento do caixeiro sem mercadoria: Isso não há. Nunca houve.
Como os tempos são cada vez mais de memória curta – muita informação pode apenas ser guardada por pouco tempo onde pouca informação era guardada por muito tempo – há factos que são riscados da História como as personagens contrárias das fotografias soviéticas.
Claro que tudo isto já acontecia antes da rede. Agora apenas se vê tal fenómeno ampliado.
Quase desde o início deste blogue manifestei aqui a intenção de retirar das brumas do tempo uma tragédia esquecida – o descarrilamento do Rápido do Algarve.
Tinha já nesse tempo percebido que esse era um dos factos omitidos.
Mas não era só na rede. Já antes, nos jornais, nas rádios e na televisão não se lia, não se ouvia uma única referência a tal, nas habituais listas de acidentes ferroviários em que toda a gente cita as mesmas fontes incompletas.
Este acidente que eu trazia na memória por relatos ouvidos na infância e que sabia ser de uns anos antes, situava-o nos meados dos anos 50.
Queria saber exactamente em que dia ocorrera e qual a proporção que atingira e se a minha memória e as poucas referências que mais tarde ouvira a este e àquele se compaginavam com o sucedido.
Nos últimos dez anos talvez, aproveitei todas as ocasiões para perguntar aos mais antigos sobre o caso. Obtive algumas respostas depois dessa demorada perquisição. Mas todas elas vagas.
Até que, há um ano e tal, uma nova googlada mostrou a ponta do fio da meada.
O acidente do Rápido do Algarve estava agora ao alcance de uma mão.

28/01/2009

E.N. 15, 2005

Sócrates

A única coisa verdadeiramente preocupante a respeito de Sócrates é a sua falta de inteligência. O resto são ataques de mentes equivalentes.
A questão não é o homem. É o cargo que ocupa.

27/01/2009

Jus

Falou o ministro da Justiça, na abertura do ano judicial, de um mundo em melhoria.
Não faço ideia se a matéria em apreço, aquilo a que ainda insistem em chamar justiça, está ou não num caminho de melhoras.
A verdade é que a tragi-comédia que está presente em todo o lado nesse mundo deixa já poucas hipóteses para a coisa piorar.
É pois provável que melhore. Desde que se perceba que o estado actual é miserável. Incluindo naturalmente o processo legislativo.
Se não se perceber tal, a coisa continuará como dantes, Quartel-General em Abrantes.
Honra

No jornalismo confunde-se amiúde a crítica com a calúnia, a apreciação com o insulto.
O episódio de hoje, no programa de Mário Crespo, é exemplar.
À pergunta deste: “Era possível no ambiente governativo que se vivia, obter favores por dinheiro?” respondeu o entrevistado, o ministro da Presidência, que considerava tal pergunta um insulto.
Acredito que qualquer homem honrado reagiria da mesma forma.
O extraordinário é que no seguimento dessa entrevista tenha havido vários comentários a reprovar a atitude do ministro, do homem. Como se pôr em causa a honorabilidade de alguém, da forma que foi posta, fosse coisa relevável.
Sobre a essência do caso, continuo a não tecer considerações.

25/01/2009

Dias de colecção

De vez em quando, a ideia parva.
A que não sendo com toda a certeza original é bizarra. Coisa de gente sem afazeres, dirão.
É, pelo menos, mais um motivo para olhar para as paredes.

24/01/2009

A degradação

Há degradações aqui e ali que são bem notadas.
Hoje a que me saltou à vista veio em forma de DVD Planeta Ronaldo.
Como brinde do Expresso.
Pus-me a pensar qual seria a reacção do meu Pai se há 36 anos - tantos quantos leva o Expresso e é lido cá em casa – lhe oferecessem uma revista de futebol junto com o jornal.
A minha foi só irónica. Tanto quanto o poderia ser com o interlocutor.
RTP

Ouvi agora mesmo uma justificação sobre a repetição de programas na RTP.
Sabemos todos qual é a verdadeira razão para a repetição ad nauseam de concursos e quejandos.
E o que foi dito foi naturalmente um chorrilho de lugares comuns sem sentido, retirados da cartilha de qualquer marqueteiro de meia-tigela. Não seria razoável esperar mais.
A forma como fizeram o bolo, metendo no mesmo saco repetições assinaladas, em horário e canal diferente e repetições aldrabadas, de concursos emitidos sem referência de repetição no horário habitual, ainda agrava mais a ideia com que se fica.
Uma mediocridade sem justificação. Nem a falta de dinheiro a explica.

23/01/2009

Simplex

Por mor das circunstâncias, plastifiquei-me a cem por cento aqui há dias.
Na mesma leva, registei-me no Portal do Cidadão e lá pedi uma certa certidão.
Ontem, recebi um e-mail a pedir-me que reformulasse o pedido pela segunda vez, uma vez que as trocas de correspondência electrónica até então havidas com os serviços não eram bastantes.
Hoje tinha a certidão na minha caixa do correio – na tradicional, na de alumínio.
Nem me deram tempo de reformular o pedido.
Onde?

Onde andarão aqueles geniais estadistas que prometeram ao povo cento e cinquenta mil empregos?

22/01/2009

Materno

Há qualquer coisa de profundamente imbecil na rebarbativa insistência da utilização de materno – o tio materno – nesta notícia de hoje.
É uma das justas medidas da imbecilidade do jornalismo actual.
Não teço qualquer consideração sobre a essência da dita notícia.

21/01/2009

Atraso mental

Só num sítio em que o atraso mental seja prevalecente é que uma medida tendente a acertar as retenções na fonte – a reduzir o erro no seu cálculo ou na sua estimativa – pode ser entendida como tendo algum tipo de significado para além da mera correcção.

20/01/2009

Barack

Sobre Barack Obama já ouvi, já ouvimos afinal, quase tudo o que é possível ouvir.
Que é um iluminado foi uma das coisas mais divertidas de entre essas.
Há uma muito curiosa também – que ele é negro. Sendo o homem um mulato, ainda não ouvi ninguém chamar-lhe branco. Coisa que seria tão natural dizerem dele como o é, afinal, chamarem-lhe preto ou negro.
Dir-se-á que aos brancos ele se afigura preto. Seja. Nesse caso seria de esperar que aos pretos se afigurasse alvo. É até provável que haja negros que lhe chamem branco, uma vez até que o homem foi criado pelo lado branco da família. Mas se os há, não se ouvem. Estão abafados pelo clamor geral.
E é também curioso que chamar preto a um homem que é metade branco metade preto nestas circunstâncias não seja considerado um rótulo racista, à luz da mentalidade modal dos dias que correm.
Coisas!

14/01/2009

Tolerâncias

A tolerância unívoca é sempre uma manifestação de paternalismo. De superioridade moral do tolerante face ao tolerado, de acordo com os nossos padrões civilizacionais actuais.
Incompatível assim com qualquer tipo de igualdade à luz dos mesmíssimos padrões.

13/01/2009

Reconstituição

Diz a imprensa que vai ter lugar uma reconstituição do desastre da A23, que provocou a morte a dezassete pessoas.
A ser certa a notícia, o que vai ser reconstituído ou parte dele parece poder tirar-se dela. O como ou parte dele também. Já o por quê e o para quê me parecem mistérios insondáveis.
As pensões de reforma

O problema do Estado neste caso das pensões de reforma e em muitos outros é que não tem nem sequer um resto de autoridade moral para limitar cada vez mais os montantes e protelar a aposentação.
Convive, neste preciso campo, demasiado de perto com o roubo de igreja para poder ter cara para limitar ou protelar seja o que fôr.