25 de Abril
Sabia-se que ia acontecer. Só não se sabia de que lado viria o golpe nem o dia certo. Mas não haveria de tardar, tanto mais que a "lei dos espúrios", na realidade um decreto-lei (D.L. 353/73) complementado com o D.L. 409/73, permitindo o acesso à carreira militar, em condições vantajosas de concorrência, aos oficiais milicianos, tinha semeado a insatisfação entre os oficiais do quadro das forças armadas, de onde já tinha vindo um anúncio um mês e tal antes.
Sobre o lado de onde veio o golpe, pode dizer-se que se tratou de uma localização imprecisa, tão imprecisa como impreparada em política estava a maioria dos que o prepararam.
Na sociedade, existia uma elite que ultrapassava pela direita o regime, do qual depreciava as ideias quase socialistas que tinham proporcionado reformas que haviam beneficiado os mais pobres, congelamento de rendas, habitação social, previdência, escola pública, e que havia sempre encarado mal um popular ainda que professor universitário no comando da nação.
Foi desta elite que saiu grande parte da oposição democrática.
E em contraponto, existia uma esquerda comunista que vinha lutando há décadas na clandestinidade.
A revolução de 74 foi depois enquadrada por ambas as forças. Primeiramente pela esquerda afecta ao PCP e organizações sem grande representatividade mas muito aguerridas que se preparavam para instituir um regime igualmente autoritário, depois pela oposição democrática ao regime que tinha muito de direita, embora se dissesse esquerdista e atribuísse ao regime caído designações de extrema-direita e de fascista, como se ambas fossem a mesmíssima coisa.
A queda do regime de 1926 tratou-se de uma inevitabilidade, assente que estava no seu estertor em pés de barro.
O que se seguiu, o caos próprio da ausência de uma autoridade, foi um 35 de Abril que acabou por destruir o que era de conservar, exemplo que a Espanha aqui ao lado não seguiu logo depois.
Passámos de uma pobreza que parecia ir sendo apagada em ritmo lento mas independente para uma actual riqueza aparente sustentada com as mesadas com que nos pagam a abdicação da soberania e com o empurrar com a barriga uma factura que alguém no futuro há-de pagar.
O povo que existia em 26 de Abril de 1974 era afinal o mesmo que cá estava em 24 de Abril, dois dias antes.
Salvo melhor opinião. Mas só dos que viveram tal dia já na idade da razão. Nada de testemunhos de ouvir-dizer.