Na Lua
Em 1969, já a televisão se espalhava pelo país.
Ainda não chegava a todas as casas, mas havia já uma diferença grande em relação aos primeiros anos da década.
Naquela noite, meio mundo ficou acordado à espera de ver a Lua de perto e os homens a passearem-se na sua superfície.
No dia seguinte, a velhota entrou lá em casa como de costume.
E em tom reprovador, disse:
"Estive eu acordada até tão tarde para ver a Lua e afinal não há lá nada. Nem um jardim bonito como há em Alhandra."
14/10/2003
Livros
Um dia ainda hei-de perceber qual é o critério que sigo na compra de livros.
Uma coisa estranha é não ter o ímpeto de comprar uma obra que não conheço de um autor que aprecio.
Outra coisa estranha é sair de casa, manhã cedo, com o fito de ir comprar determinada obra publicada há anos.
Já entrar num shopping porque é o único sítio das redondezas onde se pode almoçar e sair carregado de livros, entende-se porque havia uma feira de livros velhos.
Comprar numa bomba de gasolina, desnoitado, porque estava lá um livro perseguido é normal.
Comprar porque sim, é assim mesmo.
Mas não descortino o critério.
Um dia ainda hei-de perceber qual é o critério que sigo na compra de livros.
Uma coisa estranha é não ter o ímpeto de comprar uma obra que não conheço de um autor que aprecio.
Outra coisa estranha é sair de casa, manhã cedo, com o fito de ir comprar determinada obra publicada há anos.
Já entrar num shopping porque é o único sítio das redondezas onde se pode almoçar e sair carregado de livros, entende-se porque havia uma feira de livros velhos.
Comprar numa bomba de gasolina, desnoitado, porque estava lá um livro perseguido é normal.
Comprar porque sim, é assim mesmo.
Mas não descortino o critério.
Actualidades
Um dos pontos dos estatutos deste blogue é não falar de actualidades.
Actualidades entendidas aqui como os assuntos do dia na imprensa e nas conversas de café.
Que quase sempre são repetições de histórias velhas. Nada de novo na frente.
Muitas vezes nem sequer são actuais.
São histórias congeladas nas redacções à espera de um dia sem manchete.
Coisas novas precisam-se.
Um dos pontos dos estatutos deste blogue é não falar de actualidades.
Actualidades entendidas aqui como os assuntos do dia na imprensa e nas conversas de café.
Que quase sempre são repetições de histórias velhas. Nada de novo na frente.
Muitas vezes nem sequer são actuais.
São histórias congeladas nas redacções à espera de um dia sem manchete.
Coisas novas precisam-se.
Memória II
Não me perguntem quem foi, não me lembro.
Mas alguém um dia disse que uma das características do nosso tempo que colidia com a essência atávica humana, era a eliminação das memórias.
Dizia isto tendo como pano de fundo as cidades.
Onde os homens nelas nascidos rapidamente vêem destruir as suas referências espaciais.
Uma avenida onde havia uma azinhaga. Uma grande praça onde havia umas casas velhas e uma quinta. Um edifício altíssimo onde existia um palacete.
A somar a tudo isto, o bombardeamento constante da informação. Muita informação fragmentária e pouca assimilação.
Sei que, por enquanto, tenho uma memória privilegiada, como já referi. Ainda que não me lembre do autor da sentença, mas só da sentença.
Por vezes, sinto-me no meio do nevoeiro sem ninguém à vista. Falo de coisas que vi e que outros decerto viram mas não recordam.
Uma porta de taberna, uma curva de estrada, uma janela ornamentada, uma árvore de grande porte que já não estão lá.
Morreram também na memória pública.
Nem uma fotografia, nem uma citação.
É por isso que gosto de ouvir quem se lembra.
Não me perguntem quem foi, não me lembro.
Mas alguém um dia disse que uma das características do nosso tempo que colidia com a essência atávica humana, era a eliminação das memórias.
Dizia isto tendo como pano de fundo as cidades.
Onde os homens nelas nascidos rapidamente vêem destruir as suas referências espaciais.
Uma avenida onde havia uma azinhaga. Uma grande praça onde havia umas casas velhas e uma quinta. Um edifício altíssimo onde existia um palacete.
A somar a tudo isto, o bombardeamento constante da informação. Muita informação fragmentária e pouca assimilação.
Sei que, por enquanto, tenho uma memória privilegiada, como já referi. Ainda que não me lembre do autor da sentença, mas só da sentença.
Por vezes, sinto-me no meio do nevoeiro sem ninguém à vista. Falo de coisas que vi e que outros decerto viram mas não recordam.
Uma porta de taberna, uma curva de estrada, uma janela ornamentada, uma árvore de grande porte que já não estão lá.
Morreram também na memória pública.
Nem uma fotografia, nem uma citação.
É por isso que gosto de ouvir quem se lembra.
Memória
A minha não é má.
Lembro-me bem de palavras que ouvi e não me agradaram. Mas que devem ter ficado gravadas para futuro escrutínio.
Muitas delas julgo-as hoje com a devida vénia. Chapeau.
Nem sempre as pessoas que as disseram ainda se lembram de as terem proferido. Por vezes, já nem as subscrevem.
Mas também já aconteceu alguém me ter lembrado de algo que eu disse.
Poucas vezes é certo.
Mas em uma delas, uma sensação estranhíssima. Não por eu me não lembrar das circunstâncias em que dissera tais palavras, antes por, por muitos anos que se tivessem interposto, as circunstâncias se terem fechado num círculo.
Não contava que as palavras fossem lembradas.
Não contava encontrar-me de novo em condições tão semelhantes.
Não contava ser lembrado disso.
Muito menos contava que as palavras tivessem transmitido a exacta força de que eu as animara.
Mas o facto é que de repente fui confrontado com elas, quando já não esperava.
E foi nesse exacto momento que o círculo fechou, e sem saber como, me encontrei do lado de fora.
A minha não é má.
Lembro-me bem de palavras que ouvi e não me agradaram. Mas que devem ter ficado gravadas para futuro escrutínio.
Muitas delas julgo-as hoje com a devida vénia. Chapeau.
Nem sempre as pessoas que as disseram ainda se lembram de as terem proferido. Por vezes, já nem as subscrevem.
Mas também já aconteceu alguém me ter lembrado de algo que eu disse.
Poucas vezes é certo.
Mas em uma delas, uma sensação estranhíssima. Não por eu me não lembrar das circunstâncias em que dissera tais palavras, antes por, por muitos anos que se tivessem interposto, as circunstâncias se terem fechado num círculo.
Não contava que as palavras fossem lembradas.
Não contava encontrar-me de novo em condições tão semelhantes.
Não contava ser lembrado disso.
Muito menos contava que as palavras tivessem transmitido a exacta força de que eu as animara.
Mas o facto é que de repente fui confrontado com elas, quando já não esperava.
E foi nesse exacto momento que o círculo fechou, e sem saber como, me encontrei do lado de fora.
13/10/2003
O paradoxo final
A ideia de unificação em ciência é um tanto ou quanto vaga.
Mas suponhamos que significa um estado do conhecimento em que, por serem conhecidos os mecanismos básicos, se torna possível a ligação entre escalas diferentes: a física, a química e a medicina; a química, a física e a engenharia e por aí fora. Não esquecendo que estas divisões são imprecisas e volúveis.
O conhecimento dos mecanismos básicos pressupõe um domínio universal sobre os factores intervenientes. O conhecimento exacto e total das condições iniciais bem como das formas como se alterarão com o tempo.
Suponhamos que assim é, e que tal é possível atingir.
Haja formas expeditas de proceder aos cálculos necessários e teremos todas as previsões com a suprema exactidão.
O que nos coloca frente ao paradoxo final:
O homem dissecado em impulsos eléctricos, átomos, ácidos, células e o mais que fôr.
Uma máquina previsível.
Cada gesto, cada palavra, cada pensamento, apenas fruto das condições iniciais. Nada mais do que isso.
A ideia de unificação em ciência é um tanto ou quanto vaga.
Mas suponhamos que significa um estado do conhecimento em que, por serem conhecidos os mecanismos básicos, se torna possível a ligação entre escalas diferentes: a física, a química e a medicina; a química, a física e a engenharia e por aí fora. Não esquecendo que estas divisões são imprecisas e volúveis.
O conhecimento dos mecanismos básicos pressupõe um domínio universal sobre os factores intervenientes. O conhecimento exacto e total das condições iniciais bem como das formas como se alterarão com o tempo.
Suponhamos que assim é, e que tal é possível atingir.
Haja formas expeditas de proceder aos cálculos necessários e teremos todas as previsões com a suprema exactidão.
O que nos coloca frente ao paradoxo final:
O homem dissecado em impulsos eléctricos, átomos, ácidos, células e o mais que fôr.
Uma máquina previsível.
Cada gesto, cada palavra, cada pensamento, apenas fruto das condições iniciais. Nada mais do que isso.
Algures
Algures estão os conhecimentos essenciais para este dia.
Não se trata de arte, nem de técnica.
Trata-se do sumo de tudo aquilo que já somámos às observações das coisas.
E do ponto em que as teorias ficaram penduradas na parede.
E resistiram ao tempo.
Algumas estão erradas, não importa.
Gostava de saber em que ponto estamos.
Uma inutilidade essencial.
postado algures a 22 de Setembro, mas ainda válido
Algures estão os conhecimentos essenciais para este dia.
Não se trata de arte, nem de técnica.
Trata-se do sumo de tudo aquilo que já somámos às observações das coisas.
E do ponto em que as teorias ficaram penduradas na parede.
E resistiram ao tempo.
Algumas estão erradas, não importa.
Gostava de saber em que ponto estamos.
Uma inutilidade essencial.
postado algures a 22 de Setembro, mas ainda válido
Estatutos (de 20 de Agosto)
O estatuto aqui é mais ou menos este (a ordem dos artigos é completamente arbitrária):
Não recomendar restaurantes, praias ou blogues.
Não comentar a actualidade.
Não criticar nem sublimar (nos diversos sentidos) os outros.
Em suma, um rol de negações.
Lembrar-me-ei de outros no futuro e tentarei cumprir estes.
Quase dois meses depois e muita palavra aposta, já transgredi todos os artigos.
O estatuto aqui é mais ou menos este (a ordem dos artigos é completamente arbitrária):
Não recomendar restaurantes, praias ou blogues.
Não comentar a actualidade.
Não criticar nem sublimar (nos diversos sentidos) os outros.
Em suma, um rol de negações.
Lembrar-me-ei de outros no futuro e tentarei cumprir estes.
Quase dois meses depois e muita palavra aposta, já transgredi todos os artigos.
Intemporalidade ou não
Pensava eu que eram intemporais as entradas que ia fazendo no blogue que abandonei.
Agora que era minha intenção para aqui trazer algumas delas, vejo que não é o tempo através das coisas, mas o tempo das coisas que as macera.
Muitas delas valem tanto hoje como então. Mas não as quero repetir.
Pensava eu que eram intemporais as entradas que ia fazendo no blogue que abandonei.
Agora que era minha intenção para aqui trazer algumas delas, vejo que não é o tempo através das coisas, mas o tempo das coisas que as macera.
Muitas delas valem tanto hoje como então. Mas não as quero repetir.
A um ritmo muito menos intenso do que publicava em H Gasolim Ultramarino alojado em outro local, irei recuperando selectivamente o que lá está, esperando poder manter as imagens.
30/09/2003
23/09/2003
Gasolim Ultamarino
Já não sei se prossegue a saga no servidor da Globo.
Lá se vão as imagens outra vez.
Já não sei se prossegue a saga no servidor da Globo.
Lá se vão as imagens outra vez.
A migração ultramarina
Quando resolvi mudar para o alojamento brasileiro , fi-lo com o objectivo de não infringir as regras aqui. Não se pode ter imagens se não se fôr pagante.
Ora sai-me a emenda pior do que o soneto.
"Sua sessão expirou". "Nome de usuário ou senha inválidos".
Quando resolvi mudar para o alojamento brasileiro , fi-lo com o objectivo de não infringir as regras aqui. Não se pode ter imagens se não se fôr pagante.
Ora sai-me a emenda pior do que o soneto.
"Sua sessão expirou". "Nome de usuário ou senha inválidos".
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