21/10/2003
Actualidades
Prometi a mim mesmo não falar de actualidades.
Por isso, não direi senão o seguinte:
Faz-me muita confusão que, entre gente com uma certa formação, se repita a ideia absurda de que é possível alguém fazer prova cabal de que desconhece um facto ou uma pessoa (contemporânea).
Se esta impossibilidade não é um dos axiomas do direito, então como o meu chapéu de Chaves.
Prometi a mim mesmo não falar de actualidades.
Por isso, não direi senão o seguinte:
Faz-me muita confusão que, entre gente com uma certa formação, se repita a ideia absurda de que é possível alguém fazer prova cabal de que desconhece um facto ou uma pessoa (contemporânea).
Se esta impossibilidade não é um dos axiomas do direito, então como o meu chapéu de Chaves.
O concurso radiofónico
Lembro-me de que íamos a chegar aquela curva que considero ter a mais vasta panorâmica em Portugal.
O rádio ia sintonizado no que se apanhava.
Primeiro, uma entrevista com um oftalmologista.
"Quando chego a qualquer sítio, tenho sempre o instinto profissional de olhar as pessoas nos olhos. Vejo logo qual é a côr dos olhos de cada um."
Depois o concurso.
A ideia básica é pôr duas pessoas à conversa sobre as suas casas durante um curto período.
Depois cada um responde a perguntas sobre a casa do outro. São perguntas a que se facilita a resposta em escolha múltipla.
A dado passo, alguém pergunta a outrem quantas peças de artesanato tem em casa.
"Eu? Eu odeio artesanato!"
Foi quanto bastou para o R. ficar fã do programa.
Devem ter-se passado muitas manhãs de trabalho em que ouvimos o dito concurso no carro.
Um dia, um dos opositores quase não fez perguntas ao outro.
O apresentador admirado comentou.
Ele disse que já tinha uma ideia.
Quando chegou a vez de responder ( julgo que eram cinco as perguntas ), não falhou uma.
O apresentador à rasca:
"Então como é que foi isto?"
"Fácil. Já ouço isto há uns dias e as respostas certas são sempre a-e-d-b-b."
"Ah! Um ouvinte assíduo!"
Lembro-me de que íamos a chegar aquela curva que considero ter a mais vasta panorâmica em Portugal.
O rádio ia sintonizado no que se apanhava.
Primeiro, uma entrevista com um oftalmologista.
"Quando chego a qualquer sítio, tenho sempre o instinto profissional de olhar as pessoas nos olhos. Vejo logo qual é a côr dos olhos de cada um."
Depois o concurso.
A ideia básica é pôr duas pessoas à conversa sobre as suas casas durante um curto período.
Depois cada um responde a perguntas sobre a casa do outro. São perguntas a que se facilita a resposta em escolha múltipla.
A dado passo, alguém pergunta a outrem quantas peças de artesanato tem em casa.
"Eu? Eu odeio artesanato!"
Foi quanto bastou para o R. ficar fã do programa.
Devem ter-se passado muitas manhãs de trabalho em que ouvimos o dito concurso no carro.
Um dia, um dos opositores quase não fez perguntas ao outro.
O apresentador admirado comentou.
Ele disse que já tinha uma ideia.
Quando chegou a vez de responder ( julgo que eram cinco as perguntas ), não falhou uma.
O apresentador à rasca:
"Então como é que foi isto?"
"Fácil. Já ouço isto há uns dias e as respostas certas são sempre a-e-d-b-b."
"Ah! Um ouvinte assíduo!"
20/10/2003
Filme Disney de inundação
Pensava eu que o meu perseguidor já tinha chegado à conclusão de que jamais conseguiria intimidar-me.
Mas não.
Hoje avisa-me de novo: "Filme Disney de inundação."
Usa agora métodos catastróficos portanto.
E está muito bem informado ou leu o post lá atrás.
Eu já não posso explicar.
Pensava eu que o meu perseguidor já tinha chegado à conclusão de que jamais conseguiria intimidar-me.
Mas não.
Hoje avisa-me de novo: "Filme Disney de inundação."
Usa agora métodos catastróficos portanto.
E está muito bem informado ou leu o post lá atrás.
Eu já não posso explicar.
De São Rústico
meu padroeiro
só se sabe que, antes de (des)falecer aos pés de uma mulher, teve tempo para beijar a própria cabeça que recolhera do chão.
imagem neste sítio
meu padroeiro
só se sabe que, antes de (des)falecer aos pés de uma mulher, teve tempo para beijar a própria cabeça que recolhera do chão.
imagem neste sítio
O Carlos
O Carlos era eu.
Fui sempre Carlos para aquela mulher, esposa do Zé Povinho sem barba.
Não desde a altura em que me apresentei, depois de ter descrito a curva da casa e avistado o Zé Povinho barbeado sentado num banco à minha espera.
Na taberna ondia bebia uma cerveja perguntei ao empregado por casas para alugar ao mês.
Um mês de praia para gozar em solitude.
Disse-me que não sabia.
Duas cervejas depois, mostrou-me o Zé Povinho, de cara rapada, e disse-me:
"Aqui o Ti Lebre tem uma casa para alugar."
O homem cumprimentou-me e apreciou-me. Devo ter um ar confiável, pois de imediato, me indicou o caminho e lá foi, dizendo que ficava à minha espera.
Bebi ainda mais uma, agradeci ao rapaz e meti-me no carro.
Entrei com o Zé Povinho na casa. Apresentou-me a mulher. Tomou nota do meu nome até ao momento de receber o dinheiro, a casa agradara-me. Eram dois quartos, sala com cozinha e casa de banho.
No dia seguinte, ouvi chamar pelo Carlos.
Só liguei o nome à pessoa quando a vi a espreitar pela janela da cozinha e perguntar-me: "Carlos, não quer comprar peixe fresco?"
imagem do Zé Povinho barbudo em http://manuelcarvalho.8m.com/
O Carlos era eu.
Fui sempre Carlos para aquela mulher, esposa do Zé Povinho sem barba.
Não desde a altura em que me apresentei, depois de ter descrito a curva da casa e avistado o Zé Povinho barbeado sentado num banco à minha espera.
Na taberna ondia bebia uma cerveja perguntei ao empregado por casas para alugar ao mês.
Um mês de praia para gozar em solitude.
Disse-me que não sabia.
Duas cervejas depois, mostrou-me o Zé Povinho, de cara rapada, e disse-me:
"Aqui o Ti Lebre tem uma casa para alugar."
O homem cumprimentou-me e apreciou-me. Devo ter um ar confiável, pois de imediato, me indicou o caminho e lá foi, dizendo que ficava à minha espera.
Bebi ainda mais uma, agradeci ao rapaz e meti-me no carro.
Entrei com o Zé Povinho na casa. Apresentou-me a mulher. Tomou nota do meu nome até ao momento de receber o dinheiro, a casa agradara-me. Eram dois quartos, sala com cozinha e casa de banho.
No dia seguinte, ouvi chamar pelo Carlos.
Só liguei o nome à pessoa quando a vi a espreitar pela janela da cozinha e perguntar-me: "Carlos, não quer comprar peixe fresco?"
imagem do Zé Povinho barbudo em http://manuelcarvalho.8m.com/
The perfect oven
Há alguns anos li um artigo sobre um investigador americano que se dedicara a estudar a forma do forno perfeito para cozinhar um dado peru.
Ocorreu-me que ninguém, que eu saiba, se dedicou a estudar os mecanismos que conduzem ao fim de uma festa.
Quando é que a festa termina e como.
Se termina com os donos da casa a fecharem as portas depois de se despedirem da última sogra, se termina quando o amigo bêbedo vomita no corredor da casa de banho e porque é que quatro convidados saiem aos pares no auge do bródio.
Todos estes mecanismos estão mal estudados, sabe-se ainda muito pouco sobre o assunto, mas estou convencido de que quem se abalançar a tal empresa, será bem sucedido.
Terá um best-seller na mão.
Há alguns anos li um artigo sobre um investigador americano que se dedicara a estudar a forma do forno perfeito para cozinhar um dado peru.
Ocorreu-me que ninguém, que eu saiba, se dedicou a estudar os mecanismos que conduzem ao fim de uma festa.
Quando é que a festa termina e como.
Se termina com os donos da casa a fecharem as portas depois de se despedirem da última sogra, se termina quando o amigo bêbedo vomita no corredor da casa de banho e porque é que quatro convidados saiem aos pares no auge do bródio.
Todos estes mecanismos estão mal estudados, sabe-se ainda muito pouco sobre o assunto, mas estou convencido de que quem se abalançar a tal empresa, será bem sucedido.
Terá um best-seller na mão.
O nascimento de uma lenda
Não sei se é uma dávida das probabilidades assistir ao nascimento de uma lenda.
O que quer que seja que a incorrecção e a falta de sentido da frase acima queira dizer.
Mas aconteceu-me.
Encostado ao varandim do meu castelo (a designação não é minha, é dos militares da cartografia), vi entrar pelas muralhas um conhecido.
Digo isto apenas porque talvez as lendas nasçam em castelos.
Não como o meu, que é de muralhas baixas, mas nos outros mais a sério.
Depois de alguns cumprimentos e de conversa circunstancial, vi-a nascer da boca dele, do conhecido que chegara.
Sob a forma de anedota, o que não é muito lisonjeiro para a própria.
Mas lá estavam todos os ingredientes: a façanha, o façanhudo, o desfecho e a moral da história. Tudo um tanto ou quanto anedótico.
Não fora o caso de o protagonista nomeado ser um velho amigo meu, era apenas mais uma anedota.
Mas a certeza de que a história tal como a ouvi, se vai repetir por aquelas serras, contada por aqueles que nunca ouviram falar do meu amigo, muitos anos depois de já estarmos eu e ele etiquetados em pedra, foi logo inabalável.
Já agora, a história não era verdadeira.
Não sei se os circunstantes sabiam que ele é meu amigo, talvez não. Talvez o conheçam só de fama.
Fama que se encarregam de propagar.
Não sei se é uma dávida das probabilidades assistir ao nascimento de uma lenda.
O que quer que seja que a incorrecção e a falta de sentido da frase acima queira dizer.
Mas aconteceu-me.
Encostado ao varandim do meu castelo (a designação não é minha, é dos militares da cartografia), vi entrar pelas muralhas um conhecido.
Digo isto apenas porque talvez as lendas nasçam em castelos.
Não como o meu, que é de muralhas baixas, mas nos outros mais a sério.
Depois de alguns cumprimentos e de conversa circunstancial, vi-a nascer da boca dele, do conhecido que chegara.
Sob a forma de anedota, o que não é muito lisonjeiro para a própria.
Mas lá estavam todos os ingredientes: a façanha, o façanhudo, o desfecho e a moral da história. Tudo um tanto ou quanto anedótico.
Não fora o caso de o protagonista nomeado ser um velho amigo meu, era apenas mais uma anedota.
Mas a certeza de que a história tal como a ouvi, se vai repetir por aquelas serras, contada por aqueles que nunca ouviram falar do meu amigo, muitos anos depois de já estarmos eu e ele etiquetados em pedra, foi logo inabalável.
Já agora, a história não era verdadeira.
Não sei se os circunstantes sabiam que ele é meu amigo, talvez não. Talvez o conheçam só de fama.
Fama que se encarregam de propagar.
19/10/2003
Mudanças
Os meus avós estavam cá ainda existia o Reino de Portugal.
Os automóveis eram pouco mais do que uma experiência.
O avião também.
A energia eléctrica dava os primeiros passos.
O telefone.
A água canalizada.
A rádio.
E viveram até o homem chegar à Lua, os aviões transformarem o mundo longínquo em terra próxima, a televisão mostrar o que se está a passar nos antípodas.
Viram as refeições prontas-a-comer, as grandes migrações de verão, o computador doméstico e o telefone móvel.
Eu ainda pressenti os carros de mulas, as terras sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem telefone.
As estradas a rasgarem-se em tapetes de alcatrão e os aviões a hélice.
O leite de porta em porta, os amoladores de facas e tesouras, os jornais atirados às janelas, o plástico a mostrar as suas virtualidades em carrinhas de modernos camelots.
O que é que verei mais, se alcançar a mesma longevidade?
Será um mundo tão diferente do primeiro que vi, como foi o deles?
Os gráficos da evolução dizem que sim.
A ver vamos.
Os meus avós estavam cá ainda existia o Reino de Portugal.
Os automóveis eram pouco mais do que uma experiência.
O avião também.
A energia eléctrica dava os primeiros passos.
O telefone.
A água canalizada.
A rádio.
E viveram até o homem chegar à Lua, os aviões transformarem o mundo longínquo em terra próxima, a televisão mostrar o que se está a passar nos antípodas.
Viram as refeições prontas-a-comer, as grandes migrações de verão, o computador doméstico e o telefone móvel.
Eu ainda pressenti os carros de mulas, as terras sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem telefone.
As estradas a rasgarem-se em tapetes de alcatrão e os aviões a hélice.
O leite de porta em porta, os amoladores de facas e tesouras, os jornais atirados às janelas, o plástico a mostrar as suas virtualidades em carrinhas de modernos camelots.
O que é que verei mais, se alcançar a mesma longevidade?
Será um mundo tão diferente do primeiro que vi, como foi o deles?
Os gráficos da evolução dizem que sim.
A ver vamos.
Tempo gasto
Já gastei os últimos cartuchos
Que um sentimento perdurador me permitira guardar
E vi voar alto as aves que gritavam o teu nome inacessível
Sobre pinheiros de beira-praia.
Já não sei do tempo fácil em que a música era feita de estalidos de fogo
E do marulhar das searas e do mar.
Já a estrada que tinha significados de ti
Foi adulterada por tapetes sucessivos que esconderam memórias em traços contínuos contidas.
Já o teu sorriso envelheceu longe de mim.
Qual de nós pedirá perdão desta distância que mensagens trai?
Qual de nós ouvirá o silêncio que o outro lhe propõe?
1986
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Já gastei os últimos cartuchos
Que um sentimento perdurador me permitira guardar
E vi voar alto as aves que gritavam o teu nome inacessível
Sobre pinheiros de beira-praia.
Já não sei do tempo fácil em que a música era feita de estalidos de fogo
E do marulhar das searas e do mar.
Já a estrada que tinha significados de ti
Foi adulterada por tapetes sucessivos que esconderam memórias em traços contínuos contidas.
Já o teu sorriso envelheceu longe de mim.
Qual de nós pedirá perdão desta distância que mensagens trai?
Qual de nós ouvirá o silêncio que o outro lhe propõe?
1986
SG, "Dizeres do Sul", 1993
18/10/2003
E o rock de Panóias?
Ninguém se lembra já do famoso Festival Rock de Panóias, dedicado aos grupos portugueses emergentes na época.
Precursor dos festivais de verão da actualidade, na linha do Vilar de Mouros primordial.
Amplamente divulgado na rádio e nos jornais, falhou em cima da hora, já com espectadores no local.
Ao que constou, porque os homens das bebidas se recusaram a deixar o material sem pronto pagamento.
Ninguém se lembra já do famoso Festival Rock de Panóias, dedicado aos grupos portugueses emergentes na época.
Precursor dos festivais de verão da actualidade, na linha do Vilar de Mouros primordial.
Amplamente divulgado na rádio e nos jornais, falhou em cima da hora, já com espectadores no local.
Ao que constou, porque os homens das bebidas se recusaram a deixar o material sem pronto pagamento.
O viaduto
O viaduto é um dos chamados N.
Um dos viadutos do acesso norte à ponte sobre o Tejo.
Vence a avenida de Ceuta e o vale de Alcântara.
Foi o palco trágico de um suicídio há anos.
De quem se lançou dali para baixo.
Apesar das imagens que passaram na televisão, toda a imprensa errou o alvo.
Que tinha sido do viaduto Engenheiro Duarte Pacheco, umas centenas de metros a montante.
E, como geralmente e infelizmente acontece nestas ocasiões, mais pessoas acorreram com o mesmo propósito. Desta vez ao Duarte Pacheco, conduzidas pelo erro.
A tal ponto, que se altearam as guardas para evitar mais mortes ali.
Isto é exemplar. De quê?
O viaduto é um dos chamados N.
Um dos viadutos do acesso norte à ponte sobre o Tejo.
Vence a avenida de Ceuta e o vale de Alcântara.
Foi o palco trágico de um suicídio há anos.
De quem se lançou dali para baixo.
Apesar das imagens que passaram na televisão, toda a imprensa errou o alvo.
Que tinha sido do viaduto Engenheiro Duarte Pacheco, umas centenas de metros a montante.
E, como geralmente e infelizmente acontece nestas ocasiões, mais pessoas acorreram com o mesmo propósito. Desta vez ao Duarte Pacheco, conduzidas pelo erro.
A tal ponto, que se altearam as guardas para evitar mais mortes ali.
Isto é exemplar. De quê?
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