03/03/2004

Barba e cabelo


A rapariga do carro verde



O carro não era verde. Era preto.
É daquelas coisas que não tem discussão.
J. argumentou com uma possível confusão com outro qualquer carro. Ela retorquiu que não havia nada a dizer. Era uma confusão dele, ponto.
A rapariga do carro verde que afinal era preto julgou tratar-se de uma abordagem propositadamente desastrada. Mas aceitou ouvi-lo um pouco mais.
Depois cortou cerce a conversa. Não lhe agradavam discussões socráticas, foi o que disse.
Só gostava de debater quando se buscava uma solução. Para um problema real. Discutir sem objectivo não fazia para ela o menor sentido.
Reuniam-se sempre com o mesmo fito - analisar um projecto de reconstrução de uma casa numa aldeia. Faziam-no rapidamente e partiam para um jantar. Às vezes faziam duzentos quilómetros para tal. E a discussão não podia ser vaga para ela. Para ele, tanto fazia. Reconhecia-lhe a competência intelectual.
A casa foi construída.
E a discussão com objectivo chegou ao fim.
Ela vendeu a casa sem sequer a ter experimentado, depois de discutir meses a fio a decoração interior.
Tempos depois, J. voltou ao local do crime. Fotografou a sua obra com as cores frescas.
Foi num carro igual.
Que era verde. Deliciosamente verde.

Já não sei onde fui buscar esta imagem. As minhas desculpas mais uma vez.

02/03/2004

Espiando o monarca


A utilidade

Para que servirá este blogue?

Uma das consequências que devemos tirar do facto de haver quem nos leia, é que não podemos usar de excesso de modéstia. Isso seria menosprezar também aqueles que aqui vêm ler estas linhas.
Poderia até ser encarada como altivez, como quem diz: escreve os disparates que quiseres que virá sempre aqui alguém.
Pois não é assim.
Nem escrevo para disparatar, embora às vezes pareça. Nem escrevo com determinado objectivo.
Não comento as actualidades, já todos o sabem. Ainda que ali ou acolá, me resvale o pé para o jornal da antevéspera.
Não escrevo sobre um assunto em particular, embora confesse que, de início, julguei que este blogue viesse a ser um blogue estradista. Tratasse de estradas, de caminhos, de viagens. Tudo ou quase tudo em Portugal, na exacta proporção dos meus conhecimentos.
Mas não foi assim.
Vieram as histórias, as perplexidades, que já não são ou não deviam ser muitas, na minha idade.
Veio o olhar sobre as coisas, encarcerado na duplicidade da minha ignorância e das minhas pulsões. Um homem que desconfia que a vontade humana é um mito, pode opinar pouco sobre as coisas. Mas fá-lo. É essa duplicidade que em outros se encontra noutras coisas que me deixa ao mesmo tempo aborrecido e fascinado.
Por isso alvitro. A mor das vezes com a qualidade das teorias que nunca se poderão demonstrar ou desmentir.
Por um caminho que a nada conduz.
Mas faço-o sempre com a convicção de que a minha vontade (a vontade humana, bem entendido) se explicará um dia, à luz da biologia ou de outra ciência qualquer. Mas com toda a certeza não será explicada aos humanos. E haverá para nós explicações e ciências para além das que entendemos e entenderemos como tal? Melhor dizendo, alguma vez aceitaremos algo que não consigamos compreender? Ou é isso o que afinal fizemos, fazemos e faremos todos os dias? E não me refiro a religiões ou crenças.

Não. Não estou a perder o fôlego.
Janela de colecção


01/03/2004

A contagem do tempo (revisto)
(a propósito de bissextos)

Sabemos todos que os nossos calendários são de base solar e lunar.
O ciclo solar, ou melhor, os ciclos solares diurno e anual determinam a nossa contagem do tempo.
Já os ciclos lunares são de mais duvidosa utilidade nos dias que correm.
Dias e anos são assim as unidades fundamentais da nossa contagem.
Semanas e meses correspondem pouco rigorosamente aos ciclos lunares.
Todas as outras, mais recentes - segundos, minutos, horas – são discutíveis. Não passam de convenções do homem na procura de um certo rigor.
Acontece que os anos não são múltiplos dos dias e que os ciclos lunares não se encaixam nos solares.
Mas a nossa necessidade de ordenar as coisas, diferente de civilização para civilização, e mais rigorosa com o decorrer do tempo, conduziu-nos a calendários mais ou menos complexos que procuram coincidir com a realidade.
A verdade é que o actual calendário gregoriano, aperfeiçoamento de outros mais antigos, e mestre da contagem do tempo, já que submeteu todos os outros de civilizações diversas, é uma manta de retalhos pouco coerente e pouco conforme com as nossas medidas decimais.
Se os dias e os anos são a base de que se tem obrigatoriamente de partir, já a dependência de semanas e meses face a um aproximado ciclo lunar, pode ser contestada.
As novas propostas de calendário coincidem mais na necessidade dos meses conterem um número inteiro de semanas do que na uniformidade quanto ao número de semanas. O que dá quase sempre meses de 28 dias, com 4 semanas de 7 dias e meses de 35 dias, com 5 semanas de 7 dias. Os acertos fazem-se depois com dias suplementares em cada ano, bissexto ou não.
Se é verdade que a deixar cair o ciclo lunar, não se vê a necessidade das semanas terem 7 dias, apesar das óbvias resistências dos sectores religiosos, também o é que não há nada que justifique o dia de 24 horas. Nem a hora de 60 minutos, nem o minuto de 60 segundos.
Nesse ponto, poderíamos até aproximar-nos da nossa preferida escala decimal: dia de 10 horas, hora de 10 minutos, minuto de 10 segundos, por aí fora, até uma unidade da mesma ordem do actual segundo.
Sabendo sempre que os dias tal como os anos não têm todos a mesma duração. Os dias evidentemente, os anos menos evidentemente.
Poderíamos até ter semanas de 10 dias, meses de 10 semanas. O que daria 3,5 meses de 100 dias mais 15 ou 16 dias adicionais. O que também não é muito racional, à partida, bem o sei.
É claro que cairia o Carmo e a Trindade em todas as línguas, se uma proposta destas fosse, por exemplo, apresentada nas Nações Unidas.
Mas, descontando todo o ruído de fundo, as pessoas não trabalhariam mais do que o tempo que trabalham com este actual calendário. As grandes religiões teriam sempre os seus feriados como os têm hoje. Calcular datas tradicionalmente dependentes do ciclo lunar não seria mais difícil do que é actualmente.
Agora, o mundo adaptar-se a isso, é outra história.
Mas não nos adaptámos já a tanta coisa nova?
Alguém se lembra da grande crise que se anunciava com a adopção da moeda europeia?
Pois então.
A questão principal é: serviria de alguma coisa?

29/02/2004

O vendedor de colchões

- Já cá esteve um a vender disso.
- O quê? A vender o quê? Então você não sabe a diferença que há entre um carro de linhas e um Mercedes 240? Tudo o que é caro, é bom!
- Mas para isso é preciso ter dinheiro.
- É preciso é ter doenças ou dores. Então você não tem 20 contos para dar por mês?
- Bem, se fôr 20 contos para isto, 20 contos para aquilo...
- Você não é capaz de dar 800 contos por uma mobília? Já pensou que se comprar uns maples só se senta neles uns minutos por dia? E no colchão, são 8 horas!
- E depende sempre como se dorme...
- Então você quer endireitar a coluna? Se você nasceu com a coluna torta, com sifose e escoliose, quer endireitá-la? Você já viu o anograma da sua coluna?
Férreo


A regra e o caso

Às vezes, vemo-nos em circunstâncias tais que o quebrar de uma regra é uma atitude de maior bom-senso do que o respeitá-la.
Outras, é isso que esperamos dos outros.
Mas nem sempre nós e os outros temos esse lampejo.
E o que é pior, nem sempre estamos preparados para o fazer.
É claro que há regras estúpidas, obsoletas, desadequadas. Todos sabemos isso, seja a que nível fôr. Seja uma lei, seja um regulamento, um estatuto ou uma regra de jogo.
O que não há é, em todas as alturas necessárias, alguém com capacidade para assim entender e optar pela sua transgressão.
E ainda bem que assim é.
Se as regras, boas ou más, não existissem, cada um jogava a seu critério e provavelmente em seu proveito.
E existindo, como existem, se fossem quebradas todos os dias e a toda a hora, seriam irremediavelmente caducas.
É bom que o não sejam.
Mesmo que já todos tenhamos sentido na pele uma injustiça, mercê de uma regra que entendíamos não dever aplicar-se em certo caso.
Mas ainda bem que há quem as transgrida, aqui e ali, com bom-senso.
As gravuras



Já tornaram ao lugar de onde vieram - a História (se quiserem pôr-lhe um Pré...).
Mas enquanto cá andaram, deram que falar.
Há até quem diga que deram uma mãozinha à chamada alternância democrática.
E proporcionaram um serviço adicional. Um espectáculo de argumentos e contra-argumentos verdadeiramente delicioso.
O tal dos defensores acérrimos.
Com um pormenor muito curioso que não foi de somenos importância.
Um dos muitos convidados de telejornais da época foi um geólogo. Que me perdoe por não lhe citar o nome. Já não me recordo.
Mas recordo-me bem do que disse. Falou sobre geologia, sobre ciclos, sobre comportamentos da rocha. Falou na sua qualidade de geólogo.
Mas foi interrompido. Interrompido porque o que interessava era outra coisa.
Não me espantei que o tivessem interrompido. Não que as suas afirmações não fossem válidas. Não que estivesse a falar sem razão. Não que estivesse a opinar ao desbarato.
É que estava a falar do que sabia.
E o que estávamos (e estamos) habituados a assistir era (e é) outra coisa.
Era a cada um a falar do que não sabia. Os formados em X, a falar de Y; os de W a falar de Z. Isso sim, é que é normal. E todos a disparatar em grande.
Não é que cada um não se possa pronunciar em campo alheio.
Com toda a certeza de que pode e deve.
Mas com argumentos válidos e sustentados, não com a certeza dos defensores acérrimos, apoiada em nada.

imagem em

28/02/2004

Tudo como dantes

Tudo em ângulo recto
Na casa dos degraus
Fez-se uma açorda
Com três paus.

Tudo em permanência
No café central
Fez-se uma conferência
No final.

Tudo engarrafado
No I.P.
Fez-se um simultâneo
Para a T.V.

Tudo em sintonia
No rebanho
Fez-se a telefonia
Tomar banho.

Tudo a contragosto
Até ao fim
Mudou-se o mês de Agosto
Para o jardim.

SG, "inéditos", 2002
Do outro lado do mar



foto de MSMS
O mundo das ilusões

Pois é. Não conheço uma única pessoa por detrás dos blogues que leio.
E não há mais do que uma que me conhece bem, que de vez em quando vem aqui espreitar.
Descontando as conversas electrónicas, os mails e os comentários trocados aqui e ali, com algumas delas, sempre numa amável harmonia, não há mais conhecimento.
Duvido que alguns dos meus amigos e conhecidos alguma vez tenham tropeçado nestas linhas.
É pouco provável.
Apercebo-me de que não é normalmente assim.
Em muitos se encontram vínculos de cumplicidade com este e com aquele, que parecem revelar mais do que um conhecimento electrónico.
Assisto a debates acesos, uns mais urbanos do que outros. Alguns manchados pelo ataque pessoal e anónimo que não se chega a perceber se é à pessoa (conhecê-la-ão?) se é só aos argumentos.
Tenho passado ao lado disso.
Por um lado, não creio que o aqui escrevo seja suficientemente polémico para despertar a ira alheia.
Por outro, não tenho por hábito marcar obrigatoriamente a minha discordância com o que leio.
Só lamento que a troca de ideias não se faça de forma mais razoável e edificante.
Grande parte dos argumentos apresentados em crítica e contra-crítica são insustentados. Por vezes, inteiramente disparatados:
“Se te vestes de verde, é porque costumas ladrar ao lado do teu cão. Pois fica sabendo que a caravana passa!”
Há muito disto. Que chegava para um anexo de compêndio de lógica.
Mas há também muita escrita lúcida e intemporal. Discorrendo sobre os eventos sem a carga do momento e sem ser tolhida por hemivisão.
Apesar de considerar que não há nada mais inútil do que uma opinião, continuarei a dizer o que vem à cabeça.

27/02/2004

Anacronismos


Decididamente

É hoje!
Decidi solidarizar-me com a notícia que ouvi há pouco.
Vou sair por aí à procura das origens da vida.
Então não foi isso que me disseram que a sonda Rosetta vai fazer?
Eu por mim posso dar uma ajuda.
Vou investigar. Afinal deve ser mais fácil do que responder correctamente ao rol de perguntas da Brigada.
O que eu gosto do nível dos nossos noticiários!

26/02/2004

A Tv das vendas

Às vezes, fazemos coisas de que nos admiramos.
Ontem (hoje, de madrugada) foi o ficar a assistir a um canal onde passavam os habituais anúncios à americana.
Tratava-se de uma pequena câmara digital, com software de edição incluído e uma pequena bolsa de cabedal(?).
Fiquei amarrado às explicações e aos argumentos.
No meio disto tudo, vem-me sempre à memória o argumento lapidar de um dos meus velhos amigos, economista de formação: "Se se anuncia um remédio para os piolhos, é porque vende. E se vende, é porque há quem tenha piolhos!"
Suponho assim que, se existem estes espaços publicitários, é porque vendem.
Embora eu me espante com este tipo de publicidade à americana. E pense que em Portugal não resulta. Mas só posso estar enganado.
Outra coisa que vem de ontem, é um certo painel de fotografias num restaurante.
Painéis de fotografias em restaurantes são coisas comuns. Uns têm mais caras conhecidas do que outros, mas é uma moda que pegou.
Não é um resultado agradável.
É até confrangedor. É o povo na sua expressão de olhar para o passarinho.
Mas depois levanta-se uma questão.
E quando o tempo fizer das suas?
Quando toda aquela quantidade de fotos a fugir para o vermelho se converter em documento histórico?
É certo que há diferenças entre as fotos de um olhar e de outro.
Há fotos com mais interesse do que outras.
Eu que tenho muitas dúvidas quanto ao que é arte e o que não é, às vezes fico a olhar para certas fotos de mão não profissional e vejo uma qualidade impressionante.
Não foi o caso naquele painel.
Mas é o caso, entre outros, de uma foto que possuo que retrata a praia da Zambujeira em 1932. Todo o povoado coube na película.
Ou de uma outra de um camião nas margens do Guadiana no final dos anos 50.
Ou aquela da L'Étoile nos alvores de 50, com os vestígios da guerra ainda visíveis.
E fico-me a pensar.
Nos dias de hoje, com tanta máquina de filmar e fotografar sempre presente, que legado deixaremos aos vindouros?
Será tudo mau? Ou o tempo encarregar-se-á de lhe dar alguma beleza?

23/02/2004

Cartas



O Sr. HB9GJDT FGT S673GA DX SAU7222 esteve cá em casa a jantar.
Passou a noite a dizer que nunca compraria certo casaco que vira numa das lojas mais caras de Lisboa, só para jogar às cartas.
Completamente obcecado com a situação, sabe-se lá por quê, foi para casa e narrou a experiência no seu blogue. Foi de resto muito gentil com os anfitriões, como é seu apanágio.
Os comentários começaram a chover.
Diz um que "...só os porcos capitalistas compram casacos só para jogar poker com o dinheiro do proletariado..."
Diz outro que "...não percebi. Então o casaco é só para as cartas ou também serve para outras ocasiões? Quanto é que custa?..."
Outro ainda comenta "... que merda é esta? Que sítio é este? Isto é um blogue?..."
Um pouco abaixo, há quem diga que "...os casacos são como os colchões, eh eh. O uso é que é importante! Pois. ..."
E ainda quem sugira "... e se pagasses os impostos, pá? Cambada de mafiosos, que só cá andam a espezinhar o pessoal! Casacos, hem? Ainda há coisas destas? Sim, porque você é uma coisa qualquer vestida de..."
A tudo isto, o Sr. HB9GJDT FGT S673GA DX SAU7222 nada respondeu.
Deve, por certo, continuar a matutar no casaco. Que ao que me lembro, era verde com uma discreta quadrícula amarela.

imagem adaptada de

22/02/2004

A ignorância dos riscos

Já aqui falei sobre riscos, a sua ignorância e a sua prevenção.
Uma história tão velha como a da sobrevivência.
As novidades quase sempre acarretam novos riscos. Para muita gente desconhecidos.
Foi assim com o cavalo-de-ferro, com a energia eléctrica, com o automóvel.
Com tudo o resto.
Hoje, a evolução rápida no acesso a certas coisas fez com que muita gente lide com coisas que não domina por atavismo. Se é que filho de peixe sabe nadar.
A novidade não são as coisas novas. São as coisas a que nunca se teve acesso.
Das mais simples ou seguras às mais complicadas ou arriscadas.
A ignorância de regras há muito conhecidas de outros, faz com que se corram riscos desnecessários e ridículos.
Vem isto a propósito de correntes para a neve. Podia ser a propósito de outra coisa qualquer, como banhos na praia ou canalizações de gás.