07/06/2004

Não olhem para o sol



Volta e meia, há destes avisos.
Não olhem para o sol, não façam isto e aquilo.
Eu fico de boca aberta. Bem, pode ser que batam na tecla por causa das crianças. Mas depois vem-me à cabeça a inevitável vontade de contrariar que os homens em tenra idade possuem. Será que repetir isto a torto e a direito não é contraproducente?
Quanto aos adultos, haverá alguém no seu estado normal de razão que se disponha a queimar a retina? Isso não faz parte de um certo instinto animal, com o qual já de crianças estamos equipados, independentemente da informação que possuímos?
Não haverá dados sobre o assunto? Quantos casos de cegueira se conhecem, causados por tal situação?
Valerá a pena tanta conversa?
Se vale, se realmente vale, então a evolução é um mito.
E, às vezes, face a certas campanhas e a certas afirmações é a conclusão a que chego.
Há gente que já não tem os pés assentes na terra. Isso será evolução ou será o quê?

Imagem em
Traços velhos


06/06/2004

Le jour J plus 21915

Hoje fiz uma coisa que é raro fazer. Pendurei-me na televisão e ali fiquei a ver as cerimónias.
Fiquei com a impressão de que bateram as de há dez anos.
Nesta coisa de comemorar as décadas, daqui a uma mais, já não haverá muitos sobreviventes.
Uma coisa que vi acontecer nas manhãs da Avenida da Liberdade, em onzes de Novembro sucessivos. Cada vez menos homens em sentido frente à estátua.
Compreende-se assim que estas comemorações tenham sido grandiosas.

Não enveredo por outras explicações mais complicadas.
Inúmeras considerações inúteis se poderiam fazer.
Mas a História, seja a história desta comemoração seja o do evento celebrado, não se justifica.
Acontece.
Iludidos andam aqueles que procuram justificações para tudo e para nada.

Na verdade, a única certeza que a História nos ensina, é que não há justificações para a História.
O que fez desencadear a guerra?
Uma coisa é certa. Não bastou um cabo austríaco para incendiar o mundo.

Talvez um dia quando o tal algoritmo evolucionista fôr descoberto e as condições iniciais se estabeleçam tal e qual, se saibam estas e outras respostas.
Até lá, é inútil tentar justificar a História. Mesmo esta que nos é coetânea.

05/06/2004

Em casa

Não me informei sobre a origem da expressão imortalizada em azulejo.
Os de língua inglesa também a usam, suponho que a nossa é uma tradução à letra. Não faço ideia.
Se fosse possível averiguar junto dos outros animais se este conceito também a eles se aplica, independentemente de ser uma planície, um lago, uma gruta, uma montanha, uma praia, um banco oceânico, talvez se conseguisse perceber mais sobre a fixação animal dos homens aos lugares...
Se... se... talvez... Surpreendo-me muitas vezes com a inutilidade de reflexões deste jaez que me passam pela cabeça.
Podia ser um pouco mais claro, meu caro? Ingleses, animais, azulejo, lugares... está a falar de quê?
Home, sweet home - será isso?
Bem, a verdade é que hoje li algo que me transportou de novo para...
Para a janela dos pardais? Para o muro de cem anos?
Para o meu lugar. Se não é o lugar de um homem a casa onde viveu grande parte da sua vida, onde deixou a marca de água nas madeiras, nos rebocos, nas árvores, aquele casmineiro não terá nascido da insistência em enterrar caroços?
Começou o verão, falta-te o muro e o azul, pardais madrugadores e folhas de nespereira.
Começou o verão do sol, que o oficial é só daqui a dias.

04/06/2004

A propósito de verões, ozono, mulheres e médicos

É sabido que em 1993 se verificaram os mais baixos níveis de ozono estratosférico registados sistematicamente.
O abaixo assinado não contava até então nos seus próprios registos uma que fosse queimadela do sol.
Numa tarde desse ano, e por circunstâncias que não vêm ao caso, descuidou-se.
Não se queimou muito mas ficou com aquela picadinha irritante debaixo da pele. E um bocadinho abananado.
Ao fim de um dia de férias estragado, lá se dispôs, cabisbaixo, a enfrentar a fila do Centro Médico. As mulheres acham sempre que os homens se deixam abater mais do que a conta.
Depois de uma horita de espera, lá se abre a porta amarela. O próximo.
"Então, c....., o que é que fazes aqui?"
Quando saí, risonho e triunfante e no vê lá tu quem é que estava a dar consulta, nem a cara dela me fez parar a pequena resenha das aventuras dos anos de Lisboa.
Já na farmácia, para o avio, é que me dei conta que elas às vezes podem ter razão.

02/06/2004

Ciência e cepticismo

Uma das coisas que me põe os cabelos em pé, em se tratando de ciência, é a desabrida conclusão do "nothing happened" face à igualmente desabrida inquietação dos especuladores.
Quando acontece qualquer coisa que não é fácil de entender, como o caso dos avistamentos de ontem, é sabido que as hostes do sensacionalismo e de outros ismos fazem uma festa.
Mas o que me choca é que face à onda de disparates que rapidamente se propaga, se assista a uma reacção supostamente científica de tentar explicar de imediato e de qualquer forma o que sucedeu.
As explicações como facilmente se percebe são meras efabulações. Muitas delas encerrando o próprio contraditório e pouco ajustadas aos relatos e às observações dos aparelhos.
Esta pressa da ciência em se querer equiparar à especulação em nada a ilustra.
Ainda estou à espera de saber o que aconteceu no verão de 1979. Que comparando com ontem foi um fenómeno de muito maior visibilidade.
Desanuviando



Foto de MSMS
Ah, pois!

Não sou, nunca fui adepto desta expressão.
Mas é o que me apetece dizer às vezes.
Há umas quantas situações para as quais não fui construído.
Uma delas é enfrentar alguém que nos julga completamente idiotas.
Isso pode suceder face a um vendedor de qualquer coisa, pode suceder com um comprador que se julga de olho vivo, pode suceder com um conhecido que nos aborda a propósito de qualquer coisa, tendo em mente outra diferente e que pensa que nos enrola.
E pode suceder em muitas outras circunstâncias.
As pessoas que assim agem, têm-se em tão alta conta que nem sequer se apercebem das suas muitas limitações. Geralmente, dá bota o discurso que preparam ou que lhes sai torrencialmente.
Não sei se sou muito desconfiado, não sei se é por ser alentejano
A verdade é que a tentação vai logo no sentido de uns quantos enfastiados "Ah, pois!" que lá consigo evitar à última hora.
Reajo mal ao comprador que desfaz quando não é meu hábito valorizar o que vendo. Faça o favor de inspeccionar o material, o preço é xis. Quer, quer, não quer, fica para a próxima.
O mesmo na situação inversa. Talvez a minha costela de regateio esteja hipotrofiada. Deve ser isso.
Mas o que mais me incomoda, e isso incomoda-me mesmo, é aquela coisa de conversa mole a propósito dos astros quando se está a ver que o objectivo é outro e parece que nos andam a sondar.
Não tenho mesmo poder de encaixe para isso.
Com este, já são dois posts de indignação. Nada a ver com a vida virtual. Mas com tudo a ver com o que se passa fora das quatro linhas do monitor.

O "Ah, pois!" de que eu gostava era dito por um velho amigo à passagem dos tais exemplares femininos. E a entoação era outra, muito diferente.

Desabafos, pois.

01/06/2004

Condutas

Quer a gente queira quer não, ética e moral a cada um a sua.
Talvez apenas por não ser homem de fé, sempre desconfiei dos excessivos ordenamentos sobre uma e outra.
Claro que são essenciais. Essenciais na medida em que do ponto de vista histórico, chegámos onde chegámos mercê de imposições que os homens atribuíram aos deuses.
Mostrando assim que o castigo é certo.
Mais do que as leis dos homens, as leis e os castigos divinos amedrontaram muita gente.
Vá-se lá demonstrar que assim foi. Mas descansa-nos pensar que sim. Como se isso agora fosse importante.
Não creio que seja muito difícil aceitar que o homem mais do que à justeza das leis, reage ao risco do castigo.
Se não crê que haja castigo divino, apenas teme o castigo dos outros homens.
O que não invalida que não construa a sua própria ética, a sua própria moral, provavelmente a partir de um base atávica fundada na religião dos seus antepassados.
Anda assim entre os limites auto-impostos e as barreiras que a sociedade lhe impõe, quer estes intervalos coincidam (o que é muito pouco provável) ou não.
De outro ponto de vista, há os que acreditam na bondade dos homens e os que não.
No meu caso, considero apenas que os homens são máquinas que lutam para sobreviver e para se reproduzir e que nada de bom ou de mau há à partida nelas.
Aceito isso dessa forma e sendo eu uma máquina igual, luto também pelo mesmo. Só isso.
Todas as minhas decisões se subordinam a esses dois princípios. Disso me convenço.

Optei por manter um certo grau de anonimato neste blogue.
Não tenho nada contra nem a favor de quem optou por se identificar.
Cada um sabe de si.
A decisão que tomei, subordinada ao que acabei de dizer sobre a espécie humana, vá-se lá saber como é que se formou.
Mas formou-se tendo como pano de fundo a ideia de que o anonimato não permite muita coisa. Não permite crítica directa, não permite apreciações específicas e também não deve albergar grandes encómios.
O que é uma limitação que não me importo de me impor, tendo em conta certo número de vantagens.
Entre essas vantagens inclui-se a baixa probabilidade de sofrer ataques pessoais.
Não é que os tema, mas aborrecem-me. E não escrevo aqui para me aborrecer.
Em boa verdade, não serei dos que mais inimigos de estimação fomentaram. Mas toda a gente os tem. Se me perguntarem quem são, não saberei identificá-los. Será falsa modéstia? Não sei.
Perdoem-me desde já todos os meus leitores.
Todos eles, sem uma única excepção, de uma elevada atitude quando por aqui deixam a sua achega, concordante ou discordante. Não tenho por isso a mínima razão de queixa e talvez soe a despropósito este texto.
Mas aceito mal ataques que vi nos últimos dias e que tenho visto ao longo do tempo, a pessoas que considero neste universo blogueiro.
Ataques cobardes, anónimos (o anonimato dos cobardes não deve, não pode diminuir a todos os que o escolhem) e pessoais.
Pessoais porque se dirigem só à pessoa que escreve e nada ao que está escrito.
Não quero dar lições a ninguém e nunca tive o sonho de mudar o mundo. Aceito as coisas como são. Há pessoas que para sobreviver precisam de ter uma ética muito própria, que repugna à maioria.
A mim, repugna-me. Mas tenho que viver com isso.
E porque tenho que viver com isso, decidi pelo anonimato.
Mais uma vez, peço desculpas aos meus leitores.
Vós não mereceis que estas linhas aqui saiam. Mas também não é a vós que me dirijo.
Hoje escrevo para quem me não lê. E ainda bem.

31/05/2004

Objectos únicos



Anteontem à noite, Peter Gabriel trouxe-me à memória uma presente de aniversário recebido há umas décadas.
Trata-se do LP Peter Gabriel 2. O exemplar que me ofereceram é feito a partir de massa preta e branca.
Um LP raiado. Haverá outros de outras edições de outros autores. O meu, ao que me disseram na época, é unzinho e foi feito de propósito.

30/05/2004

Aberto o concurso

Declaro aberto o concurso público para a atribuição do meu voto nas eleições europeias de 13 de Junho de 2004.
Serão admitidos a concurso todos os candidatos enquadrados em listas de acordo com a Lei em vigor.
Serão excluídos todos aqueles que não consigam entender a diferença entre acesso(s) e acessibilidade.
Não terão acessibilidade é o que é.
Os cheiros do verão

Este ano está chocho. Estamos aqui, estamos em Junho e nada.
Talvez eu cometa um erro ao afirmar que os aromas do verão me marcam mais do que os de outras estações do ano.
Muita gente cita os dos primavera.
Mas a verdade é que guardo na memória uma colecção de perfumes estivais.
Uns mais naturais do que outros.
As praias têm cheiro. Cada uma o seu.
Os carros cheiram a quente.
Os montados cheiram a cortiça.
Os caminhos cheiram a pó.
Mas este ano está chocho. Muito chocho.
Mudem lá isso para o verão.

28/05/2004

Isossistas da comoção



Tomemos como exemplo o terramoto de 1755. Ainda hoje se tentam reconstituir as isossistas desse dia. Quantos abalos houve? Centrados onde?
As fontes são inúmeras, toda a gente o sabe. Um fenómeno natural que para a época quase anunciava o fim de l'Ancien Régime.
Mas são pouco esclarecedoras. Não fosse a colecção de registos do Inquérito às Paróquias e outros documentos de acervos locais, o quadro da desgraça não seria tão conhecido.

Suponhamos agora que a comoção é uma grandeza escalar. Sem grande rigor, uma Mercali das sensações.
Suponhamos também que a importância de um acontecimento mortífero é uma grandeza escalar, directamente proporcional ao número de mortes.
Sabendo que um acontecimento deste tipo pode consensualmente ocorrer num intervalo de tempo mais ou menos extenso, quer de trate duma guerra, duma peste, dum furacão, dum terramoto, de um acidente causado pelo homem, suponhamos que é possível relacionar directamente um certo número de mortes com o sucedido.

Atrevamo-nos a dizer que existe uma relação linear ou não, entre a importância de um acontecimento deste tipo e a comoção por ele provocada em grupos humanos.
Se existe essa relação e se tanto a importância do acontecimento como a comoção geradas podem ser medidas, por serem grandezas escalares, poder-se-á decerto mapeá-las.
A um acontecimento produzido no local L, de importância I, corresponderá, em certo instante pertencente ou não ao intervalo da sua duração, um conjunto de isossistas (chamemos-lhe assim) passando por grupos humanos sujeitos a uma comoção de igual grandeza.

Suponhamos que tudo isto é possível.
Que surpresas nos guardariam os mapas de alguns dos acontecimentos recentes?
Que factores se teriam de levar em conta para explicar o desenho das curvas?

27/05/2004

Subtis, o cacete...

Eu sempre tive a impressão que batatas com bacalhau não era a mesma coisa que bacalhau com batatas.
Acho que não foi na escola, não foi em casa. Foi algures no mundo que aprendi ou que ganhei essa impressão.
Mas vejo essa diferença ser hoje ignorada. Da mesma forma que não há mestres de cantaria, entalhadores artistas e outros profissionais do milímetro, as subtis diferenças também se foram.
Nem em tudo, é claro.
Mas dir-se-ia que no geral, para quem é, bacalhau basta! Ou serão só as batatas?

26/05/2004

Pistas

Aquele era o sítio.
Pequeno por dentro, grande por fora.
Música que se amaciava dos decibéis a mais, à medida que caminhava na direcção da praia.
Escadarias, pequenos recantos, a lua por acaso cheia.
Olhava o rosto dela a essa luz.
Não sabia muito bem que rótulo lhe apor. Segunda escolha?
Segunda escolha decerto não naquele dia. Naquele dia não. Olhara para ela com outros olhos.
Um rosto que ele supunha não voltar a ver. Ofuscado que estivera sempre pelo sorriso de uma estranha presença.
Não. Segunda escolha não. O que seria feito da pequena princesa atormentada que surgia sempre do nada?
Essa sim, essa não apareceria mais.
Não ofuscaria o brilho ligeiramante estrábico daqueles olhos. Não. Não viria.
De repente, o remorso. Porquê? Por que carga d'água nunca reparara a sério naquela face?
A música apenas se misturava com o som do mar. Com as palavras pouco mais do que ciciadas que ela pronunciava.
Teria reparado outrora? Seria por isso que a sentara no banco das suplentes?
Não. Agora, o banco era de tijolo, muro acabado a tartaruga. Tudo branco. Branco brilhante nos contornos da íris castanha. Pequena divergência.
Suave a pele, tão suave. Morena. E serenas as palavras, sempre serenas.
Não mais procurou fosse quem fosse. Apenas um ou dois copos apanhados no bar, à revelia da comitiva. Aquele rosto não fazia parte do catálogo que os outros lhe atribuíam.
E ninguém mais se acercou da pequena plataforma sobre a praia.


Caminhou lado a lado com a inevitável companhia mais uma vez.
No terraço, seguiu o mesmo caminho.
Quando reparou que ela se encostava ao mesmo muro, da mesma forma, voltou a lembrar-se da segunda escolha.
Depois, ela tocou em qualquer coisa que estava no chão.
"Olha lá, onde é que te meteste ontem à noite?"

Dançaram como sempre. As mesmas músicas.
Ao fim da noite, discretamente, voltou ao recanto e roubou do chão o copo da véspera.

25/05/2004

Sob estes olhos

Vento do deserto
E mar suado.
Na costa dos Esqueletos
Aportei.
St. Exupéri caiu mais a norte,
Mas não tenho bússola
Que me desdiga.
Há um rosto na praia
Entre barcos em ruínas.
No olhar, pistas, rumos,
Travessias.
Farol falso de contrabandistas
E piratas.
Travessias dos desertos
Ou morrer na praia
Sob estes olhos?

SG, inéditos, 1998

24/05/2004

Pantalássico

Estatísticas, registos, anotações.
Eu sempre fui mais pelos sítios onde ousava abandonar o estado de vigília. Uma espécie de mapa dos locais seguros para baixar a guarda.
R.C. ao contrário, anotava as bacias hidrográficas onde vertia águas. Tinha o objectivo último de ser pantalássico. Contribuir para a massa de todos os oceanos, sendo que todos são um.
Soube disto num cais qualquer do Sena.
Faltou então o terceiro português para completar o provérbio.



Foto de MSMS
Os habituais disparates

Nada disto é, mais uma vez, novo.
Gosto pouco de falar de actualidades, mas há algo recorrente nestas coisas que, aparentemente, não é visto, não é assinalado.
Falo do colapso da estrutura de betão do aeroporto de Roissy.
Há qualquer fenómeno na nossa sociedade, decerto já estudado por alguns, que parece dividir os cidadãos entre os filhos da filosofia grega e os repetidores de argumentos sem sentido.
Uns dirão que é a massificação da comunicação, outros que sempre assim foi e que o que essa massificação faz é não difundir o erro mas ampliá-lo. Sendo coisas diferentes.
Dou de barato que o racionalismo não é tudo na vida. Já aqui o disse por mais de uma vez. Mas continuo convencido de que, tenha ele as bases onde as tiver, falte-lhe a consistência e os dados que lhe faltarem, nos trouxe até ao patamar em que estamos.
E que é difícil (só difícil?) discutir seja o que fôr sem usar lógica. Depois, até podemos discutir (?) a discussão em si, a sua validade, por aí fora...
Retomando.
Independentemente da minha falta de informação, pois apenas disponho dos dados que obtive nas televisões e nos jornais, parto do seguinte conjunto de informações:
Existia uma estrutura em betão do tipo túnel com janelas, em que assentava uma outra estrutura metálica de suporte a vidraças.
Essa estrutura colapsou depois de fissurar.
Suponho (com algumas dúvidas) que o troço que colapsou era idêntico aos adjacentes.
A estrutura estava ao serviço há cerca de um ano.
Ouço depois as habituais lengalengas:
Que a estrutura foi feita à pressa.
Que a data da inauguração prevista foi postergada por mor da falta de condutas secas (?) para os bombeiros, de sinalização e ainda por ter caído um candeeiro.
E que durante a obra, as falhas de segurança do estaleiro eram evidentes.
Isso foi o que ouvi e que li.
Ora isto leva-nos onde?
Leva-nos a um primeiro ponto que é recorrente e esclarecedor: quando acontecem coisas destas, há sempre um sem número de factores irrelevantes mas supostamente negativos que nos é apresentado como decisivo - a falta de sinais, a falta de condutas, o candeeiro caído e a insegurança do estaleiro. Faltou dizer que o engenheiro chefe usava sempre uma camisa negra e que as garrafas de água bebidas pelos operários eram de duvidosa proveniência.
É com esta espécie de argumentação que se pretende explicar o sucedido.
E leva-nos mais longe, leva-nos a ignorar que quando colapsa uma estrutura destas, uma de três coisas deve ter acontecido: ou foi mal calculada, ou foi mal executada ou foi sujeita a esforços para os quais não estava dimensionada.
Dando de barato que não houve um sismo de grande magnitude em Roissy ontem de manhã, que nenhuma aeronave colidiu com o terminal e que não se procedeu a uma demolição propositada da estrutura, podemos eliminar a terceira hipótese.
Ficamos com o erro de projecto ou com má execução.
Aqui faz algum sentido apanhar o sentido das frases soltas que se ouviram - foi tudo feito à pressa!
Ah, pois foi! E não é isso o que sucede hoje em dia em todo e qualquer lado? Que obra pública ou privada se faz hoje sem que haja uma correria desenfreada contra o tempo?
A frase ridícula de alguém que dizia que agora pensava duas vezes antes de entrar num aeroporto poderá ter sido dita por quem reside num edifício construído à pressa, por quem transita por vias feitas à pressa, por quem assiste a jogos de futebol em estádios feitos à pressa...
Tudo se faz a correr. É o sinal dos tempos. Não adianta berrar a torto e a direito, porque quem decidiu isso fomos todos nós. Todos queremos mais produtividade, mais riqueza criada pelas nossas mãos, mais dinheiro ao fim do mês.
Às vezes pagamos caro por isso.
Ainda se há-de descobrir o que aconteceu. Mas de certeza que não foi por não haver sinalização, condutas ou pela cor da camisa do engenheiro responsável que a coisa se deu.

23/05/2004

Z - À falta de material



Podem, sim. A gente tem pressa no trabalho feito.
E depois, como é que fazemos? Para fechar as portas, essas coisas...
Ah, não se preocupem, o guarda há-de vir aqui. Depois, avisam-no quando saírem...

E assim foi, a tarde caiu. A noite fechou-se, os holofotes lá apontavam para as reparações que iam sendo feitas.
O cansaço acumulava-se, até porque a semana já tinha incorporado outras noitadas.

Ô. Ô. Ô. - era assim a modos que um grito. Uma vaia sem vocativo.
A parte da nave industrial que os holofotes não cobriam apenas tinha aqui e ali um ténue brilho de reflexão. Parda.
Do meio disso, surgiu a figura. Baixa, com uns óculos de massa e um boné de orelhas, que o frio apertava. Não para eles que trabalhavam para aquecer. Um cão pouco mais que minúsculo, acompanhava as botas que podiam ser de elástico. E levantava, orgulhoso ou requerente, o focinho.

Não esperavam já guarda nenhum. Eram quase três da manhã e ainda havia muito para fazer.
A figura surpreendeu-os, de facto.

Então, aqui andam, a trabalhar...
É verdade.
Não me disseram nada.
Não?
Não. Ninguém me disse que vocês aqui estavam. Até podia ter trazido o cão. Ou a arma. Mas nunca solto aquela fera. E não gosto de apontar uma arma a um homem, atão e agora?
Quer dizer que estávamos sujeitos a ataque?
Ladrões... ladrões... atão veja lá. Ninguém me disse nada. Eu é que não quis trazer a arma. Nem o cão.
Pois é, a gente disse ao seu patrão que ia ficar. Ele disse que o avisava.
Mas estão a trabalhar... Se vocês soubessem como os outros aqui penaram... à falta de material. Eles bem queriam trabalhar, ficavam aqui também à noite, mas... à falta de material, o que eles aqui penaram... Vocês têm tudo o que precisam? Não lhes vai acontecer como aos outros, à falta de material...?
Não. Esteja descansado. Não será à falta de material...
Mas está frio! Não têm frio?
Frio? Há lá frio que entre com a gente, homem! Estamos a trabalhar.
Pois eu tenho. Tenho que andar de um lado para o outro. Mas não trouxe o cão. Vocês sabem lá do que aquilo é capaz. Este não. Este coitado. Agora a fera... nem lhe abro a porta do canil. É perigoso. E também não sou homem para apontar uma arma a outro homem, atão e agora?... Mas não me disseram nada...
Pois é, esqueceram-se.
Não lhes disseram para irem ter comigo? É que eu nunca aponto uma arma a outro homem, atão e agora... Também nunca quis conhecer outro homem, atão e agora? Mulheres? Mulheres, já conheci muitas. Agora outro homem, nunca quis conhecer nenhum... atão e agora?
Pois é, faz bem.

Amigo, vamos embora.
Tá tudo pronto?
Tá. Se a coisa correr bem, só voltamos para a semana.
Ah sim? Atão e o que é que pode correr mal?
Pode acontecer que ainda haja chochos para preencher. Só depois do material secar, é que se vê.
Ah sim?
É. Por agora, parece bom. Mas daqui a umas horas, pode ser que apareçam pequenos orifícios, coisa pouca.
Atão e eu não posso ver isso?
Pode. Você é capaz de dar uma vista de olhos e ver se está tudo na mesma? Venha cá que eu explico-lhe o que é que pode acontecer...

Teja descansado. Daqui a umas duas horas, ligue-me.
Tá certo.
Sabe o número?
Então não é o número aqui da fábrica?
É. Mas você faz o seguinte: Dá-me uma letra. Por exemplo Z. Liga e diz Z. Não diz mais nada. Assim eu já sei que é você e digo logo: Sem novidade!