06/11/2006

As catástrofes que não aconteceram

Sabe-se lá quantas são, foram. E raramente se perde tempo a analisar o que propiciou que quase acontecessem, seja o acaso ou a intervenção humana a evitá-las.
Vi ontem e hoje as imagens do troço da Linha do Norte que ficou suspenso. Tal como há nove anos aconteceu na Linha do Sul, perto de Panóias. Dessa vez com maior aparato.
Sobre este caso, não faço ideia do que se passou. Como é que se evitou que um comboio terminasse ali a viagem em tragédia.
Mas o simples facto de acontecer já é perturbador. Não é preciso muito esforço mental para perceber que a sorte influiu. Se o assentamento da linha se houvesse produzido pouco tempo antes de por ali passar um Alfa ou outro qualquer de passageiros, era certa a catástrofe.
Sabemos todos que as coisas são calculadas para resistir a solicitações até a um limite improvável no seu tempo de vida. Parece-me é que estes limites calculados estão muito aquém da realidade.
Um dia destes, não há sorte.


imagem da SIC N
O comboio (IX)


Estação C.F. do Setil, 2006

04/11/2006

Declaração



Eu, ponte sobre a Ribeira de São Domingos na E.N. 390, vinda a este mundo entre 5 de Agosto de 1957 e 4 de Agosto de 1958, há portanto mais de 48 anos, e aqui em foto tipo passe, venho por este meio reputar, como Twain, de muito exageradas as notícias sobre o meu desaparecimento que alguns, incapazes de reconhecer a olho nu os livores da morte, se encarregaram ontem mesmo de difundir.

31/10/2006

O comboio (V)



Estação C.F. de Alcácer do Sal, 1993
E como é que o homem se sente?

Como se estivesse numa colectividade de bairro, com pretensões, dirigida, na falta de melhor, pelos mais burros dos apanha-bolas*.
É assim que ele se sente.


*os lambedores de caricas que lhes almejam o lugar são iguaizinhos, é claro.
O comboio (IV)



Estação C.F. do Barreiro, 1993

30/10/2006

O meu mau feitio - episódio n+1

Depois de terem ensinado aos papagaios que o prefixo alegado deveria figurar sempre, mas sempre, que se falasse de alguém em vias de ser julgado, chegou o dia em que eu ouvi alguém dizer, na SIC Notícias, que aqueles (os indivíduos supostamente* "alcaidas", mortos pelas forças armadas paquistanesas) eram alegados inocentes.
Não me pareceu só bem. Pareceu-me muito bem dito.


* ou alegadamente
A minha campanha



Estudos MUITO científicos indicam que a redução para metade da população humana elimina TODOS os problemas ambientais.
O comboio (III)



Passado - Estação C.F. de Sines, 1995

28/10/2006

O comboio



Creio que o comboio não será indiferente à maioria dos que já o viram.
A mim não o é, seguramente. Como não o será aos velhos que ainda se reúnem, onde isso lhes é permitido, a vê-los passar.
Conheci pessoas, algumas da minha idade, que só quase adultas o viram pela primeira vez. O comboio e o mar, acrescentam por vezes. E colocam-nos a ambos em pé de igualdade no deslumbramento.
O comboio nasceu-me. Estava nos meus pais, nos meus avós, bisavós. Ao lado de uma casa onde cresci, audível em silvo e em atrito nos carris, nas noites da outra onde me fiz.
Estava por ali, fugindo nas terras da família, roubando o nome do Monte de um bisavô.
Estava por detrás da escola. Estava ao atravessar a linha todas as manhãs, todas as tardes, para cá e para lá.
Estava nas tragédias da gente que ali ficava para sempre, trazida pelo suicídio ou pelo fado, deixada debaixo de um oleado, horas sem conta, à nossa vista de miúdos curiosos da morte.
Estava nas viagens. Nas ambulâncias militares com grandes cruzes vermelhas que dele se viam ali em São Domingos de Benfica, apeadeiro morto e enterrado há muito. Nas mudanças geológicas das paredes cavadas antes de Campolide. Nas entranhas do túnel. Nos quiosques da estação.
Nos bilhetes. Nos horários desactualizados que arrematei há uns anos a um velho amigo que mos cedeu com agrado, a troco de um aperto de mão.
No apito de partida, nas bandeiras, nos petardos de paragem raramente ouvidos.
No cheiro das travessas e do metal. Nos armazéns de mercadorias, escuros e aromáticos também. Etiquetas de todas as proveniências que imaginar se possam.
Nos abrigos de madeira, nas calçadas com nome, nos edifícios de projecto idêntico.
Nas locomotivas.
Nos comboios de quase luxo, com sinetas para a segunda leva do jantar e respectivos bifes com mostarda abanando a compasso em cima da mesa.
Nos sons da buzina ao passar das estradas canceladas.
Nas descidas das vertentes do desaterro da linha. Na árvore do Stingray.
No túnel entre medronheiros, em terras do meu Tio.
Nas idas de bicicleta a ver passar e parar o Rápido. Nas bifanas da estação comidas no horário do comboio correio. No dito, com os militares a dormir na cochia (em vez de coxia).
Nas noites do último. No afugentar de El-Rei.
Nas mãos do louco que se interpôs em abraço entre mim e a morte, a troco de um maço de cigarros e de um outro ingente abraço.
E no final, chegando a casa, sempre a casa. Quando os cumprimentos na gare semelhavam a apoteose e a searas secas, à espera da debulha*.
E, talvez, um dia ao fundo do quintal uma vez mais passe o comboio.


Os próximos dias serão aqui de consagração do cavalo de ferro.



*SG, "Seara seca", 1985
Comboios em Portugal



Hoje há comboios de borla.

27/10/2006

Eleições II

A esse concurso entre vivos e mortos, do qual se diz que os mortos estão a levar a palma aos vivos, prometi ou não voltar fazendo campanha. Aí está:



É uma senhora.
Aturou o Zé Povinho uma vida inteira (dizem).

Bastam estas duas alíneas para merecer o meu voto.

imagem original do Museu Bordalo Pinheiro
Eleições I

Se o meu velho amigo benfiquista V.H. me encontrar daqui por uns tempos, à mesa do café, é bem capaz de dizer que, por estes dias, Luís Filipe Vieira ganhou a Luis Inácio da Silva.

26/10/2006

Isabelle

Ele há mistérios. Se não era a mesma, era o Diabo por ela.
Na bomba de gasolina.
De Peniche.
Ontem ao cair da noite.
Pergunta

Uma maldade que se não pode fazer a este governo, bem como se não poderia fazer a todos os outros que contribuíram para este desfecho, é perguntar qual é a vantagem para Portugal de vender Cabora Bassa.
Pobre, triste País que tais políticos alberga.