16/07/2008

Memória com estrada galgada

Faz hoje vinte anos que bati o meu recorde daqui (da foz do Tejo) até Tavira.
Mais de oito horas. Por um caminho que, mais troço menos troço, foi mais tarde designado por “rota amarela”, o que muito me desagradou, já que era aconselhado como alternativa ao congestionamento.
De Palmela para lá, sempre fora das canadas da transumância, como era meu hábito nesse tempo em que coincidia nas calendas com os grandes rebanhos.
Acho que só fui apanhado uma vez numa fila de trânsito daquelas a sério, desde a época em que as estradas começaram a ficar sazonalmente saturadas.
Já não me recordo qual foi o erro de cálculo que cometi então.


trecho do mapa do ACP - 89ª edição

15/07/2008

Memória com comboios em fundo



Já não sei a que propósito parei o carro naquele sítio. Talvez porque te tinha acabado de apanhar na estação e queria discutir pontos antes de te confrontar ou não com a minha família, com a velha casa de cinco gerações.
O sítio pareceu-me aprazível para um colóquio estival de fim de tarde.
Dá-me ideia de que, muitos anos então já passados, era a primeira vez que olhava para aquele trecho com outros olhos. Um sítio com vista para a ponte, o vale desenhado no horizonte próximo e o ondular dos campos para lá, para sudoeste, até à finisterra cúnea.
Nessa altura ainda não me dava para arquitectar uma casa ali no meio. Uma casa onde fosse despertado pelo som dos comboios nocturnos. Antigamente o comboio-correio hoje qualquer coisa que ande a desoras, se a houver.
Talvez nessa época nem sequer tivesse a noção de que aquele pedaço me viesse um dia parar às mãos.
Acende-se e apaga-se na gaveta dos impulsos esse daí abrir caboucos.
Nesta foto estavas ao meu lado, uns bons anos depois.

14/07/2008

Ainda os alojamentos e realojamentos

Não consigo já ouvir os crentes. Os que acreditam. Os que dizem as pessoas têm que.
Há um mito urbano recente – tomo-o como tal, não tenho razão nenhuma para pensar que seja verídico – que ainda assim reflecte bem os tempos que correm – é aquela sequência de últimas palavras que é atribuída a Theo van Gogh.
Uma destas noites

Na rua, aqui ao virar da esquina, apenas eu e um tipo que volteou do canteiro para trás, acção – reacção com o ramalho de flores arrancadas na mão.
Volteou, titubeou, balançou, hesitou, adejou, cambaleou e voltou a voltear. Quase sem norte.
Não havia forma de eu não construir uma personagem na outra ponta da história.
Anseios

Quem eu gostava de ouvir agora eram aqueles tipos que enchem a boca com as minorias étnicas.
Mas, pelo que ouço, nem piam.
Posso estar surdo, é claro.

12/07/2008

Um dia assim

Há dias que são preenchidos, hora a hora, minuto a minuto, numa intensidade inebriante.
O último de que me lembro bem – muito bem – foi o que decorreu faz hoje dez anos.



Não era terça-feira, o Aleixo tinha a porta aberta.
E também tinha a televisão ligada ao jantar – estava a dar a final do campeonato do Mundo.
Tenho uma vaga ideia de ver o Dunga vestido de amarelo, já aqui o disse.

11/07/2008

Os guetos e o planeamento urbano

Não há grau para os disparates que se ouvem, em tom de certeza, a propósito das políticas de alojamento e realojamento.
A maior parte das vezes, com os tradicionais argumentos que se desfazem a si próprios por se contradizerem na primeira derivada.
Das mesmas políticas para as quais também não há grau que as qualifique.
É sempre aquela ideia de que o que preside não é um raciocínio baseado na observação. É sempre a crença politicamente mais correcta em cada momento.
É todo um mundo de crentes absortos em meia-dúzia de chavões que abraçaram com denodo.
Deu na televisão

Vivemos num país e num tempo em que a televisão dá notícia de ciganos aos tiros como coisa extraordinária!
Portugal, 2007

10/07/2008

Mediocridade

Numa sociedade que valoriza e incentiva a mediocridade, que entrega responsabilidades a pessoas incapazes de perceber o que quer que seja, é de esperar que proliferem os erros profissionais.
Quando eles são catastróficos, a coisa dá nas vistas.
Mas enquanto passam na malha grossa, está tudo bem.
Vai a sociedade ruindo aos poucos.
Um destes dias com barulho, como diz Medina Carreira.
Caldas da Raínha, 2007

Quem foi o primeiro burro?

Não há limite para a "imaginação perguntante"!
Lisboa, 2008

E.N. 263, 2006

09/07/2008

Cães de guarda

Ainda há uma certa dificuldade em aceitar que os cães de guarda mal treinados podem morder o dono.
Mas se são cães de guarda...

08/07/2008

A nostalgia do jaquinzinho

Ou a saudade.
Dos tempos de os comer na mesa do dominó, derrubando um agarrafão a poder de carrinhos de linhas.
Ao lado da cabine de madeira.
Tanto fazia que cá fora fosse inverno ou inferno.
Talvez o poeta viesse vender umas “lindas quadras” em papel bíblia ou similar.
Divórcio

Foi no dia em que morreu Amália Rodrigues. Tinham acabado de o noticiar na rádio.
Ainda me lembro do aspecto deles.
Vinham sorridentes e amarrados de olhares.
Quando passaram por mim, nos corredores do Tribunal, ele com inconfundível sotaque alentejano, perguntou-lhe:
Então? Está tudo? Já estamos divorciados? Não há mais nada para assinar?
Ela confirmou as negativas com um sorriso malandro.
Já posso então casar-me com a...
Ela riu-se e empurrou-o no ombro, como só as mulheres sabem fazer. Ou melhor, como só o elas o fazem.
Continuava ele a cantar as alegrias do divórcio, gesticulando e falando alto, quando os vi enlaçarem-se, beijarem-se e desaparecerem dentro de um carro, a caminho do Sol Posto e de São Luís.