Notas radicais (I)De vez em quando sinto a necessidade de pôr os pés na terra.
Os pés, ainda que calçados, na terra que foi dos meus ancestrais. De onde arrancámos, de longe até mim, a sobrevivência.
Imagino-os ali, sujeitos às pragas, às secas, menos às chuvas e aos ventos, à bandidagem e imunes às grandes revoluções do mundo.
Ali onde tirei água do poço, onde colhi a fruta das árvores, onde apanhei os ovos no galinheiro, onde assisti à matança dos porcos.
Por onde andei de carro de parelha, entre chaparros ou vacas, bordejando a seara, atravessando barrancos ou atasqueiros.
Num tempo em que media em séculos a distância entre as minhas duas vidas.
Ensinado que fui que é ali sempre o último reduto, de espingarda na mão, nada temo.
fotografia muito a propósito de João Espinho