20/12/2003

Somos todos bonzinhos

E muito coerentes.
Caramba! Mas que coerência é que há na sobrevivência?
O homem, o animal, e os estados que criou regem-se pelo único critério possível: a sobrevivência.
Bonzinhos? Somos todos bonzinhos e muito coerentes.
Alguns não sobreviveram. É tudo uma questão de energia. Não é isso a lei do mais forte?
Alguma novidade à face da terra?
Onze dias para passar de nível

Só me lembro disto

O Espírito de Natal

Por mais voltas que dê, não encontro o Espírito.
Todos os temos, julgo eu, enquanto crianças. Mesmo que seja humana a proveniência dos presentes.
Mas depois desse período, passou-me. Acho que de vez.
De cada vez que observo a cavalgada das compras a toque de caixa, mais se acrescenta o tédio.
Será por não haver crianças por perto? É possível.
O certo é que o espírito passa ao largo e não há rena que me dê coice.
Não me interessam presentes, nem dá-los nem recebê-los.
Gosto de dar uma prenda sem que haja uma data imposta para o fazer.
Não me importo nada de as receber de surpresa.
Mas de Natal, já só me resta a memória do T.P.F..
Sejam felizes.

Direita e esquerda

Alguns autores afirmam que para algumas populações esquimós estes conceitos não existem.
Não faço a menor ideia se isso é extensivo a outros grupos humanos ou não.
Mas sei que, no sítio de onde venho, eram conceitos de utilidade muito acessória.
Muito poucas vezes se referiam as coisas na topologia doméstica ou rústica usando tais noções.
Usava-se recorrentemente o: ao pé de; por detrás de; à frente de; diante de; lado de cá; lado de lá; debaixo de; em cima de; para ao lado de. Todos referidos a lugares bem determinados quer no exterior, quer no interior das casas.
Também não faço a menor ideia de quais as razões que sustentam essa ausência nem sequer se tais características se repetem em zonas mais ou menos vizinhas.
Curiosamente, ao vir-me isto hoje à cabeça, também não encontrei nada sobre o assunto no mundo dos motores de busca. Apenas exercícios para ensinar os dois conceitos às crianças.


19/12/2003

Gaba-te, cesto - mais vale umas botas

Então não aprendi nada com as mulheres?
Aprendi, pois claro.
Sei o que é fazer pendant, parure ou toilette e muitas outras coisas que não são para aqui chamadas.
Certa vez, discuti até o classicismo no vestuário, à varanda de uma casa em obras, enquanto os pedreiros não chegavam.
Fui então rotulado de classicista trangressor, o que era muito interessante, na opinião dela. Talvez por usar botas caneleiras com fato e gravata.
Cá para mim, não fosse eu um mocinho jeitoso nessa época, haveria de servir de muito um par de botas.



Mas ainda não sei o que é um traje clássico.

imagem adaptada de http://www.cm-arraiolos.pt/artesanato/artesanato.htm
Tíbia 7.11

Devo aos pára-quedistas um sem-número de dicas.
Fiquei a saber que se joga Tíbia e que há qualquer coisa de complicado com o Minotauro.
Que há uns jogos de carros ena ig sobre os quais o único sítio do mundo onde se pode encontrar informação é aqui, no H G U, segundo o MSN Brasil.
Que há um sítio estranho, chamado cave do totoloto, de onde aparentemente saem as chaves todas as semanas.
Que há uns calendários que são tios de alguém. Deve ser alguma família lá das minhas bandas, onde já existe o Pouco Tempo.
Mas há também quem procure coisas como nas páginas amarelas.
Da Holanda (vejam este post), chegou o pedido de informação sobre o endereço postal da garagem (?) Ford de Setúbal. Lamento, talvez a Ford Portugal tenha essa informação on-line.
E há quem queira saber da geometria no presépio.
E claro, continuam os pedidos para adivinhar as chaves dos habituais concursos da Santa Casa. É estranho que ninguém peça o número da lotaria do Natal.
Pedem-me ainda mapas. É escusado, não dou informações de trânsito. O trabalhão que me dá evitar as filas em época festiva. Nem pensar.
Houve até alguém que pensou que era eu o detentor do segredo do molho 365, o das bifanas. Francamente.
Não bata a cabeça à toa - acham que isto é pesquisa que se faça? Sem aspas?
Também um dos dois únicos sítios do mundo onde há referência a uma máquina de rolhar é aqui. Está certo. Mas de que informação precisa?
Em relação ao Sado, já percebi há muito que algumas pesquisas que aqui caem não se referem aos barrancos de onde procede, é qualquer coisa a respeito de um marquês. Paciência!
Já agora, porque é que não usam as aspas? Não é assim tão difícil encontrar o que se procura.
Fico com a impressão de que 99% das demandas são feitas por quem não tem a menor noção do que está a fazer, será assim?


Gasolim ao Km 198,4

18/12/2003

Paris

A maior parte das vezes que qualquer de nós se encontra em meio desconhecido, o que é que sucede?
Ou temos connosco o micro-cosmos suficiente para fecharmos um universo próprio, independentemente de estarmos sòzinhos ou não, ou ficamos na defensiva a ver em que é que param as modas.
O que é invulgar e insólito é que, no mesmo lugar, se reúnam ao mesmo tempo, várias pessoas nas mesmas circunstâncias de alheamento ao local e às restantes, como que de um albergue nocturno se tratasse.
E que esse facto seja simultâneamente verificado por todos, dando lugar a uma aproximação estranha mas leal, como a que aparentemente temos sempre com o desconhecido não-invasor.
Foi de um ambiente desses, cada vez mais raro, que falámos há pouco. Não se trata de antecâmaras de aeroporto, de enfermarias de hospital de campanha, de carros parqueados em filas paralelas num grande engarrafamento, trata-se de Paris.
Da cidade das luzes ou da cidade-luz. Bizarrias.



imagem escandalosamente roubada aqui
Gasolim e a ferrovia

A cadelinha plebeia

Estava prometida há anos, a cadelinha que os meus amigos nos deram há um ano e tal.
É filha de pais inscritos no Livro de Origens Português (LOP), logo poderia igualmente ter a sua inscrição no dito livro.
Sucede que, para tal e ao que me disseram, torna-se agora necessário submeter os animais a uma de duas intervenções: ou são tatuados ou se lhes insere um micro-chip.
Mais estranho: estando os pais já registados, para inscrever a ninhada era necessário fazer o mesmo aos pais, embora o regulamento não estivesse em vigor à data em que aqueles nasceram, tendo assim sido registados sem que nada disso fosse necessário.
Ninguém quis fazer isso aos cães, nem os donos dos progenitores nem os promitentes curadores dos elementos da ninhada. Logo, temos uma cambada de plebeus filhos de pais incógnitos, como era uso com os humanos nascidos em circunstâncias reprovadas, de pais fidalgos.
Só umas questões me atormentam o espírito:
Qual é o objectivo destas normas?
Se uma tatuagem é quase impossível de apagar, não é de todo impraticável viciá-la.
Um micro-chip é obviamente fácil de remover e recolocar.
E o que é que vale quando se registam cães, não é a palavra do dono?
Fazem-se alguns testes para confirmar a progenitura?
É certo que isto são banalidades, mas devem ter algum interesse para quem ganha dinheiro com estas coisas.
E sim, a cadela é um espectáculo. Mas o cão também é e desse não se sabe mesmo quem é o pai, nem sequer que tipo de cão era. Sabe-se que a mãe era boxer e que ele tem apenas vagas parecenças com a raça. E o que é que isso interessa?
Já chega, amigos pára-quedistas

Por acaso

Por acaso num filme
Por acaso numa captura
Por acaso aqui
Rios e pontes, sempre



Não é sempre por acaso?

17/12/2003

Valsas putrefactas em cima de uma mesa de pedra, lá no quintal

Ora evoluíam pelo roseiral bravio,
Ora se reorganizavam sob o zimbório que rematava o fundo do jardim.
Tudo isto numa intenção clara de apaziguar a primavera acendida
Sob o deleite que a alcoolemia lhes proporcionava no verde.
Mesmo que à porta lateral do pavilhão onde repousava o esquife
Chegassem acordes de música
Aos ouvidos dos correligionários enlutados
Que teciam pálidos encómios ao defunto
E exercitavam apetecidos conceitos de infelicidade.

1985

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Os rótulos de Garcia Marquez



Serve para escorregar
Quase parece a sério

Quase faz sentido

16/12/2003

Hat-trick



Houve um tempo em que seguíamos também a tabuada dos golos.
1-0, 0-1, 1-1, por aí fora.
Como na bola, estes eram os resultados habituais. Os empates a zero eram também numerosos, havia uma infinidade de penalties desperdiçados por falta de concentração.
Mas, volta e meia, uma goleada.
Na nossa estranha contabilidade, só se conseguia construir um resultado volumoso quando a equipa era grande.
Dessa vez, se a memória me não atraiçoa, éramos quatro.
E elas eram umas oito.
Foi má leitura de jogo por parte do treinador.
O certo é que já estávamos em campo e não havia tempo para recrutar novos reforços. Fomos à luta.
Depois de algumas jogadas individuais, já o automatismo da equipa adversária estava percebido, encontro o M.C. no bar.
"E atão? Como é que é?" - disparou ele.
"Como é que é? É assim: A mais interessante para mim é a que se atracou ao S. A que eu gostava de marcar é aquela magrinha, dos olhos grandes. Mas a que está a descair para o meu lado é a matulona do cabelo preto. Lá da RDMNA. Vou então ver o que é que dá a magrinha, se não der, a minha escolha é a matulona."
"Porra, queres tudo para ti. Logo três!"
"Não, M." - eu a ver que ele queria a matulona - "Podes ficar com as outras, eu fico com a que caiu cá para o meu lado. Não há crise, podes escolher a magrinha."
"Porra, queres logo as três."
"Não, homem, só quero a matulona, não quero nenhum hat-trick."
Ele lá se foi, a matulona caiu mesmo para o meu lado. O P.P. já tinha a dele certa. O S. a mais bonita. E o M.C. ficou com uma que agora me não lembro. O certo é que foram elas que escolheram. As outras quatro, entre as quais a magrinha, recolheram aos balneários. Não houve hat-trick para ninguém. Elas ganharam 0-4. Ah, esquecia-me! Hat-trick são três, toda a gente que lê jornais desportivos sabe disso.

coelhinho em
Presente de Natal

Para o selo do carro ou para outra coisa qualquer

Gasolim e a estrada



Já aqui disse que não compreendia o argumento segundo o qual as pessoas se transfiguram ao volante, fazendo as maiores atrocidades.
Basta estar atento em todo o lado, por alguns momentos, para nos apercebermos de que os mesmos comportamentos bizarros se verificam também fora das caixas de lata.
A questão é que as caixas de lata derivam em caixões. E em mísseis mal guiados.
Fossem os telemóveis, os chapéus de chuva, os carrinhos de supermercado, as cadeiras de restaurante, as senhas de vez, armas letais e então ver-se-ia.
Não sou exemplo para ninguém. Não venho dar lições nenhumas.
Mas se há ou não um mal generalizado nas nossas estradas, é bom que se estude o assunto de forma racional.
Começando por perceber o que é que se passa.
Uma das coisas que conhecemos mal são as efectivas causas dos acidentes.
Primeiro, porque os próprios intervenientes quando sobrevivem, não sabem ou não querem perceber as causas.
Segundo, porque os elementos que as autoridades apuram são manifestamente insuficientes. Estas limitam-se a enquadrar numa tabela incompleta mais ou menos o que lhes parece.
Terceiro, porque há uma espécie de véu sobre as coisas, que permite que se construam mal as estradas, que as sinalizem mal e que se passem licenças de condução a qualquer um.
Não vou abordar aqui aquilo de que outros estão fartos de falar.
Apenas recordo e chamo a atenção para aspectos de que se têm esquecido.
Há anos, havia na rádio um programa interessante sobre a estrada. Nesse programa, ouvi com o mesmo pasmo do apresentador, um ministro dizer que agora é que se iam acabar com os acidentes! Era de calcular que fôssemos longe com tão ridículas sentenças.
Basta apreciar o relatório da sinistralidade da DGV para perceber várias coisas:

Existe um sem-número de dados estatísticos não relevantes.
Existe uma tabela de causas mal elaborada.
Algumas tabelas relevantes deviam ser ponderadas proporcionalmente (ex: nº de acidentes por idade de veículo, por idade de condutor, por anos de carta)

Percebe-se que não é o álcool que causa agora os acidentes (isto não tem nada a ver com a justeza da penalização!), mas ajuda saber que para combater a sinistralidade é preciso virar a atenção para outros lados e não bater sempre na mesma tecla.
E que a confusão entre excesso de velocidade e velocidade excessiva também não ajuda.
Uma coisa é exceder os limites impostos, outra completamente diferente é não ter noção nenhuma de qual a velocidade adequada em determinadas circunstâncias (as atmosféricas, o carro, a estrada, a capacidade do condutor).
Já vi pessoas despistarem-se e quase morrerem a 20 Km/h! É que não convém confundir os pedais de travão e de acelerador num gancho sobre um precipício.
Lá vem mais uma época de funerais.

Pai Natal em