Curiociosidades
Se o tabaco prejudica a saúde, e poucos ou nenhuns duvidam que assim seja, porque é que, do ponto de vista do coleccionador, se podem encontrar actualmente 28 diferentes embalagens do tradicional SG Filtro?
O mesmo se aplicará, suponho, a todas as outras marcas e modelos.
São duas mensagens diferentes de um dos lados do maço e catorze (ou quatorze) do outro.
Se alguém descobriu mais, faça o favor de dizer.
22/05/2004
21/05/2004
Os dinheiros
Que a política é um exercício de prestidigitação parece não restarem grandes dúvidas.
Depois dos tempos da força bruta, da repressão, disto e daquilo, chegamos à idade da representação.
Os actores são quase todos maus. Os lado esquerdo e os do lado direito do palco. Eles lá se colocaram nessas posições relativas, muitas vezes sem perceberem como nem porquê.
O público é o que é.
Uns batem palmas, outros assobiam, alguns pateiam, poucos atiram ovos.
Os actores falam entre si num dialecto estranho. Ninguém os entende. Nem os esclarecidos sentados nos fauteuils de orquestra, nem os deserdados das galerias.
Julgam convencer a audiência de que quem pagou o palco, as vestes, a música, não se encontra ali. Na realidade o dinheiro dos bilhetes foi muito bem empregue. Todo para instituições sociais.
Saindo da sala, depois do espectáculo, ainda ressoam as palavras.
O dinheirinho com que se faz a festa não é vosso. Caiu do céu.
Porque é que será que o dinheiro esbanjado pelas câmaras municipais, pelas empresas públicas e por outras entidades que sobrevivem com o dinheiro que alguns de nós entregam aos cofres do estado, teima em não dizer de onde vem?
Que a política é um exercício de prestidigitação parece não restarem grandes dúvidas.
Depois dos tempos da força bruta, da repressão, disto e daquilo, chegamos à idade da representação.
Os actores são quase todos maus. Os lado esquerdo e os do lado direito do palco. Eles lá se colocaram nessas posições relativas, muitas vezes sem perceberem como nem porquê.
O público é o que é.
Uns batem palmas, outros assobiam, alguns pateiam, poucos atiram ovos.
Os actores falam entre si num dialecto estranho. Ninguém os entende. Nem os esclarecidos sentados nos fauteuils de orquestra, nem os deserdados das galerias.
Julgam convencer a audiência de que quem pagou o palco, as vestes, a música, não se encontra ali. Na realidade o dinheiro dos bilhetes foi muito bem empregue. Todo para instituições sociais.
Saindo da sala, depois do espectáculo, ainda ressoam as palavras.
O dinheirinho com que se faz a festa não é vosso. Caiu do céu.
Porque é que será que o dinheiro esbanjado pelas câmaras municipais, pelas empresas públicas e por outras entidades que sobrevivem com o dinheiro que alguns de nós entregam aos cofres do estado, teima em não dizer de onde vem?
20/05/2004
Pedido de desculpas
Já com mais de trinta anos de atraso, mas lá vai.
Minha senhora:
Apesar dos boatos que fizemos correr em devido tempo, mercê das nossas técnicas de telefonia baseadas na ampliação jornalística propriamente dita. Sim, era com jornais em forma de cone que amplificávamos os nossos comunicados marginais. Sim, marginais, porque o fazíamos quase sempre na estrada da praia. Mas digo, apesar disso nunca foi proibido fazer curoché na praia. Muito o menos o foi na esplanada do Habimar, embora saibamos todos que não era do agrado da gerência.
Foi assim em vão o seu receio, em boa hora transmitido a suas amigas e depois segredado aos nossos ouvidos cúmplices. Cúmplices e autores desse falso alarme.
Já com mais de trinta anos de atraso, mas lá vai.
Minha senhora:
Apesar dos boatos que fizemos correr em devido tempo, mercê das nossas técnicas de telefonia baseadas na ampliação jornalística propriamente dita. Sim, era com jornais em forma de cone que amplificávamos os nossos comunicados marginais. Sim, marginais, porque o fazíamos quase sempre na estrada da praia. Mas digo, apesar disso nunca foi proibido fazer curoché na praia. Muito o menos o foi na esplanada do Habimar, embora saibamos todos que não era do agrado da gerência.
Foi assim em vão o seu receio, em boa hora transmitido a suas amigas e depois segredado aos nossos ouvidos cúmplices. Cúmplices e autores desse falso alarme.
Previsão e prevenção
J. teve sempre uma capacidade de previsão acima da média.
Não se tratava de previsões económicas, meteorológicas ou dos habituais prognósticos da bola, tratava-se de dormir descansado.
E suportava até ao limite a irritação dos outros, como bom condutor de homens quando tinha a certeza de que estava certo.
Como daquela vez em que, de férias, com o irmão e com o melhor amigo, os fez dar voltas e voltas até estacionar o carro junto a um prédio em obras.
Aqui poderemos dormir descansados.
Os outros já quase nem respondiam, mas ainda sorriram e largaram um desconfiado huuum, ao pé de uma obra....
Que não, que era domingo e que o sol só bateria por ali, lá para a tarde. Longe da estrada, sem ruído. E assim foi, só acordaram quando as costas já não podiam mais.
Estava tão treinado nas situações, mesmo a escolher os lugares para pernoita ao relento, que qualquer sinal que lhe indicasse a perturbação do descanso era identificado e analizado. Deixassem-no dormir em paz.
De vez em quando cometia imprudências. Poucas é certo. Mas houve aquela vez em que alugou a costumeira casa algarvia pelo telefone e ao chegar avisou logo a mulher: Amanhã vamos à procura de uma casa em Espanha. Depois virou o olhar para a betoneira escondida atrás das figueiras.
Havia ainda a recordação mais remota de um Domingo de Ramos na velha cidade forte e fria (os outros efes que se acusem...) quando os pais lhe destinaram um quarto ao lado dos sinos da Igreja da Misericórdia.
Hoje J. telefonou-me.
Acordou com berbequins, rebarbadoras, martelos eléctricos ao lado da cama. Está pois à beira sabem todos do quê...
J. teve sempre uma capacidade de previsão acima da média.
Não se tratava de previsões económicas, meteorológicas ou dos habituais prognósticos da bola, tratava-se de dormir descansado.
E suportava até ao limite a irritação dos outros, como bom condutor de homens quando tinha a certeza de que estava certo.
Como daquela vez em que, de férias, com o irmão e com o melhor amigo, os fez dar voltas e voltas até estacionar o carro junto a um prédio em obras.
Aqui poderemos dormir descansados.
Os outros já quase nem respondiam, mas ainda sorriram e largaram um desconfiado huuum, ao pé de uma obra....
Que não, que era domingo e que o sol só bateria por ali, lá para a tarde. Longe da estrada, sem ruído. E assim foi, só acordaram quando as costas já não podiam mais.
Estava tão treinado nas situações, mesmo a escolher os lugares para pernoita ao relento, que qualquer sinal que lhe indicasse a perturbação do descanso era identificado e analizado. Deixassem-no dormir em paz.
De vez em quando cometia imprudências. Poucas é certo. Mas houve aquela vez em que alugou a costumeira casa algarvia pelo telefone e ao chegar avisou logo a mulher: Amanhã vamos à procura de uma casa em Espanha. Depois virou o olhar para a betoneira escondida atrás das figueiras.
Havia ainda a recordação mais remota de um Domingo de Ramos na velha cidade forte e fria (os outros efes que se acusem...) quando os pais lhe destinaram um quarto ao lado dos sinos da Igreja da Misericórdia.
Hoje J. telefonou-me.
Acordou com berbequins, rebarbadoras, martelos eléctricos ao lado da cama. Está pois à beira sabem todos do quê...
19/05/2004
O clima está a diminuir
Há uns anos esta manchete apareceu num jornal.
Não se tratava de climinha. Ou de qualquer liberdade poética. Era o clima mesmo.
Agora, ficamos a saber que um terço da costa portuguesa está a ser destruída.
Eu cá estou em dificuldades para enquadrar estas duas afirmações.
Ainda não percebi se são contraditórias, se são relacionadas do tipo causa-efeito ou vice-versa.
Mas confesso que me preocupo.
A costa a ser destruída sem que eu veja por lá as bondosas, as catrapilas, dá-me que pensar.
Quem andará a fazer tal maldade?
Falando a sério.
A linha de costa está a recuar? Receio que haja pouco a fazer nesse capítulo.
Estas coisas não se medem aos palmos, nem em séculos.
Avanços e recuos acontecem. É natural que as barragens impeçam os depósitos sedimentares nas zonas estuárias, é natural que o aproveitamento das areias favoreça o avanço das águas.
Mas o problema está muito acima desses aspectos. São ciclos de uma grandeza que nos escapa e forças a que não nos podemos opôr com eficácia.
Podemos fazer alguma coisinha? Ah sim. Os holandeses fazem-no há muito. Mas nem sempre as coisas são parelhas aqui e ali.
E não ajuda nada ouvir tanto disparate a propósito. Mas isso também é habitual. Forças cuja grandeza nos impede de as combater.
Há os revoltados. Ainda os hei-de ouvir clamar contra os movimentos tectónicos e a deriva dos continentes. Talvez reivindiquem indemnizações por nos terem separado da América. Ou talvez não.
A imagem ilustrativa é do IM e apenas nos diz que os deuses parecem ter identificado os dois pólos do nosso país. Não bradem muito alto que eles andem aí.
Ah, e a importância relativa de cada um... será que os deuses vão à bola connosco?
Há uns anos esta manchete apareceu num jornal.
Não se tratava de climinha. Ou de qualquer liberdade poética. Era o clima mesmo.
Agora, ficamos a saber que um terço da costa portuguesa está a ser destruída.
Eu cá estou em dificuldades para enquadrar estas duas afirmações.
Ainda não percebi se são contraditórias, se são relacionadas do tipo causa-efeito ou vice-versa.
Mas confesso que me preocupo.
A costa a ser destruída sem que eu veja por lá as bondosas, as catrapilas, dá-me que pensar.
Quem andará a fazer tal maldade?
Falando a sério.
A linha de costa está a recuar? Receio que haja pouco a fazer nesse capítulo.
Estas coisas não se medem aos palmos, nem em séculos.
Avanços e recuos acontecem. É natural que as barragens impeçam os depósitos sedimentares nas zonas estuárias, é natural que o aproveitamento das areias favoreça o avanço das águas.
Mas o problema está muito acima desses aspectos. São ciclos de uma grandeza que nos escapa e forças a que não nos podemos opôr com eficácia.
Podemos fazer alguma coisinha? Ah sim. Os holandeses fazem-no há muito. Mas nem sempre as coisas são parelhas aqui e ali.
E não ajuda nada ouvir tanto disparate a propósito. Mas isso também é habitual. Forças cuja grandeza nos impede de as combater.
Há os revoltados. Ainda os hei-de ouvir clamar contra os movimentos tectónicos e a deriva dos continentes. Talvez reivindiquem indemnizações por nos terem separado da América. Ou talvez não.
A imagem ilustrativa é do IM e apenas nos diz que os deuses parecem ter identificado os dois pólos do nosso país. Não bradem muito alto que eles andem aí.
Ah, e a importância relativa de cada um... será que os deuses vão à bola connosco?
18/05/2004
Cães metálicos
Cães metálicos
Esculpidos por romenos
Bailam em telhados
Que são varandas
Sobre cores
Cães metálicos
E negros
Juntos em matilha
Tragam cobras
Que lhes disputam
A língua
Cães metálicos
E romenos
Em pedestais de prata
Sobre que cores
Mar de morte
De cães e víboras
De raiva e esgana
Cães metálicos
De cuspo vivo
Nas mandíbulas
Cães rosnando em ferro
Sobre estátuas
SG, inéditos, 1998
Cães metálicos
Esculpidos por romenos
Bailam em telhados
Que são varandas
Sobre cores
Cães metálicos
E negros
Juntos em matilha
Tragam cobras
Que lhes disputam
A língua
Cães metálicos
E romenos
Em pedestais de prata
Sobre que cores
Mar de morte
De cães e víboras
De raiva e esgana
Cães metálicos
De cuspo vivo
Nas mandíbulas
Cães rosnando em ferro
Sobre estátuas
SG, inéditos, 1998
As revistas da minha sogra
O habitual portinhol com las chicas de la tuna.
Pouco antes fora a velha que pedia cocáculas e era aragonesa, não pensem.
Qualquer coisa como tiens la certeza que es esta la boîte?
Não me safo em castelhano.
Ela dizia que sim e ainda lamentava o reloj que tinha perdido algures.
O porteiro é que não estava de modas. Era uma festa privada. Não podia ser nada, mas não me peçam que retroverta a frase.
Qualquer coisa o fez mudar de ideias. Entrámos pois.
Estava farto de ver nas ruas os cartazes da peça em exibição en el Teatro del Mercado. Traduzi as fotos para a cena nacional, deviam ser os nomes que a gente sabe...
Como não sou muito de teatros, não conhecia os figurões.
Mas depois de descer a escada, já estava em casa.
Os cartazes todos ali em carne, osso e fato de noite. Um bocadinho para o sobrelotado, o porteiro lá sabia o que fazia.
Mas era ali a combinação. Lá estava o moço agarrado à sua espanhola, irmã da minha.
Bailámos, pois.
Na confusão das luzes, já foi tarde que o homem acordou:
Caramba, tenho que comprar as !Holas! todas no quiosque em frente à minha sogra!
imagem em
O habitual portinhol com las chicas de la tuna.
Pouco antes fora a velha que pedia cocáculas e era aragonesa, não pensem.
Qualquer coisa como tiens la certeza que es esta la boîte?
Não me safo em castelhano.
Ela dizia que sim e ainda lamentava o reloj que tinha perdido algures.
O porteiro é que não estava de modas. Era uma festa privada. Não podia ser nada, mas não me peçam que retroverta a frase.
Qualquer coisa o fez mudar de ideias. Entrámos pois.
Estava farto de ver nas ruas os cartazes da peça em exibição en el Teatro del Mercado. Traduzi as fotos para a cena nacional, deviam ser os nomes que a gente sabe...
Como não sou muito de teatros, não conhecia os figurões.
Mas depois de descer a escada, já estava em casa.
Os cartazes todos ali em carne, osso e fato de noite. Um bocadinho para o sobrelotado, o porteiro lá sabia o que fazia.
Mas era ali a combinação. Lá estava o moço agarrado à sua espanhola, irmã da minha.
Bailámos, pois.
Na confusão das luzes, já foi tarde que o homem acordou:
Caramba, tenho que comprar as !Holas! todas no quiosque em frente à minha sogra!
imagem em
17/05/2004
Death toll
É o que faz separarmo-nos das raízes.
Viver num exílio anónimo de lugares para estacionar e compras de supermercado.
Nada de escolher a sombra do prédio em frente ou comprar alfaces no lugar da curva.
Nada de enfrentar a fila de cumprimentos para tomar posse de um café.
Nada de casas de tias, bolos na mesa.
Nada de tascas com facas cortando nacos de presunto e falando de porcos.
Quando o telefone toca, há sempre uma lista de mortos. Massacres gota-a-gota que nos chegam de enxurrada.
É o que faz separarmo-nos das raízes.
Viver num exílio anónimo de lugares para estacionar e compras de supermercado.
Nada de escolher a sombra do prédio em frente ou comprar alfaces no lugar da curva.
Nada de enfrentar a fila de cumprimentos para tomar posse de um café.
Nada de casas de tias, bolos na mesa.
Nada de tascas com facas cortando nacos de presunto e falando de porcos.
Quando o telefone toca, há sempre uma lista de mortos. Massacres gota-a-gota que nos chegam de enxurrada.
Aprendendo
Dizem que os cheiros despoletam recordações. Claro.
Também as visões, os sons, os paladares. Talvez o tacto seja o parente pobre. Talvez não. A pele transporta-nos às vezes lá para trás.
Mas os cheiros, sim. Claro.
Anos a fio, aquele perfume das areias. Eu sabia-o. Pressentia-o, sempre naquele local. Talvez que em outros também assim fosse. Mas só ali me envolvia, como desenho animado transportado numa nuvem de aromas.
E sempre às escuras, sempre nada sabendo. Apenas envolvido no aroma, como se fosse parte indefinida e indefinível do local.
O segredo só foi quebrado décadas depois do primeiro contacto.
Tinhas que ter a mania das plantas, tinhas que me obrigar a parar no Caramulo, em Moncorvo, em Monchique, em Brinches, no Cercal, em Vila Franca das Naves ou no Beliche.
Naquele dia, tive que ficar com os pés a escaldar na areia quente. Mas valeu a pena.
Ainda não sei como se chama a plantinha.
Dizem que os cheiros despoletam recordações. Claro.
Também as visões, os sons, os paladares. Talvez o tacto seja o parente pobre. Talvez não. A pele transporta-nos às vezes lá para trás.
Mas os cheiros, sim. Claro.
Anos a fio, aquele perfume das areias. Eu sabia-o. Pressentia-o, sempre naquele local. Talvez que em outros também assim fosse. Mas só ali me envolvia, como desenho animado transportado numa nuvem de aromas.
E sempre às escuras, sempre nada sabendo. Apenas envolvido no aroma, como se fosse parte indefinida e indefinível do local.
O segredo só foi quebrado décadas depois do primeiro contacto.
Tinhas que ter a mania das plantas, tinhas que me obrigar a parar no Caramulo, em Moncorvo, em Monchique, em Brinches, no Cercal, em Vila Franca das Naves ou no Beliche.
Naquele dia, tive que ficar com os pés a escaldar na areia quente. Mas valeu a pena.
Ainda não sei como se chama a plantinha.
16/05/2004
Sobressalto
Ia embicado às bóias, bolas, postais e jornais estrangeiros.
Como sempre, na avidez do jornal de sábado, último hábito informativo que se permitia em férias.
O companheiro de ressaca ia calado, talvez magicando numa solução frugal para o jantar. Caldeira ainda quente.
Quando a voz chamou, os dois pararam e entreolharam-se, tentando reconhecer quem chamava e a qual deles.
É a ti - disse o companheiro.
Eh lá! Uma gaiatona. O que é que ela quererá?
Tem juízo, pá. Não vês que é uma miúda? Para aí com uns treze anos!
Atravessou a estrada na direcção da carrinha. Agora via que era uma miúda novinha. Uma carinha encantadora e sorridente.
Então quando é que volta a cantar lá no bar?
Hmmmmm. Lá no bar?
Sim, naquele da piscina. Gostei muito de o ouvir.
Ah, obrigado. Pois é, um dia destes... quem sabe?
Vá. Vá, que eu gostei de o ouvir e aos seus amigos.
Obrigado.
Olha lá, Zé, tu deste por mais alguém lá no bar ontem à noite?
Eu? Achas que sim? A gente até perdeu o outro no caminho...
É que a miúda diz que gostou de me ouvir...
Olha lá, o teu tio nunca teve uma Peugeot 504? Aqui há uns vinte anos?
Não.
Nunca andaste numa nesses anos de Algarve? Ninguém conhecido que tivesse uma?
Não me lembro. Acho que não.
E a um bar onde havia fado vadio, junto a uma piscina? Nunca foste?
Não. Porquê?
Por nada. Vamos dormir. É quase dia.
Ia embicado às bóias, bolas, postais e jornais estrangeiros.
Como sempre, na avidez do jornal de sábado, último hábito informativo que se permitia em férias.
O companheiro de ressaca ia calado, talvez magicando numa solução frugal para o jantar. Caldeira ainda quente.
Quando a voz chamou, os dois pararam e entreolharam-se, tentando reconhecer quem chamava e a qual deles.
É a ti - disse o companheiro.
Eh lá! Uma gaiatona. O que é que ela quererá?
Tem juízo, pá. Não vês que é uma miúda? Para aí com uns treze anos!
Atravessou a estrada na direcção da carrinha. Agora via que era uma miúda novinha. Uma carinha encantadora e sorridente.
Então quando é que volta a cantar lá no bar?
Hmmmmm. Lá no bar?
Sim, naquele da piscina. Gostei muito de o ouvir.
Ah, obrigado. Pois é, um dia destes... quem sabe?
Vá. Vá, que eu gostei de o ouvir e aos seus amigos.
Obrigado.
Olha lá, Zé, tu deste por mais alguém lá no bar ontem à noite?
Eu? Achas que sim? A gente até perdeu o outro no caminho...
É que a miúda diz que gostou de me ouvir...
Olha lá, o teu tio nunca teve uma Peugeot 504? Aqui há uns vinte anos?
Não.
Nunca andaste numa nesses anos de Algarve? Ninguém conhecido que tivesse uma?
Não me lembro. Acho que não.
E a um bar onde havia fado vadio, junto a uma piscina? Nunca foste?
Não. Porquê?
Por nada. Vamos dormir. É quase dia.
15/05/2004
Posto público
A cabina ficava dentro do café.
Ali esteve séculos de madeira.
Negócios de gado, telefone para o Sr. F., querem um carro de praça. Não, não está aqui. Deixe estar que eu logo lhe digo.
E lá tinha a lista, a de papel, manuseada, e a de madeira, graffiti utiltários de esferográfica Bic. No fundo e dos lados, até na porta havia números escritos com e sem indicativo.
Um desses números quisera-o riscado, desentranhado dos veios da madeira. Era um número útil, de acesso a serviços.
Para mim, não.
A cabina ficava dentro do café.
Ali esteve séculos de madeira.
Negócios de gado, telefone para o Sr. F., querem um carro de praça. Não, não está aqui. Deixe estar que eu logo lhe digo.
E lá tinha a lista, a de papel, manuseada, e a de madeira, graffiti utiltários de esferográfica Bic. No fundo e dos lados, até na porta havia números escritos com e sem indicativo.
Um desses números quisera-o riscado, desentranhado dos veios da madeira. Era um número útil, de acesso a serviços.
Para mim, não.
14/05/2004
Burro velho
Um dos meus velhos e bons amigos dizia há tempo que o que mais o atormentava na velhice era perder a noção das proporções e o consequente sentido do ridículo.
Assino por baixo, quero dizer, também isso me aflige.
E outra coisa mais me aflige, é o facto de os burros velhos comprovadamente não aprenderem línguas.
Se um dia me sentei frente a uma máquina que me dizia C:> e lá lidei com ela depois de um primeiro esclarecimento, sem grandes sobressaltos, um dia virá (se viver até que venha) em que face a um signo qualquer ficarei à brocha.
Terei que delegar poderes, terei que me submeter à intermediação de alguém para satisfazer necessidades básicas. Perderei a tão cantada soberania.
Acontece a todos (este pensa que é só a ele...) bem sei.
Mas que diabo não consigo preocupar-me com a reforma (qual reforma?), com a bricolage, com a jardinagem, ainda me falta o filho e a árvore, a árvore não sei. Valem os caroços?
Com essas minudências, não consigo preocupar-me. Nem sequer em pagar a quota do lar aqui do burgo.
O pior é que o grilo falante de vez em quando vem-me com esta:
"Quando lá chegares, vais arrepender-te do descaso!"
Um dos meus velhos e bons amigos dizia há tempo que o que mais o atormentava na velhice era perder a noção das proporções e o consequente sentido do ridículo.
Assino por baixo, quero dizer, também isso me aflige.
E outra coisa mais me aflige, é o facto de os burros velhos comprovadamente não aprenderem línguas.
Se um dia me sentei frente a uma máquina que me dizia C:> e lá lidei com ela depois de um primeiro esclarecimento, sem grandes sobressaltos, um dia virá (se viver até que venha) em que face a um signo qualquer ficarei à brocha.
Terei que delegar poderes, terei que me submeter à intermediação de alguém para satisfazer necessidades básicas. Perderei a tão cantada soberania.
Acontece a todos (este pensa que é só a ele...) bem sei.
Mas que diabo não consigo preocupar-me com a reforma (qual reforma?), com a bricolage, com a jardinagem, ainda me falta o filho e a árvore, a árvore não sei. Valem os caroços?
Com essas minudências, não consigo preocupar-me. Nem sequer em pagar a quota do lar aqui do burgo.
O pior é que o grilo falante de vez em quando vem-me com esta:
"Quando lá chegares, vais arrepender-te do descaso!"
13/05/2004
Palavras-passe
Palavraquenãopercebo.
Todo o universo de utilitários que solicita o nome do meu cão, o modelo do meu primeiro carro, a minha cor preferida ou outros dados pessoais e intransmissíveis, não faz mais do que mimar os velhos filmes que metem computadores, tragédias iminentes e a miraculosa descoberta do nome da sogra do cientista maluco.
Não percebo. Nunca percebi.
Desconfiamos todos hoje que esta coisa de passwords é quase inútil. Que já não se torna necessário o tal milagre no último segundo, sempre em números vermelhos e em formato rombóide, para arrombar as nossas seguranças.
Agora a história da password com o aniversário do casamento faz-me confusão.
Então não haverá forma de inventir passwords completamente independentes da biografia de cada um?
Será que as pessoas não são capazes de usar passwords completamente desligadas de episódios com significado?
Ninguém adopta um rosinhasdetoucar, um AstonMartinsDBXVIII, um mamutecahdecasa, um tromboneafinado sem que isso tenha a ver com qualquer coisa de marcante? Será caso?
Confesso que não percebo.
E fico-me com a passwordquenuncaesquecerei.
Palavraquenãopercebo.
Todo o universo de utilitários que solicita o nome do meu cão, o modelo do meu primeiro carro, a minha cor preferida ou outros dados pessoais e intransmissíveis, não faz mais do que mimar os velhos filmes que metem computadores, tragédias iminentes e a miraculosa descoberta do nome da sogra do cientista maluco.
Não percebo. Nunca percebi.
Desconfiamos todos hoje que esta coisa de passwords é quase inútil. Que já não se torna necessário o tal milagre no último segundo, sempre em números vermelhos e em formato rombóide, para arrombar as nossas seguranças.
Agora a história da password com o aniversário do casamento faz-me confusão.
Então não haverá forma de inventir passwords completamente independentes da biografia de cada um?
Será que as pessoas não são capazes de usar passwords completamente desligadas de episódios com significado?
Ninguém adopta um rosinhasdetoucar, um AstonMartinsDBXVIII, um mamutecahdecasa, um tromboneafinado sem que isso tenha a ver com qualquer coisa de marcante? Será caso?
Confesso que não percebo.
E fico-me com a passwordquenuncaesquecerei.
12/05/2004
Directamente das Palavras de SG
sem mais comentários
Pinguins de papo para o ar em pleno Mar Báltico
Charge ? grito lancinante de um dos primeiros centuriões a chegar perto do cosseno ribeirinho, constatando que o decrépito olival já não pertencia a seu tio e que a ignorância dos cabelos era maior em cima do convento do que na própria azinhaga fatal.
Bolbo raquidiano é uma porção de sentinelas alcoolizados dentro de um balde de potassa, atendendo a que os olhos dela só me vêem a mim na banda permitida que vai de 4000 Å a 7000 Å, não esquecendo que um chapéu de chuva ao sol pode ficar retemperado com dietas lá na Áustria tirolesa.
A simultaneidade de critérios em casa do café não passa por uma homeostasia límpida em quatro sectores já que Decimal, o Verdugo, não se mostra condescendente com as atitudes mais ou menos vegetais da filha dos quintos logaritmos rurais e a potência do vassalo passa a assumir, a partir de certa ordem, valores incompatíveis com a sonorização da lira camoniana.
O cerne da questão passa, desta forma, a ser um celibatário não concorrente à eleição das misses do ano transacto, o que nos leva a pensar em termos de macrocefalia descritiva e geográfica, ou não fôssemos nós velhos barcarenos à procura da notícia podre do fim do dia Austral, quando as cabanas dos indígenas se revestem de tonalidades azuis-celestes e os pássaros emigrados reclamam por extenso, de cima dos fios de telefone.
A cidade perdida de Tuta-e-Meia terá sido sepultada por uma erupção do vulcão Stª Helena ou a possibilidade remota de a podermos avistar do Castelo dos Mouros assume já foros de verdadeira sensacionalidade?
Ao fim e ao cabo, prefiro o cabo.
SG, "Palavras de Dom Goda", 1980
sem mais comentários
Pinguins de papo para o ar em pleno Mar Báltico
Charge ? grito lancinante de um dos primeiros centuriões a chegar perto do cosseno ribeirinho, constatando que o decrépito olival já não pertencia a seu tio e que a ignorância dos cabelos era maior em cima do convento do que na própria azinhaga fatal.
Bolbo raquidiano é uma porção de sentinelas alcoolizados dentro de um balde de potassa, atendendo a que os olhos dela só me vêem a mim na banda permitida que vai de 4000 Å a 7000 Å, não esquecendo que um chapéu de chuva ao sol pode ficar retemperado com dietas lá na Áustria tirolesa.
A simultaneidade de critérios em casa do café não passa por uma homeostasia límpida em quatro sectores já que Decimal, o Verdugo, não se mostra condescendente com as atitudes mais ou menos vegetais da filha dos quintos logaritmos rurais e a potência do vassalo passa a assumir, a partir de certa ordem, valores incompatíveis com a sonorização da lira camoniana.
O cerne da questão passa, desta forma, a ser um celibatário não concorrente à eleição das misses do ano transacto, o que nos leva a pensar em termos de macrocefalia descritiva e geográfica, ou não fôssemos nós velhos barcarenos à procura da notícia podre do fim do dia Austral, quando as cabanas dos indígenas se revestem de tonalidades azuis-celestes e os pássaros emigrados reclamam por extenso, de cima dos fios de telefone.
A cidade perdida de Tuta-e-Meia terá sido sepultada por uma erupção do vulcão Stª Helena ou a possibilidade remota de a podermos avistar do Castelo dos Mouros assume já foros de verdadeira sensacionalidade?
Ao fim e ao cabo, prefiro o cabo.
SG, "Palavras de Dom Goda", 1980
Imagens sem fotógrafo
Já se pode ver a luz da meia-noite nestas magníficas câmaras de tráfego
Não é o caso aqui, que esta é do centro da Finlândia.
Já se pode ver a luz da meia-noite nestas magníficas câmaras de tráfego
Não é o caso aqui, que esta é do centro da Finlândia.
11/05/2004
As pontes de outro condado (I)
Fórmicas de várias cores, mesas de vidro. O básico café modernista.
Não se sabia se aqueles olhos mais antigos tinham pousado ali muitas décadas atrás, vindos das moradias da álea da estação.
Comboios a carvão.
Décadas de copos de vidro, chávenas de louça, colheres de alumínio e aço inox.
Estudantes, militares, esposas. Médicos e engenheiros.
O rapaz contara não mais que dez anos desde que estacionara a primeira vez ao lado da vitrina dos chocolates.
Namoros de olhos. Cervejas, aguardentes. Conversa de chacha.
A mulher pouco mais tempo contara desde que impressionara os circunstantes pela primeira vez. Ruidosa, cativante, desbocada, deslumbrante.
Falava, exaltava-se, ria, discutia.
O rapaz não lhe concedia mais atenção do que às outras peças do xadrez de mosaico hidraúlico.
Duas ou três vezes trocaram palavras. De uma das vezes, ela reclamou um cumprimento. De outra, contra-atacou um dos seus discursos de costumes.
O irmão, o colega do irmão e a namorada do colega do irmão assentavam arraiais pela noite fora, em sábados indistintos, discutindo o que apelidavam de geopolítica, uma espécie de Trivial Pursuit de medronhos, aguardentes de alfarroba, Jack Daniels e gin tónico.
E o colega do irmão que lhe contasse o que era feito da tal irmã, dele colega do irmão.
Pois é. O café fechou. Fechou, não. Acabou. Agora é uma tasca que parece um café. Espelhos, lindos mosaicos cerâmicos 30 x 30 daqueles riscadinhos. Listéis. Sim, foi o que me disse a vendedora na SIMAC. Balcão de painéis de vidro castanho, mais espelhos. Sandes diversas. Pipis. Nunca mais lá fui, o que é feito dela?
O café da bola. D' A Bola nas mesas para os fregueses. Do balcão corrido de imperiais e tremoços. Licores Beirão.
Ele, o rapaz, explicava a táctica ao colega do irmão. Talvez uma votação no Conselho de Segurança. Mas isso é estratégia. Seja.
Virou-se, transportando o último fino da noite.
Como está a senhora?
Surpreendeu-se com o grito dela. Desbocada. Deslumbrante. És tu?
Majoraram nessa noite o somatório das anteriores conversações.
Fórmicas de várias cores, mesas de vidro. O básico café modernista.
Não se sabia se aqueles olhos mais antigos tinham pousado ali muitas décadas atrás, vindos das moradias da álea da estação.
Comboios a carvão.
Décadas de copos de vidro, chávenas de louça, colheres de alumínio e aço inox.
Estudantes, militares, esposas. Médicos e engenheiros.
O rapaz contara não mais que dez anos desde que estacionara a primeira vez ao lado da vitrina dos chocolates.
Namoros de olhos. Cervejas, aguardentes. Conversa de chacha.
A mulher pouco mais tempo contara desde que impressionara os circunstantes pela primeira vez. Ruidosa, cativante, desbocada, deslumbrante.
Falava, exaltava-se, ria, discutia.
O rapaz não lhe concedia mais atenção do que às outras peças do xadrez de mosaico hidraúlico.
Duas ou três vezes trocaram palavras. De uma das vezes, ela reclamou um cumprimento. De outra, contra-atacou um dos seus discursos de costumes.
O irmão, o colega do irmão e a namorada do colega do irmão assentavam arraiais pela noite fora, em sábados indistintos, discutindo o que apelidavam de geopolítica, uma espécie de Trivial Pursuit de medronhos, aguardentes de alfarroba, Jack Daniels e gin tónico.
E o colega do irmão que lhe contasse o que era feito da tal irmã, dele colega do irmão.
Pois é. O café fechou. Fechou, não. Acabou. Agora é uma tasca que parece um café. Espelhos, lindos mosaicos cerâmicos 30 x 30 daqueles riscadinhos. Listéis. Sim, foi o que me disse a vendedora na SIMAC. Balcão de painéis de vidro castanho, mais espelhos. Sandes diversas. Pipis. Nunca mais lá fui, o que é feito dela?
O café da bola. D' A Bola nas mesas para os fregueses. Do balcão corrido de imperiais e tremoços. Licores Beirão.
Ele, o rapaz, explicava a táctica ao colega do irmão. Talvez uma votação no Conselho de Segurança. Mas isso é estratégia. Seja.
Virou-se, transportando o último fino da noite.
Como está a senhora?
Surpreendeu-se com o grito dela. Desbocada. Deslumbrante. És tu?
Majoraram nessa noite o somatório das anteriores conversações.
10/05/2004
09/05/2004
O verão de 2000 (II)
A minha geração tinha muita ilusão no ano 2000, como dizem os de Castela.
Um dos grandes desafios do homem, mesmo para aqueles que escrevem diários, é reconstruir o que lhe ia na alma, trinta, quarenta anos atrás.
Um exercício inconsequente. Mas ainda assim, um exercício interessante.
Ao rever o que foi esse ano, ao relembrar o post de há dias, vem-me justamente à memória essa expectativa.
O que foi esse ano e o que afinal trouxe (já trazia de trás) de novo.
Para mim, formado para o mundo na década de 60, no meio da corrida à lua, dos livros da colecção Argonauta e de outras projecções, parece que ficou muito aquém do sonho.
Mas era um sonho infantil, inchado de ignorância e pouco comedido.
Não andarei muito longe se disser que a grande novidade é este mundo de computadores, ferramentas todo-o-terreno, comunicações, telefones móveis, telefaxes.
Que se anteviam mal na Brunswiga cujos carretos torturei, sob o olhar complacente do meu pai.
Embora não fossem sonhos, pois eram até evoluções previsíveis.
O mundo deu um salto com a guerra. Depois da guerra aperfeiçoou as técnicas. Estava tudo ou quase tudo à vista. Talvez por isso, o sonho fosse maior.
A propósito de mais uma conversa ultramarina. Lili, como é que chegámos ao ano 2000?
imagem de uma Brunswiga em
A minha geração tinha muita ilusão no ano 2000, como dizem os de Castela.
Um dos grandes desafios do homem, mesmo para aqueles que escrevem diários, é reconstruir o que lhe ia na alma, trinta, quarenta anos atrás.
Um exercício inconsequente. Mas ainda assim, um exercício interessante.
Ao rever o que foi esse ano, ao relembrar o post de há dias, vem-me justamente à memória essa expectativa.
O que foi esse ano e o que afinal trouxe (já trazia de trás) de novo.
Para mim, formado para o mundo na década de 60, no meio da corrida à lua, dos livros da colecção Argonauta e de outras projecções, parece que ficou muito aquém do sonho.
Mas era um sonho infantil, inchado de ignorância e pouco comedido.
Não andarei muito longe se disser que a grande novidade é este mundo de computadores, ferramentas todo-o-terreno, comunicações, telefones móveis, telefaxes.
Que se anteviam mal na Brunswiga cujos carretos torturei, sob o olhar complacente do meu pai.
Embora não fossem sonhos, pois eram até evoluções previsíveis.
O mundo deu um salto com a guerra. Depois da guerra aperfeiçoou as técnicas. Estava tudo ou quase tudo à vista. Talvez por isso, o sonho fosse maior.
A propósito de mais uma conversa ultramarina. Lili, como é que chegámos ao ano 2000?
imagem de uma Brunswiga em
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