28/08/2004

Uma não visão política ou um desabafo em si bemol maior

A minha cabeça não dá para mais. E não é imodéstia (modéstia a mais...), é assim mesmo.
Algures lá para trás, fiquei preso nas malhas do racionalismo. Que todos sabemos é coisa duvidosa também. Mas ainda assim tem-me servido de boa bengala. E parece que ao mundo também...
E quando me detenho na política, sendo que nunca sofri da juvenil quimera de querer salvar o mundo, começo a patinar.
Não são só os protagonistas. É a coisa em si. Que na mesma altura, no mesmo lugar, à mesma ocorrência, chama nomes diferentes e dela extrai impossíveis resultados.
Tomar partido, sim. Tenho-o feito. Mas não vejo nisso nenhuma razão sublime. Nenhum argumento imbatível. Apenas o facto de me encontrar num lugar e numa hora confrontado com uma escolha. Apenas isso. E escolho.
E nenhuma paciência para argumentos que não são nem coerentes nem conduzem, não podem conduzir, à esperada sentença.
Reino da subjectividade tacanha que sacode uns factos e guinda outros factos às alturas.
Que idolatra espantalhos.
Que espreme a parte da ciência que julga mais lhe servir.
Que constrói ideias sem estrutura.
Que não entende conceitos como o de convenção, rigor, estatística, escala e erro. Fazendo de tudo uma sopa bolorenta e intragável.
Não tenho pachorra. Ponto.

27/08/2004

Água


Perguntas

O que é que as gerações futuras acharão de verdadeiramente imperdoável nos nossos actos e omissões?
Conseguirão separar aqueles dos quais nos damos conta dos que nos passam completamente despercebidos?
Ainda perderão tempo com isso ou aceitarão que o tempo é isso mesmo?

26/08/2004

A questão da rotunda

Já não me recordo de onde recolhia a horas tão maduras.
Lembro-me bem da figura esbelta e empertigada que me mandava parar.
Pisca da direita, berma, ervas. Os faróis davam brilho às formas femininas, ali a metro e meio, coisa assim.
A rapariga assim fardada esboçou um ligeiro esgar de espanto, hesitou e lá me veio interpelar:
"Então queria atropelar-me?" - o sorriso traía-a.
"Eu?"
"Porque é que saiu da via?"
"A senhora não me mandou encostar?"
"Não. Só lhe fiz sinal de parar. O senhor não é aqui da zona?"
"Sou. Porquê?"
"Não sabe que a esta hora cortamos aqui o trânsito alternadamente?"
"Minha senhora, não passo aqui todos os dias. E a esta hora..."
"Pois é. Sabe, isto enquanto não fizerem a rotunda, não se resolve."
Espanto.
As feras iluminadas carregavam a toda a largura da estrada, disputando um lugar dianteiro na primeira chicane.
A rapariga assim fardada sorria: "Está a ver?"
"Estou. Não me parece é que a rotunda resolva a questão. Não vejo como."
"Pois é. Mas ao menos, andam mais devagar."
"Lá isso andam."
Quando ela me mandou seguir, hesitei. Era mais fazer-lhe companhia e pagar-lhe um café.
Mas dei-lhe um sonoro (mavioso?) bom-dia.
Ela riu-se outra vez.
Estava um frio de rachar.

25/08/2004

Topologia onírica

Sempre foi para mim um mistério e um encanto.
Aqueles locais que reconhecemos só em sonhos. Em vão tentamos conciliar a sua morfologia com o mundo que realmente conhecemos. Umas vezes dentro do próprio sonho, outras fora dele.
Um dos mistérios que me acompanhará à tumba é aquela estrada sobre o mar, que de curva em curva me reserva panoramas extraordinários e bem em sonhos conhecidos.
A passagem pelo contorno da baía, a casa que parece uma pousada, à esquerda, no foco da concavidade e uns metros acima do plano da estrada. As pedras que orlam o espelho de água. Mar sempre calmo, verde, azul. Depois a estrada afasta-se do mar e segue para sul.
Há uns tempos atrás, um mapa começou a acompanhar a explicação.
A estrada já não é viável. Vês a interrupção aqui, um pouco à esquerda do número? Erosão costeira, meu caro.
Mas há-de haver uma forma de lá chegar. Até ao local onde a estrada abateu.
Sim, há. Vais até àquele bairro de prédios cor de salmão, à saída da cidade e onde estão umas canas, ao fundo de um terreiro, consegues ver os restos do alcatrão. Atravessas as canas e já a vês.

No meio disto tudo, ou melhor, fora dos sonhos, tento encontrar outras explicações.
Em vão, obviamente.
Apesar de saber que Setúbal é a cidade no extremo norte da estrada. Disso tenho a certeza.

Quando o meu PC deixar de amuar com o software de desenho, acrescentarei aqui o mapa.
16 anos atrás

O mês e meio de férias estava na recta final.
Depois da tranquilidade do sotavento, a tranquilidade do barlavento algarvio.
Umas férias a três. Um casal e um sofá com rodas e vista panorâmica.
Naquela madrugada de 25 de Agosto, deu-me mais uma vez sede.
Talvez um cigarro na varanda, a contemplar as luzes dos barcos.
Já agora, liga-se o rádio. Quase hora das notícias. Baixinho, para não te acordar.
Não retirei de imediato o significado da torrente de palavras que dele saía.
Quando finalmente tracei o quadro, já estavas a meu lado, de lágrimas nos olhos.
Parte das nossas memórias ardeu nesse dia.

24/08/2004

Desporto e competição



Às vezes tenho as minhas teimas com um velho amigo. A propósito da confusão entre actividade do corpo, desporto e competição. O homem é formado na área e tem lá os seus conceitos.
Parece acima de tudo que a palavra desporto é a que mais problemas levanta.
Quando eu lhe falo em fato e gravata como traje sport, ele, que é ainda novo, franze a testa.
E quando lhe digo que a palavra desporto sofreu uma evolução semântica acentuada e que designa hoje algo completamente diferente do que designava um século atrás, ele até aceita o argumento.
Não faço ideia (alguém faz?) do que é que esteve por detrás da primitiva ideia olímpica.
Mas estou mais inclinado para um peso maior do factor competição do que do factor desportivo na acepção antiga (mas moderna) de actividade lúdica.
Na Era Moderna, fica-se com a ideia mais ou menos ingénua de que a intenção era juntar os povos do mundo, pô-los a competir de forma pacífica e celebrada e ver qual é mais rápido, mais forte, qual chega mais alto.
Tanto se tratou de povos que mais tarde até se imortalizaram os cinco continentes com cores simbólicas.
É sabido que a História já se tinha encarregado de misturar as cores. Fê-lo desde sempre, separando e misturando. Não há nisso qualquer novidade. De umas vezes em episódios trágicos, de outras de forma mais pacífica e tolerada.
Mas ainda assim, numa época em que as fronteiras eram riscadas a lápis em cima de uma mesa, se pretendia que a cada território entre traços, novos ou velhos, mais rectilíneos ou mais naturais, de festos e talvegues, correspondesse uma certa representação.
Hoje, não é disso que se trata.
Independentemente de trajectos particulares, o que se verifica é uma venda de lugares num certame altamente voltado para o lucro.
Oferecem-se vagas como nas empresas. Há um lugar vago aqui, outro ali, troca-se de camisola e já está.
Não teço considerações valorativas em relação a isso.
Há muito que aquilo a que hoje se chama desporto está sujeito a essa lei. Clubes de bairro, de cidade, selecções nacionais há muito que não representam coisa alguma. Isso é um facto. Se é bom ou se é mau, fica ao juízo de cada um.
Nestas coisas, procura-se ver sempre os melhores. Se essas vagas não estão preenchidas e se alguém com talento as preenche, nada contra. Mas então é preciso rever o significado deste encontro. Que não será de povos, mas de campeões.

23/08/2004

The Café do Manel ice age



O pacote chegou pelo correio. Meio amarrotado, gordo e carimbado.
As folhas A4 vinham dobradas ao meio, como se a pressa tivesse impedido de acomodar de outra forma o conteúdo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o gráfico. Uma banda cinzenta (seria grisé?) sinusoidal com limites superior e inferior a traço preto de 0,35 mm.
O homem apareceu quando eu analisava o pedido. Estranhei aquela bizarria de não ser ele próprio o portador da coisa. Explicou-me que calculara mal o tempo que a coisa demoraria na malaposta. Esperava que eu já tivesse os dados naquela altura.
Explicou-me então o que queria, dispensando-me da leitura do abstract.
Ao contrário do que seria de esperar, nenhum dos circunstantes se detinha na nossa conversa em inglês. Nem sequer nos miravam.
O Manel trouxe os cafés e tão pouco deitou o rabo do olho para as folhas.
O.K.. Era então medir a duração do dia. Não me ocorreu perguntar-lhe com que instrumento o faria. Convencido estava de que ele mo forneceria mais tarde.
Percebi finalmente que a agitação dele se prendia com o facto de aqueles serem os últimos resultados de que necessitava, para expôr as coisas e mandar para os árbitros, antes que a outra equipa o fizesse. Deu-me a entender que eram nórdicos.
Quando trocámos o último e-mail, já só havia uma questão para discutir.
Se ele aceitava "The Café do Manel Ice Age" ou se insistia na versão totalmente inglesa que me parecia disparatada e da qual já nem me lembro.
Aceitou.

imagem adaptada de

22/08/2004

Azul marinho

As conversas nocturnas têm destas coisas.
Dos motores de rabeta (não, não é isso - são fora de borda, mesmo) aos petiscos regionais, tocam de tudo.
Essa do azul marinho surpreendeu-me.
Não é que não haja já vasta teorização sobre o assunto. Mas a comida de cor azul é sempre um mistério.
Sabemos que há uns frutos mais ou menos a descambar para o azul. Assim de peixes ou mariscos, também se pode dizer o mesmo. Mas azul marinho...
Por alguma razão, o azul não entra pela boca. Ou porque não há nada que valha a pena ou porque os olhos nesse caso são menores do que a barriga, quem sabe se alerta para eventuais perigos. Mas isso também se diz das bagas vermelhas e nem por isso se deixam de comer.
Azul marinho como nome de iguaria, não promete muito. Lá fui ver a foto. Azul? Onde? Um pratinho de praia com óptimo aspecto.
Depois, fiquei a saber que preparada numa panela de ferro e em determinadas condições, a banana verde dá ao molho um tom azul sim.
Lá fiquei eu com vontade de provar. A minha ignorância era total na banda do azul.

receita aqui e em muitos outros lados

21/08/2004

A paranóia securitária



Já aqui falei sobre o conceito de acidente.
E de como se pode estabelecer uma relação entre o grau de conhecimento das condições envolventes e a ocorrência de acidentes.
Grosso modo, a queda de um raio sobre uma pessoa é um acidente. Mas se essa pessoa dispuser do conhecimento que lhe permita fabricar um pára-raios e não o tiver feito, pode dizer-se que concorreu para o desfecho.
No limite, se se domina completamente um sistema e se alguma coisa falha, alguém terá falhado em algum lugar. É a velha máxima de que o material tem sempre razão.
Não se trata assim de acidente, trata-se de uma falha.
O problema aqui é que normalmente todos nos esquecemos de que somos humanos. Os outros tanto quanto nós.
Vários factores concorrem hoje para a paranóia securitária em torno de tudo e mais alguma coisa.
O primeiro, que é aparente e sendo aparente não deixa de ter reflexos reais, é essa espécie de ingenuidade que transparece das vozes que se espantam com a morte.
Porque é que eu digo que é aparente? Porque sabendo todos nós que a morte nos ronda do primeiro instante ao penúltimo, já que no último ataca finalmente, continuamos ingenuamente a julgar que assim não é. É o que vemos diariamente nas televisões, é o que lemos nos jornais, é o que ouvimos na rua - Não devia ter acontecido.
Dir-se-á que essa ilusão é fundamental à sobrevivência. Assim o julgo também.
O segundo, é essa espécie de superprotecção a que todos nos julgamos com direito, mesmo que os nossos comportamentos sejam arriscados. E que reivindicamos peremptoriamente para as crianças, sem que muitas vezes as alertemos para os riscos que correm.
Mais ainda, é ignorarmos que todos nós, enquanto crianças, corremos riscos. E que são esses riscos que corremos com maior ou menor consciência e os actos falhados de que resultam mazelas, que nos ensinam e nos alertam mais do que qualquer conselho.
Acidentes houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com eles.
Incúria houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com ela.
Incúria de quem sofre os acidentes ou de quem os propicia.
Mas se se combate com unhas, dentes e gritos ferozes a incúria dos segundos, não será também altura de ensinar algo aos primeiros?
As coisas novas sempre provocaram morticínio. A máquina a vapor, o caminho de ferro, a electricidade, os automóveis, até os banhos de mar para os de sequeiro.
Mas depois atinge-se um patamar.
O que espanta às vezes é que se volte atrás.
Parece que se criou uma ilusão de que nada comporta riscos.

20/08/2004

CDC - Clube das donas de casa


A calamidade que chega por decreto

Às vezes, vêm-me à cabeça as desgraças biblícas. Ainda que, em alguns casos, seja patente o castigo divino e a precedente sentença, não há notícia de redução a escrito dos divinos desígnios.
No mundo dos ateus, onde estas coisas são um bocadinho mais prosaicas e as desgraças chegam ou pela mão do homem ou pela força dos elementos, há, desde há alguns anos, essa figura bizarra da calamidade por decreto.
Decretar uma calamidade é um gesto político da mesma grandeza e teor do de pedir uma maioria absoluta.
Quem pede uma maioria absoluta, quase sempre o faz tendo em vista uma certa marca de vodka e copo cheio, é bom de ver. É um pedido interessante, tão interessante que todas as campanhas eleitorais são marcadas pela sua ocorrência. Há o antes e o depois do pedido de maioria absoluta. Já pediu a maioria absoluta? Desde que pediu a maioria absoluta...
Já se pedem votos há muitas centenas de anos mas fica sempre bem mudar os vocábulos.
Decretar uma catástrofe (e pedi-la) suscita as mesmas empolações junto de jornalistas e, muito mais, junto dos autarcas envolvidos.
Só que aqui a coisa é mais palpável, embora também fortemente metáforica. Não é obviamente a catástrofe aquilo por que tanto anseiam uns e outros. É o dinheirinho.
Fica mais adequado pedir a catástrofe. É que pedir dinheiro dá ao outro o estatuto de esmoler.
Mas algum dia, alguém haveria de pegar na palavra e dar-lhe a volta. Foi agora.

Espero que o estado ajude quem precisa.
Espero também que o estado saiba legislar para punir exemplarmente os responsáveis por futuros casos semelhantes. Se não pode exercer o direito de regresso sobre quem causou avultados prejuízos, é bom que saiba afastá-los de uma vez por todas e por longo tempo do convívio social.
E já agora, mudem lá o nome à coisa. Calamidades por decreto - não, obrigado.

19/08/2004

O público louvor

Há os da praxe. Ordens de serviço. Diários da República.
Há os do palco e transmissão em directo.
De cada vez que vejo um ajuntamento de louvados, vou sempre à procura das caras desconhecidas. Há poucas.
Não há ninguém perfeito e isso de prestar serviços à Pátria é o raio de uma coisa danada de se medir.
Mas há gente, até em bom número, que aqui e ali, tem servido e bem os outros. Não tenho disso a menor dúvida. Tanto quanto mo permite a conjectura e a amostra que conheço.
Já duvido e muito que o proveito seja igual à fama. Não duvidamos todos?
Por isso, de cada vez que vejo as tais caras desconhecidas, fico satisfeito. Pode até ser que me engane. Mas fico.

17/08/2004

Causas e efeitos

Um bom carro, em bom estado de conservação, um condutor calmo, experiente e dominador da máquina, uma estrada bem projectada e bem mantida, boas condições atmosféricas e boa visibilidade, tráfico reduzido, eis o risco reduzido na circulação.
Se em vez dos 120, pudesse rodar a 160, a 180, certamente que o poderia fazer ainda em segurança, em alguns troços e sob determinadas condições.
O busílis da questão é que quando se aumentam ou reduzem os limites de velocidade, o número de acidentes acompanha a variação.
Não vale a pena vir com isto e com aquilo, os números estão lá para contrariar.
A nossa ciência, não nos esqueçamos, é em grande parte de base estatística.
É com base em estatísticas que avança a medicina, a engenharia, a agronomia e outras disciplinas menos científicas.
O mesmo é dizer que, não se conhecendo em pormenor os mecanismos que regem determinados fenómenos, é com base na experimentação e na catalogação de resultados que se tiram prováveis conclusões.

Interessa-me hoje falar numa questão que é mais ou mais menos conhecida. E que é descrita e denominada de diversas formas. Chamemos-lhe auto-alimentação, reacção em cadeia ou outra coisa qualquer.
Observa-se que o fenómeno do suicídio parece auto-alimentar-se.
O conhecimento de um acto suicida parece despoletar em outros a mesma intenção. Há assim uma espécie de crises limitadas no tempo e que se limitam no espaço dependendo da propagação da notícia.
Já aqui referi o bizarro e tragicamente irónico caso da avenida de Ceuta, anos atrás.
De como a ampla divulgação do caso parece ter despoletado uma crise.
De como um grosseiro erro jornalístico motivou a deslocação do cenário dos suicídios, do local onde o primeiro ocorreu para o local que erradamente os jornalistas deram como tendo sido o da tragédia.

É sabido que em tempos mais remotos se tendia a esconder uma tragédia ou a sua verdadeira dimensão. Concorrendo com isto, havia também um reduzido leque de meios ao dispor da imprensa.
Tome-se o caso tão discutido das inundações de Novembro de 1967.
Ainda hoje se não sabe a extensão dos danos pessoais que causou.
Algures entre os acanhados números oficiais e os decerto empolados palpites jornalísticos, há-de estar um valor realista.

Hoje, a imprensa selecciona mais ou menos arbitrariamente as tragédias a divulgar.
Um exemplo disso é a comparação entre as reportagens dos incêndios deste ano. Comparar a divulgação dos que ocorreram durante o Euro 2004 e os que ocorreram após.
Claro que são as prioridades. Os meios não chegam para tudo, sabemos isso.

Partamos agora do princípio conjectural de que o incendiarismo é um fenómeno que pode ser auto-alimentado da mesma forma que o suicídio.
A questão que se coloca é que, a ser verdadeira esta conjectura, de cada vez que se propagandeia um fogo, se está a incutir em quem tem essa pulsão, o desejo de incendiar.

Como é que se arrumam todas estas linhas?
Da seguinte forma:
Se é certo que as estatísticas nos fornecem dados úteis para avaliar os fenómenos, porque não testar isso em alguns campos?
Se a conjectura que acima expus e que é de resto partilhada por muitos, tem alguma probabilidade de ser verdadeira, porque não pô-la à prova?
Se ao tempo da censura e do lápis azul, sucedeu uma aparente licença de tudo publicar, não haverá campo para restringir a informação em fenómenos como o do incendiarismo que, até prova em contrário, não porá em casa nenhum dos valores democráticos tão insistentemente reclamados a troco de tudo e nada?
Até porque, como se viu, nem sempre os fogos são matéria interessante. Havendo futebol a rodos, lá ficam para trás.
Fosse isto experimentado e feitas depois todas as correcções relacionadas com as condições atmosféricas, sabendo já que todos os factores da dita correcção são falíveis e incertos, ter-se-ia uma ideia se vale ou não a pena.
É claro que essas notícias vendem jornais e espaço publicitário. Eu sei disso.
É claro que tudo isto é de uma ingenuidade gritante.

Tenho notado, no entanto, que não tem havido divulgação de suicídios na imprensa. Que eu tenha dado por isso.
Ou de carros a circular em contra-mão.

16/08/2004

Mudança de ano

O pai de J. não sabia como e quando ele tinha começado a ler. Só as maiúsculas de imprensa.
Lia e escrevia, conquanto-a-escrita-se-fizesse-com-hífenes-a-separar-as-palavras-já-que-J.-não-dominava-os-espaços-entre-as-letras-e-entre-as-palavras-e-sabendo-disso-era-dessa-forma-que-separava-uma-palavra-da-outra.
Talvez que J. soubesse ler as palavras, mas decerto não lhes conhecia o significado muitas vezes.
O que é isto? O que é que quer dizer?
Nesse dia, o pai de J. lia o jornal que o fornecedor habitual acabara de lançar quinze metros no ar até à janela.
J. estava virado para a primeira e última páginas, atrás das quais o pai se escondia, e deu-lhe para perguntar porque é que o jornal era todos os dias diferente, excepto o cabeçalho e um certo número.
Qual número?
Este.
Ah, isso é o ano.
E o ano também muda?
Ditos

Quem não sabe o que há-de fazer, faz colheres.
Ou fotografa talheres.
Ou escreve um blogue.


15/08/2004

Linha de meta


A carreira

Não se pode dizer que nesse tempo o homem passasse com distinção no teste do álcool.
A verdade é que as paragens da camioneta eram tabeladas pelo gorgolejar da mini, a mão esquerda em punho sobre o balcão, o corpo a três quartos de volta, o olhar de esguelha para os passageiros embarcados, e pelo monossílabo abaladiço enquanto a mão direita compunha a bóina.
Era assim.
Mas nesse dia, depois da trovoada associada à depressão de origem térmica, o horário foi furado.
Numa das paragens saí da camioneta também. Fui à mini, tal qual o homem.
De volta à carreira, vi-o dar mais três passos do que a conta.
Quatro ou cinco homens olhavam para o chão.
Um deles atirou qualquer coisa.
Folhas de couve de chapa nove e almirantada efígie circulavam calmamente de mão em mão.
Numa poça de água, melhor dizendo num buraco cheio de água, as moedas caíam e recuperavam-se em ritmo lento.
A carreira atrasou-se uns cem escudos nesse dia.



imagem retirada de