18/12/2004

Restos de colecção (10)




in Association Internationale Permanente des Congrès de la Route - IX Congrès International de la Route, Lisbonne 1951 - Compte Rendu des Travaux du Congrès

17/12/2004

Inconfidências


Turcos e croissantes

Os padeiros de Viena talvez estejam acordados a esta hora.
O Império dos Francos e o Império Otomano terçando armas à mesa.
Confesso a minha total incapacidade para prever as consequências de uma união de ambos.
A única que me atrevo a extrair é a de que, seja o que fôr que aconteça, não será para sempre.
E, mesmo dessa, não estou cem por cento certo.
Admiro os que já sabem o que vai acontecer. Que já conhecem todos os males ou todas as vantagens de uma união. Que sabem o que acontecerá de bom ou de mau quer se aceite a Turquia ou não.
Parece óbvio que nenhum dos anteriores alargamentos da União suscitou tantas paixões. Afinal, há uma matriz comum, mais próxima, dos países integrantes. Que, dizendo ou não, alguma coisa aos povos desses países, foi, durante séculos natural entre os seus chefes. Quase todos familiares uns dos outros.
Não é o caso da Turquia otomana. Coisas do crescente e da cruz.
A ver vamos no que dá. Dez anos dá para acontecer muita coisa. Difícil de prever. Mas é já ali ao virar da esquina.
De qualquer forma, se 3 de Outubro de 2005 é a data aprazada para o início das negociações (?), cumpre dizer que é curioso que seja num dia de eclipse do Sol. Dia de sol crescente.
A moeda de 3$00



Há uma parte da humanidade que se acha destinada a ensinar os outros.
Será uma fatalidade que assim seja, uma vez que suspeito que todas as partes da humanidade são necessárias.
No entanto, às vezes, esta parte dos pisantes da ecúmena apresenta-se sob formas pouco suportáveis.
Há os que debitam nomes e obras como quem abre baús e mostra tesouros.
Há os que mostram os contornos de intrincadas reflexões sem permitirem que se tome o fio à meada.
E há os que se insinuam com aparentes disparates. Isco de pesca. Mal o incauto levanta o dedo para assinalar o suposto erro, desaba-lhe em cima uma parafernália de argumentos e de provas esmagadora.
Chamo a estes os da moeda de 3$00.
Não faço ideia de qual é a percentagem de pessoas que teve na mão uma tal moeda.
Os que viveram onde elas circulavam, devem ter boa lembrança dela.
Para muitos dos que nunca as viram ao vivo, como eu, e que não estão familiarizados com os mistérios da nossa emissão monetária, pode parecer assim, à primeira, um rotundo disparate que tenha existido tal coisa.
É dessa vertigem de correcção, quase com a avidez com que o vigarista estende o tapete, com mansa fala, àqueles a que acena com o lucro fácil, que vive o pessoal da moeda de 3$00.
Enredam o pobre convicto com insinuações e mal ele entra na contradita, sai ferrado.
Todos os dias os vemos em acção.
Não sei se já ensinaram alguma coisa a alguém.

15/12/2004

Aos costumes direi nada

Há-de ter havido umas perguntas do costume. Ignorante que sou, nada sei sobre.
Sei apenas que, depois de dar o meu testemunho, alguém há-de ler um papel dizendo que eu, aos costumes, nada disse.
Faz-me espécie esta pergunta tácita. Esta inferência das minhas palavras. Que terá a ver com algum tipo de impedimento, de suspeição de parcialidade, suponho.
Logo vos direi se aos costumes disse ou não, nada.
Rodas largas


14/12/2004

Mais ou menos

Mais ou menos arranjada a coisa, afinal.
Os comentários antigos ainda estão no limbo.
Bronquite

De bronco, mesmo.
É o que dá tocar muitos instrumentos ao mesmo tempo, a altas horas.
Lá se foi o template. Agora é preciso ir à procura das cópias e tentar repor tudo como estava.
Não há comentários nem estou com paciência para estragar mais nada a esta hora.
Em querendo comentar, favor dirigir-se ao Sapo.
Memória das coisas - 28 de Fevereiro de 1969

Afinal, a minha memória não me traiu. O meu olhar dos dez anos não ampliou as dimensões, como admiti no post anterior.
Encontrei fotografias da época.
Nas páginas do Centro de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e nas da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica.

13/12/2004

O sismo das 14:18*

Não sei quantos sismos já senti. Já lhes perdi a conta. A este senti-o bem.
E como das outras vezes, a mesma sensação de impotência.
Talvez que um sismo com maior duração permita algum tipo de reacção. O de Fevereiro de 1969 durou o bastante para isso. Mas como acordei mais com o ruído de janelas a bater do que com a vibração, só percebi que não era vento quando já tudo acalmara.
Foi nessa altura que pude ver, pela primeira vez e única até hoje, ao vivo, a destruição associada a estes fenómenos.
Poucos dias depois, passava por Bensafrim e recordo-me da quantidade de casas que estavam parcialmente derruídas. Terei ampliado em demasia os estragos? Com aqueles olhos infantis que tudo sobreavaliam? Não sei. A verdade é que nunca me entreguei a essa pesquisa. A julgar pela forma como foram tratadas as inundações de 1967 na imprensa e a forte controvérsia que sempre existiu sobre o seu balanço final, é provável que também não chegasse a nenhuma conclusão.
Mas é nestas alturas que sobreleva a impotência dos homens.
No nosso caso particular, não é a só a impotência. É também uma certa ignorância dos riscos.
A verdade é que todos sabemos que vivemos numa zona de alto risco. Mas ao mesmo tempo, a Natureza tem-nos poupado. Por alguma razão que desconhecemos, há muito que não nos confrontamos com um terramoto de grandes dimensões. Coisa relativamente comum em séculos anteriores. Toda essa ignorância, esse alheamento, tem conduzido a um descaso nada próprio de zonas de risco sísmico.
Pode dizer-se, sem grande risco de erro, que quando acontecer, terá graves consequências. Só os crédulos pensarão que grande parte das estruturas onde nos amontoamos, resistirão sem danos maiores a um abalo mais forte.
Uma das curiosidades destas alturas é, como não podia deixar de ser, o chorrilho de disparates difundido.
Desde a não confirmação oficial (?) até às tentativas de lançar o pânico, através de insistentes e capciosas perguntas a especialistas, tudo se ouve.
O bom senso, qué dele?

*no meu relógio



imagem do IM

12/12/2004

A novidade

E os shortcuts? Já viste?
Mas isso têm todos.
Eh pá, dá um jeitão. Olha aqui o 112. Carregas no 1 duas vezes, no 2, no cardinal e já está.
Realmente... podias ter posto no 111, sempre variavas. Ou no 115, à moda antiga.
Restos de colecção (9)



in Vasco Callixto, "Fala a Velha Guarda - subsídios para a história do Automobilismo em Portugal", 1º vol., Lisboa, 1962
O Código de Belém

No passado dia 19 de Outubro, quando foi apresentada a proposta de Orçamento de Estado para 2005, supus e bem, que algo de secreto se encontraria nas entrelinhas do texto.
Inspirado por um post de Rafael Reinehr, segui as pisadas dos decifradores do código da Bíblia e lá encontrei o que toda a gente sabia que existia, mas não tinha coragem de procurar.
Ganha agora particular relevo este segredo. Uma vez que é dissoluta a Assembleia, demissionário o Governo, MAS aprovado o Orçamento.
Assim sendo, procurei, pelo mesmo método, descodificar o discurso do Presidente da República e o do Primeiro-Ministro demissionário.
Não tendo o portal do Governo o conteúdo da comunicação de ontem do Primeiro-Ministro, aqui fica à vossa apreciação, o discurso do Presidente da República, matriciado a 64 colunas (passo 64).
Na falta de tempo, deixo ao vosso cuidado a busca das palavras nele escondidas.

10/12/2004

Talvez seja novidade

Talvez seja novidade. De entre as tantas coisas que se apregoam como novas e que de novas nada têm.
Mas esta talvez o seja. Mas não é uma novidade muito nova. Simplesmente a cada dia se nota mais.
Até há duzentos anos atrás, na nossa civilização, as vozes e os ouvidos eram pertença de muito poucos.
A alfabetização, a imprensa, a rádio e a televisão contribuíram para o que número de vozes e de ouvidos se alargasse. A proporção é hoje muito diferente.
Parece óbvio que falar para um número reduzido de ouvidos, mais ou menos habituados a isso, é muito diferente de falar para uma massa, pouco habituada a falar e a ouvir.
O nível da argumentação baixou. O nível dos objectos dessa preocupação baixou - a quantidade de pessoas que argumenta sobre se uma bola entrou ou não, é impressionante.
Não me preocupa tanto o facto de haver muita gente a discutir futebol. Suponho que até é útil que assim seja. Mais me preocupa que o nível geral da argumentação tenha baixado para níveis quase risíveis. Que o facto de ter tantos ouvidos à escuta, conduza os argumentos para o arrazoado infantil. E que sobre esse tipo de argumentação se construam depois as réplicas e as tréplicas.
Talvez que as outras vozes falem entre si. Ao ouvido.
Mas fazem falta. Assim haja também ouvidos capazes de perceber o que dizem.

09/12/2004

Dezembro

O Natal existiu. Claro que existiu.
Existiu em presépios com rebanhos de louça, musgo em pacotes, pontes romanas, castelos inverosímeis, fontes sem água, tudo em escalas diversas, como se alguém tivesse o divino poder de baralhar as perspectivas.
Mas ficou-se. Ficou-se lá para lá trás, ao pé da cadeira junto ao lume, onde se amontoavam caixas de Lego, carros da Corgi, chocolates Regina, lápis Viarco, livros das Mil e Uma Noites.
Ficou-se por aí, sem dizer quando. Ficou-se no frio barbeiro, nos alguidares de gelo no quintal, no madeiro que haveria de arder até ao Ano Novo, nos bolos feitos no forno da padaria, nas samarras, nos capotes pendurados na entrada.
Ficou-se no cheiro das carnes misturadas com fumo em todas as terras de passagem.
Ficou-se no azul forte do céu que inundava o monte, entre cães e gatos.
Ficou-se na pele fria do assento do carro, nas madrugadas em que se transpunha o Caldeirão.
Ficou-se em notas de quinhentos daquelas de chapa 9 cujo número de série tinha que ser verificado.
Ficou-se nos discos novos que se ouviam do outro lado da casa, em altos berros.
Ficou-se nos bolsos cheios de bombons.
Ficou-se entre quatro paredes. A sul.


08/12/2004

Efeméride



Um quarto de século depois de ter escapado de boa, década e lustro depois de outra provação, neste preciso dia 8, comemoro-me. Não faço anos.
Outras vidas

Sou um rústico em muitas coisas. Urbanidade alguma, q.b..
De entre as características que me entraram nos genes ou que absorvi do habitat, há este fascínio pelas árvores, embora pouco ilustrado.
As saudades que sinto de dada oliveira, multicentenária na certa, que um dia soube cortada por ameaça à estabilidade de uma construção. Por mim, teria estabelecido um compromisso entre as casas, também mais do que centenárias, e a árvore. Talvez sem sucesso. Pouco importa agora, que nem umas nem outra se encontram de pé.
Saudades de certa romãzeira, que morreu de morte natural. De um pomar inteiro que soçobrou ao abandono. Lá estão as figueiras da orla como testemunhas resistentes de outros tempos.
Saudades de árvores das quais não sei o destino. O meu limoeiro, a minha nogueira, as nespereiras, as ameixeiras, as figueiras também. Desse quintal que suponho ainda existe.
Mas há uma árvore que hoje merece o meu afecto. Não é muito velha, não pode ser. É um eucalipto solitário, no meio dos sobreiros. Talvez que se interrogue o que está ali a fazer, a olhar de cima o pachorrento montado, cada vez mais de cima.
Está perto da casa. Se um dia um golpe de nortada o atirar ao chão, é certo que derruba a tenda. Espero não chegar ao ponto de ter que lhe dar um destino. Não sei nada destas árvores. Lembro-me daquele que havia (ainda lá estará?) junto à antiga E.N. 261-3, entre Santiago e Sines e que era de um porte impressionante. O meu para lá caminha. Vê-se ao longe, de muito sítio. Espero que lá fique, quando eu me fôr embora.
É curioso que não consiga encontrar informação sobre o tempo de vida desta espécie. Tudo o que se encontra é informação sobre as idades de corte, espécie de crescimento rápido, blá, blá, blá...
Ainda assim, descobri agora uma página onde me dizem que pode viver mais de cem anos. Claro que pode. Ora essa.

07/12/2004

A história do meu vizinho

Dava mesmo um filme.
Cruzámo-nos uns bons trinta e tal anos, desde que apareci por cá, até que ele desistiu.
Nunca se lhe conheceu família, sequer amigos. E se a vizinhança era velha, escrutinadora.
Uns diziam-no médico, dada a sua predilecção pelo vocabulário anatómico, patológico e simposial.
Outros génio louco. Sendo que, se todos temos um pouco duma coisa e de outra, ele teria a mais das duas.
Não perturbava a existência dos demais. Se os outros perturbavam a dele, nunca se soube. Por vezes, destinava longos solilóquios a vizinhos mais próximos, quase sempre entre a ironia, o afecto e o desconcerto. À porta do prédio, enquanto desenhava figuras no ar com a chave.
Sabia-se que os mesmos vizinhos lhe cuidavam da casa.
Talvez apenas quando ele consentia que o fizessem.
Um dos sinais mais violentos da sua existência foi a defenestração de um saco de lavandaria, repleto de maços de tabaco vazios. Relíquias já fora do mercado.
Certa vez, desfez-se das mobílias. Vimo-lo radiante - assim parecia - sentado na camioneta, ao lado dos homens que a carregaram.
Solicitado, dava longas aulas de história e geografia. Monarcas russos confundiam-se então com pinguins da Antártida, médicos portugueses com políticas americanas, produtos alimentares com compêndios de álgebra, peixes da nossa costa com sistemas de comunicação.
Gostava de comboios em verde, de poliglotas, de casas em tons de caranguejo.
Usava luvas e gabardine todo o ano.
E uma noite, desistiu.