28/07/2006
27/07/2006
26/07/2006
2000 anos depois
Nunca convivi bem com as explicações históricas. Que estabelecem causas, efeitos e a forma como estes se relacionam com outras causas e outros efeitos.
Todavia, ocorre-me que esta guerra tem episódios com 2000 anos e ainda não foi ganha por nenhuma das partes.
Haverá, terá havido uma guerra definitivamente ganha?
Nunca convivi bem com as explicações históricas. Que estabelecem causas, efeitos e a forma como estes se relacionam com outras causas e outros efeitos.
Todavia, ocorre-me que esta guerra tem episódios com 2000 anos e ainda não foi ganha por nenhuma das partes.
Haverá, terá havido uma guerra definitivamente ganha?
25/07/2006
24/07/2006
O compositor emérito ou a quase morte de outro artista
[Com o razoável conhecimento que tenho da parte de Almeida que fica extra-muros, não há meio de conseguir encaixar lá aquela carreira que mais parece a de Pinhel e menos a de Trancoso. E o respectivo hotel. Para não falar da distância a que fica a Estação C.F. de Pinhel.]
Outra vez o Lopes.
Com aquele vozeirão que o caracteriza, antes sequer de me cumprimentar: A gaja tá farta de perguntar por ti!
A gaja? Qual gaja, pá?
A jornalista, pá. Começou a falar-me que conhecia cá um tipo, começou a dar-me pistas e eu, de repente, vi que eras tu. Perguntei-lhe o nome e assim que ela o disse, comecei aos gritos. Ela não se assustou, vê lá tu. Ficou tão entusiasmada que me obrigou a ligar-te logo. Tens sempre a merda do telefone desligado. Nem sei para que queres tu dois telemóveis...
Essa mulher está cá em Almeida? Aqui no hotel?
Sim, homem. Aqui no hotel.
Ouve lá, Lopes, e tu? O que é que andas aqui a fazer?
Tenho aqui uma obra. Estou aqui esta semana. Lembrei-me que é nesta altura do ano que costumas andar por estes lados, já te tinha tentado ligar antes de conhecer a F.. Mas ela não falou contigo? Vieste aqui por acaso?
Claro. Sabia lá eu que tu ou ela andavam por estas bandas. Ela atão...!
Porra! Ca ganda pontaria. Vai lá, pá, vai lá ver se ela está no hotel. Mas olha, preciso de ajuda esta noite para uma coisa lá na obra. Não te metas já debaixo das saias da moça.
Tá bem, pá. Arranja aí um sítio para um petisco que depois ajudo-te.
São seis horas. Às oito, estou no bar.
Entrei. Vinte e dois euros por noite, é tudo do que me lembro da conversa do recepcionista.
Disse-lhe que não valia a pena mostrar-me o quarto.
Dei com o bar por acaso. Apeteceu-me um café.
O homem estava entretidíssimo com uma mesa de mistura de sons. Só que não se ouvia um pio. Olhou-me de lado e com um ar mais do que entediado, lá acedeu a tirar uma bica.
O sítio era penumbroso. Acho que lhe ficava a matar. O ambiente e as fileiras de cursores coloridos que ele manuseava, numa espécie de deleite que eu não percebia de onde lhe vinha.
Saí.
Ouvi a voz do Lopes ao fundo das escadas.
E a voz dela em cima. Vinha a descer, de vestido cinzento azulado e ar descomposto.
Confesso que não percebi a fundo o objecto da estada dela naquelas paragens. Mostrou-me um quadro que pintava daquilo que se avistava de uma das duas janelas que o quarto tinha. Era a estação de caminho-de-ferro de Pinhel e as casas à volta. Disse-me que tinha passado uma vez o São João com os pais numa daquelas casas ao pé da estação. Que vira o mastro de uma daquelas janelas.
E eu que pensava que ela nunca tinha vindo a Portugal.
Esta noite não posso jantar contigo. O Lopes já me angariou para o ajudar na obra. Mas a partir de amanhã, sou teu valete.
Ela concordou. Disse que também tinha umas coisas para escrever e que assim aproveitava e as despachava.
Óptimo - disse eu.
Voltei ao escuso ambiente do compositor emérito no dia seguinte. Nem me prestou atenção, apenas se levantou, tirou o café e voltou para os cursores.
Foi a olhar para ele que fiz as contas ao dinheiro que ia gastar, por cada dia a mais que ali ficasse na estimável companhia. Até parece que via o recepcionista, na sua refinada caligrafia, a escrever por extenso vinte e dois euros.
O corre-corre tomara conta da casa. Havia gente para lá e para cá, decidindo isto, ajeitando aquilo.
Há muito que não me sentia um príncipe. Qualquer ordem que desse era prontamente atendida.
Alguém me dizia que o fato ficara deslumbrantemente novo. Que o homem era um mestre. Que cerzira todos os buracos da traça com uma maestria nunca vista e que, mais, acertara todas as medidas às minhas dimensões actuais.
Isto para não falar do pastiche que dera ao tecido. Dum novo-velho admirável.
Só vendo - dizia eu, embora, com tanto entusiasmo do outro, julgasse que seria mesmo assim.
O fato veio e de facto estava impecável.
Muito bem, já só falta a gravata. Tragam-me a MINHA gravata.
Claro que vieram cinco ou seis antes da tal. Mas apareceu.
Depois de terminado o atavio, disse para quem me escutava, antes que fossem buscar o Hudson côr de rato à garagem:
Vou a pé, para poder saudar o povo nas janelas.
Ela esperava-me na Casa do Povo. Casávamos na minha terra.
[Com o razoável conhecimento que tenho da parte de Almeida que fica extra-muros, não há meio de conseguir encaixar lá aquela carreira que mais parece a de Pinhel e menos a de Trancoso. E o respectivo hotel. Para não falar da distância a que fica a Estação C.F. de Pinhel.]
Outra vez o Lopes.
Com aquele vozeirão que o caracteriza, antes sequer de me cumprimentar: A gaja tá farta de perguntar por ti!
A gaja? Qual gaja, pá?
A jornalista, pá. Começou a falar-me que conhecia cá um tipo, começou a dar-me pistas e eu, de repente, vi que eras tu. Perguntei-lhe o nome e assim que ela o disse, comecei aos gritos. Ela não se assustou, vê lá tu. Ficou tão entusiasmada que me obrigou a ligar-te logo. Tens sempre a merda do telefone desligado. Nem sei para que queres tu dois telemóveis...
Essa mulher está cá em Almeida? Aqui no hotel?
Sim, homem. Aqui no hotel.
Ouve lá, Lopes, e tu? O que é que andas aqui a fazer?
Tenho aqui uma obra. Estou aqui esta semana. Lembrei-me que é nesta altura do ano que costumas andar por estes lados, já te tinha tentado ligar antes de conhecer a F.. Mas ela não falou contigo? Vieste aqui por acaso?
Claro. Sabia lá eu que tu ou ela andavam por estas bandas. Ela atão...!
Porra! Ca ganda pontaria. Vai lá, pá, vai lá ver se ela está no hotel. Mas olha, preciso de ajuda esta noite para uma coisa lá na obra. Não te metas já debaixo das saias da moça.
Tá bem, pá. Arranja aí um sítio para um petisco que depois ajudo-te.
São seis horas. Às oito, estou no bar.
Entrei. Vinte e dois euros por noite, é tudo do que me lembro da conversa do recepcionista.
Disse-lhe que não valia a pena mostrar-me o quarto.
Dei com o bar por acaso. Apeteceu-me um café.
O homem estava entretidíssimo com uma mesa de mistura de sons. Só que não se ouvia um pio. Olhou-me de lado e com um ar mais do que entediado, lá acedeu a tirar uma bica.
O sítio era penumbroso. Acho que lhe ficava a matar. O ambiente e as fileiras de cursores coloridos que ele manuseava, numa espécie de deleite que eu não percebia de onde lhe vinha.
Saí.
Ouvi a voz do Lopes ao fundo das escadas.
E a voz dela em cima. Vinha a descer, de vestido cinzento azulado e ar descomposto.
Confesso que não percebi a fundo o objecto da estada dela naquelas paragens. Mostrou-me um quadro que pintava daquilo que se avistava de uma das duas janelas que o quarto tinha. Era a estação de caminho-de-ferro de Pinhel e as casas à volta. Disse-me que tinha passado uma vez o São João com os pais numa daquelas casas ao pé da estação. Que vira o mastro de uma daquelas janelas.
E eu que pensava que ela nunca tinha vindo a Portugal.
Esta noite não posso jantar contigo. O Lopes já me angariou para o ajudar na obra. Mas a partir de amanhã, sou teu valete.
Ela concordou. Disse que também tinha umas coisas para escrever e que assim aproveitava e as despachava.
Óptimo - disse eu.
Voltei ao escuso ambiente do compositor emérito no dia seguinte. Nem me prestou atenção, apenas se levantou, tirou o café e voltou para os cursores.
Foi a olhar para ele que fiz as contas ao dinheiro que ia gastar, por cada dia a mais que ali ficasse na estimável companhia. Até parece que via o recepcionista, na sua refinada caligrafia, a escrever por extenso vinte e dois euros.
O corre-corre tomara conta da casa. Havia gente para lá e para cá, decidindo isto, ajeitando aquilo.
Há muito que não me sentia um príncipe. Qualquer ordem que desse era prontamente atendida.
Alguém me dizia que o fato ficara deslumbrantemente novo. Que o homem era um mestre. Que cerzira todos os buracos da traça com uma maestria nunca vista e que, mais, acertara todas as medidas às minhas dimensões actuais.
Isto para não falar do pastiche que dera ao tecido. Dum novo-velho admirável.
Só vendo - dizia eu, embora, com tanto entusiasmo do outro, julgasse que seria mesmo assim.
O fato veio e de facto estava impecável.
Muito bem, já só falta a gravata. Tragam-me a MINHA gravata.
Claro que vieram cinco ou seis antes da tal. Mas apareceu.
Depois de terminado o atavio, disse para quem me escutava, antes que fossem buscar o Hudson côr de rato à garagem:
Vou a pé, para poder saudar o povo nas janelas.
Ela esperava-me na Casa do Povo. Casávamos na minha terra.
22/07/2006
O peixinho das alvíssaras
A bifana sabia-lhe a memória.
A memória de sons de estrada. De motor, de atrito de pneus, de ar pelas janelas abertas, de vozes como só elas soavam dentro de um carro em andamento.
As paredes do restaurante, indefinidas entre a madeira e o tijolo como se num sonho indistintas, rescendiam a essa memória misturada nos sentidos.
Julgava poder afirmar que jamais entrara naquele local. Não enquanto se lembrasse de tal.
Mas tinha a memória povoada de avistamentos daquela conhecença. Centenas de vezes passara naquela estrada, olhara aquela bizarra construção, quase sempre guardada por uma escolta de camiões abandonados na berma.
J. veio à porta, contemplou o parque de estacionamento agora quase vazio onde se destacavam as letras NU no flanco do jipe, iluminadas por uma solitária lâmpada exterior.
Reviu, na sua já toldada apreciação, os acontecimentos do dia.
A chegada alvoroçada de R., as mamas oliudescas da secretária de direcção, o magnífico petisco na cave manhosa. Reviu e adjectivou cada passo.
De como se tinha montado a missão a Ceuta, imprimido e colado no jipe as folhas com as letras, desencantado os capacetes azuis no fundo do armazém e de como havia mal escolhido a parte que lhe cabia da tripulação, de tudo isto fazia uma sopa que acompanhava na memória o paladar mostardento da bifana.
Talvez tivesse feito um esgar para rasgar a febra com os dentes.
Olhava o poeirento terreiro tentando adivinhar a leste os primeiros alvores.
Nada naquele momento, sequer a aventura que os outros três desmontavam em cavaqueira uns metros ao lado, propondo-se ainda desagravar o Infante Santo, lhe sugeria a possibilidade do peixe das alvíssaras.
Só uns anos depois, sentado na esplanada dos grelhados, enquanto o patrão se afadigava com a travessa, de mesa em mesa, é que juntou as duas coisas.
A missão a Ceuta borregara ali ao km 49 da E.N.10.
O peixinho das alvíssaras idem aspas.

imagem adaptada de http://www.autonavigator.ru/
A bifana sabia-lhe a memória.
A memória de sons de estrada. De motor, de atrito de pneus, de ar pelas janelas abertas, de vozes como só elas soavam dentro de um carro em andamento.
As paredes do restaurante, indefinidas entre a madeira e o tijolo como se num sonho indistintas, rescendiam a essa memória misturada nos sentidos.
Julgava poder afirmar que jamais entrara naquele local. Não enquanto se lembrasse de tal.
Mas tinha a memória povoada de avistamentos daquela conhecença. Centenas de vezes passara naquela estrada, olhara aquela bizarra construção, quase sempre guardada por uma escolta de camiões abandonados na berma.
J. veio à porta, contemplou o parque de estacionamento agora quase vazio onde se destacavam as letras NU no flanco do jipe, iluminadas por uma solitária lâmpada exterior.
Reviu, na sua já toldada apreciação, os acontecimentos do dia.
A chegada alvoroçada de R., as mamas oliudescas da secretária de direcção, o magnífico petisco na cave manhosa. Reviu e adjectivou cada passo.
De como se tinha montado a missão a Ceuta, imprimido e colado no jipe as folhas com as letras, desencantado os capacetes azuis no fundo do armazém e de como havia mal escolhido a parte que lhe cabia da tripulação, de tudo isto fazia uma sopa que acompanhava na memória o paladar mostardento da bifana.
Talvez tivesse feito um esgar para rasgar a febra com os dentes.
Olhava o poeirento terreiro tentando adivinhar a leste os primeiros alvores.
Nada naquele momento, sequer a aventura que os outros três desmontavam em cavaqueira uns metros ao lado, propondo-se ainda desagravar o Infante Santo, lhe sugeria a possibilidade do peixe das alvíssaras.
Só uns anos depois, sentado na esplanada dos grelhados, enquanto o patrão se afadigava com a travessa, de mesa em mesa, é que juntou as duas coisas.
A missão a Ceuta borregara ali ao km 49 da E.N.10.
O peixinho das alvíssaras idem aspas.

imagem adaptada de http://www.autonavigator.ru/
21/07/2006
20/07/2006
LP
Não sei se era ele. Mas pareceu-me que sim.
Apareceu pela manhã e soltou primeiramente as suas habituais imprecações.
Poupo-vos às enormidades que pronunciou.
Depois sentou-se, acalmou, fumou uns quantos cigarros, oferecendo-me sempre o maço, esperando que eu declinasse, já que sabe que eu há pouco mais de um ano mandei o vício ao tapete mais uma vez, e disse:
Foda-se, não percebes nada disto!
Isto é assim - disse, com todas as certezas deste mundo debaixo do braço - tu queres escrever quatro posts em um mas falta-te a arte.
Então vejamos. Os pontos são os seguintes: a moça persegue-te nos sonhos.
Persegue, sim.
Pois, mas no final é à Costa dos Esqueletos que aportas.
Claro. Querias o quê, LP?
Que não fosses parvo, Manel. Às vezes - e ria-se - és uma besta!
Ok, ok, deixa-te de comentários.
Então, diz-me lá, que história é essa da moça não te deixar dormir?
Não me deixa - não! É, antes pelo contrário, nos sonhos que me assola.
Huuuuuu - estou a ver, uma fixaçãozinha.
Talvez, sei lá, já não digo nada. Ontem apareceu como irmã do Espanhol, hoje como a viandante. De feições diferentes.
É o Diabo, companheiro, tenta-te com quantas caras tem.
O Diabo, o cara..., é mas é uma fixação com uma mulher, pá!
E sabes com quem?
Sei. Uma mistura da moça de beige com a selecção feminina do Resto do Mundo.
É pouco para uma definição por compreensão. E pouco é para uma identificação.
Será!
Tens a certeza de que não queres usar um dos meus textos para encher chouriços?
'Péra aí, pá. Isto ainda não chegou a esse ponto. Respeito quem aqui costuma vir ler o que escrevo, ver o que fotografo.
Ah, agora os meus textos são uma falta de respeito! Belo!
Mas diz lá, isso da G3 e da moça. Conta lá.
Ui, é uma longa história. Posso começar pelo primeiro caso. Aparentemente não relacionado.
Ela apareceu com um fulano alourado. E outro casal. Vinham num carro pequeno e andavam de companha comigo e com uma prima.
Nesse dia, eu tinha comprado uma carrinha Ford Escort mk III, azul escura [1].
E claro que ela aparecia estacionada em todo o lado a que eu chegava com o meu carro velho. Para ter a oportunidade de mudar de veículo em plena fuga.
E apesar das tentativas para a convidar para me acompanhar, ela seguia sempre o louro embora logo estivesse a meu lado, enlevadíssima. Era dada aqui como sendo irmã do Espanhol. Mas eu que conheci as irmãs dele Espanhol sei que não era nenhuma delas. Mesmo assim, relatei-lhe a vez que lá estive em casa e a forma como havia conhecido o pai dela.
Mas já te digo, pá, que o pior veio a seguir.
Estás a ver um editor de imagem em que combinas, com uma certa transparência, três imagens diferentes?
Pois bem, a acção decorria num atelier de um antigo alfaiate leiriense, na garagem do último piso daquela banda de prédios que a gente sabe e num certo bar de ingleses no Algarve - tudo num só ambiente.
Aí, havia um frenesi de abalada. Era para irmos não sei onde, em bando.
Lembro-me de ter telefonado à primeira das forasteiras a dizer que não ia. Ela respondeu-me que nesse caso também não saía de casa.
Não me recordo foi se telefonei à forasteira-dois. O certo é que, se tentei, não o consegui. Isso fez com que ela aparecesse, como combinado.
A primeira coisa que lhe disse foi: A forasteira-um não vai nunca acreditar que eu não fiz de propósito.
O facto de entrementes ter entrado no comboio-autocarro, armado conspicuamente de G3 [2], reforçando a segurança do Presidente e ostentando os meus galões, é despiciendo.
A seguir é que sim, desembarcado que fui à porta do café e logo a discutir com os demais as questões de segurança que eles levantavam tal como a ouvir as indicações que me forneciam, cheguei ao ponto de me resolver a levar a forasteira-dois (doravante referida como "a moça") a sentar-se comigo na mesma mesa do Manel onde ocorreu o episódio da Idade da Glaciação, e a ter com ela demorada entrevista.
Aqui sim desenvolveu-se um acentuada ternura pela moça.
A G3 encostada à parede do fundo, completamente desarmado, ouvi longamente a sua exposição, alheado dos acontecimentos que se desenrolavam em redor.
Este desarmamento desarmou-me. Fixei-me nela.
Quando finalmente nos levantámos e que ela pediu a outra das minhas primas permissão para ir a casa dela mudar de roupa, um dos anciãos veio por um conselho e convidei-o a sentar-se comigo na mesma mesa. Foi quando não vi a espingarda.
Eu sabia que naquela parede [3] em particular as G3 desenvolviam a camuflagem ao ponto de se tornarem intangíveis, mas cri que era antes coisa do Manel. Acertei.
Deu a sua habitual justificação e entregou-me a arma. Já eu me retirava - ignorando o ancião - quando reparei que a arma que ele me entregara era uma espécie de caricatura de G3 feita de arame grosso [4].
Com toda a calma, expliquei-lhe que se tratava de uma arma e não de um brinquedo.
Ele voltou à casa de banho, de onde retirara a primeira, e mostrou-me uma G3 sem cano e sem carregador. Eu ri-me e disse-lhe para procurar melhor. À terceira foi de vez, devolveu-me a arma.
Saindo para a rua, tropecei na moça, já de roupa nova.
De volta ao balcão do Manel, entre duas bicas, ela disse-me:
Fazes bem em procurar os tais olhos. Eu faria o mesmo.
LP sorriu, desenhou uma pirueta e, puxando do enésimo cigarro, disse. Quais disse? Escreveu:
Sou, então, desde que caldeus e visigodos se reuniram em torno da caldeirada penicheira, bacharel em pernas de donzela e meus meio-inimigos não mais me perdoarão por ter denunciado a solicitude com que o benjamim de entre eles se ofereceu para restaurar a veleidade pagã no seio da hipocondríaca nação a que todos estamos ligados.
Viro-me pois para a heresia descontente das sabatinas ao sol-pôr e já não apelo para o Supremo Tribunal porque tal não me diz nada.
(30-4-80)
Eu repliquei - julgo que de viva voz.
Duas coisas, meu Caro, duas coisas. Esta noite foi um ver-se-te-avias de abrir e fechar portas de cafés-museus ali para a zona de Belém. Ver de plano alto uma ampla zona a sudoeste onde se identificava um edifício que trazia um certo desgosto. E sair da tal praça de onde se só se podia sair sendo-se mimo. E tentar entrar no tal beco completamente preenchido pelo camião-escavadora cuja articulação se conformava com a topologia do sítio.
E esta tarde, no mundo de Alice, uma segunda versão de La Nuit. Parecida, muito parecida, com uma pessoa que não conheço. Mas em bom. Em muito bom. Até me passou a mão pelo pelo, no primeiro round.
E ele disse qualquer coisa que me pareceu I rest my case. Achei estranho. Sei que não é muito de línguas estrangeiras.
Não sei se era ele. Mas pareceu-me que sim.
Apareceu pela manhã e soltou primeiramente as suas habituais imprecações.
Poupo-vos às enormidades que pronunciou.
Depois sentou-se, acalmou, fumou uns quantos cigarros, oferecendo-me sempre o maço, esperando que eu declinasse, já que sabe que eu há pouco mais de um ano mandei o vício ao tapete mais uma vez, e disse:
Foda-se, não percebes nada disto!
Isto é assim - disse, com todas as certezas deste mundo debaixo do braço - tu queres escrever quatro posts em um mas falta-te a arte.
Então vejamos. Os pontos são os seguintes: a moça persegue-te nos sonhos.
Persegue, sim.
Pois, mas no final é à Costa dos Esqueletos que aportas.
Claro. Querias o quê, LP?
Que não fosses parvo, Manel. Às vezes - e ria-se - és uma besta!
Ok, ok, deixa-te de comentários.
Então, diz-me lá, que história é essa da moça não te deixar dormir?
Não me deixa - não! É, antes pelo contrário, nos sonhos que me assola.
Huuuuuu - estou a ver, uma fixaçãozinha.
Talvez, sei lá, já não digo nada. Ontem apareceu como irmã do Espanhol, hoje como a viandante. De feições diferentes.
É o Diabo, companheiro, tenta-te com quantas caras tem.
O Diabo, o cara..., é mas é uma fixação com uma mulher, pá!
E sabes com quem?
Sei. Uma mistura da moça de beige com a selecção feminina do Resto do Mundo.
É pouco para uma definição por compreensão. E pouco é para uma identificação.
Será!
Tens a certeza de que não queres usar um dos meus textos para encher chouriços?
'Péra aí, pá. Isto ainda não chegou a esse ponto. Respeito quem aqui costuma vir ler o que escrevo, ver o que fotografo.
Ah, agora os meus textos são uma falta de respeito! Belo!
Mas diz lá, isso da G3 e da moça. Conta lá.
Ui, é uma longa história. Posso começar pelo primeiro caso. Aparentemente não relacionado.
Ela apareceu com um fulano alourado. E outro casal. Vinham num carro pequeno e andavam de companha comigo e com uma prima.
Nesse dia, eu tinha comprado uma carrinha Ford Escort mk III, azul escura [1].
E claro que ela aparecia estacionada em todo o lado a que eu chegava com o meu carro velho. Para ter a oportunidade de mudar de veículo em plena fuga.
E apesar das tentativas para a convidar para me acompanhar, ela seguia sempre o louro embora logo estivesse a meu lado, enlevadíssima. Era dada aqui como sendo irmã do Espanhol. Mas eu que conheci as irmãs dele Espanhol sei que não era nenhuma delas. Mesmo assim, relatei-lhe a vez que lá estive em casa e a forma como havia conhecido o pai dela.
Mas já te digo, pá, que o pior veio a seguir.
Estás a ver um editor de imagem em que combinas, com uma certa transparência, três imagens diferentes?
Pois bem, a acção decorria num atelier de um antigo alfaiate leiriense, na garagem do último piso daquela banda de prédios que a gente sabe e num certo bar de ingleses no Algarve - tudo num só ambiente.
Aí, havia um frenesi de abalada. Era para irmos não sei onde, em bando.
Lembro-me de ter telefonado à primeira das forasteiras a dizer que não ia. Ela respondeu-me que nesse caso também não saía de casa.
Não me recordo foi se telefonei à forasteira-dois. O certo é que, se tentei, não o consegui. Isso fez com que ela aparecesse, como combinado.
A primeira coisa que lhe disse foi: A forasteira-um não vai nunca acreditar que eu não fiz de propósito.
O facto de entrementes ter entrado no comboio-autocarro, armado conspicuamente de G3 [2], reforçando a segurança do Presidente e ostentando os meus galões, é despiciendo.
A seguir é que sim, desembarcado que fui à porta do café e logo a discutir com os demais as questões de segurança que eles levantavam tal como a ouvir as indicações que me forneciam, cheguei ao ponto de me resolver a levar a forasteira-dois (doravante referida como "a moça") a sentar-se comigo na mesma mesa do Manel onde ocorreu o episódio da Idade da Glaciação, e a ter com ela demorada entrevista.
Aqui sim desenvolveu-se um acentuada ternura pela moça.
A G3 encostada à parede do fundo, completamente desarmado, ouvi longamente a sua exposição, alheado dos acontecimentos que se desenrolavam em redor.
Este desarmamento desarmou-me. Fixei-me nela.
Quando finalmente nos levantámos e que ela pediu a outra das minhas primas permissão para ir a casa dela mudar de roupa, um dos anciãos veio por um conselho e convidei-o a sentar-se comigo na mesma mesa. Foi quando não vi a espingarda.
Eu sabia que naquela parede [3] em particular as G3 desenvolviam a camuflagem ao ponto de se tornarem intangíveis, mas cri que era antes coisa do Manel. Acertei.
Deu a sua habitual justificação e entregou-me a arma. Já eu me retirava - ignorando o ancião - quando reparei que a arma que ele me entregara era uma espécie de caricatura de G3 feita de arame grosso [4].
Com toda a calma, expliquei-lhe que se tratava de uma arma e não de um brinquedo.
Ele voltou à casa de banho, de onde retirara a primeira, e mostrou-me uma G3 sem cano e sem carregador. Eu ri-me e disse-lhe para procurar melhor. À terceira foi de vez, devolveu-me a arma.
Saindo para a rua, tropecei na moça, já de roupa nova.
De volta ao balcão do Manel, entre duas bicas, ela disse-me:
Fazes bem em procurar os tais olhos. Eu faria o mesmo.
LP sorriu, desenhou uma pirueta e, puxando do enésimo cigarro, disse. Quais disse? Escreveu:
Sou, então, desde que caldeus e visigodos se reuniram em torno da caldeirada penicheira, bacharel em pernas de donzela e meus meio-inimigos não mais me perdoarão por ter denunciado a solicitude com que o benjamim de entre eles se ofereceu para restaurar a veleidade pagã no seio da hipocondríaca nação a que todos estamos ligados.
Viro-me pois para a heresia descontente das sabatinas ao sol-pôr e já não apelo para o Supremo Tribunal porque tal não me diz nada.
(30-4-80)
Eu repliquei - julgo que de viva voz.
Duas coisas, meu Caro, duas coisas. Esta noite foi um ver-se-te-avias de abrir e fechar portas de cafés-museus ali para a zona de Belém. Ver de plano alto uma ampla zona a sudoeste onde se identificava um edifício que trazia um certo desgosto. E sair da tal praça de onde se só se podia sair sendo-se mimo. E tentar entrar no tal beco completamente preenchido pelo camião-escavadora cuja articulação se conformava com a topologia do sítio.
E esta tarde, no mundo de Alice, uma segunda versão de La Nuit. Parecida, muito parecida, com uma pessoa que não conheço. Mas em bom. Em muito bom. Até me passou a mão pelo pelo, no primeiro round.
E ele disse qualquer coisa que me pareceu I rest my case. Achei estranho. Sei que não é muito de línguas estrangeiras.
18/07/2006
17/07/2006
A Operação Cratos

imagem da Sky News
O caso, velho de quase um ano, da morte do electricista Jean Charles de Menezes é exemplar do que é meter os pés pelas mãos e não saber sair com um mínimo de dignidade de um lamentável caso de erro policial.
É que um caso destes tem todas as características para poder ser exemplar no bom sentido, não obstante a tragédia que envolve.
Bastava para tanto que assim estabelecido o erro e o mau procedimento policial, de imediato se passasse, em nome de toda a comunidade, a encontrar uma forma de ressarcir, tanto quanto isso é possível, os familiares da vítima. E a explicar-lhes que ninguém seria processado por tal erro. E a dar a isso e à indesmentível inocência do desgraçado electricista o devido destaque. Com todos os custos que isso pudesse ter. Sempre em nome da Nação e da sua defesa. Um caso de Estado.
Tudo isto deveria pois ter sido encarado como um lamentável erro decorrente de uma situação-limite, em que estavam em jogo muitas mais vidas humanas. E que, obviamente, tratando-se de um erro não poria em causa nem a necessidade de adoptar procedimentos semelhantes no futuro nem a preparação da polícia para situações tais.
Pois foi exactamente o contrário que fizeram.
Às primeiras horas, ainda insistiam que o homem era um terrorista.
Depois questionaram, vezes sem conta, todo o procedimento (admite-se e requer-se mesmo que o façam na reserva das instituições respectivas e que identifiquem procedimentos incorrectos e elementos policiais incompetentes).
Permitiu-se até criar um espírito contrário a acções semelhantes.
O imbecil fardado que apareceu a dizer, em directo, na TV que as ordens não eram para disparar a matar mas sim para incapacitar de imediato, sempre que possível com tiros na cabeça, apenas mostrou nos limites do absurdo, e perante a incredulidade do jornalista, o nível que a coisa assumiu e a qualidade dos protagonistas.
Chegaram agora à conclusão de que não vão processar criminalmente ninguém! Um ano depois decidem algo que era suposto ter sido dito de imediato.
Pior, vão abrir um processo absurdo por uma espécie de violação de garantias de segurança.
É a mentalidadezinha dos novos tempos.
A incapacidade de chamar os bois pelos nomes.
A terceira via.

imagem da Sky News
O caso, velho de quase um ano, da morte do electricista Jean Charles de Menezes é exemplar do que é meter os pés pelas mãos e não saber sair com um mínimo de dignidade de um lamentável caso de erro policial.
É que um caso destes tem todas as características para poder ser exemplar no bom sentido, não obstante a tragédia que envolve.
Bastava para tanto que assim estabelecido o erro e o mau procedimento policial, de imediato se passasse, em nome de toda a comunidade, a encontrar uma forma de ressarcir, tanto quanto isso é possível, os familiares da vítima. E a explicar-lhes que ninguém seria processado por tal erro. E a dar a isso e à indesmentível inocência do desgraçado electricista o devido destaque. Com todos os custos que isso pudesse ter. Sempre em nome da Nação e da sua defesa. Um caso de Estado.
Tudo isto deveria pois ter sido encarado como um lamentável erro decorrente de uma situação-limite, em que estavam em jogo muitas mais vidas humanas. E que, obviamente, tratando-se de um erro não poria em causa nem a necessidade de adoptar procedimentos semelhantes no futuro nem a preparação da polícia para situações tais.
Pois foi exactamente o contrário que fizeram.
Às primeiras horas, ainda insistiam que o homem era um terrorista.
Depois questionaram, vezes sem conta, todo o procedimento (admite-se e requer-se mesmo que o façam na reserva das instituições respectivas e que identifiquem procedimentos incorrectos e elementos policiais incompetentes).
Permitiu-se até criar um espírito contrário a acções semelhantes.
O imbecil fardado que apareceu a dizer, em directo, na TV que as ordens não eram para disparar a matar mas sim para incapacitar de imediato, sempre que possível com tiros na cabeça, apenas mostrou nos limites do absurdo, e perante a incredulidade do jornalista, o nível que a coisa assumiu e a qualidade dos protagonistas.
Chegaram agora à conclusão de que não vão processar criminalmente ninguém! Um ano depois decidem algo que era suposto ter sido dito de imediato.
Pior, vão abrir um processo absurdo por uma espécie de violação de garantias de segurança.
É a mentalidadezinha dos novos tempos.
A incapacidade de chamar os bois pelos nomes.
A terceira via.
A parte mais estúpida
A parte mais estúpida deste conflito de décadas (para contar só desde a criação de Israel) no Próximo Oriente são os absurdos apelos à paz.
Já não há pachorra.

imagem adaptada de http://www.swannysmodels.com/images/S199/boxart.jpg
Esta imagem do Spitfire e do Messerschmitt é, por outro lado, tragicamente irónica. Ou não será?
A parte mais estúpida deste conflito de décadas (para contar só desde a criação de Israel) no Próximo Oriente são os absurdos apelos à paz.
Já não há pachorra.

imagem adaptada de http://www.swannysmodels.com/images/S199/boxart.jpg
Esta imagem do Spitfire e do Messerschmitt é, por outro lado, tragicamente irónica. Ou não será?
16/07/2006
Fogo
Querem ver que foi este ano que decidiram (quem e como?) deixar de alimentar o fogo nas televisões?
Se assim é, parece-me bem.
Querem ver que foi este ano que decidiram (quem e como?) deixar de alimentar o fogo nas televisões?
Se assim é, parece-me bem.
15/07/2006
Santa Terrinha
A notícia é que naquela povoação não há nomes para as ruas nem números para as portas.
É uma peça com o carteiro.
Mas as frases que ficam são a de uma habitante e a do homem que é identificado como Presidente da Junta.
Ela gostava que houvessem.
"Quando vamos ao hospital, sentimo-nos inferiorizados. As pessoas não acreditam que não há nem uma coisa nem outra."
Ele acha que não.
"Já viu que com os números, se viesse para aqui um terrorista, a gente não sabia quem ele era? Com o número e com o terrorismo que há agora! A gente gosta de saber quem cá está."
Citei de memória.
Talvez passe hoje no telejornal da RTP. Se não passou já.
A notícia é que naquela povoação não há nomes para as ruas nem números para as portas.
É uma peça com o carteiro.
Mas as frases que ficam são a de uma habitante e a do homem que é identificado como Presidente da Junta.
Ela gostava que houvessem.
"Quando vamos ao hospital, sentimo-nos inferiorizados. As pessoas não acreditam que não há nem uma coisa nem outra."
Ele acha que não.
"Já viu que com os números, se viesse para aqui um terrorista, a gente não sabia quem ele era? Com o número e com o terrorismo que há agora! A gente gosta de saber quem cá está."
Citei de memória.
Talvez passe hoje no telejornal da RTP. Se não passou já.
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