18/01/2008
Afinal o cheiro
Ainda suscita mais umas questões.
A que horas é que a direcção da faculdade de Farmácia comunicou às autoridades o conhecimento que tinha do derrame do tiol (se era de facto tiol)?
E depois dessa comunicação, quanto tempo ainda durou o arraial das investigações?
E, já agora, qual terá sido a quantidade derramada?
Da resposta à segunda questão depende a avaliação da resposta a problemas deste tipo, a forma como as coisas são coordenadas, etc.
Ainda suscita mais umas questões.
A que horas é que a direcção da faculdade de Farmácia comunicou às autoridades o conhecimento que tinha do derrame do tiol (se era de facto tiol)?
E depois dessa comunicação, quanto tempo ainda durou o arraial das investigações?
E, já agora, qual terá sido a quantidade derramada?
Da resposta à segunda questão depende a avaliação da resposta a problemas deste tipo, a forma como as coisas são coordenadas, etc.
17/01/2008
O ordenamento do território
Por que é que eu tenho esta sensação de que a maioria dos que enchem a boca com o ordenamento do território se interrogados sobre o que isso é, do que é que trata, não saberiam responder?
Normalmente acontece com as pessoas que enchem muito a boca com um conceito qualquer.
Aproveito para dizer que eu não sei o que é o ordenamento do território. E que também tenho a noção de que quando as pessoas nada sabem de um assunto tendem a pensar que ninguém afinal sabe nada sobre tal.
Por que é que eu tenho esta sensação de que a maioria dos que enchem a boca com o ordenamento do território se interrogados sobre o que isso é, do que é que trata, não saberiam responder?
Normalmente acontece com as pessoas que enchem muito a boca com um conceito qualquer.
Aproveito para dizer que eu não sei o que é o ordenamento do território. E que também tenho a noção de que quando as pessoas nada sabem de um assunto tendem a pensar que ninguém afinal sabe nada sobre tal.
Esta história do cheiro
Que anda há horas e horas a dar que fazer aos bombeiros em Lisboa deixa pelo menos três dados curiosos.
A crer no que se disse aqui e ali.
O primeiro é que tenha sido por tanta gente confundido o cheiro dito de gás com o cheiro a enxofre.
O segundo é que um frasco possa conter uma quantidade tal de uma substância que cheire tão intensa e persistentemente e numa área tão vasta.
O terceiro é que removido o frasco ainda se ande à procura da fonte da contaminação.
Que anda há horas e horas a dar que fazer aos bombeiros em Lisboa deixa pelo menos três dados curiosos.
A crer no que se disse aqui e ali.
O primeiro é que tenha sido por tanta gente confundido o cheiro dito de gás com o cheiro a enxofre.
O segundo é que um frasco possa conter uma quantidade tal de uma substância que cheire tão intensa e persistentemente e numa área tão vasta.
O terceiro é que removido o frasco ainda se ande à procura da fonte da contaminação.
16/01/2008
Triste espectáculo
Para além da qualidade dos raciocínios expendidos, para além dos ricochetes que a palavra arrogância fez na madeira que parece encerada, ainda se vê no final este triste espectáculo de um sistema electrónico de carregar pela boca – pois a coisa é feita à zona, como se constata pelo resultado para ali erradamente metido – sistema que na certa nos custou os olhos da cara.
Tanta incompetência não admira. É a reflexão na dita madeira do brilho dos sentantes.

imagem da AR tv
Para além da qualidade dos raciocínios expendidos, para além dos ricochetes que a palavra arrogância fez na madeira que parece encerada, ainda se vê no final este triste espectáculo de um sistema electrónico de carregar pela boca – pois a coisa é feita à zona, como se constata pelo resultado para ali erradamente metido – sistema que na certa nos custou os olhos da cara.
Tanta incompetência não admira. É a reflexão na dita madeira do brilho dos sentantes.

imagem da AR tv
15/01/2008
A voz do Gazcidla

imagem do arquivo da RTP
Fui dar àquela sede de concelho alentejana, por via de algum espectáculo desportivo que teria a ver com bicicletas. A bem dizer, não sei se seriam bicicletas ao certo. Era um espectáculo viário sim, que passou efémero e nebuloso porque não fiquei a saber o que era, mas devia ter ao certo muita gente na caravana, dada a importância que assumia e ninguém a assistir.
Porque a assistir, assim parece, ao fundo daquela rampa que virava à direita, na subida, eu distinguia vagamente uma igreja em obras ou a carecer delas e que eu vagamente julguei reconhecer, disse para mim Aljustrel mas em Aljustrel não há nada parecido. Eu não sabia onde estava, fora para ali levado pelo tal fenómeno desportivo e não sabia onde estava. E a assistir, dizia, apenas vi um homem de preto, acho que com uma bóina, preto ou daqueles azuis escuros, arroxeados, castanhos, que parecem pretos ao longe, no verão. O homem ou teria bóina ou tinha o cabelo preto, vinha a andar para mim devagar e eu para ele, na esperança de ver parte da caravana ainda ou de reconhecer mais um sinal qualquer da povoação.
Compete dizer que isto decorria aos alvores, antes do nascer do sol mas já com luz suficiente para se dizer que era dia.
É quando um tipo de motorizada, que descia a dita rampa, ladeira digo, faz um esse para cima dele e de mim, o homem assusta-se e diz qualquer coisa ao outro e ele responde.
Soalheirinha, ou melhor Soeirinha, Soeirinha.
Foi um nome que eu vi em qualquer lado ou na moto ou no homem ou no capacete do homem, mas não sei como é que o vi. Decerto Soeirinha e a sua moto não seriam estranhos ao homem de preto, que com um sorriso me disse logo ser meu cúmplice. Mas não me apertou a mão. Dirigiu-se a uma espécie de triciclo do gás, eu digo que era do gás porque é importante dizer que era do gás, e disse-me então quando é que aparece ou uma coisa do género, pressupondo um conhecimento nosso anterior. Eu não respondi, julgando... tendo a certeza de que não conhecia o homem e que não podia ter compromisso com ele nenhum.
Aqui, ele pega no seu triciclo, julgo que dá uma meia-volta e diz mais qualquer coisa do género, talvez protegido por uma flama Gazcidla ou por uma flama azul e vermelha que se via... azul, branca e vermelha que se via numa esquina – então já não vende Gazcidla? – e eu respondi com ar galhofeiro: Não, desse já não vendo há muito tempo, agora só se fôr Galp. O homem riu-se e estacionou o triciclo numa rua que parecia principal* e que descia. Estacionou, creio, em sentido contrário. Saiu do triciclo e entrou rápido numa porta onde se subiam dois ou três degraus até uma loja. Segui-o, mais por galhofa do que por outra coisa qualquer. Ele perguntou-me assim: Atão o gás? Não me traz o gás? E eu disse-lhe: Não vendo gás. O senhor está a confundir com outra pessoa qualquer. Eu sou da charneca, como se isso me ilibasse de fornecer-lhe gás. Ele olhou para mim e nada disse. Mas diga-me uma coisa - disse eu - sou assim tão parecido com o indivíduo que o senhor espera? Ele respondeu: Não. Não sei, eu conheci-o pela voz. Pela voz? Sim, o caso é que eu estava de férias e sabendo que não tinha gás, telefonei para tal sítio e falei consigo. Consigo não, com o outro e pedi uma garrafa de gás. E que viessem arranjar uma coisa, que eu tenho aqui um problema. E reconheci-o pela voz hoje, pensei que era você. Ele antes disso tinha-me perguntado antes de entrar na loja, onde é que eu tinha deixado o carro. E o carro estava atrás de um outro nessa rua, um pouco mais para lá. Acho que eram só os dois que se viam nessa rua, só que o carro estava mesmo atrás do outro, não se via dali bem.
Então ele riu-se, percebeu finalmente que havia ali um engano de vozes, não fez referência nenhuma ao facto de eu conhecer o Soeirinha, de eu ser da charneca, de o meu sotaque ser parecido com o dele, e estava já a vender pregos a alguém, assim os tais três degraus acima de mim. Era sobranceiro. Quando a mulher dele, assim com muito bom aspecto, de óculos, uma senhora realmente com muito bom aspecto, muito educada, não era bonita, não era bem feita, tinha muito bom aspecto, talvez bonomia, uns óculos de massa, pretos, o cabelo ligeiramente desgrenhado, preto, uma roupa escura, preta, uma pele morena, disse um sonoro e sincero muito obrigado, senhor Manel. E eu saí da loja para não mais voltar. E ainda não sei em que sede de concelho alentejano estive.
Nem como fui conhecido pela voz sem abrir a boca.

* assim como a rua Infante Dom Henrique em Portimão.

imagem do arquivo da RTP
Fui dar àquela sede de concelho alentejana, por via de algum espectáculo desportivo que teria a ver com bicicletas. A bem dizer, não sei se seriam bicicletas ao certo. Era um espectáculo viário sim, que passou efémero e nebuloso porque não fiquei a saber o que era, mas devia ter ao certo muita gente na caravana, dada a importância que assumia e ninguém a assistir.
Porque a assistir, assim parece, ao fundo daquela rampa que virava à direita, na subida, eu distinguia vagamente uma igreja em obras ou a carecer delas e que eu vagamente julguei reconhecer, disse para mim Aljustrel mas em Aljustrel não há nada parecido. Eu não sabia onde estava, fora para ali levado pelo tal fenómeno desportivo e não sabia onde estava. E a assistir, dizia, apenas vi um homem de preto, acho que com uma bóina, preto ou daqueles azuis escuros, arroxeados, castanhos, que parecem pretos ao longe, no verão. O homem ou teria bóina ou tinha o cabelo preto, vinha a andar para mim devagar e eu para ele, na esperança de ver parte da caravana ainda ou de reconhecer mais um sinal qualquer da povoação.
Compete dizer que isto decorria aos alvores, antes do nascer do sol mas já com luz suficiente para se dizer que era dia.
É quando um tipo de motorizada, que descia a dita rampa, ladeira digo, faz um esse para cima dele e de mim, o homem assusta-se e diz qualquer coisa ao outro e ele responde.
Soalheirinha, ou melhor Soeirinha, Soeirinha.
Foi um nome que eu vi em qualquer lado ou na moto ou no homem ou no capacete do homem, mas não sei como é que o vi. Decerto Soeirinha e a sua moto não seriam estranhos ao homem de preto, que com um sorriso me disse logo ser meu cúmplice. Mas não me apertou a mão. Dirigiu-se a uma espécie de triciclo do gás, eu digo que era do gás porque é importante dizer que era do gás, e disse-me então quando é que aparece ou uma coisa do género, pressupondo um conhecimento nosso anterior. Eu não respondi, julgando... tendo a certeza de que não conhecia o homem e que não podia ter compromisso com ele nenhum.
Aqui, ele pega no seu triciclo, julgo que dá uma meia-volta e diz mais qualquer coisa do género, talvez protegido por uma flama Gazcidla ou por uma flama azul e vermelha que se via... azul, branca e vermelha que se via numa esquina – então já não vende Gazcidla? – e eu respondi com ar galhofeiro: Não, desse já não vendo há muito tempo, agora só se fôr Galp. O homem riu-se e estacionou o triciclo numa rua que parecia principal* e que descia. Estacionou, creio, em sentido contrário. Saiu do triciclo e entrou rápido numa porta onde se subiam dois ou três degraus até uma loja. Segui-o, mais por galhofa do que por outra coisa qualquer. Ele perguntou-me assim: Atão o gás? Não me traz o gás? E eu disse-lhe: Não vendo gás. O senhor está a confundir com outra pessoa qualquer. Eu sou da charneca, como se isso me ilibasse de fornecer-lhe gás. Ele olhou para mim e nada disse. Mas diga-me uma coisa - disse eu - sou assim tão parecido com o indivíduo que o senhor espera? Ele respondeu: Não. Não sei, eu conheci-o pela voz. Pela voz? Sim, o caso é que eu estava de férias e sabendo que não tinha gás, telefonei para tal sítio e falei consigo. Consigo não, com o outro e pedi uma garrafa de gás. E que viessem arranjar uma coisa, que eu tenho aqui um problema. E reconheci-o pela voz hoje, pensei que era você. Ele antes disso tinha-me perguntado antes de entrar na loja, onde é que eu tinha deixado o carro. E o carro estava atrás de um outro nessa rua, um pouco mais para lá. Acho que eram só os dois que se viam nessa rua, só que o carro estava mesmo atrás do outro, não se via dali bem.
Então ele riu-se, percebeu finalmente que havia ali um engano de vozes, não fez referência nenhuma ao facto de eu conhecer o Soeirinha, de eu ser da charneca, de o meu sotaque ser parecido com o dele, e estava já a vender pregos a alguém, assim os tais três degraus acima de mim. Era sobranceiro. Quando a mulher dele, assim com muito bom aspecto, de óculos, uma senhora realmente com muito bom aspecto, muito educada, não era bonita, não era bem feita, tinha muito bom aspecto, talvez bonomia, uns óculos de massa, pretos, o cabelo ligeiramente desgrenhado, preto, uma roupa escura, preta, uma pele morena, disse um sonoro e sincero muito obrigado, senhor Manel. E eu saí da loja para não mais voltar. E ainda não sei em que sede de concelho alentejano estive.
Nem como fui conhecido pela voz sem abrir a boca.

* assim como a rua Infante Dom Henrique em Portimão.
14/01/2008
Diametralmente opostos
Duma coisa estou quase certo: não estava em posição que se pudesse vulgarmente dizer diametralmente oposta à daquela senhora.
Mas sabemos todos que dados dois pontos quaisquer, o ponto médio do segmento de recta por eles definido é o centro de uma circunferência da qual esse segmento é diâmetro e os ditos pontos são assim diametralmente opostos. Era uma questão de escolher dois pontos, um na senhora outro em mim. Mas não era questão que se pusesse.
De resto, afianço que até não tinha dado por ela, tapada que estava por alguém que se intrometia entre nós.
Só depois de eu ter terminado a minha oração sobre pontos que tais é que lhe ouvi a voz.
Intrometeu-se na minha finalização de caso e tratou de contar uma história que metia belgas e a linha que divide a Flandres da Valónia e na qual se dizia que um flamengo tinha uma visão diametralmente oposta à de um valão. E depois um francês – acho que era um francês, que bem podia ser de outro país qualquer limítrofe, que dizia que a sua opinião era oposta à dos outros dois.
E esta senhora, com esta intromissão, pretendeu criar um problema irresolúvel graficamente. Eu depois disse que o tinha resolvido. Assim com uma chicoesperteza que me pareceu logo ser de mau tom explicar, uma vez que sendo aldrabada, ofendia a inteligência da dona.
Resolvi tossir.
Duma coisa estou quase certo: não estava em posição que se pudesse vulgarmente dizer diametralmente oposta à daquela senhora.
Mas sabemos todos que dados dois pontos quaisquer, o ponto médio do segmento de recta por eles definido é o centro de uma circunferência da qual esse segmento é diâmetro e os ditos pontos são assim diametralmente opostos. Era uma questão de escolher dois pontos, um na senhora outro em mim. Mas não era questão que se pusesse.
De resto, afianço que até não tinha dado por ela, tapada que estava por alguém que se intrometia entre nós.
Só depois de eu ter terminado a minha oração sobre pontos que tais é que lhe ouvi a voz.
Intrometeu-se na minha finalização de caso e tratou de contar uma história que metia belgas e a linha que divide a Flandres da Valónia e na qual se dizia que um flamengo tinha uma visão diametralmente oposta à de um valão. E depois um francês – acho que era um francês, que bem podia ser de outro país qualquer limítrofe, que dizia que a sua opinião era oposta à dos outros dois.
E esta senhora, com esta intromissão, pretendeu criar um problema irresolúvel graficamente. Eu depois disse que o tinha resolvido. Assim com uma chicoesperteza que me pareceu logo ser de mau tom explicar, uma vez que sendo aldrabada, ofendia a inteligência da dona.
Resolvi tossir.
13/01/2008
Mais uma
Não sei se é mera infantilidade se falta de tarola.
Clique na imagem e atente na data em que foi tirada e no nome do autor.
Depois veja este post.
Não sei se é mera infantilidade se falta de tarola.
Clique na imagem e atente na data em que foi tirada e no nome do autor.
Depois veja este post.
11/01/2008
10/01/2008
Sobre um ninho de cucos
De decisões preliminares está o inferno, digo o espaço aéreo, cheio.
Ainda assim, fica este governo, por ora, conhecido por ter decidido tomar uma decisão ("decidiu tomar uma decisão" - sic) que soa acertada. Parabéns!
Sendo uma ocasião rara, saúdo-a.
Como já aqui tinha dito, no auge da polémica – 5 dias depois do deserto – em toda a minha infância ouvi falar da ponte do Montijo (Beato – Montijo) e do aeroporto em Rio Frio.
A ponte está lá desde 98. Com o encontro noroeste mais a montante, em Sacavém.
Se o aeroporto fôr enfim construído onde agora se diz, não ficará longe de Rio Frio. Uma insignificância, comparando a distância com a dimensão da empresa.
Esta decisão preliminar não dá nenhuma certeza. Este processo já semelha o da decisão da primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa e o do metro do Porto, que se arrastaram por décadas. Isto num país em que há um templo que demorou quase três séculos a ser concluído.
Mas diz-me que, em tese, quem assim me mostrava o que o futuro traria, não me enganou. A quarenta e tais anos de vista havia muita gente que já tinha percebido isto mesmo.

(clique para aceder ao relatório)
corrigido e acrescentado a 11 JAN. pelas 0:05
De decisões preliminares está o inferno, digo o espaço aéreo, cheio.
Ainda assim, fica este governo, por ora, conhecido por ter decidido tomar uma decisão ("decidiu tomar uma decisão" - sic) que soa acertada. Parabéns!
Sendo uma ocasião rara, saúdo-a.
Como já aqui tinha dito, no auge da polémica – 5 dias depois do deserto – em toda a minha infância ouvi falar da ponte do Montijo (Beato – Montijo) e do aeroporto em Rio Frio.
A ponte está lá desde 98. Com o encontro noroeste mais a montante, em Sacavém.
Se o aeroporto fôr enfim construído onde agora se diz, não ficará longe de Rio Frio. Uma insignificância, comparando a distância com a dimensão da empresa.
Esta decisão preliminar não dá nenhuma certeza. Este processo já semelha o da decisão da primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa e o do metro do Porto, que se arrastaram por décadas. Isto num país em que há um templo que demorou quase três séculos a ser concluído.
Mas diz-me que, em tese, quem assim me mostrava o que o futuro traria, não me enganou. A quarenta e tais anos de vista havia muita gente que já tinha percebido isto mesmo.

(clique para aceder ao relatório)
corrigido e acrescentado a 11 JAN. pelas 0:05
09/01/2008
O homem duplicado
(ou o tradicional post das 3:05)
Quando peguei no livro de Saramago, não tinha a menor ideia do que lá estava escrito. Coisa que, creio, não me tinha acontecido com os outros livros que lera dele.
Foi assim intensamente que logo ao início recordei a exacta experiência que ele lá descreve.
E é uma experiência vertiginosa. Actua seguramente sobre o cérebro duma forma semelhante à visão abrupta do abismo.
Experimenta-se a incapacidade de ordenar o universo. Ou de o contemplar com a ordem conhecida.
Ainda hoje não sei quem é o tipo da foto.
Suspeito que se chama António, que lhe chamavam Tóninho, que já morou em Sintra, que tinha há 30 anos uma namorada muito vistosa e que gostava de ralis.
Tudo isto sei-o, dito por umas quantas pessoas que não conhecia até se me dirigirem, tomando-me por ele. Se não sei mais, por via delas, vejo-o agora, foi porque o interesse que então me suscitava era escasso, para surpresa dos próprios interlocutores.
Parece que se acentuou, com a idade. O interesse.
(ou o tradicional post das 3:05)
Quando peguei no livro de Saramago, não tinha a menor ideia do que lá estava escrito. Coisa que, creio, não me tinha acontecido com os outros livros que lera dele.
Foi assim intensamente que logo ao início recordei a exacta experiência que ele lá descreve.
E é uma experiência vertiginosa. Actua seguramente sobre o cérebro duma forma semelhante à visão abrupta do abismo.
Experimenta-se a incapacidade de ordenar o universo. Ou de o contemplar com a ordem conhecida.
Ainda hoje não sei quem é o tipo da foto.
Suspeito que se chama António, que lhe chamavam Tóninho, que já morou em Sintra, que tinha há 30 anos uma namorada muito vistosa e que gostava de ralis.
Tudo isto sei-o, dito por umas quantas pessoas que não conhecia até se me dirigirem, tomando-me por ele. Se não sei mais, por via delas, vejo-o agora, foi porque o interesse que então me suscitava era escasso, para surpresa dos próprios interlocutores.
Parece que se acentuou, com a idade. O interesse.
08/01/2008
07/01/2008
06/01/2008
Os cigarros alheios é que fazem muito mal
A primeira vez que me apareceu um simples no écran alegando que nada poderia ter feito para evitar o desastre, porque já estava tudo parado, data do tempo em que as televisões começaram a dar importância aos directos de acidentes de trânsito. Há mais de uma década.
Esse simples era motorista profissional, presume-se, dado que conduzia um pesado de passageiros e matou nessa ocasião duas pessoas por não ter conseguido parar, numa auto-estrada, sem embater numa fila de carros parados.
Suponho que ainda conduza, nada o impede de. Se assim fôr e dado que ainda é impossível embutir discernimento em cabeças como a dele, há algumas probabilidades de que volte a matar, se as circunstâncias o proporcionarem.
Nestes últimos dias, já por duas vezes mais desde o post de 30 de Dezembro, que assisto a outros simples, com o ar mais natural deste mundo, a atribuírem a responsabilidade dos seus embates aos que já estão enfeixados, às más condições do piso, ao nevoeiro e à falta de atrito que o gelo origina.
Não vão perceber que a responsabilidade é deles até a companhia de seguros os acordar. O discernimento ou a ausência dele, não lhes permite tal. Por isso são tão espontâneos face às câmaras.
As autoridades sabem que a maior parte dos acidentes não se deve ao álcool – apenas 4,3% dos condutores testados por envolvimento em acidente apresentaram em 2006 taxas de álcool superiores ao limite legal (cf. relatório da antiga DGV – pág. 108, quadro 5).
Devem ter uma ideia de que, para além da tão apregoada falta de civismo, que existe claro e lhe está associada, é a falta de discernimento e a incapacidade de manobrar um automóvel que estão na base dos excessos de velocidade (dentro ou fora dos limites estabelecidos), das manobras arriscadas, do descontrolo da máquina. O mesmo relatório (pág. 64) atribui como causas que vitimaram 27% dos condutores, a velocidade excessiva e as manobras irregulares - o grosso das causas identificadas. 62% das vítimas ao volante ainda resulta de acidentes com causas desconhecidas.
Sobre isto, basta ter uma ideia de quem faz os autos dos acidentes para se saber o valor que esta informação tem, mas é a que existe.
Face a isso, a grande medida, para além de uma apregoado agravamento das penas de inibição, é a antecipação da revisão dos condutores vulgares dos 65 para os 50 anos.
Nada contra estas medidas em particular. Aliás, o adiamento dos 40 para os 65 foi mais uma das medidas que alguém tomou há umas décadas atrás, que só se justifica por puro facilitismo ou por reconhecimento da ineficácia de tal renovação.
Mas pensarão os que assim decidiram, que serve hoje para alguma coisa, para além de recolher mais uns cobres, antecipar esse prazo? Serviria, se fossem efectivas tais inspecções.
Atente-se, por exemplo, no número de condutores com mais de 65 anos, logo já sujeitos a exame médico, que andam em sentido contrário nas auto-estradas.
E qual é o número anual de condutores definitivamente impedidos de conduzir, por incapacidade? Alguém o conhece?
Pode impedir-se os simples de cometerem atrocidades na estrada? Não. A menos que se acabe com o trânsito, é claro.
Mas pode cassar-se de uma vez por todas a carta aos incapazes. Pode ser-se exigente no parâmetro do discernimento com os candidatos a condutores. E, por último, é possível amedrontá-los com penas de prisão em caso de provocarem a morte ou a incapacidade, quando ao volante.
Num tempo em que a sociedade enveredou por uma super-protecção dos individuos, da qual é exemplo a lei do tabaco, parece estranho que se ignore esta causa de morte e se insista em procurar em razões outras – o álcool, por exemplo – a causa dos acidentes.
Não se percebe assim que se proíbam os fumadores de frequentar ambientes onde o incómodo e o prejuízo que causam é infinitamente menor do que um homicídio ao volante e se permita que os homicidas continuem nas vias públicas.
Os fumadores não estão proibidos de frequentar tais lugares – não podem é lá fumar.
Da mesma maneira, não se proibiriam os homicidas do volante de andarem na estrada – não poderiam é ir com ele, volante, nas mãos.
A primeira vez que me apareceu um simples no écran alegando que nada poderia ter feito para evitar o desastre, porque já estava tudo parado, data do tempo em que as televisões começaram a dar importância aos directos de acidentes de trânsito. Há mais de uma década.
Esse simples era motorista profissional, presume-se, dado que conduzia um pesado de passageiros e matou nessa ocasião duas pessoas por não ter conseguido parar, numa auto-estrada, sem embater numa fila de carros parados.
Suponho que ainda conduza, nada o impede de. Se assim fôr e dado que ainda é impossível embutir discernimento em cabeças como a dele, há algumas probabilidades de que volte a matar, se as circunstâncias o proporcionarem.
Nestes últimos dias, já por duas vezes mais desde o post de 30 de Dezembro, que assisto a outros simples, com o ar mais natural deste mundo, a atribuírem a responsabilidade dos seus embates aos que já estão enfeixados, às más condições do piso, ao nevoeiro e à falta de atrito que o gelo origina.
Não vão perceber que a responsabilidade é deles até a companhia de seguros os acordar. O discernimento ou a ausência dele, não lhes permite tal. Por isso são tão espontâneos face às câmaras.
As autoridades sabem que a maior parte dos acidentes não se deve ao álcool – apenas 4,3% dos condutores testados por envolvimento em acidente apresentaram em 2006 taxas de álcool superiores ao limite legal (cf. relatório da antiga DGV – pág. 108, quadro 5).
Devem ter uma ideia de que, para além da tão apregoada falta de civismo, que existe claro e lhe está associada, é a falta de discernimento e a incapacidade de manobrar um automóvel que estão na base dos excessos de velocidade (dentro ou fora dos limites estabelecidos), das manobras arriscadas, do descontrolo da máquina. O mesmo relatório (pág. 64) atribui como causas que vitimaram 27% dos condutores, a velocidade excessiva e as manobras irregulares - o grosso das causas identificadas. 62% das vítimas ao volante ainda resulta de acidentes com causas desconhecidas.
Sobre isto, basta ter uma ideia de quem faz os autos dos acidentes para se saber o valor que esta informação tem, mas é a que existe.
Face a isso, a grande medida, para além de uma apregoado agravamento das penas de inibição, é a antecipação da revisão dos condutores vulgares dos 65 para os 50 anos.
Nada contra estas medidas em particular. Aliás, o adiamento dos 40 para os 65 foi mais uma das medidas que alguém tomou há umas décadas atrás, que só se justifica por puro facilitismo ou por reconhecimento da ineficácia de tal renovação.
Mas pensarão os que assim decidiram, que serve hoje para alguma coisa, para além de recolher mais uns cobres, antecipar esse prazo? Serviria, se fossem efectivas tais inspecções.
Atente-se, por exemplo, no número de condutores com mais de 65 anos, logo já sujeitos a exame médico, que andam em sentido contrário nas auto-estradas.
E qual é o número anual de condutores definitivamente impedidos de conduzir, por incapacidade? Alguém o conhece?
Pode impedir-se os simples de cometerem atrocidades na estrada? Não. A menos que se acabe com o trânsito, é claro.
Mas pode cassar-se de uma vez por todas a carta aos incapazes. Pode ser-se exigente no parâmetro do discernimento com os candidatos a condutores. E, por último, é possível amedrontá-los com penas de prisão em caso de provocarem a morte ou a incapacidade, quando ao volante.
Num tempo em que a sociedade enveredou por uma super-protecção dos individuos, da qual é exemplo a lei do tabaco, parece estranho que se ignore esta causa de morte e se insista em procurar em razões outras – o álcool, por exemplo – a causa dos acidentes.
Não se percebe assim que se proíbam os fumadores de frequentar ambientes onde o incómodo e o prejuízo que causam é infinitamente menor do que um homicídio ao volante e se permita que os homicidas continuem nas vias públicas.
Os fumadores não estão proibidos de frequentar tais lugares – não podem é lá fumar.
Da mesma maneira, não se proibiriam os homicidas do volante de andarem na estrada – não poderiam é ir com ele, volante, nas mãos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



