31 dezembro 2004
MMV
"Ainda me divido entre os calendários agrícola e civil. Mesmo que as ligações ao campo se limitem hoje a presenças espaçadas.
E, por isso, vejo os anos terminarem na época balnear. Quando ela existe.
Quando não acontece, a sensação é a de emendar anos em anos, sem que 31 de Dezembro seja mais do que fim de mês.
Poucos anos passei sem molhar os pés. Mas neste século, só uma vez mergulhei nas águas do Atlântico. Com muita pena minha.
Estou portanto quase em ano seguido desde o verão de 2000." - escrevi isto aqui em Maio passado.
Podia ser em Garvão, em Pinhel, em Cacela Velha, no Sanguinhal, em Almofala, no Sabugal, em Angeja, nos Pitões das Júnias, em Barrancos, em Vila Nova de Milfontes, em Marmelete, no Terreiro das Bruxas, em Coja, em Valhelhas, em Proença-a-Nova.
Podia ser em qualquer desses lados ou em qualquer outro que nos agradasse.
Parar o carro e escutar contigo os sons do Ano Novo, batuques, foguetes, tiros, o que fosse.
Como fizemos certa vez em São Martinho do Porto.
Como fizemos muitas vezes em muitos outros locais, sem que fosse Dezembro ou Janeiro.
E agora, és tu que dizes - passaram os anos, e agora?
Agora? Agora é tarde!
A todos os que consideram esta próxima meia-noite especial, mais do que passar de um Dezembro para um Janeiro - sempre tão apartados no tradicional JFMAMJJASOND, pois que o próximo ano cumpra os vossos desejos.
"Ainda me divido entre os calendários agrícola e civil. Mesmo que as ligações ao campo se limitem hoje a presenças espaçadas.
E, por isso, vejo os anos terminarem na época balnear. Quando ela existe.
Quando não acontece, a sensação é a de emendar anos em anos, sem que 31 de Dezembro seja mais do que fim de mês.
Poucos anos passei sem molhar os pés. Mas neste século, só uma vez mergulhei nas águas do Atlântico. Com muita pena minha.
Estou portanto quase em ano seguido desde o verão de 2000." - escrevi isto aqui em Maio passado.
Podia ser em Garvão, em Pinhel, em Cacela Velha, no Sanguinhal, em Almofala, no Sabugal, em Angeja, nos Pitões das Júnias, em Barrancos, em Vila Nova de Milfontes, em Marmelete, no Terreiro das Bruxas, em Coja, em Valhelhas, em Proença-a-Nova.
Podia ser em qualquer desses lados ou em qualquer outro que nos agradasse.
Parar o carro e escutar contigo os sons do Ano Novo, batuques, foguetes, tiros, o que fosse.
Como fizemos certa vez em São Martinho do Porto.
Como fizemos muitas vezes em muitos outros locais, sem que fosse Dezembro ou Janeiro.
E agora, és tu que dizes - passaram os anos, e agora?
Agora? Agora é tarde!
A todos os que consideram esta próxima meia-noite especial, mais do que passar de um Dezembro para um Janeiro - sempre tão apartados no tradicional JFMAMJJASOND, pois que o próximo ano cumpra os vossos desejos.
30 dezembro 2004
Do ano (infantil)
Uma das coisas que me atormenta é o percurso que certas ideias infantis fazem em determinados meios onde seria esperada a sua reflexão (no sentido óptico).
Este ano, há algumas - sempre as mesmas é certo - que merecem destaque.
A sempiterna obsessão com a água, com a sua existência alhures, de forma a esperar-se que tenha havido, haja ou venha a haver vida. Como se não fosse possível imaginarmos formas de vida independentes da água.
E mais uma que se repete - a questão da existência ou não de Deus, face a catástrofes como esta dos últimos dias. Nem merece comentário.
E outra igualmente recorrente, embora mais nova, que se prende com a questão da existência ou não de uma alma, face à futura mais do que provável clonagem humana.
Uma das coisas que me atormenta é o percurso que certas ideias infantis fazem em determinados meios onde seria esperada a sua reflexão (no sentido óptico).
Este ano, há algumas - sempre as mesmas é certo - que merecem destaque.
A sempiterna obsessão com a água, com a sua existência alhures, de forma a esperar-se que tenha havido, haja ou venha a haver vida. Como se não fosse possível imaginarmos formas de vida independentes da água.
E mais uma que se repete - a questão da existência ou não de Deus, face a catástrofes como esta dos últimos dias. Nem merece comentário.
E outra igualmente recorrente, embora mais nova, que se prende com a questão da existência ou não de uma alma, face à futura mais do que provável clonagem humana.
29 dezembro 2004
Samatra, Sumatra e o mais que se ouve
O grande problema de muitos linguistas, entre outros que apelidam de ciência os estudos que desenvolvem com base no homem e nas suas particularidades, é não perceberem que o seu campo de estudo evolui com base no erro e não no acerto (ainda que o acerto humano seja matéria a escalpelar), quando não com base nas modas.
Não faltam hoje, como no passado, duas versões para o mesmo nome.
Socorro-me aqui, como em muitas outras ocasiões, das palavras do intelectual de esquerda que já aqui citei, proferidas nos já longínquos anos setenta:
"Já não se diz Mao Tsé Tung. Agora é Mao Zedong que se diz." - e acompanhava esta sentença de uma longa série de argumentos.
O grande problema de muitos linguistas, entre outros que apelidam de ciência os estudos que desenvolvem com base no homem e nas suas particularidades, é não perceberem que o seu campo de estudo evolui com base no erro e não no acerto (ainda que o acerto humano seja matéria a escalpelar), quando não com base nas modas.
Não faltam hoje, como no passado, duas versões para o mesmo nome.
Socorro-me aqui, como em muitas outras ocasiões, das palavras do intelectual de esquerda que já aqui citei, proferidas nos já longínquos anos setenta:
"Já não se diz Mao Tsé Tung. Agora é Mao Zedong que se diz." - e acompanhava esta sentença de uma longa série de argumentos.
28 dezembro 2004
O Mar
Dizem que desta terra co as possantes
Ondas o mar, entrando, dividiu
A nobre ilha Samatra, que já d'antes
Juntas ambas a gente antiga viu.
Quersoneso foi dita; e das prestantes
Veias d'ouro que a terra produziu,
Áurea por epiteto lhe ajuntaram;
Alguns que fosse Ofir imaginaram.
Luís Vaz de Camões, Lusíadas, X:124
Dizem que desta terra co as possantes
Ondas o mar, entrando, dividiu
A nobre ilha Samatra, que já d'antes
Juntas ambas a gente antiga viu.
Quersoneso foi dita; e das prestantes
Veias d'ouro que a terra produziu,
Áurea por epiteto lhe ajuntaram;
Alguns que fosse Ofir imaginaram.
Luís Vaz de Camões, Lusíadas, X:124
27 dezembro 2004
Terceira fila
Todos os dias há problemas menores para resolver. E são esses que nos causam o aborrecimento.
Que os grandes problemas não suscitam pequenas sensações.
Assim sendo ou não, detive-me hoje na espinhosa tarefa de arrumar livros.
Não há nada que mais me aborreça, em se tratando de livros, do que ter que dispô-los em fila dupla.
Pois hoje fui mais longe. Vi-me compelido a distribuí-los em três filas. Claro que o resultado me aborrece.
Restrições espaciais, má escolha do mobiliário ou a síndrome do burro carregado de livros.
Todos os dias há problemas menores para resolver. E são esses que nos causam o aborrecimento.
Que os grandes problemas não suscitam pequenas sensações.
Assim sendo ou não, detive-me hoje na espinhosa tarefa de arrumar livros.
Não há nada que mais me aborreça, em se tratando de livros, do que ter que dispô-los em fila dupla.
Pois hoje fui mais longe. Vi-me compelido a distribuí-los em três filas. Claro que o resultado me aborrece.
Restrições espaciais, má escolha do mobiliário ou a síndrome do burro carregado de livros.
26 dezembro 2004
24 dezembro 2004
23 dezembro 2004
Bruxelas
Os défices das contas portuguesas, seja ele o das contas públicas, seja ele o externo - no tempo em que isso era um problema - têm uma história semelhante ao do buraco do ozono.
Não falo das curvas que não faço a menor ideia quais são. É mais da atenção que merecem. E do não se saber muito bem desde quando é que lá estão. E só virem à baila em certas épocas do ano, e ser o Valha-me Deus.
Toda a gente fala, muitos suspeitam das causas a que se devem uns e outro, mas parece que não se olha para o conjunto de forma a pôr cobro à coisa. Se é que é possível fazê-lo.
A imagem de cima é a curva das concentrações de ozono estratosférico medidas na Antártida, obtida aqui.
A de baixo, dos tendeiros, é de Bruxelas. Fotografia de Maurice Blanc.
Os défices das contas portuguesas, seja ele o das contas públicas, seja ele o externo - no tempo em que isso era um problema - têm uma história semelhante ao do buraco do ozono.
Não falo das curvas que não faço a menor ideia quais são. É mais da atenção que merecem. E do não se saber muito bem desde quando é que lá estão. E só virem à baila em certas épocas do ano, e ser o Valha-me Deus.
Toda a gente fala, muitos suspeitam das causas a que se devem uns e outro, mas parece que não se olha para o conjunto de forma a pôr cobro à coisa. Se é que é possível fazê-lo.
A imagem de cima é a curva das concentrações de ozono estratosférico medidas na Antártida, obtida aqui.
A de baixo, dos tendeiros, é de Bruxelas. Fotografia de Maurice Blanc.
22 dezembro 2004
Ainda os saltimbancos
Dei-me de repente conta de que os saltimbancos de ontem não pediam votos, nem reclamavam maiorias absolutas.
Bem ao contrário do candidato a Par do Reino a quem a minha bisavó, na certa interpretando à pressa as palavras da empregada, mandou que dessem esmola.
Pablo Picasso - imagem em http://casl.umd.umich.edu/hum/spanishco/17.Miro_%20Dali%20_%20Picasso/images/165Picasso.Saltmbnco.51351c.jpg
Dei-me de repente conta de que os saltimbancos de ontem não pediam votos, nem reclamavam maiorias absolutas.
Bem ao contrário do candidato a Par do Reino a quem a minha bisavó, na certa interpretando à pressa as palavras da empregada, mandou que dessem esmola.
Pablo Picasso - imagem em http://casl.umd.umich.edu/hum/spanishco/17.Miro_%20Dali%20_%20Picasso/images/165Picasso.Saltmbnco.51351c.jpg
21 dezembro 2004
Aferições
Há coisas que se não conseguem aferir. Mesmo que pareça fácil fazê-lo.
Enganamo-nos quando o tentamos fazer.
Não sei se isto se aplica a tudo. Talvez se aplique, talvez seja daquelas banalidades universais.
Quero lá saber.
O caso é que passaram por aqui uns saltimbancos.
Com tambores apenas. Mero toque de caixa, um barrete de Pai Natal e uma meia onde recolhiam as moedas, lançadas das janelas.
A minha necessidade de aferir vem desse facto.
Já não há saltimbancos? Ou sou eu que os não vejo? - É que há séculos não via um espectáculo tal.
Há coisas que se não conseguem aferir. Mesmo que pareça fácil fazê-lo.
Enganamo-nos quando o tentamos fazer.
Não sei se isto se aplica a tudo. Talvez se aplique, talvez seja daquelas banalidades universais.
Quero lá saber.
O caso é que passaram por aqui uns saltimbancos.
Com tambores apenas. Mero toque de caixa, um barrete de Pai Natal e uma meia onde recolhiam as moedas, lançadas das janelas.
A minha necessidade de aferir vem desse facto.
Já não há saltimbancos? Ou sou eu que os não vejo? - É que há séculos não via um espectáculo tal.
20 dezembro 2004
Manhãs e espólios
O sol nasceu hoje no mesmo sítio. No mesmo sítio onde o vi decerto nascer pela primeira vez. No mesmo sítio onde o vi nascer em noites de vela, em noites de festa, em manhãs de tempestade, manhãs de viagem, manhãs de pré-praia. Nasceu enquanto aviões aterravam ao longe, comboios soavam na curva da linha, o bulício (ah, o bulício) dos carros se ouvia lá em baixo.
Nasceu lá hoje, depois de uns dois anos sem que lá nascesse. E, pela primeira vez na minha vida, vi o meu quarto sem a mobília. Entrei nele como quem entra numa ruína. Um espelho a um canto, duas cadeiras, cartas militares e peças desenhadas encostadas a uma parede. Nada mais que mereça destaque. O quarto dos meus pais, o meu quarto, ali estava. Mostrando bem que tudo tem um fim.
Vou a pé, pela antemanhã. Passo pela zona de pós-guerra em que se transformou o centro da vila, da cidade. O murro de Berlinda, como diria um nauta que aqui aterrou há tempos em busca dele. É ali. Ali se construiu o mais imbecil de todos os muros, de todos os murros. Mostrando a imbecilidade de quem o concebeu e a resignação de quem o aceitou.
E é de comboio que volto. Entre as caras que já não assobiam como outrora. Trago o primeiro saco do espólio fotográfico. Nem sei por onde começar. Começo por esta, a primeira que saiu.
O sol nasceu hoje no mesmo sítio. No mesmo sítio onde o vi decerto nascer pela primeira vez. No mesmo sítio onde o vi nascer em noites de vela, em noites de festa, em manhãs de tempestade, manhãs de viagem, manhãs de pré-praia. Nasceu enquanto aviões aterravam ao longe, comboios soavam na curva da linha, o bulício (ah, o bulício) dos carros se ouvia lá em baixo.
Nasceu lá hoje, depois de uns dois anos sem que lá nascesse. E, pela primeira vez na minha vida, vi o meu quarto sem a mobília. Entrei nele como quem entra numa ruína. Um espelho a um canto, duas cadeiras, cartas militares e peças desenhadas encostadas a uma parede. Nada mais que mereça destaque. O quarto dos meus pais, o meu quarto, ali estava. Mostrando bem que tudo tem um fim.
Vou a pé, pela antemanhã. Passo pela zona de pós-guerra em que se transformou o centro da vila, da cidade. O murro de Berlinda, como diria um nauta que aqui aterrou há tempos em busca dele. É ali. Ali se construiu o mais imbecil de todos os muros, de todos os murros. Mostrando a imbecilidade de quem o concebeu e a resignação de quem o aceitou.
E é de comboio que volto. Entre as caras que já não assobiam como outrora. Trago o primeiro saco do espólio fotográfico. Nem sei por onde começar. Começo por esta, a primeira que saiu.
18 dezembro 2004
17 dezembro 2004
Turcos e croissantes
Os padeiros de Viena talvez estejam acordados a esta hora.
O Império dos Francos e o Império Otomano terçando armas à mesa.
Confesso a minha total incapacidade para prever as consequências de uma união de ambos.
A única que me atrevo a extrair é a de que, seja o que fôr que aconteça, não será para sempre.
E, mesmo dessa, não estou cem por cento certo.
Admiro os que já sabem o que vai acontecer. Que já conhecem todos os males ou todas as vantagens de uma união. Que sabem o que acontecerá de bom ou de mau quer se aceite a Turquia ou não.
Parece óbvio que nenhum dos anteriores alargamentos da União suscitou tantas paixões. Afinal, há uma matriz comum, mais próxima, dos países integrantes. Que, dizendo ou não, alguma coisa aos povos desses países, foi, durante séculos natural entre os seus chefes. Quase todos familiares uns dos outros.
Não é o caso da Turquia otomana. Coisas do crescente e da cruz.
A ver vamos no que dá. Dez anos dá para acontecer muita coisa. Difícil de prever. Mas é já ali ao virar da esquina.
De qualquer forma, se 3 de Outubro de 2005 é a data aprazada para o início das negociações (?), cumpre dizer que é curioso que seja num dia de eclipse do Sol. Dia de sol crescente.
Os padeiros de Viena talvez estejam acordados a esta hora.
O Império dos Francos e o Império Otomano terçando armas à mesa.
Confesso a minha total incapacidade para prever as consequências de uma união de ambos.
A única que me atrevo a extrair é a de que, seja o que fôr que aconteça, não será para sempre.
E, mesmo dessa, não estou cem por cento certo.
Admiro os que já sabem o que vai acontecer. Que já conhecem todos os males ou todas as vantagens de uma união. Que sabem o que acontecerá de bom ou de mau quer se aceite a Turquia ou não.
Parece óbvio que nenhum dos anteriores alargamentos da União suscitou tantas paixões. Afinal, há uma matriz comum, mais próxima, dos países integrantes. Que, dizendo ou não, alguma coisa aos povos desses países, foi, durante séculos natural entre os seus chefes. Quase todos familiares uns dos outros.
Não é o caso da Turquia otomana. Coisas do crescente e da cruz.
A ver vamos no que dá. Dez anos dá para acontecer muita coisa. Difícil de prever. Mas é já ali ao virar da esquina.
De qualquer forma, se 3 de Outubro de 2005 é a data aprazada para o início das negociações (?), cumpre dizer que é curioso que seja num dia de eclipse do Sol. Dia de sol crescente.
A moeda de 3$00
Há uma parte da humanidade que se acha destinada a ensinar os outros.
Será uma fatalidade que assim seja, uma vez que suspeito que todas as partes da humanidade são necessárias.
No entanto, às vezes, esta parte dos pisantes da ecúmena apresenta-se sob formas pouco suportáveis.
Há os que debitam nomes e obras como quem abre baús e mostra tesouros.
Há os que mostram os contornos de intrincadas reflexões sem permitirem que se tome o fio à meada.
E há os que se insinuam com aparentes disparates. Isco de pesca. Mal o incauto levanta o dedo para assinalar o suposto erro, desaba-lhe em cima uma parafernália de argumentos e de provas esmagadora.
Chamo a estes os da moeda de 3$00.
Não faço ideia de qual é a percentagem de pessoas que teve na mão uma tal moeda.
Os que viveram onde elas circulavam, devem ter boa lembrança dela.
Para muitos dos que nunca as viram ao vivo, como eu, e que não estão familiarizados com os mistérios da nossa emissão monetária, pode parecer assim, à primeira, um rotundo disparate que tenha existido tal coisa.
É dessa vertigem de correcção, quase com a avidez com que o vigarista estende o tapete, com mansa fala, àqueles a que acena com o lucro fácil, que vive o pessoal da moeda de 3$00.
Enredam o pobre convicto com insinuações e mal ele entra na contradita, sai ferrado.
Todos os dias os vemos em acção.
Não sei se já ensinaram alguma coisa a alguém.
Há uma parte da humanidade que se acha destinada a ensinar os outros.
Será uma fatalidade que assim seja, uma vez que suspeito que todas as partes da humanidade são necessárias.
No entanto, às vezes, esta parte dos pisantes da ecúmena apresenta-se sob formas pouco suportáveis.
Há os que debitam nomes e obras como quem abre baús e mostra tesouros.
Há os que mostram os contornos de intrincadas reflexões sem permitirem que se tome o fio à meada.
E há os que se insinuam com aparentes disparates. Isco de pesca. Mal o incauto levanta o dedo para assinalar o suposto erro, desaba-lhe em cima uma parafernália de argumentos e de provas esmagadora.
Chamo a estes os da moeda de 3$00.
Não faço ideia de qual é a percentagem de pessoas que teve na mão uma tal moeda.
Os que viveram onde elas circulavam, devem ter boa lembrança dela.
Para muitos dos que nunca as viram ao vivo, como eu, e que não estão familiarizados com os mistérios da nossa emissão monetária, pode parecer assim, à primeira, um rotundo disparate que tenha existido tal coisa.
É dessa vertigem de correcção, quase com a avidez com que o vigarista estende o tapete, com mansa fala, àqueles a que acena com o lucro fácil, que vive o pessoal da moeda de 3$00.
Enredam o pobre convicto com insinuações e mal ele entra na contradita, sai ferrado.
Todos os dias os vemos em acção.
Não sei se já ensinaram alguma coisa a alguém.
15 dezembro 2004
Aos costumes direi nada
Há-de ter havido umas perguntas do costume. Ignorante que sou, nada sei sobre.
Sei apenas que, depois de dar o meu testemunho, alguém há-de ler um papel dizendo que eu, aos costumes, nada disse.
Faz-me espécie esta pergunta tácita. Esta inferência das minhas palavras. Que terá a ver com algum tipo de impedimento, de suspeição de parcialidade, suponho.
Logo vos direi se aos costumes disse ou não, nada.
Há-de ter havido umas perguntas do costume. Ignorante que sou, nada sei sobre.
Sei apenas que, depois de dar o meu testemunho, alguém há-de ler um papel dizendo que eu, aos costumes, nada disse.
Faz-me espécie esta pergunta tácita. Esta inferência das minhas palavras. Que terá a ver com algum tipo de impedimento, de suspeição de parcialidade, suponho.
Logo vos direi se aos costumes disse ou não, nada.
14 dezembro 2004
Bronquite
De bronco, mesmo.
É o que dá tocar muitos instrumentos ao mesmo tempo, a altas horas.
Lá se foi o template. Agora é preciso ir à procura das cópias e tentar repor tudo como estava.
Não há comentários nem estou com paciência para estragar mais nada a esta hora.
Em querendo comentar, favor dirigir-se ao Sapo.
De bronco, mesmo.
É o que dá tocar muitos instrumentos ao mesmo tempo, a altas horas.
Lá se foi o template. Agora é preciso ir à procura das cópias e tentar repor tudo como estava.
Não há comentários nem estou com paciência para estragar mais nada a esta hora.
Em querendo comentar, favor dirigir-se ao Sapo.
Memória das coisas - 28 de Fevereiro de 1969
Afinal, a minha memória não me traiu. O meu olhar dos dez anos não ampliou as dimensões, como admiti no post anterior.
Encontrei fotografias da época.
Nas páginas do Centro de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e nas da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica.
Afinal, a minha memória não me traiu. O meu olhar dos dez anos não ampliou as dimensões, como admiti no post anterior.
Encontrei fotografias da época.
Nas páginas do Centro de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e nas da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica.
13 dezembro 2004
O sismo das 14:18*
Não sei quantos sismos já senti. Já lhes perdi a conta. A este senti-o bem.
E como das outras vezes, a mesma sensação de impotência.
Talvez que um sismo com maior duração permita algum tipo de reacção. O de Fevereiro de 1969 durou o bastante para isso. Mas como acordei mais com o ruído de janelas a bater do que com a vibração, só percebi que não era vento quando já tudo acalmara.
Foi nessa altura que pude ver, pela primeira vez e única até hoje, ao vivo, a destruição associada a estes fenómenos.
Poucos dias depois, passava por Bensafrim e recordo-me da quantidade de casas que estavam parcialmente derruídas. Terei ampliado em demasia os estragos? Com aqueles olhos infantis que tudo sobreavaliam? Não sei. A verdade é que nunca me entreguei a essa pesquisa. A julgar pela forma como foram tratadas as inundações de 1967 na imprensa e a forte controvérsia que sempre existiu sobre o seu balanço final, é provável que também não chegasse a nenhuma conclusão.
Mas é nestas alturas que sobreleva a impotência dos homens.
No nosso caso particular, não é a só a impotência. É também uma certa ignorância dos riscos.
A verdade é que todos sabemos que vivemos numa zona de alto risco. Mas ao mesmo tempo, a Natureza tem-nos poupado. Por alguma razão que desconhecemos, há muito que não nos confrontamos com um terramoto de grandes dimensões. Coisa relativamente comum em séculos anteriores. Toda essa ignorância, esse alheamento, tem conduzido a um descaso nada próprio de zonas de risco sísmico.
Pode dizer-se, sem grande risco de erro, que quando acontecer, terá graves consequências. Só os crédulos pensarão que grande parte das estruturas onde nos amontoamos, resistirão sem danos maiores a um abalo mais forte.
Uma das curiosidades destas alturas é, como não podia deixar de ser, o chorrilho de disparates difundido.
Desde a não confirmação oficial (?) até às tentativas de lançar o pânico, através de insistentes e capciosas perguntas a especialistas, tudo se ouve.
O bom senso, qué dele?
*no meu relógio
imagem do IM
Não sei quantos sismos já senti. Já lhes perdi a conta. A este senti-o bem.
E como das outras vezes, a mesma sensação de impotência.
Talvez que um sismo com maior duração permita algum tipo de reacção. O de Fevereiro de 1969 durou o bastante para isso. Mas como acordei mais com o ruído de janelas a bater do que com a vibração, só percebi que não era vento quando já tudo acalmara.
Foi nessa altura que pude ver, pela primeira vez e única até hoje, ao vivo, a destruição associada a estes fenómenos.
Poucos dias depois, passava por Bensafrim e recordo-me da quantidade de casas que estavam parcialmente derruídas. Terei ampliado em demasia os estragos? Com aqueles olhos infantis que tudo sobreavaliam? Não sei. A verdade é que nunca me entreguei a essa pesquisa. A julgar pela forma como foram tratadas as inundações de 1967 na imprensa e a forte controvérsia que sempre existiu sobre o seu balanço final, é provável que também não chegasse a nenhuma conclusão.
Mas é nestas alturas que sobreleva a impotência dos homens.
No nosso caso particular, não é a só a impotência. É também uma certa ignorância dos riscos.
A verdade é que todos sabemos que vivemos numa zona de alto risco. Mas ao mesmo tempo, a Natureza tem-nos poupado. Por alguma razão que desconhecemos, há muito que não nos confrontamos com um terramoto de grandes dimensões. Coisa relativamente comum em séculos anteriores. Toda essa ignorância, esse alheamento, tem conduzido a um descaso nada próprio de zonas de risco sísmico.
Pode dizer-se, sem grande risco de erro, que quando acontecer, terá graves consequências. Só os crédulos pensarão que grande parte das estruturas onde nos amontoamos, resistirão sem danos maiores a um abalo mais forte.
Uma das curiosidades destas alturas é, como não podia deixar de ser, o chorrilho de disparates difundido.
Desde a não confirmação oficial (?) até às tentativas de lançar o pânico, através de insistentes e capciosas perguntas a especialistas, tudo se ouve.
O bom senso, qué dele?
*no meu relógio
imagem do IM
12 dezembro 2004
O Código de Belém
No passado dia 19 de Outubro, quando foi apresentada a proposta de Orçamento de Estado para 2005, supus e bem, que algo de secreto se encontraria nas entrelinhas do texto.
Inspirado por um post de Rafael Reinehr, segui as pisadas dos decifradores do código da Bíblia e lá encontrei o que toda a gente sabia que existia, mas não tinha coragem de procurar.
Ganha agora particular relevo este segredo. Uma vez que é dissoluta a Assembleia, demissionário o Governo, MAS aprovado o Orçamento.
Assim sendo, procurei, pelo mesmo método, descodificar o discurso do Presidente da República e o do Primeiro-Ministro demissionário.
Não tendo o portal do Governo o conteúdo da comunicação de ontem do Primeiro-Ministro, aqui fica à vossa apreciação, o discurso do Presidente da República, matriciado a 64 colunas (passo 64).
Na falta de tempo, deixo ao vosso cuidado a busca das palavras nele escondidas.
No passado dia 19 de Outubro, quando foi apresentada a proposta de Orçamento de Estado para 2005, supus e bem, que algo de secreto se encontraria nas entrelinhas do texto.
Inspirado por um post de Rafael Reinehr, segui as pisadas dos decifradores do código da Bíblia e lá encontrei o que toda a gente sabia que existia, mas não tinha coragem de procurar.
Ganha agora particular relevo este segredo. Uma vez que é dissoluta a Assembleia, demissionário o Governo, MAS aprovado o Orçamento.
Assim sendo, procurei, pelo mesmo método, descodificar o discurso do Presidente da República e o do Primeiro-Ministro demissionário.
Não tendo o portal do Governo o conteúdo da comunicação de ontem do Primeiro-Ministro, aqui fica à vossa apreciação, o discurso do Presidente da República, matriciado a 64 colunas (passo 64).
Na falta de tempo, deixo ao vosso cuidado a busca das palavras nele escondidas.
10 dezembro 2004
Talvez seja novidade
Talvez seja novidade. De entre as tantas coisas que se apregoam como novas e que de novas nada têm.
Mas esta talvez o seja. Mas não é uma novidade muito nova. Simplesmente a cada dia se nota mais.
Até há duzentos anos atrás, na nossa civilização, as vozes e os ouvidos eram pertença de muito poucos.
A alfabetização, a imprensa, a rádio e a televisão contribuíram para o que número de vozes e de ouvidos se alargasse. A proporção é hoje muito diferente.
Parece óbvio que falar para um número reduzido de ouvidos, mais ou menos habituados a isso, é muito diferente de falar para uma massa, pouco habituada a falar e a ouvir.
O nível da argumentação baixou. O nível dos objectos dessa preocupação baixou - a quantidade de pessoas que argumenta sobre se uma bola entrou ou não, é impressionante.
Não me preocupa tanto o facto de haver muita gente a discutir futebol. Suponho que até é útil que assim seja. Mais me preocupa que o nível geral da argumentação tenha baixado para níveis quase risíveis. Que o facto de ter tantos ouvidos à escuta, conduza os argumentos para o arrazoado infantil. E que sobre esse tipo de argumentação se construam depois as réplicas e as tréplicas.
Talvez que as outras vozes falem entre si. Ao ouvido.
Mas fazem falta. Assim haja também ouvidos capazes de perceber o que dizem.
Talvez seja novidade. De entre as tantas coisas que se apregoam como novas e que de novas nada têm.
Mas esta talvez o seja. Mas não é uma novidade muito nova. Simplesmente a cada dia se nota mais.
Até há duzentos anos atrás, na nossa civilização, as vozes e os ouvidos eram pertença de muito poucos.
A alfabetização, a imprensa, a rádio e a televisão contribuíram para o que número de vozes e de ouvidos se alargasse. A proporção é hoje muito diferente.
Parece óbvio que falar para um número reduzido de ouvidos, mais ou menos habituados a isso, é muito diferente de falar para uma massa, pouco habituada a falar e a ouvir.
O nível da argumentação baixou. O nível dos objectos dessa preocupação baixou - a quantidade de pessoas que argumenta sobre se uma bola entrou ou não, é impressionante.
Não me preocupa tanto o facto de haver muita gente a discutir futebol. Suponho que até é útil que assim seja. Mais me preocupa que o nível geral da argumentação tenha baixado para níveis quase risíveis. Que o facto de ter tantos ouvidos à escuta, conduza os argumentos para o arrazoado infantil. E que sobre esse tipo de argumentação se construam depois as réplicas e as tréplicas.
Talvez que as outras vozes falem entre si. Ao ouvido.
Mas fazem falta. Assim haja também ouvidos capazes de perceber o que dizem.
09 dezembro 2004
Dezembro
O Natal existiu. Claro que existiu.
Existiu em presépios com rebanhos de louça, musgo em pacotes, pontes romanas, castelos inverosímeis, fontes sem água, tudo em escalas diversas, como se alguém tivesse o divino poder de baralhar as perspectivas.
Mas ficou-se. Ficou-se lá para lá trás, ao pé da cadeira junto ao lume, onde se amontoavam caixas de Lego, carros da Corgi, chocolates Regina, lápis Viarco, livros das Mil e Uma Noites.
Ficou-se por aí, sem dizer quando. Ficou-se no frio barbeiro, nos alguidares de gelo no quintal, no madeiro que haveria de arder até ao Ano Novo, nos bolos feitos no forno da padaria, nas samarras, nos capotes pendurados na entrada.
Ficou-se no cheiro das carnes misturadas com fumo em todas as terras de passagem.
Ficou-se no azul forte do céu que inundava o monte, entre cães e gatos.
Ficou-se na pele fria do assento do carro, nas madrugadas em que se transpunha o Caldeirão.
Ficou-se em notas de quinhentos daquelas de chapa 9 cujo número de série tinha que ser verificado.
Ficou-se nos discos novos que se ouviam do outro lado da casa, em altos berros.
Ficou-se nos bolsos cheios de bombons.
Ficou-se entre quatro paredes. A sul.
O Natal existiu. Claro que existiu.
Existiu em presépios com rebanhos de louça, musgo em pacotes, pontes romanas, castelos inverosímeis, fontes sem água, tudo em escalas diversas, como se alguém tivesse o divino poder de baralhar as perspectivas.
Mas ficou-se. Ficou-se lá para lá trás, ao pé da cadeira junto ao lume, onde se amontoavam caixas de Lego, carros da Corgi, chocolates Regina, lápis Viarco, livros das Mil e Uma Noites.
Ficou-se por aí, sem dizer quando. Ficou-se no frio barbeiro, nos alguidares de gelo no quintal, no madeiro que haveria de arder até ao Ano Novo, nos bolos feitos no forno da padaria, nas samarras, nos capotes pendurados na entrada.
Ficou-se no cheiro das carnes misturadas com fumo em todas as terras de passagem.
Ficou-se no azul forte do céu que inundava o monte, entre cães e gatos.
Ficou-se na pele fria do assento do carro, nas madrugadas em que se transpunha o Caldeirão.
Ficou-se em notas de quinhentos daquelas de chapa 9 cujo número de série tinha que ser verificado.
Ficou-se nos discos novos que se ouviam do outro lado da casa, em altos berros.
Ficou-se nos bolsos cheios de bombons.
Ficou-se entre quatro paredes. A sul.
08 dezembro 2004
Outras vidas
Sou um rústico em muitas coisas. Urbanidade alguma, q.b..
De entre as características que me entraram nos genes ou que absorvi do habitat, há este fascínio pelas árvores, embora pouco ilustrado.
As saudades que sinto de dada oliveira, multicentenária na certa, que um dia soube cortada por ameaça à estabilidade de uma construção. Por mim, teria estabelecido um compromisso entre as casas, também mais do que centenárias, e a árvore. Talvez sem sucesso. Pouco importa agora, que nem umas nem outra se encontram de pé.
Saudades de certa romãzeira, que morreu de morte natural. De um pomar inteiro que soçobrou ao abandono. Lá estão as figueiras da orla como testemunhas resistentes de outros tempos.
Saudades de árvores das quais não sei o destino. O meu limoeiro, a minha nogueira, as nespereiras, as ameixeiras, as figueiras também. Desse quintal que suponho ainda existe.
Mas há uma árvore que hoje merece o meu afecto. Não é muito velha, não pode ser. É um eucalipto solitário, no meio dos sobreiros. Talvez que se interrogue o que está ali a fazer, a olhar de cima o pachorrento montado, cada vez mais de cima.
Está perto da casa. Se um dia um golpe de nortada o atirar ao chão, é certo que derruba a tenda. Espero não chegar ao ponto de ter que lhe dar um destino. Não sei nada destas árvores. Lembro-me daquele que havia (ainda lá estará?) junto à antiga E.N. 261-3, entre Santiago e Sines e que era de um porte impressionante. O meu para lá caminha. Vê-se ao longe, de muito sítio. Espero que lá fique, quando eu me fôr embora.
É curioso que não consiga encontrar informação sobre o tempo de vida desta espécie. Tudo o que se encontra é informação sobre as idades de corte, espécie de crescimento rápido, blá, blá, blá...
Ainda assim, descobri agora uma página onde me dizem que pode viver mais de cem anos. Claro que pode. Ora essa.
Sou um rústico em muitas coisas. Urbanidade alguma, q.b..
De entre as características que me entraram nos genes ou que absorvi do habitat, há este fascínio pelas árvores, embora pouco ilustrado.
As saudades que sinto de dada oliveira, multicentenária na certa, que um dia soube cortada por ameaça à estabilidade de uma construção. Por mim, teria estabelecido um compromisso entre as casas, também mais do que centenárias, e a árvore. Talvez sem sucesso. Pouco importa agora, que nem umas nem outra se encontram de pé.
Saudades de certa romãzeira, que morreu de morte natural. De um pomar inteiro que soçobrou ao abandono. Lá estão as figueiras da orla como testemunhas resistentes de outros tempos.
Saudades de árvores das quais não sei o destino. O meu limoeiro, a minha nogueira, as nespereiras, as ameixeiras, as figueiras também. Desse quintal que suponho ainda existe.
Mas há uma árvore que hoje merece o meu afecto. Não é muito velha, não pode ser. É um eucalipto solitário, no meio dos sobreiros. Talvez que se interrogue o que está ali a fazer, a olhar de cima o pachorrento montado, cada vez mais de cima.
Está perto da casa. Se um dia um golpe de nortada o atirar ao chão, é certo que derruba a tenda. Espero não chegar ao ponto de ter que lhe dar um destino. Não sei nada destas árvores. Lembro-me daquele que havia (ainda lá estará?) junto à antiga E.N. 261-3, entre Santiago e Sines e que era de um porte impressionante. O meu para lá caminha. Vê-se ao longe, de muito sítio. Espero que lá fique, quando eu me fôr embora.
É curioso que não consiga encontrar informação sobre o tempo de vida desta espécie. Tudo o que se encontra é informação sobre as idades de corte, espécie de crescimento rápido, blá, blá, blá...
Ainda assim, descobri agora uma página onde me dizem que pode viver mais de cem anos. Claro que pode. Ora essa.
07 dezembro 2004
A história do meu vizinho
Dava mesmo um filme.
Cruzámo-nos uns bons trinta e tal anos, desde que apareci por cá, até que ele desistiu.
Nunca se lhe conheceu família, sequer amigos. E se a vizinhança era velha, escrutinadora.
Uns diziam-no médico, dada a sua predilecção pelo vocabulário anatómico, patológico e simposial.
Outros génio louco. Sendo que, se todos temos um pouco duma coisa e de outra, ele teria a mais das duas.
Não perturbava a existência dos demais. Se os outros perturbavam a dele, nunca se soube. Por vezes, destinava longos solilóquios a vizinhos mais próximos, quase sempre entre a ironia, o afecto e o desconcerto. À porta do prédio, enquanto desenhava figuras no ar com a chave.
Sabia-se que os mesmos vizinhos lhe cuidavam da casa.
Talvez apenas quando ele consentia que o fizessem.
Um dos sinais mais violentos da sua existência foi a defenestração de um saco de lavandaria, repleto de maços de tabaco vazios. Relíquias já fora do mercado.
Certa vez, desfez-se das mobílias. Vimo-lo radiante - assim parecia - sentado na camioneta, ao lado dos homens que a carregaram.
Solicitado, dava longas aulas de história e geografia. Monarcas russos confundiam-se então com pinguins da Antártida, médicos portugueses com políticas americanas, produtos alimentares com compêndios de álgebra, peixes da nossa costa com sistemas de comunicação.
Gostava de comboios em verde, de poliglotas, de casas em tons de caranguejo.
Usava luvas e gabardine todo o ano.
E uma noite, desistiu.
Dava mesmo um filme.
Cruzámo-nos uns bons trinta e tal anos, desde que apareci por cá, até que ele desistiu.
Nunca se lhe conheceu família, sequer amigos. E se a vizinhança era velha, escrutinadora.
Uns diziam-no médico, dada a sua predilecção pelo vocabulário anatómico, patológico e simposial.
Outros génio louco. Sendo que, se todos temos um pouco duma coisa e de outra, ele teria a mais das duas.
Não perturbava a existência dos demais. Se os outros perturbavam a dele, nunca se soube. Por vezes, destinava longos solilóquios a vizinhos mais próximos, quase sempre entre a ironia, o afecto e o desconcerto. À porta do prédio, enquanto desenhava figuras no ar com a chave.
Sabia-se que os mesmos vizinhos lhe cuidavam da casa.
Talvez apenas quando ele consentia que o fizessem.
Um dos sinais mais violentos da sua existência foi a defenestração de um saco de lavandaria, repleto de maços de tabaco vazios. Relíquias já fora do mercado.
Certa vez, desfez-se das mobílias. Vimo-lo radiante - assim parecia - sentado na camioneta, ao lado dos homens que a carregaram.
Solicitado, dava longas aulas de história e geografia. Monarcas russos confundiam-se então com pinguins da Antártida, médicos portugueses com políticas americanas, produtos alimentares com compêndios de álgebra, peixes da nossa costa com sistemas de comunicação.
Gostava de comboios em verde, de poliglotas, de casas em tons de caranguejo.
Usava luvas e gabardine todo o ano.
E uma noite, desistiu.
06 dezembro 2004
Agradecimento
O autor destas linhas agradece o destaque e a recomendação a "A Minha Rica Casinha".
E retribui, sem que o faça apenas por cortesia. Vale a pena ser visita dessa casa.
O autor destas linhas agradece o destaque e a recomendação a "A Minha Rica Casinha".
E retribui, sem que o faça apenas por cortesia. Vale a pena ser visita dessa casa.
05 dezembro 2004
04 dezembro 2004
Restos de colecção (3)
Fico a saber que foi em Janeiro de 1987 que as minhas preferências se viraram para a tinta castanha da Parker.
Uma mancha azul no meio do castanho - um nome feminino, completo, ao lado de um desenho que não se interpreta bem, devia ter se destacado em devido tempo.
A injustiça do mundo é assim mesmo - sonhos que se tornam realidade e disso não nos apercebemos senão tarde de mais.
Ou será que estou a ver tudo com olhos nostálgicos e a imaginar mensagens que nunca existiram?
Mas por que raio o nome aparece primeiro sozinho e depois se repete com todas as letras, nomes próprios e apelidos num caderno meu?
E por que é que não tinha dado por isso antes?
E aquele desenho é um esquisso de quê? De uma infiltração de um líquido?
Fico a saber que foi em Janeiro de 1987 que as minhas preferências se viraram para a tinta castanha da Parker.
Uma mancha azul no meio do castanho - um nome feminino, completo, ao lado de um desenho que não se interpreta bem, devia ter se destacado em devido tempo.
A injustiça do mundo é assim mesmo - sonhos que se tornam realidade e disso não nos apercebemos senão tarde de mais.
Ou será que estou a ver tudo com olhos nostálgicos e a imaginar mensagens que nunca existiram?
Mas por que raio o nome aparece primeiro sozinho e depois se repete com todas as letras, nomes próprios e apelidos num caderno meu?
E por que é que não tinha dado por isso antes?
E aquele desenho é um esquisso de quê? De uma infiltração de um líquido?
Restos de colecção (2)
Sempre me interessei pelas publicações antigas do MOP que incorporavam fotografias de obras.
Algumas ainda resistem por aqui, saídas agora de dentro de caixotes. Outras, de que ainda retenho memória visual, desapareceram sem deixar rasto.
Esta fotografia é notável. Mostra uma obra em vias de conclusão (ainda faltava o zimbório) que quando foi iniciada, ninguém poderia imaginar que no seu final existiriam técnicas que permitissem obter uma imagem instantânea e ainda por cima do ar.
Para os mais novos, aqueles que não sabem de onde vem a expressão "Obras de Santa Engrácia".
Sempre me interessei pelas publicações antigas do MOP que incorporavam fotografias de obras.
Algumas ainda resistem por aqui, saídas agora de dentro de caixotes. Outras, de que ainda retenho memória visual, desapareceram sem deixar rasto.
Esta fotografia é notável. Mostra uma obra em vias de conclusão (ainda faltava o zimbório) que quando foi iniciada, ninguém poderia imaginar que no seu final existiriam técnicas que permitissem obter uma imagem instantânea e ainda por cima do ar.
Para os mais novos, aqueles que não sabem de onde vem a expressão "Obras de Santa Engrácia".
Restos de colecção
O pessoal das mudanças devia ser obrigado a sigilo profissional.
De entre os muitos profissionais a quem temos de confiar partes da nossa vida, estes são os que mais a escrutinam. Desde o pó por detrás do guarda-fato à colecção de livros, passando pelas marcas que deixamos um pouco por todo o lado.
Não faço ideia dos destaques que farão quando escalpelizarem o dia de trabalho que incluiu o transporte de dois pesadíssimos estrados escada acima e escada abaixo.
Talvez que estas mobílias já não se usam.
À parte a referência expressa ao peso dos caixotes de livros, que um burro carregado de livros já se sabe o que é, tudo o resto foi feito em silêncio. Muito profissional.
E, aqui chegados, eu sabia que tinha esta fotografia.
Está na capa de um livreto editado pela JAE em 1954.
A seta aponta o pilar que caiu em 2001. Que não estava, na estiagem presume-se, no leito do rio.
Foto JAE
O pessoal das mudanças devia ser obrigado a sigilo profissional.
De entre os muitos profissionais a quem temos de confiar partes da nossa vida, estes são os que mais a escrutinam. Desde o pó por detrás do guarda-fato à colecção de livros, passando pelas marcas que deixamos um pouco por todo o lado.
Não faço ideia dos destaques que farão quando escalpelizarem o dia de trabalho que incluiu o transporte de dois pesadíssimos estrados escada acima e escada abaixo.
Talvez que estas mobílias já não se usam.
À parte a referência expressa ao peso dos caixotes de livros, que um burro carregado de livros já se sabe o que é, tudo o resto foi feito em silêncio. Muito profissional.
E, aqui chegados, eu sabia que tinha esta fotografia.
Está na capa de um livreto editado pela JAE em 1954.
A seta aponta o pilar que caiu em 2001. Que não estava, na estiagem presume-se, no leito do rio.
Foto JAE
03 dezembro 2004
Madeira
A capital do móvel não me deve nada.
A minha pouca apetência consumista, as heranças avoengas e um certo esgar face aos aglomerados de madeira que se dão ares de cerejeira, de azinho, de pinho ou de castanho, faz com que não seja cliente de lojas de mobílias.
Ainda me surpreendo com as peças em boa madeira que encontro abandonadas no lixo, enquanto os seus anteriores proprietários se deliciam com as últimas modas dos hipermercados do ramo.
Hoje fui levado a um desses santuários.
A sensação que tive foi a de ter recuado até aos anos 30. Ou até um pouco mais. Lá estava a Bauhaus reinterpretada, quase noventa anos depois. Nada de novo, portanto.
Mas a ideia com que se fica é que estas coisas são assim mesmo. Que se vendem como novos, conceitos e formas de arte que já fizeram quase um século de caminho.
No caso do mobiliário, com materiais muito mais perecíveis.
Pela minha parte, também prefiro o que já resistiu mais de cem anos. Mas ao serviço. Mesmo que a minha cadeira não seja tão confortável como as que se vêem hoje por aí.
A capital do móvel não me deve nada.
A minha pouca apetência consumista, as heranças avoengas e um certo esgar face aos aglomerados de madeira que se dão ares de cerejeira, de azinho, de pinho ou de castanho, faz com que não seja cliente de lojas de mobílias.
Ainda me surpreendo com as peças em boa madeira que encontro abandonadas no lixo, enquanto os seus anteriores proprietários se deliciam com as últimas modas dos hipermercados do ramo.
Hoje fui levado a um desses santuários.
A sensação que tive foi a de ter recuado até aos anos 30. Ou até um pouco mais. Lá estava a Bauhaus reinterpretada, quase noventa anos depois. Nada de novo, portanto.
Mas a ideia com que se fica é que estas coisas são assim mesmo. Que se vendem como novos, conceitos e formas de arte que já fizeram quase um século de caminho.
No caso do mobiliário, com materiais muito mais perecíveis.
Pela minha parte, também prefiro o que já resistiu mais de cem anos. Mas ao serviço. Mesmo que a minha cadeira não seja tão confortável como as que se vêem hoje por aí.
02 dezembro 2004
Não sei que dia é hoje
Hoje deve ser um dia especial.
Durante anos foi-o por uma razão que já não faz sentido.
Mas hoje, hoje, não comemora nada. Hoje abre uma nova era.
Em que não se vislumbram vantagem pessoais. Mas em que se deseja, se espera que outros, próximos, as tenham.
Ainda não sei que dia é hoje. Sei que perdi algo. Sei o que perdi, mas não sei quanto.
Hoje deve ser um dia especial.
Durante anos foi-o por uma razão que já não faz sentido.
Mas hoje, hoje, não comemora nada. Hoje abre uma nova era.
Em que não se vislumbram vantagem pessoais. Mas em que se deseja, se espera que outros, próximos, as tenham.
Ainda não sei que dia é hoje. Sei que perdi algo. Sei o que perdi, mas não sei quanto.
01 dezembro 2004
Blue suede shoes
imagem em http://www.rockabillyhall.com/BlueSuedeShoes.html
E segundo o amigo Yardbird, este blogue é "Blue suede shoes".
imagem em http://www.rockabillyhall.com/BlueSuedeShoes.html
E segundo o amigo Yardbird, este blogue é "Blue suede shoes".
30 novembro 2004
Era pré-socrática (três posts em um)
Vem aí mais uma época de argumentos extraordinários.
Da chamada retórica política, que é das coisas mais vazias que existe.
Sobre o que aconteceu hoje, já tinha dito tudo o que pensava, antes até da coisa explodir aqui nos blogues. Fi-lo aos primeiros rumores mais consistentes da partida do ex-primeiro-ministro para Bruxelas.
Considero que não há em Portugal, há muito tempo, muito tempo mesmo, qualquer tipo de opção política. Saber se as há noutras paragens, é outra questão sobre a qual não me pronuncio.
Não a havendo, vamos tendo cada vez mais do mesmo, até que a corda parte. É assim há séculos.
Temos por vezes a sorte de ter dirigentes mais iluminados, outras o azar de contar com medíocres.
Os tempos que se avizinham não são famosos.
Seja qual fôr o resultado das próximas eleições, o caminho não será cheio de pétalas.
E é isto que marca o actual momento. A ausência total de saídas. O beco.
É certo que com a integração europeia abdicámos de instrumentos políticos para actuar desta e daquela forma na nossa posição no quadro internacional e que isso também não deixa grande margem de manobra internamente.
Vivemos há muito a gerir a nossa sobrevivência. Os tempos que aí vêm serão, de qualquer forma, prenunciadores da abdicação total.
Tanto faz que seja fulano ou beltrano a fingir que governa.
No plano pessoal, a notícia do dia é outra, e é ela própria, uma notícia esperada e não esperada.
Daquelas que é importante, que é de Estado, que merece a solenidade do fato preto.
Que é recebida com um sorriso, nunca se sabendo que repercussões traz.
Esta amplitude térmica diurna, à volta dos dois graus, reflecte ou proporciona o gesto de encolher os ombros.
Vem aí mais uma época de argumentos extraordinários.
Da chamada retórica política, que é das coisas mais vazias que existe.
Sobre o que aconteceu hoje, já tinha dito tudo o que pensava, antes até da coisa explodir aqui nos blogues. Fi-lo aos primeiros rumores mais consistentes da partida do ex-primeiro-ministro para Bruxelas.
Considero que não há em Portugal, há muito tempo, muito tempo mesmo, qualquer tipo de opção política. Saber se as há noutras paragens, é outra questão sobre a qual não me pronuncio.
Não a havendo, vamos tendo cada vez mais do mesmo, até que a corda parte. É assim há séculos.
Temos por vezes a sorte de ter dirigentes mais iluminados, outras o azar de contar com medíocres.
Os tempos que se avizinham não são famosos.
Seja qual fôr o resultado das próximas eleições, o caminho não será cheio de pétalas.
E é isto que marca o actual momento. A ausência total de saídas. O beco.
É certo que com a integração europeia abdicámos de instrumentos políticos para actuar desta e daquela forma na nossa posição no quadro internacional e que isso também não deixa grande margem de manobra internamente.
Vivemos há muito a gerir a nossa sobrevivência. Os tempos que aí vêm serão, de qualquer forma, prenunciadores da abdicação total.
Tanto faz que seja fulano ou beltrano a fingir que governa.
No plano pessoal, a notícia do dia é outra, e é ela própria, uma notícia esperada e não esperada.
Daquelas que é importante, que é de Estado, que merece a solenidade do fato preto.
Que é recebida com um sorriso, nunca se sabendo que repercussões traz.
Esta amplitude térmica diurna, à volta dos dois graus, reflecte ou proporciona o gesto de encolher os ombros.
29 novembro 2004
As condições mundiais, bacalhau a pataco e literatura de cordel
Acabo de fechar a porta, com a polidez possível, a duas senhoras vestidas de bege (será que o bege faz parte da conspiração?) que me pretendiam elucidar sobre as condições mundiais.
Assim que me lembre, apenas uma vez acedi a trocar algumas palavras com estas brigadas evangélicas. Face à minha argumentação conjecturalmente darwiniana, voltaram dias depois à carga coadjuvadas por um senhor de gravata. Empate técnico, como se diz agora.
Nas minhas memórias consta também um certo domingo (seria sábado?) de manhã, em que acordei ouvindo vozes estranhas na sala de estar.
Com curiosidade adolescente, abeirei-me da porta e distingui a voz de meu pai que placidamente argumentava com as senhoras, numa manifestação de disponibilidade para estas coisas, que eu lhe desconhecia.
A questão do fechar a porta, a questão de ter já uma vez cumprido a penitência, como se fosse obrigatória a passagem, ao menos uma vez na vida, por essa experiência de indígena que carece de evangelização, dá pano para mangas.
Desde logo porque a sociedade actual é uma espécie de ditadura do diálogo. Que nos obriga a ouvir e a respeitar as opiniões dos outros.
Ora a verdade é que nem ouvimos nem respeitamos todas as opiniões que nos colocam à frente.
Esse é o primeiro equívoco.
Como dizia há dias a uma blogueira amiga, a espécie humana divide-se em variados tipos, sem embargo de me esquecer de algum:
Os cépticos
Os crentes
Os crédulos
Claro que estas categorias não são estanques. Interpenetram-se.
Mas um céptico será sempre um céptico, um crente sempre um crente e um crédulo só deixará de o ser se descobrir os pés de barro do seu ídolo ou ídolos, o que nem sempre acontece.
É pouco provável que os dois primeiros modifiquem a sua opinião sobre as coisas.
Já o crédulo pode ou não mudar de opinião, consoante o vento. Mas isso normalmente não depende da argumentação alheia, depende mais do ascendente que o outro exerça sobre ele.
Parece assim que qualquer embate de palavras é um mero exercício argumentativo, que pode ou não deixar-nos mais aliviados, mas que seguramente não conduz a lugar nenhum.
Ora isto traz-nos aqui, à cultura dos blogues.
Afinal não ando de porta em porta a apregoar o meu bacalhau a pataco ou a minha literatura de cordel mas o resultado é quase o mesmo.
Dir-se-á que a diferença reside precisamente no facto de não andar a perturbar o quotidiano alheio com toques de campaínha. Talvez.
Mas a verdade é que, invertendo as coisas, procuro as novidades nos blogues que acompanho. E se, muitas vezes, o que lá está escrito me agrada, também há vezes em que me irrita. Outras considero que é um tremendo disparate.
Voltando a inverter, assumo que o mesmo ocorrerá com quem aqui vem ler o que escrevo.
E isso, de alguma forma, interfere com os outros.
Poder-se-á dizer mais uma vez que mais fácil do que fechar a porta é clicar Back ou fechar a janela. Mas há uma opinião escrita, há uma visão das condições mundiais que já foi lida. Mesmo que os meus leitores sejam cépticos, e eu suspeito que a maioria o é, alguma coisa fica. Tal como fica na minha cabeça o que leio com agrado ou desagrado.
Nada de novo nisto.
Mas pela mesma razão que raramente comento nos blogues meus favoritos, também não me apetecia hoje comentar no blogue das senhoras de bege.
Quem paga as favas são os meus leitores.
O mundo está perdido.
Acabo de fechar a porta, com a polidez possível, a duas senhoras vestidas de bege (será que o bege faz parte da conspiração?) que me pretendiam elucidar sobre as condições mundiais.
Assim que me lembre, apenas uma vez acedi a trocar algumas palavras com estas brigadas evangélicas. Face à minha argumentação conjecturalmente darwiniana, voltaram dias depois à carga coadjuvadas por um senhor de gravata. Empate técnico, como se diz agora.
Nas minhas memórias consta também um certo domingo (seria sábado?) de manhã, em que acordei ouvindo vozes estranhas na sala de estar.
Com curiosidade adolescente, abeirei-me da porta e distingui a voz de meu pai que placidamente argumentava com as senhoras, numa manifestação de disponibilidade para estas coisas, que eu lhe desconhecia.
A questão do fechar a porta, a questão de ter já uma vez cumprido a penitência, como se fosse obrigatória a passagem, ao menos uma vez na vida, por essa experiência de indígena que carece de evangelização, dá pano para mangas.
Desde logo porque a sociedade actual é uma espécie de ditadura do diálogo. Que nos obriga a ouvir e a respeitar as opiniões dos outros.
Ora a verdade é que nem ouvimos nem respeitamos todas as opiniões que nos colocam à frente.
Esse é o primeiro equívoco.
Como dizia há dias a uma blogueira amiga, a espécie humana divide-se em variados tipos, sem embargo de me esquecer de algum:
Os cépticos
Os crentes
Os crédulos
Claro que estas categorias não são estanques. Interpenetram-se.
Mas um céptico será sempre um céptico, um crente sempre um crente e um crédulo só deixará de o ser se descobrir os pés de barro do seu ídolo ou ídolos, o que nem sempre acontece.
É pouco provável que os dois primeiros modifiquem a sua opinião sobre as coisas.
Já o crédulo pode ou não mudar de opinião, consoante o vento. Mas isso normalmente não depende da argumentação alheia, depende mais do ascendente que o outro exerça sobre ele.
Parece assim que qualquer embate de palavras é um mero exercício argumentativo, que pode ou não deixar-nos mais aliviados, mas que seguramente não conduz a lugar nenhum.
Ora isto traz-nos aqui, à cultura dos blogues.
Afinal não ando de porta em porta a apregoar o meu bacalhau a pataco ou a minha literatura de cordel mas o resultado é quase o mesmo.
Dir-se-á que a diferença reside precisamente no facto de não andar a perturbar o quotidiano alheio com toques de campaínha. Talvez.
Mas a verdade é que, invertendo as coisas, procuro as novidades nos blogues que acompanho. E se, muitas vezes, o que lá está escrito me agrada, também há vezes em que me irrita. Outras considero que é um tremendo disparate.
Voltando a inverter, assumo que o mesmo ocorrerá com quem aqui vem ler o que escrevo.
E isso, de alguma forma, interfere com os outros.
Poder-se-á dizer mais uma vez que mais fácil do que fechar a porta é clicar Back ou fechar a janela. Mas há uma opinião escrita, há uma visão das condições mundiais que já foi lida. Mesmo que os meus leitores sejam cépticos, e eu suspeito que a maioria o é, alguma coisa fica. Tal como fica na minha cabeça o que leio com agrado ou desagrado.
Nada de novo nisto.
Mas pela mesma razão que raramente comento nos blogues meus favoritos, também não me apetecia hoje comentar no blogue das senhoras de bege.
Quem paga as favas são os meus leitores.
O mundo está perdido.
28 novembro 2004
A estatística dos marcelinhos
Nos últimos dias já foram duas as vezes que falei na minha velha casa.
É provável que o assunto escorra por estas linhas mais algum tempo.
Com toda a probabilidade, o ano de 2005 será o ano do adeus definitivo.
Em pouco mais de três anos, terei esvaziado as minhas memórias por duas vezes. A verdade é que nunca contei ter que me despedir de nenhuma casa. E acabo por fazê-lo das duas onde cresci em curto intervalo.
Eu ligo às coisas, aos espaços, às memórias que acalentam. Fechando a porta pela última vez, despeço-me de mim também. Não é agradável. Os que já passaram por isso, sabem do que falo.
Mas como em todas as coisas, também há efémeras alegrias no meio do desalento. Encontram-se objectos que julgávamos perdidos para sempre.
Ontem encontrei uma caixa de moedas. Daquelas de dez centavos em alumínio ditas marcelinhos.
Como não há uma inutilidade sem duas, nem duas sem três, aqui fica a segunda em poucos dias. A terceira não tardará.
É que achei curiosa a distribuição por anos das moedas que lá encontrei.
Como podem ver, as quantidades de moedas de 1971, 1972, 1973 e 1979 mantêm-se numa proporcionalidade aproximada à cunhagem respectiva, enquanto que as quantidades referentes aos anos de 1974 a 1978 seguem proporções diversas e menores.
Claro que de 1969 e 1970 não tenho nenhuma.
A quantidade de moedas cunhadas obtive-a em http://moedas.org/
Nos últimos dias já foram duas as vezes que falei na minha velha casa.
É provável que o assunto escorra por estas linhas mais algum tempo.
Com toda a probabilidade, o ano de 2005 será o ano do adeus definitivo.
Em pouco mais de três anos, terei esvaziado as minhas memórias por duas vezes. A verdade é que nunca contei ter que me despedir de nenhuma casa. E acabo por fazê-lo das duas onde cresci em curto intervalo.
Eu ligo às coisas, aos espaços, às memórias que acalentam. Fechando a porta pela última vez, despeço-me de mim também. Não é agradável. Os que já passaram por isso, sabem do que falo.
Mas como em todas as coisas, também há efémeras alegrias no meio do desalento. Encontram-se objectos que julgávamos perdidos para sempre.
Ontem encontrei uma caixa de moedas. Daquelas de dez centavos em alumínio ditas marcelinhos.
Como não há uma inutilidade sem duas, nem duas sem três, aqui fica a segunda em poucos dias. A terceira não tardará.
É que achei curiosa a distribuição por anos das moedas que lá encontrei.
Como podem ver, as quantidades de moedas de 1971, 1972, 1973 e 1979 mantêm-se numa proporcionalidade aproximada à cunhagem respectiva, enquanto que as quantidades referentes aos anos de 1974 a 1978 seguem proporções diversas e menores.
Claro que de 1969 e 1970 não tenho nenhuma.
A quantidade de moedas cunhadas obtive-a em http://moedas.org/
27 novembro 2004
Nem pombal, nem pardieiro
Não passou de uma exagerada versão dos acontecimentos por parte da vizinhança, a suposta invasão columbina do post anterior.
Ainda que houvesse alguns vestígios de penas entre a janela e as cortinas, não havia espaço para os pombos se instalarem.
Entretanto, ao ler o blogue do Fernando, esse espaço admirável sempre repleto de novidade e de bom gosto, que vejo eu?
Este recorte do jornal O Globo:
E se eu tivesse apanhado os bicharocos em flagrante?
Seria detido? Estaria com TIR a esta hora?
Haveria autópsia aos restos do jantarinho?
É que há um amigo que diz que pombos de rua também se comem.
Não passou de uma exagerada versão dos acontecimentos por parte da vizinhança, a suposta invasão columbina do post anterior.
Ainda que houvesse alguns vestígios de penas entre a janela e as cortinas, não havia espaço para os pombos se instalarem.
Entretanto, ao ler o blogue do Fernando, esse espaço admirável sempre repleto de novidade e de bom gosto, que vejo eu?
Este recorte do jornal O Globo:
E se eu tivesse apanhado os bicharocos em flagrante?
Seria detido? Estaria com TIR a esta hora?
Haveria autópsia aos restos do jantarinho?
É que há um amigo que diz que pombos de rua também se comem.
26 novembro 2004
A invasão columbina
Pardieiro não parece ter na sua origem o pardal pardo que tanto palra.
Parece que o étimo é pariete > parede. Paredes velhas, telhas soltas, rebocos caídos, madeiras desencaixadas, pardais lá dentro. Vem dar ao mesmo.
Há muito que percebi que a casa de cada um é onde habita.
Isto de termos a ideia de que controlamos algo mais do que as paredes onde nos inscrevemos, é mera ilusão. Para mim, é.
Apesar disso, ainda chamo meus a alguns pardieiros espalhados entre os chaparros.
Talvez pudessem ser um sonho neo-rústico de qualquer ave presa em galinheiros de betão. Não o são para mim. São ruínas.
Mas desta vez não se trata de pardais. Melhor dizendo, não se tratará só de pardais.
Nem se trata de montes caídos onde às vezes encontro cadáveres de aves que julgava desaparecidas daquelas bandas.
Trata-se de um galinheiro de tijolo e cimento. Betão tem pouco. Uma casa de onde me retirei sem me retirar. Onde deixei o meu espólio, as minhas memórias, e de onde, mais uma vez, fui o último a sair.
Lá ficou o que ninguém quer roubar. Livros, papéis, fotografias. Roupas, objectos constituídos em amostras sem valor. Sem valor para outrem. Móveis. Pratos e talheres. O bastante para quem é frugal. Como eu.
Mas retirei-me.
Recebi agora a notícia. Os pombos - livres ou escravos - ocuparam-me o espaço. Alguma janela mal fechada deu-lhes abrigo.
O que farão eles com as minhas memórias?
Mais um pardieiro na cidade.
Perdão, pombal.
Pardieiro não parece ter na sua origem o pardal pardo que tanto palra.
Parece que o étimo é pariete > parede. Paredes velhas, telhas soltas, rebocos caídos, madeiras desencaixadas, pardais lá dentro. Vem dar ao mesmo.
Há muito que percebi que a casa de cada um é onde habita.
Isto de termos a ideia de que controlamos algo mais do que as paredes onde nos inscrevemos, é mera ilusão. Para mim, é.
Apesar disso, ainda chamo meus a alguns pardieiros espalhados entre os chaparros.
Talvez pudessem ser um sonho neo-rústico de qualquer ave presa em galinheiros de betão. Não o são para mim. São ruínas.
Mas desta vez não se trata de pardais. Melhor dizendo, não se tratará só de pardais.
Nem se trata de montes caídos onde às vezes encontro cadáveres de aves que julgava desaparecidas daquelas bandas.
Trata-se de um galinheiro de tijolo e cimento. Betão tem pouco. Uma casa de onde me retirei sem me retirar. Onde deixei o meu espólio, as minhas memórias, e de onde, mais uma vez, fui o último a sair.
Lá ficou o que ninguém quer roubar. Livros, papéis, fotografias. Roupas, objectos constituídos em amostras sem valor. Sem valor para outrem. Móveis. Pratos e talheres. O bastante para quem é frugal. Como eu.
Mas retirei-me.
Recebi agora a notícia. Os pombos - livres ou escravos - ocuparam-me o espaço. Alguma janela mal fechada deu-lhes abrigo.
O que farão eles com as minhas memórias?
Mais um pardieiro na cidade.
Perdão, pombal.
25 novembro 2004
Inutilidades várias
É da natureza humana. Pelo menos assim parece.
Mesmo que se duvide que os nossos mais remotos antepassados tivessem tempo e oportunidade para se deterem com inutilidades. Em algum tempo elas terão entrado na vida dos homens para não mais saírem. Por enquanto.
É certo que o conceito de inutilidade não é muito seguro. Mas sobre isso falarei noutra altura.
Esta de hoje, que me tem consumido algum tempo, é tão bizarra como todas as outras que não sabemos para que servem. É apenas mais uma.
Saído da crise de processamento a que o velho Pentium me submeteu, lembrei-me de um jogo que não conseguia correr nem que a vaca tossisse e que sempre me agradou - o tal que dá pelo nome de Scrabble.
Pois lá encontrei uma versão utilizável e pus-me a jogar contra o algoritmo. Sucedia que o dicionário do bicho era obviamente inglês. E, apesar das bizarrias que encontrava no dicionário, cedo verifiquei que não era adversário para quem tantas palavras conhecia.
Foi então que me decidi por jogar em casa, isto é a construir um dicionário português adaptável à coisa. As exigências são simples - só valem palavras até doze letras e nada de acentos ou cedilhas.
É claro que há o problema da quantidade de KK, WW e YY que aparecem no jogo. Mas isso é de somenos. O busílis foi e é construir o tal dicionário.
A minha versão do Word não tem dicionário português. Já tive um mas foi para o maneta. Também não sei do dicionário que construí ao longo dos tempos, o tal de Custom Dic. Foi para as urtigas, também.
Socorri-me enfim desta página, que é subsidiária do Jornal de Notícias. Reúne palavras encontradas na versão electrónica.
É claro que contém muitos estrangeirismos, gralhas, hifenações de fim de linha, etc. Mas aproveitou-se. O Word nisso é bom. Transforma num ápice vogais acentuadas em vogais átonas. Tira as cedilhas aos cês. O Excel elimina as palavras com mais de doze letras. Mas o dicionário continua pobre.
Foi então que me lembrei de um utilitário que fiz para ajudar um estrangeiro a aprender as nossas flexões verbais. Lá se introduz o nome do verbo (regular, pois claro) e se obtêm todas as flexões. Nada de mais.
Agora fiz outro. Como o dicionário quer tudo ordenadinho alfabeticamente, é preciso não só obter as flexões verbais como ordená-las assim. Já agora incluiram-se os advérbios e adjectivos relacionados.
Se isto não é inutilidade, então o que é?
Já consigo ganhar ao moço.
Os WW e os KK? Valem KW, OK, KO, GW, entre outros.
É da natureza humana. Pelo menos assim parece.
Mesmo que se duvide que os nossos mais remotos antepassados tivessem tempo e oportunidade para se deterem com inutilidades. Em algum tempo elas terão entrado na vida dos homens para não mais saírem. Por enquanto.
É certo que o conceito de inutilidade não é muito seguro. Mas sobre isso falarei noutra altura.
Esta de hoje, que me tem consumido algum tempo, é tão bizarra como todas as outras que não sabemos para que servem. É apenas mais uma.
Saído da crise de processamento a que o velho Pentium me submeteu, lembrei-me de um jogo que não conseguia correr nem que a vaca tossisse e que sempre me agradou - o tal que dá pelo nome de Scrabble.
Pois lá encontrei uma versão utilizável e pus-me a jogar contra o algoritmo. Sucedia que o dicionário do bicho era obviamente inglês. E, apesar das bizarrias que encontrava no dicionário, cedo verifiquei que não era adversário para quem tantas palavras conhecia.
Foi então que me decidi por jogar em casa, isto é a construir um dicionário português adaptável à coisa. As exigências são simples - só valem palavras até doze letras e nada de acentos ou cedilhas.
É claro que há o problema da quantidade de KK, WW e YY que aparecem no jogo. Mas isso é de somenos. O busílis foi e é construir o tal dicionário.
A minha versão do Word não tem dicionário português. Já tive um mas foi para o maneta. Também não sei do dicionário que construí ao longo dos tempos, o tal de Custom Dic. Foi para as urtigas, também.
Socorri-me enfim desta página, que é subsidiária do Jornal de Notícias. Reúne palavras encontradas na versão electrónica.
É claro que contém muitos estrangeirismos, gralhas, hifenações de fim de linha, etc. Mas aproveitou-se. O Word nisso é bom. Transforma num ápice vogais acentuadas em vogais átonas. Tira as cedilhas aos cês. O Excel elimina as palavras com mais de doze letras. Mas o dicionário continua pobre.
Foi então que me lembrei de um utilitário que fiz para ajudar um estrangeiro a aprender as nossas flexões verbais. Lá se introduz o nome do verbo (regular, pois claro) e se obtêm todas as flexões. Nada de mais.
Agora fiz outro. Como o dicionário quer tudo ordenadinho alfabeticamente, é preciso não só obter as flexões verbais como ordená-las assim. Já agora incluiram-se os advérbios e adjectivos relacionados.
Se isto não é inutilidade, então o que é?
Já consigo ganhar ao moço.
Os WW e os KK? Valem KW, OK, KO, GW, entre outros.
Efeméride
imagem em http://ellisctaylor.homestead.com/Henkiss.html
Passam hoje trinta e sete anos sobre a última grande catástrofe natural ocorrida em Portugal Continental.
Na parte continental do país, salvo algum esquecimento, há a registar durante todo o século XX três dessas catástrofes, por terem sido muito mais mortíferas do que todas as outras:
23 de Abril de 1909 - o sismo de Benavente
15 de Fevereiro de 1941 - o ciclone que assolou todo o país
25 de Novembro de 1967 - a tempestade que desabou sobre Lisboa e zonas limítrofes
Nos Açores, houve entretanto diversos episódios mortíferos, todos eles causados pela actividade sísmica.
Para além destas, associadas aos ditos elementos naturais, há que não esquecer a epidemia mundial que dizimou milhares de portugueses no final da primeira guerra.
E é hoje que voltam as notícias sobre o eventual perigo de uma nova catástrofe. Mundial. De contornos semelhantes a essa.
Já aqui tinha discorrido sobre essa eventualidade, que é tão certa como a ocorrência de novo terramoto em Portugal. Só não se sabe quando cai sobre nós.
E sobre a dificuldade de combater hoje uma pandemia.
Pela facilidade e velocidade de propagação.
Sobretudo pela instalada mentalidade do politicamente correcto, pouco dada a perceber necessidades radicais face a problemas de dimensão catastrófica.
A Natureza dá-nos lições periódicas. Quase parece que o faz quando nos esquecemos que fazemos parte dela.
Esperemos que não seja desta.
imagem em http://ellisctaylor.homestead.com/Henkiss.html
Passam hoje trinta e sete anos sobre a última grande catástrofe natural ocorrida em Portugal Continental.
Na parte continental do país, salvo algum esquecimento, há a registar durante todo o século XX três dessas catástrofes, por terem sido muito mais mortíferas do que todas as outras:
23 de Abril de 1909 - o sismo de Benavente
15 de Fevereiro de 1941 - o ciclone que assolou todo o país
25 de Novembro de 1967 - a tempestade que desabou sobre Lisboa e zonas limítrofes
Nos Açores, houve entretanto diversos episódios mortíferos, todos eles causados pela actividade sísmica.
Para além destas, associadas aos ditos elementos naturais, há que não esquecer a epidemia mundial que dizimou milhares de portugueses no final da primeira guerra.
E é hoje que voltam as notícias sobre o eventual perigo de uma nova catástrofe. Mundial. De contornos semelhantes a essa.
Já aqui tinha discorrido sobre essa eventualidade, que é tão certa como a ocorrência de novo terramoto em Portugal. Só não se sabe quando cai sobre nós.
E sobre a dificuldade de combater hoje uma pandemia.
Pela facilidade e velocidade de propagação.
Sobretudo pela instalada mentalidade do politicamente correcto, pouco dada a perceber necessidades radicais face a problemas de dimensão catastrófica.
A Natureza dá-nos lições periódicas. Quase parece que o faz quando nos esquecemos que fazemos parte dela.
Esperemos que não seja desta.
24 novembro 2004
22 novembro 2004
Borda d'Água
Comprei hoje o Almanaque Borda d'Água. Não sei quantas vezes o terei feito. Poucas, decerto. Algumas delas nos velhos serões da Cervejaria Trindade. Há muitos séculos.
Pois o Reportório útil a toda a gente foi durante muitos anos, ainda antes dos tais séculos, uma longínqua referência que eu ouvia de velhos e que associava a uma espécie de oráculo que circulasse pelos caminhos do Alentejo, debitando sentenças sobre ventos, águas, sementes e calmarias. Mas não era isso.
De todos os dados dele constantes, o que sempre me fez espécie foi a antecipação das ditas calmarias, do fresco, do limpo, do tempo revolto, da chuva.
Confesso que nunca aferi tais premonições. Aferi outras, mais talhadas pelo atavismo, que estas não sei se o são.
Ouvi ditos sobre semanas de nortada, dias de levante, geadas e águas. Moles e rijas.
De quase todos se adivinha uma certa capacidade para se alinharem com a estatística. Mesmo quando ainda se percebem erros de palmatória, talvez amplificados pela reprodução oral.
Mas esta certeza a um ano ou mais de vista, tem que se lhe diga.
Em 2005, vou estar atento.
O eclipse de 3 de Outubro, esse sim, conto caçá-lo lá para Trás-os-Montes.
Comprei hoje o Almanaque Borda d'Água. Não sei quantas vezes o terei feito. Poucas, decerto. Algumas delas nos velhos serões da Cervejaria Trindade. Há muitos séculos.
Pois o Reportório útil a toda a gente foi durante muitos anos, ainda antes dos tais séculos, uma longínqua referência que eu ouvia de velhos e que associava a uma espécie de oráculo que circulasse pelos caminhos do Alentejo, debitando sentenças sobre ventos, águas, sementes e calmarias. Mas não era isso.
De todos os dados dele constantes, o que sempre me fez espécie foi a antecipação das ditas calmarias, do fresco, do limpo, do tempo revolto, da chuva.
Confesso que nunca aferi tais premonições. Aferi outras, mais talhadas pelo atavismo, que estas não sei se o são.
Ouvi ditos sobre semanas de nortada, dias de levante, geadas e águas. Moles e rijas.
De quase todos se adivinha uma certa capacidade para se alinharem com a estatística. Mesmo quando ainda se percebem erros de palmatória, talvez amplificados pela reprodução oral.
Mas esta certeza a um ano ou mais de vista, tem que se lhe diga.
Em 2005, vou estar atento.
O eclipse de 3 de Outubro, esse sim, conto caçá-lo lá para Trás-os-Montes.
21 novembro 2004
O coração da Filipa
imagem em http://tubes.ominix.com/art/holiday/valentine/ (link perdido)
Passei muitos e bons anos da vida ao lado do velho amigo R.C..
Entre as suas qualidades conta-se uma inevitável queda por tudo quanto mexa e use saias.
Queda essa que eu partilho, embora com modéstia quanto ao sucesso.
Sofri na pele os caprichos do homem.
Como da vez em que cheguei derrotado a Saragoça, morto de sono, e tive mesmo assim de completar a viagem até Barcelona, porque o homem, em vez de estar preparado para me substituir ao volante, tinha deixado que as musas o inebriassem e estava impróprio para prosseguir viagem a menos que fosse de pendura.
Actuámos em palcos dessas espanhas.
Jantámos em inglês em tocos de árvores da capital francesa, irrepreensívelmente ataviados, apenas para acirrar os passantes contra os moços do outro lado do canal.
Corremos Ceca e Meca e o vale de Santarém, metendo copos, mulheres e trabalhos, muitos trabalhos pelo meio.
Mas naquele dia, tratava-se apenas de um insuspeita incursão aos Algarves d'aquém-mar.
Coisa outonal.
A paragem para o pequeno-almoço foi na costa transtagana. Em casa de família.
E aí apareceu a Filipa.
Que nem um nem outro conhecíamos.
A Filipa era mais corpo. Pernas e busto. Uma cara daquelas de lavar como a roupa branca.
Mas disse uma coisa que jamais seria esquecida.
Foi quando mencionou aquele acidente numa estrada com dois sentidos.
No dia seguinte, pela manhã, ao entrar no escritório, reparei no mapa das obras.
Entre os pins verdes, vermelhos e azuis, havia um coração. Verde.
Estava espetado na costa alentejana.
P.S. Este post foi influenciado pela gentil deferência do amigo Santos Passos
imagem em http://tubes.ominix.com/art/holiday/valentine/ (link perdido)
Passei muitos e bons anos da vida ao lado do velho amigo R.C..
Entre as suas qualidades conta-se uma inevitável queda por tudo quanto mexa e use saias.
Queda essa que eu partilho, embora com modéstia quanto ao sucesso.
Sofri na pele os caprichos do homem.
Como da vez em que cheguei derrotado a Saragoça, morto de sono, e tive mesmo assim de completar a viagem até Barcelona, porque o homem, em vez de estar preparado para me substituir ao volante, tinha deixado que as musas o inebriassem e estava impróprio para prosseguir viagem a menos que fosse de pendura.
Actuámos em palcos dessas espanhas.
Jantámos em inglês em tocos de árvores da capital francesa, irrepreensívelmente ataviados, apenas para acirrar os passantes contra os moços do outro lado do canal.
Corremos Ceca e Meca e o vale de Santarém, metendo copos, mulheres e trabalhos, muitos trabalhos pelo meio.
Mas naquele dia, tratava-se apenas de um insuspeita incursão aos Algarves d'aquém-mar.
Coisa outonal.
A paragem para o pequeno-almoço foi na costa transtagana. Em casa de família.
E aí apareceu a Filipa.
Que nem um nem outro conhecíamos.
A Filipa era mais corpo. Pernas e busto. Uma cara daquelas de lavar como a roupa branca.
Mas disse uma coisa que jamais seria esquecida.
Foi quando mencionou aquele acidente numa estrada com dois sentidos.
No dia seguinte, pela manhã, ao entrar no escritório, reparei no mapa das obras.
Entre os pins verdes, vermelhos e azuis, havia um coração. Verde.
Estava espetado na costa alentejana.
P.S. Este post foi influenciado pela gentil deferência do amigo Santos Passos
21, é claro
A pergunta era a habitual: A quantos estamos hoje?
Ao dar a resposta acima, de forma automática, mais não fiz do que usar o cognome de vinte e um, coisa que muitos de nós faz em virtude de atavismos vários, de deixas apreendidas por aí, talvez em salas de loto clandestinas dos tradicionais clubes de bairro:
22, dois patinhos.
69, para cima e para baixo.
11, o número da cabeça.
90, nas ventas.
Mas o 21 não vem daí.
É história lendária de cujos contornos sei apenas o essencial.
Era de Inverno e fazia-se serão à roda do lume.
Os de casa e uns quantos de fora.
Foi quando um surto de espirros sacudiu a conversa. Uma das visitas desfazia-se em acenos de cabeça convulsivos e sonoros.
Perante a cena, calaram-se as vozes.
Quando o acesso terminou, perdurava ainda um silêncio pré-hilário.
Coube ao paciente, dar a deixa: "Vinte e um, é claro!"
Nunca se soube da regularidade contabilística de tais acessos. Mas a convicção com que as palavras foram proferidas não fez só desprender o riso. Deixou muita gente à espera de outra ocasião para os contar. Creio que nunca aconteceu.
A pergunta era a habitual: A quantos estamos hoje?
Ao dar a resposta acima, de forma automática, mais não fiz do que usar o cognome de vinte e um, coisa que muitos de nós faz em virtude de atavismos vários, de deixas apreendidas por aí, talvez em salas de loto clandestinas dos tradicionais clubes de bairro:
22, dois patinhos.
69, para cima e para baixo.
11, o número da cabeça.
90, nas ventas.
Mas o 21 não vem daí.
É história lendária de cujos contornos sei apenas o essencial.
Era de Inverno e fazia-se serão à roda do lume.
Os de casa e uns quantos de fora.
Foi quando um surto de espirros sacudiu a conversa. Uma das visitas desfazia-se em acenos de cabeça convulsivos e sonoros.
Perante a cena, calaram-se as vozes.
Quando o acesso terminou, perdurava ainda um silêncio pré-hilário.
Coube ao paciente, dar a deixa: "Vinte e um, é claro!"
Nunca se soube da regularidade contabilística de tais acessos. Mas a convicção com que as palavras foram proferidas não fez só desprender o riso. Deixou muita gente à espera de outra ocasião para os contar. Creio que nunca aconteceu.
20 novembro 2004
Sonhos
imagem em http://simcity4.free.fr/Elt/lots01.php?page=2&icnx=
Três quartéis, uma prisão, dois cemitérios, um aeroporto, duas igrejas, mais de meia-dúzia de moínhos, algumas centenas de hectares de terras agrícolas, duas matas e muitas casas - era o que eu via das minhas janelas.
Hoje ainda diviso algumas destas coisas, muito mais casas, um hospital e aí um terço da terra agrícola. As matas, sim, permanecem lá.
Vejo é uma forma de dizer. A casa ainda a tenho. Mas passa mais de um ano que de lá não me assomo.
Um destes dias, deixarei mesmo de a ter. O cerco aperta-se. Daqui apenas vejo prédios e tenho uma vaga ideia de pastagens. Uma auto-estrada que apostei ia ser construída e cuja aposta ganhei de alguém incapaz de prever os problemas de estacionamento à porta de casa, passa ali ao fundo.
Mas hoje não. Hoje via a minha mãe clicar o rato e fazer desaparecer loteamentos inteiros.
Agora quero ver as ceifas. Clique.
Tire-me dali o hospital, mãe. Clique.
Aquela torre e a escola, clique.
Quero ver aquela rampa onde adormeci ao volante. Clique.
Um pouco mais de contraste, carregue nos verdes, clique.
imagem em http://simcity4.free.fr/Elt/lots01.php?page=2&icnx=
Três quartéis, uma prisão, dois cemitérios, um aeroporto, duas igrejas, mais de meia-dúzia de moínhos, algumas centenas de hectares de terras agrícolas, duas matas e muitas casas - era o que eu via das minhas janelas.
Hoje ainda diviso algumas destas coisas, muito mais casas, um hospital e aí um terço da terra agrícola. As matas, sim, permanecem lá.
Vejo é uma forma de dizer. A casa ainda a tenho. Mas passa mais de um ano que de lá não me assomo.
Um destes dias, deixarei mesmo de a ter. O cerco aperta-se. Daqui apenas vejo prédios e tenho uma vaga ideia de pastagens. Uma auto-estrada que apostei ia ser construída e cuja aposta ganhei de alguém incapaz de prever os problemas de estacionamento à porta de casa, passa ali ao fundo.
Mas hoje não. Hoje via a minha mãe clicar o rato e fazer desaparecer loteamentos inteiros.
Agora quero ver as ceifas. Clique.
Tire-me dali o hospital, mãe. Clique.
Aquela torre e a escola, clique.
Quero ver aquela rampa onde adormeci ao volante. Clique.
Um pouco mais de contraste, carregue nos verdes, clique.
19 novembro 2004
Velhice
Há muitos anos, um primo meu reduzia o envelhecimento a um encurtamento da repetibilidade dos fenómenos.
Que começava a tomar consciência de que os bons momentos podem ser irrepetíveis. Coisas assim, dizia ele.
O caso aqui é com a máquina, como já vos disse.
Tomei uma certa consciência de que a adaptação às novidades já não é o que era.
E que a paciência para arrumar a casa também não.
Já perdi a conta às mudanças de PC desde o ano de 89, em que pela primeira vez me debati quotidianamente com uma maquineta que me dizia C:\>
Antes disso, é certo que já tinham decorrido os gloriosos anos do Spectrum, depois ainda dos anos em que os cartões perfurados eram entregues num balcão para serem sujeitos ao escrutínio das autoridades competentes.
Aliás, o primeiro Spectrum, um denodado 48K (a gente ri-se) era pródigo em censurar o dono.
Achava ele que lá mesmo porque lhe apetecia podia impunemente trocar os caracteres das linhas de Basic por espantados pontos de interrogação, como se me dissesse que não estava de acordo que eu o utilizasse para programaçõezinhas.
Tanto o fez que foi devolvido à procedência, lá pelos idos de 83. O seu substituto jaz inerte ao lado de uma impressora cujo rolo era pouco mais largo do que o do uma caixa registadora. Memórias!
Mas nenhum desses sucessos me deixou tão mal encarado como este agora.
É que a questão não é perder os dados. Que esses não perdi. É perder as configurações das coisas que não pude ou me esqueci de pôr a salvo.
É ter que perder o hábito de procurar isto e aquilo da forma a que estava habituado.
É recuperar as milhentas coisas das quais não nos apercebemos da falta que nos fazem.
É ter que escrever neste editor de texto ao qual não estava habituado, enquanto o sistema não fica instalado com todos os utilitários da praxe.
É muita areia para a minha camioneta. Fico mal encarado, mal disposto, zangado.
Ainda há quem diga que o homem não é um bicho de hábitos.
Também há quem diga que já não há gajas boas.
Há muitos anos, um primo meu reduzia o envelhecimento a um encurtamento da repetibilidade dos fenómenos.
Que começava a tomar consciência de que os bons momentos podem ser irrepetíveis. Coisas assim, dizia ele.
O caso aqui é com a máquina, como já vos disse.
Tomei uma certa consciência de que a adaptação às novidades já não é o que era.
E que a paciência para arrumar a casa também não.
Já perdi a conta às mudanças de PC desde o ano de 89, em que pela primeira vez me debati quotidianamente com uma maquineta que me dizia C:\>
Antes disso, é certo que já tinham decorrido os gloriosos anos do Spectrum, depois ainda dos anos em que os cartões perfurados eram entregues num balcão para serem sujeitos ao escrutínio das autoridades competentes.
Aliás, o primeiro Spectrum, um denodado 48K (a gente ri-se) era pródigo em censurar o dono.
Achava ele que lá mesmo porque lhe apetecia podia impunemente trocar os caracteres das linhas de Basic por espantados pontos de interrogação, como se me dissesse que não estava de acordo que eu o utilizasse para programaçõezinhas.
Tanto o fez que foi devolvido à procedência, lá pelos idos de 83. O seu substituto jaz inerte ao lado de uma impressora cujo rolo era pouco mais largo do que o do uma caixa registadora. Memórias!
Mas nenhum desses sucessos me deixou tão mal encarado como este agora.
É que a questão não é perder os dados. Que esses não perdi. É perder as configurações das coisas que não pude ou me esqueci de pôr a salvo.
É ter que perder o hábito de procurar isto e aquilo da forma a que estava habituado.
É recuperar as milhentas coisas das quais não nos apercebemos da falta que nos fazem.
É ter que escrever neste editor de texto ao qual não estava habituado, enquanto o sistema não fica instalado com todos os utilitários da praxe.
É muita areia para a minha camioneta. Fico mal encarado, mal disposto, zangado.
Ainda há quem diga que o homem não é um bicho de hábitos.
Também há quem diga que já não há gajas boas.
17 novembro 2004
Intermitências
As avarias têm, como tudo na vida, a sua escala.
Uma modificação irreversível a uma dada escala pode, a uma outra escala, causar uma avaria intermitente.
Que são as mais aborrecidas. Como não diz a Lei do outro, é justamente quando queremos que ela aconteça que ela não acontece. E assim se não detecta.
Pois tem sido mais ou menos isso o que sucedeu por aqui nos últimos tempos. A preguiça de esmiuçar a coisa com mais tempo também não ajudou. Mas a verdade é que se deu com ela, finalmente.
Depois de trocada a peça avariada, novo contratempo. Mas ainda assim, a parte "dura" da coisa parece agora em bom estado. Quanto à parte "mole", que não se deixava examinar em termos por causa da avaria, vai agora para escrutínio. Se houver, como parece que há, demasiados bichinhos a passear nas entranhas, prevê-se uma solução feniana.
Talvez este blogue esteja mais uns dias de molho.
As avarias têm, como tudo na vida, a sua escala.
Uma modificação irreversível a uma dada escala pode, a uma outra escala, causar uma avaria intermitente.
Que são as mais aborrecidas. Como não diz a Lei do outro, é justamente quando queremos que ela aconteça que ela não acontece. E assim se não detecta.
Pois tem sido mais ou menos isso o que sucedeu por aqui nos últimos tempos. A preguiça de esmiuçar a coisa com mais tempo também não ajudou. Mas a verdade é que se deu com ela, finalmente.
Depois de trocada a peça avariada, novo contratempo. Mas ainda assim, a parte "dura" da coisa parece agora em bom estado. Quanto à parte "mole", que não se deixava examinar em termos por causa da avaria, vai agora para escrutínio. Se houver, como parece que há, demasiados bichinhos a passear nas entranhas, prevê-se uma solução feniana.
Talvez este blogue esteja mais uns dias de molho.
15 novembro 2004
Negócios de família
imagem de http://ueno.cool.ne.jp/ctgm/icon02.html
Não sei em que conta se tinha o meu pai como homem de negócios. Mas não era lá muito famoso, também não era campo que lhe interessasse. Sempre foi pouco de pés na terra, embora não tivesse feito outra coisa na vida do que fincar pés (outro tipo de pés, mais pesados) na terra.
Das poucas vezes que falámos de negócios, trocámos ideias sobre negócios futuros que poderiam ser, nesses anos 70, boas oportunidades.
O negócio que ele tinha debaixo de olho surpreendeu-me. Quando dei por mim, apercebi-me que tinha feito já volumoso trabalho de casa. Falou-me da matéria-prima, de que dispúnhamos em relativa abundância e da forma como tenderiam a evoluir os seus preços, de um inicial custo negativo na aquisição a terceiros, para um custo positivo que estabilizaria numa certa casa assim que a vizinhança desse pela coisa.
Falou-me dos contactos que fizera com investigadores. Que os custos mais significativos seriam no equipamento e na dotação para investigação.
E disse-me que havia mercado. Que estava convencido disso.
Claro que a ideia nunca passou sequer ao papel. Mas era interessante. Curiosamente, mais de dez anos depois, falei nisso a alguém que estava nesse ramo da investigação e que me disse que já tinha ouvido falar em algo do género, mas muito mais recentemente, à época. Ainda hoje não existe em Portugal nada no género. E mais não digo.
Quando lhe falei na minha, que não era nenhuma novidade, era até uma ideia que já fazia o seu percurso industrial noutros países, mostrou-se céptico.
Que a questão era o tratamento da matéria-prima. Era a recolha. Era preciso uma grande capacidade de armazenamento, etc.
Hoje, andamos todos a trabalhar para essa indústria. Somos mão-de-obra não remunerada. Gostava de saber com mais detalhe quem está a encher os bolsos com isso.
Era um negócio de lixo que eu queria montar.
imagem de http://ueno.cool.ne.jp/ctgm/icon02.html
Não sei em que conta se tinha o meu pai como homem de negócios. Mas não era lá muito famoso, também não era campo que lhe interessasse. Sempre foi pouco de pés na terra, embora não tivesse feito outra coisa na vida do que fincar pés (outro tipo de pés, mais pesados) na terra.
Das poucas vezes que falámos de negócios, trocámos ideias sobre negócios futuros que poderiam ser, nesses anos 70, boas oportunidades.
O negócio que ele tinha debaixo de olho surpreendeu-me. Quando dei por mim, apercebi-me que tinha feito já volumoso trabalho de casa. Falou-me da matéria-prima, de que dispúnhamos em relativa abundância e da forma como tenderiam a evoluir os seus preços, de um inicial custo negativo na aquisição a terceiros, para um custo positivo que estabilizaria numa certa casa assim que a vizinhança desse pela coisa.
Falou-me dos contactos que fizera com investigadores. Que os custos mais significativos seriam no equipamento e na dotação para investigação.
E disse-me que havia mercado. Que estava convencido disso.
Claro que a ideia nunca passou sequer ao papel. Mas era interessante. Curiosamente, mais de dez anos depois, falei nisso a alguém que estava nesse ramo da investigação e que me disse que já tinha ouvido falar em algo do género, mas muito mais recentemente, à época. Ainda hoje não existe em Portugal nada no género. E mais não digo.
Quando lhe falei na minha, que não era nenhuma novidade, era até uma ideia que já fazia o seu percurso industrial noutros países, mostrou-se céptico.
Que a questão era o tratamento da matéria-prima. Era a recolha. Era preciso uma grande capacidade de armazenamento, etc.
Hoje, andamos todos a trabalhar para essa indústria. Somos mão-de-obra não remunerada. Gostava de saber com mais detalhe quem está a encher os bolsos com isso.
Era um negócio de lixo que eu queria montar.
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