O esperto
O esperto é fácil de identificar quando se sente em inferioridade.
Depois de debitar os habituais lugares-comuns sobre a esperteza saloia dos outros, destrunfa.
Se, à medida que carteia valetes e damas, sente o adversário inabalado e talvez inabalável, muda o rumo do jogo e já só pensa em narrar episódios de jogos que só ele jogou.
Aqui, normalmente, recebe telefonemas imaginários. De toda a sorte de figuras e figurões.
Vê-se que fez algum trabalho de casa. As pessoas com quem fala através de ligações que só ele conhece, são quase todas identificáveis pelo interlocutor. Nada de detalhes óbvios.
Depois vangloria-se de coisas que ele mesmo acha normais.
Depois queixa-se insustentadamente.
Quando sai de cena, na dele glória, vai em cima da caixa de carga de um veículo próprio. O volume que se distingue na algibeira da camisa é o livro de cheques, claro. Volumoso? Sim. Recheado de notas gordas.
Notas de rodapé, digo eu.