04/09/2004

Skyline


Pós-Homem

Não me satisfazem a maior parte das ficções prospectivas.
Não que eu tenha a veleidade de saber como hei-de julgar as criações de cada um.
Mais porque, na maioria dos casos, não há homens diversos dos que conhecemos.
E lá num futuro longínquo, a nossa espécie será tão diferente do que conhecemos como o é daquilo que supomos ter sido um Australopithecus.
Podemos deitar-nos a adivinhar quais serão os aspectos mais diferenciados daquilo que é o Homem de hoje. Será sempre em vão. Mas supor que será o mesmo Homem é um crasso erro.

01/09/2004

Gin

Balbuciadas vezes
Anoitece
Onde te espero.
Aqui
Numa varanda de tê-zero
Ou além
Em areias sem ninguém.
Tabaqueadas vezes
Escurece
Ao som da telefonia
Perto de mim.
Ciciadas vezes
Acontece
Beberes o meu gin.

SG, inéditos, 1995

30/08/2004

Por aí, pela E.N. 2

Falando de cor (as décadas)

Claro que me lembrei. Foi há dez anos.
30 de Agosto de 1994. 17:00. O sítio é que poderia suscitar algumas dúvidas. Resolveram rasgar com alcatrão as dunas onde fizemos a promessa.
Esta minha velha mania de que os outros não se lembram...
Nesse dia, ainda olhei de lado para as chaves do carro. Ia até lá só para poder depois dizer com propriedade que vocês se esqueceram.
Quando acabar de escrever este post terão passado trinta anos sobre a nossa combinação. A que eu falhei há exactamente dez anos.
E de que vocês também se lembraram. Mas pensaram como eu. Não pensamos todos?
Se não tivéssemos então a certeza de que jamais nos voltaríamos a ver, teríamos feito tal promessa?

29/08/2004

Vale por nove

O banho do 29.
Por quem raramente faz referências a livros, aqui vai um interessante trabalho de António Martins Quaresma sobre a Vila Nova dos anos 60.
Disponível em pdf.
Não se limita a Vila Nova de Milfontes, e aborda aspectos de anos mais longínquos.
Nas entrelinhas, lá está o autor deste blogue, entre canas, polvos a secar, estradas de areia e candeeiros a petróleo.


Vale por nove

Esquecia-me do arroz de frango.
Atão não marchava?
Vale por nove


imagem adaptada do Canal Odisseia

28/08/2004

Uma não visão política ou um desabafo em si bemol maior

A minha cabeça não dá para mais. E não é imodéstia (modéstia a mais...), é assim mesmo.
Algures lá para trás, fiquei preso nas malhas do racionalismo. Que todos sabemos é coisa duvidosa também. Mas ainda assim tem-me servido de boa bengala. E parece que ao mundo também...
E quando me detenho na política, sendo que nunca sofri da juvenil quimera de querer salvar o mundo, começo a patinar.
Não são só os protagonistas. É a coisa em si. Que na mesma altura, no mesmo lugar, à mesma ocorrência, chama nomes diferentes e dela extrai impossíveis resultados.
Tomar partido, sim. Tenho-o feito. Mas não vejo nisso nenhuma razão sublime. Nenhum argumento imbatível. Apenas o facto de me encontrar num lugar e numa hora confrontado com uma escolha. Apenas isso. E escolho.
E nenhuma paciência para argumentos que não são nem coerentes nem conduzem, não podem conduzir, à esperada sentença.
Reino da subjectividade tacanha que sacode uns factos e guinda outros factos às alturas.
Que idolatra espantalhos.
Que espreme a parte da ciência que julga mais lhe servir.
Que constrói ideias sem estrutura.
Que não entende conceitos como o de convenção, rigor, estatística, escala e erro. Fazendo de tudo uma sopa bolorenta e intragável.
Não tenho pachorra. Ponto.

27/08/2004

Água


Perguntas

O que é que as gerações futuras acharão de verdadeiramente imperdoável nos nossos actos e omissões?
Conseguirão separar aqueles dos quais nos damos conta dos que nos passam completamente despercebidos?
Ainda perderão tempo com isso ou aceitarão que o tempo é isso mesmo?

26/08/2004

A questão da rotunda

Já não me recordo de onde recolhia a horas tão maduras.
Lembro-me bem da figura esbelta e empertigada que me mandava parar.
Pisca da direita, berma, ervas. Os faróis davam brilho às formas femininas, ali a metro e meio, coisa assim.
A rapariga assim fardada esboçou um ligeiro esgar de espanto, hesitou e lá me veio interpelar:
"Então queria atropelar-me?" - o sorriso traía-a.
"Eu?"
"Porque é que saiu da via?"
"A senhora não me mandou encostar?"
"Não. Só lhe fiz sinal de parar. O senhor não é aqui da zona?"
"Sou. Porquê?"
"Não sabe que a esta hora cortamos aqui o trânsito alternadamente?"
"Minha senhora, não passo aqui todos os dias. E a esta hora..."
"Pois é. Sabe, isto enquanto não fizerem a rotunda, não se resolve."
Espanto.
As feras iluminadas carregavam a toda a largura da estrada, disputando um lugar dianteiro na primeira chicane.
A rapariga assim fardada sorria: "Está a ver?"
"Estou. Não me parece é que a rotunda resolva a questão. Não vejo como."
"Pois é. Mas ao menos, andam mais devagar."
"Lá isso andam."
Quando ela me mandou seguir, hesitei. Era mais fazer-lhe companhia e pagar-lhe um café.
Mas dei-lhe um sonoro (mavioso?) bom-dia.
Ela riu-se outra vez.
Estava um frio de rachar.

25/08/2004

Topologia onírica

Sempre foi para mim um mistério e um encanto.
Aqueles locais que reconhecemos só em sonhos. Em vão tentamos conciliar a sua morfologia com o mundo que realmente conhecemos. Umas vezes dentro do próprio sonho, outras fora dele.
Um dos mistérios que me acompanhará à tumba é aquela estrada sobre o mar, que de curva em curva me reserva panoramas extraordinários e bem em sonhos conhecidos.
A passagem pelo contorno da baía, a casa que parece uma pousada, à esquerda, no foco da concavidade e uns metros acima do plano da estrada. As pedras que orlam o espelho de água. Mar sempre calmo, verde, azul. Depois a estrada afasta-se do mar e segue para sul.
Há uns tempos atrás, um mapa começou a acompanhar a explicação.
A estrada já não é viável. Vês a interrupção aqui, um pouco à esquerda do número? Erosão costeira, meu caro.
Mas há-de haver uma forma de lá chegar. Até ao local onde a estrada abateu.
Sim, há. Vais até àquele bairro de prédios cor de salmão, à saída da cidade e onde estão umas canas, ao fundo de um terreiro, consegues ver os restos do alcatrão. Atravessas as canas e já a vês.

No meio disto tudo, ou melhor, fora dos sonhos, tento encontrar outras explicações.
Em vão, obviamente.
Apesar de saber que Setúbal é a cidade no extremo norte da estrada. Disso tenho a certeza.

Quando o meu PC deixar de amuar com o software de desenho, acrescentarei aqui o mapa.
16 anos atrás

O mês e meio de férias estava na recta final.
Depois da tranquilidade do sotavento, a tranquilidade do barlavento algarvio.
Umas férias a três. Um casal e um sofá com rodas e vista panorâmica.
Naquela madrugada de 25 de Agosto, deu-me mais uma vez sede.
Talvez um cigarro na varanda, a contemplar as luzes dos barcos.
Já agora, liga-se o rádio. Quase hora das notícias. Baixinho, para não te acordar.
Não retirei de imediato o significado da torrente de palavras que dele saía.
Quando finalmente tracei o quadro, já estavas a meu lado, de lágrimas nos olhos.
Parte das nossas memórias ardeu nesse dia.

24/08/2004

Desporto e competição



Às vezes tenho as minhas teimas com um velho amigo. A propósito da confusão entre actividade do corpo, desporto e competição. O homem é formado na área e tem lá os seus conceitos.
Parece acima de tudo que a palavra desporto é a que mais problemas levanta.
Quando eu lhe falo em fato e gravata como traje sport, ele, que é ainda novo, franze a testa.
E quando lhe digo que a palavra desporto sofreu uma evolução semântica acentuada e que designa hoje algo completamente diferente do que designava um século atrás, ele até aceita o argumento.
Não faço ideia (alguém faz?) do que é que esteve por detrás da primitiva ideia olímpica.
Mas estou mais inclinado para um peso maior do factor competição do que do factor desportivo na acepção antiga (mas moderna) de actividade lúdica.
Na Era Moderna, fica-se com a ideia mais ou menos ingénua de que a intenção era juntar os povos do mundo, pô-los a competir de forma pacífica e celebrada e ver qual é mais rápido, mais forte, qual chega mais alto.
Tanto se tratou de povos que mais tarde até se imortalizaram os cinco continentes com cores simbólicas.
É sabido que a História já se tinha encarregado de misturar as cores. Fê-lo desde sempre, separando e misturando. Não há nisso qualquer novidade. De umas vezes em episódios trágicos, de outras de forma mais pacífica e tolerada.
Mas ainda assim, numa época em que as fronteiras eram riscadas a lápis em cima de uma mesa, se pretendia que a cada território entre traços, novos ou velhos, mais rectilíneos ou mais naturais, de festos e talvegues, correspondesse uma certa representação.
Hoje, não é disso que se trata.
Independentemente de trajectos particulares, o que se verifica é uma venda de lugares num certame altamente voltado para o lucro.
Oferecem-se vagas como nas empresas. Há um lugar vago aqui, outro ali, troca-se de camisola e já está.
Não teço considerações valorativas em relação a isso.
Há muito que aquilo a que hoje se chama desporto está sujeito a essa lei. Clubes de bairro, de cidade, selecções nacionais há muito que não representam coisa alguma. Isso é um facto. Se é bom ou se é mau, fica ao juízo de cada um.
Nestas coisas, procura-se ver sempre os melhores. Se essas vagas não estão preenchidas e se alguém com talento as preenche, nada contra. Mas então é preciso rever o significado deste encontro. Que não será de povos, mas de campeões.

23/08/2004

The Café do Manel ice age



O pacote chegou pelo correio. Meio amarrotado, gordo e carimbado.
As folhas A4 vinham dobradas ao meio, como se a pressa tivesse impedido de acomodar de outra forma o conteúdo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o gráfico. Uma banda cinzenta (seria grisé?) sinusoidal com limites superior e inferior a traço preto de 0,35 mm.
O homem apareceu quando eu analisava o pedido. Estranhei aquela bizarria de não ser ele próprio o portador da coisa. Explicou-me que calculara mal o tempo que a coisa demoraria na malaposta. Esperava que eu já tivesse os dados naquela altura.
Explicou-me então o que queria, dispensando-me da leitura do abstract.
Ao contrário do que seria de esperar, nenhum dos circunstantes se detinha na nossa conversa em inglês. Nem sequer nos miravam.
O Manel trouxe os cafés e tão pouco deitou o rabo do olho para as folhas.
O.K.. Era então medir a duração do dia. Não me ocorreu perguntar-lhe com que instrumento o faria. Convencido estava de que ele mo forneceria mais tarde.
Percebi finalmente que a agitação dele se prendia com o facto de aqueles serem os últimos resultados de que necessitava, para expôr as coisas e mandar para os árbitros, antes que a outra equipa o fizesse. Deu-me a entender que eram nórdicos.
Quando trocámos o último e-mail, já só havia uma questão para discutir.
Se ele aceitava "The Café do Manel Ice Age" ou se insistia na versão totalmente inglesa que me parecia disparatada e da qual já nem me lembro.
Aceitou.

imagem adaptada de

22/08/2004

Azul marinho

As conversas nocturnas têm destas coisas.
Dos motores de rabeta (não, não é isso - são fora de borda, mesmo) aos petiscos regionais, tocam de tudo.
Essa do azul marinho surpreendeu-me.
Não é que não haja já vasta teorização sobre o assunto. Mas a comida de cor azul é sempre um mistério.
Sabemos que há uns frutos mais ou menos a descambar para o azul. Assim de peixes ou mariscos, também se pode dizer o mesmo. Mas azul marinho...
Por alguma razão, o azul não entra pela boca. Ou porque não há nada que valha a pena ou porque os olhos nesse caso são menores do que a barriga, quem sabe se alerta para eventuais perigos. Mas isso também se diz das bagas vermelhas e nem por isso se deixam de comer.
Azul marinho como nome de iguaria, não promete muito. Lá fui ver a foto. Azul? Onde? Um pratinho de praia com óptimo aspecto.
Depois, fiquei a saber que preparada numa panela de ferro e em determinadas condições, a banana verde dá ao molho um tom azul sim.
Lá fiquei eu com vontade de provar. A minha ignorância era total na banda do azul.

receita aqui e em muitos outros lados

21/08/2004

A paranóia securitária



Já aqui falei sobre o conceito de acidente.
E de como se pode estabelecer uma relação entre o grau de conhecimento das condições envolventes e a ocorrência de acidentes.
Grosso modo, a queda de um raio sobre uma pessoa é um acidente. Mas se essa pessoa dispuser do conhecimento que lhe permita fabricar um pára-raios e não o tiver feito, pode dizer-se que concorreu para o desfecho.
No limite, se se domina completamente um sistema e se alguma coisa falha, alguém terá falhado em algum lugar. É a velha máxima de que o material tem sempre razão.
Não se trata assim de acidente, trata-se de uma falha.
O problema aqui é que normalmente todos nos esquecemos de que somos humanos. Os outros tanto quanto nós.
Vários factores concorrem hoje para a paranóia securitária em torno de tudo e mais alguma coisa.
O primeiro, que é aparente e sendo aparente não deixa de ter reflexos reais, é essa espécie de ingenuidade que transparece das vozes que se espantam com a morte.
Porque é que eu digo que é aparente? Porque sabendo todos nós que a morte nos ronda do primeiro instante ao penúltimo, já que no último ataca finalmente, continuamos ingenuamente a julgar que assim não é. É o que vemos diariamente nas televisões, é o que lemos nos jornais, é o que ouvimos na rua - Não devia ter acontecido.
Dir-se-á que essa ilusão é fundamental à sobrevivência. Assim o julgo também.
O segundo, é essa espécie de superprotecção a que todos nos julgamos com direito, mesmo que os nossos comportamentos sejam arriscados. E que reivindicamos peremptoriamente para as crianças, sem que muitas vezes as alertemos para os riscos que correm.
Mais ainda, é ignorarmos que todos nós, enquanto crianças, corremos riscos. E que são esses riscos que corremos com maior ou menor consciência e os actos falhados de que resultam mazelas, que nos ensinam e nos alertam mais do que qualquer conselho.
Acidentes houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com eles.
Incúria houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com ela.
Incúria de quem sofre os acidentes ou de quem os propicia.
Mas se se combate com unhas, dentes e gritos ferozes a incúria dos segundos, não será também altura de ensinar algo aos primeiros?
As coisas novas sempre provocaram morticínio. A máquina a vapor, o caminho de ferro, a electricidade, os automóveis, até os banhos de mar para os de sequeiro.
Mas depois atinge-se um patamar.
O que espanta às vezes é que se volte atrás.
Parece que se criou uma ilusão de que nada comporta riscos.

20/08/2004

CDC - Clube das donas de casa


A calamidade que chega por decreto

Às vezes, vêm-me à cabeça as desgraças biblícas. Ainda que, em alguns casos, seja patente o castigo divino e a precedente sentença, não há notícia de redução a escrito dos divinos desígnios.
No mundo dos ateus, onde estas coisas são um bocadinho mais prosaicas e as desgraças chegam ou pela mão do homem ou pela força dos elementos, há, desde há alguns anos, essa figura bizarra da calamidade por decreto.
Decretar uma calamidade é um gesto político da mesma grandeza e teor do de pedir uma maioria absoluta.
Quem pede uma maioria absoluta, quase sempre o faz tendo em vista uma certa marca de vodka e copo cheio, é bom de ver. É um pedido interessante, tão interessante que todas as campanhas eleitorais são marcadas pela sua ocorrência. Há o antes e o depois do pedido de maioria absoluta. Já pediu a maioria absoluta? Desde que pediu a maioria absoluta...
Já se pedem votos há muitas centenas de anos mas fica sempre bem mudar os vocábulos.
Decretar uma catástrofe (e pedi-la) suscita as mesmas empolações junto de jornalistas e, muito mais, junto dos autarcas envolvidos.
Só que aqui a coisa é mais palpável, embora também fortemente metáforica. Não é obviamente a catástrofe aquilo por que tanto anseiam uns e outros. É o dinheirinho.
Fica mais adequado pedir a catástrofe. É que pedir dinheiro dá ao outro o estatuto de esmoler.
Mas algum dia, alguém haveria de pegar na palavra e dar-lhe a volta. Foi agora.

Espero que o estado ajude quem precisa.
Espero também que o estado saiba legislar para punir exemplarmente os responsáveis por futuros casos semelhantes. Se não pode exercer o direito de regresso sobre quem causou avultados prejuízos, é bom que saiba afastá-los de uma vez por todas e por longo tempo do convívio social.
E já agora, mudem lá o nome à coisa. Calamidades por decreto - não, obrigado.

19/08/2004

O público louvor

Há os da praxe. Ordens de serviço. Diários da República.
Há os do palco e transmissão em directo.
De cada vez que vejo um ajuntamento de louvados, vou sempre à procura das caras desconhecidas. Há poucas.
Não há ninguém perfeito e isso de prestar serviços à Pátria é o raio de uma coisa danada de se medir.
Mas há gente, até em bom número, que aqui e ali, tem servido e bem os outros. Não tenho disso a menor dúvida. Tanto quanto mo permite a conjectura e a amostra que conheço.
Já duvido e muito que o proveito seja igual à fama. Não duvidamos todos?
Por isso, de cada vez que vejo as tais caras desconhecidas, fico satisfeito. Pode até ser que me engane. Mas fico.

17/08/2004

Causas e efeitos

Um bom carro, em bom estado de conservação, um condutor calmo, experiente e dominador da máquina, uma estrada bem projectada e bem mantida, boas condições atmosféricas e boa visibilidade, tráfico reduzido, eis o risco reduzido na circulação.
Se em vez dos 120, pudesse rodar a 160, a 180, certamente que o poderia fazer ainda em segurança, em alguns troços e sob determinadas condições.
O busílis da questão é que quando se aumentam ou reduzem os limites de velocidade, o número de acidentes acompanha a variação.
Não vale a pena vir com isto e com aquilo, os números estão lá para contrariar.
A nossa ciência, não nos esqueçamos, é em grande parte de base estatística.
É com base em estatísticas que avança a medicina, a engenharia, a agronomia e outras disciplinas menos científicas.
O mesmo é dizer que, não se conhecendo em pormenor os mecanismos que regem determinados fenómenos, é com base na experimentação e na catalogação de resultados que se tiram prováveis conclusões.

Interessa-me hoje falar numa questão que é mais ou mais menos conhecida. E que é descrita e denominada de diversas formas. Chamemos-lhe auto-alimentação, reacção em cadeia ou outra coisa qualquer.
Observa-se que o fenómeno do suicídio parece auto-alimentar-se.
O conhecimento de um acto suicida parece despoletar em outros a mesma intenção. Há assim uma espécie de crises limitadas no tempo e que se limitam no espaço dependendo da propagação da notícia.
Já aqui referi o bizarro e tragicamente irónico caso da avenida de Ceuta, anos atrás.
De como a ampla divulgação do caso parece ter despoletado uma crise.
De como um grosseiro erro jornalístico motivou a deslocação do cenário dos suicídios, do local onde o primeiro ocorreu para o local que erradamente os jornalistas deram como tendo sido o da tragédia.

É sabido que em tempos mais remotos se tendia a esconder uma tragédia ou a sua verdadeira dimensão. Concorrendo com isto, havia também um reduzido leque de meios ao dispor da imprensa.
Tome-se o caso tão discutido das inundações de Novembro de 1967.
Ainda hoje se não sabe a extensão dos danos pessoais que causou.
Algures entre os acanhados números oficiais e os decerto empolados palpites jornalísticos, há-de estar um valor realista.

Hoje, a imprensa selecciona mais ou menos arbitrariamente as tragédias a divulgar.
Um exemplo disso é a comparação entre as reportagens dos incêndios deste ano. Comparar a divulgação dos que ocorreram durante o Euro 2004 e os que ocorreram após.
Claro que são as prioridades. Os meios não chegam para tudo, sabemos isso.

Partamos agora do princípio conjectural de que o incendiarismo é um fenómeno que pode ser auto-alimentado da mesma forma que o suicídio.
A questão que se coloca é que, a ser verdadeira esta conjectura, de cada vez que se propagandeia um fogo, se está a incutir em quem tem essa pulsão, o desejo de incendiar.

Como é que se arrumam todas estas linhas?
Da seguinte forma:
Se é certo que as estatísticas nos fornecem dados úteis para avaliar os fenómenos, porque não testar isso em alguns campos?
Se a conjectura que acima expus e que é de resto partilhada por muitos, tem alguma probabilidade de ser verdadeira, porque não pô-la à prova?
Se ao tempo da censura e do lápis azul, sucedeu uma aparente licença de tudo publicar, não haverá campo para restringir a informação em fenómenos como o do incendiarismo que, até prova em contrário, não porá em casa nenhum dos valores democráticos tão insistentemente reclamados a troco de tudo e nada?
Até porque, como se viu, nem sempre os fogos são matéria interessante. Havendo futebol a rodos, lá ficam para trás.
Fosse isto experimentado e feitas depois todas as correcções relacionadas com as condições atmosféricas, sabendo já que todos os factores da dita correcção são falíveis e incertos, ter-se-ia uma ideia se vale ou não a pena.
É claro que essas notícias vendem jornais e espaço publicitário. Eu sei disso.
É claro que tudo isto é de uma ingenuidade gritante.

Tenho notado, no entanto, que não tem havido divulgação de suicídios na imprensa. Que eu tenha dado por isso.
Ou de carros a circular em contra-mão.

16/08/2004

Mudança de ano

O pai de J. não sabia como e quando ele tinha começado a ler. Só as maiúsculas de imprensa.
Lia e escrevia, conquanto-a-escrita-se-fizesse-com-hífenes-a-separar-as-palavras-já-que-J.-não-dominava-os-espaços-entre-as-letras-e-entre-as-palavras-e-sabendo-disso-era-dessa-forma-que-separava-uma-palavra-da-outra.
Talvez que J. soubesse ler as palavras, mas decerto não lhes conhecia o significado muitas vezes.
O que é isto? O que é que quer dizer?
Nesse dia, o pai de J. lia o jornal que o fornecedor habitual acabara de lançar quinze metros no ar até à janela.
J. estava virado para a primeira e última páginas, atrás das quais o pai se escondia, e deu-lhe para perguntar porque é que o jornal era todos os dias diferente, excepto o cabeçalho e um certo número.
Qual número?
Este.
Ah, isso é o ano.
E o ano também muda?
Ditos

Quem não sabe o que há-de fazer, faz colheres.
Ou fotografa talheres.
Ou escreve um blogue.


15/08/2004

Linha de meta


A carreira

Não se pode dizer que nesse tempo o homem passasse com distinção no teste do álcool.
A verdade é que as paragens da camioneta eram tabeladas pelo gorgolejar da mini, a mão esquerda em punho sobre o balcão, o corpo a três quartos de volta, o olhar de esguelha para os passageiros embarcados, e pelo monossílabo abaladiço enquanto a mão direita compunha a bóina.
Era assim.
Mas nesse dia, depois da trovoada associada à depressão de origem térmica, o horário foi furado.
Numa das paragens saí da camioneta também. Fui à mini, tal qual o homem.
De volta à carreira, vi-o dar mais três passos do que a conta.
Quatro ou cinco homens olhavam para o chão.
Um deles atirou qualquer coisa.
Folhas de couve de chapa nove e almirantada efígie circulavam calmamente de mão em mão.
Numa poça de água, melhor dizendo num buraco cheio de água, as moedas caíam e recuperavam-se em ritmo lento.
A carreira atrasou-se uns cem escudos nesse dia.



imagem retirada de

13/08/2004

Novidades

O homem naquele dia não se calava ao telefone.
Tratava-se de combinar uma ida a petisco e ele só lhe dava na mesma tecla. Que eu me preparasse, que as surpresas iam ser muitas.
Ainda lhe disse que nunca fui muito de ficar de boca aberta e que quando isso lá acontecia, pedia de imediato que me colocassem uma maçã entre os dentes, ficando não como o bácoro dentro do cesto, mas como o dito já pronto a servir.
Ele que não, que as coisas iam ser muito piores do que eu podia imaginar.
Ainda lhe disse que não seriam piores do que eu sempre as imaginei e que, por maior que fosse a montanha, não seriam mais do que ratos o que restaria dela quando a feira se desmanchasse.
Ainda argumentou comigo.
Suponho que a maior parte dos portugueses recebeu telefonemas do homem.

12/08/2004

Linhas


Por falar em publicidade

Os meus leitores não concordam comigo que a qualidade actual dos anúncios é pouco mais do que péssima?
Refiro-me aos da rádio, que são aqueles a que me submeto quase o dia inteiro.

10/08/2004

O pato de estabilidade

O Zé ainda não fora descoberto a comer um fardo de palha, escondido por uma manta.
As moças também ainda não tinham sido postas a um canto. O cantorio ainda não tinha por isso começado.
Resumindo, ainda se viam os pares.
Foi aí que começou a perturbação. O dono da casa irrompeu no celeiro e subiu aos fardos de palha do lado contrário ao do Zé.
Parou a música.
"Quem é que matou o meu pato-viúvo?"

Parecia mal abusar assim do anfitrião.
A guarda chegou pouco depois, atraída pelas luzes dos carros na charneca.
Enquanto cumprimentava o sargento, juro que ouvi uma voz do outro lado do monte:
"O quem? Eles em serviço não podem beber! Agora cá comer pato!"
Destinos assim


Intrigante adenda ao post de anteontem

Afinal, nem todos os telefonemas foram imaginários...

09/08/2004

Matinal


Cidadania

Não sei se são os mesmos que tanto se indignam com a repetição dos incêndios.
Não sei se são os mesmos que tanto se indignam com a repetida incompetência aqui e ali.
Não sei se são os mesmos.
Mas alguém é. Alguém repete o tradicional chorrilho de asneiras ao volante quando a chuva volta. E quando não é da chuva, é das calças.
E não é invulgar ver-se a passividade dos próprios relatando para as câmaras que nada havia a fazer. Se estava já tudo enfeixado...
Mesmo o motorista de um autocarro de passageiros que há uns anos acabara de matar duas pessoas, dizia calmamente que quando dera por ele, já estavam todos parados e enleados na auto-estrada. Não conseguiu parar pois.
Não sei se são os mesmos. Mas alguém é.



A5, entre as 15:02 e as 15:06 de 8/8/2004, em três locais distintos - imagens do IEP

08/08/2004

Chuvas de verão

Não é o cheiro da terra molhada que recordo, esse reservo-o para os inícios do Outono, para as tardinhas em que os que caçavam reconheciam perdizes e falavam de lebres agachadas.
Não é o piso de manteiga, esse reservo-o para a memória das lições que recebia do meu tio, ainda mal chegava aos pedais do faruque.
Não são as goteiras nos toldos das esplanadas, essas reservo-as para as vilegiaturas tardias em cafés desertos.
Não é a torrente barrenta entre seixos que descia pelo largo, essa reservo-a para alturas da feira de Castro.
Sempre que chove no verão, sempre que chove no meu verão, vêm-me à memória cordas e aprestos de barcos, o defunto pontal de Sines e banhos de água cadente, dentro ou fora das ondas da praia Vasco da Gama.
Sempre que chove no meu verão, vejo as lentas gotas escorrendo da nespereira em frente da janela, ou a cor húmida das flores avistadas pelos postigos da cozinha.
Nada disso existe mais.



imagem do IEP
O esperto

O esperto é fácil de identificar quando se sente em inferioridade.
Depois de debitar os habituais lugares-comuns sobre a esperteza saloia dos outros, destrunfa.
Se, à medida que carteia valetes e damas, sente o adversário inabalado e talvez inabalável, muda o rumo do jogo e já só pensa em narrar episódios de jogos que só ele jogou.
Aqui, normalmente, recebe telefonemas imaginários. De toda a sorte de figuras e figurões.
Vê-se que fez algum trabalho de casa. As pessoas com quem fala através de ligações que só ele conhece, são quase todas identificáveis pelo interlocutor. Nada de detalhes óbvios.
Depois vangloria-se de coisas que ele mesmo acha normais.
Depois queixa-se insustentadamente.
Quando sai de cena, na dele glória, vai em cima da caixa de carga de um veículo próprio. O volume que se distingue na algibeira da camisa é o livro de cheques, claro. Volumoso? Sim. Recheado de notas gordas.
Notas de rodapé, digo eu.
E dia de tempo urbano


Dia de tempo antigo


06/08/2004

As reacções

Seja lá pelo que fôr.
Seja pela universidade do disparate, que cada vez tem mais discípulos assíduos.
Seja pela pressão da imprensa, cada vez mais intensa e em todo o campo.
A verdade é que as reacções aos acontecimentos, sejam eles acidentais ou intencionais, sejam palavras ou actos, são normalmente de um teor em disparate muito maior do que os acontecimentos que as motivam.
Até quando reagem a algo que nunca aconteceu. E isso é o que não falta.
Zambujeira

Memória balnear de há 72 anos.
O cavaleiro na falésia.
As casas do lugar couberam todas na fotografia.

03/08/2004

Equinócios, doutores e a vida no campo

Deve haver aqui um pequeno equinócio - remata muitas vezes assim um velho amigo.
Mais pelo gosto de ser equívoco do que pela metáfora de um de trevas para um de luz.
Nos dias que correm, a nova urbanidade traz-nos os mais diversos exemplos de distância em relação à observação simples das coisas simples.
A distância em relação a uma certa escala de observação, dita humana. Ou, para outros, primitiva.
A escala em que se observa o nascimento de um borrego, sem cuidar de veterinária ou de biologia.
A escala onde se percebe que o leite não se fabrica nos supermercados, sem cuidar de marketing ou de economia.
Uma das coisas que me levou hoje a escrever este post foi ter constatado que, para um número de pessoas muito superior ao por mim esperado, a propósito de certa conversa, os dias de Agosto não são sucessivamente mais pequenos.
Que, segundo as mesmas pessoas, toda a gente sabe que os dias só começam a ser mais pequenos a partir de Setembro (do equinócio, portanto).
Há aqui duas coisas que concorrem para o erro.
A primeira é o esquecimento das mais básicas instruções sobre o ciclo solar anual, que nos foram ministradas nos anos mais remotos de escola.
A segunda é a completa inobservação das coisas simples.

Em tempos, numa daquelas situações em que ouvimos falar sucessivamente de alguém e nos encontramos inúmeras vezes na iminência de o conhecer sem que tal acabe por acontecer, era de um investigador que me falavam. Amigo e colega das pessoas que assim o anunciavam.
Sem conhecer a pessoa, ficou-me apenas um aspecto que adrede era mencionado. Que, no meio dos dados experimentais que recolhia, não se dava conta da absurdidade dos mesmos.
E a justificação que, em seguida, davam para o facto era a de que já não tinha os pés na terra.

O que me leva para a dita terra, para o campo, onde ainda encontro a atenta observação das coisas simples.
E a sua interpretação, a uma dada escala.
Talvez por as variáveis em observação serem poucas, talvez por os dados apresentarem pequena dispersão em relação ao esperado, numa curva que já está atavicamente presente no espírito de cada um, haja poucas surpresas.
E, quando existem, a essa escala, há sempre teses para as explicar. Mais ou menos razoáveis.
Basicamente, ninguém se surpreende ou se comove como acontece na urbanidade desenraizada.
E também se erra menos.

31/07/2004

A estrada do sul



Em tempos, esta teria sido a altura de rumar ao sul. Em outros tempos ainda mais longínquos, ainda faltaria um mês.
Em tempos, cumprir-se-ia o ritual da pré-travessia em Belém ou no Cata-que-Farás.
Esperar na fila. Mais dois ferries e é a nossa vez.
Depois, as manobras devidamente comandadas para encaixar a viatura no meio dos camiões.
Se era dia de águas agitadas, o mais certo era presenciar um encosto e um espelho partido. E os habituais lamentos.
Uma vez de novo em terra, era ir pela E.N.10 passando pelas terreolas de casinhas baixas até se entrar em estrada aberta, depois do Fogueteiro, e pouco depois se avistar a chama no topo das chaminés dos altos fornos.
Depois havia o entroncamento de Coina, com a respectiva bomba de gasolina e uns armazéns.
Seguiam-se as terras de Azeitão. O café da bifurcação, as caves, a garagem da João Cândido Belo, a subida em recta da serra, a capela lá no alto, e a descida em curvas até se passar pela fonte e se entrar numa sequência de rectas até à cidade do Sado.
Lá estava a Boîte, em grandes letras, à entrada.
Trajecto pelo centro e passagem sob a linha do Sado, praça de touros à direita e já se saía.
Depois, no lugar das Pontes, umas quantas casas e novamente a estrada.
Águas de Moura. Bomba de gasolina com belos arcos em betão e ponte da Marateca.
E.N. 5. Rectas e condado de Palma.
Mais rectas e a várzea do arroz. Sobe-se para Alcácer e desce-se para lá entrar.
Café Sado. A ponte cujo mecanismo levadiço parecia já não funcionar.
E.N. 120. Depois a recta de todos os perigos. Bermas de areia, pinheiros rentes. Muito antes do Chinita e de quaisquer outros pontos de paragem.
Em Grândola, depois da primeira curva em vinte e tal quilómetros, o depósito da água e o Paraíso do Alentejo com as suas bombas de gasolina, que ainda lá estão.
Na 259, ainda se passava por Canal Caveira, também muito antes do cozido aparecer num pátio improvisado, e caso a passagem de nível estivesse fechada, lá se fazia o corta-mato por debaixo da ponte ferroviária, rentinho ao encontro. Barro seco no leito estival.
Mas de Grândola em diante, já era o deserto. Raro era encontrar outro carro na estrada.

Mais uns dois ou três dias e já torrava ao sol. Em praias desertas.

Com os anos, com a ponte, com o aumento do tráfego, as novas rotas desertas de fugir aos engarrafamentos.
Depois da 264 chegar ao Algarve, depois de chegar também a Ourique.
Depois de todas as variantes, depois do velho sonho, tantas vezes ouvido nesses tempos, da ponte do Montijo, depois da auto-estrada finalmente ter passado o cabo das Tormentas, ironicamente chegando aos meus sítios, cinco dias depois do meu adeus, já não vou.
Já não vou para sul.

imagem de

30/07/2004

A mulher-cobra



Ainda me vejo naquela tenda com Miss Maura (tambores) a deixar-se conhecer assim que descerraram a caixa onde habita.
Não me recordo se Miss Maura (exclamações) disse do que se alimentava.
Recordo-me do turbante violeta de Miss Maura (suspiros).
Ainda me vejo a tentar perceber se alguém se convencia da sua maldição.
Soube que uma mulher vagamente parecida com Miss Maura comprara uma caixa de Omo lá na loja.

imagem conseguida depois de roubar partes aqui, ali e acolá

28/07/2004

O jornalismo especial de corrida

O jornalismo especial de corrida é aquela variante em que o jornalista corre atrás da notícia, para um lado qualquer do país, fora do seu mapa mental.
Quando lá chega, não sabe onde está.
Aí, começa a reportagem. Os exemplos são diários.
Tome-se o caso do incêndio de São Barnabé. Depois de ter passado a fronteira dos reinos, o que fez ainda na segunda-feira, passou a ser dois.
Um em Almodôvar, outro em Loulé. Depois tão depressa volta a ser um como dois de novo.
Até no site do SNBPC, parece que são dois.
Ninguém nesta terra saberá interpretar uma carta?

(actualizado às 10:25 de 29/07/04 - o último comunicado do SNBPC, de 28/07/04, 19:20, ainda não acessível na rede quando este post foi escrito, já refere um só incêndio)

27/07/2004

O Inferno (ainda)

Era para escrever sobre o que vi hoje, pela madrugada, entre serras.
Mas face a tanto disparate, lido e ouvido, guardo-me para tempos mais serenos.
Era uma visão dos infernos.


Posto de vigia do Mu
Perto da visão do inferno



Gasolim às voltas

25/07/2004

Lenda ou não, aqui ou ali

865 anos se passaram, desde o dia 25 de Julho de 1139. Com os devidos ajustes, é certo.



Andando entre montados e carrascos, onde sinais desses tantos anos poucos há, como se tudo estivesse em tempo de cónios, romanos ou árabes, só me acode Sá de Miranda:

Que farei quando tudo arde?

Inda que o fogo tenha em todos esses séculos sido o exutor das pragas, o guardião final. Haja memória. Mesmo que Portugal esteja no fim.

24/07/2004

A roda (fragmentos da silly season)



Pois não sei. Não sei que diga...
Eu cá digo e torno a dizer que ele não conhecia a roda.
A roda... A roda, talvez não. Mas coisas parecidas conhecia com certeza. Então a Terra não é uma bola?
É. Mas não é uma roda.
Mas roda. Vai rodando. É ver o sol nascendo e pondo-se.
Pois. Mas não é bem roda. Roda de andar. Uma bola sempre rebola.
Andamos de reboleta então...
A terra não é uma roda.
Não é, mas parece-se.
Mas se ele conhecesse a roda, havia de haver animais com rodas.
Mas andam na mesma, ou não?
Andam. Mas se tivessem rodas, andavam mais depressa.
Será que sim? E seria preciso isso para quê? Não dava jeito para subir escadas...
Não sei, mas olha lá... Há animais com asas, não há? Só depois é que se inventaram as asas dos aviões. Há animais com barbatanas que nadam e flutuam, não há? Só depois é que se inventaram os barcos e as barbatanas para os homens. Então porque é que ele deixou inventar a roda primeiro e não fez logo animais com rodas?
Ah, pois isso não sei.
Mas sei eu. É porque não conhecia a roda.

Leituras recomendadas:

Ezequiel 1:15
Chicago Chronicle, May 27, 1999, Vol. 18 No. 17
ABC online, Dr. Karl S. Kruszelnicki, Great Moments in Science, 17 June, 1999
ABC online, Dr. Karl S. Kruszelnicki, Great Moments in Science, 24 June, 1999


imagem de
Um carradão de areia



imagem de satélite em

23/07/2004

Objectos

Acho que se aplica isto a todos.
Quando se trata de determinar o que é e o que não é um objecto pessoal, só pairam dúvidas.
Não falo do isqueiro, do relógio, da caneta. Mesmo esses, quando descartáveis, têm estatuto temporário.
Nem sequer da tralha que se mete num saco ou numa mala para passar um fim-de-semana.
Falo de todos os outros que, tendo ou não ocupado lugar num bolso, numa mala ou num saco, não são dispensáveis mas não estão sempre à mão.
Nessa classe, tenho muitos. Espalhados por gavetas, dentro de baús, na mala do carro, em cima de uma estante, guardados em caixas, eu sei lá.
De vez em quando, avisto-os. E é uma festa.
A alguns outros, já perdi o rasto.
Mas quando se recupera algo que julgávamos perdido ou até, o que poderá parecer mais estranho, que pensávamos nunca ter possuído, soltam-se uns demónios.
Catadupas de memórias irrompem dos cantos, soam nos ares, deixam-se tocar na fragilidade do reencontro.
Os que são meus e os que estão meus.
Os que são meus provavelmente até chegarem às minhas mãos foram produtos quaisquer, iguais a outros tantos, saídos de fábricas ou das mãos de um artesão. Nada de memórias por onde andaram.
Já os outros, os outros, que memórias de antepassados se terão extinguido e onde e como?
Aquela cigarreira, por exemplo, que não terá sido verdadeiramente de ninguém? Um objecto que se demorou em gavetas por anos sucessivos e nunca teve dono, ninguém que a colocasse no bolso ou mandasse gravar as iniciais no espaço reservado. A espaços esteve minha e minha nunca o foi. À gaveta voltava. Sempre de alguém que não fumava.
Se morrer de botas calçadas, quais deles morrerão comigo?
O Coq Spença

Há quem o diga descendente de Spencers e de Le Coqs.
O mesmo é dizer que representa os nossos piores complexos de inferioridade face a francos e a saxões.
Mas ele lá vai, sempre comparado com tudo e com todos, uma vezes para menos outras para mais.
E não liga a essas coisas.

21/07/2004

Questão de cores



A minha geração é marcada pela particularidade de ser a última a ter as próprias memórias ainda a preto e branco.
Recordo-me da minha infantil pergunta, marcada por um algum cepticismo ignorante, ao ver uma das minhas primas a preparar-se para inserir um rolo colorido numa máquina fotográfica:
"Atã essa taméim dá pa tirar fotografias a cores?"

Dos antepassados que não cheguei a conhecer, as fotos a preto e branco ou a sépia.
Da juventude de pais, avós e tios, a mesma coisa.
Dos meus primeiros olhares para a câmara, o Ilford Pan.
Até grande parte das minhas primeiras tentativas, já com a velha Agfa que afastava de mim a tentação de manusear a Zeiss Ikon paterna, se fizeram a PB.
É pois dessas circunstâncias, da vulgarização que entretanto a película colorida conheceu, que nasce essa marca de separação entre as memórias mais longínquas retratadas em tons cinza e as mais recentes dotadas das cores do mundo. Mesmo que estas outras já tenham em alguns casos passado a jogos de azuis ou de vermelhos.
É quase um mimetismo da memória humana, tão propensa a perder a cor.

Nunca fui grande artista do retrato. Tanto não, que mesmo à força de muitos anos de registos, não me comovo (nem aos outros) com a minha obra.
É certo que entre a Agfa, a Zeiss Ikon depois herdada (e de longe a melhor de todas), a Praktica que mais tarde comprei na expectativa de baixar os custos e a mais recente, abusiva e fraternalmente sonegada Sony de lentes Zeiss, há muita coisa em arquivo.
Mais pelo interesse de trinta e tal anos de recolha, em que as fotos de família nunca tiveram qualquer importância, antes dando lugar a muita estrada como já aqui referi.
E há de tudo, cor, preto e branco sempre mais a gosto e a actual possibilidade digital de fazer umas flores.
Ah, e pelo meio, outra sonegação fraterna, a maquineta de cassettes de 8 mm que o homem parece já ter esquecido e das quais cassettes saiu grande parte das imagens que por aqui aparecem.

Algures, ao longo deste percurso, fizeram de mim fiel depositário de espólios familiares.
Com tanta coisa em carteira, algum dia haverá de sair qualquer coisa do mato.
A ver vamos o quê.
Ah, e sim, muito negativo estraguei eu ao meu pai. Eram fotografias falsas, já se sabe.

19/07/2004

O tempo e os caminhos

Às vezes, penso que este blogue é mais velho do que é.
Ainda falta quase um mês para o aniversário. Dir-se-ia que partiu das boxes enquanto uma onda generalizada tinha partido da grelha do outro lado dos rails.
Por pensar que é mais antigo, enredado num qualquer referencial de inércia que transforma segundos em séculos para o observador exterior (será ele exterior?), por pensar que é mais antigo, dizia, julgo muitas vezes já ter aqui dado conta de algumas reflexões mais pessoais. Pessoais mas suficientemente partilhadas, creio-o, para que outros com elas se possam identificar.
Indo à raiz, ao H Gasolim de há onze meses, fruto de um verão de sequeiro, em que o H era de Hélder, em homenagem ao camionista desconhecido como o soldado, e Gasolim vinha pelo contrário de um radical mais do que conhecido, indo aí, lembro-me de vaticinar para estas páginas uma vocação igual à do seu autor, a demanda de caminhos, o contacto com lugares nunca vistos.
E a coisa borregou visivelmente nesse campo. Como muitas conversas sem norte, derivou para sabe-se lá onde.
A verdade é que não houve aqui grandes referências à estrada, às suas atracções e aos seus perigos.
Dos perigos, é certo, quase nunca me apeteceu falar. Outros se ocupam disso com mais ou menos sucesso.
A atracção da estrada, no entanto, creio que se ressente desse avultar dos receios. Não que hoje haja mais razão para recear. Pelos vistos não há. Já passámos por anos em que com menos tráfego morriam 2500 pessoas no asfalto.
Mas o ritmo a que se vive não ajuda nada ao desfrute das viagens.
Creio que por aqui, pelo nosso país, pouca gente já experimenta o prazer de ir de A a B só por ir. Mais pelo trajecto do que pelo destino. Pela amostra que conheço, acho que há poucos.
No entanto, as viagens de carro sempre foram para mim motivo de interesse. Mesmo que o destino não fosse grandioso.
Talvez por isso tenha um mapa mental das nossas estradas que se bate com o dos camionistas. Um pouco por todo o lado já deixei pneu. E tenho as minhas preferências. Um dia também falarei disso.
Há anos, ocorreu-me fazer um livro de fotos, estrada a estrada. Já depois disso alguém lançou um sobre uma estrada em particular. Outros haverá que eu não conheça. Para além das publicações que o antigo M.O.P. dedicava às novas construções e melhoramentos.
A primeira foto desta saga tem cerca de 32 anos. É a minha primeira experiência fotográfica e retrata um posto de combustível de que muitos poucos se recordarão. Ficava mais ou menos onde hoje está o muro de suporte do parque de estacionamento do Continente da Amadora, ali onde se cruzavam então a E.N. 117 e a E.N. 249-1 e era da Shell.
A última é a do post anterior. Na área de serviço de Aljustrel. 32 anos depois, no começo e no final de duas viagens para sul.
Em quase nada coincidiram os dois trajectos. É dessa memória das estradas de então que conto falar um destes dias.
Até a minha estrada das oliveiras em que descia para a horta já não existe. Mas o rasto das rodas de há 32 anos ainda permite a passagem. Por quanto tempo mais?

17/07/2004

Memória do caminho do (Paraí)so


O extraordinário mundo da fabricação das coisas

Confesso a minha altivez. Às vezes, dá-me para isso. E com ela, vem o desdém pelos empertigados e fabulosos fazedores das coisas.
Sabe-se hoje, desconfia-se aqui e ali, que apenas é matéria o que é propagado aos sete ventos. Todo o resto é coisa que não existe, ou existindo, escapa à nossa compreensão.
E só sendo matéria o que propagado é, não carece a coisa para ser matéria de ser seja o que fôr mais. É o bastante.
Assim, o velho e errado hábito de apalpar as coisas para ver se eram a sério (o ar nunca foi coisa, já se sabe), cai enfim por terra.
É um deleite vermos os novos vendedores da banha-da-cobra e os novos prestidigitadores a tentarem convencerem-nos das suas barganhas e das suas habilidades.
Algures, perdeu-se a raiz das coisas. A raiz que, torta ou direita, deu nome à razão. Não faltam as matérias que de nada são feitas, os conceitos que só vácuo encerram. E dos quais e das quais, se elaboram novos conceitos e se fabricam novas matérias.
É vê-los a afirmar que as suas fábulas só não se confirmaram porque a surpresa teve lugar.
É ouvi-los a dizer que as ciências que defendem, embora não possam prever, conseguem explicar.
Um mar de nada. Onde soam as vozes que são mais do que vozes?
Eu sei que isto não é novo. Agora só parece ser mais visível, por toda a parte espalhado.

Vou para o monte. Lá, pelo menos, das landes e só das landes, nascem sobreiros.

16/07/2004

O pacto de regime

Há muito que me convenci de que a política não tem nada de racional.
O que não impede que se façam, por parte dos próprios intervenientes e dos observadores mais ou menos privilegiados, as maiores considerações sobre racionalização. Já nem falo de razão, que este conceito de racionalizar parece ser mais complexo e difuso.
É certo que o nosso país não possui o hábito de fabricar bons dirigentes.
Antes reprime a capacidade precoce, desde que não relacionada com o pontapé na bola.
Creio que em gerar talentos, não seremos muitos diferentes dos outros. Em aproveitá-los, que é onde está o ganho, segundo um antigo publicitário avisado, é que a coisa desamassa.
Também não creio, nunca o cri, que os grandes talentos sejam bem aplicados na política. Mas ajudava que, em postos intermédios, dispuséssemos de uma plêiade capaz de preparar terreno para políticas mais "racionais".
Ora o que sucede é que há uma demissão em massa dos mais capazes quando se trata de ombrear com a mediocridade. Por ombrear, quero dizer correr ao lado e roubar a bola.
Vai-se tudo embora. Não sei quantos se queixam depois disto e daquilo. Mas se se queixam, queixam-se mal.
Posto isto, que como é hábito já divergiu do caminho alinhavado, apenas um singelo comentário, que é feito hoje, mas poderia ter sido feito em muitas outras ocasiões anteriores, tivesse eu um blogue nessas épocas:
Não seria já altura do PSD e o PS se entenderem quanto a uma orgânica do governo?
E de se criarem aparelhos ministeriais mais razoáveis e duradouros?
Ou iremos assistir permanentemente a este esbanjar do nosso dinheiro e a esta perda de eficácia que é a criação, a extinção e a mudança de nomes dos ministérios ao sabor do vento?
Eu sei que há sempre o perigo humphreano. Mas ainda assim parece-me mais "racional".



imagem em
Orientem-se

Li há semanas no Expresso que uma das queixas mais frequentes por parte dos jornalistas estrangeiros que acompanharam o Euro 2004 foi a sinalização deficiente.
Menos mal se foi isso afinal o pior da coisa. E parece que assim terá sido.
Seja ou não cortesia dos entrevistados, é um aspecto a reter.
Um velho amigo, sempre irónico, diz há muito que com a nossa sinalização, ninguém que conheça o caminho se engana.


Durante muitos anos, houve nas nossas estradas uma tradição na sinalização informativa que se pautava pela legibilidade bem estudada e pela coerência dentro de uma hierarquia da rede rodoviária.
Havendo quatro diferentes categorias de estradas nacionais, sucedia que as estradas de 3ª categoria (efectivamente a 4ª, pois havia as estradas principais, as de 1ª, de 2ª e de 3ª categorias), ainda dispunham de uma sinalização razoável.
Aos sinais de aproximação de cruzamento ou de entroncamento, sucediam-se nas intersecções os sinais indicadores de direcção e posteriormente, os sinais de confirmação da direcção em que se seguia, para já não falar dos marcos quilométricos que confirmavam rumos e distâncias a percorrer.
Em regra, já as estradas e caminhos municipais eram desprovidos de sinalização.
A certa altura, a intervenção municipal começou a notar-se nesse campo.
Primeiro timidamente. Depois, de forma eufórica e folclórica. E sem critério.
Na maior parte dos casos, percebia-se claramente que a concepção e a colocação dos sinais era arbitrária.
Em zonas urbanas, a coisa piorava. Cores dependentes da escolha de cada um, consoante o município. Escolhas péssimas quanto à legibilidade, quer no contraste forma / fundo, quer no formato e na escala das letras.
De uma situação em que existia uniformidade no país, embora com falhas evidentes ao nível das localidades mais populosas, passámos para a competição pelos sinais mais aberrantes.
Na colocação, na hierarquia dos locais a sinalizar, um desastre.
Sinais mais do que evidentes de que pessoas sem a mínima preparação ou bom senso decidiam estas coisas.
Ainda no plano nacional, verifica-se a degradação da informação. Um caso gritante é a substituição ou a nova pintura dos marcos quilométricos que apenas revela o quilómetro respectivo. Sabendo nós que essa informação é irrelevante para quem se orienta por meio de um mapa de estradas.
É a eterna dificuldade de nos colocarmos no lugar do outro, do que não sabe, do que não conhece.
Quem peça muitas informações sobre direcções verá que a esmagadora maioria dos interpelados, embora com boa vontade, não conseguem dar uma explicação adequada ao desconhecimento. Comum é ouvir-se um ponto prévio: conhece isto, conhece aquilo?
De qualquer forma, há que dizê-lo, e voltando aos jornalistas de fora, supondo que grande parte dos trajectos se fizeram em auto-estrada, a sinalização nestas é muito razoável.
Referir-se-ão provavelmente ao acesso próximo de estádios e hotéis. Esse sim, costuma ser calamitoso. Mas não sei se houve ou não sinalização temporária a apontar os locais mais procurados. E é natural que tenha havido.
Não fui ver, não sei, não faço ideia.
Gasolim, sim!



projecto para um novo cabeçalho no blogue do Sapo

15/07/2004

Imbecilidade

Haverá coisa que mais irrite que a nossa própria imbecilidade? Arre!
Ligações e cortes


 
O meu banco Gorringe



Do banco Gorringe, dizem-se duas coisas. Que é uma zona fatal em se tratando de gerar terramotos e que é um pesqueiro abundante.
Parece uma boa metáfora para denominar as histórias em hipógrafe.
Na verdade, não são histórias.
Apenas a constatação de que o banco de pesca onde desencantei pequenos terramotos feminis se situa algures na periferia de mares amigos.
Perto e longe de casa.
Sempre longe dos sítios onde a força maior me obrigava a permanecer.
Sempre as amigas dos amigos, as primas dos primos e nunca as colegas de escola ou de profissão.
Sempre por acasos, como quando certo irmão enganchou um polvo no anzol enquanto sirgava ao longo da margem.
A afinal não tão misteriosa irmã de um companheiro de copos que teimava em abandonar as capelinhas para a ir buscar para a festa.
A estranha a quem se pediu o favor de entregar isto à amiga comum.
A que fazia par com a namorada do amigo e tens que vir comigo.
A que apareceu na casa de uns amigos antes do jantar.
A que falava alto na mesa ao lado.
A que estava sentada ao lado do velho amigo já não sei por quê.
A que ficava na praia, uns toldos abaixo, e que ganhou coragem quando apareceu alguém que nos conhecia a ambos.
A prima do primo que jogava ringue noutra praia ao cair da tarde.
A que abriu a porta da casa de família naquele fim de tarde primaveril.
A amiga da prima que surgia sempre sem se saber de onde.
Algumas outras em circunstâncias semelhantes.
Tudo bem visto, o meu banco Gorringe situa-se a sul. Um pouco mais a norte do que o verdadeiro, desencadeando pequenos sismos e cheio de peixe.
Sou como o Anarcka, não acredito na aquacultura.
O que é que me anda a dar para ser tão autobiográfico?

imagem adaptada de

14/07/2004

Mistérios do Google

Centenas e centenas, diz você?
Dezenas e dezenas, contei eu!
Ao contrário dos envolvidos neste diálogo que, segundo o velho RC, contavam camiões de pedra rumando à barragem do Roxo, nos tempos em que a construíam, trata-se aqui de visitas a este blogue, oriundas (oriunção direi depois o que é) das sete partes do mundo e que têm como único objectivo esta foto:



Que não é minha. Veio com a devida menção deste sítio.
Ilustrou um post sobre memórias (mais um) dos tempos em que ver passar os carros era um passatempo bem complementado por outras interessantes actividades.
Mais um mistério do Google.
É o Renault 5 Turbo de Joaquim Moutinho, no ano em que venceu o rali de Portugal.

13/07/2004

Às vezes, lembro-me...

E não é preciso muito.
Uma das coisas boas disso tudo é, ou foi, a nossa capacidade de inventar, disparatar, criar as cenas que depois nos envolveram.
Há algumas fotos, poucas.
Ninguém nos fotografou na portagem de Condeixa ou nas ruas de Castro Verde.
Ainda hoje não sei quem foram os espectadores do nosso almoço na feira.
Mas vejo a tua cara quando o Manel, sem palavras, te encheu o prato com mais um petisco.
Rias e exclamavas que era duro acompanhar o jet-set alentejano.
Jet-set de pão com linguiça, digo eu.
Foste castelã e banhista de água doce, entre os meus afagos.
Ainda hoje escreveria o mesmo postal, datado de Penamacorvo...
E provei que estavas enganada quanto à tua própria fotogenia.
Às vezes, lembro-me. Basta espreitar um filme. Isso ontem foi o bastante. Estiveste sempre por ali, disfarçada de actriz inglesa, C2S.



a imagem tirei-a não digo de onde, mas é de uma actriz inglesa

12/07/2004

Qualquer coisa sou eu

Não sei se pousas
Sobre os carris que fotografei
Ou se trazes
Odores de plateias de madeira.
Talvez sejas apenas
Uma presença num parque de árvores
Que nunca identifiquei,
Uma sede entre estevas chacinadas
Pelos verões, sob botas caneleiras
Arrastando pó.
Um outro odor metálico de
Cadeiras vermelhas, verdes, azuis ou
Amarelas, contracenando com
O meu chapéu de sol, de iguais cores.
Talvez até um som gritado
De "fruta ò chocolate".
Uma deixa numa récita,
Um biombo velho dividindo
Promiscuidades.
Um carro soando em estradas
Desertas.
Qualquer coisa.
Definitivamente minha.

SG, inéditos, 1998


imagem de

11/07/2004

Salvação



clique aqui para ler o grafito

Olhando

De onde vem esta desolação?
De onde vem o desânimo? De onde vem o ressentimento?
Será que vem da confusão entre realidade e utopia?
Será que vem daí? Da nossa constante insistência em tomar o mundo pelos nossos desejos improváveis?
As condições ideais fazem-me sempre lembrar um peixe que se carregava da praça embrulhado em papel de jornal.