08/02/2005

E o prémio vai para...

Laurindinha, do magnífico Abrigo de Pastora, que acertou à primeira.
E aqui está a prova fotográfica. O antigo couto mineiro de Jales e os seus arredores valem a visita. Para quem gosta de ver os chamados restos arqueológicos da era industrial.



(e que prémio será?...)
Passatempo
(actualização)


Pistas adicionais:
São duas (que eu saiba) as localidades cuja designação inclui esta palavra ou é esta palavra.
Ambas são sedes de freguesia do mesmo concelho.
O nome da sede do concelho começa pela mesma misteriosa letra.

07/02/2005

Nuvens


Passatempo



Esta é uma palavra portuguesa, cuja primeira letra é uma consoante e todas as restantes por preencher são vogais.
A primeira letra não é nenhuma das seguintes:

B
C
D
F
G
P
S
T

nem sequer K ou W.
Algures nas memórias deste blogue está uma foto em que ela aparece.
Dificuldade

Tenho estado a magicar numa série de argumentos que levem as pessoas a votar em mim.
Não consegui alinhar nenhum.

Têm ouvido como eu os tempos de antena na rádio?
Não? Não sabem o que estão a perder.

06/02/2005

Chuva

Em homenagem à chuva que cai há uns dias lá para as minhas bandas, prepara-se por aqui um post monográfico. Sobre a água macia e sobre as cargas d'água. Sobre os pontapés que se davam nos torrões à entrada do verão e veja lá isto, só pó, só pó, nem uma humidadezinha.
Sobre os atasqueiros de invernos caprichosos. Sobre os barrancos passados a vau e sobre as carradas de pó dos verões mais malinos. Sobre os dias em que o alcatrão derretia mas em que, à noite, a samarra sabia bem. Sobre tudo isso, porque a memória destas coisas é importante.
Porque de facto o verão de 2001 foi, na altura, o mais seco do século. E do milénio, até.

05/02/2005

04/02/2005

Totoloto



Há muito que não me abalançava nos meus palpites.
Como podem ver, a obsolescência do programinha é tal que ainda marca em escudos o preço da aposta.
Vetustez que faz também com que demore mais do que a conta. Duas horas e meia, mais coisa menos coisa. Jogando com os 49 números, à partida excluiu quase ¾ das chaves. E para analisar as restantes, uma a uma, ainda demora esse tempo.
Neste momento, já passou do milhão e meio de chaves e apenas escolheu 24. Parece-me bem.
Elogios repetidos

Ao fotógrafo inumano que assim assesta as lentes, minuto após minuto, hora após hora.
Mesmo que alguém cuide do enquadramento, o fotógrafo não existe. É uma ficção, que nos dá imagem destas:



Não me canso de os fazer desde que comecei este blogue, há ano e meio. Há muito mais tempo que lá vou espreitar as fotografias.
Gasolim por aí (às compras?)


02/02/2005

À noite, em Santa Luzia (Tavira), quase uma vida atrás


A seca, as campanhas e o estado em que isto está

Talvez eu seja um rabugento. Um entre muitos. Talvez eu tenha ainda incrustadas as memórias de uma certa sociedade pobre e privilegiada.
Pobre, porque os recursos eram escassos. Privilegiada, porque a autosuficiência lhe dava o calo para suportar todos os riscos e seguir em frente. Sem grandes ajudas.
Em que ninguém se queixava, ninguém clamava por ajuda do Estado. Talvez apenas que o Estado os deixasse viver em paz.
Talvez tudo isso não fosse muito social. Talvez que a desprotecção pudesse ter posto fim à geração, nos anos da guerra civil. Lá pelo fim do primeiro terço do séc. XIX. Escapámos por pouco, sempre ouvi dizer. Os meus antepassados e todos os que eles geraram.
Mas não é essa a história de todos nós, pelos tempos fora? Escapar e sobreviver por milagre? Haverá nisso alguma singularidade?
Confesso que tenho pouca paciência para os tempos que correm.
Para os clamores da seca, para os clamores do fogo, das más colheitas, da crise.
Para os clamores dos maus políticos, do sebastianismo, da porca da vida.
O que não significa que não caia na tentação de, às vezes, me juntar a eles. Somos todos humanos e nada coerentes.
Quando ouço falar os políticos, em tempos de campanha e fora dela, já aqui o disse, temo que não exista a pessoa a quem se dirigem.
Temo que ninguém se interesse pelas patacoadas que proferem, pelos ataques que desferem, pela inconsistência do que dizem.
E não abro excepções no panorama actual. Todos me parecem bonecos do mesmo titeriteiro.
Quanto aos receptores, a julgar pela amostra que conheço mais uma vez, não encontro quem se prenda nos argumentos que ouve.
Vejo de um lado os que se riem. Vejo de outro os que jamais mudariam o seu voto em função de discursos. Vejo de outro ainda os que encolhem os ombros e nem sequer escutam. Vejo por fim os que nem dão conta do que por aí se diz.
Falarão para quem, ao certo?
Tenho para mim que um político não pode, não deve ser uma pessoa brilhante.
As pessoas que o são ou não se interessam pela coisa, abrigadas no seu próprio valor, ou rejeitam a comparação com a mediocridade geral. Não estão muito dispostas a navegar em águas de que não se conhece a profundidade. Não estão muito vocacionadas para teorias sem sustentação de nenhum tipo. Deixam-se ir, enquanto a água do barco não chega a níveis críticos.
Para ser um bom político hoje não são as características que forjaram outrora bons líderes que ajudam.
Não sei quais serão as características necessárias. Mas às vezes temo que uma delas seja a de dizer patacoadas para um interlocutor inexistente.

E aqui fica a prova de que, não tendo paciência para lamúrias, também as acompanho.
E de que também digo patacoadas ao vento.

01/02/2005

História confusa para duas Ofélias1, um carteiro e algumas centenas de queijos


imagem de http://cineclap.free.fr/?n=359

Não, o J. d'A. não é para aqui chamado. A menos que o seja por ser um dos meus melhores amigos, ter jeito para o negócio e ter, tal como eu, protelado o mais que pode a data de ir à forca. Neste último capítulo, de resto, só perdeu para mim, depois de um certo acordo que ambos firmámos e que era uma forma mais elaborada de aposta2.
Ah, e por eventualmente ter uns amigos carteiros. Sim, isso é relevante.
Ora, começando por aí. Pelos carteiros que conheci por intermédio dele.
Claro que quando se tratava de pousar à porta do café, eles não raro desfiavam o indizível: aquela cheia de curvas é do lote 3, 4º D, da Almirante Cândido dos Reis3; a que vai ali com o saco é do Miradouro, nº 13, 2º E.
Posto isto, julgo que nenhum carteiro com volta já batida ignora quem habita em vizinhanças velhas. Tem tudo em base de dados.

Ah, mas o meu amigo ainda é chamado por ter protelado o casamento ao ponto de os pais o terem presenteado com uma casa. A ver se a coisa ia para a frente. Ledo engano.
Foi a garçonnière mais famosa lá do bairro. Já nem se sabia quantas cópias de chaves havia. Eu próprio estive lá sem ter estado e das vezes em que estive, é claro que não estive.

É aqui que entra a primeira Dona Ofélia. Moradora no mesmo prédio já ia para uns 40 anos. Ainda por cima fora ela quem sugerira ao J. d'A., melhor dizendo à família dele, a compra do andar devoluto, visto ser mãe de um dos da banda. Da nossa banda. Mas já casado na época e respeitável pai de filhos.
Ora a Dona Ofélia Madeira não só reprovava as entradas e saídas do rédechaucê como ainda fora obrigada a conviver com um episódico armazém de queijos que o J. d'A. resolvera instalar na fracção do imóvel.
Não eram bem vistas na vizinhança as alegações de um sócio dele segundo as quais tal empreendimento estimulava as poupanças dos afectados. É que ele afirmava, em alta voz, que os lanches dos vizinhos dispensavam o conduto. Só o panito e o cheiro a queijo eram suficientes.
Esta fase coincidiu com uma certa decadência da garçonnière. Por mais encantos de que os amigos do proprietário fossem portadores, tornava-se hercúlea a tarefa de convencer parceiras a partilharem, por muitas vezes seguidas, o ambiente lacticinoso da coisa.
Embora muitas delas tivessem, pela primeira vez, conhecido o significado de rouparia.

Aqui chegados, de declínio em declínio, houve por bem a namorada do J. d'A. apresentar-lhe um ultimato. Lá fomos todos de fato e gravata, está claro.
Quando nasceu o rapaz, o J. disse-me que o melhor era mudar para uma casa maior. Pôs-se em campo.
Em campo também eu estava mas a tratar de outro assunto.
Calhou que os dois coincidissem. O meu assunto comprou a casa do J., sem que eu fosse perdido nem achado.
Chamava-se este assunto Ofélia Moreira. Claro que me fartei de gozar com o prédio das Ofélias.

Mas nada disto seria relevante para respeitar o título em epígrafe se não recuperássemos os carteiros. Ou um carteiro em particular.
Aquele que levava uma carta para uma certa Ofélia Moreira. Para o prédio das Ofélias. Onde havia uma há mais de 40 anos.
Dona Ofélia Madeira abriu a carta. Não estranhou ser em língua estranha. Pediu ao filho que a lesse. Lida a carta, vinda lá dos lados da antiga esfera soviética, por bem achou responder dando conta que não conhecia a signatária, jamais fora ao leste da Europa e que assim estranhava ser destinatária de tal missiva.
Uns dois anos depois, encheu-se de coragem. De envelope em riste, desfeita em desculpas, culpava o carteiro. É que não era, nunca foi seu costume abrir a correspondência alheia.

1 - As senhoras não se chamam Ofélias. Nem Madeira, nem Moreira. Os seus nomes próprios são raros e os seus apelidos raríssimos. Sendo que os apelidos, para além de raros, coincidem no número de letras, na primeira e na última, e das restantes, duas são comuns.
2 - Lembrem-me de fazer um post a propósito.
3 - Suponho que seja rara a terra onde exista uma rua Almirante Cândido dos Reis. Almirante Reis e Cândido dos Reis afinal parecem ter sido duas pessoas distintas.

Esta história é completamente verídica.

31/01/2005

Dificuldades de comunicação

Estes últimos meios dias foram dias fora do baralho.
Entretanto começa a notar-se a carga excessiva de fotos na lentidão de carregamento desta página.
Sintomas de pouca escrevinhação e de muita coisa que me passa diante dos olhos, saída mais uma vez dos caixotes da história.


29/01/2005

Meses de seis semanas

Eu sei que é esquisitice. Mas cada qual tem as suas.
Sempre embirrei com os calendários que, por terem a sua regra tipográfica assestada às cinco semanas, juntavam o 24 e o 31, o 23 e o 30.
Não vos falaria disto se não tivesse estado numa repartição pública o tempo suficiente para reparar num belíssimo calendário emoldurado a madeira, daqueles à moda antiga. E lá estavam as cinco linhas, apenas as cinco linhas, o 23 enfiado a meias com o 30, o 24 com o 31. Não há respeito. Amanhã e depois são meios dias, portantes.

A Lisboa por


Sábado

As janelas, do outro lado da auto-estrada, todas elas mostram reflexos de luz vermelha.
Como num incêndio de madrugada de verão.
No mesmo local onde vi um solitário auto-tanque cortando a manhã, um desses dias de inferno, rumo ao centro do país. Silencioso, em emissões de azul, dessa vez.
No rádio, o mesmo programa de há vinte anos. As mesmas vozes, umas só minhas conhecidas, outras perdidas nas serranias, falam do lugar, dos lugares que há no sul.
Nem tudo é tão diferente.

27/01/2005

Exclusão social

Herdei dos meus antepassados esta aversão às compras a prestações.
Ou talvez não fosse aversão, fosse impossibilidade.
Jamais possuí aquela porra em plástico que dá acesso à ilusão dos cofres cheios.
Vivi sempre com o dinheiro que tenho em cada dia e nunca com o ovo no cú(?) da galinha.
Um destes dias, pediram-me o cartão de crédito.
Como a minha resposta fosse negativa, seguiu-se uma inspecção visual.
Um mero cartão de débito é para desconfiar...
Actualidades

Descobri hoje de manhã que, ao contrário do que eu supunha, não foi 2-2 mas sim 3-3, o resultado do jogo no final do prolongamento.

Dei comigo a perguntar-me: Há quantos anos não se fala de política - de políticas - em Portugal?

26/01/2005

Abusos

Por acaso, abri esta correspondência que não era para mim.
1-LGS


Urbanidades


Desaprendendo

Na cidade, desaprende-se. Pequenas manifestações da natureza a que estávamos habituados, esquecem.
Falei disso aqui há uns meses.
Pois bem, há pouco, espantei-me de novo com a minha desaprendizagem.
Enquanto observava o matinal fluxo de automóveis, segurando placidamente uma chávena de café, embalado pelo chinfrim da pardalada nas árvores fronteiras, ouvi um estrondo. Poderia ser um tiro, uma explosão de combustível fora das câmaras em algum veículo mais envelhecido, qualquer coisa dessas.
O meu espanto adveio do silêncio imediato dos pardais.
Pensei que estes pardais urbanos, habituados a toda a sorte de ruídos, se não assustassem com coisa tão trivial.
Afinal, tudo permanece na mesma...

A quem foi ler o outro post, devo dizer que fiz outras experiências com uvas de supermercado e todas criaram bolores.

25/01/2005

Que seca

Segundo o Almanaque Borda d'Água, decidiu-se no sábado passado a sorte do tempo em Portugal.
Se o vento soprasse de leste, teríamos seca; se de oeste, chuva e ano farto.

Não me mantive a par dos dados desse dia mas suponho que o vento terá soprado entre os quadrantes norte e leste, na maior parte dos locais. O que não augura boa coisa.

Mas como aparentemente havia dias já decididos, independentemente do augúrio, aqui vai a lista. Chuva, chuva só lá para Março. Mas na próxima segunda-feira, haverá chuviscos. Diz o Borda d'Água:



Nota: Nem copiar sabem, digo, sei. A verdade é que a primeira versão do quadro estava errada. Suponho que o Almanaque adapta as previsões à medida que o tempo corre. Há umas horas atrás, dizia uma coisa. Agora, abri-o de novo e lá estava a informação alterada!!!

23/01/2005

Espalhafato

A questão não é o aviso. É útil o aviso que vêm aí dias frios. Claro que é.
A questão é o espalhafato. É a repetida vertigem do mais de sempre, do maior de todos, do nunca visto, do não há memória.
Vertigem que já começa a despontar e é claro que se agravará.
Aos que já levam disto uns aninhos, é o sorriso condescendente que suscita.
Aos que andam aqui há menos anos, mais valia que lhes explicassem que estas coisas acontecem. Podem não acontecer todos os invernos, mas acontecem.
Tal como acontecem as secas, as chuvas intensas e os calores excessivos.
Mas o jornalismo é o que é.


imagem de http://www.physics.utoronto.ca/~smorris/edl/icespikes/Ice_Spike.jpg
Sobral de Monte Agrado, como dizem os espanhóis

Houve de facto um leve, muito leve, estremecimento da cadeira.
Aí pelas seis e um quarto.
Como há muitos outros, causados por coisas mais humanas.
Mas o que achei curioso é que o epicentro tenha sido ali para os lados do Sobral de Monte Agraço.
A única história curiosa com sismos, que não posso aqui contar, mas que contarei no dia em que escreva algumas memórias, passou-se ali. No Sobral.
O sigilo profissional não me permite que o faça.
Nas memórias, se lá chegar, já o tempo decorrido tirará qualquer importância ao que ficar escrito.



P.S. O IM parece ir melhorar a informação sismológica. Para já, mais vale consultar a página do Instituto Geográfico Nacional de Espanha, de onde vem esta imagem.

21/01/2005

Benefícios de dúvida

O velho C. usava esta figura dos benefícios de dúvida quando não compreendia algo. O que era frequente, diga-se de passagem.
Pois eu também não compreendo por que razão sublime é que os indivíduos casados hão-de ter benefícios fiscais.
Será ainda a figura do homem bom, casado e pai de filhos? E onde é que ele anda?
Se a sociedade portuguesa precisa de sangue novo, se há falta de crianças, estou de acordo que se premeiem os pais, isso sim. Casados ou solteiros, viúvos ou juntos, que tenham benefícios por serem pais. Agora por serem casados? Por serem dois a dividirem a despesa de uma casa? Será por isso? Ou haverá ainda um número considerável de cônjuges absolutamente dependentes? E nós todos temos que pagar por eles? Será justo?
Gaba-te, cesto

Depois das vitórias nos cuízes da Brigada, mais um troféu para a casa.
Uma adivinha que o João Espinho colocou lá na Praça da República.


Direcções


Ver o padeiro



Há uma estranha fixação minha em sinais de trânsito, anúncios comerciais, letras em geral...
Gasolim nas bombas


19/01/2005

E.N. 394



Uma das coisas mais curiosas das informações de trânsito, quando integram o número de uma estrada, é que na esmagadora maioria dos casos falham rotundamente.
Qualquer mapa do ACP - não é preciso ter o plano rodoviário à frente - serve para verificar o que se diz.
Se calhar, era preferível omitirem o número.

A E.N. 394, prevista no plano rodoviário de 1945, nunca foi construída. É a única estrada desse plano que não teve um único troço construído.
Gasolim em linhas curvas

Em CD e K7


foto de RBC

Quando esta foto foi feita (não está tratada), uns quinze anos atrás, já o foi tendo em vista este fim. Hoje completa-se o ciclo.

18/01/2005

O mundo de Alice*

Este post poderia ser um editorial**.
É certo que já por aqui dei conta, de forma sucinta, do princípio de que parto. Mas ou por tê-lo feito mais ou menos cripticamente, como é apanágio da casa, ou por julgar que muitos (dos poucos!) dos que hoje me lêem ainda aqui não vinham quando assim o disse, lá vai:

O mundo dos sonhos é, muitas vezes, um bom termo de comparação para o mundo da razão.
E é-o porque os sonhos usam-na, misturam-na com a ilusão, baralham e dão.

Não sou seguidista de ninguém. Nunca fui ista do que quer que fosse, homem ou escola. Também não sou um homem de vasto conhecimento. Interessou-me sempre mais, dentro do que se considera ser a razão e o conhecimento humanos, perceber a dada escala o funcionamento de certas coisas. Saber do que falo, quando falo de algo, e saber a escala, os limites que se impõem. E quando falo do que não sei, fazê-lo com a consciência disso mesmo, fazê-lo com a incerteza que todos temos àcerca de tudo, fazê-lo sem dar o passo maior do que a perna, evitando o disparate.

Se o consigo ou não, isso é outra história. As mais das vezes, sei que o não consigo.

Ora o princípio de que parto, que alguns dirão determinista - eu sem saber se o é ou não, que inscrições em catálogos foi coisa que nunca me preocupou - é que tudo evolui de acordo com um mecanismo bem determinado mas indeterminável pela mente humana.
Basicamente - não haverá acasos.
Não haverá acasos, não haverá sorte, não haverá vontade, não haverá livre arbítrio.
Somos todos e tudo o que nos envolve, fruto das circunstâncias, internas e externas. Se é que o interno e o externo são de fácil distinção.
No actual estado das coisas, bem ou mal, pouco importa, supomos, os que acreditam na ciência, que somos um somatório de partículas elementares. Somos nós e tudo o que nos rodeia. Matéria e energia, assim o dizemos. Matéria e energia, tanto quanto as diferenciamos e voltamos a confundir.

O importante para mim é que, partindo desse princípio, apenas sou a resultante de qualquer coisa que desconheço. Ao estar a escrever estas linhas, não sou eu, é o conjunto de matéria e energia que tem a minha forma. É uma ordem dada algures no tempo remoto que se complicou e assim resultou. Um passo no caos, um passo na ordem, um passo no tempo, um passo seja no que fôr. Nada mais do que isso.
Como já aqui o disse, se não fosse ateu, encaixaria nos divinos desígnios toda a sorte de ordem das coisas. Não o sendo, não sei em que a encaixar. Melhor dizendo, não tenho crença onde a encaixar.

Mas partindo deste princípio, de cada vez que me dá a ilusão para julgar que existe de facto uma vontade própria, um livre arbítrio qualquer que seja, caio no mundo de Alice, que é onde de facto vivo.
É que tem que ser forte a ilusão de que mandamos nas coisas, decidimos a nossa vida, seguimos por aqui e não por ali.
Para que nos deitemos a pensar na primeira pessoa.
Sujeito-me assim ao mundo de Alice, como todos os outros.
Mas continuo convencido (e posso eu convencer-me de alguma coisa?) da mesma ilusão, dentro dela, como nos sonhos.
Como nos sonhos - e é aqui que cabem - em que por vezes, saltamos de um sonho para o outro, julgando saber que o primeiro é sonho e o segundo o não é.

Supondo que é de níveis de compreensão das coisas ou de fé numa crença de que a compreensão é por ali e não por acolá, que se trata, então suponhamos pois que os sonhos são uma boa comparação.
Quando se salta de sonho em sonho, sonhando que um é realmente um sonho e o outro o não é, podemos dizer que descemos ou subimos de nível, como se quiser.
Aqui, neste argumentário absurdo, passo ao nível seguinte, o qual é, encarando as coisas tal como o mundo de Alice dita que eu as veja, uma combinação de seres vivos e matéria desprovida de vida. E de energia.
Ora aqui convenço-me, iludo-me com o seguinte:
A vida, nas suas mais diversas formas, parece ter um único fito, o de sobreviver. Seja lá a vida o que fôr. Cada um dos seres dela animados mais não faz do que abrir caminho a esse destino. Sobrevivemos, reproduzimo-nos, cuidamos das crias, uns mais do que outros.
No mundo de Alice, chamamos amor, chamamos paixão à pulsão da sobrevivência da espécie que conduz à reprodução.
Chamamos outros nomes a outras pulsões, mas todas elas concorrem para o mesmo fim.
Regulamo-nos, convencidos da bondade das normas. O fim em vista é sobreviver.

Em alturas como a que acabámos de viver, fala-se muito em extrair ensinamentos das catástrofes.

Se a grande questão, do ponto de vista do Homem, que é o único ponto de vista que conhecemos, é a de sobreviver, então é mais que provável que alguns ensinamentos se retiraram pelos séculos dos séculos.
No entanto, não se podem ver os riscos de forma absoluta como alguns hoje teimam em ver.
É que é arriscado viver, dizem as vozes.
Ninguém abandonará as margens do Índico porque ele de vez em quando delas sai. Como ninguém o fez no Nilo, no Tigre, no Eufrates, no Ganges.
A sobrevivência está ali, o risco é conhecido, é calculado depois de cada tempestade e esquecido com o tempo.
Tal como nós o fizemos em Lisboa.

A espécie humana carece de ser vista a outra escala. À escala em que a Natureza a defende e a ataca. À escala em que dizima parte de nós com métodos que podem ser biológicos, intrínsecos e não-biológicos.
Os métodos biológicos com que nos tem regulado são de longe os mais mortíferos. Pestes, pragas de toda a sorte que, a espaços, nos controlam a disseminação pelo globo.
Depois, vêm os intrínsecos. Os que nós próprios usamos para nos deceparmos. Guerras constantes, massacres gritantes, sujeições esclavagísticas que terminam em massacre surdo, outros métodos que hão-de vir.
Só muito depois, este tipo de fenómenos. O chamado poder dos elementos. É de longe, o menos mortífero de todos. Mas talvez o que mais se teme hoje em dia.
Talvez não tenha sido sempre assim. É provável que descendamos de uma fabulosa luta contra os elementos, antes de tudo o mais.
A necessidade de controlar a espécie (se é que ela existe, em nome de uma arquitectura suprema) ou o simples acaso (e afinal existem no mundo de Alice?) mostra-nos amiúde que estas coisas acontecem. E mostrar-nos-á até que não reste um só homem sobre a Terra.

É claro que a nossa luta pela sobrevivência se encarregará de imaginar pequenas e grandes coisas em nossa defesa.
À semelhança da gaiola pombalina que, como se viu, ainda não foi posta à prova.
À semelhança das construções japonesas actuais, que apesar do seu refinamento e da constante aprendizagem, ainda não mataram o problema.
Como se fez com as vacinas, com os diversos mecanismos que desenvolvemos no combate às pragas.
Mas nada disso impedirá novas formas de destruição. Podemos disso estar certos.

Por fim, já em outro nível, mais baixinho, sempre no mundo das ilusões, continuo a espantar-me com os crentes na razão.
Com os que tanto clamam por ela, sem cuidarem de rever os seus cálculos.
Que tanto a exigem e dela fazem tábua-rasa.
Que tanto criticam e não se olham ao espelho.
Que tanta coerência pedem sem saberem o que é e em que quadro vigora, logo não a tendo em conta.
Que dividem a política no mais reles dos Sporting - Benfica, em que os da cor são sempre bons e os outros sempre maus.
Que não são capazes de extrair nem sequer as mais próximas consequências do seu argumentário. Fosse ele passado à prática.
Por mim, reitero os meus votos de que o mundo jamais seja feito de acordo com os meus desejos.

E volto a sonhar, pensando que saio do mundo de Alice.

*Também retalhos de conversas com o Gato
**E passa a ser um editorial perene

17/01/2005

Benditos

Bendito o homem que inventou as descidas*. Não, não é isso.
Benditos os homens que inventaram o suporte magnético e outros.
Avalio agora, depois de ter transportado às costas aí um terço da minha colecção de fotografias, avalio agora a totalidade aí nuns 100 kg de papel. Não é muito.
Façamos umas contas.
Partamos do princípio que o valor médio de 240g/m2 é aceitável para o papel fotográfico.
E que os 100 kg não é exagero.
Ficamos com pouco menos do que 417 m2 de papel.
Suponhamos que as dimensões médias de cada fotografia são 10x15. Dá uma área média de 0,015 m2.
É fazer a conta.
Dá qualquer coisa como 27800 pedacinhos de papel.
Supondo que se trata de rolos de 36 (não se trata, porque no formato 6 x 9 que utilizei durante anos a fio, cada rolo 120 só dava 8 negativos), dá 772 rolos e mais uns picos.
Arre macho.
Macho que carregou com eles às costas umas boas centenas de metros.
Ah, e sim, há a tendência deste blogue começar a ser mais imagens e menos texto. Será verdade?

*frase célebre ouvida de um desconhecido, num regresso de festa nas serranias de Arganil. Rali, pois. E postada em certo blogue, sem autorização do autor, mas com autorização do mediador.
Aos costumes disse ser...

[...] E depois de perguntar quais das perguntas eram as do costume, e de ter a esse respeito sido informado, concluiu afirmando (para dentro) que convencido estava de que há instruções claras para dificultar a regularização de emigrantes vindos de determinadas partes do mundo.
E por assim ter dito e ser verdade, vai assinar [...]

Este post é a conclusão esperada (por quem?) dos posts abaixo:
http://gasolim.blogspot.com/2004_12_12_gasolim_archive.html#110308149161579378
http://gasolim.blogspot.com/2004_12_12_gasolim_archive.html#110331216421554903
Pergunta parva

Qual será, tendo como universo a população mundial, a função que mais se aproxima da representação do valor modal para o número de ascendentes, masculinos e femininos, de grau n? (Supondo que os pais são o grau 1, avós grau 2, bisavós grau 3...).
E qual será o domínio dessa função?

15/01/2005

Too close to call

Perto da vista, perto do coração - talvez seja essa a lição do dia.
Ou ainda mais cripticamente, internet no monte, porcos às boletas...


13/01/2005

Algumas notas sobre galinhas



Desta vez não é sonho. É apenas a defesa da honra. Das galinhas, claro.
Em primeiro lugar, a declaração de interesses, como é uso:
Sim, fui durante algum tempo professor de galinhas. Sim, infligi alguns castigos corporais às minhas pupilas.
Eu e a minha prima montámos uma escola em casa da minha bisavó. A coisa funcionava sem horários e currículos rígidos mas era basto disciplinada. Conseguíamos afinal dispô-las em filas e colunas, em notáveis exibições de ordem unida.
O galo não era muito de opinião. Tanto não era que suponho que ainda hoje a minha prima tem alguma aversão aos ditos de crista. O certo é que a escola não era mista, por isso o galaró ficava de fora.
Posto que já dei conta do meu envolvimento com tais criaturas, passo à sua defesa.
Dizem para aí que as galinhas não voam.
Com toda a certeza, alguns dos meus leitores são testemunhas de que tal não passa de um vil insulto às galináceas. Pois são aves e voam. Ah, voam.
Lá no monte havia e ainda há uma velha oliveira que o diga.
Dava galinhas em vez de azeitonas. Nos troncos mais altos.
Não é que não desse de todo azeitonas. Dava. Mas as que dava, apareciam no chão e tinham uma textura estranha. Ao esmagamento, não mostravam caroço. Curiosamente, havia ovelhas lá no monte.
Abandonadas as casas, perdida a geração, perdeu-se para sempre aquela ignorância.
Não a ignorãncia que eu ministrava na escola.
Mas a que elas obtinham da mãe-galinha: ignoravam que não podiam voar.
É certo que também ninguém lhes cortava as asas.
A propósito

Este blogue é uma manta de retalhos.
Muitos outros o são.
Gosto que assim seja, talvez porque não tenha nem engenho nem arte para o fazer de outra forma.


12/01/2005

Dúvida pertinente

Qual será a valorização a que está sujeito um vale de três cêntimos três, emitido por um máquina de venda de bilhetes de comboio?
Para coleccionadores, claro.
E mais não digo, recolho a horas campaniças.

11/01/2005

10/01/2005

Heranças na paisagem


No papado de João Paulo I

A sogra dançante


foto do SNIG

Não sei a que propósito vem (veio) isto.
A senhora, em fade out, insistia em dizer-me que não queria que eu tivesse algo a ver com a filha.
Eu dizia-lhe que não, que estivesse descansada. Que nada houve, tinha havido, haveria. Mas ela insistia. Entretanto, em fade in, começava a desenhar-se na minha memória, o beijo. O beijo que feria de morte a minha argumentação. Mas não titubeava. Com ar de escroque, ou talvez não, lá continuava o desmentido. Mas o beijo vinha, insidioso, à memória. Eu desmontava-o, tirava-lhe intensidade, desejo, arrebatamento (não é o que se diz nestas alturas?).
Desconstruía-o e argumentava, num cenário triste, escuro, de cozinha às escuras em dia curto.
Desconstruía-o. Queria que fosse um desbeijo. Que a minha palavra fosse verdadeira. Às escuras, numa cozinha em dia curto.

A festa decorria no quintal, porco morto pendurado na escada de madeira à porta da garagem.
As moças dentro da adega, às escuras. Na minha adega em fim de tarde de dia curto. Sentadas em mesas de café, ali estavam discutindo gillets e saias-casaco.

Na loja, um amigo estrangeiro dialogava com uma estranha.
Uma moça engraçada e estranha, apenas por ser forasteira, apenas por não ser uma cara habitual na minha frente.
Ela falava num inglês que parecia genuíno. Ele com um acentuado sotaque levantino.
E era um caderno o que viam sobre o balcão.
O caderno tinha fórmulas, gráficos, texto.
Ele sorria, provavelmente mais interessado no cheiro dela do que na tese encadernada.
Ela retribuía-lhe o sorriso e eu vendo que "tava o balh'armado".
Meti-me na conversa e perguntei-lhe, a ela, se precisava de ajuda.
Ela disse que sim, que "bem podia usar a ajuda de alguém que soubesse de química". Traduzindo eu aqui à pressa o que ela disse. E que fora ali parar, porque alguém lhe tinha dito que na casa do largo devia haver quem percebesse do assunto. E que parecia que havia festa.
Riu-se e perguntou se eu não a convidava.
Disse-lhe que sim, às duas questões. Que lhe arranjava alguém. Tinha ali a pessoa indicada para lhe dar uma ajuda.
Ela explicou-me o que era. Qualquer tipo de análises que andava a fazer na zona. Queria discutir as amostras com alguém que estivesse dentro do assunto.
E, quanto à festa, disse-lhe que o meu amigo candiano lhe faria as honras da casa.
Ganhei um beijo e uma palmada nas costas.

Voltei ao quintal. Os moços lá estavam, de faquinha em riste, cortando côdeas e trincando o porco. O agarrafão poisado na borda do poço, vejam lá se o deixam cair lá para dentro.
As moças na mesma escuridão de Pisang Ambon e sussurros sobre roupa.
A mesa da doutora estava vazia. Perguntei por ela. Que tinha saído, quase chorona.

Voltou o beijo. Tentava apagá-lo com um apagador de escola. Lá estava na ardósia, ao fundo. Ao fundo da adega, à vista de todos. Os sussurros já não eram sobre cachecóis e blusas, eram a meu respeito.
Corri cá fora. No quintal, não estava. O portão das traseiras estava aberto. O da garagem também...

Muitos anos depois, recordo-me bem das palavras do meu par, na contradança. Não era uma proibição o que recaía sobre mim. Eram nabos da púcara o que elas pretendiam retirar.
Uma sogra dançante.

09/01/2005

Saindo da toca


Do astro

Suponhamos um referencial ortogonal e tridimensional com origem num determinado ponto teórico, definido em dado instante.
Esse ponto poderia ser um ponto o mais perto possível do centro da terra.
Suponhamos que esse referencial faz sentido, contrariando a opinião não daqueles que demonstraram que a Terra orbita em torno do Sol, mas dos que afirmam que não faz sentido estabelecer ortodoxias para enquadrar, para referenciar o espaço e o tempo do Universo.
Atrevamo-nos ainda assim a supor que faz.
Uma curiosidade que se me coloca hoje é a de saber, face a esse referencial, quais seriam as diferenças observadas na posição de uma série de corpos celestes, hoje e há quarenta e seis anos atrás.
Ou de como se mostravam evolutivas as quarenta e sete imagens assim formadas, ano a ano, contas dos humanos.

Da terra

Fidel entrava em Havana.
A barragem de Vega de Tera colapsava e a inundação matava muitos dos habitantes de uma aldeia a jusante.
Se fosse hoje, não faltariam os directos, saltitando entre o antigo reino de Leão e a imagem do filho da vizinha Galiza, do outro lado do mar, na Grande Antilha.
Mais a sul das terras de Leão e de Santiago, num dos seus caminhos, entre competentes vieiras, os berros que se ouviam tinham sotaque alentejano.
Daria um nota de rodapé, a vermelho (ou seria a verde, digo preto?).



imagem montada a partir daqui, daqui, dali e da Sky News.