06/04/2005
05/04/2005
Dropping names
Na verdade, a imagem que mais me ocorre não é a do lápis azul, a que de resto só vi os traços em fotografias históricas embora ache que se tratava de um vulgar lápis de côr, é a do padre tocando a campaínha em pleno Cinema Paraíso.
1162 páginas - diz o processador de texto. A vermelho as que passaram para aqui.
Não fiz a conta às que foram cortadas.
É de há nove anos o primeiro texto. Não me passava então pela cabeça vir a expô-los a escrutínio.
Também é certo que, não fora o blogue, muitas das impressões, memórias, observações que me dei ao trabalho de teclar não teriam sido fixadas.
Ora desse conjunto de coisas escritas, muitas das que não foram aqui publicadas não o foram porque mencionam nomes.
Não se trata de críticas nem de ataques pessoais, sequer de louvores. Trata-se de citações, de evocações, de referências. Que incluem gente viva e morta e gente que nunca existiu, parte de uma confusão entre História e mito que o meu amigo SG fez o favor de me comunicar, com a devida autorização de publicação.
Aos vivos e aos mortos não faria sentido mencioná-los a fazer e a dizer coisas que nunca presenciei. A comer pão com manteiga, a guiar em marcha-atrás, a saltar de arranha-céus, a navegar à bolina, a encher pneus.
Dos últimos, seria desnecessário dar conta das façanhas e das fraquezas de Xenofonte, o Controverso; Sebâncio, o Forte; Xerxes, o Timorato; Simão, o Foxtrot; Peu, o Assim-Sebento entre outros, pois são por demais conhecidas do público em geral.
Ainda assim, um destes dias sentar-me-ei aqui a escolher das fitas, digo, das páginas proibidas, o que me aprouver.
Na verdade, a imagem que mais me ocorre não é a do lápis azul, a que de resto só vi os traços em fotografias históricas embora ache que se tratava de um vulgar lápis de côr, é a do padre tocando a campaínha em pleno Cinema Paraíso.
1162 páginas - diz o processador de texto. A vermelho as que passaram para aqui.
Não fiz a conta às que foram cortadas.
É de há nove anos o primeiro texto. Não me passava então pela cabeça vir a expô-los a escrutínio.
Também é certo que, não fora o blogue, muitas das impressões, memórias, observações que me dei ao trabalho de teclar não teriam sido fixadas.
Ora desse conjunto de coisas escritas, muitas das que não foram aqui publicadas não o foram porque mencionam nomes.
Não se trata de críticas nem de ataques pessoais, sequer de louvores. Trata-se de citações, de evocações, de referências. Que incluem gente viva e morta e gente que nunca existiu, parte de uma confusão entre História e mito que o meu amigo SG fez o favor de me comunicar, com a devida autorização de publicação.
Aos vivos e aos mortos não faria sentido mencioná-los a fazer e a dizer coisas que nunca presenciei. A comer pão com manteiga, a guiar em marcha-atrás, a saltar de arranha-céus, a navegar à bolina, a encher pneus.
Dos últimos, seria desnecessário dar conta das façanhas e das fraquezas de Xenofonte, o Controverso; Sebâncio, o Forte; Xerxes, o Timorato; Simão, o Foxtrot; Peu, o Assim-Sebento entre outros, pois são por demais conhecidas do público em geral.
Ainda assim, um destes dias sentar-me-ei aqui a escolher das fitas, digo, das páginas proibidas, o que me aprouver.
04/04/2005
Não há limite para a estupidez
Sou como os demais. Também me irrito com a estupidez. Particularmente com a minha. Essa é a que mais solenemente me irrita.
Há neste combate dos homens contra a estupidez uma dose (estúpida) de incoerência.
Se a mentalidade hoje instalada é totalmente contrária à discriminação e à catalogação compreende-se mal que a estupidez seja tão catalogada, ridicularizada e discriminada.
Mas é. Não se pode atacar outra qualquer deficiência, outra qualquer anormalidade, mas a estupidez, ah essa, é malhar-lhe forte e feio.
Como ninguém fez nada por nascer estúpido, míope, com o pé chato, com propensão para a calvície (outra das que merece ainda chacota), parece-me sempre da mais óbvia estupidez (lá estou eu) que se ataquem os estúpidos.
Mas é uma espécie de desporto internacional. Estúpido, é claro.
O que hoje fiz e me levou a esta irritação é exemplar:
A porra da impressora não funcionava. Um documento ficou encalhado, já pronto para impressão, e daí a coisa não saía. Tentei os métodos mais elementares, depois fui dar a volta por trás, nada.
Desinstalei a impressora. Depois voltei a instalar, enquanto me indignava com as figurinhas à americana que procuram explicar o que é um cabo, o que é uma porta, etc.
Mandava-me verificar as ligações. Arre macho.
Quando me resolvi a sair da cadeira, reparei que umas das fichas do cabo de comunicação estava solta.
Arre macho duas vezes. Foi mais de uma hora de voltas e voltas.
Não há de facto limite para a estupidez.
Nem com figurinhas...
Sou como os demais. Também me irrito com a estupidez. Particularmente com a minha. Essa é a que mais solenemente me irrita.
Há neste combate dos homens contra a estupidez uma dose (estúpida) de incoerência.
Se a mentalidade hoje instalada é totalmente contrária à discriminação e à catalogação compreende-se mal que a estupidez seja tão catalogada, ridicularizada e discriminada.
Mas é. Não se pode atacar outra qualquer deficiência, outra qualquer anormalidade, mas a estupidez, ah essa, é malhar-lhe forte e feio.
Como ninguém fez nada por nascer estúpido, míope, com o pé chato, com propensão para a calvície (outra das que merece ainda chacota), parece-me sempre da mais óbvia estupidez (lá estou eu) que se ataquem os estúpidos.
Mas é uma espécie de desporto internacional. Estúpido, é claro.
O que hoje fiz e me levou a esta irritação é exemplar:
A porra da impressora não funcionava. Um documento ficou encalhado, já pronto para impressão, e daí a coisa não saía. Tentei os métodos mais elementares, depois fui dar a volta por trás, nada.
Desinstalei a impressora. Depois voltei a instalar, enquanto me indignava com as figurinhas à americana que procuram explicar o que é um cabo, o que é uma porta, etc.
Mandava-me verificar as ligações. Arre macho.
Quando me resolvi a sair da cadeira, reparei que umas das fichas do cabo de comunicação estava solta.
Arre macho duas vezes. Foi mais de uma hora de voltas e voltas.
Não há de facto limite para a estupidez.
Nem com figurinhas...
03/04/2005
Mééééne, pá!
Em se tratando de gifs animados, lembro-me dos seus precursores estradistas. Aqueles corações que eu nunca via nas cabinas dos camiões, apesar dos insistentes relatos de terceiros e das chamadas de atenção fora de tempo da minha companheira de viagens.
Por um qualquer mistério, demorou meses até poder deliciar-me com a visão nocturna das luzinhas vermelhas - sursum corda!
Atachado a esse berloque vinha quase sempre um outro, do qual também só tardiamente me dei conta e que era a inevitável identificação do condutor em formato de chapa de matrícula:

Pois digo-vos que tenho aqui um gif animado com o coraçanito. Figurando na esquerda alta da cabina, de quem vê de fora, claro. Mas como ficou com uma brutalidade de bytes, abstenho-me de por ora o colocar aqui. Talvez simplificando a figura se consiga um tamanho mais adequado que não sobrecarregue a página. Também é só mais uma ideia parva que me andava a perseguir, ou este sonho secreto de ser camionista...
roubei a foto do camião aqui e a da bandeira acolá
Em se tratando de gifs animados, lembro-me dos seus precursores estradistas. Aqueles corações que eu nunca via nas cabinas dos camiões, apesar dos insistentes relatos de terceiros e das chamadas de atenção fora de tempo da minha companheira de viagens.
Por um qualquer mistério, demorou meses até poder deliciar-me com a visão nocturna das luzinhas vermelhas - sursum corda!
Atachado a esse berloque vinha quase sempre um outro, do qual também só tardiamente me dei conta e que era a inevitável identificação do condutor em formato de chapa de matrícula:

Pois digo-vos que tenho aqui um gif animado com o coraçanito. Figurando na esquerda alta da cabina, de quem vê de fora, claro. Mas como ficou com uma brutalidade de bytes, abstenho-me de por ora o colocar aqui. Talvez simplificando a figura se consiga um tamanho mais adequado que não sobrecarregue a página. Também é só mais uma ideia parva que me andava a perseguir, ou este sonho secreto de ser camionista...
roubei a foto do camião aqui e a da bandeira acolá
02/04/2005
O buffer
Suponho que adquiri este hábito em férias. E talvez na época em que os semanários passaram a ser servidos em sacos de plástico.
Para gozo e alguma irritação feminina, de que ainda hoje não percebi a origem visto o tempo que consagraria à leitura ser aproveitado de formas mais lúdicas, acumulava na caixa do carro as notícias da silly season.
Agora a coisa alastrou a outras épocas. Já não na caixa do carro, excepto em viagem, mas pelos mais insuspeitos locais do lar.
Vou acumulando assim as novidades, deixando que deixem de o ser, permitindo o amarelecimento de algumas, etc.
Ora o que sucede é o seguinte: a cada ano que passa, quando me detenho a pôr a leitura em dia, o que observo é cada vez mais anedótico.
E é anedótico porque em vez da notícia relembrada, do avivamento da memória, que seria a consequência natural da leitura de jornais atrasados o que acontece é que, dada a cada vez maior tentação opinativa e prospectiva, se lêem as ditas páginas como se fossem uma colecção de profecias furadas.
Há pouco li uma acabada argumentação prevendo um péssimo desempenho da selecção nacional no Euro 2004.
Sobre temas políticos, não vale a pena adiantar muito.
É verdade, era um jornal do verão de 2002. Ainda o Sr. Boloni aparecia em destaque a fazer publicidade a uma instituição.
Suponho que adquiri este hábito em férias. E talvez na época em que os semanários passaram a ser servidos em sacos de plástico.
Para gozo e alguma irritação feminina, de que ainda hoje não percebi a origem visto o tempo que consagraria à leitura ser aproveitado de formas mais lúdicas, acumulava na caixa do carro as notícias da silly season.
Agora a coisa alastrou a outras épocas. Já não na caixa do carro, excepto em viagem, mas pelos mais insuspeitos locais do lar.
Vou acumulando assim as novidades, deixando que deixem de o ser, permitindo o amarelecimento de algumas, etc.
Ora o que sucede é o seguinte: a cada ano que passa, quando me detenho a pôr a leitura em dia, o que observo é cada vez mais anedótico.
E é anedótico porque em vez da notícia relembrada, do avivamento da memória, que seria a consequência natural da leitura de jornais atrasados o que acontece é que, dada a cada vez maior tentação opinativa e prospectiva, se lêem as ditas páginas como se fossem uma colecção de profecias furadas.
Há pouco li uma acabada argumentação prevendo um péssimo desempenho da selecção nacional no Euro 2004.
Sobre temas políticos, não vale a pena adiantar muito.
É verdade, era um jornal do verão de 2002. Ainda o Sr. Boloni aparecia em destaque a fazer publicidade a uma instituição.
01/04/2005
1 de Abril
De certa forma, este blogue é uma mentira do dia das ditas.
Em primeiro lugar, porque a maioria dos que aqui chegam, vindos dos lados do Google, não encontram o que pretendem.
Em segundo lugar, porque ao próprio autor às vezes lhe parece ser mentira ter escrito tantas barbaridades.
Em terceiro porque não se percebe se há aqui modéstia, falsa modéstia ou vaidade. E havendo qualquer coisa dessas, seria interessante saber com que fundamento.
Apesar disso uma coisa não há, de certeza. Cópias de argumentos, fotografias roubadas ou qualquer outro tipo de produção alheia sem a devida identificação. Apenas o SG aparece sem se identificar, vez por outra. Mas isso é ele que pede e eu acedo quando me apetece.
Não caiam nesta.
De certa forma, este blogue é uma mentira do dia das ditas.
Em primeiro lugar, porque a maioria dos que aqui chegam, vindos dos lados do Google, não encontram o que pretendem.
Em segundo lugar, porque ao próprio autor às vezes lhe parece ser mentira ter escrito tantas barbaridades.
Em terceiro porque não se percebe se há aqui modéstia, falsa modéstia ou vaidade. E havendo qualquer coisa dessas, seria interessante saber com que fundamento.
Apesar disso uma coisa não há, de certeza. Cópias de argumentos, fotografias roubadas ou qualquer outro tipo de produção alheia sem a devida identificação. Apenas o SG aparece sem se identificar, vez por outra. Mas isso é ele que pede e eu acedo quando me apetece.
Não caiam nesta.
31/03/2005
Um sonho que se realiza
E me faz encolher os ombros.
Houve uma época, da qual já dei aqui nota, em que não falhava uma noitada, uma tardinha ou uma matina em Sintra.
Em que fui a Montejunto e a Arganil.
Em que bati o poeiredo ou o lamaçal dos ralis do Algarve.
Pelava-me por ver, de sítio altaneiro, os bólides. Também gostava do resto, da festa que se fazia, da parte feminina da assistência, etc.
Acho que me deixei disso em 86. Com a morte simbólica do rali de Portugal, com a morte das pessoas que ficaram debaixo do RS200 do Joaquim Santos.
Agora que a organização parece apostada em retirar o rali da sombra, escolhe as estradas da minha serra para o fazer. A serra é minha porque eu sou daquelas paragens, falo com aquele sotaque, bebo aquele medronho, tenho a mesma cara dos que lá moram.
Sonhei com este dia, muitos anos atrás. Poder ver as máquinas entre as azinheiras e os sobreiros, com o cheiro da terra que bem conheço misturado com os odores da máquina.
Contudo, hoje não me suscita mais do que o gesto dito acima.
Há coisas que mudam.
A última noite que passei na minha serra não me traz boas memórias.

imagem em http://www.rallydeportugal.pt/evento_etapas_2.html
E me faz encolher os ombros.
Houve uma época, da qual já dei aqui nota, em que não falhava uma noitada, uma tardinha ou uma matina em Sintra.
Em que fui a Montejunto e a Arganil.
Em que bati o poeiredo ou o lamaçal dos ralis do Algarve.
Pelava-me por ver, de sítio altaneiro, os bólides. Também gostava do resto, da festa que se fazia, da parte feminina da assistência, etc.
Acho que me deixei disso em 86. Com a morte simbólica do rali de Portugal, com a morte das pessoas que ficaram debaixo do RS200 do Joaquim Santos.
Agora que a organização parece apostada em retirar o rali da sombra, escolhe as estradas da minha serra para o fazer. A serra é minha porque eu sou daquelas paragens, falo com aquele sotaque, bebo aquele medronho, tenho a mesma cara dos que lá moram.
Sonhei com este dia, muitos anos atrás. Poder ver as máquinas entre as azinheiras e os sobreiros, com o cheiro da terra que bem conheço misturado com os odores da máquina.
Contudo, hoje não me suscita mais do que o gesto dito acima.
Há coisas que mudam.
A última noite que passei na minha serra não me traz boas memórias.

imagem em http://www.rallydeportugal.pt/evento_etapas_2.html
Aprendam
Eu sei que sou mais um de faquinha afiada. E que de críticos está a praça cheia.
E que também gosto pouco de dar lições. Muito pouco. Só que a lição não é minha.
Ouvi há uns minutos uma coisa exemplar. Não que seja extraordinária. Mas é rara nos dias de hoje quando alguém se apanha na frente de um microfone.
Para os que também viram, desculpem a repetição.
Para os que não viram o telejornal da RTP, onde se fazia notícia de um enxame de abelhas, acho que na Rua de Santo António em Faro, valeu a resposta de um apicultor à repórter que lhe perguntou:
"Então e agora?"
"Agora vou lá acima e 'panho-as!"
Eu sei que sou mais um de faquinha afiada. E que de críticos está a praça cheia.
E que também gosto pouco de dar lições. Muito pouco. Só que a lição não é minha.
Ouvi há uns minutos uma coisa exemplar. Não que seja extraordinária. Mas é rara nos dias de hoje quando alguém se apanha na frente de um microfone.
Para os que também viram, desculpem a repetição.
Para os que não viram o telejornal da RTP, onde se fazia notícia de um enxame de abelhas, acho que na Rua de Santo António em Faro, valeu a resposta de um apicultor à repórter que lhe perguntou:
"Então e agora?"
"Agora vou lá acima e 'panho-as!"
O biombo obrigatório
Mais uma sugestão (do R.C.) que se perdeu nestas alterações ao Código da Estrada.
Não sou contra o aumento das penalizações mas chamar a uma revisão dos valores e à alteração de algumas penas, da redacção e da ordem de certos artigos e a um colete a saber, um Novo Código parece-me pouco próprio e até ridículo.

imagem do IEP
A falta que faz a porra do biombo.
P.S.: Há até gente sentada a uma secretária que procura uma webcam para ver um acidente!
Mais uma sugestão (do R.C.) que se perdeu nestas alterações ao Código da Estrada.
Não sou contra o aumento das penalizações mas chamar a uma revisão dos valores e à alteração de algumas penas, da redacção e da ordem de certos artigos e a um colete a saber, um Novo Código parece-me pouco próprio e até ridículo.

imagem do IEP
A falta que faz a porra do biombo.
P.S.: Há até gente sentada a uma secretária que procura uma webcam para ver um acidente!
30/03/2005
Aggiornamento (II)
Sendo certo que são sopas depois de almoço, pois aqui chegado, o leitor já se conectou, ainda assim vos indico esta oração.
Serve sempre para amanhã.
Sendo certo que são sopas depois de almoço, pois aqui chegado, o leitor já se conectou, ainda assim vos indico esta oração.
Serve sempre para amanhã.
29/03/2005
Afinal o cigano do amor

Há um ano e tal, lamentava-me aqui de não mais me ser possível saborear um frango com pó ao som do "Cigano do Amor".
Desde essa altura, em que me passava pela cabeça construir uma espécie de banda sonora do meu filme, já reuni umas 600 canções e músicas diferentes. Mas nada do "Cigano".
Disseram-me que era Cauby Peixoto o intérprete. Mas algures vi uma letra que não correspondia à minha memória.
Encontrei há dois ou três dias esta página onde o intérprete é Francisco Petrónio e onde a letra é de facto a de que me recordo:
Que pena eu sou, cigano do amor, nada mais
Correntes não há pra me segurar, nunca mais
E vai-se encontrar a forma de lhe pertencer
Meu coração decerto vai morrer, ou se fechará, quem sabe, ou se fechará
Agora o que eu queria era ouvi-la de novo.
Se não puder ser dentro de um disco voador amarelo ou num carrinho de choques que seja aqui sentado em frente ao monitor.

Há um ano e tal, lamentava-me aqui de não mais me ser possível saborear um frango com pó ao som do "Cigano do Amor".
Desde essa altura, em que me passava pela cabeça construir uma espécie de banda sonora do meu filme, já reuni umas 600 canções e músicas diferentes. Mas nada do "Cigano".
Disseram-me que era Cauby Peixoto o intérprete. Mas algures vi uma letra que não correspondia à minha memória.
Encontrei há dois ou três dias esta página onde o intérprete é Francisco Petrónio e onde a letra é de facto a de que me recordo:
Que pena eu sou, cigano do amor, nada mais
Correntes não há pra me segurar, nunca mais
E vai-se encontrar a forma de lhe pertencer
Meu coração decerto vai morrer, ou se fechará, quem sabe, ou se fechará
Agora o que eu queria era ouvi-la de novo.
Se não puder ser dentro de um disco voador amarelo ou num carrinho de choques que seja aqui sentado em frente ao monitor.
27/03/2005
A mesa do café e a montra dos doces
A tendência para enegrecer o presente e o futuro e glorificar o passado é, sabemo-lo todos, imemorial.
Dirão alguns que o que verdadeiramente lamentamos é já não termos vinte anos. Que o que de facto confundimos é a juventude com o concerto universal.
Não sei que diga. Há coisas que de facto estão piores. Outras não sei. Algumas haverá que melhoraram desde a minha juventude.
Pensando na vida que levei, não há assim nada que eu possa dizer que melhorou muito. Não sei se me ajuda muito poder chegar ao Porto ou ao Algarve em pouco mais de duas horas.
Mas com toda a certeza, uma das coisas que me facilita e muito a vida é a revolução nas comunicações. Mas nas outras. Telefones móveis dão jeito, computadores, jeitão. A rede proporciona acesso rápido a informação de que necessito. O cartão de débito permite-me ir buscar dinheiro à parede. OK.
Agora a questão que mais me melindra é justamente a da mesa do café.
Estarei eu a desprezar os disparates que ouvi outrora? Não sei. O que sei é que hoje a influência crescente da massificação na informação, concatenada com a catadupa de bytes que nos derramam em cima a cada passo, parece que contamina mesmo as cabeças mais críticas.
Oiço amplificadas e sujeitas a escrutínio as maiores enormidades.
A questão não é a maior ou menor futilidade dos assuntos. Conversa de chacha também fazia falta ao fim da tarde.
O que mais me sufoca é o tratamento e a atenção que merecem disparates intelectuais, opiniões obviamente sectárias e uma certa primaridade popular na avaliação dos factos, normalmente influenciada pela péssima informação transmitida.
Digamos que o filtro do bom senso is off. Que o tratamento básico da informação é dispensado.
Lembro-me aqui, entre outras, daquela desvalorização de 400% do peso argentino anunciada repetidamente ao longo de um dia. E do ar grave com que alguém comentava a notícia.
Há de facto coisas que podem desvalorizar 400%. Não é com certeza o caso das conversas de café. Ou do olhar que lançávamos por detrás da montra dos doces às pernas das desconhecidas. Ou mesmo da moeda argentina, depois de deixar a paridade com o dólar.
São outras. Mas não digo quais.
E ao café, ao tal café, já não vou há anos. Também ninguém aparece.
A tendência para enegrecer o presente e o futuro e glorificar o passado é, sabemo-lo todos, imemorial.
Dirão alguns que o que verdadeiramente lamentamos é já não termos vinte anos. Que o que de facto confundimos é a juventude com o concerto universal.
Não sei que diga. Há coisas que de facto estão piores. Outras não sei. Algumas haverá que melhoraram desde a minha juventude.
Pensando na vida que levei, não há assim nada que eu possa dizer que melhorou muito. Não sei se me ajuda muito poder chegar ao Porto ou ao Algarve em pouco mais de duas horas.
Mas com toda a certeza, uma das coisas que me facilita e muito a vida é a revolução nas comunicações. Mas nas outras. Telefones móveis dão jeito, computadores, jeitão. A rede proporciona acesso rápido a informação de que necessito. O cartão de débito permite-me ir buscar dinheiro à parede. OK.
Agora a questão que mais me melindra é justamente a da mesa do café.
Estarei eu a desprezar os disparates que ouvi outrora? Não sei. O que sei é que hoje a influência crescente da massificação na informação, concatenada com a catadupa de bytes que nos derramam em cima a cada passo, parece que contamina mesmo as cabeças mais críticas.
Oiço amplificadas e sujeitas a escrutínio as maiores enormidades.
A questão não é a maior ou menor futilidade dos assuntos. Conversa de chacha também fazia falta ao fim da tarde.
O que mais me sufoca é o tratamento e a atenção que merecem disparates intelectuais, opiniões obviamente sectárias e uma certa primaridade popular na avaliação dos factos, normalmente influenciada pela péssima informação transmitida.
Digamos que o filtro do bom senso is off. Que o tratamento básico da informação é dispensado.
Lembro-me aqui, entre outras, daquela desvalorização de 400% do peso argentino anunciada repetidamente ao longo de um dia. E do ar grave com que alguém comentava a notícia.
Há de facto coisas que podem desvalorizar 400%. Não é com certeza o caso das conversas de café. Ou do olhar que lançávamos por detrás da montra dos doces às pernas das desconhecidas. Ou mesmo da moeda argentina, depois de deixar a paridade com o dólar.
São outras. Mas não digo quais.
E ao café, ao tal café, já não vou há anos. Também ninguém aparece.
26/03/2005
Oferece!
Ou como se mostra que um mau militar perde todas as batalhas.
Claro que há desculpas. A minha antagonista levava-me quatro anos de avanço.
O certo é que em sábado algum de Aleluia lhe levei a melhor.
Até a última vez que nos decidimos a fazer um contrato, muitos anos depois, fui apanhado a escanhoar-me. Como vêem...
Mas no meio dos inúmeros Waterloos, há um em que a derrota foi mais estrondosa.
Nesse dia decidira-me por uma colocação altaneira, de forma a divisar todos os movimentos do inimigo. Do terraço do meu tio via os dois largos, quase todos os troços das ruas circundantes por onde poderia haver movimentos hostis e ainda o quintal da minha bisavó, de onde suspeitava vir a ser desferido o ataque.
O erro estúpido foi obviamente o da visibilidade. E ter desprezado o sistema de informações do outro lado.
Já cantava vitória ao ver as horas a passar e nem sinal de movimentos contrários. Mas era um empate de xadrez.
Havia que traçar um plano B. E desalojar o inimigo das trincheiras. As simulações de retirada que fizera de nada tinham servido. Por certo nalgum campanário longínquo alguém fazia sinais, dando conta das minhas manobras.
O problema de abandonar a posição era ter que, por breves minutos, perder o controlo visual. O risco de uma manobra inimiga nessa fase era algum.
Decidi-me. Desci as íngremes escadas de um fôlego. Abri a porta lateral com todos os cuidados. Costa livre. Dobrei a primeira das esquinas que me separavam da exposição às baterias. Nada. O muro altíssimo que defendia o quartel-general das tropas inimigas estava agora à minha direita. Não acreditava que houvesse uma posição descoberta do outro lado do muro. Avancei. Nada. Dobrei o ângulo agudo na esquina do largo e já, de cuidados redobrados, resolvi-me a adentrar, disparando em todos as direcções, a toca do lobo. Assim o fiz. Nada. A minha bisavó recebeu-me com um sorriso trocista.
Estava a dominar as trincheiras inimigas e nem sinal de vitória.
Nada a fazer. Retrocedi e, a passos calculados, dobrei as mesmas esquinas. Decidi-me a prosseguir para o meu próprio QG. Havia várias portas a considerar. Usei a principal, pensando que essa era a melhor hipótese. Nada. Relaxei. O tiro ouviu-se nessa altura: Oferece!
sobre imagem do SNIG
Este jogo consistia numa celebração de contrato:
"Contrato, contrato, contrato fazemos.
Sábado de Aleluia ofereceremos!"
e numa combinação sobre o seu objecto, normalmente um pacote de amêndoas.
No sábado, não valia apanhar o outro a dormir. Era preciso que estivesse já a pé. O primeiro a disparar um "Oferece!" à vista, ganhava.
Esta memória foi há tempos avivada por um post da Sónia no seu Vadiar, que relembrava uma variante insular deste jogo.
Ou como se mostra que um mau militar perde todas as batalhas.
Claro que há desculpas. A minha antagonista levava-me quatro anos de avanço.
O certo é que em sábado algum de Aleluia lhe levei a melhor.
Até a última vez que nos decidimos a fazer um contrato, muitos anos depois, fui apanhado a escanhoar-me. Como vêem...
Mas no meio dos inúmeros Waterloos, há um em que a derrota foi mais estrondosa.
Nesse dia decidira-me por uma colocação altaneira, de forma a divisar todos os movimentos do inimigo. Do terraço do meu tio via os dois largos, quase todos os troços das ruas circundantes por onde poderia haver movimentos hostis e ainda o quintal da minha bisavó, de onde suspeitava vir a ser desferido o ataque.
O erro estúpido foi obviamente o da visibilidade. E ter desprezado o sistema de informações do outro lado.
Já cantava vitória ao ver as horas a passar e nem sinal de movimentos contrários. Mas era um empate de xadrez.
Havia que traçar um plano B. E desalojar o inimigo das trincheiras. As simulações de retirada que fizera de nada tinham servido. Por certo nalgum campanário longínquo alguém fazia sinais, dando conta das minhas manobras.
O problema de abandonar a posição era ter que, por breves minutos, perder o controlo visual. O risco de uma manobra inimiga nessa fase era algum.
Decidi-me. Desci as íngremes escadas de um fôlego. Abri a porta lateral com todos os cuidados. Costa livre. Dobrei a primeira das esquinas que me separavam da exposição às baterias. Nada. O muro altíssimo que defendia o quartel-general das tropas inimigas estava agora à minha direita. Não acreditava que houvesse uma posição descoberta do outro lado do muro. Avancei. Nada. Dobrei o ângulo agudo na esquina do largo e já, de cuidados redobrados, resolvi-me a adentrar, disparando em todos as direcções, a toca do lobo. Assim o fiz. Nada. A minha bisavó recebeu-me com um sorriso trocista.
Estava a dominar as trincheiras inimigas e nem sinal de vitória.
Nada a fazer. Retrocedi e, a passos calculados, dobrei as mesmas esquinas. Decidi-me a prosseguir para o meu próprio QG. Havia várias portas a considerar. Usei a principal, pensando que essa era a melhor hipótese. Nada. Relaxei. O tiro ouviu-se nessa altura: Oferece!
sobre imagem do SNIG
Este jogo consistia numa celebração de contrato:
"Contrato, contrato, contrato fazemos.
Sábado de Aleluia ofereceremos!"
e numa combinação sobre o seu objecto, normalmente um pacote de amêndoas.
No sábado, não valia apanhar o outro a dormir. Era preciso que estivesse já a pé. O primeiro a disparar um "Oferece!" à vista, ganhava.
Esta memória foi há tempos avivada por um post da Sónia no seu Vadiar, que relembrava uma variante insular deste jogo.
25/03/2005
Uma Páscoa com ovos

Foi no conforto da leitura matinal do jornal da antevéspera, já com duas ou três chávenas alinhadas na mesa que vi a cara do homem debruçada sobre a necrologia.
Sabes a que hora é o comboio para cima?
Não posso dizer que não estranhei a pergunta. Era sabido que antes da Páscoa só interessavam os comboios ascendentes*.
Olhei à volta, não vi o Manel no seu posto e perguntei-lhe:
Já viste se o táxi está aí fora? Pergunta ao homem. Se ele não estiver, é porque está na hora do comboio - foi com esta peça de informação abundante e palisseira que o despachei.
Já era noitinha quando combinámos o poiso para a cartada de depois do jantar.
Nestas coisas de cartas, convém sempre uma certa tranquilidade, uma estante com licores e um pratinho de bolachas. Era o que tínhamos. E uma noite quente de Abril. As portas da varanda estavam abertas e o sossego lá fora era propício a vazas peculiares.
Quebrou-se o encanto quando a mão estava do lado da brisa que abanava os cortinados.
Um pressentimento - disse ela - a minha irmã não apareceu para jantar.
Não posso dizer que não tenha somado de imediato dois mais dois, embora estivesse concentrado nas cartas em falta. Foi com algum incómodo que acedemos a uma pausa. Acompanhámos da varanda o percurso breve que ela desenhou na rua. Os gestos que fazia já à porta de casa prenunciavam que eu estava certo.
Foi nessa altura que uns faróis surgiram ao fundo da rua. Nessa época não me era difícil identificar o VW do J.C.
A perspicácia dele confundiu-me. Sabia que acabava de chegar de Coimbra e que estava figurativamente a leste dos factos. Pois de imediato parou o carro e me perguntou, afirmando:
Fugiram, foi?
Julgo que a minha resposta, da qual não me recordo palavra por palavra, já mencionava o facto de a garrafeira do anfitrião ter que suportar a despesa do copo d'água. Afinal havia um parentesco próximo.
A comemoração não acabou como é de hábito com a dispersão dos convidados.
Acabou quando as convivas, sabendo que eu e o J.C. há muito não nos víamos e que não tínhamos trocado uma palavra fora daquela sala, excepto as três frases que se ouviram da varanda para a rua, se assustaram com o truque de cartas que tão bem combinámos.
Caiu decerto a Páscoa sobre os noivos a essa hora. Houve quem tivesse mencionado essa hipótese.
*Os comboios ascendentes são, neste caso, os que seguem para Sul, para baixo.

Foi no conforto da leitura matinal do jornal da antevéspera, já com duas ou três chávenas alinhadas na mesa que vi a cara do homem debruçada sobre a necrologia.
Sabes a que hora é o comboio para cima?
Não posso dizer que não estranhei a pergunta. Era sabido que antes da Páscoa só interessavam os comboios ascendentes*.
Olhei à volta, não vi o Manel no seu posto e perguntei-lhe:
Já viste se o táxi está aí fora? Pergunta ao homem. Se ele não estiver, é porque está na hora do comboio - foi com esta peça de informação abundante e palisseira que o despachei.
Já era noitinha quando combinámos o poiso para a cartada de depois do jantar.
Nestas coisas de cartas, convém sempre uma certa tranquilidade, uma estante com licores e um pratinho de bolachas. Era o que tínhamos. E uma noite quente de Abril. As portas da varanda estavam abertas e o sossego lá fora era propício a vazas peculiares.
Quebrou-se o encanto quando a mão estava do lado da brisa que abanava os cortinados.
Um pressentimento - disse ela - a minha irmã não apareceu para jantar.
Não posso dizer que não tenha somado de imediato dois mais dois, embora estivesse concentrado nas cartas em falta. Foi com algum incómodo que acedemos a uma pausa. Acompanhámos da varanda o percurso breve que ela desenhou na rua. Os gestos que fazia já à porta de casa prenunciavam que eu estava certo.
Foi nessa altura que uns faróis surgiram ao fundo da rua. Nessa época não me era difícil identificar o VW do J.C.
A perspicácia dele confundiu-me. Sabia que acabava de chegar de Coimbra e que estava figurativamente a leste dos factos. Pois de imediato parou o carro e me perguntou, afirmando:
Fugiram, foi?
Julgo que a minha resposta, da qual não me recordo palavra por palavra, já mencionava o facto de a garrafeira do anfitrião ter que suportar a despesa do copo d'água. Afinal havia um parentesco próximo.
A comemoração não acabou como é de hábito com a dispersão dos convidados.
Acabou quando as convivas, sabendo que eu e o J.C. há muito não nos víamos e que não tínhamos trocado uma palavra fora daquela sala, excepto as três frases que se ouviram da varanda para a rua, se assustaram com o truque de cartas que tão bem combinámos.
Caiu decerto a Páscoa sobre os noivos a essa hora. Houve quem tivesse mencionado essa hipótese.
*Os comboios ascendentes são, neste caso, os que seguem para Sul, para baixo.
24/03/2005
Provas
Como é que alguém faz prova perante o Estado de que tem capacidade matrimonial?
E de que a tem para contrair matrimónio com uma determinada pessoa?
À primeira pergunta, supor-se-ia (claro que fui eu a supôr) que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse a idade e o estado civil compatível (todos à excepção de casado) e não ser portador de alguma doença que a lei preveja ser impedimento bastante.
À segunda pergunta, supor-se-ia que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse ser o sexo da pessoa com a qual se pretende casar, diferente do da própria. E, sem entrar nos impedimentos próprios do promitente cônjuge, que não fosse parente nos casos previstos na lei.
Ah, e ainda fazer prova de não ter jamais sido condenado por homicídio de anterior cônjuge da pessoa com quem pretende contrair matrimónio.
Ora isto supunha eu. Mas não é nada disto.
A prova documental de estado civil não é aceite, porque não são suficientes as garantias documentais que um (dado) estado estrangeiro dá nessa matéria.
A prova testemunhal é irrelevante, por não ser possível a ninguém no seu perfeito juízo, afirmar sem margem para alguma dúvida que x não é casado. E é-o também, embora as dúvidas aí se reduzam muito, quanto ao parentesco entre ambos. Claro que amostras de ADN podem ser trocadas em laboratório também. Claro que o teste não é 100% sim ou não. Havendo ainda parentescos que inviabilizam o matrimónio e que não são de sangue.
Quanto ao homicídio...
Claro que tudo isto acontece em Portugal. No século XXI, Ano da Graça de 2005.
Como é que alguém faz prova perante o Estado de que tem capacidade matrimonial?
E de que a tem para contrair matrimónio com uma determinada pessoa?
À primeira pergunta, supor-se-ia (claro que fui eu a supôr) que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse a idade e o estado civil compatível (todos à excepção de casado) e não ser portador de alguma doença que a lei preveja ser impedimento bastante.
À segunda pergunta, supor-se-ia que bastaria apresentar um documento válido que comprovasse ser o sexo da pessoa com a qual se pretende casar, diferente do da própria. E, sem entrar nos impedimentos próprios do promitente cônjuge, que não fosse parente nos casos previstos na lei.
Ah, e ainda fazer prova de não ter jamais sido condenado por homicídio de anterior cônjuge da pessoa com quem pretende contrair matrimónio.
Ora isto supunha eu. Mas não é nada disto.
A prova documental de estado civil não é aceite, porque não são suficientes as garantias documentais que um (dado) estado estrangeiro dá nessa matéria.
A prova testemunhal é irrelevante, por não ser possível a ninguém no seu perfeito juízo, afirmar sem margem para alguma dúvida que x não é casado. E é-o também, embora as dúvidas aí se reduzam muito, quanto ao parentesco entre ambos. Claro que amostras de ADN podem ser trocadas em laboratório também. Claro que o teste não é 100% sim ou não. Havendo ainda parentescos que inviabilizam o matrimónio e que não são de sangue.
Quanto ao homicídio...
Claro que tudo isto acontece em Portugal. No século XXI, Ano da Graça de 2005.
23/03/2005
Testes e coincidências
Ligo pouco a testes, quero dizer aos seus resultados. Mas divirto-me às vezes a fazê-los.
Logo hoje que, a propósito de uma conversa, veio à baila o velho lema, casado em 2005:

Me saiu isto de uma caixa de correio que não abria há meses:

NOTA IMPORTANTE: Jamais alguém me chamou LELO. Mas num teste daqueles, foi o que me veio à cabeça.
Ligo pouco a testes, quero dizer aos seus resultados. Mas divirto-me às vezes a fazê-los.
Logo hoje que, a propósito de uma conversa, veio à baila o velho lema, casado em 2005:

Me saiu isto de uma caixa de correio que não abria há meses:

NOTA IMPORTANTE: Jamais alguém me chamou LELO. Mas num teste daqueles, foi o que me veio à cabeça.
Buvete
Não obstante a variada referência à cura de águas no Cartaxo, não se conhece um só indivíduo que aí se tenha instalado com esse fim.
O que nos promete para um futuro em que historiadores sociais escarafunchem nas fontes para obter líquida informação sobre expressão tantas vezes encontrada.
Passando o Cartaxo e o vale de Santarém, apercebo-me agora de que nunca fui um homem de caldas.
Jamais tracei rumos para estâncias termais, jamais estagiei à sombra de adegas.
Não tendo feito uma coisa e outra, não posso afirmar que não haja casos em que lá andei perto.
Se me instalei numas termas, sem cuidar de banhos ou eflúvios minerais, e ainda arrumei na mala da viatura umas caixas com setas para cima e aviso de fragilidade, isso quer dizer exactamente o quê?
Não obstante a variada referência à cura de águas no Cartaxo, não se conhece um só indivíduo que aí se tenha instalado com esse fim.
O que nos promete para um futuro em que historiadores sociais escarafunchem nas fontes para obter líquida informação sobre expressão tantas vezes encontrada.
Passando o Cartaxo e o vale de Santarém, apercebo-me agora de que nunca fui um homem de caldas.
Jamais tracei rumos para estâncias termais, jamais estagiei à sombra de adegas.
Não tendo feito uma coisa e outra, não posso afirmar que não haja casos em que lá andei perto.
Se me instalei numas termas, sem cuidar de banhos ou eflúvios minerais, e ainda arrumei na mala da viatura umas caixas com setas para cima e aviso de fragilidade, isso quer dizer exactamente o quê?
22/03/2005
O engenheiro das bolachas
O sketch existe. Está gravado em Beta. Numa daquelas noites incompreensíveis em que, de petisco em petisco, acabei em casa do R.C., com a namorada atrás.
Só os três, talvez com uns licores caseiros da lavra dele, resolvemos encenar o meu sonho da noite anterior.
Tinha morrido o engenheiro das bolachas.
Entrevistámos várias pessoas a propósito. A que melhor desempenhou foi o adjunto. De lágrima ao canto do olho, enquanto desfiava os pormenores do horrível acidente de trabalho na prensa das shortcake, dava francas mostras de estar à altura para ocupar o cargo do defunto.
O mais estranho de tudo isso é eu ter entrado em cena, quando a moça prestava declarações na pele já não sei se da viúva inconsolável, disfarçado de cidade do Porto.
Isso intriga-me. Mas está lá.
O sketch existe. Está gravado em Beta. Numa daquelas noites incompreensíveis em que, de petisco em petisco, acabei em casa do R.C., com a namorada atrás.
Só os três, talvez com uns licores caseiros da lavra dele, resolvemos encenar o meu sonho da noite anterior.
Tinha morrido o engenheiro das bolachas.
Entrevistámos várias pessoas a propósito. A que melhor desempenhou foi o adjunto. De lágrima ao canto do olho, enquanto desfiava os pormenores do horrível acidente de trabalho na prensa das shortcake, dava francas mostras de estar à altura para ocupar o cargo do defunto.
O mais estranho de tudo isso é eu ter entrado em cena, quando a moça prestava declarações na pele já não sei se da viúva inconsolável, disfarçado de cidade do Porto.
Isso intriga-me. Mas está lá.
21/03/2005
A minha vila
Talvez haja poucas pessoas entre os que me lêem que possam sentir o mesmo que eu, dadas as circunstâncias.
E as circunstâncias são as de ter vivido mais de quarenta anos, sempre que possível, na terra (pequena) onde nasceram os meus pais e grande parte da minha família.
Parece-me que este mundo dos blogues é mais urbano. De pessoas que lidam com outras sem lhes conhecerem a raiz.
E é essa proximidade que abandonei há quatro anos que me faz tropeçar em fotos de defuntos e nomes gravados na pedra e recordar de cada um deles um gesto, uma palavra, um petisco, um cantorio.
Parece-me que não há ninguém ali a quem eu não tivesse conhecido. Mesmo àqueles que partiram antes da minha chegada, sei-lhes das façanhas. Uma vila ali enterrada a quem às vezes visito.
Talvez haja poucas pessoas entre os que me lêem que possam sentir o mesmo que eu, dadas as circunstâncias.
E as circunstâncias são as de ter vivido mais de quarenta anos, sempre que possível, na terra (pequena) onde nasceram os meus pais e grande parte da minha família.
Parece-me que este mundo dos blogues é mais urbano. De pessoas que lidam com outras sem lhes conhecerem a raiz.
E é essa proximidade que abandonei há quatro anos que me faz tropeçar em fotos de defuntos e nomes gravados na pedra e recordar de cada um deles um gesto, uma palavra, um petisco, um cantorio.
Parece-me que não há ninguém ali a quem eu não tivesse conhecido. Mesmo àqueles que partiram antes da minha chegada, sei-lhes das façanhas. Uma vila ali enterrada a quem às vezes visito.
20/03/2005
19/03/2005
Gotas lentas
Para mim, tudo o que não seja balizado e regrado é poesia.
Talvez também poesia seja o que se diz entre balizas e consoante as regras. Não sei.
Três homens, primos entre si.
Uma porta de jazigo aberta ao crepúsculo.
Não se faziam balanços nem se pronunciavam as habituais lengalengas de ocasião.
Eram palavras lentas como as gotas que fingiram cair no preciso momento.
Cada vez menos luz. Outros ao longe, já na parada.
Pareceu que estas portas, aquela porta, são uma espécie de passagens para a história.
Dito isto, até me soa a lugar comum. Talvez o seja.
Mas o chão, de sete palmos, parece ser muito mais inacessível.
As gotas, lentas.
Para mim, tudo o que não seja balizado e regrado é poesia.
Talvez também poesia seja o que se diz entre balizas e consoante as regras. Não sei.
Três homens, primos entre si.
Uma porta de jazigo aberta ao crepúsculo.
Não se faziam balanços nem se pronunciavam as habituais lengalengas de ocasião.
Eram palavras lentas como as gotas que fingiram cair no preciso momento.
Cada vez menos luz. Outros ao longe, já na parada.
Pareceu que estas portas, aquela porta, são uma espécie de passagens para a história.
Dito isto, até me soa a lugar comum. Talvez o seja.
Mas o chão, de sete palmos, parece ser muito mais inacessível.
As gotas, lentas.
18/03/2005
17/03/2005
Os sinais
Parece indiscutível que uma das preocupações da vanguarda da espécie humana é, desde há algumas décadas, o cenário futuro das condições climatéricas e o consequente risco para a sobrevivência da espécie.
É esse sinal que recolho, mais do que a primaridade de muita da argumentação de repetidores, de muita especulação pouco científica, de muita inconsistência nas argumentações.
Interessa-me sempre o panorama geral. Muito pouco a opinião particular.
Uma das verdades de La Palisse é que mais gente no mundo conduz a um aumento de temperatura. Outra é a de que mais combustão, mais conversão de energia em calor, dá o mesmo resultado. Outra ainda é que propiciar a criação de filtros à irradiação também conduz à acumulação de calor. Podem somar-se outros mas quase tudo desemboca no número de viventes e na forma como se organizam as coisas à face da terra.
Uma das questões que se levanta é caracterizar bem essa evolução. Ora aqui é que começa o problema. Sabemos ou julgamos saber que ao longo da evolução, antes de existirem criaturas vagamente parecidas com o que somos hoje (como se fosse possível estabelecer um tempo em que não existiam e um tempo imediato em que faziam parte da fauna) e depois desse dia, ocorreram várias modificações no clima do planeta. Saber se existiriam homens sem essas modificações é daquelas perguntas interessantes mas desnecessárias porque sem resposta.
Mas para a caracterizar, dizia, são precisos dados. Dados que escasseiam. Dados que apenas se referem a umas décadas, com a precisão datada, mas que ainda assim podem servir para traçar gráficos e olhar para eles.
Não nos dão estes gráficos nenhuma novidade. Se olharmos para as temperaturas em Lisboa, vemos claramente uma subida. Comparemos essa subida com os dados existentes sobre a população e outros indicadores que nos possam dar uma ideia sobre a evolução da transformação de energia em calor e teremos com toda a certeza uma relação entre uma coisa e outra.
Já para o campo, a coisa é diversa. Analisei temperaturas médias mensais de várias estações do sul de Portugal e, no intervalo de tempo a que correspondem os registos, cerca de 60 anos, não é possível concluir por mudanças significativas. Ainda que pareça haver um aumento e uma menor variação nas temperaturas médias mais baixas, correspondentes aos meses de Inverno.
Ora o risco que corremos quando olhamos para estas séries é pensarmos que elas são representativas de alguma coisa. Como é que se pode concluir seja o que fôr, em termos gerais, mais latos, a partir de uma amostra de um troço infinitamente pequeno de uma curva?
Mas supondo que há de facto uma tendência acentuada de alteração das condições climatéricas, qual será essa alteração? Que efeitos terá de facto sobre a nossa espécie e sobre as outras? Alguém os sabe determinar? Alguém faz ideia da capacidade de adaptação que temos?
Ainda assim, e dada a crescente preocupação que o assunto suscita e que me leva a concluir que há razão para o encararmos de frente, é natural que medidas haja a serem tomadas.
Saber exactamente quais é que é mais difícil. Não me parece que tudo se resuma a excesso de concentração de determinados gases. Nada deste mundo se resume a bolotas. E mesmo que assim fosse, é esse objectivo, o de reduzir essas concentrações, alcançável?
E sendo que a população continua a crescer, haverá medidas que se possam tomar para travar esse crescimento? Ou viramo-nos decididamente para fora e vamos à procura de locais para colonizar?
No meio de tudo isto, alegram-me sempre os disparates ditos com convicção. Aqueles cenários que se traçam do modo mais primário, quase sempre encerrando a contradição e a incompatibilidade entre conclusões.
Ninguém sabe que alterações advirão do aumento segmentário da temperatura.
Ninguém sabe os efeitos sobre as diferentes espécies que essas alterações desconhecidas acarretarão.
Ninguém está por isso em condições de afirmar que isso será catastrófico ou benéfico.
Ninguém sequer pode garantir que não se verificará uma catástrofe, no sentido físico da palavra, uma alteração repentina das condições que não permita a readaptação.
Mas havendo inquietação entre os homens, isso mostra claramente que haverá alteração de comportamentos.
É já um aspecto da adaptação das espécies, da nossa espécie, ao meio.
O problema da sobrevivência já se colocou muitas vezes. E ainda aqui estamos.
Parece indiscutível que uma das preocupações da vanguarda da espécie humana é, desde há algumas décadas, o cenário futuro das condições climatéricas e o consequente risco para a sobrevivência da espécie.
É esse sinal que recolho, mais do que a primaridade de muita da argumentação de repetidores, de muita especulação pouco científica, de muita inconsistência nas argumentações.
Interessa-me sempre o panorama geral. Muito pouco a opinião particular.
Uma das verdades de La Palisse é que mais gente no mundo conduz a um aumento de temperatura. Outra é a de que mais combustão, mais conversão de energia em calor, dá o mesmo resultado. Outra ainda é que propiciar a criação de filtros à irradiação também conduz à acumulação de calor. Podem somar-se outros mas quase tudo desemboca no número de viventes e na forma como se organizam as coisas à face da terra.
Uma das questões que se levanta é caracterizar bem essa evolução. Ora aqui é que começa o problema. Sabemos ou julgamos saber que ao longo da evolução, antes de existirem criaturas vagamente parecidas com o que somos hoje (como se fosse possível estabelecer um tempo em que não existiam e um tempo imediato em que faziam parte da fauna) e depois desse dia, ocorreram várias modificações no clima do planeta. Saber se existiriam homens sem essas modificações é daquelas perguntas interessantes mas desnecessárias porque sem resposta.
Mas para a caracterizar, dizia, são precisos dados. Dados que escasseiam. Dados que apenas se referem a umas décadas, com a precisão datada, mas que ainda assim podem servir para traçar gráficos e olhar para eles.
Não nos dão estes gráficos nenhuma novidade. Se olharmos para as temperaturas em Lisboa, vemos claramente uma subida. Comparemos essa subida com os dados existentes sobre a população e outros indicadores que nos possam dar uma ideia sobre a evolução da transformação de energia em calor e teremos com toda a certeza uma relação entre uma coisa e outra.
Já para o campo, a coisa é diversa. Analisei temperaturas médias mensais de várias estações do sul de Portugal e, no intervalo de tempo a que correspondem os registos, cerca de 60 anos, não é possível concluir por mudanças significativas. Ainda que pareça haver um aumento e uma menor variação nas temperaturas médias mais baixas, correspondentes aos meses de Inverno.
Ora o risco que corremos quando olhamos para estas séries é pensarmos que elas são representativas de alguma coisa. Como é que se pode concluir seja o que fôr, em termos gerais, mais latos, a partir de uma amostra de um troço infinitamente pequeno de uma curva?
Mas supondo que há de facto uma tendência acentuada de alteração das condições climatéricas, qual será essa alteração? Que efeitos terá de facto sobre a nossa espécie e sobre as outras? Alguém os sabe determinar? Alguém faz ideia da capacidade de adaptação que temos?
Ainda assim, e dada a crescente preocupação que o assunto suscita e que me leva a concluir que há razão para o encararmos de frente, é natural que medidas haja a serem tomadas.
Saber exactamente quais é que é mais difícil. Não me parece que tudo se resuma a excesso de concentração de determinados gases. Nada deste mundo se resume a bolotas. E mesmo que assim fosse, é esse objectivo, o de reduzir essas concentrações, alcançável?
E sendo que a população continua a crescer, haverá medidas que se possam tomar para travar esse crescimento? Ou viramo-nos decididamente para fora e vamos à procura de locais para colonizar?
No meio de tudo isto, alegram-me sempre os disparates ditos com convicção. Aqueles cenários que se traçam do modo mais primário, quase sempre encerrando a contradição e a incompatibilidade entre conclusões.
Ninguém sabe que alterações advirão do aumento segmentário da temperatura.
Ninguém sabe os efeitos sobre as diferentes espécies que essas alterações desconhecidas acarretarão.
Ninguém está por isso em condições de afirmar que isso será catastrófico ou benéfico.
Ninguém sequer pode garantir que não se verificará uma catástrofe, no sentido físico da palavra, uma alteração repentina das condições que não permita a readaptação.
Mas havendo inquietação entre os homens, isso mostra claramente que haverá alteração de comportamentos.
É já um aspecto da adaptação das espécies, da nossa espécie, ao meio.
O problema da sobrevivência já se colocou muitas vezes. E ainda aqui estamos.
16/03/2005
A marmota que desceu no meu quintal
As esquírolas encontradas no assento traseiro
Eram decerto bocados de cóccix
Que o antrópofago se esqueceu de digerir
Na segunda manhã do rali de Monte Carlo.
E, mesmo que o não fossem, tinham estatuto de VIP
Na deslocação aprazada para quinze do corrente
Às traseiras do palácio da princesa adormecida
Onde, adrede, o gâmeta masculino tinha marcado
Presenças dignas de um grande senhor fariseu.
Claro que a solicitude com que foi recebido
Tinha algo a ver com a sempre apregoada hospitalidade
Avulsa dos arautos em torneio complementar.
Bosquejando aquilo que seria o seu amor interrompido,
O ente encontrava-se absorto e meditabundo
Contemplando duas relíquias guardadas num sacrário.
SG, "2ª Escolha", 1993
As esquírolas encontradas no assento traseiro
Eram decerto bocados de cóccix
Que o antrópofago se esqueceu de digerir
Na segunda manhã do rali de Monte Carlo.
E, mesmo que o não fossem, tinham estatuto de VIP
Na deslocação aprazada para quinze do corrente
Às traseiras do palácio da princesa adormecida
Onde, adrede, o gâmeta masculino tinha marcado
Presenças dignas de um grande senhor fariseu.
Claro que a solicitude com que foi recebido
Tinha algo a ver com a sempre apregoada hospitalidade
Avulsa dos arautos em torneio complementar.
Bosquejando aquilo que seria o seu amor interrompido,
O ente encontrava-se absorto e meditabundo
Contemplando duas relíquias guardadas num sacrário.
SG, "2ª Escolha", 1993
15/03/2005
A fórmula de Heron
Qualquer um que tenha (que tivesse, que hoje há calculadeiras para todos os efeitos) necessidade de calcular uma área agrícola, por exemplo, socorrer-se-ia de triangulações e provavelmente da fórmula de Heron para obter o resultado.
Suponho que hoje a maioria dos não iniciados desconhece esta velha fórmula de conhecer a área de um triângulo dados os lados.
É que a "base vezes altura sobre dois" apesar de ser de conhecimento generalizado, não permite de facto calcular com precisão uma área de um triângulo qualquer cujos lados são fáceis de medir.
Para que o permitisse, era preciso que se soubesse com rigor o valor da "altura". E esse valor não é facilmente determinável no terreno como o são os lados do triângulo.
Qualquer um que tenha (que tivesse, que hoje há calculadeiras para todos os efeitos) necessidade de calcular uma área agrícola, por exemplo, socorrer-se-ia de triangulações e provavelmente da fórmula de Heron para obter o resultado.
Suponho que hoje a maioria dos não iniciados desconhece esta velha fórmula de conhecer a área de um triângulo dados os lados.
É que a "base vezes altura sobre dois" apesar de ser de conhecimento generalizado, não permite de facto calcular com precisão uma área de um triângulo qualquer cujos lados são fáceis de medir.
Para que o permitisse, era preciso que se soubesse com rigor o valor da "altura". E esse valor não é facilmente determinável no terreno como o são os lados do triângulo.
14/03/2005
Memórias de Manel Loendrêro
Parece que o autor fazia questão do anonimato.
Nunca conheci os pormenores associados às crónicas tão pouco o seu autor.
Limitava-me a ler com muito agrado as fotocópias que me davam do jornal.
Ontem dei com uma página que lhe faz referência.
Senti-me transportado para adegas cheias de tralha, comendo pão com banha por essas quatro da manhã, enquanto o cão da casa assentava arraiais sob o improvisado púlpito de onde um mais capaz declamava as aventuras dos moços dos lados do Ardila.
Há vinte e tal anos...
Parece que o autor fazia questão do anonimato.
Nunca conheci os pormenores associados às crónicas tão pouco o seu autor.
Limitava-me a ler com muito agrado as fotocópias que me davam do jornal.
Ontem dei com uma página que lhe faz referência.
Senti-me transportado para adegas cheias de tralha, comendo pão com banha por essas quatro da manhã, enquanto o cão da casa assentava arraiais sob o improvisado púlpito de onde um mais capaz declamava as aventuras dos moços dos lados do Ardila.
Há vinte e tal anos...
Os fortalhaços a monte
Fui dar com o meu caseiro debaixo de um chaparro, a dormitar.
Saudou-me com um sorriso malandro e atordoado.
Disse-lhe ao que ia. À procura de quem me tinha dado uma carga de porrada ali no monte, na véspera.
Respondeu-me de pronto:
"Não sabe quem foi? Foi o Sr. Vidêra mais o Sr. Madronhêra. Também me bateram a mim!"

fotos dos meliantes capturadas aqui e aqui
Fui dar com o meu caseiro debaixo de um chaparro, a dormitar.
Saudou-me com um sorriso malandro e atordoado.
Disse-lhe ao que ia. À procura de quem me tinha dado uma carga de porrada ali no monte, na véspera.
Respondeu-me de pronto:
"Não sabe quem foi? Foi o Sr. Vidêra mais o Sr. Madronhêra. Também me bateram a mim!"

fotos dos meliantes capturadas aqui e aqui
12/03/2005
A chapelada
As senhoras estavam indignadas e desapontadas.
Havia suspeitas de chapelada na mesa onde tinham estado. De nada se tinham apercebido mas eram implicitamente o objecto das críticas.
Enquanto uma fila de golas altas, camisolas vermelhas, azuis bébé, barbas grisalhas e anoraques, em jornada de luta, mostrava a sua indignação pelo supostamente ocorrido, elas contavam-me o que não tinham visto. Ainda por cima aquela mesa era simbólica, diziam, funcionava no qualquer coisa das mulheres de um sindicato qualquer.
Nessa altura, enquanto mirava a longa fila de manifestantes que pareciam ainda alinhados para votar e a porta da pastelaria dos bolos mais adiante (sim, há ali uma pastelaria que não é dos bolos, é só dos cafés, mesmo ao lado), resolvi-me a comentar que em matéria de chapeladas teríamos também que considerar o que passara há trinta anos, quando a gente que agora protestava punha e dispunha e fazia igual ou pior.
Por qualquer milagre, as minhas palavras foram, embora aceites com indignação e protestos, decisivas. Em menos de um fósforo, desmobilizaram. Creio que no meio de alguma barafustação entre eles.
Nessa altura, o rapaz recém-chegado ouviu ainda os restos da minha diatribe. As minhas tias e sogras pareciam consoladas com o desfecho.
Uma das minhas primas não sabia da mãe. Talvez no clube, no teatro, naquela sala que fica na rua calcetada e imaginária, quase paralela à que sobe do largo da vila.
N. estava na sala às escuras. Na segunda sala, a que tem ao palco ao fundo. Era a única pessoa em pé, com a saia e casaco brancos recortando-se contra o cenário cinzento.
Encontrada a tia que faltava, bailava com N. quando ela me beijou. Retribuí, espantado.
"Uma gaivota voava, voava..." - era isto que se ouvia nos altifalantes.

imagem composta a partir desta e desta
As senhoras estavam indignadas e desapontadas.
Havia suspeitas de chapelada na mesa onde tinham estado. De nada se tinham apercebido mas eram implicitamente o objecto das críticas.
Enquanto uma fila de golas altas, camisolas vermelhas, azuis bébé, barbas grisalhas e anoraques, em jornada de luta, mostrava a sua indignação pelo supostamente ocorrido, elas contavam-me o que não tinham visto. Ainda por cima aquela mesa era simbólica, diziam, funcionava no qualquer coisa das mulheres de um sindicato qualquer.
Nessa altura, enquanto mirava a longa fila de manifestantes que pareciam ainda alinhados para votar e a porta da pastelaria dos bolos mais adiante (sim, há ali uma pastelaria que não é dos bolos, é só dos cafés, mesmo ao lado), resolvi-me a comentar que em matéria de chapeladas teríamos também que considerar o que passara há trinta anos, quando a gente que agora protestava punha e dispunha e fazia igual ou pior.
Por qualquer milagre, as minhas palavras foram, embora aceites com indignação e protestos, decisivas. Em menos de um fósforo, desmobilizaram. Creio que no meio de alguma barafustação entre eles.
Nessa altura, o rapaz recém-chegado ouviu ainda os restos da minha diatribe. As minhas tias e sogras pareciam consoladas com o desfecho.
Uma das minhas primas não sabia da mãe. Talvez no clube, no teatro, naquela sala que fica na rua calcetada e imaginária, quase paralela à que sobe do largo da vila.
N. estava na sala às escuras. Na segunda sala, a que tem ao palco ao fundo. Era a única pessoa em pé, com a saia e casaco brancos recortando-se contra o cenário cinzento.
Encontrada a tia que faltava, bailava com N. quando ela me beijou. Retribuí, espantado.
"Uma gaivota voava, voava..." - era isto que se ouvia nos altifalantes.

imagem composta a partir desta e desta
11/03/2005
Too many Murphys
Ou talvez não.
Não me parece que a frase do capitão Murphy, tão semelhante às que ouvimos diariamente nas mais diversas actividades, tenha, tivesse tido, a força suficiente para explicar o clima actual.
Precisamos de facto de uma lei nova. De uma frase interrogativa sobre o que poderá correr bem.
E alguma coisa correrá bem.
Serei como muitos um pessimista reflexivo mas um optimista emocional. Quem carrega uma nuvem negra sobre a cabeça deve sofrer à farta com isso. Mas talvez nada possa fazer para o evitar.
A questão é que, para onde quer que seja que nos voltemos, só ouvimos profetas da desgraça.
Seja no ambiente, seja na paz, seja na segurança, seja na economia, as vozes só nos traçam cenários negros.
Há muitos anos, a minha conversa era semelhante. Mas não fazia disso uma missão evangélica. Só quando me obrigavam a dar opinião, lá expunha o que pensava serem os anos que viriam. Devo dizer que acertei em muitas coisas. Não que disponha de excepcionais qualidades divinatórias. Limitei-me a observar os sinais. São os sinais que me interessam sempre. Interessa-me ouvir os outros mais para perceber os grandes números do que uma opinião em concreto.
Talvez que a questão da nossa sociedade, da nossa civilização, seja ter atingido um patamar de conforto que não lhe abre grandes perspectivas de melhoria.
O facto de não haver grandes desafios para completar pode conduzir a esta apatia insatisfeita e maldisposta.
Precisávamos de qualquer coisa que nos levasse a agir com voluntarismo. Uma saga. Uma descoberta qualquer. O que se perfila, no entanto, é que seja mais uma vez uma grande desgraça a abrir as portas do empenhamento e a fazer-nos arregaçar as mangas, sem sorriso mas com vontade.
Ou talvez não.
Não me parece que a frase do capitão Murphy, tão semelhante às que ouvimos diariamente nas mais diversas actividades, tenha, tivesse tido, a força suficiente para explicar o clima actual.
Precisamos de facto de uma lei nova. De uma frase interrogativa sobre o que poderá correr bem.
E alguma coisa correrá bem.
Serei como muitos um pessimista reflexivo mas um optimista emocional. Quem carrega uma nuvem negra sobre a cabeça deve sofrer à farta com isso. Mas talvez nada possa fazer para o evitar.
A questão é que, para onde quer que seja que nos voltemos, só ouvimos profetas da desgraça.
Seja no ambiente, seja na paz, seja na segurança, seja na economia, as vozes só nos traçam cenários negros.
Há muitos anos, a minha conversa era semelhante. Mas não fazia disso uma missão evangélica. Só quando me obrigavam a dar opinião, lá expunha o que pensava serem os anos que viriam. Devo dizer que acertei em muitas coisas. Não que disponha de excepcionais qualidades divinatórias. Limitei-me a observar os sinais. São os sinais que me interessam sempre. Interessa-me ouvir os outros mais para perceber os grandes números do que uma opinião em concreto.
Talvez que a questão da nossa sociedade, da nossa civilização, seja ter atingido um patamar de conforto que não lhe abre grandes perspectivas de melhoria.
O facto de não haver grandes desafios para completar pode conduzir a esta apatia insatisfeita e maldisposta.
Precisávamos de qualquer coisa que nos levasse a agir com voluntarismo. Uma saga. Uma descoberta qualquer. O que se perfila, no entanto, é que seja mais uma vez uma grande desgraça a abrir as portas do empenhamento e a fazer-nos arregaçar as mangas, sem sorriso mas com vontade.
10/03/2005
As reservas estratégicas
Um destes dias foi daqueles em que quase se tornou necessário utilizar as reservas monetárias.
A ATM aqui ao pé de casa enviava os clientes para trás do sol-posto. Não sei se com propriedade, por haver qualquer tipo de restrição na zona, ou se por mero erro.
Foi então que me veio à cabeça a questão das reservas.
De todo o tipo de reservas.
Há quem tenha a sua reserva de comida, de água, de gás, de pilhas, etc. E quem leve isso a sério.
Há quem as tenha mas não leve a coisa a sério. Tem água já velha, comida em lata fora de prazo, pilhas sem carga, etc.
E há quem nunca tenha pensado no assunto.
Convivi em tempos com alguém que fazia anualmente a sua festa de substituição de reservas.
Não era festejo que atraísse muita gente.
Lá se consumiam os atuns enlatados das mais escassamente diversas formas.
Se passava o dente pela sardinha em tomate, pelo feijão pré-cozinhado, pela panóplia de iguarias conservadas em lata.
Mas o dinheirinho debaixo do colchão às vezes faz falta. Nesse dia quase fez.
Um dia ainda contarei como achámos certa vez uma pipa de massa debaixo de um colchão.
Num quarto de hotel. E o que fizemos com ela.
Um destes dias foi daqueles em que quase se tornou necessário utilizar as reservas monetárias.
A ATM aqui ao pé de casa enviava os clientes para trás do sol-posto. Não sei se com propriedade, por haver qualquer tipo de restrição na zona, ou se por mero erro.
Foi então que me veio à cabeça a questão das reservas.
De todo o tipo de reservas.
Há quem tenha a sua reserva de comida, de água, de gás, de pilhas, etc. E quem leve isso a sério.
Há quem as tenha mas não leve a coisa a sério. Tem água já velha, comida em lata fora de prazo, pilhas sem carga, etc.
E há quem nunca tenha pensado no assunto.
Convivi em tempos com alguém que fazia anualmente a sua festa de substituição de reservas.
Não era festejo que atraísse muita gente.
Lá se consumiam os atuns enlatados das mais escassamente diversas formas.
Se passava o dente pela sardinha em tomate, pelo feijão pré-cozinhado, pela panóplia de iguarias conservadas em lata.
Mas o dinheirinho debaixo do colchão às vezes faz falta. Nesse dia quase fez.
Um dia ainda contarei como achámos certa vez uma pipa de massa debaixo de um colchão.
Num quarto de hotel. E o que fizemos com ela.
09/03/2005
Notícias limpas
A tentação de botar opinião sobre as coisas mais bizarras e desinteressantes instalou-se há muito entre os jornalistas. Mesmo que não seja uma opinião formal há-de ser um dichote a propósito.
Ignoro se os despachos das agências já incluem alguns destes elementos e se são assim meramente reproduzidos. O que se percebe muitas vezes é que uma história bizarra é apenas uma história mal contada a que se juntaram os ingredientes para a tornar publicável.
A tentação de botar opinião sobre as coisas mais bizarras e desinteressantes instalou-se há muito entre os jornalistas. Mesmo que não seja uma opinião formal há-de ser um dichote a propósito.
Ignoro se os despachos das agências já incluem alguns destes elementos e se são assim meramente reproduzidos. O que se percebe muitas vezes é que uma história bizarra é apenas uma história mal contada a que se juntaram os ingredientes para a tornar publicável.
08/03/2005
As coisas que eu sei
Que todos nós sabemos, sem saber que sabemos.
E que quando ficamos frente a frente com um écran de televisão onde passa um concurso de perguntas nos saltam de debaixo da língua.
Não me detive nunca a ler o que foi já escrito sobre a atenção, a memória, a selecção dos dados na mente. Ninguém sabe ao certo como esta funciona. Dão-se palpites como em tudo na vida.
Houve uma época da minha vida em que, surpreendentemente, tinha respostas para quase todas as inquietações de um companheiro de noitadas, fossem elas de trabalhos de grupo ou de mera diversão.
Sabes como é que ficou o jogo do Barreirense? 77-87.
Quando é que é o concerto dos Supertramp? Na semana que vem.
A quantos segundos está o Markku Alen? 13.
O pior é que eu tinha a perfeita noção de que, por um acaso qualquer, acabara de ouvir na rádio a informação solicitada.
Com as horas de rádio que então ouvia era até provável que soubesse os resultados dos regionais de futebol. Às vezes sabia. Sabia mesmo os do hóquei em campo e como se tinha portado o Ramaldense nesse fim-de-semana.
Havia também um que sabia quantos parafusos tinha a Torre Eiffel. Julgava que sabia.
Que todos nós sabemos, sem saber que sabemos.
E que quando ficamos frente a frente com um écran de televisão onde passa um concurso de perguntas nos saltam de debaixo da língua.
Não me detive nunca a ler o que foi já escrito sobre a atenção, a memória, a selecção dos dados na mente. Ninguém sabe ao certo como esta funciona. Dão-se palpites como em tudo na vida.
Houve uma época da minha vida em que, surpreendentemente, tinha respostas para quase todas as inquietações de um companheiro de noitadas, fossem elas de trabalhos de grupo ou de mera diversão.
Sabes como é que ficou o jogo do Barreirense? 77-87.
Quando é que é o concerto dos Supertramp? Na semana que vem.
A quantos segundos está o Markku Alen? 13.
O pior é que eu tinha a perfeita noção de que, por um acaso qualquer, acabara de ouvir na rádio a informação solicitada.
Com as horas de rádio que então ouvia era até provável que soubesse os resultados dos regionais de futebol. Às vezes sabia. Sabia mesmo os do hóquei em campo e como se tinha portado o Ramaldense nesse fim-de-semana.
Havia também um que sabia quantos parafusos tinha a Torre Eiffel. Julgava que sabia.
07/03/2005
Baias
Embirro com carneiradas, visitas guiadas, percursos pedestres.
Dou-me, no entanto, conta de que se justificam algumas baias. Seria o bom e o bonito se se deixassem ao critério de cada um o que se pode e não pode pisar.
Sabemos todos isso. Sabemos também que o problema não é um a pisar a relva. É a horda.
Mas todos nós ansiamos por desfrutar certas paragens dispensando os outros. Se não somos todos, é uma boa parte.
Reclamamos a torto e a direito contra as enchentes, as filas, as aglomerações. Há os que as evitam e os que nelas persistem, continuando a reclamar. É a vida! - como diria o outro.
Sempre me fez confusão que as pessoas se dispusessem a enfrentar longas filas de trânsito para sul e para norte quando ali ao lado havia estradas desertas. Fazia-me confusão e dava graças por isso ao mesmo tempo.
Há uns tempos que andava intrigado com uma coisa. Que tem a ver com baias ou com a ausência delas. Aqui perto de casa, num daqueles típicos arranjos feitos em planta e que ficam muito interessantes no papel, era necessário subir dois lances de escada e descer depois um certo declive para aceder de uma rua a outra. Pelo meio ficava um passagem muito viável sobre um canteiro. Claro que nasceu uma vereda. Há poucas semanas a vereda foi substituída por uma suave escadaria empedrada. Bom trabalho.
Esta ideia de que os percursos devem ser deixados aos peões e mais tarde "oficializados" é interessante mas não é praticável em todos os casos.
Nos tempos que correm, quando as veredas quase só existem nos tais percursos balizados, em que a quantidade de obstáculos urbanos é grande, é preciso ver em planta mais do que o papel permite.
Não parece muito difícil prever os caminhos mais utilizados e a forma como devem ser implantados. Mas não é isso que acontece. Todos os dias somos confrontados com voltinhas do Marão para passar de A para B.
Na leva anterior de melhoramentos que por aqui se fez, obrigaram-se as criaturas a descer e a subir umas escadas para transpôr um desnível de 1 metro. Também aí existia a vereda sobre o canteiro. Mas foi contemplada com um muro de Berlim. Coisas...
Embirro com carneiradas, visitas guiadas, percursos pedestres.
Dou-me, no entanto, conta de que se justificam algumas baias. Seria o bom e o bonito se se deixassem ao critério de cada um o que se pode e não pode pisar.
Sabemos todos isso. Sabemos também que o problema não é um a pisar a relva. É a horda.
Mas todos nós ansiamos por desfrutar certas paragens dispensando os outros. Se não somos todos, é uma boa parte.
Reclamamos a torto e a direito contra as enchentes, as filas, as aglomerações. Há os que as evitam e os que nelas persistem, continuando a reclamar. É a vida! - como diria o outro.
Sempre me fez confusão que as pessoas se dispusessem a enfrentar longas filas de trânsito para sul e para norte quando ali ao lado havia estradas desertas. Fazia-me confusão e dava graças por isso ao mesmo tempo.
Há uns tempos que andava intrigado com uma coisa. Que tem a ver com baias ou com a ausência delas. Aqui perto de casa, num daqueles típicos arranjos feitos em planta e que ficam muito interessantes no papel, era necessário subir dois lances de escada e descer depois um certo declive para aceder de uma rua a outra. Pelo meio ficava um passagem muito viável sobre um canteiro. Claro que nasceu uma vereda. Há poucas semanas a vereda foi substituída por uma suave escadaria empedrada. Bom trabalho.
Esta ideia de que os percursos devem ser deixados aos peões e mais tarde "oficializados" é interessante mas não é praticável em todos os casos.
Nos tempos que correm, quando as veredas quase só existem nos tais percursos balizados, em que a quantidade de obstáculos urbanos é grande, é preciso ver em planta mais do que o papel permite.
Não parece muito difícil prever os caminhos mais utilizados e a forma como devem ser implantados. Mas não é isso que acontece. Todos os dias somos confrontados com voltinhas do Marão para passar de A para B.
Na leva anterior de melhoramentos que por aqui se fez, obrigaram-se as criaturas a descer e a subir umas escadas para transpôr um desnível de 1 metro. Também aí existia a vereda sobre o canteiro. Mas foi contemplada com um muro de Berlim. Coisas...
7 de Março
A verdade é que não me esqueci. Não me esqueci da serra de Sintra, com e sem rali. De todos os troços cronometrados por onde andámos. Do cabo da Roca e dos ventos de finisterra.
Em termos náuticos tenho ouvido referências à boca do Tejo como compreendida entre o Cabo Raso e o Cabo Espichel. A nossa história, como sabes, é pouco diversa. Compreende-se entre o Cabo da Roca e o Espichel. Não foi trágica nem marítima, não me deixo levar pelas palavras.
Mas entre os cabos e os fins, juntou muitas areias de Portugal.
Terras de Espanha, também.
Não te digo mais nada, nunca adivinharás que estas linhas estão aqui.
Repara apenas que o Sahara estava deserto. Já nem existe.
A verdade é que não me esqueci. Não me esqueci da serra de Sintra, com e sem rali. De todos os troços cronometrados por onde andámos. Do cabo da Roca e dos ventos de finisterra.
Em termos náuticos tenho ouvido referências à boca do Tejo como compreendida entre o Cabo Raso e o Cabo Espichel. A nossa história, como sabes, é pouco diversa. Compreende-se entre o Cabo da Roca e o Espichel. Não foi trágica nem marítima, não me deixo levar pelas palavras.
Mas entre os cabos e os fins, juntou muitas areias de Portugal.
Terras de Espanha, também.
Não te digo mais nada, nunca adivinharás que estas linhas estão aqui.
Repara apenas que o Sahara estava deserto. Já nem existe.
06/03/2005
05/03/2005
04/03/2005
Lobby
Ok. É a altura certa para pressionar o futuro governo.
Abro a gaveta, visto o fato domingueiro e lá vou eu, de pasta na mão, desencantando o velhinho projecto:
Ok. É a altura certa para pressionar o futuro governo.
Abro a gaveta, visto o fato domingueiro e lá vou eu, de pasta na mão, desencantando o velhinho projecto:
02/03/2005
01/03/2005
Frio
Foi de rijeza a noite passada. Foi.
Mas aqui onde me encontro, com uma história de observações limitada a pouco mais de dois anos, não foi nada que se comparasse à madrugada de 15 de Janeiro de 2003.
Na manhã que se seguiu, já o sol ia alto, ainda havia gelo nos vidros dos carros.
Nada disso se viu hoje.
E essa não foi a única ocasião em que isso aconteceu por estas bandas, em sentido mais lato. Outras houve.
Foi de rijeza a noite passada. Foi.
Mas aqui onde me encontro, com uma história de observações limitada a pouco mais de dois anos, não foi nada que se comparasse à madrugada de 15 de Janeiro de 2003.
Na manhã que se seguiu, já o sol ia alto, ainda havia gelo nos vidros dos carros.
Nada disso se viu hoje.
E essa não foi a única ocasião em que isso aconteceu por estas bandas, em sentido mais lato. Outras houve.
28/02/2005
A morte política do Zé Bastos
Auscultem-se as redacções, inquiram-se os políticos, sonde-se o povo, releiam-se os provérbios: Quem não aparece, esquece.
E a morte política de qualquer protagonista é a sua ausência das headlines, das intrigas, das conversas de cafés, dos cartazes, das pichagens nos muros.
Ora é mais deste último local, os muros da Pátria, que quase desapareceu Zé Bastos.
E é relevante porque era ali e nas carteiras de escola, liceu e faculdade e em muitos outros suportes que funcionavam como antecessores dos outdoors que a sua imagem preponderava.
Hoje é um ilustre desconhecido. Qualquer representação sua, a duas dimensões, é uma raridade.
Não admira pois que lhe preste singela homenagem, ao encontrá-lo desenhado a branco na valiosa pele de uma sobreira, um destes verões.
Auscultem-se as redacções, inquiram-se os políticos, sonde-se o povo, releiam-se os provérbios: Quem não aparece, esquece.
E a morte política de qualquer protagonista é a sua ausência das headlines, das intrigas, das conversas de cafés, dos cartazes, das pichagens nos muros.
Ora é mais deste último local, os muros da Pátria, que quase desapareceu Zé Bastos.
E é relevante porque era ali e nas carteiras de escola, liceu e faculdade e em muitos outros suportes que funcionavam como antecessores dos outdoors que a sua imagem preponderava.
Hoje é um ilustre desconhecido. Qualquer representação sua, a duas dimensões, é uma raridade.
Não admira pois que lhe preste singela homenagem, ao encontrá-lo desenhado a branco na valiosa pele de uma sobreira, um destes verões.
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