21/09/2004

Aviso



O politicamente correcto pode matar.
Esperem pela próxima peste e verão.
Divergência



Tenho repetidas teimas a propósito das actuações desastradas que por aí se contam.
A minha interlocutora é, desde sempre, adepta de uma intrincada teoria da conspiração com obscuros contornos, como convém a todas as boas teorias da conspiração.
E encolhe os ombros quando eu lhe falo da falta daquela coisa com que se constroem teorias. Não me refiro a ela, claro.
Refiro-me aos actores dos habituais desastres.
Socorro-me sempre, embora sem o expressar, das palavras de outra pessoa:
"Eles não conseguem ser maus, falta-lhes cabeça!"

imagem de

20/09/2004

Esquecimentos

Um velho amigo e colega surpreendia-me às vezes, quando ao volante do carro se virava para mim, co-piloto, e me perguntava: "Para onde é que vamos?"
Não era a pergunta do taxista. Não era por onde. O sigo pela Baixa ou vou por fora. Era mesmo uma espécie de acordar estremunhado de algum sono ou sonho que lhe permitia manter os níveis de atenção para conduzir. Mas não era condução, era andar de carro. Ele não conduzia nada nem ninguém nessas alturas, seguia apenas a estrada.
Já a mim me sucede amiúde nos trajectos, a cavalo na lata ou a pé, observar aqui ou ali algo de insólito que julgo ser comentável quando chegar ao destino. O mais certo é, lá chegado, não me lembrar de tal.
Sair de casa com várias incumbências e esquecer uma ou duas.
Talvez seja aquela fase da vida em que se torna mais fácil recordar um episódio de há trinta anos do que o jantar de ontem.
Assusta-me.
Terravista

Através dos FísicosLX fiquei a saber que o Terravista vai acabar com as páginas pessoais lá alojadas e que hoje é o último dia para recuperar os ficheiros.
Quem lá tenha coisas e não tenha cópias, siga por aqui.
35 anos de carreira

Não sei para que serve uma carreira, se não fôr camioneta.
Estojo

Deve ser da época, lembrei-me disto:



imagem de

18/09/2004

Cuíze

?

Já há tempo que não saía um.
A Brigada voltou ao ataque.
Estatísticas

Não sei quantos minutos por cada cigarro.
Não sei quantos minutos por cada copo a mais.
Não sei quantos minutos por cada noite sem dormir.
Não sei quantos minutos por cada avaria.
Depois, abalas assim. Logo tu, que sempre fugiste das avarias.
Estatísticas.
Um modo de perceber o funcionamento dos grandes números quando não se percebe nada dos pequenos.
R.I.P.
Um imenso .jpg (II)



ou pequenos e grandes sismos

sobre a Carta Militar Itinerária de Portugal, do Instituto Geográfico do Exército

17/09/2004

A gravata Dei

Como quase tudo o que dizia, era necessário atenção e ouvido fino para perceber a lógica da argumentação.
Mesmo que falasse, vez ou outra, um pouco mais alto e claro. Como quando retorquiu que homem que se preze, tem que de vez em quando esquecer a educação e soltar umas imprecações.
Mas as mais das vezes eram sussurros, monólogos, pequenas pérolas de reflexão ao alcance de quem se detinha a ouvi-lo.
Nesse dia, vinha desengravatado.
Após algumas considerações sobre a tomada de Ceuta, a natação medicinal e a composição química do recheio das mais diversas sanduíches, pronunciou três palavras mais, com os olhos postos nas nuvens:
"A gravata Dei."
Encarámo-nos, na expectativa de mais uma revelação.
Afinal, era sempre com surpresa que o escutávamos.
"A gravata... dei. Dei-a mesmo!"

15/09/2004

Nunca sabemos



Eu nunca sei até que ponto é que um discurso político é o reflexo das ideias do orador ou o reflexo daquilo que ele pensa que deve dizer.
Sendo que, se é o segundo caso, nunca sei para que receptor ele fala. Convenço-me de que ele também não o sabe.
Vem isto a propósito dos dois casos recentes de invasão de áreas chave do poder e da sua representação, ocorridos em Londres.
Não fossem os intervenientes (nos outros dias da sua existência) pacatos cidadãos, e sim perigosos terroristas e a esta hora haveria mais uma tragédia a lamentar.
E aqui é que bate o ponto.
Todo o discurso político recente na Rússia e nos Estados Unidos, contaminando outras paragens, se deteve na condenação dos seus próprios dirigentes por não terem conseguido conter a ameaça terrorista.
Depois de termos assistido à crucificação de Putin, a propósito do atentado na escola, depois de termos ouvido tudo o que se disse àcerca da forma como se actuou nos Estados Unidos antes do ataque às torres, depois de termos ouvido tudo isso, até parece que há uma fórmula mágica para evitar ataques terroristas.
Pois não há.
O velho aforismo "casa roubada, trancas à porta" é, para mim, o exemplo claro do absurdo.
Particularmente nestes casos em que se corre a tomar medidas para evitar a repetição de uma forma de actuação terrorista, quando se sabe que, com toda a certeza, o próximo passo será outra surpresa.
Não que não se deva dificultar a repetição. O que é preciso é dificultar todas as formas possíveis e imaginárias de causar grandes estragos.
Estou convencido de que há gente a tratar disso. A pensar em todas essas formas e a engendrar maneiras de as evitar.
Mas se ocorrer um ataque em grande escala ou com grande impacto no poder instituído, é apenas porque o inimigo foi mais forte, mais matreiro. Não faltam fábulas a respeito.
E golpes, iremos sofrer mais. Se eles não temem nenhuma das nossas armas, se não têm qualquer receio de avançar, resta-nos estar um passo à frente e tentar detê-los.
Mas estando a surpresa sempre do lado de lá, veremos que nem sempre isso se consegue.
Agora há de facto surpresas como as de Londres que nos levam a pensar que só se olha para as mochilas nos comboios e para as facas nos aviões.
E quanto aos mesmos aviões, na Rússia, a ser verdade o que se soube hoje, parece que qualquer prevenção há-de ser sempre furada pela corrupção instalada.

imagem da CNN
O inquérito

Num grande número de casos, quando ocorre um acidente, é possível ter conclusões preliminares com as observações feitas in loco, nas horas seguintes.
Conclusões no que diz respeito às causas directas, bem entendido.
O que demora é apurar uma ou outra causa indirecta e as responsabilidades quer nos erros quer nas omissões.
Mas quando, face a um acidente qualquer que seja, assistimos ao espectáculo de ver (ouvir) alguém afirmar que não falhou nada, apenas ficamos com uma noção da capacidade de quem produz tal dislate. Só isso.
Não falhou nada e todavia...
Depois da fase do a quente, em que se ouvem estas e outras pérolas, segue-se a fase do aproveitamento.
Em que vêm à tona toda a sorte de reivindicações relacionadas ou não com o ocorrido. Sempre em maior número as que não têm ponta por onde se lhe pegue, é claro.
À medida que o inquérito avança, o ruído de fundo não cessa, deixando adivinhar as pressões para que se veja isto e não aquilo.
Quando por fim, se conhecem as conclusões, é certo que se vão buscar pilhas de assuntos que não vêm ao caso. Quase sempre se fica sem saber o que é que aconteceu e porquê.
Já só se discutem aspectos que em nada concorreram para o sucedido.
E o que realmente interessa, saber o que correu mal para se evitar que aconteça de novo, nos mesmos moldes, isso realmente não interessa nada.

14/09/2004

O arrefecimento global

Este verão foi chocho. Até parece que adivinhei quando o disse aqui no final de Maio.
Durante anos, a minha praia foi em Setembro. E olhando agora pela janela, sentindo o fresco que vem lá de fora, fico na dúvida: Será que os Setembros já não dão praia?



Nota: este postal ilustrado impresso nas oficinas do "Commercio do Porto" encontrei-o nesta página, juntamente com outros postais de faróis da nossa costa.
Gasolim nas bombas

13/09/2004

Falta de verba

Às vezes, parece que é altura de fazer um peditório ou iniciar umas "démarches" para conseguir um verbo.
Mas, se calhar, é mesmo melhor estar calado.
Se a verborreia é má - eu acho que é - também a falta de verbo não ajuda a quem teve esta ideia de aqui ir escrevendo umas coisas.
Mas não me queixo.
Estas coisas são assim mesmo. Uns dias dizem-se uns disparates, outros frases sem sentido e às vezes, uma coisinha de jeito.
E há estes, com falta de verba, digo, de verbo.
Dizer qualquer coisa para não estar calado. Há alguma palavra para designar não o que se cala, mas o que não escreve?

11/09/2004

Gota d'água

Não me parece que tenha sido. Não foi. Não foi a gota d'água final.
Mas foi decerto uma gota d'água inesquecível.
Metáfora de lavagens d'alma, de travessias, de alvores.
Gota d'água, verão e inverno.
Princesa.

10/09/2004

Um imenso .jpg



Fazendo fé nas palavras azuis do mago profeta, chegará o dia em que os aromas acompanharão os sons e as imagens nas suas peripécias viajantes.
Se esse dia fosse o de hoje, haveria decerto uns ficheiros com extensão .pfm (os americanos iam lá deixar de usar o galicismo...) que se poderiam combinar com sons, texto e imagem, de forma a melhorar o conteúdo da informação aqui exposta.
Não o sendo, resta-nos a combinação de imagem e texto, já que quanto aos sons é outra história e fica para o fim.
A batalha entre imagens e palavras ia em <1/1000 da última vez que ouvi falar nela. Não deve esta proporção ser actualmente majorante, a julgar pelo tamanho dos ficheiros de texto e de imagem que aqui tenho. Mas adiante.
Supondo que haveria que escolher entre texto e imagem para traçar a minha autobiografia, o que é que faria? Um texto longo e entediante ou uma imagem que tudo resumisse? Que a sequência de imagens também não me agrada.
Decido-me então por um imenso .jpg.

Voltando aos sons, meti-me em boa.
Sendo uma reconhecida e notória nulidade no que à música toca, não é que me deu para reconstruir a banda sonora do meu filme (do meu .jpg)? Só a parte musical, claro. Os outros sons do mundo ficaram de fora.
A coisa não está fácil.
Descobrir a que canção e a que artista corresponde um certo som é uma tarefa hoje para mim possível graças a São Google. Um extracto da letra e a coisa acha-se. Mas em outros tempos, seria condenada ao fracasso. Trauteasse eu qualquer coisinha a ouvidos de entendedor e decerto assistiria a uma fuga desesperada. Nada menos do que isso.
Mas assim, já vai em mais de um 1GB e segue por bom caminho como o Grandella.
Ninguém me manda ser parvo.
É mesmo melhor dedicar-me à parte gráfica.

08/09/2004

Notas


Santuário da Senhora da Cola - imagem do IPPAR


Várias, enquanto me deixam.

O material tem sempre razão - é a máxima que tomada à letra demonstra o desfasamento entre o que as coisas são e o que pensamos que elas são.
Se é que as coisas são alguma coisa.
Neste caso concreto, é de um problemazinho chato aqui na maquineta que se trata. A que se junta a falta de paciência para grandes averiguações.

Nem a Senhora da Cola me vale. Mais uma noite de copos e de romaria em que me marcaram falta.

Quando finalmente (...) o Sol desce à terra! Do alto da minha pouca informação, parece-me que é um feito pouco significativo. Não faltaram oportunidades anteriores para se fazer tal recolha. E será que não se recolheram já amostras, em outras condições? Não faço ideia.

Perdidas.
Perdidas por vós todas as coisas e todas as mulheres.
O estranho não é que alguém tenha aqui vindo, através do Google, à procura de "Encontrei-a mais tarde". É que apenas aqui neste blogue isso aconteceu. Isso de encontrá-la mais tarde. Porventura, vós não tereis perdido coisa nem mulher nenhuma.

Por último, um desejo. Um desejo, não. Um pedido ao Deus de todos os ateus:
Deus me livre de o Mundo ser feito à medida dos meus desejos.
Decerto que muitos outros o terão formulado antes de mim. Não espero ser original nessa prece.
Mas em altura em que tanta gente tem e apregoa ideias para o Mundo, é o que de melhor me ocorre.
E não é grande coisa. Mas é com convicção.
Logo eu, que tanta graça acho aos homens com convicções...

05/09/2004

Quanto mais leio

Mais sono tenho.
"Andas a ler as coisas erradas." - disse-me ela, com os olhos postos no cinzeiro.
"Só conheço os erros nas convenções." - foi a minha resposta pouco calculada.
"Questão de palavras, meu caro. Digamos desadequadas." - já levantava os olhos da mesa e do cinzeiro, que entretanto se enchera.
"Também tu tiras os olhos da cinza."
A conversa ficou por ali. Ou talvez não.


imagem adaptada daqui
Pesos e medidas


04/09/2004

Não

Não. Não há algo de novo na barbárie.
Nem na barbárie maciça, nem na fragmentária.
Nem na dos números às centenas, nem na do um de cada vez.
Nem na morte de crianças, nem na guerra.
O que há de novo é que, nesta civilização do meio da Europa para cá, com os seus prolongamentos a outros continentes, desde a Segunda Guerra Mundial, que não se vê coisa assim.
Não que não tenha já acontecido aqui, em outras épocas.
Não que não tenha acontecido bem depois disso nesta mesma Europa, mas na outra.
Não que não tenha acontecido no seio da nossa civilização mas em lugares outros.
Mas aconteceu e aconteceu vezes e vezes.
E acontecerá.
Estamos muito longe de deixarmos as armas, se é que alguma vez isso irá acontecer.
Estamos muito longe de não disputarmos territórios, palmo a palmo, vida a vida.
Quando estas imagens nos entram pelas casas a dentro, o pior que podemos fazer é acreditar que o mundo se resume e se resumiu ao que vimos na televisão.
Há umas guerras, uma guerra, lá fora. E o lá fora pode ser ao virar da esquina.
E não há botão de Cancel.
O Mago

Já há cinco dias consecutivos que me surgia à frente sempre na mesma curva do túnel do Metro.
Via-se que seguia com passo determinado, com alguma tarefa urgente para realizar.
Estatelou-se, depois de chocar contra o meu ombro.
Bateu com a cabeça nos mosaicos de vidro. Sangrava.
Não há rede - gritava o homem da pasta, secundado pela mulher dos cabelos falsamente ruivos.
Não houve recriminações. Fora um acidente.
O rapaz com ar de estudante disse que já conseguira ligar.
Um quarto de hora depois, depois de dois lenços ensopados em sangue, ouviu-se a sirene na boca do Metro.
Os socorristas fizeram o seu trabalho, levaram o homem.
Por ali caído no chão estava um cartão:



Guardei-o, sem que ninguém percebesse que não me pertencia.
Corri todos os hospitais, pedi todas as informações ao 112, ninguém me soube dizer onde estava o Mago.
O cartão não tinha qualquer número de telefone.
Skyline


Pós-Homem

Não me satisfazem a maior parte das ficções prospectivas.
Não que eu tenha a veleidade de saber como hei-de julgar as criações de cada um.
Mais porque, na maioria dos casos, não há homens diversos dos que conhecemos.
E lá num futuro longínquo, a nossa espécie será tão diferente do que conhecemos como o é daquilo que supomos ter sido um Australopithecus.
Podemos deitar-nos a adivinhar quais serão os aspectos mais diferenciados daquilo que é o Homem de hoje. Será sempre em vão. Mas supor que será o mesmo Homem é um crasso erro.

01/09/2004

Gin

Balbuciadas vezes
Anoitece
Onde te espero.
Aqui
Numa varanda de tê-zero
Ou além
Em areias sem ninguém.
Tabaqueadas vezes
Escurece
Ao som da telefonia
Perto de mim.
Ciciadas vezes
Acontece
Beberes o meu gin.

SG, inéditos, 1995

30/08/2004

Por aí, pela E.N. 2

Falando de cor (as décadas)

Claro que me lembrei. Foi há dez anos.
30 de Agosto de 1994. 17:00. O sítio é que poderia suscitar algumas dúvidas. Resolveram rasgar com alcatrão as dunas onde fizemos a promessa.
Esta minha velha mania de que os outros não se lembram...
Nesse dia, ainda olhei de lado para as chaves do carro. Ia até lá só para poder depois dizer com propriedade que vocês se esqueceram.
Quando acabar de escrever este post terão passado trinta anos sobre a nossa combinação. A que eu falhei há exactamente dez anos.
E de que vocês também se lembraram. Mas pensaram como eu. Não pensamos todos?
Se não tivéssemos então a certeza de que jamais nos voltaríamos a ver, teríamos feito tal promessa?

29/08/2004

Vale por nove

O banho do 29.
Por quem raramente faz referências a livros, aqui vai um interessante trabalho de António Martins Quaresma sobre a Vila Nova dos anos 60.
Disponível em pdf.
Não se limita a Vila Nova de Milfontes, e aborda aspectos de anos mais longínquos.
Nas entrelinhas, lá está o autor deste blogue, entre canas, polvos a secar, estradas de areia e candeeiros a petróleo.


Vale por nove

Esquecia-me do arroz de frango.
Atão não marchava?
Vale por nove


imagem adaptada do Canal Odisseia

28/08/2004

Uma não visão política ou um desabafo em si bemol maior

A minha cabeça não dá para mais. E não é imodéstia (modéstia a mais...), é assim mesmo.
Algures lá para trás, fiquei preso nas malhas do racionalismo. Que todos sabemos é coisa duvidosa também. Mas ainda assim tem-me servido de boa bengala. E parece que ao mundo também...
E quando me detenho na política, sendo que nunca sofri da juvenil quimera de querer salvar o mundo, começo a patinar.
Não são só os protagonistas. É a coisa em si. Que na mesma altura, no mesmo lugar, à mesma ocorrência, chama nomes diferentes e dela extrai impossíveis resultados.
Tomar partido, sim. Tenho-o feito. Mas não vejo nisso nenhuma razão sublime. Nenhum argumento imbatível. Apenas o facto de me encontrar num lugar e numa hora confrontado com uma escolha. Apenas isso. E escolho.
E nenhuma paciência para argumentos que não são nem coerentes nem conduzem, não podem conduzir, à esperada sentença.
Reino da subjectividade tacanha que sacode uns factos e guinda outros factos às alturas.
Que idolatra espantalhos.
Que espreme a parte da ciência que julga mais lhe servir.
Que constrói ideias sem estrutura.
Que não entende conceitos como o de convenção, rigor, estatística, escala e erro. Fazendo de tudo uma sopa bolorenta e intragável.
Não tenho pachorra. Ponto.

27/08/2004

Água


Perguntas

O que é que as gerações futuras acharão de verdadeiramente imperdoável nos nossos actos e omissões?
Conseguirão separar aqueles dos quais nos damos conta dos que nos passam completamente despercebidos?
Ainda perderão tempo com isso ou aceitarão que o tempo é isso mesmo?

26/08/2004

A questão da rotunda

Já não me recordo de onde recolhia a horas tão maduras.
Lembro-me bem da figura esbelta e empertigada que me mandava parar.
Pisca da direita, berma, ervas. Os faróis davam brilho às formas femininas, ali a metro e meio, coisa assim.
A rapariga assim fardada esboçou um ligeiro esgar de espanto, hesitou e lá me veio interpelar:
"Então queria atropelar-me?" - o sorriso traía-a.
"Eu?"
"Porque é que saiu da via?"
"A senhora não me mandou encostar?"
"Não. Só lhe fiz sinal de parar. O senhor não é aqui da zona?"
"Sou. Porquê?"
"Não sabe que a esta hora cortamos aqui o trânsito alternadamente?"
"Minha senhora, não passo aqui todos os dias. E a esta hora..."
"Pois é. Sabe, isto enquanto não fizerem a rotunda, não se resolve."
Espanto.
As feras iluminadas carregavam a toda a largura da estrada, disputando um lugar dianteiro na primeira chicane.
A rapariga assim fardada sorria: "Está a ver?"
"Estou. Não me parece é que a rotunda resolva a questão. Não vejo como."
"Pois é. Mas ao menos, andam mais devagar."
"Lá isso andam."
Quando ela me mandou seguir, hesitei. Era mais fazer-lhe companhia e pagar-lhe um café.
Mas dei-lhe um sonoro (mavioso?) bom-dia.
Ela riu-se outra vez.
Estava um frio de rachar.

25/08/2004

Topologia onírica

Sempre foi para mim um mistério e um encanto.
Aqueles locais que reconhecemos só em sonhos. Em vão tentamos conciliar a sua morfologia com o mundo que realmente conhecemos. Umas vezes dentro do próprio sonho, outras fora dele.
Um dos mistérios que me acompanhará à tumba é aquela estrada sobre o mar, que de curva em curva me reserva panoramas extraordinários e bem em sonhos conhecidos.
A passagem pelo contorno da baía, a casa que parece uma pousada, à esquerda, no foco da concavidade e uns metros acima do plano da estrada. As pedras que orlam o espelho de água. Mar sempre calmo, verde, azul. Depois a estrada afasta-se do mar e segue para sul.
Há uns tempos atrás, um mapa começou a acompanhar a explicação.
A estrada já não é viável. Vês a interrupção aqui, um pouco à esquerda do número? Erosão costeira, meu caro.
Mas há-de haver uma forma de lá chegar. Até ao local onde a estrada abateu.
Sim, há. Vais até àquele bairro de prédios cor de salmão, à saída da cidade e onde estão umas canas, ao fundo de um terreiro, consegues ver os restos do alcatrão. Atravessas as canas e já a vês.

No meio disto tudo, ou melhor, fora dos sonhos, tento encontrar outras explicações.
Em vão, obviamente.
Apesar de saber que Setúbal é a cidade no extremo norte da estrada. Disso tenho a certeza.

Quando o meu PC deixar de amuar com o software de desenho, acrescentarei aqui o mapa.
16 anos atrás

O mês e meio de férias estava na recta final.
Depois da tranquilidade do sotavento, a tranquilidade do barlavento algarvio.
Umas férias a três. Um casal e um sofá com rodas e vista panorâmica.
Naquela madrugada de 25 de Agosto, deu-me mais uma vez sede.
Talvez um cigarro na varanda, a contemplar as luzes dos barcos.
Já agora, liga-se o rádio. Quase hora das notícias. Baixinho, para não te acordar.
Não retirei de imediato o significado da torrente de palavras que dele saía.
Quando finalmente tracei o quadro, já estavas a meu lado, de lágrimas nos olhos.
Parte das nossas memórias ardeu nesse dia.

24/08/2004

Desporto e competição



Às vezes tenho as minhas teimas com um velho amigo. A propósito da confusão entre actividade do corpo, desporto e competição. O homem é formado na área e tem lá os seus conceitos.
Parece acima de tudo que a palavra desporto é a que mais problemas levanta.
Quando eu lhe falo em fato e gravata como traje sport, ele, que é ainda novo, franze a testa.
E quando lhe digo que a palavra desporto sofreu uma evolução semântica acentuada e que designa hoje algo completamente diferente do que designava um século atrás, ele até aceita o argumento.
Não faço ideia (alguém faz?) do que é que esteve por detrás da primitiva ideia olímpica.
Mas estou mais inclinado para um peso maior do factor competição do que do factor desportivo na acepção antiga (mas moderna) de actividade lúdica.
Na Era Moderna, fica-se com a ideia mais ou menos ingénua de que a intenção era juntar os povos do mundo, pô-los a competir de forma pacífica e celebrada e ver qual é mais rápido, mais forte, qual chega mais alto.
Tanto se tratou de povos que mais tarde até se imortalizaram os cinco continentes com cores simbólicas.
É sabido que a História já se tinha encarregado de misturar as cores. Fê-lo desde sempre, separando e misturando. Não há nisso qualquer novidade. De umas vezes em episódios trágicos, de outras de forma mais pacífica e tolerada.
Mas ainda assim, numa época em que as fronteiras eram riscadas a lápis em cima de uma mesa, se pretendia que a cada território entre traços, novos ou velhos, mais rectilíneos ou mais naturais, de festos e talvegues, correspondesse uma certa representação.
Hoje, não é disso que se trata.
Independentemente de trajectos particulares, o que se verifica é uma venda de lugares num certame altamente voltado para o lucro.
Oferecem-se vagas como nas empresas. Há um lugar vago aqui, outro ali, troca-se de camisola e já está.
Não teço considerações valorativas em relação a isso.
Há muito que aquilo a que hoje se chama desporto está sujeito a essa lei. Clubes de bairro, de cidade, selecções nacionais há muito que não representam coisa alguma. Isso é um facto. Se é bom ou se é mau, fica ao juízo de cada um.
Nestas coisas, procura-se ver sempre os melhores. Se essas vagas não estão preenchidas e se alguém com talento as preenche, nada contra. Mas então é preciso rever o significado deste encontro. Que não será de povos, mas de campeões.

23/08/2004

The Café do Manel ice age



O pacote chegou pelo correio. Meio amarrotado, gordo e carimbado.
As folhas A4 vinham dobradas ao meio, como se a pressa tivesse impedido de acomodar de outra forma o conteúdo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o gráfico. Uma banda cinzenta (seria grisé?) sinusoidal com limites superior e inferior a traço preto de 0,35 mm.
O homem apareceu quando eu analisava o pedido. Estranhei aquela bizarria de não ser ele próprio o portador da coisa. Explicou-me que calculara mal o tempo que a coisa demoraria na malaposta. Esperava que eu já tivesse os dados naquela altura.
Explicou-me então o que queria, dispensando-me da leitura do abstract.
Ao contrário do que seria de esperar, nenhum dos circunstantes se detinha na nossa conversa em inglês. Nem sequer nos miravam.
O Manel trouxe os cafés e tão pouco deitou o rabo do olho para as folhas.
O.K.. Era então medir a duração do dia. Não me ocorreu perguntar-lhe com que instrumento o faria. Convencido estava de que ele mo forneceria mais tarde.
Percebi finalmente que a agitação dele se prendia com o facto de aqueles serem os últimos resultados de que necessitava, para expôr as coisas e mandar para os árbitros, antes que a outra equipa o fizesse. Deu-me a entender que eram nórdicos.
Quando trocámos o último e-mail, já só havia uma questão para discutir.
Se ele aceitava "The Café do Manel Ice Age" ou se insistia na versão totalmente inglesa que me parecia disparatada e da qual já nem me lembro.
Aceitou.

imagem adaptada de

22/08/2004

Azul marinho

As conversas nocturnas têm destas coisas.
Dos motores de rabeta (não, não é isso - são fora de borda, mesmo) aos petiscos regionais, tocam de tudo.
Essa do azul marinho surpreendeu-me.
Não é que não haja já vasta teorização sobre o assunto. Mas a comida de cor azul é sempre um mistério.
Sabemos que há uns frutos mais ou menos a descambar para o azul. Assim de peixes ou mariscos, também se pode dizer o mesmo. Mas azul marinho...
Por alguma razão, o azul não entra pela boca. Ou porque não há nada que valha a pena ou porque os olhos nesse caso são menores do que a barriga, quem sabe se alerta para eventuais perigos. Mas isso também se diz das bagas vermelhas e nem por isso se deixam de comer.
Azul marinho como nome de iguaria, não promete muito. Lá fui ver a foto. Azul? Onde? Um pratinho de praia com óptimo aspecto.
Depois, fiquei a saber que preparada numa panela de ferro e em determinadas condições, a banana verde dá ao molho um tom azul sim.
Lá fiquei eu com vontade de provar. A minha ignorância era total na banda do azul.

receita aqui e em muitos outros lados

21/08/2004

A paranóia securitária



Já aqui falei sobre o conceito de acidente.
E de como se pode estabelecer uma relação entre o grau de conhecimento das condições envolventes e a ocorrência de acidentes.
Grosso modo, a queda de um raio sobre uma pessoa é um acidente. Mas se essa pessoa dispuser do conhecimento que lhe permita fabricar um pára-raios e não o tiver feito, pode dizer-se que concorreu para o desfecho.
No limite, se se domina completamente um sistema e se alguma coisa falha, alguém terá falhado em algum lugar. É a velha máxima de que o material tem sempre razão.
Não se trata assim de acidente, trata-se de uma falha.
O problema aqui é que normalmente todos nos esquecemos de que somos humanos. Os outros tanto quanto nós.
Vários factores concorrem hoje para a paranóia securitária em torno de tudo e mais alguma coisa.
O primeiro, que é aparente e sendo aparente não deixa de ter reflexos reais, é essa espécie de ingenuidade que transparece das vozes que se espantam com a morte.
Porque é que eu digo que é aparente? Porque sabendo todos nós que a morte nos ronda do primeiro instante ao penúltimo, já que no último ataca finalmente, continuamos ingenuamente a julgar que assim não é. É o que vemos diariamente nas televisões, é o que lemos nos jornais, é o que ouvimos na rua - Não devia ter acontecido.
Dir-se-á que essa ilusão é fundamental à sobrevivência. Assim o julgo também.
O segundo, é essa espécie de superprotecção a que todos nos julgamos com direito, mesmo que os nossos comportamentos sejam arriscados. E que reivindicamos peremptoriamente para as crianças, sem que muitas vezes as alertemos para os riscos que correm.
Mais ainda, é ignorarmos que todos nós, enquanto crianças, corremos riscos. E que são esses riscos que corremos com maior ou menor consciência e os actos falhados de que resultam mazelas, que nos ensinam e nos alertam mais do que qualquer conselho.
Acidentes houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com eles.
Incúria houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com ela.
Incúria de quem sofre os acidentes ou de quem os propicia.
Mas se se combate com unhas, dentes e gritos ferozes a incúria dos segundos, não será também altura de ensinar algo aos primeiros?
As coisas novas sempre provocaram morticínio. A máquina a vapor, o caminho de ferro, a electricidade, os automóveis, até os banhos de mar para os de sequeiro.
Mas depois atinge-se um patamar.
O que espanta às vezes é que se volte atrás.
Parece que se criou uma ilusão de que nada comporta riscos.

20/08/2004

CDC - Clube das donas de casa


A calamidade que chega por decreto

Às vezes, vêm-me à cabeça as desgraças biblícas. Ainda que, em alguns casos, seja patente o castigo divino e a precedente sentença, não há notícia de redução a escrito dos divinos desígnios.
No mundo dos ateus, onde estas coisas são um bocadinho mais prosaicas e as desgraças chegam ou pela mão do homem ou pela força dos elementos, há, desde há alguns anos, essa figura bizarra da calamidade por decreto.
Decretar uma calamidade é um gesto político da mesma grandeza e teor do de pedir uma maioria absoluta.
Quem pede uma maioria absoluta, quase sempre o faz tendo em vista uma certa marca de vodka e copo cheio, é bom de ver. É um pedido interessante, tão interessante que todas as campanhas eleitorais são marcadas pela sua ocorrência. Há o antes e o depois do pedido de maioria absoluta. Já pediu a maioria absoluta? Desde que pediu a maioria absoluta...
Já se pedem votos há muitas centenas de anos mas fica sempre bem mudar os vocábulos.
Decretar uma catástrofe (e pedi-la) suscita as mesmas empolações junto de jornalistas e, muito mais, junto dos autarcas envolvidos.
Só que aqui a coisa é mais palpável, embora também fortemente metáforica. Não é obviamente a catástrofe aquilo por que tanto anseiam uns e outros. É o dinheirinho.
Fica mais adequado pedir a catástrofe. É que pedir dinheiro dá ao outro o estatuto de esmoler.
Mas algum dia, alguém haveria de pegar na palavra e dar-lhe a volta. Foi agora.

Espero que o estado ajude quem precisa.
Espero também que o estado saiba legislar para punir exemplarmente os responsáveis por futuros casos semelhantes. Se não pode exercer o direito de regresso sobre quem causou avultados prejuízos, é bom que saiba afastá-los de uma vez por todas e por longo tempo do convívio social.
E já agora, mudem lá o nome à coisa. Calamidades por decreto - não, obrigado.

19/08/2004

O público louvor

Há os da praxe. Ordens de serviço. Diários da República.
Há os do palco e transmissão em directo.
De cada vez que vejo um ajuntamento de louvados, vou sempre à procura das caras desconhecidas. Há poucas.
Não há ninguém perfeito e isso de prestar serviços à Pátria é o raio de uma coisa danada de se medir.
Mas há gente, até em bom número, que aqui e ali, tem servido e bem os outros. Não tenho disso a menor dúvida. Tanto quanto mo permite a conjectura e a amostra que conheço.
Já duvido e muito que o proveito seja igual à fama. Não duvidamos todos?
Por isso, de cada vez que vejo as tais caras desconhecidas, fico satisfeito. Pode até ser que me engane. Mas fico.

17/08/2004

Causas e efeitos

Um bom carro, em bom estado de conservação, um condutor calmo, experiente e dominador da máquina, uma estrada bem projectada e bem mantida, boas condições atmosféricas e boa visibilidade, tráfico reduzido, eis o risco reduzido na circulação.
Se em vez dos 120, pudesse rodar a 160, a 180, certamente que o poderia fazer ainda em segurança, em alguns troços e sob determinadas condições.
O busílis da questão é que quando se aumentam ou reduzem os limites de velocidade, o número de acidentes acompanha a variação.
Não vale a pena vir com isto e com aquilo, os números estão lá para contrariar.
A nossa ciência, não nos esqueçamos, é em grande parte de base estatística.
É com base em estatísticas que avança a medicina, a engenharia, a agronomia e outras disciplinas menos científicas.
O mesmo é dizer que, não se conhecendo em pormenor os mecanismos que regem determinados fenómenos, é com base na experimentação e na catalogação de resultados que se tiram prováveis conclusões.

Interessa-me hoje falar numa questão que é mais ou mais menos conhecida. E que é descrita e denominada de diversas formas. Chamemos-lhe auto-alimentação, reacção em cadeia ou outra coisa qualquer.
Observa-se que o fenómeno do suicídio parece auto-alimentar-se.
O conhecimento de um acto suicida parece despoletar em outros a mesma intenção. Há assim uma espécie de crises limitadas no tempo e que se limitam no espaço dependendo da propagação da notícia.
Já aqui referi o bizarro e tragicamente irónico caso da avenida de Ceuta, anos atrás.
De como a ampla divulgação do caso parece ter despoletado uma crise.
De como um grosseiro erro jornalístico motivou a deslocação do cenário dos suicídios, do local onde o primeiro ocorreu para o local que erradamente os jornalistas deram como tendo sido o da tragédia.

É sabido que em tempos mais remotos se tendia a esconder uma tragédia ou a sua verdadeira dimensão. Concorrendo com isto, havia também um reduzido leque de meios ao dispor da imprensa.
Tome-se o caso tão discutido das inundações de Novembro de 1967.
Ainda hoje se não sabe a extensão dos danos pessoais que causou.
Algures entre os acanhados números oficiais e os decerto empolados palpites jornalísticos, há-de estar um valor realista.

Hoje, a imprensa selecciona mais ou menos arbitrariamente as tragédias a divulgar.
Um exemplo disso é a comparação entre as reportagens dos incêndios deste ano. Comparar a divulgação dos que ocorreram durante o Euro 2004 e os que ocorreram após.
Claro que são as prioridades. Os meios não chegam para tudo, sabemos isso.

Partamos agora do princípio conjectural de que o incendiarismo é um fenómeno que pode ser auto-alimentado da mesma forma que o suicídio.
A questão que se coloca é que, a ser verdadeira esta conjectura, de cada vez que se propagandeia um fogo, se está a incutir em quem tem essa pulsão, o desejo de incendiar.

Como é que se arrumam todas estas linhas?
Da seguinte forma:
Se é certo que as estatísticas nos fornecem dados úteis para avaliar os fenómenos, porque não testar isso em alguns campos?
Se a conjectura que acima expus e que é de resto partilhada por muitos, tem alguma probabilidade de ser verdadeira, porque não pô-la à prova?
Se ao tempo da censura e do lápis azul, sucedeu uma aparente licença de tudo publicar, não haverá campo para restringir a informação em fenómenos como o do incendiarismo que, até prova em contrário, não porá em casa nenhum dos valores democráticos tão insistentemente reclamados a troco de tudo e nada?
Até porque, como se viu, nem sempre os fogos são matéria interessante. Havendo futebol a rodos, lá ficam para trás.
Fosse isto experimentado e feitas depois todas as correcções relacionadas com as condições atmosféricas, sabendo já que todos os factores da dita correcção são falíveis e incertos, ter-se-ia uma ideia se vale ou não a pena.
É claro que essas notícias vendem jornais e espaço publicitário. Eu sei disso.
É claro que tudo isto é de uma ingenuidade gritante.

Tenho notado, no entanto, que não tem havido divulgação de suicídios na imprensa. Que eu tenha dado por isso.
Ou de carros a circular em contra-mão.

16/08/2004

Mudança de ano

O pai de J. não sabia como e quando ele tinha começado a ler. Só as maiúsculas de imprensa.
Lia e escrevia, conquanto-a-escrita-se-fizesse-com-hífenes-a-separar-as-palavras-já-que-J.-não-dominava-os-espaços-entre-as-letras-e-entre-as-palavras-e-sabendo-disso-era-dessa-forma-que-separava-uma-palavra-da-outra.
Talvez que J. soubesse ler as palavras, mas decerto não lhes conhecia o significado muitas vezes.
O que é isto? O que é que quer dizer?
Nesse dia, o pai de J. lia o jornal que o fornecedor habitual acabara de lançar quinze metros no ar até à janela.
J. estava virado para a primeira e última páginas, atrás das quais o pai se escondia, e deu-lhe para perguntar porque é que o jornal era todos os dias diferente, excepto o cabeçalho e um certo número.
Qual número?
Este.
Ah, isso é o ano.
E o ano também muda?
Ditos

Quem não sabe o que há-de fazer, faz colheres.
Ou fotografa talheres.
Ou escreve um blogue.


15/08/2004

Linha de meta


A carreira

Não se pode dizer que nesse tempo o homem passasse com distinção no teste do álcool.
A verdade é que as paragens da camioneta eram tabeladas pelo gorgolejar da mini, a mão esquerda em punho sobre o balcão, o corpo a três quartos de volta, o olhar de esguelha para os passageiros embarcados, e pelo monossílabo abaladiço enquanto a mão direita compunha a bóina.
Era assim.
Mas nesse dia, depois da trovoada associada à depressão de origem térmica, o horário foi furado.
Numa das paragens saí da camioneta também. Fui à mini, tal qual o homem.
De volta à carreira, vi-o dar mais três passos do que a conta.
Quatro ou cinco homens olhavam para o chão.
Um deles atirou qualquer coisa.
Folhas de couve de chapa nove e almirantada efígie circulavam calmamente de mão em mão.
Numa poça de água, melhor dizendo num buraco cheio de água, as moedas caíam e recuperavam-se em ritmo lento.
A carreira atrasou-se uns cem escudos nesse dia.



imagem retirada de

13/08/2004

Novidades

O homem naquele dia não se calava ao telefone.
Tratava-se de combinar uma ida a petisco e ele só lhe dava na mesma tecla. Que eu me preparasse, que as surpresas iam ser muitas.
Ainda lhe disse que nunca fui muito de ficar de boca aberta e que quando isso lá acontecia, pedia de imediato que me colocassem uma maçã entre os dentes, ficando não como o bácoro dentro do cesto, mas como o dito já pronto a servir.
Ele que não, que as coisas iam ser muito piores do que eu podia imaginar.
Ainda lhe disse que não seriam piores do que eu sempre as imaginei e que, por maior que fosse a montanha, não seriam mais do que ratos o que restaria dela quando a feira se desmanchasse.
Ainda argumentou comigo.
Suponho que a maior parte dos portugueses recebeu telefonemas do homem.

12/08/2004

Linhas


Por falar em publicidade

Os meus leitores não concordam comigo que a qualidade actual dos anúncios é pouco mais do que péssima?
Refiro-me aos da rádio, que são aqueles a que me submeto quase o dia inteiro.

10/08/2004

O pato de estabilidade

O Zé ainda não fora descoberto a comer um fardo de palha, escondido por uma manta.
As moças também ainda não tinham sido postas a um canto. O cantorio ainda não tinha por isso começado.
Resumindo, ainda se viam os pares.
Foi aí que começou a perturbação. O dono da casa irrompeu no celeiro e subiu aos fardos de palha do lado contrário ao do Zé.
Parou a música.
"Quem é que matou o meu pato-viúvo?"

Parecia mal abusar assim do anfitrião.
A guarda chegou pouco depois, atraída pelas luzes dos carros na charneca.
Enquanto cumprimentava o sargento, juro que ouvi uma voz do outro lado do monte:
"O quem? Eles em serviço não podem beber! Agora cá comer pato!"
Destinos assim


Intrigante adenda ao post de anteontem

Afinal, nem todos os telefonemas foram imaginários...

09/08/2004

Matinal


Cidadania

Não sei se são os mesmos que tanto se indignam com a repetição dos incêndios.
Não sei se são os mesmos que tanto se indignam com a repetida incompetência aqui e ali.
Não sei se são os mesmos.
Mas alguém é. Alguém repete o tradicional chorrilho de asneiras ao volante quando a chuva volta. E quando não é da chuva, é das calças.
E não é invulgar ver-se a passividade dos próprios relatando para as câmaras que nada havia a fazer. Se estava já tudo enfeixado...
Mesmo o motorista de um autocarro de passageiros que há uns anos acabara de matar duas pessoas, dizia calmamente que quando dera por ele, já estavam todos parados e enleados na auto-estrada. Não conseguiu parar pois.
Não sei se são os mesmos. Mas alguém é.



A5, entre as 15:02 e as 15:06 de 8/8/2004, em três locais distintos - imagens do IEP

08/08/2004

Chuvas de verão

Não é o cheiro da terra molhada que recordo, esse reservo-o para os inícios do Outono, para as tardinhas em que os que caçavam reconheciam perdizes e falavam de lebres agachadas.
Não é o piso de manteiga, esse reservo-o para a memória das lições que recebia do meu tio, ainda mal chegava aos pedais do faruque.
Não são as goteiras nos toldos das esplanadas, essas reservo-as para as vilegiaturas tardias em cafés desertos.
Não é a torrente barrenta entre seixos que descia pelo largo, essa reservo-a para alturas da feira de Castro.
Sempre que chove no verão, sempre que chove no meu verão, vêm-me à memória cordas e aprestos de barcos, o defunto pontal de Sines e banhos de água cadente, dentro ou fora das ondas da praia Vasco da Gama.
Sempre que chove no meu verão, vejo as lentas gotas escorrendo da nespereira em frente da janela, ou a cor húmida das flores avistadas pelos postigos da cozinha.
Nada disso existe mais.



imagem do IEP
O esperto

O esperto é fácil de identificar quando se sente em inferioridade.
Depois de debitar os habituais lugares-comuns sobre a esperteza saloia dos outros, destrunfa.
Se, à medida que carteia valetes e damas, sente o adversário inabalado e talvez inabalável, muda o rumo do jogo e já só pensa em narrar episódios de jogos que só ele jogou.
Aqui, normalmente, recebe telefonemas imaginários. De toda a sorte de figuras e figurões.
Vê-se que fez algum trabalho de casa. As pessoas com quem fala através de ligações que só ele conhece, são quase todas identificáveis pelo interlocutor. Nada de detalhes óbvios.
Depois vangloria-se de coisas que ele mesmo acha normais.
Depois queixa-se insustentadamente.
Quando sai de cena, na dele glória, vai em cima da caixa de carga de um veículo próprio. O volume que se distingue na algibeira da camisa é o livro de cheques, claro. Volumoso? Sim. Recheado de notas gordas.
Notas de rodapé, digo eu.
E dia de tempo urbano


Dia de tempo antigo


06/08/2004

As reacções

Seja lá pelo que fôr.
Seja pela universidade do disparate, que cada vez tem mais discípulos assíduos.
Seja pela pressão da imprensa, cada vez mais intensa e em todo o campo.
A verdade é que as reacções aos acontecimentos, sejam eles acidentais ou intencionais, sejam palavras ou actos, são normalmente de um teor em disparate muito maior do que os acontecimentos que as motivam.
Até quando reagem a algo que nunca aconteceu. E isso é o que não falta.
Zambujeira

Memória balnear de há 72 anos.
O cavaleiro na falésia.
As casas do lugar couberam todas na fotografia.

03/08/2004

Equinócios, doutores e a vida no campo

Deve haver aqui um pequeno equinócio - remata muitas vezes assim um velho amigo.
Mais pelo gosto de ser equívoco do que pela metáfora de um de trevas para um de luz.
Nos dias que correm, a nova urbanidade traz-nos os mais diversos exemplos de distância em relação à observação simples das coisas simples.
A distância em relação a uma certa escala de observação, dita humana. Ou, para outros, primitiva.
A escala em que se observa o nascimento de um borrego, sem cuidar de veterinária ou de biologia.
A escala onde se percebe que o leite não se fabrica nos supermercados, sem cuidar de marketing ou de economia.
Uma das coisas que me levou hoje a escrever este post foi ter constatado que, para um número de pessoas muito superior ao por mim esperado, a propósito de certa conversa, os dias de Agosto não são sucessivamente mais pequenos.
Que, segundo as mesmas pessoas, toda a gente sabe que os dias só começam a ser mais pequenos a partir de Setembro (do equinócio, portanto).
Há aqui duas coisas que concorrem para o erro.
A primeira é o esquecimento das mais básicas instruções sobre o ciclo solar anual, que nos foram ministradas nos anos mais remotos de escola.
A segunda é a completa inobservação das coisas simples.

Em tempos, numa daquelas situações em que ouvimos falar sucessivamente de alguém e nos encontramos inúmeras vezes na iminência de o conhecer sem que tal acabe por acontecer, era de um investigador que me falavam. Amigo e colega das pessoas que assim o anunciavam.
Sem conhecer a pessoa, ficou-me apenas um aspecto que adrede era mencionado. Que, no meio dos dados experimentais que recolhia, não se dava conta da absurdidade dos mesmos.
E a justificação que, em seguida, davam para o facto era a de que já não tinha os pés na terra.

O que me leva para a dita terra, para o campo, onde ainda encontro a atenta observação das coisas simples.
E a sua interpretação, a uma dada escala.
Talvez por as variáveis em observação serem poucas, talvez por os dados apresentarem pequena dispersão em relação ao esperado, numa curva que já está atavicamente presente no espírito de cada um, haja poucas surpresas.
E, quando existem, a essa escala, há sempre teses para as explicar. Mais ou menos razoáveis.
Basicamente, ninguém se surpreende ou se comove como acontece na urbanidade desenraizada.
E também se erra menos.

31/07/2004

A estrada do sul



Em tempos, esta teria sido a altura de rumar ao sul. Em outros tempos ainda mais longínquos, ainda faltaria um mês.
Em tempos, cumprir-se-ia o ritual da pré-travessia em Belém ou no Cata-que-Farás.
Esperar na fila. Mais dois ferries e é a nossa vez.
Depois, as manobras devidamente comandadas para encaixar a viatura no meio dos camiões.
Se era dia de águas agitadas, o mais certo era presenciar um encosto e um espelho partido. E os habituais lamentos.
Uma vez de novo em terra, era ir pela E.N.10 passando pelas terreolas de casinhas baixas até se entrar em estrada aberta, depois do Fogueteiro, e pouco depois se avistar a chama no topo das chaminés dos altos fornos.
Depois havia o entroncamento de Coina, com a respectiva bomba de gasolina e uns armazéns.
Seguiam-se as terras de Azeitão. O café da bifurcação, as caves, a garagem da João Cândido Belo, a subida em recta da serra, a capela lá no alto, e a descida em curvas até se passar pela fonte e se entrar numa sequência de rectas até à cidade do Sado.
Lá estava a Boîte, em grandes letras, à entrada.
Trajecto pelo centro e passagem sob a linha do Sado, praça de touros à direita e já se saía.
Depois, no lugar das Pontes, umas quantas casas e novamente a estrada.
Águas de Moura. Bomba de gasolina com belos arcos em betão e ponte da Marateca.
E.N. 5. Rectas e condado de Palma.
Mais rectas e a várzea do arroz. Sobe-se para Alcácer e desce-se para lá entrar.
Café Sado. A ponte cujo mecanismo levadiço parecia já não funcionar.
E.N. 120. Depois a recta de todos os perigos. Bermas de areia, pinheiros rentes. Muito antes do Chinita e de quaisquer outros pontos de paragem.
Em Grândola, depois da primeira curva em vinte e tal quilómetros, o depósito da água e o Paraíso do Alentejo com as suas bombas de gasolina, que ainda lá estão.
Na 259, ainda se passava por Canal Caveira, também muito antes do cozido aparecer num pátio improvisado, e caso a passagem de nível estivesse fechada, lá se fazia o corta-mato por debaixo da ponte ferroviária, rentinho ao encontro. Barro seco no leito estival.
Mas de Grândola em diante, já era o deserto. Raro era encontrar outro carro na estrada.

Mais uns dois ou três dias e já torrava ao sol. Em praias desertas.

Com os anos, com a ponte, com o aumento do tráfego, as novas rotas desertas de fugir aos engarrafamentos.
Depois da 264 chegar ao Algarve, depois de chegar também a Ourique.
Depois de todas as variantes, depois do velho sonho, tantas vezes ouvido nesses tempos, da ponte do Montijo, depois da auto-estrada finalmente ter passado o cabo das Tormentas, ironicamente chegando aos meus sítios, cinco dias depois do meu adeus, já não vou.
Já não vou para sul.

imagem de

30/07/2004

A mulher-cobra



Ainda me vejo naquela tenda com Miss Maura (tambores) a deixar-se conhecer assim que descerraram a caixa onde habita.
Não me recordo se Miss Maura (exclamações) disse do que se alimentava.
Recordo-me do turbante violeta de Miss Maura (suspiros).
Ainda me vejo a tentar perceber se alguém se convencia da sua maldição.
Soube que uma mulher vagamente parecida com Miss Maura comprara uma caixa de Omo lá na loja.

imagem conseguida depois de roubar partes aqui, ali e acolá

28/07/2004

O jornalismo especial de corrida

O jornalismo especial de corrida é aquela variante em que o jornalista corre atrás da notícia, para um lado qualquer do país, fora do seu mapa mental.
Quando lá chega, não sabe onde está.
Aí, começa a reportagem. Os exemplos são diários.
Tome-se o caso do incêndio de São Barnabé. Depois de ter passado a fronteira dos reinos, o que fez ainda na segunda-feira, passou a ser dois.
Um em Almodôvar, outro em Loulé. Depois tão depressa volta a ser um como dois de novo.
Até no site do SNBPC, parece que são dois.
Ninguém nesta terra saberá interpretar uma carta?

(actualizado às 10:25 de 29/07/04 - o último comunicado do SNBPC, de 28/07/04, 19:20, ainda não acessível na rede quando este post foi escrito, já refere um só incêndio)

27/07/2004

O Inferno (ainda)

Era para escrever sobre o que vi hoje, pela madrugada, entre serras.
Mas face a tanto disparate, lido e ouvido, guardo-me para tempos mais serenos.
Era uma visão dos infernos.


Posto de vigia do Mu