06/10/2004
Susto
O homem ia para casa, depois de um dia de trabalho.
Acabara de atravessar a passadeira quando começou a ouvir os insultos.
Estacou. Eram cinco em cada carro, com cara de poucos amigos.
Quando saiu o primeiro, do carro da frente, desviou-se para não ser abalroado.
Em três tempos, sentiu uma mão a agarrar-lhe o garganhol.
Dobrou as pernas e balbuciou: "Eu não..."
Os demais circunstantes apreciavam a cena. Ninguém se apercebera de que ele era alheio à refrega.
Abriu a boca de espanto quando o seu algoz, desmanchando-se a rir, perguntava aos demais contendores: "Mas quem é este gajo?"
Já não foi capaz de se indignar, como os restantes espectadores, quando se aperceberam da farsa.
Ainda levou um palmada nas costas e um desculpe lá, mas o ruído das buzinas, até aí caladas de suspense, não o deixava perceber fosse o que fosse.
Os dez entraram para os carros, e ele julgou ter notado que alguns entraram para o carro errado.
O homem ia para casa, depois de um dia de trabalho.
Acabara de atravessar a passadeira quando começou a ouvir os insultos.
Estacou. Eram cinco em cada carro, com cara de poucos amigos.
Quando saiu o primeiro, do carro da frente, desviou-se para não ser abalroado.
Em três tempos, sentiu uma mão a agarrar-lhe o garganhol.
Dobrou as pernas e balbuciou: "Eu não..."
Os demais circunstantes apreciavam a cena. Ninguém se apercebera de que ele era alheio à refrega.
Abriu a boca de espanto quando o seu algoz, desmanchando-se a rir, perguntava aos demais contendores: "Mas quem é este gajo?"
Já não foi capaz de se indignar, como os restantes espectadores, quando se aperceberam da farsa.
Ainda levou um palmada nas costas e um desculpe lá, mas o ruído das buzinas, até aí caladas de suspense, não o deixava perceber fosse o que fosse.
Os dez entraram para os carros, e ele julgou ter notado que alguns entraram para o carro errado.
05/10/2004
Outra concessão à bola
A história repete-se. Desta vez, logo à quinta jornada.
Será que os números nos pregam a partida? Eu cá não acredito.
O tipo das estatísticas é um chato.
A história repete-se. Desta vez, logo à quinta jornada.
Será que os números nos pregam a partida? Eu cá não acredito.
O tipo das estatísticas é um chato.
04/10/2004
Da música
Eu bem disse que as recordações podiam ser bizarras.
Ora era o tempo das Peugeot 504 cinzentas, aquelas de 7 lugares.
E era a época dos frios.
E era na estação de Beja, no largo da estação.
E a hora era a de aguardar que abrisse um café.
E a companhia era boa, muito boa.
E o rádio estava ligado, ah estava.
Foi exactamente assim que se ouviu, num daqueles programas para a gente da terra, o Marco Paulo a cantar "Mulher Sentimental".
Caramba. Logo o som havia de ficar na fita.
Eu bem disse que as recordações podiam ser bizarras.
Ora era o tempo das Peugeot 504 cinzentas, aquelas de 7 lugares.
E era a época dos frios.
E era na estação de Beja, no largo da estação.
E a hora era a de aguardar que abrisse um café.
E a companhia era boa, muito boa.
E o rádio estava ligado, ah estava.
Foi exactamente assim que se ouviu, num daqueles programas para a gente da terra, o Marco Paulo a cantar "Mulher Sentimental".
Caramba. Logo o som havia de ficar na fita.
Sítios raros
Falhou a rua que conduzia à casa.
Quando finalmente a descortinámos, na noite invernosa, via-se o muro alto da quinta e a casa envolta em escuridão.
Lá dentro, estava tudo na mesma. Como vinte e cinco anos antes, talvez trinta.
Sobre um aparador, revistas Flama e Plateia.
O frigorífico, de linhas abauladas, estava estranhamente a funcionar.
Lá dentro, uma tijela de caldo verde. Apenas isso.
O vinho novo, na adega, todo ele intragável, datava da mesma época. Novo de trinta anos.
E digo novo, porque tal como na casa, parecia improvável que os anos tivessem passado ali também.
Quando saímos, no dia seguinte, tive receio de deixar ali algo que fosse actual. Uma beata de cigarro dos anos 90 esquecida em algum cinzeiro, uma beata que fosse, seria carga a mais para aquele tempo.
Falhou a rua que conduzia à casa.
Quando finalmente a descortinámos, na noite invernosa, via-se o muro alto da quinta e a casa envolta em escuridão.
Lá dentro, estava tudo na mesma. Como vinte e cinco anos antes, talvez trinta.
Sobre um aparador, revistas Flama e Plateia.
O frigorífico, de linhas abauladas, estava estranhamente a funcionar.
Lá dentro, uma tijela de caldo verde. Apenas isso.
O vinho novo, na adega, todo ele intragável, datava da mesma época. Novo de trinta anos.
E digo novo, porque tal como na casa, parecia improvável que os anos tivessem passado ali também.
Quando saímos, no dia seguinte, tive receio de deixar ali algo que fosse actual. Uma beata de cigarro dos anos 90 esquecida em algum cinzeiro, uma beata que fosse, seria carga a mais para aquele tempo.
03/10/2004
Música
Já aqui falei dessa minha inaptidão.
Que não é a única.
Há quem ache que é estúpido alguém gabar-se da sua inaptidão para a matemática, para o desenho, para trabalhos manuais, etc.
Não sei se gabar é o verbo correcto. Embora haja casos em que parece isso mesmo.
Não me gabo, tão pouco me importa se parece estupidez ou não.
Mas é o que constato. Sou uma nulidade no campo da música. Com toda a certeza.
Por isso mesmo, a tal tarefa a que me propus, de reunir trechos musicais, canções que tivessem em alguma altura da minha vida sido o fundo das circunstâncias, não é uma tarefa fácil.
Claro que só é possível hoje dadas as facilidades de pesquisa que a rede nos proporciona.
Um verso, basta um verso de uma canção e apanha-se o fio à meada.
Já no caso da música sem voz, a coisa é muito mais intrincada.
Depois, depois de reunir um número considerável de peças, de as ouvir com alguma atenção, fica um certo espanto.
O espanto de como certas coisas quase inaudíveis se perpetuaram na memória.
E o espanto de imagens se formarem a partir de notas musicais, roufenhas ou claras como a água.
Já aqui falei dessa minha inaptidão.
Que não é a única.
Há quem ache que é estúpido alguém gabar-se da sua inaptidão para a matemática, para o desenho, para trabalhos manuais, etc.
Não sei se gabar é o verbo correcto. Embora haja casos em que parece isso mesmo.
Não me gabo, tão pouco me importa se parece estupidez ou não.
Mas é o que constato. Sou uma nulidade no campo da música. Com toda a certeza.
Por isso mesmo, a tal tarefa a que me propus, de reunir trechos musicais, canções que tivessem em alguma altura da minha vida sido o fundo das circunstâncias, não é uma tarefa fácil.
Claro que só é possível hoje dadas as facilidades de pesquisa que a rede nos proporciona.
Um verso, basta um verso de uma canção e apanha-se o fio à meada.
Já no caso da música sem voz, a coisa é muito mais intrincada.
Depois, depois de reunir um número considerável de peças, de as ouvir com alguma atenção, fica um certo espanto.
O espanto de como certas coisas quase inaudíveis se perpetuaram na memória.
E o espanto de imagens se formarem a partir de notas musicais, roufenhas ou claras como a água.
British Ever Ready Export Co.
Faltou a luz, veio-me esta imagem à cabeça
logotipo da BEREC encontrado aqui
Faltou a luz, veio-me esta imagem à cabeça
logotipo da BEREC encontrado aqui
02/10/2004
Jornais e lentes
Um mistério que para sempre ficará por resolver é o de os jornais haverem saído, anos a fio, daquela casa com milhentas sílabas sublinhadas a azul e, em certas épocas, só em certas épocas, com múltiplas queimadelas de aparente cigarro.
Mas não era cigarro.
Era a minha lente a funcionar.
Já nunca percebi o que levava o meu tio a sublinhar uns 5 a 10% das sílabas, não das palavras, não das frases.
Nunca ele se queixou de eu lhe queimar as margens dos jornais.
Nunca eu adivinhei o seu propósito ou lhe perguntei por quê.
Passávamos horas sem pronunciar uma única palavra.
P.S. - Além dos traços azuis subsilábicos, havia também uns números, de onde em onde.
imagem adaptada de
Um mistério que para sempre ficará por resolver é o de os jornais haverem saído, anos a fio, daquela casa com milhentas sílabas sublinhadas a azul e, em certas épocas, só em certas épocas, com múltiplas queimadelas de aparente cigarro.
Mas não era cigarro.
Era a minha lente a funcionar.
Já nunca percebi o que levava o meu tio a sublinhar uns 5 a 10% das sílabas, não das palavras, não das frases.
Nunca ele se queixou de eu lhe queimar as margens dos jornais.
Nunca eu adivinhei o seu propósito ou lhe perguntei por quê.
Passávamos horas sem pronunciar uma única palavra.
P.S. - Além dos traços azuis subsilábicos, havia também uns números, de onde em onde.
imagem adaptada de
01/10/2004
Olivença
Eu de facto não entendo por que é que, sabendo-se que os espanhóis pressionam para que se chegue a uma solução para Gibraltar, as autoridades portuguesas se limitam a apagar a fronteira da ocupação nos mapas oficiais e a desenvolverem contraditórias e insípidas reclamações sobre quem manda no Guadiana na zona da contenda.
Nem qual é o mistério por trás disto tudo.
Há um equívoco grande quando se diz que as nossas fronteiras datam do séc.XIII.
Eu de facto não entendo por que é que, sabendo-se que os espanhóis pressionam para que se chegue a uma solução para Gibraltar, as autoridades portuguesas se limitam a apagar a fronteira da ocupação nos mapas oficiais e a desenvolverem contraditórias e insípidas reclamações sobre quem manda no Guadiana na zona da contenda.
Nem qual é o mistério por trás disto tudo.
Há um equívoco grande quando se diz que as nossas fronteiras datam do séc.XIII.
Uns copos a mais
Polibruno estava feliz à saída das Caldas.
No fim da semana de trabalho, ocorrera-lhe presentear a esposa com um serviço de couve.
Esperámos todos no carro, enquanto o adivinhávamos regateando preços.
Lá saiu altivo, uma boa meia hora depois, segurando o atilho.
Mal se instalou no banco do carro, desatou a desembrulhar tampa por tampa, tigela por tigela.
Mais para conferir de novo do que para nos mostrar a compra.
Claro que faltava a tampa de uma terrina.
Suplicou meia-volta mas não lhe fizémos a vontade.
O tá bem que soltou soava a soluço.
Mudou a conversa para os copos. Já trazia três ou quatro, só desse dia. Copos com publicidade qualquer um marchava. Insinuava-se junto do balcão mas não roubava nada a ninguém. Tinha portanto conseguido nesse dia os três ou quatro que agora nos mostrava.
A volta era larga. Havia que deixar um para os lados de Alcoentre, outro para os lados de Coruche e só depois a capital, já lá para o lado da meia-noite.
Chegados à zona de Coruche, o passageiro ali destinado entendeu pagar umas cervejas.
Enquanto escorria a cevada pelas goelas, Polibruno demorava os olhos pelas prateleiras de copos. Insinuou-se sem sucesso.
Foi quando reparou na panóplia de prémios pendurada na parede. Em lugar central, um relógio que parecia de cuco.
Polibruno perdia apostas regularmente. Bastou-lhe elogiar o relógio para que o outro lhe dissesse, desdenhando, que o relógio era em plástico bera.
Polibruno achava que não, que era de madeira legítima.
Estava o terreno preparado. Polibruno apostou.
Tirada a prova, Polibruno perdeu.
Que sim, que era uma boa imitação. Mas que, assim sendo, de nada valia. Mas Polibruno ainda fez preço a cada um dos itens da tábua de prémios. Lanternas, porta-chaves, isqueiros, facas, tudo avaliado. Feitas as contas, Polibruno concluiu que valia a pena investir na arrematação global, comprando os furos que faltavam.
Mas foi desimaginado disso pela nossa retirada intempestuosa.
O homem da terra convidou-nos então para um último copo em casa dele.
Depois dos cumprimentos à entrada, fomos conduzidos a uma sala onde pontificava um relógio...
Polibruno já não se deixou surpreender. Afirmou logo que era de plástico.
Não se ficou por aí. Alcançando a cristaleira, dobrou a espinha e arrebitou os olhos para a fila de trás, a dos copos marcados.
Ali mesmo fez preço à colecção. Com essa atitude, acabou estranhamente por conseguir mais dois para o pecúlio.
Saiu triunfante.
As horas já não eram para gente decente andar por aí.
O carro tinha pouca gasolina e as bombas tudo fechado.
Polibruno sugeriu Salvaterra. Nada.
Depois Benavente. Se não houver bombas, vou aos Bombeiros - dizia, puxando dos galões de voluntário.
Assim foi.
Polibruno dormia afinal quando estacionámos no parque dos Bombeiros.
Acordou estremunhado e precipitou-se para fora do carro, levando no colo os copos do dia.
Desastre. Polibruno quase chorou. Logo aqueles dois que lhe tinham dado em Coruche, tão difíceis de encontrar...
Mas lá foi.
Ao fim de uma hora, resolvemos saber da sorte do homem, desaparecido para lá de um portão de quartel de bombeiros.
Lá estava, em amena cavaqueira, junto a um auto-tanque.
Chamou-nos e apresentou-nos ao responsável de serviço.
Julguei nessa altura distinguir um brilho de alívio nos olhos do bombeiro.
Agradecemos e ainda ouvimos Polibruno virar-se para trás, confirmando:
"Têm aqui umas belas instalações!"
A razão da demora tinha sido mesmo a visita guiada ao quartel.
Ainda sugeri uma passagem pelo Colete Encarnado, que era noite da Sardinha Assada.
Mas pensando melhor...
copos daqui
Polibruno estava feliz à saída das Caldas.
No fim da semana de trabalho, ocorrera-lhe presentear a esposa com um serviço de couve.
Esperámos todos no carro, enquanto o adivinhávamos regateando preços.
Lá saiu altivo, uma boa meia hora depois, segurando o atilho.
Mal se instalou no banco do carro, desatou a desembrulhar tampa por tampa, tigela por tigela.
Mais para conferir de novo do que para nos mostrar a compra.
Claro que faltava a tampa de uma terrina.
Suplicou meia-volta mas não lhe fizémos a vontade.
O tá bem que soltou soava a soluço.
Mudou a conversa para os copos. Já trazia três ou quatro, só desse dia. Copos com publicidade qualquer um marchava. Insinuava-se junto do balcão mas não roubava nada a ninguém. Tinha portanto conseguido nesse dia os três ou quatro que agora nos mostrava.
A volta era larga. Havia que deixar um para os lados de Alcoentre, outro para os lados de Coruche e só depois a capital, já lá para o lado da meia-noite.
Chegados à zona de Coruche, o passageiro ali destinado entendeu pagar umas cervejas.
Enquanto escorria a cevada pelas goelas, Polibruno demorava os olhos pelas prateleiras de copos. Insinuou-se sem sucesso.
Foi quando reparou na panóplia de prémios pendurada na parede. Em lugar central, um relógio que parecia de cuco.
Polibruno perdia apostas regularmente. Bastou-lhe elogiar o relógio para que o outro lhe dissesse, desdenhando, que o relógio era em plástico bera.
Polibruno achava que não, que era de madeira legítima.
Estava o terreno preparado. Polibruno apostou.
Tirada a prova, Polibruno perdeu.
Que sim, que era uma boa imitação. Mas que, assim sendo, de nada valia. Mas Polibruno ainda fez preço a cada um dos itens da tábua de prémios. Lanternas, porta-chaves, isqueiros, facas, tudo avaliado. Feitas as contas, Polibruno concluiu que valia a pena investir na arrematação global, comprando os furos que faltavam.
Mas foi desimaginado disso pela nossa retirada intempestuosa.
O homem da terra convidou-nos então para um último copo em casa dele.
Depois dos cumprimentos à entrada, fomos conduzidos a uma sala onde pontificava um relógio...
Polibruno já não se deixou surpreender. Afirmou logo que era de plástico.
Não se ficou por aí. Alcançando a cristaleira, dobrou a espinha e arrebitou os olhos para a fila de trás, a dos copos marcados.
Ali mesmo fez preço à colecção. Com essa atitude, acabou estranhamente por conseguir mais dois para o pecúlio.
Saiu triunfante.
As horas já não eram para gente decente andar por aí.
O carro tinha pouca gasolina e as bombas tudo fechado.
Polibruno sugeriu Salvaterra. Nada.
Depois Benavente. Se não houver bombas, vou aos Bombeiros - dizia, puxando dos galões de voluntário.
Assim foi.
Polibruno dormia afinal quando estacionámos no parque dos Bombeiros.
Acordou estremunhado e precipitou-se para fora do carro, levando no colo os copos do dia.
Desastre. Polibruno quase chorou. Logo aqueles dois que lhe tinham dado em Coruche, tão difíceis de encontrar...
Mas lá foi.
Ao fim de uma hora, resolvemos saber da sorte do homem, desaparecido para lá de um portão de quartel de bombeiros.
Lá estava, em amena cavaqueira, junto a um auto-tanque.
Chamou-nos e apresentou-nos ao responsável de serviço.
Julguei nessa altura distinguir um brilho de alívio nos olhos do bombeiro.
Agradecemos e ainda ouvimos Polibruno virar-se para trás, confirmando:
"Têm aqui umas belas instalações!"
A razão da demora tinha sido mesmo a visita guiada ao quartel.
Ainda sugeri uma passagem pelo Colete Encarnado, que era noite da Sardinha Assada.
Mas pensando melhor...
copos daqui
30/09/2004
Continuo a não perceber
Eu sei que ando azedo. Mas há coisas tão recorrentes e tão irritantes, que não há como não me recordar deste post
Eu sei que ando azedo. Mas há coisas tão recorrentes e tão irritantes, que não há como não me recordar deste post
O mundo
Nesse tempo, o mundo chegava na camioneta das 9.
A televisão só começava lá pela tardinha.
As emissões de rádio mal se captavam ali, entre cêrros.
O mundo vinha assim dobrado e etiquetado, com o cheiro a tinta já misturado com odores de gasóleo mal queimado e outros, ocasionais companheiros de porão.
Desdobrava-se sobre o balcão e entre as letras distinguiam-se os tracinhos do linotipo.
Nesse tempo, o mundo chegava na camioneta das 9.
A televisão só começava lá pela tardinha.
As emissões de rádio mal se captavam ali, entre cêrros.
O mundo vinha assim dobrado e etiquetado, com o cheiro a tinta já misturado com odores de gasóleo mal queimado e outros, ocasionais companheiros de porão.
Desdobrava-se sobre o balcão e entre as letras distinguiam-se os tracinhos do linotipo.
29/09/2004
28/09/2004
Contágio
A nossa língua é de um absurdo macroscópico quando se trata de pedras na engrenagem - aqui há gato, seja ele bicho ou peça metálica.
Como se os olhos dos que falam a nossa língua só divisassem manchas de contornos consideráveis.
Já os moços que dominam estas coisas do software se socorrem de bichos mais pequenos, sabendo nós que desses bichos à transmissão de doenças, vai um saltinho.
Vem isto ao caso de, e para meter uma data de coisas no mesmo saco (de gatos, como se verá) a minha maquineta ter vindo a dar preocupantes sinais de bronquite.
Não sei mesmo se o facto de ela se desligar quando começa as iterações à caça da chave mágica do totoloto (não sabiam que eu era maluquinho?) tem alguma coisa a ver com o facto de outros computadores mais potentes se terem negado.
É claro que é coisa diversa. Aqui não há problemas de solução inextricável. É só passar os treze milhões e qualquer coisa de chaves pelos setenta e tal crivos, subdivididos em umas quantas condições, tal como se faz há cerca de vinte anos, sem sucesso.
Esta versão do programa, a 27ª, é até já antiga. E já está a dar as últimas. O departamento de desenvolvimento está cheio de ideias novas e já tem a coisa em fase de execução. Tem faltado o tempo.
Mas que é suspeito, é. Mal ele diz que excluiu à partida uns dois milhões de chaves, isto depois de ter feito já umas quantas iterações preliminares, dá-lhe a travadinha. E isto só aconteceu nestas últimas semanas.
Não sei o que pense. Ouvi mesmo agora dizer, e pela octogésima quarta vez, sendo dito como grande novidade, que a gripe das aves também se pode transmitir aos humanos.
Será caso?
A nossa língua é de um absurdo macroscópico quando se trata de pedras na engrenagem - aqui há gato, seja ele bicho ou peça metálica.
Como se os olhos dos que falam a nossa língua só divisassem manchas de contornos consideráveis.
Já os moços que dominam estas coisas do software se socorrem de bichos mais pequenos, sabendo nós que desses bichos à transmissão de doenças, vai um saltinho.
Vem isto ao caso de, e para meter uma data de coisas no mesmo saco (de gatos, como se verá) a minha maquineta ter vindo a dar preocupantes sinais de bronquite.
Não sei mesmo se o facto de ela se desligar quando começa as iterações à caça da chave mágica do totoloto (não sabiam que eu era maluquinho?) tem alguma coisa a ver com o facto de outros computadores mais potentes se terem negado.
É claro que é coisa diversa. Aqui não há problemas de solução inextricável. É só passar os treze milhões e qualquer coisa de chaves pelos setenta e tal crivos, subdivididos em umas quantas condições, tal como se faz há cerca de vinte anos, sem sucesso.
Esta versão do programa, a 27ª, é até já antiga. E já está a dar as últimas. O departamento de desenvolvimento está cheio de ideias novas e já tem a coisa em fase de execução. Tem faltado o tempo.
Mas que é suspeito, é. Mal ele diz que excluiu à partida uns dois milhões de chaves, isto depois de ter feito já umas quantas iterações preliminares, dá-lhe a travadinha. E isto só aconteceu nestas últimas semanas.
Não sei o que pense. Ouvi mesmo agora dizer, e pela octogésima quarta vez, sendo dito como grande novidade, que a gripe das aves também se pode transmitir aos humanos.
Será caso?
27/09/2004
O dia em que a guerra acabou
Pois foi. Foi nesse dia mesmo.
Ela ainda estava obrigada a comunicar o seu paradeiro, proibida de entrar na Cortina de Ferro, sujeita a escrutínio nas visitas que recebia.
Nesse mesmo dia, o homem reparou nela. Fazia um friozinho a mais na Praça Pigalle.
Ela tinha-se colocado sobre os ventiladores do metro.
O homem aproximou-se, dirigiu-se a mim e ao R.C., e só depois fez a vénia na direcção dela.
O francês dele era anguloso. Forasteiro como nós.
Que da primeira vez que estivera naquela praça, havia dezenas de pessoas deitadas junto dos ventiladores, pouco depois da guerra.
Quando a vira assim...
Disse que era de um dos países do Leste. Não comentámos o acontecimento desse dia, embora por todo o lado em Paris não se falasse de outra coisa.
Diziam que Mitterand havia afirmado que gostava tanto da Alemanha, que se houvesse duas, tanto melhor.
Mas ele estava mais interessado em nós. No que fazíamos, de onde vínhamos.
Quando lhe dissémos ao que vínhamos, abriu os braços. Que não acreditava.
Estava ali também para a Feira. Carteira em punho, mostrava credenciais. Dizia que eram de jornalista, de funcionário do estado, de diplomata. Vamos beber um copo. Fica para amanhã.
No dia seguinte, lá estávamos. No stand aprazado. Sem ela, que fora ver as modas.
Passámos uma primeira vez e nada do nosso amigo. Uma segunda e nada.
À terceira, foi de vez. Entrámos e perguntámos por ele.
Foi quanto bastou para nos colocarem num reservado, a sós com uma garrafa de scotch.
Mas nada de meninas, como tinha acontecido noutro sítio.
O homem não apareceu.
Pois foi. Foi nesse dia mesmo.
Ela ainda estava obrigada a comunicar o seu paradeiro, proibida de entrar na Cortina de Ferro, sujeita a escrutínio nas visitas que recebia.
Nesse mesmo dia, o homem reparou nela. Fazia um friozinho a mais na Praça Pigalle.
Ela tinha-se colocado sobre os ventiladores do metro.
O homem aproximou-se, dirigiu-se a mim e ao R.C., e só depois fez a vénia na direcção dela.
O francês dele era anguloso. Forasteiro como nós.
Que da primeira vez que estivera naquela praça, havia dezenas de pessoas deitadas junto dos ventiladores, pouco depois da guerra.
Quando a vira assim...
Disse que era de um dos países do Leste. Não comentámos o acontecimento desse dia, embora por todo o lado em Paris não se falasse de outra coisa.
Diziam que Mitterand havia afirmado que gostava tanto da Alemanha, que se houvesse duas, tanto melhor.
Mas ele estava mais interessado em nós. No que fazíamos, de onde vínhamos.
Quando lhe dissémos ao que vínhamos, abriu os braços. Que não acreditava.
Estava ali também para a Feira. Carteira em punho, mostrava credenciais. Dizia que eram de jornalista, de funcionário do estado, de diplomata. Vamos beber um copo. Fica para amanhã.
No dia seguinte, lá estávamos. No stand aprazado. Sem ela, que fora ver as modas.
Passámos uma primeira vez e nada do nosso amigo. Uma segunda e nada.
À terceira, foi de vez. Entrámos e perguntámos por ele.
Foi quanto bastou para nos colocarem num reservado, a sós com uma garrafa de scotch.
Mas nada de meninas, como tinha acontecido noutro sítio.
O homem não apareceu.
26/09/2004
25/09/2004
Hoje era mais
Pegar nela e ala para a feira. Depois comer a tal achegã*PUB, com vista para a mana.
*Dizem os eruditos que se deve grafar achigã. Mas isso é contra o meu alto critério.
Pegar nela e ala para a feira. Depois comer a tal achegã*PUB, com vista para a mana.
*Dizem os eruditos que se deve grafar achigã. Mas isso é contra o meu alto critério.
Feira de São Martinho
E já estamos na feira de São Martinho, fim do verão assim marcado
imagem da DGEMN
E já estamos na feira de São Martinho, fim do verão assim marcado
imagem da DGEMN
24/09/2004
Rádio
Um dos meus velhos amigos afirmava a pés juntos que o meu aparelho de telefonia dava notícias diferentes das do dele.
Em tempos que já lá vão, quando era época de noitadas de Rotring, e descontando o cansaço dos traços 0,35 e 0,18, eu próprio constatei que certas notícias madrugadoras e que prometiam celeuma certinha, aparentemente se esfumavam com os raios da aurora.
Vá se lá saber por que raio. Qual deles seria.
Dá-se o caso de ter aqui junto de mim um aparelho desses que, mesmo sem ser verdade, aparenta ter andado na guerra.
O som é mau, e lá porque sim, decide por conta própria mudar de frequência. Talvez não mude, talvez seja um fenómeno externo, alguma emissora que se sobrepõe, qualquer coisa do género.
Estou desta forma, e dada a minha proverbial preguiça, a ouvir um evangelizador.
A coisa não seria tão estapafúrdia não fosse o caso de ter acabado de ouvir uma rábula em que entrava um marido balbuciantemente bêbedo e a respectiva esposa farta. Farta de copos, farta de palavras imperceptíveis, farta de não ter dinheiro.
E de no meio do proselitismo redundante, ter ouvido apelos para comparecer na porta ao lado da oficina da Renault.
Dei-me conta que este rádio, por ter provavelmente andado na guerra à revelia do seu dono, poderia estar, por uma destas artes que desconhecemos, a captar sons do passado.
Mas temo que não, que não se trate de uma brincadeira como a que Matos Maia fez há décadas.
Um dos meus velhos amigos afirmava a pés juntos que o meu aparelho de telefonia dava notícias diferentes das do dele.
Em tempos que já lá vão, quando era época de noitadas de Rotring, e descontando o cansaço dos traços 0,35 e 0,18, eu próprio constatei que certas notícias madrugadoras e que prometiam celeuma certinha, aparentemente se esfumavam com os raios da aurora.
Vá se lá saber por que raio. Qual deles seria.
Dá-se o caso de ter aqui junto de mim um aparelho desses que, mesmo sem ser verdade, aparenta ter andado na guerra.
O som é mau, e lá porque sim, decide por conta própria mudar de frequência. Talvez não mude, talvez seja um fenómeno externo, alguma emissora que se sobrepõe, qualquer coisa do género.
Estou desta forma, e dada a minha proverbial preguiça, a ouvir um evangelizador.
A coisa não seria tão estapafúrdia não fosse o caso de ter acabado de ouvir uma rábula em que entrava um marido balbuciantemente bêbedo e a respectiva esposa farta. Farta de copos, farta de palavras imperceptíveis, farta de não ter dinheiro.
E de no meio do proselitismo redundante, ter ouvido apelos para comparecer na porta ao lado da oficina da Renault.
Dei-me conta que este rádio, por ter provavelmente andado na guerra à revelia do seu dono, poderia estar, por uma destas artes que desconhecemos, a captar sons do passado.
Mas temo que não, que não se trate de uma brincadeira como a que Matos Maia fez há décadas.
23/09/2004
Bóias, bolas, livros, postais ilustrados e jornais estrangeiros
Admito que não resisto a uma tenda assim.
Ainda que as de hoje tenham outro tipo de chamarizes, diversos dos da minha infância.
E que hoje são essencialmente os jornais que me atraem.
Não posso garantir que a minha primeira atenção para estes bazares tenha sido motivada por um certo livro em que pontificava João Bafo-de-Onça e que decerto terá sido uma desesperada prenda de meu pai, não porque a cria fosse rebelde ou desatenta mas por razões muito mais ponderosas.
Mas esse livro marcou-me. Não havia bóias nem bolas no quiosque ferroviário. Haveria com toda a certeza carteirinhas de cromos, jornais do dia, revistas pornográficas à socapa, livros de bolso, maços de tabaco, isqueiros para os detentores de licença e muito mais.
João Bafo-de-Onça ver-se-ia mais tarde que não seria a minha personagem favorita. No entanto, a sua imagem ficou gravada e provocou muito provavelmente a febre que consumiu durante anos os 20$00 mensais de Tio Patinhas e Mickeys.
Depois complementados com os Mundos de Aventuras, os Falcões, os Guerras, os FBI.
A questão das bóias e das bolas era que se constituíam, na terra alheia, em marco geodésico de onde a probabilidade de avistar as capas da devoção era alta.
Quase nunca me enganava.
Esse fascínio passou depois para os jornais. Os mesmos que lançava para a caixa do carro e lia de empreitada.
Quiosques ferroviários, bancas de jornais em cafés, quiosques de rua e papelarias de província são a minha perdição. Talvez nem mais nem menos do que uma livraria.
Tenho a quem sair. Não me faltam Argonautas, Vampiros, Livres de Poche e outras colecções por essas estantes.
Nota: sobre cromos, há uma interessante página de João Manuel Mimoso.
as capas dos livros foram obtidas em leilões on-line, ao que me recordo
Admito que não resisto a uma tenda assim.
Ainda que as de hoje tenham outro tipo de chamarizes, diversos dos da minha infância.
E que hoje são essencialmente os jornais que me atraem.
Não posso garantir que a minha primeira atenção para estes bazares tenha sido motivada por um certo livro em que pontificava João Bafo-de-Onça e que decerto terá sido uma desesperada prenda de meu pai, não porque a cria fosse rebelde ou desatenta mas por razões muito mais ponderosas.
Mas esse livro marcou-me. Não havia bóias nem bolas no quiosque ferroviário. Haveria com toda a certeza carteirinhas de cromos, jornais do dia, revistas pornográficas à socapa, livros de bolso, maços de tabaco, isqueiros para os detentores de licença e muito mais.
João Bafo-de-Onça ver-se-ia mais tarde que não seria a minha personagem favorita. No entanto, a sua imagem ficou gravada e provocou muito provavelmente a febre que consumiu durante anos os 20$00 mensais de Tio Patinhas e Mickeys.
Depois complementados com os Mundos de Aventuras, os Falcões, os Guerras, os FBI.
A questão das bóias e das bolas era que se constituíam, na terra alheia, em marco geodésico de onde a probabilidade de avistar as capas da devoção era alta.
Quase nunca me enganava.
Esse fascínio passou depois para os jornais. Os mesmos que lançava para a caixa do carro e lia de empreitada.
Quiosques ferroviários, bancas de jornais em cafés, quiosques de rua e papelarias de província são a minha perdição. Talvez nem mais nem menos do que uma livraria.
Tenho a quem sair. Não me faltam Argonautas, Vampiros, Livres de Poche e outras colecções por essas estantes.
Nota: sobre cromos, há uma interessante página de João Manuel Mimoso.
as capas dos livros foram obtidas em leilões on-line, ao que me recordo
22/09/2004
O problema
Não é assim tão grave não entrar à primeira com o binómio de Newton, embora não seja bom presságio.
Grave é acordar um dia atrás do outro sem o perceber.
O meu nível de exigência baixa, a azia volta e, chegados ao equinócio, é certo que o sol deixa de incidir na minha secretária.
Não foi ciência astronómica antiga, foi acaso da patobravice e da minha exigência baixa, já se vê.
Não é assim tão grave não entrar à primeira com o binómio de Newton, embora não seja bom presságio.
Grave é acordar um dia atrás do outro sem o perceber.
O meu nível de exigência baixa, a azia volta e, chegados ao equinócio, é certo que o sol deixa de incidir na minha secretária.
Não foi ciência astronómica antiga, foi acaso da patobravice e da minha exigência baixa, já se vê.
21/09/2004
Azedo
Para combater a azia dos últimos dias e poupar os meus leitores, socorro-me de LP, que assim dizia há vinte e cinco anos:
Botões de rosa pálida ou porque plantei uma figueira
Só a posição pouco equilibrada da nova estética de Sebâncio, o Forte, pode explicar a deformação congénita dos grãos de café que eu não exporto, todavia a já assinalada presença de sumérios e hititas nos Balcãs é testemunho indelével da notória compreensão entre solteiros e casados, no último jogo dominical.
Sabido é, portanto, que a não ingerência do mordomo nos assuntos de cozinha é prova suficiente duma polidez de costumes não natural em pessoas de frequência modulada que, no entanto, não se dobram às investidas pouco selectas dum Pablo Romero, em dia de matrimónio.
A manhã mais deliciosa que pode acontecer a um filiado do "Free Camping" é aquela que obriga as margaridas a desflorarem prematuramente, se não nos esquecermos que, aliado a este facto, há que considerar a hipertrofia do androceu e o esvaziamento parcial duma 100 Pipers em casa de seus pais.
Deste terreno não sai centeio - afirma peremptoriamente o deão dos regentes saídos da Paiã, a propósito dos cinco hectares cedidos ao merceeiro num recanto de Hyde Park - no entanto, é possível criar aqui botas de cano alto que possam contribuir para um relançamento das opções militaristas no intervalo para o café.
Há quem não use chapéu quando contrai dívidas pouco onerosas, o que não impede que as forças de Van der Waals sejam, à parte gralhas de impressão, menos significativas em palácios de cristal do que em becos sem saída, onde os toques nas montadas são de somenos importância e não garantem apoteose final.
Ocorreu-me há dois dias que a sogra desmamada do novilho empertigado deve ser suficiente para saciar a gula dos quinze confrades reunidos em torno da bandeira do maior copo, enquanto se fazem campanhas televisivas que visam prevenir os acidentes rodoviários causados pela euforia licorosa.
Não sabia que tinhas dado agora em bajulador de adolescentes.
LP, "Palavras de Dom Goda", 1979
Para combater a azia dos últimos dias e poupar os meus leitores, socorro-me de LP, que assim dizia há vinte e cinco anos:
Botões de rosa pálida ou porque plantei uma figueira
Só a posição pouco equilibrada da nova estética de Sebâncio, o Forte, pode explicar a deformação congénita dos grãos de café que eu não exporto, todavia a já assinalada presença de sumérios e hititas nos Balcãs é testemunho indelével da notória compreensão entre solteiros e casados, no último jogo dominical.
Sabido é, portanto, que a não ingerência do mordomo nos assuntos de cozinha é prova suficiente duma polidez de costumes não natural em pessoas de frequência modulada que, no entanto, não se dobram às investidas pouco selectas dum Pablo Romero, em dia de matrimónio.
A manhã mais deliciosa que pode acontecer a um filiado do "Free Camping" é aquela que obriga as margaridas a desflorarem prematuramente, se não nos esquecermos que, aliado a este facto, há que considerar a hipertrofia do androceu e o esvaziamento parcial duma 100 Pipers em casa de seus pais.
Deste terreno não sai centeio - afirma peremptoriamente o deão dos regentes saídos da Paiã, a propósito dos cinco hectares cedidos ao merceeiro num recanto de Hyde Park - no entanto, é possível criar aqui botas de cano alto que possam contribuir para um relançamento das opções militaristas no intervalo para o café.
Há quem não use chapéu quando contrai dívidas pouco onerosas, o que não impede que as forças de Van der Waals sejam, à parte gralhas de impressão, menos significativas em palácios de cristal do que em becos sem saída, onde os toques nas montadas são de somenos importância e não garantem apoteose final.
Ocorreu-me há dois dias que a sogra desmamada do novilho empertigado deve ser suficiente para saciar a gula dos quinze confrades reunidos em torno da bandeira do maior copo, enquanto se fazem campanhas televisivas que visam prevenir os acidentes rodoviários causados pela euforia licorosa.
Não sabia que tinhas dado agora em bajulador de adolescentes.
LP, "Palavras de Dom Goda", 1979
Divergência
Tenho repetidas teimas a propósito das actuações desastradas que por aí se contam.
A minha interlocutora é, desde sempre, adepta de uma intrincada teoria da conspiração com obscuros contornos, como convém a todas as boas teorias da conspiração.
E encolhe os ombros quando eu lhe falo da falta daquela coisa com que se constroem teorias. Não me refiro a ela, claro.
Refiro-me aos actores dos habituais desastres.
Socorro-me sempre, embora sem o expressar, das palavras de outra pessoa:
"Eles não conseguem ser maus, falta-lhes cabeça!"
imagem de
Tenho repetidas teimas a propósito das actuações desastradas que por aí se contam.
A minha interlocutora é, desde sempre, adepta de uma intrincada teoria da conspiração com obscuros contornos, como convém a todas as boas teorias da conspiração.
E encolhe os ombros quando eu lhe falo da falta daquela coisa com que se constroem teorias. Não me refiro a ela, claro.
Refiro-me aos actores dos habituais desastres.
Socorro-me sempre, embora sem o expressar, das palavras de outra pessoa:
"Eles não conseguem ser maus, falta-lhes cabeça!"
imagem de
20/09/2004
Esquecimentos
Um velho amigo e colega surpreendia-me às vezes, quando ao volante do carro se virava para mim, co-piloto, e me perguntava: "Para onde é que vamos?"
Não era a pergunta do taxista. Não era por onde. O sigo pela Baixa ou vou por fora. Era mesmo uma espécie de acordar estremunhado de algum sono ou sonho que lhe permitia manter os níveis de atenção para conduzir. Mas não era condução, era andar de carro. Ele não conduzia nada nem ninguém nessas alturas, seguia apenas a estrada.
Já a mim me sucede amiúde nos trajectos, a cavalo na lata ou a pé, observar aqui ou ali algo de insólito que julgo ser comentável quando chegar ao destino. O mais certo é, lá chegado, não me lembrar de tal.
Sair de casa com várias incumbências e esquecer uma ou duas.
Talvez seja aquela fase da vida em que se torna mais fácil recordar um episódio de há trinta anos do que o jantar de ontem.
Assusta-me.
Um velho amigo e colega surpreendia-me às vezes, quando ao volante do carro se virava para mim, co-piloto, e me perguntava: "Para onde é que vamos?"
Não era a pergunta do taxista. Não era por onde. O sigo pela Baixa ou vou por fora. Era mesmo uma espécie de acordar estremunhado de algum sono ou sonho que lhe permitia manter os níveis de atenção para conduzir. Mas não era condução, era andar de carro. Ele não conduzia nada nem ninguém nessas alturas, seguia apenas a estrada.
Já a mim me sucede amiúde nos trajectos, a cavalo na lata ou a pé, observar aqui ou ali algo de insólito que julgo ser comentável quando chegar ao destino. O mais certo é, lá chegado, não me lembrar de tal.
Sair de casa com várias incumbências e esquecer uma ou duas.
Talvez seja aquela fase da vida em que se torna mais fácil recordar um episódio de há trinta anos do que o jantar de ontem.
Assusta-me.
18/09/2004
Estatísticas
Não sei quantos minutos por cada cigarro.
Não sei quantos minutos por cada copo a mais.
Não sei quantos minutos por cada noite sem dormir.
Não sei quantos minutos por cada avaria.
Depois, abalas assim. Logo tu, que sempre fugiste das avarias.
Estatísticas.
Um modo de perceber o funcionamento dos grandes números quando não se percebe nada dos pequenos.
R.I.P.
Não sei quantos minutos por cada cigarro.
Não sei quantos minutos por cada copo a mais.
Não sei quantos minutos por cada noite sem dormir.
Não sei quantos minutos por cada avaria.
Depois, abalas assim. Logo tu, que sempre fugiste das avarias.
Estatísticas.
Um modo de perceber o funcionamento dos grandes números quando não se percebe nada dos pequenos.
R.I.P.
Um imenso .jpg (II)
ou pequenos e grandes sismos
sobre a Carta Militar Itinerária de Portugal, do Instituto Geográfico do Exército
ou pequenos e grandes sismos
sobre a Carta Militar Itinerária de Portugal, do Instituto Geográfico do Exército
17/09/2004
A gravata Dei
Como quase tudo o que dizia, era necessário atenção e ouvido fino para perceber a lógica da argumentação.
Mesmo que falasse, vez ou outra, um pouco mais alto e claro. Como quando retorquiu que homem que se preze, tem que de vez em quando esquecer a educação e soltar umas imprecações.
Mas as mais das vezes eram sussurros, monólogos, pequenas pérolas de reflexão ao alcance de quem se detinha a ouvi-lo.
Nesse dia, vinha desengravatado.
Após algumas considerações sobre a tomada de Ceuta, a natação medicinal e a composição química do recheio das mais diversas sanduíches, pronunciou três palavras mais, com os olhos postos nas nuvens:
"A gravata Dei."
Encarámo-nos, na expectativa de mais uma revelação.
Afinal, era sempre com surpresa que o escutávamos.
"A gravata... dei. Dei-a mesmo!"
Como quase tudo o que dizia, era necessário atenção e ouvido fino para perceber a lógica da argumentação.
Mesmo que falasse, vez ou outra, um pouco mais alto e claro. Como quando retorquiu que homem que se preze, tem que de vez em quando esquecer a educação e soltar umas imprecações.
Mas as mais das vezes eram sussurros, monólogos, pequenas pérolas de reflexão ao alcance de quem se detinha a ouvi-lo.
Nesse dia, vinha desengravatado.
Após algumas considerações sobre a tomada de Ceuta, a natação medicinal e a composição química do recheio das mais diversas sanduíches, pronunciou três palavras mais, com os olhos postos nas nuvens:
"A gravata Dei."
Encarámo-nos, na expectativa de mais uma revelação.
Afinal, era sempre com surpresa que o escutávamos.
"A gravata... dei. Dei-a mesmo!"
15/09/2004
Nunca sabemos
Eu nunca sei até que ponto é que um discurso político é o reflexo das ideias do orador ou o reflexo daquilo que ele pensa que deve dizer.
Sendo que, se é o segundo caso, nunca sei para que receptor ele fala. Convenço-me de que ele também não o sabe.
Vem isto a propósito dos dois casos recentes de invasão de áreas chave do poder e da sua representação, ocorridos em Londres.
Não fossem os intervenientes (nos outros dias da sua existência) pacatos cidadãos, e sim perigosos terroristas e a esta hora haveria mais uma tragédia a lamentar.
E aqui é que bate o ponto.
Todo o discurso político recente na Rússia e nos Estados Unidos, contaminando outras paragens, se deteve na condenação dos seus próprios dirigentes por não terem conseguido conter a ameaça terrorista.
Depois de termos assistido à crucificação de Putin, a propósito do atentado na escola, depois de termos ouvido tudo o que se disse àcerca da forma como se actuou nos Estados Unidos antes do ataque às torres, depois de termos ouvido tudo isso, até parece que há uma fórmula mágica para evitar ataques terroristas.
Pois não há.
O velho aforismo "casa roubada, trancas à porta" é, para mim, o exemplo claro do absurdo.
Particularmente nestes casos em que se corre a tomar medidas para evitar a repetição de uma forma de actuação terrorista, quando se sabe que, com toda a certeza, o próximo passo será outra surpresa.
Não que não se deva dificultar a repetição. O que é preciso é dificultar todas as formas possíveis e imaginárias de causar grandes estragos.
Estou convencido de que há gente a tratar disso. A pensar em todas essas formas e a engendrar maneiras de as evitar.
Mas se ocorrer um ataque em grande escala ou com grande impacto no poder instituído, é apenas porque o inimigo foi mais forte, mais matreiro. Não faltam fábulas a respeito.
E golpes, iremos sofrer mais. Se eles não temem nenhuma das nossas armas, se não têm qualquer receio de avançar, resta-nos estar um passo à frente e tentar detê-los.
Mas estando a surpresa sempre do lado de lá, veremos que nem sempre isso se consegue.
Agora há de facto surpresas como as de Londres que nos levam a pensar que só se olha para as mochilas nos comboios e para as facas nos aviões.
E quanto aos mesmos aviões, na Rússia, a ser verdade o que se soube hoje, parece que qualquer prevenção há-de ser sempre furada pela corrupção instalada.
imagem da CNN
Eu nunca sei até que ponto é que um discurso político é o reflexo das ideias do orador ou o reflexo daquilo que ele pensa que deve dizer.
Sendo que, se é o segundo caso, nunca sei para que receptor ele fala. Convenço-me de que ele também não o sabe.
Vem isto a propósito dos dois casos recentes de invasão de áreas chave do poder e da sua representação, ocorridos em Londres.
Não fossem os intervenientes (nos outros dias da sua existência) pacatos cidadãos, e sim perigosos terroristas e a esta hora haveria mais uma tragédia a lamentar.
E aqui é que bate o ponto.
Todo o discurso político recente na Rússia e nos Estados Unidos, contaminando outras paragens, se deteve na condenação dos seus próprios dirigentes por não terem conseguido conter a ameaça terrorista.
Depois de termos assistido à crucificação de Putin, a propósito do atentado na escola, depois de termos ouvido tudo o que se disse àcerca da forma como se actuou nos Estados Unidos antes do ataque às torres, depois de termos ouvido tudo isso, até parece que há uma fórmula mágica para evitar ataques terroristas.
Pois não há.
O velho aforismo "casa roubada, trancas à porta" é, para mim, o exemplo claro do absurdo.
Particularmente nestes casos em que se corre a tomar medidas para evitar a repetição de uma forma de actuação terrorista, quando se sabe que, com toda a certeza, o próximo passo será outra surpresa.
Não que não se deva dificultar a repetição. O que é preciso é dificultar todas as formas possíveis e imaginárias de causar grandes estragos.
Estou convencido de que há gente a tratar disso. A pensar em todas essas formas e a engendrar maneiras de as evitar.
Mas se ocorrer um ataque em grande escala ou com grande impacto no poder instituído, é apenas porque o inimigo foi mais forte, mais matreiro. Não faltam fábulas a respeito.
E golpes, iremos sofrer mais. Se eles não temem nenhuma das nossas armas, se não têm qualquer receio de avançar, resta-nos estar um passo à frente e tentar detê-los.
Mas estando a surpresa sempre do lado de lá, veremos que nem sempre isso se consegue.
Agora há de facto surpresas como as de Londres que nos levam a pensar que só se olha para as mochilas nos comboios e para as facas nos aviões.
E quanto aos mesmos aviões, na Rússia, a ser verdade o que se soube hoje, parece que qualquer prevenção há-de ser sempre furada pela corrupção instalada.
imagem da CNN
O inquérito
Num grande número de casos, quando ocorre um acidente, é possível ter conclusões preliminares com as observações feitas in loco, nas horas seguintes.
Conclusões no que diz respeito às causas directas, bem entendido.
O que demora é apurar uma ou outra causa indirecta e as responsabilidades quer nos erros quer nas omissões.
Mas quando, face a um acidente qualquer que seja, assistimos ao espectáculo de ver (ouvir) alguém afirmar que não falhou nada, apenas ficamos com uma noção da capacidade de quem produz tal dislate. Só isso.
Não falhou nada e todavia...
Depois da fase do a quente, em que se ouvem estas e outras pérolas, segue-se a fase do aproveitamento.
Em que vêm à tona toda a sorte de reivindicações relacionadas ou não com o ocorrido. Sempre em maior número as que não têm ponta por onde se lhe pegue, é claro.
À medida que o inquérito avança, o ruído de fundo não cessa, deixando adivinhar as pressões para que se veja isto e não aquilo.
Quando por fim, se conhecem as conclusões, é certo que se vão buscar pilhas de assuntos que não vêm ao caso. Quase sempre se fica sem saber o que é que aconteceu e porquê.
Já só se discutem aspectos que em nada concorreram para o sucedido.
E o que realmente interessa, saber o que correu mal para se evitar que aconteça de novo, nos mesmos moldes, isso realmente não interessa nada.
Num grande número de casos, quando ocorre um acidente, é possível ter conclusões preliminares com as observações feitas in loco, nas horas seguintes.
Conclusões no que diz respeito às causas directas, bem entendido.
O que demora é apurar uma ou outra causa indirecta e as responsabilidades quer nos erros quer nas omissões.
Mas quando, face a um acidente qualquer que seja, assistimos ao espectáculo de ver (ouvir) alguém afirmar que não falhou nada, apenas ficamos com uma noção da capacidade de quem produz tal dislate. Só isso.
Não falhou nada e todavia...
Depois da fase do a quente, em que se ouvem estas e outras pérolas, segue-se a fase do aproveitamento.
Em que vêm à tona toda a sorte de reivindicações relacionadas ou não com o ocorrido. Sempre em maior número as que não têm ponta por onde se lhe pegue, é claro.
À medida que o inquérito avança, o ruído de fundo não cessa, deixando adivinhar as pressões para que se veja isto e não aquilo.
Quando por fim, se conhecem as conclusões, é certo que se vão buscar pilhas de assuntos que não vêm ao caso. Quase sempre se fica sem saber o que é que aconteceu e porquê.
Já só se discutem aspectos que em nada concorreram para o sucedido.
E o que realmente interessa, saber o que correu mal para se evitar que aconteça de novo, nos mesmos moldes, isso realmente não interessa nada.
14/09/2004
O arrefecimento global
Este verão foi chocho. Até parece que adivinhei quando o disse aqui no final de Maio.
Durante anos, a minha praia foi em Setembro. E olhando agora pela janela, sentindo o fresco que vem lá de fora, fico na dúvida: Será que os Setembros já não dão praia?
Nota: este postal ilustrado impresso nas oficinas do "Commercio do Porto" encontrei-o nesta página, juntamente com outros postais de faróis da nossa costa.
Este verão foi chocho. Até parece que adivinhei quando o disse aqui no final de Maio.
Durante anos, a minha praia foi em Setembro. E olhando agora pela janela, sentindo o fresco que vem lá de fora, fico na dúvida: Será que os Setembros já não dão praia?
Nota: este postal ilustrado impresso nas oficinas do "Commercio do Porto" encontrei-o nesta página, juntamente com outros postais de faróis da nossa costa.
13/09/2004
Falta de verba
Às vezes, parece que é altura de fazer um peditório ou iniciar umas "démarches" para conseguir um verbo.
Mas, se calhar, é mesmo melhor estar calado.
Se a verborreia é má - eu acho que é - também a falta de verbo não ajuda a quem teve esta ideia de aqui ir escrevendo umas coisas.
Mas não me queixo.
Estas coisas são assim mesmo. Uns dias dizem-se uns disparates, outros frases sem sentido e às vezes, uma coisinha de jeito.
E há estes, com falta de verba, digo, de verbo.
Dizer qualquer coisa para não estar calado. Há alguma palavra para designar não o que se cala, mas o que não escreve?
Às vezes, parece que é altura de fazer um peditório ou iniciar umas "démarches" para conseguir um verbo.
Mas, se calhar, é mesmo melhor estar calado.
Se a verborreia é má - eu acho que é - também a falta de verbo não ajuda a quem teve esta ideia de aqui ir escrevendo umas coisas.
Mas não me queixo.
Estas coisas são assim mesmo. Uns dias dizem-se uns disparates, outros frases sem sentido e às vezes, uma coisinha de jeito.
E há estes, com falta de verba, digo, de verbo.
Dizer qualquer coisa para não estar calado. Há alguma palavra para designar não o que se cala, mas o que não escreve?
12/09/2004
11/09/2004
10/09/2004
Um imenso .jpg
Fazendo fé nas palavras azuis do mago profeta, chegará o dia em que os aromas acompanharão os sons e as imagens nas suas peripécias viajantes.
Se esse dia fosse o de hoje, haveria decerto uns ficheiros com extensão .pfm (os americanos iam lá deixar de usar o galicismo...) que se poderiam combinar com sons, texto e imagem, de forma a melhorar o conteúdo da informação aqui exposta.
Não o sendo, resta-nos a combinação de imagem e texto, já que quanto aos sons é outra história e fica para o fim.
A batalha entre imagens e palavras ia em <1/1000 da última vez que ouvi falar nela. Não deve esta proporção ser actualmente majorante, a julgar pelo tamanho dos ficheiros de texto e de imagem que aqui tenho. Mas adiante.
Supondo que haveria que escolher entre texto e imagem para traçar a minha autobiografia, o que é que faria? Um texto longo e entediante ou uma imagem que tudo resumisse? Que a sequência de imagens também não me agrada.
Decido-me então por um imenso .jpg.
Voltando aos sons, meti-me em boa.
Sendo uma reconhecida e notória nulidade no que à música toca, não é que me deu para reconstruir a banda sonora do meu filme (do meu .jpg)? Só a parte musical, claro. Os outros sons do mundo ficaram de fora.
A coisa não está fácil.
Descobrir a que canção e a que artista corresponde um certo som é uma tarefa hoje para mim possível graças a São Google. Um extracto da letra e a coisa acha-se. Mas em outros tempos, seria condenada ao fracasso. Trauteasse eu qualquer coisinha a ouvidos de entendedor e decerto assistiria a uma fuga desesperada. Nada menos do que isso.
Mas assim, já vai em mais de um 1GB e segue por bom caminho como o Grandella.
Ninguém me manda ser parvo.
É mesmo melhor dedicar-me à parte gráfica.
Fazendo fé nas palavras azuis do mago profeta, chegará o dia em que os aromas acompanharão os sons e as imagens nas suas peripécias viajantes.
Se esse dia fosse o de hoje, haveria decerto uns ficheiros com extensão .pfm (os americanos iam lá deixar de usar o galicismo...) que se poderiam combinar com sons, texto e imagem, de forma a melhorar o conteúdo da informação aqui exposta.
Não o sendo, resta-nos a combinação de imagem e texto, já que quanto aos sons é outra história e fica para o fim.
A batalha entre imagens e palavras ia em <1/1000 da última vez que ouvi falar nela. Não deve esta proporção ser actualmente majorante, a julgar pelo tamanho dos ficheiros de texto e de imagem que aqui tenho. Mas adiante.
Supondo que haveria que escolher entre texto e imagem para traçar a minha autobiografia, o que é que faria? Um texto longo e entediante ou uma imagem que tudo resumisse? Que a sequência de imagens também não me agrada.
Decido-me então por um imenso .jpg.
Voltando aos sons, meti-me em boa.
Sendo uma reconhecida e notória nulidade no que à música toca, não é que me deu para reconstruir a banda sonora do meu filme (do meu .jpg)? Só a parte musical, claro. Os outros sons do mundo ficaram de fora.
A coisa não está fácil.
Descobrir a que canção e a que artista corresponde um certo som é uma tarefa hoje para mim possível graças a São Google. Um extracto da letra e a coisa acha-se. Mas em outros tempos, seria condenada ao fracasso. Trauteasse eu qualquer coisinha a ouvidos de entendedor e decerto assistiria a uma fuga desesperada. Nada menos do que isso.
Mas assim, já vai em mais de um 1GB e segue por bom caminho como o Grandella.
Ninguém me manda ser parvo.
É mesmo melhor dedicar-me à parte gráfica.
08/09/2004
Notas
Santuário da Senhora da Cola - imagem do IPPAR
Várias, enquanto me deixam.
O material tem sempre razão - é a máxima que tomada à letra demonstra o desfasamento entre o que as coisas são e o que pensamos que elas são.
Se é que as coisas são alguma coisa.
Neste caso concreto, é de um problemazinho chato aqui na maquineta que se trata. A que se junta a falta de paciência para grandes averiguações.
Nem a Senhora da Cola me vale. Mais uma noite de copos e de romaria em que me marcaram falta.
Quando finalmente (...) o Sol desce à terra! Do alto da minha pouca informação, parece-me que é um feito pouco significativo. Não faltaram oportunidades anteriores para se fazer tal recolha. E será que não se recolheram já amostras, em outras condições? Não faço ideia.
Perdidas.
Perdidas por vós todas as coisas e todas as mulheres.
O estranho não é que alguém tenha aqui vindo, através do Google, à procura de "Encontrei-a mais tarde". É que apenas aqui neste blogue isso aconteceu. Isso de encontrá-la mais tarde. Porventura, vós não tereis perdido coisa nem mulher nenhuma.
Por último, um desejo. Um desejo, não. Um pedido ao Deus de todos os ateus:
Deus me livre de o Mundo ser feito à medida dos meus desejos.
Decerto que muitos outros o terão formulado antes de mim. Não espero ser original nessa prece.
Mas em altura em que tanta gente tem e apregoa ideias para o Mundo, é o que de melhor me ocorre.
E não é grande coisa. Mas é com convicção.
Logo eu, que tanta graça acho aos homens com convicções...
Santuário da Senhora da Cola - imagem do IPPAR
Várias, enquanto me deixam.
O material tem sempre razão - é a máxima que tomada à letra demonstra o desfasamento entre o que as coisas são e o que pensamos que elas são.
Se é que as coisas são alguma coisa.
Neste caso concreto, é de um problemazinho chato aqui na maquineta que se trata. A que se junta a falta de paciência para grandes averiguações.
Nem a Senhora da Cola me vale. Mais uma noite de copos e de romaria em que me marcaram falta.
Quando finalmente (...) o Sol desce à terra! Do alto da minha pouca informação, parece-me que é um feito pouco significativo. Não faltaram oportunidades anteriores para se fazer tal recolha. E será que não se recolheram já amostras, em outras condições? Não faço ideia.
Perdidas.
Perdidas por vós todas as coisas e todas as mulheres.
O estranho não é que alguém tenha aqui vindo, através do Google, à procura de "Encontrei-a mais tarde". É que apenas aqui neste blogue isso aconteceu. Isso de encontrá-la mais tarde. Porventura, vós não tereis perdido coisa nem mulher nenhuma.
Por último, um desejo. Um desejo, não. Um pedido ao Deus de todos os ateus:
Deus me livre de o Mundo ser feito à medida dos meus desejos.
Decerto que muitos outros o terão formulado antes de mim. Não espero ser original nessa prece.
Mas em altura em que tanta gente tem e apregoa ideias para o Mundo, é o que de melhor me ocorre.
E não é grande coisa. Mas é com convicção.
Logo eu, que tanta graça acho aos homens com convicções...
06/09/2004
05/09/2004
Quanto mais leio
Mais sono tenho.
"Andas a ler as coisas erradas." - disse-me ela, com os olhos postos no cinzeiro.
"Só conheço os erros nas convenções." - foi a minha resposta pouco calculada.
"Questão de palavras, meu caro. Digamos desadequadas." - já levantava os olhos da mesa e do cinzeiro, que entretanto se enchera.
"Também tu tiras os olhos da cinza."
A conversa ficou por ali. Ou talvez não.
imagem adaptada daqui
Mais sono tenho.
"Andas a ler as coisas erradas." - disse-me ela, com os olhos postos no cinzeiro.
"Só conheço os erros nas convenções." - foi a minha resposta pouco calculada.
"Questão de palavras, meu caro. Digamos desadequadas." - já levantava os olhos da mesa e do cinzeiro, que entretanto se enchera.
"Também tu tiras os olhos da cinza."
A conversa ficou por ali. Ou talvez não.
imagem adaptada daqui
04/09/2004
Não
Não. Não há algo de novo na barbárie.
Nem na barbárie maciça, nem na fragmentária.
Nem na dos números às centenas, nem na do um de cada vez.
Nem na morte de crianças, nem na guerra.
O que há de novo é que, nesta civilização do meio da Europa para cá, com os seus prolongamentos a outros continentes, desde a Segunda Guerra Mundial, que não se vê coisa assim.
Não que não tenha já acontecido aqui, em outras épocas.
Não que não tenha acontecido bem depois disso nesta mesma Europa, mas na outra.
Não que não tenha acontecido no seio da nossa civilização mas em lugares outros.
Mas aconteceu e aconteceu vezes e vezes.
E acontecerá.
Estamos muito longe de deixarmos as armas, se é que alguma vez isso irá acontecer.
Estamos muito longe de não disputarmos territórios, palmo a palmo, vida a vida.
Quando estas imagens nos entram pelas casas a dentro, o pior que podemos fazer é acreditar que o mundo se resume e se resumiu ao que vimos na televisão.
Há umas guerras, uma guerra, lá fora. E o lá fora pode ser ao virar da esquina.
E não há botão de Cancel.
Não. Não há algo de novo na barbárie.
Nem na barbárie maciça, nem na fragmentária.
Nem na dos números às centenas, nem na do um de cada vez.
Nem na morte de crianças, nem na guerra.
O que há de novo é que, nesta civilização do meio da Europa para cá, com os seus prolongamentos a outros continentes, desde a Segunda Guerra Mundial, que não se vê coisa assim.
Não que não tenha já acontecido aqui, em outras épocas.
Não que não tenha acontecido bem depois disso nesta mesma Europa, mas na outra.
Não que não tenha acontecido no seio da nossa civilização mas em lugares outros.
Mas aconteceu e aconteceu vezes e vezes.
E acontecerá.
Estamos muito longe de deixarmos as armas, se é que alguma vez isso irá acontecer.
Estamos muito longe de não disputarmos territórios, palmo a palmo, vida a vida.
Quando estas imagens nos entram pelas casas a dentro, o pior que podemos fazer é acreditar que o mundo se resume e se resumiu ao que vimos na televisão.
Há umas guerras, uma guerra, lá fora. E o lá fora pode ser ao virar da esquina.
E não há botão de Cancel.
O Mago
Já há cinco dias consecutivos que me surgia à frente sempre na mesma curva do túnel do Metro.
Via-se que seguia com passo determinado, com alguma tarefa urgente para realizar.
Estatelou-se, depois de chocar contra o meu ombro.
Bateu com a cabeça nos mosaicos de vidro. Sangrava.
Não há rede - gritava o homem da pasta, secundado pela mulher dos cabelos falsamente ruivos.
Não houve recriminações. Fora um acidente.
O rapaz com ar de estudante disse que já conseguira ligar.
Um quarto de hora depois, depois de dois lenços ensopados em sangue, ouviu-se a sirene na boca do Metro.
Os socorristas fizeram o seu trabalho, levaram o homem.
Por ali caído no chão estava um cartão:
Guardei-o, sem que ninguém percebesse que não me pertencia.
Corri todos os hospitais, pedi todas as informações ao 112, ninguém me soube dizer onde estava o Mago.
O cartão não tinha qualquer número de telefone.
Já há cinco dias consecutivos que me surgia à frente sempre na mesma curva do túnel do Metro.
Via-se que seguia com passo determinado, com alguma tarefa urgente para realizar.
Estatelou-se, depois de chocar contra o meu ombro.
Bateu com a cabeça nos mosaicos de vidro. Sangrava.
Não há rede - gritava o homem da pasta, secundado pela mulher dos cabelos falsamente ruivos.
Não houve recriminações. Fora um acidente.
O rapaz com ar de estudante disse que já conseguira ligar.
Um quarto de hora depois, depois de dois lenços ensopados em sangue, ouviu-se a sirene na boca do Metro.
Os socorristas fizeram o seu trabalho, levaram o homem.
Por ali caído no chão estava um cartão:
Guardei-o, sem que ninguém percebesse que não me pertencia.
Corri todos os hospitais, pedi todas as informações ao 112, ninguém me soube dizer onde estava o Mago.
O cartão não tinha qualquer número de telefone.
Pós-Homem
Não me satisfazem a maior parte das ficções prospectivas.
Não que eu tenha a veleidade de saber como hei-de julgar as criações de cada um.
Mais porque, na maioria dos casos, não há homens diversos dos que conhecemos.
E lá num futuro longínquo, a nossa espécie será tão diferente do que conhecemos como o é daquilo que supomos ter sido um Australopithecus.
Podemos deitar-nos a adivinhar quais serão os aspectos mais diferenciados daquilo que é o Homem de hoje. Será sempre em vão. Mas supor que será o mesmo Homem é um crasso erro.
Não me satisfazem a maior parte das ficções prospectivas.
Não que eu tenha a veleidade de saber como hei-de julgar as criações de cada um.
Mais porque, na maioria dos casos, não há homens diversos dos que conhecemos.
E lá num futuro longínquo, a nossa espécie será tão diferente do que conhecemos como o é daquilo que supomos ter sido um Australopithecus.
Podemos deitar-nos a adivinhar quais serão os aspectos mais diferenciados daquilo que é o Homem de hoje. Será sempre em vão. Mas supor que será o mesmo Homem é um crasso erro.
03/09/2004
01/09/2004
31/08/2004
30/08/2004
Falando de cor (as décadas)
Claro que me lembrei. Foi há dez anos.
30 de Agosto de 1994. 17:00. O sítio é que poderia suscitar algumas dúvidas. Resolveram rasgar com alcatrão as dunas onde fizemos a promessa.
Esta minha velha mania de que os outros não se lembram...
Nesse dia, ainda olhei de lado para as chaves do carro. Ia até lá só para poder depois dizer com propriedade que vocês se esqueceram.
Quando acabar de escrever este post terão passado trinta anos sobre a nossa combinação. A que eu falhei há exactamente dez anos.
E de que vocês também se lembraram. Mas pensaram como eu. Não pensamos todos?
Se não tivéssemos então a certeza de que jamais nos voltaríamos a ver, teríamos feito tal promessa?
Claro que me lembrei. Foi há dez anos.
30 de Agosto de 1994. 17:00. O sítio é que poderia suscitar algumas dúvidas. Resolveram rasgar com alcatrão as dunas onde fizemos a promessa.
Esta minha velha mania de que os outros não se lembram...
Nesse dia, ainda olhei de lado para as chaves do carro. Ia até lá só para poder depois dizer com propriedade que vocês se esqueceram.
Quando acabar de escrever este post terão passado trinta anos sobre a nossa combinação. A que eu falhei há exactamente dez anos.
E de que vocês também se lembraram. Mas pensaram como eu. Não pensamos todos?
Se não tivéssemos então a certeza de que jamais nos voltaríamos a ver, teríamos feito tal promessa?
29/08/2004
Vale por nove
O banho do 29.
Por quem raramente faz referências a livros, aqui vai um interessante trabalho de António Martins Quaresma sobre a Vila Nova dos anos 60.
Disponível em pdf.
Não se limita a Vila Nova de Milfontes, e aborda aspectos de anos mais longínquos.
Nas entrelinhas, lá está o autor deste blogue, entre canas, polvos a secar, estradas de areia e candeeiros a petróleo.
O banho do 29.
Por quem raramente faz referências a livros, aqui vai um interessante trabalho de António Martins Quaresma sobre a Vila Nova dos anos 60.
Disponível em pdf.
Não se limita a Vila Nova de Milfontes, e aborda aspectos de anos mais longínquos.
Nas entrelinhas, lá está o autor deste blogue, entre canas, polvos a secar, estradas de areia e candeeiros a petróleo.
28/08/2004
Uma não visão política ou um desabafo em si bemol maior
A minha cabeça não dá para mais. E não é imodéstia (modéstia a mais...), é assim mesmo.
Algures lá para trás, fiquei preso nas malhas do racionalismo. Que todos sabemos é coisa duvidosa também. Mas ainda assim tem-me servido de boa bengala. E parece que ao mundo também...
E quando me detenho na política, sendo que nunca sofri da juvenil quimera de querer salvar o mundo, começo a patinar.
Não são só os protagonistas. É a coisa em si. Que na mesma altura, no mesmo lugar, à mesma ocorrência, chama nomes diferentes e dela extrai impossíveis resultados.
Tomar partido, sim. Tenho-o feito. Mas não vejo nisso nenhuma razão sublime. Nenhum argumento imbatível. Apenas o facto de me encontrar num lugar e numa hora confrontado com uma escolha. Apenas isso. E escolho.
E nenhuma paciência para argumentos que não são nem coerentes nem conduzem, não podem conduzir, à esperada sentença.
Reino da subjectividade tacanha que sacode uns factos e guinda outros factos às alturas.
Que idolatra espantalhos.
Que espreme a parte da ciência que julga mais lhe servir.
Que constrói ideias sem estrutura.
Que não entende conceitos como o de convenção, rigor, estatística, escala e erro. Fazendo de tudo uma sopa bolorenta e intragável.
Não tenho pachorra. Ponto.
A minha cabeça não dá para mais. E não é imodéstia (modéstia a mais...), é assim mesmo.
Algures lá para trás, fiquei preso nas malhas do racionalismo. Que todos sabemos é coisa duvidosa também. Mas ainda assim tem-me servido de boa bengala. E parece que ao mundo também...
E quando me detenho na política, sendo que nunca sofri da juvenil quimera de querer salvar o mundo, começo a patinar.
Não são só os protagonistas. É a coisa em si. Que na mesma altura, no mesmo lugar, à mesma ocorrência, chama nomes diferentes e dela extrai impossíveis resultados.
Tomar partido, sim. Tenho-o feito. Mas não vejo nisso nenhuma razão sublime. Nenhum argumento imbatível. Apenas o facto de me encontrar num lugar e numa hora confrontado com uma escolha. Apenas isso. E escolho.
E nenhuma paciência para argumentos que não são nem coerentes nem conduzem, não podem conduzir, à esperada sentença.
Reino da subjectividade tacanha que sacode uns factos e guinda outros factos às alturas.
Que idolatra espantalhos.
Que espreme a parte da ciência que julga mais lhe servir.
Que constrói ideias sem estrutura.
Que não entende conceitos como o de convenção, rigor, estatística, escala e erro. Fazendo de tudo uma sopa bolorenta e intragável.
Não tenho pachorra. Ponto.
27/08/2004
26/08/2004
A questão da rotunda
Já não me recordo de onde recolhia a horas tão maduras.
Lembro-me bem da figura esbelta e empertigada que me mandava parar.
Pisca da direita, berma, ervas. Os faróis davam brilho às formas femininas, ali a metro e meio, coisa assim.
A rapariga assim fardada esboçou um ligeiro esgar de espanto, hesitou e lá me veio interpelar:
"Então queria atropelar-me?" - o sorriso traía-a.
"Eu?"
"Porque é que saiu da via?"
"A senhora não me mandou encostar?"
"Não. Só lhe fiz sinal de parar. O senhor não é aqui da zona?"
"Sou. Porquê?"
"Não sabe que a esta hora cortamos aqui o trânsito alternadamente?"
"Minha senhora, não passo aqui todos os dias. E a esta hora..."
"Pois é. Sabe, isto enquanto não fizerem a rotunda, não se resolve."
Espanto.
As feras iluminadas carregavam a toda a largura da estrada, disputando um lugar dianteiro na primeira chicane.
A rapariga assim fardada sorria: "Está a ver?"
"Estou. Não me parece é que a rotunda resolva a questão. Não vejo como."
"Pois é. Mas ao menos, andam mais devagar."
"Lá isso andam."
Quando ela me mandou seguir, hesitei. Era mais fazer-lhe companhia e pagar-lhe um café.
Mas dei-lhe um sonoro (mavioso?) bom-dia.
Ela riu-se outra vez.
Estava um frio de rachar.
Já não me recordo de onde recolhia a horas tão maduras.
Lembro-me bem da figura esbelta e empertigada que me mandava parar.
Pisca da direita, berma, ervas. Os faróis davam brilho às formas femininas, ali a metro e meio, coisa assim.
A rapariga assim fardada esboçou um ligeiro esgar de espanto, hesitou e lá me veio interpelar:
"Então queria atropelar-me?" - o sorriso traía-a.
"Eu?"
"Porque é que saiu da via?"
"A senhora não me mandou encostar?"
"Não. Só lhe fiz sinal de parar. O senhor não é aqui da zona?"
"Sou. Porquê?"
"Não sabe que a esta hora cortamos aqui o trânsito alternadamente?"
"Minha senhora, não passo aqui todos os dias. E a esta hora..."
"Pois é. Sabe, isto enquanto não fizerem a rotunda, não se resolve."
Espanto.
As feras iluminadas carregavam a toda a largura da estrada, disputando um lugar dianteiro na primeira chicane.
A rapariga assim fardada sorria: "Está a ver?"
"Estou. Não me parece é que a rotunda resolva a questão. Não vejo como."
"Pois é. Mas ao menos, andam mais devagar."
"Lá isso andam."
Quando ela me mandou seguir, hesitei. Era mais fazer-lhe companhia e pagar-lhe um café.
Mas dei-lhe um sonoro (mavioso?) bom-dia.
Ela riu-se outra vez.
Estava um frio de rachar.
25/08/2004
Topologia onírica
Sempre foi para mim um mistério e um encanto.
Aqueles locais que reconhecemos só em sonhos. Em vão tentamos conciliar a sua morfologia com o mundo que realmente conhecemos. Umas vezes dentro do próprio sonho, outras fora dele.
Um dos mistérios que me acompanhará à tumba é aquela estrada sobre o mar, que de curva em curva me reserva panoramas extraordinários e bem em sonhos conhecidos.
A passagem pelo contorno da baía, a casa que parece uma pousada, à esquerda, no foco da concavidade e uns metros acima do plano da estrada. As pedras que orlam o espelho de água. Mar sempre calmo, verde, azul. Depois a estrada afasta-se do mar e segue para sul.
Há uns tempos atrás, um mapa começou a acompanhar a explicação.
A estrada já não é viável. Vês a interrupção aqui, um pouco à esquerda do número? Erosão costeira, meu caro.
Mas há-de haver uma forma de lá chegar. Até ao local onde a estrada abateu.
Sim, há. Vais até àquele bairro de prédios cor de salmão, à saída da cidade e onde estão umas canas, ao fundo de um terreiro, consegues ver os restos do alcatrão. Atravessas as canas e já a vês.
No meio disto tudo, ou melhor, fora dos sonhos, tento encontrar outras explicações.
Em vão, obviamente.
Apesar de saber que Setúbal é a cidade no extremo norte da estrada. Disso tenho a certeza.
Quando o meu PC deixar de amuar com o software de desenho, acrescentarei aqui o mapa.
Sempre foi para mim um mistério e um encanto.
Aqueles locais que reconhecemos só em sonhos. Em vão tentamos conciliar a sua morfologia com o mundo que realmente conhecemos. Umas vezes dentro do próprio sonho, outras fora dele.
Um dos mistérios que me acompanhará à tumba é aquela estrada sobre o mar, que de curva em curva me reserva panoramas extraordinários e bem em sonhos conhecidos.
A passagem pelo contorno da baía, a casa que parece uma pousada, à esquerda, no foco da concavidade e uns metros acima do plano da estrada. As pedras que orlam o espelho de água. Mar sempre calmo, verde, azul. Depois a estrada afasta-se do mar e segue para sul.
Há uns tempos atrás, um mapa começou a acompanhar a explicação.
A estrada já não é viável. Vês a interrupção aqui, um pouco à esquerda do número? Erosão costeira, meu caro.
Mas há-de haver uma forma de lá chegar. Até ao local onde a estrada abateu.
Sim, há. Vais até àquele bairro de prédios cor de salmão, à saída da cidade e onde estão umas canas, ao fundo de um terreiro, consegues ver os restos do alcatrão. Atravessas as canas e já a vês.
No meio disto tudo, ou melhor, fora dos sonhos, tento encontrar outras explicações.
Em vão, obviamente.
Apesar de saber que Setúbal é a cidade no extremo norte da estrada. Disso tenho a certeza.
Quando o meu PC deixar de amuar com o software de desenho, acrescentarei aqui o mapa.
16 anos atrás
O mês e meio de férias estava na recta final.
Depois da tranquilidade do sotavento, a tranquilidade do barlavento algarvio.
Umas férias a três. Um casal e um sofá com rodas e vista panorâmica.
Naquela madrugada de 25 de Agosto, deu-me mais uma vez sede.
Talvez um cigarro na varanda, a contemplar as luzes dos barcos.
Já agora, liga-se o rádio. Quase hora das notícias. Baixinho, para não te acordar.
Não retirei de imediato o significado da torrente de palavras que dele saía.
Quando finalmente tracei o quadro, já estavas a meu lado, de lágrimas nos olhos.
Parte das nossas memórias ardeu nesse dia.
O mês e meio de férias estava na recta final.
Depois da tranquilidade do sotavento, a tranquilidade do barlavento algarvio.
Umas férias a três. Um casal e um sofá com rodas e vista panorâmica.
Naquela madrugada de 25 de Agosto, deu-me mais uma vez sede.
Talvez um cigarro na varanda, a contemplar as luzes dos barcos.
Já agora, liga-se o rádio. Quase hora das notícias. Baixinho, para não te acordar.
Não retirei de imediato o significado da torrente de palavras que dele saía.
Quando finalmente tracei o quadro, já estavas a meu lado, de lágrimas nos olhos.
Parte das nossas memórias ardeu nesse dia.
24/08/2004
Desporto e competição
Às vezes tenho as minhas teimas com um velho amigo. A propósito da confusão entre actividade do corpo, desporto e competição. O homem é formado na área e tem lá os seus conceitos.
Parece acima de tudo que a palavra desporto é a que mais problemas levanta.
Quando eu lhe falo em fato e gravata como traje sport, ele, que é ainda novo, franze a testa.
E quando lhe digo que a palavra desporto sofreu uma evolução semântica acentuada e que designa hoje algo completamente diferente do que designava um século atrás, ele até aceita o argumento.
Não faço ideia (alguém faz?) do que é que esteve por detrás da primitiva ideia olímpica.
Mas estou mais inclinado para um peso maior do factor competição do que do factor desportivo na acepção antiga (mas moderna) de actividade lúdica.
Na Era Moderna, fica-se com a ideia mais ou menos ingénua de que a intenção era juntar os povos do mundo, pô-los a competir de forma pacífica e celebrada e ver qual é mais rápido, mais forte, qual chega mais alto.
Tanto se tratou de povos que mais tarde até se imortalizaram os cinco continentes com cores simbólicas.
É sabido que a História já se tinha encarregado de misturar as cores. Fê-lo desde sempre, separando e misturando. Não há nisso qualquer novidade. De umas vezes em episódios trágicos, de outras de forma mais pacífica e tolerada.
Mas ainda assim, numa época em que as fronteiras eram riscadas a lápis em cima de uma mesa, se pretendia que a cada território entre traços, novos ou velhos, mais rectilíneos ou mais naturais, de festos e talvegues, correspondesse uma certa representação.
Hoje, não é disso que se trata.
Independentemente de trajectos particulares, o que se verifica é uma venda de lugares num certame altamente voltado para o lucro.
Oferecem-se vagas como nas empresas. Há um lugar vago aqui, outro ali, troca-se de camisola e já está.
Não teço considerações valorativas em relação a isso.
Há muito que aquilo a que hoje se chama desporto está sujeito a essa lei. Clubes de bairro, de cidade, selecções nacionais há muito que não representam coisa alguma. Isso é um facto. Se é bom ou se é mau, fica ao juízo de cada um.
Nestas coisas, procura-se ver sempre os melhores. Se essas vagas não estão preenchidas e se alguém com talento as preenche, nada contra. Mas então é preciso rever o significado deste encontro. Que não será de povos, mas de campeões.
Às vezes tenho as minhas teimas com um velho amigo. A propósito da confusão entre actividade do corpo, desporto e competição. O homem é formado na área e tem lá os seus conceitos.
Parece acima de tudo que a palavra desporto é a que mais problemas levanta.
Quando eu lhe falo em fato e gravata como traje sport, ele, que é ainda novo, franze a testa.
E quando lhe digo que a palavra desporto sofreu uma evolução semântica acentuada e que designa hoje algo completamente diferente do que designava um século atrás, ele até aceita o argumento.
Não faço ideia (alguém faz?) do que é que esteve por detrás da primitiva ideia olímpica.
Mas estou mais inclinado para um peso maior do factor competição do que do factor desportivo na acepção antiga (mas moderna) de actividade lúdica.
Na Era Moderna, fica-se com a ideia mais ou menos ingénua de que a intenção era juntar os povos do mundo, pô-los a competir de forma pacífica e celebrada e ver qual é mais rápido, mais forte, qual chega mais alto.
Tanto se tratou de povos que mais tarde até se imortalizaram os cinco continentes com cores simbólicas.
É sabido que a História já se tinha encarregado de misturar as cores. Fê-lo desde sempre, separando e misturando. Não há nisso qualquer novidade. De umas vezes em episódios trágicos, de outras de forma mais pacífica e tolerada.
Mas ainda assim, numa época em que as fronteiras eram riscadas a lápis em cima de uma mesa, se pretendia que a cada território entre traços, novos ou velhos, mais rectilíneos ou mais naturais, de festos e talvegues, correspondesse uma certa representação.
Hoje, não é disso que se trata.
Independentemente de trajectos particulares, o que se verifica é uma venda de lugares num certame altamente voltado para o lucro.
Oferecem-se vagas como nas empresas. Há um lugar vago aqui, outro ali, troca-se de camisola e já está.
Não teço considerações valorativas em relação a isso.
Há muito que aquilo a que hoje se chama desporto está sujeito a essa lei. Clubes de bairro, de cidade, selecções nacionais há muito que não representam coisa alguma. Isso é um facto. Se é bom ou se é mau, fica ao juízo de cada um.
Nestas coisas, procura-se ver sempre os melhores. Se essas vagas não estão preenchidas e se alguém com talento as preenche, nada contra. Mas então é preciso rever o significado deste encontro. Que não será de povos, mas de campeões.
23/08/2004
The Café do Manel ice age
O pacote chegou pelo correio. Meio amarrotado, gordo e carimbado.
As folhas A4 vinham dobradas ao meio, como se a pressa tivesse impedido de acomodar de outra forma o conteúdo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o gráfico. Uma banda cinzenta (seria grisé?) sinusoidal com limites superior e inferior a traço preto de 0,35 mm.
O homem apareceu quando eu analisava o pedido. Estranhei aquela bizarria de não ser ele próprio o portador da coisa. Explicou-me que calculara mal o tempo que a coisa demoraria na malaposta. Esperava que eu já tivesse os dados naquela altura.
Explicou-me então o que queria, dispensando-me da leitura do abstract.
Ao contrário do que seria de esperar, nenhum dos circunstantes se detinha na nossa conversa em inglês. Nem sequer nos miravam.
O Manel trouxe os cafés e tão pouco deitou o rabo do olho para as folhas.
O.K.. Era então medir a duração do dia. Não me ocorreu perguntar-lhe com que instrumento o faria. Convencido estava de que ele mo forneceria mais tarde.
Percebi finalmente que a agitação dele se prendia com o facto de aqueles serem os últimos resultados de que necessitava, para expôr as coisas e mandar para os árbitros, antes que a outra equipa o fizesse. Deu-me a entender que eram nórdicos.
Quando trocámos o último e-mail, já só havia uma questão para discutir.
Se ele aceitava "The Café do Manel Ice Age" ou se insistia na versão totalmente inglesa que me parecia disparatada e da qual já nem me lembro.
Aceitou.
imagem adaptada de
O pacote chegou pelo correio. Meio amarrotado, gordo e carimbado.
As folhas A4 vinham dobradas ao meio, como se a pressa tivesse impedido de acomodar de outra forma o conteúdo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o gráfico. Uma banda cinzenta (seria grisé?) sinusoidal com limites superior e inferior a traço preto de 0,35 mm.
O homem apareceu quando eu analisava o pedido. Estranhei aquela bizarria de não ser ele próprio o portador da coisa. Explicou-me que calculara mal o tempo que a coisa demoraria na malaposta. Esperava que eu já tivesse os dados naquela altura.
Explicou-me então o que queria, dispensando-me da leitura do abstract.
Ao contrário do que seria de esperar, nenhum dos circunstantes se detinha na nossa conversa em inglês. Nem sequer nos miravam.
O Manel trouxe os cafés e tão pouco deitou o rabo do olho para as folhas.
O.K.. Era então medir a duração do dia. Não me ocorreu perguntar-lhe com que instrumento o faria. Convencido estava de que ele mo forneceria mais tarde.
Percebi finalmente que a agitação dele se prendia com o facto de aqueles serem os últimos resultados de que necessitava, para expôr as coisas e mandar para os árbitros, antes que a outra equipa o fizesse. Deu-me a entender que eram nórdicos.
Quando trocámos o último e-mail, já só havia uma questão para discutir.
Se ele aceitava "The Café do Manel Ice Age" ou se insistia na versão totalmente inglesa que me parecia disparatada e da qual já nem me lembro.
Aceitou.
imagem adaptada de
22/08/2004
Azul marinho
As conversas nocturnas têm destas coisas.
Dos motores de rabeta (não, não é isso - são fora de borda, mesmo) aos petiscos regionais, tocam de tudo.
Essa do azul marinho surpreendeu-me.
Não é que não haja já vasta teorização sobre o assunto. Mas a comida de cor azul é sempre um mistério.
Sabemos que há uns frutos mais ou menos a descambar para o azul. Assim de peixes ou mariscos, também se pode dizer o mesmo. Mas azul marinho...
Por alguma razão, o azul não entra pela boca. Ou porque não há nada que valha a pena ou porque os olhos nesse caso são menores do que a barriga, quem sabe se alerta para eventuais perigos. Mas isso também se diz das bagas vermelhas e nem por isso se deixam de comer.
Azul marinho como nome de iguaria, não promete muito. Lá fui ver a foto. Azul? Onde? Um pratinho de praia com óptimo aspecto.
Depois, fiquei a saber que preparada numa panela de ferro e em determinadas condições, a banana verde dá ao molho um tom azul sim.
Lá fiquei eu com vontade de provar. A minha ignorância era total na banda do azul.
receita aqui e em muitos outros lados
As conversas nocturnas têm destas coisas.
Dos motores de rabeta (não, não é isso - são fora de borda, mesmo) aos petiscos regionais, tocam de tudo.
Essa do azul marinho surpreendeu-me.
Não é que não haja já vasta teorização sobre o assunto. Mas a comida de cor azul é sempre um mistério.
Sabemos que há uns frutos mais ou menos a descambar para o azul. Assim de peixes ou mariscos, também se pode dizer o mesmo. Mas azul marinho...
Por alguma razão, o azul não entra pela boca. Ou porque não há nada que valha a pena ou porque os olhos nesse caso são menores do que a barriga, quem sabe se alerta para eventuais perigos. Mas isso também se diz das bagas vermelhas e nem por isso se deixam de comer.
Azul marinho como nome de iguaria, não promete muito. Lá fui ver a foto. Azul? Onde? Um pratinho de praia com óptimo aspecto.
Depois, fiquei a saber que preparada numa panela de ferro e em determinadas condições, a banana verde dá ao molho um tom azul sim.
Lá fiquei eu com vontade de provar. A minha ignorância era total na banda do azul.
receita aqui e em muitos outros lados
21/08/2004
A paranóia securitária
Já aqui falei sobre o conceito de acidente.
E de como se pode estabelecer uma relação entre o grau de conhecimento das condições envolventes e a ocorrência de acidentes.
Grosso modo, a queda de um raio sobre uma pessoa é um acidente. Mas se essa pessoa dispuser do conhecimento que lhe permita fabricar um pára-raios e não o tiver feito, pode dizer-se que concorreu para o desfecho.
No limite, se se domina completamente um sistema e se alguma coisa falha, alguém terá falhado em algum lugar. É a velha máxima de que o material tem sempre razão.
Não se trata assim de acidente, trata-se de uma falha.
O problema aqui é que normalmente todos nos esquecemos de que somos humanos. Os outros tanto quanto nós.
Vários factores concorrem hoje para a paranóia securitária em torno de tudo e mais alguma coisa.
O primeiro, que é aparente e sendo aparente não deixa de ter reflexos reais, é essa espécie de ingenuidade que transparece das vozes que se espantam com a morte.
Porque é que eu digo que é aparente? Porque sabendo todos nós que a morte nos ronda do primeiro instante ao penúltimo, já que no último ataca finalmente, continuamos ingenuamente a julgar que assim não é. É o que vemos diariamente nas televisões, é o que lemos nos jornais, é o que ouvimos na rua - Não devia ter acontecido.
Dir-se-á que essa ilusão é fundamental à sobrevivência. Assim o julgo também.
O segundo, é essa espécie de superprotecção a que todos nos julgamos com direito, mesmo que os nossos comportamentos sejam arriscados. E que reivindicamos peremptoriamente para as crianças, sem que muitas vezes as alertemos para os riscos que correm.
Mais ainda, é ignorarmos que todos nós, enquanto crianças, corremos riscos. E que são esses riscos que corremos com maior ou menor consciência e os actos falhados de que resultam mazelas, que nos ensinam e nos alertam mais do que qualquer conselho.
Acidentes houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com eles.
Incúria houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com ela.
Incúria de quem sofre os acidentes ou de quem os propicia.
Mas se se combate com unhas, dentes e gritos ferozes a incúria dos segundos, não será também altura de ensinar algo aos primeiros?
As coisas novas sempre provocaram morticínio. A máquina a vapor, o caminho de ferro, a electricidade, os automóveis, até os banhos de mar para os de sequeiro.
Mas depois atinge-se um patamar.
O que espanta às vezes é que se volte atrás.
Parece que se criou uma ilusão de que nada comporta riscos.
Já aqui falei sobre o conceito de acidente.
E de como se pode estabelecer uma relação entre o grau de conhecimento das condições envolventes e a ocorrência de acidentes.
Grosso modo, a queda de um raio sobre uma pessoa é um acidente. Mas se essa pessoa dispuser do conhecimento que lhe permita fabricar um pára-raios e não o tiver feito, pode dizer-se que concorreu para o desfecho.
No limite, se se domina completamente um sistema e se alguma coisa falha, alguém terá falhado em algum lugar. É a velha máxima de que o material tem sempre razão.
Não se trata assim de acidente, trata-se de uma falha.
O problema aqui é que normalmente todos nos esquecemos de que somos humanos. Os outros tanto quanto nós.
Vários factores concorrem hoje para a paranóia securitária em torno de tudo e mais alguma coisa.
O primeiro, que é aparente e sendo aparente não deixa de ter reflexos reais, é essa espécie de ingenuidade que transparece das vozes que se espantam com a morte.
Porque é que eu digo que é aparente? Porque sabendo todos nós que a morte nos ronda do primeiro instante ao penúltimo, já que no último ataca finalmente, continuamos ingenuamente a julgar que assim não é. É o que vemos diariamente nas televisões, é o que lemos nos jornais, é o que ouvimos na rua - Não devia ter acontecido.
Dir-se-á que essa ilusão é fundamental à sobrevivência. Assim o julgo também.
O segundo, é essa espécie de superprotecção a que todos nos julgamos com direito, mesmo que os nossos comportamentos sejam arriscados. E que reivindicamos peremptoriamente para as crianças, sem que muitas vezes as alertemos para os riscos que correm.
Mais ainda, é ignorarmos que todos nós, enquanto crianças, corremos riscos. E que são esses riscos que corremos com maior ou menor consciência e os actos falhados de que resultam mazelas, que nos ensinam e nos alertam mais do que qualquer conselho.
Acidentes houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com eles.
Incúria houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com ela.
Incúria de quem sofre os acidentes ou de quem os propicia.
Mas se se combate com unhas, dentes e gritos ferozes a incúria dos segundos, não será também altura de ensinar algo aos primeiros?
As coisas novas sempre provocaram morticínio. A máquina a vapor, o caminho de ferro, a electricidade, os automóveis, até os banhos de mar para os de sequeiro.
Mas depois atinge-se um patamar.
O que espanta às vezes é que se volte atrás.
Parece que se criou uma ilusão de que nada comporta riscos.
20/08/2004
A calamidade que chega por decreto
Às vezes, vêm-me à cabeça as desgraças biblícas. Ainda que, em alguns casos, seja patente o castigo divino e a precedente sentença, não há notícia de redução a escrito dos divinos desígnios.
No mundo dos ateus, onde estas coisas são um bocadinho mais prosaicas e as desgraças chegam ou pela mão do homem ou pela força dos elementos, há, desde há alguns anos, essa figura bizarra da calamidade por decreto.
Decretar uma calamidade é um gesto político da mesma grandeza e teor do de pedir uma maioria absoluta.
Quem pede uma maioria absoluta, quase sempre o faz tendo em vista uma certa marca de vodka e copo cheio, é bom de ver. É um pedido interessante, tão interessante que todas as campanhas eleitorais são marcadas pela sua ocorrência. Há o antes e o depois do pedido de maioria absoluta. Já pediu a maioria absoluta? Desde que pediu a maioria absoluta...
Já se pedem votos há muitas centenas de anos mas fica sempre bem mudar os vocábulos.
Decretar uma catástrofe (e pedi-la) suscita as mesmas empolações junto de jornalistas e, muito mais, junto dos autarcas envolvidos.
Só que aqui a coisa é mais palpável, embora também fortemente metáforica. Não é obviamente a catástrofe aquilo por que tanto anseiam uns e outros. É o dinheirinho.
Fica mais adequado pedir a catástrofe. É que pedir dinheiro dá ao outro o estatuto de esmoler.
Mas algum dia, alguém haveria de pegar na palavra e dar-lhe a volta. Foi agora.
Espero que o estado ajude quem precisa.
Espero também que o estado saiba legislar para punir exemplarmente os responsáveis por futuros casos semelhantes. Se não pode exercer o direito de regresso sobre quem causou avultados prejuízos, é bom que saiba afastá-los de uma vez por todas e por longo tempo do convívio social.
E já agora, mudem lá o nome à coisa. Calamidades por decreto - não, obrigado.
Às vezes, vêm-me à cabeça as desgraças biblícas. Ainda que, em alguns casos, seja patente o castigo divino e a precedente sentença, não há notícia de redução a escrito dos divinos desígnios.
No mundo dos ateus, onde estas coisas são um bocadinho mais prosaicas e as desgraças chegam ou pela mão do homem ou pela força dos elementos, há, desde há alguns anos, essa figura bizarra da calamidade por decreto.
Decretar uma calamidade é um gesto político da mesma grandeza e teor do de pedir uma maioria absoluta.
Quem pede uma maioria absoluta, quase sempre o faz tendo em vista uma certa marca de vodka e copo cheio, é bom de ver. É um pedido interessante, tão interessante que todas as campanhas eleitorais são marcadas pela sua ocorrência. Há o antes e o depois do pedido de maioria absoluta. Já pediu a maioria absoluta? Desde que pediu a maioria absoluta...
Já se pedem votos há muitas centenas de anos mas fica sempre bem mudar os vocábulos.
Decretar uma catástrofe (e pedi-la) suscita as mesmas empolações junto de jornalistas e, muito mais, junto dos autarcas envolvidos.
Só que aqui a coisa é mais palpável, embora também fortemente metáforica. Não é obviamente a catástrofe aquilo por que tanto anseiam uns e outros. É o dinheirinho.
Fica mais adequado pedir a catástrofe. É que pedir dinheiro dá ao outro o estatuto de esmoler.
Mas algum dia, alguém haveria de pegar na palavra e dar-lhe a volta. Foi agora.
Espero que o estado ajude quem precisa.
Espero também que o estado saiba legislar para punir exemplarmente os responsáveis por futuros casos semelhantes. Se não pode exercer o direito de regresso sobre quem causou avultados prejuízos, é bom que saiba afastá-los de uma vez por todas e por longo tempo do convívio social.
E já agora, mudem lá o nome à coisa. Calamidades por decreto - não, obrigado.
19/08/2004
O público louvor
Há os da praxe. Ordens de serviço. Diários da República.
Há os do palco e transmissão em directo.
De cada vez que vejo um ajuntamento de louvados, vou sempre à procura das caras desconhecidas. Há poucas.
Não há ninguém perfeito e isso de prestar serviços à Pátria é o raio de uma coisa danada de se medir.
Mas há gente, até em bom número, que aqui e ali, tem servido e bem os outros. Não tenho disso a menor dúvida. Tanto quanto mo permite a conjectura e a amostra que conheço.
Já duvido e muito que o proveito seja igual à fama. Não duvidamos todos?
Por isso, de cada vez que vejo as tais caras desconhecidas, fico satisfeito. Pode até ser que me engane. Mas fico.
Há os da praxe. Ordens de serviço. Diários da República.
Há os do palco e transmissão em directo.
De cada vez que vejo um ajuntamento de louvados, vou sempre à procura das caras desconhecidas. Há poucas.
Não há ninguém perfeito e isso de prestar serviços à Pátria é o raio de uma coisa danada de se medir.
Mas há gente, até em bom número, que aqui e ali, tem servido e bem os outros. Não tenho disso a menor dúvida. Tanto quanto mo permite a conjectura e a amostra que conheço.
Já duvido e muito que o proveito seja igual à fama. Não duvidamos todos?
Por isso, de cada vez que vejo as tais caras desconhecidas, fico satisfeito. Pode até ser que me engane. Mas fico.
18/08/2004
17/08/2004
Causas e efeitos
Um bom carro, em bom estado de conservação, um condutor calmo, experiente e dominador da máquina, uma estrada bem projectada e bem mantida, boas condições atmosféricas e boa visibilidade, tráfico reduzido, eis o risco reduzido na circulação.
Se em vez dos 120, pudesse rodar a 160, a 180, certamente que o poderia fazer ainda em segurança, em alguns troços e sob determinadas condições.
O busílis da questão é que quando se aumentam ou reduzem os limites de velocidade, o número de acidentes acompanha a variação.
Não vale a pena vir com isto e com aquilo, os números estão lá para contrariar.
A nossa ciência, não nos esqueçamos, é em grande parte de base estatística.
É com base em estatísticas que avança a medicina, a engenharia, a agronomia e outras disciplinas menos científicas.
O mesmo é dizer que, não se conhecendo em pormenor os mecanismos que regem determinados fenómenos, é com base na experimentação e na catalogação de resultados que se tiram prováveis conclusões.
Interessa-me hoje falar numa questão que é mais ou mais menos conhecida. E que é descrita e denominada de diversas formas. Chamemos-lhe auto-alimentação, reacção em cadeia ou outra coisa qualquer.
Observa-se que o fenómeno do suicídio parece auto-alimentar-se.
O conhecimento de um acto suicida parece despoletar em outros a mesma intenção. Há assim uma espécie de crises limitadas no tempo e que se limitam no espaço dependendo da propagação da notícia.
Já aqui referi o bizarro e tragicamente irónico caso da avenida de Ceuta, anos atrás.
De como a ampla divulgação do caso parece ter despoletado uma crise.
De como um grosseiro erro jornalístico motivou a deslocação do cenário dos suicídios, do local onde o primeiro ocorreu para o local que erradamente os jornalistas deram como tendo sido o da tragédia.
É sabido que em tempos mais remotos se tendia a esconder uma tragédia ou a sua verdadeira dimensão. Concorrendo com isto, havia também um reduzido leque de meios ao dispor da imprensa.
Tome-se o caso tão discutido das inundações de Novembro de 1967.
Ainda hoje se não sabe a extensão dos danos pessoais que causou.
Algures entre os acanhados números oficiais e os decerto empolados palpites jornalísticos, há-de estar um valor realista.
Hoje, a imprensa selecciona mais ou menos arbitrariamente as tragédias a divulgar.
Um exemplo disso é a comparação entre as reportagens dos incêndios deste ano. Comparar a divulgação dos que ocorreram durante o Euro 2004 e os que ocorreram após.
Claro que são as prioridades. Os meios não chegam para tudo, sabemos isso.
Partamos agora do princípio conjectural de que o incendiarismo é um fenómeno que pode ser auto-alimentado da mesma forma que o suicídio.
A questão que se coloca é que, a ser verdadeira esta conjectura, de cada vez que se propagandeia um fogo, se está a incutir em quem tem essa pulsão, o desejo de incendiar.
Como é que se arrumam todas estas linhas?
Da seguinte forma:
Se é certo que as estatísticas nos fornecem dados úteis para avaliar os fenómenos, porque não testar isso em alguns campos?
Se a conjectura que acima expus e que é de resto partilhada por muitos, tem alguma probabilidade de ser verdadeira, porque não pô-la à prova?
Se ao tempo da censura e do lápis azul, sucedeu uma aparente licença de tudo publicar, não haverá campo para restringir a informação em fenómenos como o do incendiarismo que, até prova em contrário, não porá em casa nenhum dos valores democráticos tão insistentemente reclamados a troco de tudo e nada?
Até porque, como se viu, nem sempre os fogos são matéria interessante. Havendo futebol a rodos, lá ficam para trás.
Fosse isto experimentado e feitas depois todas as correcções relacionadas com as condições atmosféricas, sabendo já que todos os factores da dita correcção são falíveis e incertos, ter-se-ia uma ideia se vale ou não a pena.
É claro que essas notícias vendem jornais e espaço publicitário. Eu sei disso.
É claro que tudo isto é de uma ingenuidade gritante.
Tenho notado, no entanto, que não tem havido divulgação de suicídios na imprensa. Que eu tenha dado por isso.
Ou de carros a circular em contra-mão.
Um bom carro, em bom estado de conservação, um condutor calmo, experiente e dominador da máquina, uma estrada bem projectada e bem mantida, boas condições atmosféricas e boa visibilidade, tráfico reduzido, eis o risco reduzido na circulação.
Se em vez dos 120, pudesse rodar a 160, a 180, certamente que o poderia fazer ainda em segurança, em alguns troços e sob determinadas condições.
O busílis da questão é que quando se aumentam ou reduzem os limites de velocidade, o número de acidentes acompanha a variação.
Não vale a pena vir com isto e com aquilo, os números estão lá para contrariar.
A nossa ciência, não nos esqueçamos, é em grande parte de base estatística.
É com base em estatísticas que avança a medicina, a engenharia, a agronomia e outras disciplinas menos científicas.
O mesmo é dizer que, não se conhecendo em pormenor os mecanismos que regem determinados fenómenos, é com base na experimentação e na catalogação de resultados que se tiram prováveis conclusões.
Interessa-me hoje falar numa questão que é mais ou mais menos conhecida. E que é descrita e denominada de diversas formas. Chamemos-lhe auto-alimentação, reacção em cadeia ou outra coisa qualquer.
Observa-se que o fenómeno do suicídio parece auto-alimentar-se.
O conhecimento de um acto suicida parece despoletar em outros a mesma intenção. Há assim uma espécie de crises limitadas no tempo e que se limitam no espaço dependendo da propagação da notícia.
Já aqui referi o bizarro e tragicamente irónico caso da avenida de Ceuta, anos atrás.
De como a ampla divulgação do caso parece ter despoletado uma crise.
De como um grosseiro erro jornalístico motivou a deslocação do cenário dos suicídios, do local onde o primeiro ocorreu para o local que erradamente os jornalistas deram como tendo sido o da tragédia.
É sabido que em tempos mais remotos se tendia a esconder uma tragédia ou a sua verdadeira dimensão. Concorrendo com isto, havia também um reduzido leque de meios ao dispor da imprensa.
Tome-se o caso tão discutido das inundações de Novembro de 1967.
Ainda hoje se não sabe a extensão dos danos pessoais que causou.
Algures entre os acanhados números oficiais e os decerto empolados palpites jornalísticos, há-de estar um valor realista.
Hoje, a imprensa selecciona mais ou menos arbitrariamente as tragédias a divulgar.
Um exemplo disso é a comparação entre as reportagens dos incêndios deste ano. Comparar a divulgação dos que ocorreram durante o Euro 2004 e os que ocorreram após.
Claro que são as prioridades. Os meios não chegam para tudo, sabemos isso.
Partamos agora do princípio conjectural de que o incendiarismo é um fenómeno que pode ser auto-alimentado da mesma forma que o suicídio.
A questão que se coloca é que, a ser verdadeira esta conjectura, de cada vez que se propagandeia um fogo, se está a incutir em quem tem essa pulsão, o desejo de incendiar.
Como é que se arrumam todas estas linhas?
Da seguinte forma:
Se é certo que as estatísticas nos fornecem dados úteis para avaliar os fenómenos, porque não testar isso em alguns campos?
Se a conjectura que acima expus e que é de resto partilhada por muitos, tem alguma probabilidade de ser verdadeira, porque não pô-la à prova?
Se ao tempo da censura e do lápis azul, sucedeu uma aparente licença de tudo publicar, não haverá campo para restringir a informação em fenómenos como o do incendiarismo que, até prova em contrário, não porá em casa nenhum dos valores democráticos tão insistentemente reclamados a troco de tudo e nada?
Até porque, como se viu, nem sempre os fogos são matéria interessante. Havendo futebol a rodos, lá ficam para trás.
Fosse isto experimentado e feitas depois todas as correcções relacionadas com as condições atmosféricas, sabendo já que todos os factores da dita correcção são falíveis e incertos, ter-se-ia uma ideia se vale ou não a pena.
É claro que essas notícias vendem jornais e espaço publicitário. Eu sei disso.
É claro que tudo isto é de uma ingenuidade gritante.
Tenho notado, no entanto, que não tem havido divulgação de suicídios na imprensa. Que eu tenha dado por isso.
Ou de carros a circular em contra-mão.
16/08/2004
Mudança de ano
O pai de J. não sabia como e quando ele tinha começado a ler. Só as maiúsculas de imprensa.
Lia e escrevia, conquanto-a-escrita-se-fizesse-com-hífenes-a-separar-as-palavras-já-que-J.-não-dominava-os-espaços-entre-as-letras-e-entre-as-palavras-e-sabendo-disso-era-dessa-forma-que-separava-uma-palavra-da-outra.
Talvez que J. soubesse ler as palavras, mas decerto não lhes conhecia o significado muitas vezes.
O que é isto? O que é que quer dizer?
Nesse dia, o pai de J. lia o jornal que o fornecedor habitual acabara de lançar quinze metros no ar até à janela.
J. estava virado para a primeira e última páginas, atrás das quais o pai se escondia, e deu-lhe para perguntar porque é que o jornal era todos os dias diferente, excepto o cabeçalho e um certo número.
Qual número?
Este.
Ah, isso é o ano.
E o ano também muda?
O pai de J. não sabia como e quando ele tinha começado a ler. Só as maiúsculas de imprensa.
Lia e escrevia, conquanto-a-escrita-se-fizesse-com-hífenes-a-separar-as-palavras-já-que-J.-não-dominava-os-espaços-entre-as-letras-e-entre-as-palavras-e-sabendo-disso-era-dessa-forma-que-separava-uma-palavra-da-outra.
Talvez que J. soubesse ler as palavras, mas decerto não lhes conhecia o significado muitas vezes.
O que é isto? O que é que quer dizer?
Nesse dia, o pai de J. lia o jornal que o fornecedor habitual acabara de lançar quinze metros no ar até à janela.
J. estava virado para a primeira e última páginas, atrás das quais o pai se escondia, e deu-lhe para perguntar porque é que o jornal era todos os dias diferente, excepto o cabeçalho e um certo número.
Qual número?
Este.
Ah, isso é o ano.
E o ano também muda?
15/08/2004
A carreira
Não se pode dizer que nesse tempo o homem passasse com distinção no teste do álcool.
A verdade é que as paragens da camioneta eram tabeladas pelo gorgolejar da mini, a mão esquerda em punho sobre o balcão, o corpo a três quartos de volta, o olhar de esguelha para os passageiros embarcados, e pelo monossílabo abaladiço enquanto a mão direita compunha a bóina.
Era assim.
Mas nesse dia, depois da trovoada associada à depressão de origem térmica, o horário foi furado.
Numa das paragens saí da camioneta também. Fui à mini, tal qual o homem.
De volta à carreira, vi-o dar mais três passos do que a conta.
Quatro ou cinco homens olhavam para o chão.
Um deles atirou qualquer coisa.
Folhas de couve de chapa nove e almirantada efígie circulavam calmamente de mão em mão.
Numa poça de água, melhor dizendo num buraco cheio de água, as moedas caíam e recuperavam-se em ritmo lento.
A carreira atrasou-se uns cem escudos nesse dia.
imagem retirada de
Não se pode dizer que nesse tempo o homem passasse com distinção no teste do álcool.
A verdade é que as paragens da camioneta eram tabeladas pelo gorgolejar da mini, a mão esquerda em punho sobre o balcão, o corpo a três quartos de volta, o olhar de esguelha para os passageiros embarcados, e pelo monossílabo abaladiço enquanto a mão direita compunha a bóina.
Era assim.
Mas nesse dia, depois da trovoada associada à depressão de origem térmica, o horário foi furado.
Numa das paragens saí da camioneta também. Fui à mini, tal qual o homem.
De volta à carreira, vi-o dar mais três passos do que a conta.
Quatro ou cinco homens olhavam para o chão.
Um deles atirou qualquer coisa.
Folhas de couve de chapa nove e almirantada efígie circulavam calmamente de mão em mão.
Numa poça de água, melhor dizendo num buraco cheio de água, as moedas caíam e recuperavam-se em ritmo lento.
A carreira atrasou-se uns cem escudos nesse dia.
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